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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.6 no.13 Porto Alegre June 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832000000100004 

ARTIGOS

 

Aragarças: a cidade encantada no sertão de Goiás

 

 

Manuel Ferreira Lima Filho

Universidade Católica de Goiás – Brasil

 

 


RESUMO

Analiso aqui o espaço social da cidade de Aragarças que foi construída pela Expedição Roncador-Xingu (1942-1943) e Fundação Brasil Central, (1943-1967), contextualizadas no movimento Marcha para o Oeste, iniciada pelo governo de Getúlio Vargas. A parte Alta da cidade é a materialização no espaço das representações sociais da comunidade de memória que se formou, de modo especial, representada pelos pioneiros servidores que viveram na cidade o apogeu da Fundação Brasil Central, nas décadas de 1940 e 1950, quando foram construídas suas principais obras como o hospital, o hotel Getúlio Vargas, a olaria, o aeroporto e as pontes sobre os rios Garças e Araguaia que uniram a cidade com Barra do Garças (MT). No período, constitui-se uma grande malha área regional, militarizando o espaço aéreo do Brasil Central e Amazônia. Em oposição, existe a parte Baixa da cidade, situada às margens do rio Araguaia, que a Expedição Roncador Xingu já encontrara ocupada pelos garimpeiros e sertanejos. Compreender a fusão cidade/pioneiro é primordial para se ter acesso à cadeia de signos que produzem uma comunicação da cultura do pioneiro do médio Araguaia e suas relações sociais.

Palavras-chave: cidade moderna, Fundação Brasil Central, identidade, memória, pioneiros.


ABSTRACT

I analyze here the social space of the city of Aragarças. Built by the Roncador-Xingu Expedition (1942-1943) and Fundação Brasil Central [(1943-1967), both contextualized in the movement March to the West, begun by Getúlio Vargas's government. The high part of the city, begun in the space named by the pioneers of the 'Old Base' is the materialization in the space of the social representations from community memory that was formed, in a special way, represented by the pioneer workers that lived in the city the acme of the Brazil Central Foundation, in the decades of 1940 and 1950. Its main works were the building of the hospital, Getúlio Vargas Hotel, the pottery , the airport and the bridges on the rivers Garças and Araguaia that united the city with Barra Garças (MT). At the period, a great regional aerial mesh is constituted, militarizing the aerial space of Central Brazil and Amazônia. In opposition, exists the low part of the city placed at the margins of the river Araguaia, that the Roncador-Xingu Exedition had already found hold for the gravel washer and backwoodsman. To understand the coalition city/pioneers is primordial to have access to the chain of signs that has produced a communication of the pioneer's of medium Araguaia culture and its social relationships.

Keywords: Brazil Central Foundation, identity, memory, modern city, pioneers.


 

 

O interior do Brasil vivia solidariamente uma vida lenta, mas contínua.

Claude Lévi-Strauss

 

A pesquisa etnográfica entre os pioneiros da Marcha para o Oeste

Os dados apresentados aqui são provenientes de uma pesquisa de campo que realizei no Médio Araguaia em 1996 e em 1997 nas cidades de Aragarças (GO), Nova Xavantina (MT) São Félix do Araguaia (MT), Barra do Garças (MT), Aruanã (GO) e na aldeia Karajá Santa Isabel do Morro na ilha do Bananal (TO).

Fascinado pelos dados de campo que revelavam intrigantes narrativas dos pioneiros sobre uma disputa simbólica da memória da região e de modo especial, sobre a Marcha para o Oeste, e ainda pela décima realização da Festa do Pioneiro da Marcha para o Oeste realizada em fevereiro de 1997 na cidade de Nova Xavantina (MT), procurei concentrar minhas entrevistas nas inúmeras falas dos pioneiros e moradores das cidades citadas.

Os entrevistados podem ser divididos por categorias relacionadas aos tempos históricos presentes na região: pioneiros expedicionários, pioneiros colonizadores, pioneiros servidores, pioneiros descendentes e os novos pioneiros e finalmente as personas políticas construídas no devir histórico e permeabilizadas de construções simbólicas advindas dos quadros da memória coletiva dos pioneiros. Além destas categorias, outras aparecem com relevância nos depoimentos orais e documentos escritos que arquitetam o imaginário dos pioneiros: sertanejos, garimpeiros, heróis nacionais, presidentes, índios e bandeirantes.

Neste trabalho, recorto as falas dos pioneiros servidores da Fundação Brasil Central diretamente relacionadas com a construção da cidade de Aragarças, um bem simbólico que lhes é caro, assim como recorro a alguns textos documentais provenientes da minha pesquisa feita no Arquivo Histórico Nacional no Rio de Janeiro e Brasília, no Museu do Índio, Rio de Janeiro, e acervos de bibliotecas de Goiânia e Brasília assim como, documentos em posse dos próprios pioneiros. Também utilizo informações publicadas dos pioneiros como as do irmãos Vilas Bôas, personagens que alcançaram notoriedade pelas suas expedições ao vale do rio Xingu e Tapajós com o objetivo de contatar grupos indígenas, resultando em 1961 na criação do Parque Nacional do Xingu, decretado pelo presidente Jânio Quadros.

