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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.7 no.16 Porto Alegre Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832001000200006 

ARTIGOS

 

A mística do Pirarucu: pesca, ethos e paisagem em comunidades rurais do baixo Amazonas

 

 

Rui Sérgio S. Murrieta

Universidade de São Paulo - Brasil

 

 


RESUMO

Este artigo é uma análise das práticas e significados que permeiam a pesca do pirarucu nas comunidades rurais da Ilha de Ituqui, no Baixo Amazonas, Pará. O pirarucu é o maior peixe de escamas da Amazônia e também um valioso produto de mercado devido ao seu papel privilegiado na culinária local. A pesca do Pirarucu é uma das atividades mais antigas no Baixo Amazonas, remontando a tempos pré-coloniais. Para os pescadores que habitam a ilha de Ituqui, a captura do pirarucu pode representar não apenas o retorno econômico garantido de uma jornada de trabalho, como também revestir-se de uma série de significados e vivências ontologicamente estruturadas no dia-a-dia e na identidade dos pescadores. Conflitos sociais e disputas pessoais são intensificadas ou reduzidas, afeições são confirmadas e laços sociais refeitos através das práticas e encontros vivenciados durante uma viagem de pesca aos lagos próximos. Além da prática em si, tais viagens tornam-se referências mnemônicas e afetivas da paisagem, do evento de captura e do próprio sentido de lugar; resultando numa unidade processual conectada a muitas esferas pessoais e sociais de significado, as quais são de difícil compartimentalização. No meio de tantos aspectos motivadores, disputas e pescarias "irracionais" acontecem em Ituqui. Locais de pescaria são possessivamente guardados e "fronteiras territoriais" sutilmente estabelecidas entre comunidades e famílias. O direito ao recurso e, por extensão, aos significados e emoções que ele incorpora, torna-se um luxo ferozmente protegido por alguns. O decréscimo da população de pirarucus, as novas tecnologias de pesca, a alta demanda do mercado pelo peixe e a "mística" que ainda permeia a captura do animal colocaram muitos pescadores num dilema em que a sobrevivência desta atividade parece colidir com o que os desenvolvimentistas e ambientalistas chamam de "racionalidade" da conservação.

Palavras-chave: Amazônia, natureza, paisagem, pesca, pirarucu.


ABSTRACT

This article aims to analyze the practice and meanings that permeate pirarucu fishing in rural communities of the Lower Amazon, State of Pará, Brazil. The pirarucu (Arapaima gigas) is the largest scale fish of Amazonia and is also an important market product, due mainly to its privileged role in the regional cuisine. Pirarucu fishing is one of the earliest human activities of the Lower Amazon, dating back to pre-colonial times. For many fishermen who live on Ituqui Island, catching a pirarucu represents more than a economic security, but also a set of meanings and experiences ontologically structured in their everyday life and identity. Social conflict and personal disputes are intensified or lightened, and old affections and social ties are reinforced through the practices and encounters experienced during a fishing trip to one of the nearby lakes. Beyond the practice per se, these fishing trips trigger mnemonic and affective references to the landscape and the momentum of capture, and the sense of place, resulting in a processual unity intimately connected to personal and social meanings that cannot be compartmentalized. In the midst of so many motivations behind pirarucu fishing, aggressive disputes and irrational captures may take place. Fishing spots are kept secret and territorial bonds are protected. Rights to this resource and, by extension, over the meanings and emotions to which it is connected becomes, to a certain extend, a luxury aggressively protected by some. The decrease of the pirarucu stocks, new fishing technologies and the great demand and "mystique" still surrounding its capture have posed a dilemma to the fishermen: the survival of the pirarucu "fishing" collides with what the environmentalists have called the rationality of conservation.

Keywords: Amazonia, fishing, landscape, nature, pirarucu.


 

 

Introdução

Poucos lugares no mundo são tão identificados com a sua natureza quanto a Amazônia. Uma natureza que toma dimensões míticas no imaginário popular, povoando-o de paisagens espetaculares de rios e florestas colossais habitados por homens "primitivos" e animais "quase-pré-históricos"; todos vivendo num estado "congelado" de perpétua harmonia com o ambiente que os rodeia. Muito embora estas imagens fáceis tenham sido gradualmente desmistificadas nos últimos anos, o apelo edênico (ou demoníaco!?) da natureza amazônica ainda se mantém como um dos seus principais atrativos (Slater, 1996).

