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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.4 no.9 Porto Alegre Oct. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71831998000200020 

Resenhas

LE BRETON, David. La sociologie du corps. Paris: Presses Universitaires de France, 1992. 128 p.

Stephane Malysse1  *

1École des Hautes Études en Sciences Sociales – França

LE BRETON, David. La sociologie du corps. 1992. Paris: Presses Universitaires de France, 128p.


Corpus do corpo

Em Ciências Sociais, o pesquisador tem algumas hipóteses de partida que lhe permitem não se perder nas suas numerosas observações de campo. Ele sempre precisa de um fio condutor, de algumas pistas para encostar seu caminho no campo com seus objetivos de pesquisa. A sociologia do corpo de David Le Breton vem justamente ajudar o sociólogo, bem como o antropólogo, a definir e orientar as suas pesquisas, focalizando seu olhar sobre os usos e construções sociais do corpo. Boltanski (1971) já tinha percorrido parte desse caminho epistemológico e metodológico (estudando as variações das representações sociais dos alimentos e das definições sociais da saúde), mas isso sem ampliar nem sistematizar as perspectivas de uma problemática sociológica na qual o corpo serve de “catalisador” de sentidos, de eixo central de observações. Nesse sentido, A sociologia do corpo constitui um ensaio-programa, quase um manifesto, relacionado às possibilidades de várias problematizações centralizadas no corpo dentro da Sociologia e da Antropologia.

Para delimitar várias pistas e problemáticas de pesquisa, David Le Breton aborda o tema do corpo tanto em sua materialidade (corpo fisiológico, corpo sexual, corpo sensual…) quanto através dos seus diversos imaginários (corpo midiático, simbólica do corpo, corpo e gênero…). O corpo aparece assim como “o observatório privilegiado de um contexto social particular que lhe cerca da esfera privada à esfera pública.” David Le Breton toma como ponto de partida metodológico as teses de Mauss (1950), que propôs inventariar as diversas técnicas do corpo presentes no mundo para mostrar que o corpo e os sentidos são construídos e utilizados diferentemente pelas diversas populações. A partir daí, ele se pergunta como esse “corpus” do corpo é construído e porque essas construções mudam tanto de um grupo para outro.

Como explica Le Breton no início do seu ensaio, “a Sociologia do corpo é apenas um capítulo da Sociologia, mas ligado ao estudo da corporalidade humana entendida como fenômeno social e cultural, como fonte de símbolos, objeto de representações e de imaginações. Aplicada ao imenso campo de corpo, a Sociologia pretende inventariar e compreender as lógicas sociais e culturais que se encontram na corporalidade e na gestualidade humana. Os usos humanos do corpo são reveladores de um conjunto de sistemas simbólicos e do corpo nascem e se propagam várias significações que constituem a existência coletiva e individual.” Le Breton define o corpo como eixo da relação com o mundo, o espaço e o tempo em que a existência do ator social se singulariza: “emissor ou receptor, o corpo produz continuamente sentidos, ele insere assim ativamente o homem dentro de um dado espaço social e cultural”.

Este ensaio começa com um breve histórico da Sociologia do corpo (Hertz, Mauss, Elias, Simmel, Foucault, Hall…) que questiona as ambigüidades do significado do “corpo” e as variações do seu uso etnográfico (Leenhardt, Durkheim, Bourdieu).

A seguir, ele começa a delimitar as diversas áreas possíveis de pesquisas “corporais”: ele entra no detalhe das lógicas sociais e culturais do corpo (técnicas do corpo, gestos, expressão não verbal dos sentimentos, usos sociais dos sentidos, inscrições corporais) e dos imaginários sociais do corpo (ideologia do gênero, cuidados com aparência, padrões de beleza). Nesse percurso, ele sempre faz referência às teorias do corpo bem como às observações etnográficas para demostrar claramente que o corpo deve ser observado no contexto social para poder ser considerado como “espelho do social”.

Este ensaio procura definir a “condição corporal” da vida em sociedade e mostrar como, “fabricado pelo contexto social e cultural o corpo é esse vector semântico através do qual se constrói a evidência da relação com o mundo: atividades perceptivas, expressão dos sentimentos, gestualidades e mímicas, mise en scène da aparência, jogos sutis de sedução, técnicas do corpo, malhação, higiene, suas relações com a dor e com o sofrimento físico…”

Para Le Breton, “a realidade objetiva do corpo é socialmente construída, e assim o significante corpo se torna uma ficção culturalmente operante”. A sociologia do corpo convida o leitor a um percurso em diagonal através dos campos epistemológicos da História, Etnologia, Psicologia, Psicanálise, Medicina porque “o corpo é a interface entre o social e o individual, a natureza e a cultura, o psicológico e o simbólico”.

Ao final, Le Breton insiste sobre o desenvolvimento de um olhar especializado sobre o corpo, um olhar que soubesse ver através do corpo para inventariar as diversas representações do corpo e os usos que delas decorrem. Mas ele nos avisa várias vezes que “o corpo é uma pista de pesquisa e não uma realidade em si, assim o pesquisador não deve esquecer da ambigüidade e da fugacidade do seu objeto de pesquisa e usar o corpo menos como fornecedor de certezas que como foco de pesquisa”.

Este ensaio está para a Sociologia, como os tratados de Anatomia estão para a Medicina: David Le Breton inventaria, disseca, macera as diversas partes da Sociologia do corpo para nos facilitar a entrada nesse vasto campo. Na verdade, esse livro acadêmico serve de introdução para as suas rebuscadas monografias sobre os usos médicos do corpo, os comportamentos de risco, os rostos… e o corpo na frente da tela do computador.

Referências

1 BOLTANSKI, L. Les usages sociaux du corps. Annales, v. 26, n. 1, p. 205-233, 1971. [ Links ]

2 MAUSS, M. Les techniques du corps. In: MAUSS, M. Sociologie et anthropologie. Paris: PUF, 1950. p. 365-386. [ Links ]

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Doutorando em Antropologia.

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