 

A marcha para o oeste no Médio Araguaia

A Marcha para o Oeste tornou-se pública com o discurso do presidente Getúlio Vargas pronunciado em Goiânia em 1938 (Vargas, 1942), quando ele declarou que a verdadeira brasilidade era a Marcha para o Oeste. A partir deste evento, essa torna-se gradativamente um complexo programa governamental para ocupar aquilo que na época se chamava hinterland ou os "espaços vazios" do sertão do oeste brasileiro e preparar a logística para a implantação e desenvolvimento do capital agrobusines. Este programa governamental foi operacionalizado pela realização da Expedição Roncador–Xingu (1942-1943) que reuniu um grupo de expedicionários, na maioria paulistas, que chegaram de trem até Uberlândia (MG), considerada a "boca do sertão" e, em caminhões, alcançaram às margens do rio Araguaia, no local onde um de seus afluentes, o rio das Garças, deságua, onde mais tarde seria construída a cidade de Aragarças. Deste local, os expedicionários rumaram a pé em direção ao rio das Mortes, sendo fundado aí um posto e depois a cidade de Xavantina, hoje Nova Xavantina (ver mapa). Ainda em curso, a Expedição Roncador Xingu foi incorporada pela Fundação Brasil Central, criada por decreto de Getúlio Vargas. A Fundação Brasil Central existiu desta maneira, de 1942 até 1967 e recebeu grande apoio dos presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubtischek.

No período de sua existência, a Fundação Brasil Central construiu cidades, estradas, pontes, organizou expedições ao vale do rio Xingu e Amazônia em parceria com o Serviço de Proteção aos Índios, depois com a Fundação Nacional do Índio e Força Aérea Brasileira. A Fundação Brasil Central construiu também hospitais, um hotel de luxo na Ilha do Bananal em terras dos Karajá e patrocinou várias outras atividades relacionadas com a frente de expansão pioneira no oeste do Brasil. Das cidades importantes construídas pela Fundação Brasil Central se destaca Aragarças, o objeto de análise neste artigo.

 

A urbes do oeste e a representação social do espaço

Os dados sobre a importância de Aragarças para os pioneiros ficaram mais visíveis para quando li o artigo A Linguagem das Ruas: O discurso político em dois modelos de urbanismo, de James Holston (1982, p. 176) que considera a cidade na História como "um meio de reproduzir a sociedade à imagem das metáforas politicamente dominantes. É um vasto palco de convenções retóricas envolvidas na concretização de ideologias". Por esse raciocínio, podemos considerar que a construção de Aragarças (GO) no sertão do rio Araguaia pode ser analisada como um palco de convenções retóricas, a refletir a ideologia da Marcha para o Oeste, no Estado Novo (1945-1954), e para além disso seguir um fio condutor que permite caminhar pelas trilhas da identidade dos pioneiros que a edificaram material e socialmente.

Entendemos aqui por ideologia aquela pensada por Geertz (1978: 190) que tem como função possibilitar uma política autônoma, "fornecendo os conceitos autoritários que lhe dão significados, as imagens suasórias por meio dos quais ela pode ser sensatamente apreendida".

Entre os quadros sociais da memória selecionados pelos pioneiros de Aragarças destacam-se aqueles que associam a chegada dos expedicionários da Expedição Roncador–Xingu à origem da cidade, em 1943. Trata-se, então, de uma "fronteira pioneira" (frente econômica) da fase não-capitalista se considerarmos classificação de Foweraker (1982, p. 59) em seus estudos sobre a ocupação da região amazônica.

A chegada da Fronteira1 é representada inicialmente pela frente militarizada que também tinha o caráter de fomento à economia. Foi comandada pelo ministro João Alberto, que ocupava a pasta da Mobilização (um conceito tipicamente militar) Econômica. Com os militares instaura-se um processo de controle do território, "sacralizando" os espaços da economia, das relações sociais, da visão de mundo, da religião católica, da região e nação.2

João Alberto Lins de Barro era um bandeirante do governo a negociar com o sertão a marcha de seus expedicionários que queria primeiramente alcançar o rio das Mortes e a serra do Roncador (MT). O primeiro personagem eleito das memórias dos pioneiros é Pedro Martins, um comprador de diamantes que chega com a comitiva do ministro e do interventor de Goiás, Pedro Ludovico Teixeira, por Bom Jardim, a última cidade goiana antes de se chegar ao Araguaia. Já nessa localidade, a comitiva procura o "fazendeiro do sertão", Pio da Selva Barros, como me contou o sr. Carlito,3 o pioneiro mais antigo que entrevistei, que morava em Bom Jardim (GO), uma cidadezinha bem próxima de Aragarças. Dono de muitas terras sem cercas, com muito gado, Pio Barros veio da Bahia com três irmãos, filhos de um major de patente comprada, Cícero Barros, que se instalou na região do Araguaia, como me explicou seu sobrinho paterno Noésio Barros, ex-prefeito de Aragarças. Pio Barros era dos tempos do sertão. Desconfiado, como me lembrou sr. Carlito, aquele se lembrou do confisco de seus bois pela Coluna Prestes na década de 1920, da qual o ministro João Alberto fizera parte. Duro na negociação, não aceitou parcelar o pagamento dos 286 alqueires da terra (Barros, 1944, p. 26) e só forneceu gado à expedição com a interferência de sr. Carlito.

 

 

Se na década de 1920 Pio Barros já era um fazendeiro do sertão, também na mesma época, como informa o IBGE (1958, p. 43), já havia no local uma família, cujo chefe se chamava Carola, que agregou outras famílias, formando um pequeno povoado que dependia de agricultura, caça e pesca. Ali as pessoas viviam de forma lenta e contínua, como nos povoados do interior do Brasil que impressionaram Lévi-Strauss (1986, p. 107).

Podemos, assim, dizer que o ministro bandeirante, que era militar, negociou em nome do Estado brasileiro o seu empreendimento moderno com uma realidade social notadamente sertaneja. Além do sertão, Aragarças foi construída sobre um território de perambulação dos garimpeiros, representada aqui pela presença de Pedro Martins diplomaciando a comitiva do governo. A localidade escolhida era do mesmo modo território também dos grupos indígenas Bororo, Xavante e Kaiapó. Mas, o que importa aqui é ressaltar a identificação da origem da cidade moderna com a identidade dos bandeirantes e dos pioneiros.