A fauna amazônica é um dos elementos centrais na perpetuação de tal apelo, criando imagens que variam entre os seres supernaturais de uma suposta herança indígena pré-moderna e os novos organismos da mística científica, forjados na semântica da biodiversidade e da revolução tecnológica. Não é meu objetivo aqui analisar nenhum destes extremos, pois outros já o fizeram com grande argúcia e refinamento (ver, por exemplo, Descola, 1994; Escobar, 1999; Galvão, 1955; Maués, 1990, 1995; Motta-Maués, 1993; Nugent, 1993; Slater, 1994; Viveiros de Castro, 1996, entre outros); mas procuro evidenciar outras formas de relação das sociedades amazônicas com a sua fauna nativa. Formas que destaquem os microaspectos cotidianos, não-discursivos e sub-reptícios, que são normalmente subestimados e neutralizados dentro dos grandes esquemas analíticos. Pretendo mais que tudo mostrar como a fauna nativa e as atividades humanas voltadas para ela incorporam múltiplos planos de significado e prática, em que memória, emoção e subsistência mesclam-se numa única lógica de ação. Para tanto, escolhi como objeto da minha análise a pesca do pirarucu (Arapaima gigas), o maior peixe de escamas do planeta (Queiroz, 1999), praticada pelas comunidades ribeirinhas da ilha de Ituqui, no município de Santarém, no estado do Pará.

 

A pesca do pirarucu na Amazônia

Seria redundante ressaltar ainda mais o papel vital que a pesca tem e teve na Amazônia, o que já foi feito extensivamente na literatura sobre o tema (Furtado, 1991; Furtado et al., 1994; Galvão, 1955; Goulding, 1980; Goulding et al., 1996; McGrath et al., 1993; Moran, 1990, 1993; Smith, 1981; Veríssimo, 1995; Wagley, 1955). Seja como a fonte mais básica de proteína para o consumo humano na região, seja como significativa geradora de renda, a importância da pesca na região é inconteste. Tamanha relevância cresce exponencialmente nos altamente produtivos ecossistemas de águas brancas das várzeas do Rio Amazonas, onde a multiplicidade de habitats, forjada pelas dramáticas mudanças ocasionadas pelas cheias anuais, oferece uma das maiores diversidades ictiológicas do mundo (Castro, 2000).

Já nas primeiras décadas da conquista européia do vale amazônico, a diversidade da fauna aquática, principalmente de peixes, maravilhava exploradores (Papavero et al., 2000). Tamanha abundância teria sido uma das bases do assentamento de grandes populações humanas organizadas em torno de sociedades ameríndias complexas, como os cacicados dos Tapajó e Marajoara (Meggers, 1977; Roosevelt, 1980, 1991, 1992). Não demoraria muito para que o pescado se transformasse, já no período colonial, num dos principais produtos movimentadores da economia regional Amazônica (Cleary, 2001; Queiroz, 1999; Veríssimo, 1895). Em parceira com a mandioca, o peixe tornou-se a base da sustentação alimentar da região e manteve a expansão dos contínuos ciclos extrativos que alinharam a região aos mercados internacionais, como o do lendário ouro branco - a borracha (Santos, 1980; Veríssimo, 1895; Weinstein, 1991).

Dentre as espécies de peixes mais consumidas e comercializadas, destaca-se o pirarucu - o bacalhau de água doce -, iguaria tradicional da culinária amazônica urbana e ambicionado recurso pesqueiro. Como seria de se esperar o seu consumo já ocorria entre as sociedades ameríndias antes do contato. Vestígios ósseos de pirarucu foram observados em escavações arqueológicas em Marajó por Roosevelt (1991). A última levantou a hipótese de que a pouca quantidade de vestígios de consumo do Arapaima nos sítios de Marajó, principalmente quando comparados com os de outras espécies menos espetaculares, apontaria para um uso esporádico e ritual, provavelmente forçado pela constante ameaça de esgotamento do estoque perante o consumo de tão populosas sociedades. As crônicas coloniais também apontam para um consumo generalizado do peixe entre os habitantes indígenas das várzeas e seus descendentes mestiços (Papavero et al., 2000).

