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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.5 no.11 Porto Alegre Oct. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71831999000200013 

Resenhas

ABDALA, Mônica Chaves. Receita de mineiridade: a cozinha e a construção da imagem do mineiro. Uberlândia: EDUFU, 1997. 188 p.

Maria Eunice Maciel1 

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

O livro “Receita de Mineiridade” de Mônica C. Abdala é mais uma contribuição para o entendimento do processo de construção de identidades no Brasil. Partindo de um caso que envolve a discussão acerca do regionalismo e tomando como foco de estudos a culinária, no caso, a mineira, procura o papel desta na constituição de uma identidade regional, a chamada mineiridade. Com seriedade e dedicação, a autora traça um quadro no qual o ato culinário é um elemento fundamental na construção identitária de uma região entre outras do Brasil pois assim como o churrasco está identificado com o gaúcho, o pão de queijo, hoje disseminado por todo o país e até no exterior, é sempre associado à figura do mineiro.

Em seu livro, Mônica C. Abdala vai procurar na história e nas relações sociais engendradas em Minas Gerais a construção de uma culinária própria que é usada para formar uma determinada imagem de Minas e do mineiro. Utilizada no discurso político, na mídia, enfim, disseminada pelo senso comum, surge uma imagem tipificada por diversos elementos, dentre os quais a cozinha. Projeta-se assim uma imagem fundada no mito da mineiridade que alimenta e é alimentada por um discurso que procura estabelecer uma determinada construção identitária relacionada com uma “maneira de ser e de agir” particular aos mineiros.

Com muita propriedade, a autora intercalou o texto com receitas da cozinha mineira as quais não apenas complementam o texto em si mas inserem-se nele de forma a compor a própria narrativa. Surge assim um estudo meticuloso e cuidadoso que é, ao mesmo tempo, agradável de ser lido, ou melhor, “saboreado”.

Ao tratar deste assunto, a autora vem enriquecer a bibliografia sobre Comida e Simbolismo, tema tão pouco explorado no Brasil mas que mais e mais atrai pesquisadores. De fato, muito mais do que o estudo de necessidades nutricionais, este tema (que abarca também condutas alimentares bem como seus problemas tais como a fome) mostra que nos alimentamos não apenas com o que está no prato.

Já foi dito “diga-me como comes e o que comes e te direi de onde vens e a qual mundo pertences” parodiando o dito de Brillat-Savarin. Juntamente com um processo em que se observa uma internacionalização das cozinhas, seja no caso dos fast-foods (onde MacDonald é emblemático), seja pela expansão de restaurantes de cozinhas consagradas (tais como a francesa, a chinesa e a italiana), seja mesmo pela transformação do exótico (como no caso do Sushi Express), vê-se a afirmação ou reinvenção de pratos regionais ou nacionais. Este processo, onde entra o gosto mas também as necessidades de afirmar quem se é (ou mesmo reafirmar-se ou reinventar-se) relaciona-se com necessidades identitárias e leva a constituições de cozinhas próprias, associadas a um determinado lugar e que não pode ser apreendida apenas por uma listagem de pratos de uma ou outra origem. Muito além da mera listagem e do recolhimento de receitas, a constituição de uma cozinha remete a pensar sobre processos mais amplos que envolvem relações sociais, familiares, formas de sociabilidade e relações de poder envolvendo identidades, representações e imaginários. O livro de Mônica explora muito bem este tema constituindo-se numa verdadeira “receita de mineiridade” e sendo também um convite para uma caminhada gastronômica e intelectual por Minas Gerais.

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