Construída pelos militares e expedicionários para abrigar a Expedição Roncador–Xingu e para se tornar a segunda experiência da modernidade no sertão do Brasil Central, depois de Goiânia (1933), a construção de Aragarças produziu uma divisão espacial entre os espaços ocupados na parte "Alta" da cidade pela Expedição Roncador-Xingu, Fundação Brasil Central e Força Aérea Brasileira e os espaços já ocupados na parte "Baixa" pelos garimpeiros e sertanejos.

As feições da cidade iam tomando formas devido às edificações da Fundação Brasil Central, como a olaria, as oficinas, o aeroporto, o hotel, o hospital, estes dois últimos denominados "Getúlio Vargas", e as casas dos funcionários da Fundação Brasil Central. À medida que estas construções aconteciam, os funcionários da Fundação Brasil Central introjetavam os conceitos arbitrários e suasórios de civilização e do desenvolvimento social. Por isso, os pioneiros consideram a cidade um reflexo de sua imagem e semelhança, quando dizem com orgulho que a cidade era "militar e federal", um espaço especial "encantado pela Fundação", como se lembrou a sra. Hortência Aguiar, que trabalhou na pensão da Fundação Brasil Central, ou um "reino intocável" como dissera o sr. Iraíh José Marques, telegrafista da Fundação Brasil Central.

Menina dos olhos de Getúlio Vargas e mais tarde prestigiada por Juscelino Kubistchek, a cidade recebe um intenso fluxo de militares, jornalistas, artistas, além dos próprios presidentes, Vargas na década de 1940 e Kubitschek em 1958, para inaugurar as pontes sobre os rios Garças e Araguaia. Orgulhosos por fazerem parte de um projeto de nação do governo federal, os pioneiros servidores se identificam com o projeto da Marcha para o Oeste.

A fundação de Aragarças revela atos rituais de demarcação de um novo espaço e um novo tempo, uma nova ordem de concepção sociológica e simbólica a segmentar e produzir novos espaços sob a ótica do controle do território, ou seja, orientado pelo "princípio de divisão legitima do mundo social" (Bourdieu, 1989, p. 114). É a marca de um novo tempo, que poderia acelerar a vida lenta do interior e se tornar base operacional, como explícito em vários documentos da Fundação Brasil Central, para a eficácia da expansão da frente capitalista. A "boca do sertão" teria de sair de Uberlândia (MG) e se mover para Aragarças, para depois saltar para o Xingu e em seguida para Santarém (PA), enfim na Amazônia. É seguindo esse conjunto de idéias que devemos considerar a fundação de Aragarças e buscar entender quais os significados decorrentes disso, tendo sempre em vista os pioneiros como alvo de discussão.

A instalação da "Base Velha" (um primeiro acampamento dos pioneiros) delimitou inicialmente uma ocupação militar com a construção dos ranchos próximos a um córrego, já separando a casa do coronel Flaviano Matos Vanick, homem de confiança de Getúlio Vargas, chefe da Expedição Roncador Xingu e uma grande quantidade de armamentos, o almoxarifado e os ranchos para os expedicionários. Nos seis meses em que ficaram acampados próximo ao córrego e antes de iniciarem a marcha em direção ao rio das Mortes, os expedicionários construíram as edificações da "Base Velha", como nos informam os Villas Bôas:

Barra Goiana, à margem direita do Araguaia, fronteava com sua irmã cuiabana do outro lado do rio, bem na foz do tributário do Garças. A Expedição começou assentar base na primeira, e surgiam as construções para atender os serviços: administração, almoxarifado, ambulatório, escritório, alojamento, moradias. Mais uma olaria e uma serraria, obras imprescindíveis. A base que ia se tornando permanente, vivia praticamente em torno dos trabalhos de instalação. Correram seis meses até a partida do primeiro escalão da Expedição [...]. (Villas Bôas; Villas Bôas, 1994, p. 29).

Além de todas essas construções, os expedicionários fizeram a pista de pouso para aviões, que tem uma significância simbólica importante e que analisaremos adiante.

Nesta ação do homo faber da Fronteira, foram construídos o Marco Zero,4 a instalação de um cruzeiro e uma missa campal:

Depois de confeccionado um cruzeiro de madeira de lei pelos carpinteiros Pedro Clemente e João Batista do Nascimento, sob a orientação do coronel Vanique e do ministro João Alberto, foi escolhido um local no qual seria designado com aquele cruzeiro o início da jornada ou o Marco Zero. No dia 10 de setembro de 1943, às 10 horas, depois de rezada uma missa de ação graças pelo vigário Vitório Lovato, italiano, capelão de guerra, salesiano, sediado em Araguaiana. (Varjão, 1989, p. 77).

Nota-se que, inserido no processo que chamei de sacralização dos espaços pelos militares, abre-se um outro espaço simbólico caracterizado pelo sagrado: a missa, o cruzeiro e, mais tarde, a construção da igreja de São Judas Tadeu. Atos rituais de há muito ligados à fundação de cidades,5 como a fundação de Roma e os ritos etruscos relacionados ao evento (Coulange, 1996, p. 106; Rouanet, 1997, p. 6).

Ritualmente demarcados, podemos caracterizar dois conjuntos de espaços sociais com a chegada da Expedição Roncador-Xingu, fazendo-me lembrar novamente o pensamento de Bourdieu (1989, p. 138) de que "falar de um espaço social é dizer que se não pode juntar uma pessoa com outra pessoa qualquer, descurando as diferenças fundamentais, sobretudo econômicas e culturais". Assim, se estabelece de princípio uma divisão entre expedicionários e servidores da Fundação Brasil Central, de um lado, contra os garimpeiros e o mundo de sertão de outro. Não há dúvidas de que tal divisão está relacionada com o trânsito do poder, porque:

O único fator material indispensável para a geração do poder é a convivência entre os homens. Estes só retêm o poder quando vivem tão próximos uns aos outros que as potencialidades da ação estão sempre presentes, e, portanto, a 'fundação das cidades' que, como as cidades estados, converteram-se em paradigmas para toda a política ocidental, foi na verdade a condição prévia material mais importante do poder. (Arendt, 199, p. 213).