No século XIX o consumo da carne seca de pirarucu tornou-se um item universal nos mercados amazônicos e alimento habitual das crescentes populações ribeirinhas do baixo e médio Amazonas. O aumento de seu consumo levaria o pirarucu a ser um dos primeiros alvos da política de conservação e uso racional de recursos naturais, no final do século passado (Issac et al., 1994). Foi neste contexto de políticas de intervenção, pressão sobre recursos pesqueiros e crescimento populacional que esta pesquisa foi realizada, entre os anos de 1995 e 1997, na pequena comunidade de São Benedito, na ilha de Ituqui.

 

A ilha de Ituqui: ecologia e paisagem

A ilha de Ituqui localiza-se no município de Santarém, a 30 km da cidade com o mesmo nome, em uma micro-região da várzea do Baixo Amazonas, particularmente rica em pescado. O alto nível de dependência dos recursos aquáticos para as populações humanas nesta área não é um fenômeno contemporâneo e tem sido observado desde os tempos de contato, podendo ser projetado à era pré-Colombiana (Meggers, 1976; Moran, 1990, 1993; Papavero et al., 2000; Roosevelt, 1980, 1991; Veríssimo, 1895).

A paisagem de Ituqui é intimamente ligada ao ciclos de cheia do Rio Amazonas. Durante o período seco, o verão (agosto a dezembro), a cobertura vegetal é caracterizada por um mosaico composto de campos naturais, florestas secundárias, lagos, capoeiras e pequenos campos de cultivo. Nestes campos, os produtos agrícolas mais importantes são o feijão, a mandioca, a melancia e o milho. O plantio ocorre principalmente nas restingas, que são os terrenos mais altos da ilha. O seu uso se dá principalmente devido à ação das inundações anuais do rio Amazonas que transformam dramaticamente a paisagem. Durante a cheia (dezembro a junho), o mosaico de habitats descrito acima dá lugar a um grande lago, onde os marcos da paisagem são apenas as copas das árvores mais altas, as casas sobre palafitas e os grandes tufos de capim flutuante.

Apesar das chuvas torrenciais, a precipitação nesta região é menor que a das áreas de terra firme e concentrada nos meses de inverno. No verão a precipitação é mínima e cria condições reais de seca (Winklerprins, 1999).

 

A comunidade de São Benedito

A maior parte das observações e entrevistas registradas neste artigo foram coletadas na comunidade de São Benedito. Nos anos de 1995 e 1996, esta comunidade era formada por 35 famílias vivendo em pequenas casas de madeira com cobertura de telhas ou amianto. As casas são suspensas sobre pontanetes de madeira, como palafitas, para evitar estragos causados pelas cheias. Apesar destes cuidados, não é incomum em anos de inundações particularmente grandes, que o piso de madeira seja coberto pelas águas e um outro, improvisado com tábuas cruzadas seja levantado. A maior parte das casas delimitava suas propriedades com cercas de arame farpado ou de madeira. Além da pesca e da agricultura, os moradores de São Benedito dedicavam-se à pecuária extensiva de gado zebu. O número de cabeças era limitado pelas áreas restritas de pasto e pelas constantes perdas ligadas aos efeitos da cheia, quando muitos animais morriam de desnutrição ou afogados.

Em São Benedito o meu trabalho concentrou-se, principalmente, em duas famílias e seus parentes mais próximos. No que se refere à pesca, meus principais informantes foram os homens adultos (de 20 anos em diante), principalmente 4 deles. Eles eram, Sávio, 50, pai de 9 filhos e casado com Marta, 52; Seu Didi, 80, casado com Joana, 75, pai de Sávio e grande patriarca de São Benedito; Joca, 60, primo de Seu Didi e pai de 6 filhos, casado com Lu; e finalmente, Seu Dinho, 68, também primo de Seu Didi, casado com Nina e pai de 8 filhos. Na comunidade de Aracampina, localizada do lado oposto da Ilha de Ituqui, um informante foi particularmente útil, Seu Roberval, 58, casado, com 11 filhos. Além de entrevistas informais e não-estruturadas (ver definição em Benard, 1994), também utilizei técnicas de monitoramento contínuo durante as viagens de pescaria com Sávio. Além de registrar os acontecimentos da viagem, procurei capturar nas falas e narrativas de Sávio os estímulos produzidos pela paisagem na sua memória e sentimentos. Com isso pretendia desdobrar outras camadas não-discursivas de significado.