Assim, Aragarças começa se dividindo na parte da cidade do "aqui em cima" e a cidade do "lá embaixo". Na parte do "aqui em cima", que passarei a chamar parte "Alta" estavam os militares, os expedicionários e as construções da Fundação Brasil Central. A parte do "lá de baixo", que passarei a chamar parte "Baixa" estavam os garimpeiros, os sertanejos, o comércio e a diversão (prostituição).

Na década de 1950, o presidente da Fundação Brasil Central, Arquimedes Pereira Lima, muito evocado pelos pioneiros, encomendou um plano urbanístico justificado por ele no seguinte texto, que nos dá boas pistas de análise:

Aragarças , em 1943, quando ali acampou a Expedição Roncador-Xingu, era um despretensioso garimpo. De cerca de 50 palhoças se compunha a urbs desengonçada de barro, a "corrutela" incipiente de construções rudimentares, habitada por uma população heterogênea, de garimpo e faiscadores. A Expedição, sob o comando de João Alberto, era a vanguarda da "Marcha para o Oeste", ordenada pelo presidente Vargas. Substituiu-a, mais tarde, a Fundação Brasil Central, que veio dar consistência e assegurar continuidade aos objetivos da "Marcha". "Com as atividades em maior escala da Fundação, o primeiro garimpo sofreu notável transformação. Sem perder de todo sua feição típica, evoluiu entretanto rapidamente. Tornou-se a base principal da Fundação, o centro de onde irradiam, notadamente para o Norte, as atividades de pioneirismo da entidade que se propõe desbravar e povoar o sertão". Foi tal e de tal modo rápido o crescimento de Aragarças, que o estado de Goiás concede-lhe prerrogativas de distrito e, um ano depois, já o nascente povoado, como sede de município conquistava foros de "cidade". A iniciativa particular, antes inexistente, acompanha hoje a atividade da Fundação. Sente-se para breve um irreprimível surto de construções com probabilidade de superar a iniciativa pública. Verdadeira onda migratória está a caminho da nascitura urbs do Oeste [...]. Dali, das margens do Araguaia, onde está sendo erguida esta moderna cidade, marco imperecível dos destinos do Brasil, partirão muito em breve, segundo as pegadas heróicas de nossas bandeiras, verdadeiras vagas humanas que devassarão os revessos do país, levando ao fundo das florestas silenciosas a impulsão mística do ideal que anima os homens da Fundação Brasil Central: apagar definitivamente das cartas do Brasil [...] a legenda ignominiosa 'regiões desconhecidas' que constituiu um desafio e uma humilhação para os nossos foros de nação civilizada. [...] Daí o ter merecido a mais jovem cidade do Brasil as honras de um plano de urbanização como bem poucas cidades do país possuem igual. (Lima, 1962, p. 5-7).

Soma-se a esse discurso do presidente da Fundação Brasil Central na década de 1950, uma observação muito interessante dos arquitetos que construíram o plano de urbanização da cidade:

[...] "na parte baixa da cidade" existe um aglomerado de construções onde vivem atualmente cerca de oitenta por cento dos habitantes de Aragarças. Aí se situa todo "o comércio local, centro de diversões com alta condensação demográfica, com prédios geminados e dispersos em alinhamentos irregulares" [...]. Embora no futuro esse bairro venha a carecer de importância, "será sempre um elemento tendente a deslocar o centro de gravidade da cidade, visto que por ter proximidade da ponte" e por constituir traço de união entre o bairro popular e o centro da cidade. (Lima, 1962, p. 38-40).

Desses dois textos podemos retirar elementos que ajudam a visualizar um retrato espacial da identidade dos pioneiros desse período, em contraposição aos contextos culturais já existentes como o garimpo e o sertão.

Os arquitetos previram na análise dos espaços da cidade, aquilo que já se processava no campo simbólico. A parte "Baixa" da cidade, o espaço do garimpo e do sertão, seria de fato a força social e política a deslocar o 'centro' da cidade. Ele seria, assim, o centro das decisões, nessa época plenamente reivindicada e assumida pelos pioneiros servidores da Fundação Brasil Central, que moram na parte "Alta", próxima espacialmente das obras construídas pelo coronel Vanick e ministro João Alberto, como a Base Velha, o aeroporto, a olaria, o hotel e o hospital como, atesta o sr. Iraíh José Marques:

[...] Aragarças girava em torno da Fundação Brasil Central, era "a área toda, a cidade toda era da Fundação, o patrimônio urbano", não é ?

A "parte" da Fundação Brasil Central, do ponto de vista dos pioneiros, representava o "todo". Por esse raciocínio, o sertão, o garimpo, enfim os "Outros", e tudo relacionado a eles, deveriam ser englobados pela Fundação, que era metonímia do Estado, do poder, do civilizado e da modernidade.

A parte "Alta" não se restringia à comunidade de servidores da Fundação Brasil Central. Sua missão simbólica era grandiosa, como deixa claro o texto de Arquimedes Pereira Lima. A fundação de Aragarças, a cidade da Fronteira, tinha um objetivo revolucionário. O Marco Zero era como um cristal de múltiplas faces, compostas por uma frente evangelizadora ritualmente marcada pela missa e pelo cruzeiro; uma frente de civilização, reencenando a saga dos bandeirantes paulistas; uma frente demográfica, porque a cidade deveria abrigar "verdadeiras ondas migratórias", vagas humanas que devassariam os reversos e acabariam com os vazios do país; uma frente de expansão econômica, a banir a rudimentalidade do garimpo e induzir os homens às iniciativas privadas, já que no Brasil Central talvez se encontrasse "o maior empório de gado no país" (Barros, 1945, p. 33) e, por fim, uma frente militar, representada pelo Exército, os expedicionários e a Força Aérea Brasileira. Sinais espaciais que revelam valores e poderes:

Não é, pois, por mero acaso que sinalizamos os espaços urbanos que se pretendem eternos como os palácios e igrejas, mercados e quartéis; ou seja, tudo aquilo que representa a possibilidade de emoldurar a vida social num sistema fixo de valores e poder. (Da Matta, 1991, p. 41).