 

A pescaria em Ituqui

Como já foi dito acima, o papel da pescaria cresce exponencialmente, nos altamente produtivos rios de águas claras da várzea amazônica, quando comparado a outras áreas da região. Ituqui localiza-se em uma região da várzea do Amazonas particularmente rica em peixes. O Baixo Amazonas, como é chamada a região que fica entre o rio Tapajós e o delta do Amazonas, tem sido ao longo dos séculos a região de maior produtividade pesqueira da Amazônia (Castro, 2000).

Num passado recente, na primeira metade do século XX, a captura e comercialização da fauna aquática de grande porte, como o peixe-boi, o pirarucu, a tartaruga gigante e o caimã, ainda era uma das principais fontes de renda da população de Ituqui. A pescaria sempre foi uma atividade paralela, absolutamente vital para o consumo alimentar doméstico, e economicamente complementar às principais atividades agrícolas e extrativas. A rápida modificação tecnológica causada pela introdução, nos anos cinqüenta e sessenta, de barcos com motores a gasolina, da malhadeira e do gelo para preservação do pescado, aliadas ao decréscimo do estoque de fauna terrestre e à expansão da pescaria comercial na Amazônia, parecem ser os principais fatores que deram à pesca um papel mais relevante como fonte de renda para os residentes de Ituqui e do baixo Amazonas, em geral (Castro, 2000; Furtado, 1993; McGrath et al., 1993). No início dos anos oitenta, o colapso do mercado da juta, cultivar que dominara a agricultura comercial do baixo Amazonas desde os anos 40 (Gentil, 1988; Winklerprins, 1999), criou um grande vazio na economia de Ituqui, dando espaço rapidamente à atividade pesqueira comercial, já em expansão (McGrath et al, 1993). A intensificação da pesca trouxe consigo os conflitos sobre as áreas pesqueiras, especialmente nos lagos interiores, altamente produtivos (Castro, 2000). Desde o final dos anos sessenta, mas especialmente depois do início dos anos oitenta, as tentativas de expelir os pescadores comerciais tomaram a forma de um movimento social local, que resultou em muitos acordos de pesca entre pescadores locais e comerciais, bem como intra e entre comunidades (Castro, 2000; McGrath et al., 1993). Desde então, a pesca tem sido o centro das atenções de muitas agências de desenvolvimento e uma fonte constante de grandes conflitos locais.

A pescaria em Ituqui é caracterizada, de maneira geral, pelas duas grandes ecozonas onde é praticada: o rio e o lago interior. Obviamente que, dentro destas duas categorias mais abrangentes existem muitas subjetividades, que estão relacionadas às espécies preferidas, tecnologia usada e outras variáveis ambientais (especialmente o nível da água), que tornam a pescaria um conjunto de repertórios relativamente complexos (Castro, 2000; Furtado, 1993; McGrath et al., 1993; Moran, 1990, 1993; Smith, 1981). Os moradores de São Benedito, devido à sua localização em um braço marginal do rio Amazonas, estão menos envolvidos com a pesca de rio, focalizada nos grandes peixes migratórios, do que as outras comunidades da ilha, como Aracampina. Entretanto, algumas vezes os homens se juntam a expedições pesqueiras organizadas por proprietários de barcos locais, que saem em busca de espécies comercialmente valiosas, em outros rios e lagos.

Em contraste, em Aracampina há uma grande ênfase na pescaria de rio, especialmente durante o verão. A localização frontal dessa comunidade em relação ao canal principal do rio Amazonas facilita o acesso a locais produtivos do rio, bem como ao caminho dos grandes bagres migratórios. Todas as unidades domésticas com que tive contato mais próximo, em Aracampina, possuem membros intensamente envolvidos com a pescaria comercial, de forma familiar ou empresarial. Tal ênfase na pescaria desenvolveu uma identidade bem mais forte nesta comunidade do que em sua vizinha São Benedito.

Apesar da pescaria abundante no rio Amazonas, os lagos ainda são o principal local de pesca na ilha de Ituqui. Os moradores de São Benedito têm acesso a um complexo de lagos altamente produtivos, considerados como "propriedade" da comunidade. Os lagos se estendem ao longo do Igarapé do Santíssimo e criam um complexo mosaico de habitats. A maior parte da pescaria concentra-se nos lagos durante o verão. Os peixes, que se espalhavam pelos pântanos e florestas inundadas durante a cheia, juntam-se, durante o verão, nos lagos que vão secando, ou escapam para a correnteza do rio. A pesca é abundante e relativamente diversificada. Durante os 40 dias, entre o final de agosto e o começo de outubro, verificamos aleatoriamente o produto da pesca de 14 viagens diárias de Sávio aos lagos mais próximos. Ele pescou uma média de 5,1 "espécies" (identificadas por ele mesmo) e 9,6 quilogramas de peixe por dia. O que não era consumido pela família, era normalmente presenteado a Seu Didi e/ou a parentes mais próximos. A venda era sempre mais problemática, pois dependia da compra de gelo para os refrigeradores portáteis (isopores) na cidade, o que nem sempre era possível, fazendo da estocagem do peixe uma tarefa bastante difícil.

Acompanhei Sávio e Seu Didi em muitas viagens diárias de pesca aos lagos das redondezas. Os locais de pescaria eram escolhidos de acordo com as espécies alvo, a época e tecnologia utilizada. Durante o inverno e início do verão, as tarrafas, o caniço e o anzol eram os instrumentos mais utilizados. Eles normalmente instalavam-se próximos a árvores frutíferas nas florestas inundadas ou em meio a grandes amontoados de capim flutuante, onde usualmente os peixes se concentravam para proteção e alimentação. Minha experiência com outros membros masculinos mais jovens e com as mulheres da comunidade mostrou um certo grau de desconexão com a paisagem e com os "segredos da pescaria". No caso das mulheres, não foi difícil ligar esta atitude à falta de conhecimento feminino especializado na pesca, como o resultado de restrições espaciais impostas à maioria das mulheres, assim como de suas atividades domésticas1. Já no caso dos homens jovens que encontrei em São Benedito, acredito que tal desconexão está relacionada com a crescente ênfase, muitas vezes apenas simbólica, sobre a criação de gado e todas as suas implicações de classe e prestígio, bem como o apelo da vida urbana entre os jovens. Outros pesquisadores trabalhando na região expressaram opiniões similares sobre este assunto (Castro, comunicação pessoal).

 

A pesca do pirarucu na ilha de Ituqui

De outubro a março acontece nos lagos de Ituqui a atividade pesqueira mais esperada: a pescaria do pirarucu (Arapaima gigas). Apesar do decréscimo significativo em número, o pirarucu ainda representa o recurso pesqueiro mais importante de São Benedito. A captura de um grande pirarucu fornece um aumento expressivo de renda para qualquer unidade doméstica. Em São Benedito, Sávio era visto como "o pescador de pirarucu" por excelência. Durante o alto verão, ele ia ao lago com a intenção específica de capturar um pirarucu. As ferramentas mais usadas eram o arpão (hástea) e o anzol com linha. O processo de pescaria do pirarucu implica muita paciência e habilidades altamente refinadas. De acordo com muitos de meus informantes, o tamanho grande2, a força e a celebrada "inteligência" do pirarucu envolviam sua "caçada" - termo utilizado por alguns para a captura do peixe - em uma mística especial, além de demandar habilidades igualmente especiais do pescador. Isso era enfatizado quando o "arreio" usado era o arpão. Não era incomum Sávio voltar de mãos vazias depois de longas horas de espera e muitas tentativas frustradas. Existiam outras formas, de baixo custo, para capturar o peixe, como o uso indiscriminado de tarrafas e malhadeiras pelos jovens pescadores e a captura de espécimes jovens (budecos), práticas estas enfaticamente condenadas pela maioria de nossos informantes mais velhos, especialmente Sávio.