Aragarças era, portanto, a nova "boca do sertão", o novo ponto de apoio da Marcha para o Oeste. Seu traçado previa dois eixos principais que se bifurcariam a partir do Cruzeiro, do Marco Zero, numeral que sugere que antes não havia nada ou, se havia, era negativo: um eixo seguiria para o "Norte", atravessando o Araguaia, apontado para onde a Fronteira devia seguir, e o outro para a parte "Baixa", próximo à foz do Araguaia com o rio Garças (Fundação Brasil Central, 1945), onde, em 1958, JK inauguraria a ponte que ligaria a cidade com Barra do Garças.

A presença de um novo ponto cardeal é significativa. Da cidade se rumaria para o Norte. Um dos rumos que se podia tomar a partir da bifurcação existente no Marco Zero e no Cruzeiro. Portanto, é como se o "Oeste" já fosse ali, materializado pela cidade em plenitude. Os cuidados que cercaram sua construção, como o levantamento aéreo, o planejamento urbano, o aeroporto, um hotel pomposo para a época, um hospital regional, além de oficina, rede elétrica e olaria e de toda a propaganda que o Estado Novo fazia questão de fazer sobre a cidade, trazendo para lá jornalistas e artistas, demonstram que, simbolicamente, Aragarças significava a chegada da franja litorânea ao sertão. O sertão virava mar! Era como se a cidade fosse um ato de reprodução simbólica da cidade de São Paulo fundada pelos bandeirantes, agora expedicionários da Roncador-Xingu, ou mesmo representados pelos estudantes da escola Mackenzie de Engenharia (SP), que coordenados pelo engenheiro e jornalista Manoel Rodrigues Ferreira, deixaram no Marco Zero da cidade uma placa de bronze no ano de 1945 (Diniz,1996, p. 88). Do mesmo modo, Aragarças tinha igualmente uma íntima ligação com o Rio de Janeiro, o centro do poder. O ministro João Alberto e o coronel Vanique possuíam livre trânsito no Palácio do Catete, que recebia por intermédio do ministro as primeiras amostras dos mamões vermelhos de "15 kilos" produzidos em Aragarças (Diniz, 1996, p. 48). Isso também fica patente pela própria presença dos presidentes Getúlio Vargas e mais tarde Juscelino Kubistchek, além do fato de que havia um fluxo regular de vôos que dali partiam ou que chegavam do Rio de Janeiro.

Duas cidades da modernidade, poder e civilização, se faziam presentes na construção de Aragarças. A parte "Baixa" na ótica de Arquimedes Pereira Lima, seria transformada, texto que novamente reproduzo:

[...] com as atividades em maior escala da Fundação, o primeiro garimpo sofreu notável transformação. Sem perder de todo sua feição típica, evoluiu entretanto rapidamente. Tornou-se a base principal da Fundação, o centro de onde irradiam, notadamente para o Norte, as atividades de pioneirismo da entidade que se propõe desbravar e povoar o sertão.

Pelo texto, o garimpo seria encapsulado pela modernidade da cidade de Aragarças, mas sem perder sua feição típica. A etnogênese de Aragarças foi o garimpo, que deveria evoluir aos patamares da civilização que a construção da cidade representava. A parte "Alta" deveria incluir, resgatar a parte "Baixa", contudo transformada. Em outras palavras, a cultura deveria transformar a natureza. Sertão e garimpo, assim redimidos pela Fronteira, agora num mesmo projeto de nação, contaminariam outros sertões, outras culturas, plantando brasilidade nos espaços "vazios" do país.

Assim, nesse período esfuziante de construções e de eventos da Fronteira, nota-se uma clara hierarquia espacial e de valores definindo um quadro de oposições. Na parte "Alta" estão a cultura, o sagrado, o espaço fechado, militarizado, do céu dos aviões, do centro do poder, das casas padronizadas da Fundação Brasil Central. Na parte "Baixa" encontram-se o profano, a diversão, o aberto, o garimpo, a pobreza das casas dos sertanejos, o desalinho das casas, a primitividade e da natureza inseridos nos seguinte pares de oposição:

 

 

Espaços simbólicos, categorias do pensamento diria Durkheim, materializando uma topografia como quis Halbwachs (1990); a traduzir relações sociais como comprovou, por exemplo, Renato Ortiz (1991), ao estudar a evolução da cidade de Paris.

Escolho um dos pares de oposição para caracterizar a fatia do tempo selecionada pelos pioneiros e que expressa muito bem esse estado de correspondência entre os pioneiros e a expressão da Fronteira a demarcar um novo tempo social: céu (aeroporto) X água (rio).

 

A ocupação aérea

O tempo anterior era do ritmo das águas. Da vida lenta do interior, embalada pelo correr do rio que lhe dava sustento com o peixe, as roças das vazantes e os diamantes dos garimpos. O tempo mesmo dos pioneiros expedicionários e colonizadores era orientado pelos rumos dos rios Araguaia, Pindaíba, Mortes, Xingu, Kuluene, Tapajós. Tempo das embarcações e das canoas que desconheciam, na região, a aceleração crescente do tempo das ferrovias (Hardman, 1991; Ortiz, 1991) e tendo de conviver de forma abrupta com o tempo dos aviões. O tempo deu um salto exponencial, impondo repentina velocidade6 no mundo do sertão.