Como já mencionado acima, a pescaria do pirarucu tem sido o núcleo principal dos planos de muitos projetos conservacionistas em Santarém e na Amazônia em geral. O rápido decréscimo dos estoques de pirarucu encorajou o Ibama, em 1991, a criar normas mais restritivas sobre a sua captura3. Assim, a captura foi proibida durante os meses de dezembro a maio, a fim de permitir a reprodução e recuperação do estoque desses peixes (Issac et al., 1993). Conversando com muitos pescadores em Ituqui e observando alguns de meus informantes em Aracampina e São Benedito, concluí que nenhum deles estava muito preocupado com as restrições legais ou com os acordos comunitários de pesca. Joca comentou certa vez que "quem respeita o acordo é quem não é pescador, é quem vive de outra coisa e não de pesca".

Rapidamente tornou-se claro para mim que, além do ótimo retorno econômico obtido com a captura, a caça de um grande pirarucu (por volta de 40 kg) carregava consigo outros elementos e motivações. Um dos aspectos mais notáveis dessas motivações por trás da pesca do pirarucu era o prestígio de um pescador habilidoso nas comunidades. Até aqueles que eram mais hesitantes em identificar-se como pescadores, conversavam com uma ênfase especial sobre a pescaria do pirarucu:

Joca - 07/95 - São Benedito

Rui: O senhor se vê como pescador?

Joca: Não, eu não me tenho como pescador.

Rui: Mas o senhor disse que apesar de ter outras atividades o senhor pesca.

Joca: Pesco, eu pesco pra casa, todo dia.

Rui: E tem alguma coisa que o senhor goste na pescaria?

Joca: Olhe, eu só gosto, aliás, gostava, é do pirarucu, no verão... Iam tudo [pescadores] pra lá [Igarapé do Santíssimo] naquele tempo... Eu pescava de 'hástea'... [ele descreve o uso da 'hástea' na pesca do pirarucu e o comportamento do peixe antes da captura].

Joca: Era a única pescaria que eu ia com gosto... outubro, novembro, e era isso... Agora com tanta malhadeira, ele [o pirarucu] ficou velhaco, ele não bóia mais perto da gente. Agora ele bóia, mas é longe.

A beleza das capturas bem sucedidas parecia estar diretamente relacionada com o nível de dificuldade e a disposição de luta do peixe. Muitos pescadores, especialmente os mais velhos, não hesitavam em dizer que o pirarucu aprendia e pensava. Eles normalmente descreviam seu comportamento como cuidadoso e inteligente. O papel dos machos na reprodução, eles cuidavam de seus filhotes por um longo período de tempo, e o comportamento suspeito das fêmeas - espirituosamente chamados por eles de "velhaco" - davam a este animal um bizarro "caráter humano" que parecia confundir e deleitar muitos de meus informantes. Tal percepção humanizada é clara quando os pescadores referem-se ao animal usando um vocativo. Então, ao invés de pirarucus (referente ao tipo ou espécie), dizem "o pirarucu", seguindo uma personificação efetiva que transforma o animal em um ator, um interlocutor ativo, um ser com vontade, "inteligência" e "emoções". A antropomorfização do peixe vai ainda mais longe quando é possível seguir todo o processo de preparação e busca por bons locais de pescaria. Acompanhando Sávio numa captura sem sucesso, no Igarapé do Santíssimo, obtive muitas pistas da mistura que as memórias, emoções, relações econômicas e sociais formam, durante uma viagem de pesca:

São Benedito - Pesca de pirarucu no lago, com Sávio (Outubro/1995)

Saímos de casa por volta das 6:00 horas da manhã. Atravessamos o campo do Mungubinha. O lago já recuou muito e grande parte do campo já estava seco. Sávio atravessou o campo contando estórias sobre tracajás. Durante a caminhada veio checando os tufos de capim, onde "eles gostam de colocá a ninhada". Vimos um pescador ao longe e pensamos que era o Beto [filho de Sávio], mas não era, pois a sua canoa com as malhadeiras ainda estava lá. Montamos numa outra canoa e partimos. Atravessamos o lago enquanto Sávio assobia alguma melodia que ouviu no rádio. "Olha o surubim boiou, viu?" Ele aponta pra uma ondulação na superfície lisa do lago. Olho na mesma direção, meio perdido, "quê?" Continuamos. "Essa bubulha é cujuba comendo no fundo!" Ele aponta para as pequenas bolhas de ar que espucam na água, próximas à canoa. Atravessamos o lago e chegamos no igarapé.