Como disse Ortiz (1991, p. 222) "Os homens estavam acostumados a transitar no interior de um continuum espacial a uma velocidade que os integrava à paisagem". A Fronteira, aqui setorizada pela construção de Aragarças, rompe com esta descontinuidade. A velocidade impõe o princípio da "circulação" estruturante (Ortiz, 1991, p. 195) da modernidade. Circulação de pessoas, as vagas migratórias de Arquimedes Pereira Lima, do bem-estar do indivíduo pelo acesso à medicina da capital do país, dos bens da economia, como as matrizes e reprodutores de gado povoando os postos da Fundação Brasil Central, dos remédios, dos cigarros, dos alimentos jogados dos aviões para as frentes expedicionárias. É o tempo dos aviões que deixam para trás as trilhas dos carros de boi e a zinga das canoas.

A Fronteira aqui se caracteriza pela ocupação definitiva do espaço aéreo regional do interior do país. Os campos de pouso construídos pelos expedicionários da década de 1940 e 1950 se modernizam e são incorporados definitivamente à estrutura militar da FAB.

É construída uma malha área regional que os pioneiros recitam com o estalar dos dedos, evocando a presença do capitão da Aeronáutica Antônio Eugênio Basilio, que ficou à disposição da Fundação Brasil Central, que contava com três aviões: um bimotor Focker Wulf e outros dois Fairchild. Além dos três aviões da Fundação Brasil Central, foi criada uma linha normal do Correio Aéreo Nacional, que saía do Rio de Janeiro com escalas em Lambari e Uberlândia, em Minas Gerais, Caiapônia e Aragarças, em Goiás, e Xavantina, no Mato Grosso. Como apoio para este tráfego aéreo, o Ministério da Aviação autorizou a implantação de estações de rádio da Fundação Brasil Central nas cidades mencionadas, além de Santarém, São Paulo, Goiânia, Uberaba, Campo Grande, Corumbá, Cuiabá e Rio de Janeiro.

Os campos de aviação construídos pelas expedições7 da Fundação Brasil Central se integraram à estrutura da Força Aérea Brasileira até se unirem à Base Aérea de Belém e, assim, deram suporte às linhas áreas internacionais, como exemplo entre o Brasil e os Estados Unidos.

Os pioneiros elegem o período referido para destacar de suas narrativas os atos de heroísmo dos pilotos, ao pousar em lugares difíceis, e por ser um elemento de ligação entre os bens da cidade e a turma dos pioneiros que estavam nas frentes de trabalho, como no rio da Mortes, rio Kuluene, ou Xingu.8 Esta apreensão simbólica do tempo dos aviões pelos pioneiros lembra os estudos de cargo cult na Melanésia (Worsley, 1970). Os pioneiros enfeixam um tempo acelerado em suas vidas. Os aviões representavam a modernidade que se instalara na parte Alta, como me relatou um dos pioneiros:

O CAN (Correio Aéreo Nacional) famoso, aqueles C-47, uns extraordinários aviões da época não é? Aqueles aviões. Nós tínhamos comunicação com o resto do Brasil principalmente Rio–São Paulo. Toda semana nós tínhamos jornais, nós tínhamos revistas, nós tínhamos luz elétrica, nós tínhamos escolas, enquanto a maioria das cidades... Barra do Garças, por exemplo não tinha naquele período ainda isso. (Iraih José Gomes).

[...] eles fizeram um campo até muito bem [...] que hoje é asfaltado [...] mas era bem cascalhado, era cascalho. Mas avião grande aí, avião de grande porte chegou a pousar, é o CAN, Cruzeiro do Sul, teve aquela outra companhia PANAN [...] Então aqueles aviões militares vinham da FAB, vinham também aqueles aviões grandes, aqueles CAN que carregavam gente, aqueles doentes [...] iam para o Rio e outros para Goiânia para tratar. (Francisco Sales, Chico Padeiro, Aragarças).

Depois dos tempos áureos e aéreos das décadas de 1940 e 1950, Aragarças entra num franco processo de declínio urbano e social. O turning point da crise veio com a extinção da Fundação Brasil Central em 1967 e a aposentadoria compulsória ou transferência de vários funcionários para outros órgãos federais.

A crise abate os pioneiros, como testemunharam os próprios pioneiros e o antropólogo Roque de Barros Laraia, o professor José Quintas e professora Leda Del Caro, todos da Universidade de Brasília que manteve um campus avançado em Aragarças e Xavantina. Leda Del Caro afirmou: "Aragarças é uma população que só vive de envelhecer".

A metanarrativa construída pelo Estado e de maneira especial nesse período histórico sustentada plenamente pelos pioneiros e que articulou as noções de nação, civilização e em preencher de modernidade os espaços, se fragmentou com a "crise". Desabava, assim, sobre a vida dos pioneiros o background ideológico que dava sentido às suas ações, e que os inspirava a serem heróis e que lhes ancoravam no tempo e no espaço da Fundação Brasil Central. A solidez, que supunham eterna, da instituição que os abrigou e os ideais da Fronteira postos em prática pelo programa da Marcha para o Oeste e desmancharam no ar. Pensamento que pode ser exemplificado a partir da fala do sr. Antônio Pernambuco, e do sr. Iraih José da Silva, ambos pioneiros servidores da Fundação Brasil Central e moradores da cidade de Aragarças.

Hoje quem tá passando no asfaltinho de cento e vinte para cento e cinqüenta, não tá lembrando quem foi que arrancou o toco daquilo ali, para poder passar o asfalto não. Essa estrada não caiu do céu não ? Hoje ninguém dá valor. Hoje ninguém dá valor, ninguém dá valor! (Antônio Pernambuco In Chaves, 1994).

Parece que o funcionário público hoje é o vilão da História não é? Eles não vão atrás dos corruptos, mas ficam procurando só o funcionário que já não ganha nada, não faz nada, eu tenho a impressão que vão extinguir essa função de servidores públicos federais [...]. (Iraih José da Silva).

Dois pioneiros que fazem a leitura do presente "desvalorizado" com a lente de um passado qualitativo, quando arrancar o toco da estrada e ser "funcionário público federal" eram situações dignas de reconhecimento.

Desvalorização que impulsiona os pioneiros a congelar um tempo histórico e preservá-lo, para que ele cristalizasse a origem referencial de um ethos pioneiro que os uniu como uma família; de um tempo solidário, de pronto atendimento no hospital sem filas, nas facilidade de viagens áreas gratuitas para o Rio de Janeiro e outras localidades, das festas do Hotel Getúlio Vargas, com o ritmo de Jackson do Pandeiro e Emilinha Borba como relataram estes pioneiros servidores da Fundação Brasil Central:

Fundação foi boa demais, eu digo mesmo, eu digo e não peço segredo. (João Pinto da Luz, S. Joca, Aragarças)

O tempo bom que não volta mais! Que hoje eu estou com sessenta anos, minha vida passei todinha na Fundação e hoje não tem mais jeito. Sempre eu falo com eles: seja unidos, não desunidos! (Geraldo Rodrigues da Cunha, Aragarças).

A parte "Alta" da cidade, a "reserva" da Fundação, torna-se assim uma cidade-museu no campo das representações da memória coletiva. A "cidade de igualdade" de oportunidades para todos produziu o isolamento e "as dificuldades de usufruir as vantagens modernas pelas quais seus habitantes foram seduzidos" (Bomeny, 1991). Enquanto isso, a vida corria "lá fora" com as contínuas transmutações das frentes da Fronteira, retrabalhando espaços residuais de outras frentes do passado, seguindo rastros de bandeirantes de outrora, preparando a chegada das grandes fazendas de Barra do Garças (MT), os colonos do Sul e os agrobusines representados principalmente pelas fazendas de engorda de gado, pelos frigoríficos e a produção do arroz e da soja.

Mas "lá fora", na cidade de "Baixo", estava também uma outra coletividade: os garimpeiros e sertanejos nordestinos, em especial os baianos, que, como numa articulação tácita, assumem a política local pela ocupação do cargo de prefeito. Durante a crise da Fundação Brasil Central, e quando a cidade começou a envelhecer é justamente quando Barra do Garças começa a se desenvolver com os incentivos da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia , a sofisticação do agrobusines e a colonização gaúcha, na década de 1970. O "centro" do poder e das decisões, como previram espacialmente os arquitetos, se desloca para a parte "Baixa", para o garimpo e para o sertão, próximo da ponte, próximo de Barra de Garças, que em seu rápido desenvolvimento teve como chefes políticos pessoas com ascendência no garimpo e no sertão, transfiguradas em fazendeiros. Um deles, com dupla ascendência, garimpo e sertão, e de forte influência política me explicou:

Aragarças viveu sob o paternalismo. Um paternalismo muito grande. Vivia às custas da Fundação. Todo mundo era empregado, não sei o que. Vivia de paternalismo. Precisava [...] amanhã é distribuição de leite, todo mundo ia lá receber; hoje é distribuição de cesta básica, todo mundo ia receber; hoje é distribuição de não sei o quê, hoje é distribuição de remédio. Então o povo se acostumou com aquele paternalismo. É uma cidade que não tem nenhum [...] não formou lideranças políticas. [...] Aqui não. Aqui era diferente,. Do lado de cá você tinha que se virar, trabalhar para poder subsistir senão [...].

Assim, além do concreto da ponte a ligar a parte "Baixa" com Barra do Garças, há também uma ponte simbólica que faz a parte "Baixa" perfilar-se com Barra do Garças, em oposição à parte "Alta" e à Fundação Brasil Central. A parte "Alta" pára no tempo, e enquanto a parte 'Baixa' unida a Barra do Garças dão saltos de prosperidade econômica (fazendas) e de condução do poder (política). A mesma Fronteira que criou a hierarquia também a inverteu, como expressa a fala magoada de um pioneiro sobre a atitude de um prefeito de Aragarças a respeito das construções da Fundação Brasil Central:

Esse Hotel ele vendeu para os... não sei se vendeu ou se deu para os índios [Fundação Nacional do Índio], aquele Clube dos Lojistas deu, vendeu para Barra do Garças, tudo que é daqui de Aragarças quando ele foi prefeito, passou para mão desse povo da Barra do Garças.

Se tudo girava em torno da Fundação Brasil Central como me disse o sr. Iraíh, com a crise tudo passou a girar em torno do outro pólo estabelecido: a parte "Baixa = Barra do Garças", agora partes "Baixas". Equação construída pelas representações sociais como um espaço único, e não dividido pelos rios Araguaia e Garças. A divisão entre a parte "Alta"' e as partes "Baixas" é demarcada pelo aeroporto da cidade que, como setenciaram os Arquitetos (Fundação Brasil Central, 1962), impediu o plano de expansão da cidade em direção ao rio Araguaia. Mais uma vez, aquilo que lhe deu tanto prestígio era obstáculo de desenvolvimento. E, assim, retomo a reflexão de Holston (1982, p. 176):

[...] a arquitetura não é apenas um reflexo da sociedade. Ela é, também, uma forma eficaz do político. A exposição da ordem arquitetônica constituiu um tipo de pedagogia que interpreta a estrutura de forças sociais e políticas. Ao mesmo tempo, ela preserva esta interpretação, fixando-a em pedra.

A inversão de situação social, materializada nos arranjos espaciais da parte 'Alta' e partes 'Baixas', é proveitosa para compreendermos o terreno sociológico por sobre o qual a identidade dos pioneiros está direcionada. Essa inversão espacial e de valores pode ser relacionada com a compreensão da categoria tempo. A mobilidade da Fronteira acompanhou os rastros dos aviões e suas velocidades multiplicadas pelas tecnologias supersônicas. Os pioneiros ficaram nas velocidades dos Fairchild, dos C-47, dos Focker Wulf. Aragarças retoma os tempos do "rio", enquanto os aviões, ainda símbolo de status e poder, descem agora nas grandes fazendas, do outro lado do Araguaia, dos fazendeiros, de outros garimpeiros do Mato Grosso e do Pará.9

Como disse Ortiz (1991, p. 224), "a velocidade acarreta uma fluidez e uma redução dos objetos; eles tornam-se panoramas, imagens." A velocidade do tempo da Fronteira passou por Aragarças e reduziu a cidade numa imagem emoldurada pela memória dos pioneiros. O tempo, que os engrandeceu e lhes deu poder um dia, deixou-os para trás. E isso ficava cada vez mais visível pelo contraste do progresso de Barra do Garças. Agora, negociam migalhas desse tempo para "re-centralizarem" suas vidas no tempo presente. Presos pela camisa de força do tempo, a situação dos pioneiros de Aragarças se assemelham à analisada por Canevassi (1993, p. 98) que recorreu a uma poesia de Baudelaire para falar de Paris, também cidade símbolo da modernidade: "[...] os habitantes se transformam em vencidos, em prisioneiros, em exilados. O cidadão moderno se percebe como estranho. A cidade contada para ser denegrida: como um instrumento retórico voltado para a saudade."

Por fim, o tiro da Fronteira que armou Aragarças saiu pela culatra, atingindo-a. E, como num processo reativo de nova situação espacial e temporal, os pioneiros buscam incorporar as perdas e coletar possíveis ganhos, tentando fazer da descontinuidadade imposta um novo continuum existencial. O caminho escolhido foi o da Memória e do Patrimônio, que os insere no compasso do tempo presente. E é interessante que, ao formar uma comunidade de memória que não nega a etnogênese da Fronteira, ela também resgata um mundo relacional da cidade do interior. É como se dissessem que se deixaram enganar pela propaganda da vida individual e moderna produzida pela Fronteira e retomam noções como "somos uma família" ou "a Fundação era unida", para instaurar um processo, que Simmel (1979, p. 19) associou à cidade pequena, de "desindividualizar-se".

Ao "desindividualizar", tornam-se coletivos. Mas este processo de retomada da identidade pelos pioneiros não poderia ficar restrito ao mundo etéreo, das divagações. Uma outra categoria centralizaria esta reconstrução da identidade no campo das relações sociais mesmo, pois, como afirmou Arendt (1991, p. 213) o que mantém as pessoas unidas depois do "momento fugaz da ação", e as leva a se organizarem em associação é o poder.

O poder é o objeto do desejo retrabalhado em Associação, a dos Pioneiros da Marcha para o Oeste, o que permitiu aos pioneiros de Aragarças e Nova Xavantina, a re-centralização de suas vidas, de suas identidades, e, mais do que isso externalizando-as por meio de uma festa: a festa da saudade e do poder, que eles realizam anualmente onde Aragarças sempre será lembrada como a cidade pioneira, a cidade moderna, encantada no sertão de Goiás, orgulho dos pioneiros da Marcha para o Oeste.

 

Referências

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1 Uso a expressão Fronteira de modo mais amplo representado por suas diversas frentes econômica, militar, religiosa, étnica etc...
2 Percebe-se, assim, que uma "ordem constituída" se consolidava desde então, e a ameaça de sua fragmentação é afastada mais tarde pelo golpe militar de 1964, ganhando o nome de Segurança Nacional.
3 O sr. Carlito, na verdade, se chama Carlos Bernardes. Nasceu em 1908 e conhece a região desde 1927, instalando-se na cidade de Bom Jardim no ano de 1941. Trabalhou na empreitada da construção dos ranchos para a Expedição Roncador–Xingu. Trabalhou também na Fundação Brasil Central, mas por um curto período.
4 Conexão clara com o marco zero da cidade de São Paulo, local de onde saíram os bandeirantes para o interior do Brasil.
5 Sobre as idéias relacionadas com a origem das cidades, ver Benevolo (1997).
6 Sobre modernidade e velocidade ver ainda o artigo de Ribeiro (1992).
7 Além da Expedição Roncador-Xingu, a Fundação Brasil Central organizou outras expedições como a Expedição Xingu-Teles Pires nos anos de 1948 e 1949 que foi chefiada por Orlando e Cláudio Villas Bôas que tinham como objetivo chegar até a serra do Cachimbo no Pará e a Expedição de Jacareacanga de 1949, também no Pará, chefiada pelo engenheiro Frederico Hoepeken (Meireles, 1960, p. 32-36).
8 A presença dos aviões neste período de formação da cidade é tão presente na memória dos pioneiros que eles rapidamente associam a história da cidade à aviação, como foi o caso da tentativa de golpe ao governo de Juscelino Kubitschek, quando os coronéis da Aeronáutica João Paulo Moreira Burnier e Haroldo Veloso escolheram Aragarças, em 1957, como ponto de estratégia para a operação que acabou sendo mal-sucedida. Os revoltosos foram presos pelo Exército no aeroporto da cidade. O fato ficou conhecido como o “Levante do Araguaia” (Benevides, 1976, p. 285; Miguez, 1996, p. 131, 132). O mesmo ocorreu com a Guerrilha do Araguaia, nem meados do anos 60, quando um avião dos guerrilheiros foi derrubado no aeroporto da cidade. Partes desse avião foram transformadas em um bar, incorporadas simbolicamente pela cidade. Bar que tive oportunidade de conhecer em 1979 e que não mais existe.
9 Não é por acaso que um dos empresários mais bem-sucedidos do país no campo da aviação regional, proprietário da TAM, começou como piloto de avião nos garimpos e fazendas de Mato Grosso e Pará.

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