Vemos o Otávio, irmão do Sávio, numa canoa. O "Padre" (apelido de um morador local) passa pela margem da restinga, com um saco de sarrapilheira, e o Sávio diz que ele estava procurando ovos de tracajá. "Nesta época caboco não se descuida!" Ele acrescenta. Sávio vê um pirarucu boiando mais adiante e diz, "o Cláudio se descuidô com a malhadeira e o pirarucu boiô lá adiante". Paramos por alguns momentos na margem norte do igarapé e Sávio começa a preparar o arpão. "Essa ponta aí chama tabuleiro do Marajá", ele aponta pra uma pequena península. "Tinha um parente nosso que gostava de ficar aí esperando pirarucu", comenta descuidado. Continuamos, Sávio fala murmurando e movimenta o remo imitando a ondulação da cauda do pirarucu. "É pra não assustar os peixes." De repente alguma coisa se movimenta debaixo de um tufo de capim flutuante (pemembeca). Ele aproxima a canoa lentamente e pára em meio ao capim, levanta-se, segura o arpão, esperando algum movimento. Não me atrevo a fazer nenhum movimento. Passamos mais ou menos 15 minutos esperando, até que ele olha para um lado e para o outro e diz que "eles (os pirarucus) não estão por aqui, tão pr'ali pr'aquele lado". "E o que foi aquilo que mexeu no capim?" Pergunto. "Foi jacaré!", ele responde.

Continuamos pelo igarapé e passamos por um outro grande tufo de capim pemembeca. Ele navega a canoa deixando-a fluir com a correnteza suave do igarapé, apenas orientando-a, vez por outra, com a ponta da haste do arpão. Ele não diz nenhuma palavra. Olha para um lado e para o outro e deixa a canoa fluir, sempre com um leve impulso da haste do arpão. O sol já começou a esquentar, são 7:00 horas. A zoeira dos pássaros é grande: tamitaus, papagaios, periquitos, maguarys, de tudo se vê um pouco. Entramos no capim um pouco mais à frente e Sávio decide saltar para ver, da restinga, onde os pirarucus estão boiando.

Caminhamos em meio às arvores baixas da restinga, até um determinado ponto, uma pequena clareira, de onde ele poderia ter uma visão mais ampla do igarapé. Alguma coisa se movimenta violentamente em meio à confusão verde dos aguapés, "é um budeco de mais de 7 kg. Passamos mais de vinte minutos nessa clareira. Ouço o barulho de peixes saltando na superfície da água a todo o momento. Sávio diz que "é tambaqui boiando". "Eles [pirarucus] não estão aqui, estão mais lá pra cima. Nós vamo já dá uma olhada!", ele acrescenta, já levantando para caminhar na direção oposta, oeste. Atravessamos novamente a restinga e agora posso ver os lagos Munguba Grande e Sarreiro, e o tom verde claro que circunda as margens secas. "O nome desse lugar é desaperto, quando o gado não tem mais pasto pro outro lado, a gente traz o gado pra cá", ele aponta para uma vasta extensão de pastagem natural à margem norte dos lagos. Caminhamos mais um pouco e atravessamos novamente a mata de restinga até chegarmos a uma pequena abertura na vegetação à margem do igarapé.

Sávio coloca-se de vigília, novamente, sobre um pequeno barranco. Ouço um movimento de água batendo no meio da pemembeca, seguido por um ronco oco. Sávio me lança um olhar significativo. "É pirarucu de uns 30 kg. Vamo esperá mais um pouco pra vê onde ele bóia", ele diz. Passam-se mais de três minutos e ouvimos outro movimento na água bem próximo ao barranco sobre o qual estávamos. Sávio olha pra mim e diz, sempre murmurando, "são dois! Esse é o menor." Continuamos a espera sob a sombra da capoeira baixa da restinga. O tapete de capim flutuante, a pemembeca, se estende por mais de 100 metros ao longo desta margem do igarapé. Sávio desce o barranco da restinga silenciosamente, ele já nem fala, apenas olha e gesticula, colocando-se em posição com a "hástea" em punho. O ruído dos "roncos" e rebates de cauda dos pirarucus na água continuam. Alguns bóiam próximo da "espera" de Sávio, mas não próximo o bastante para o arremesso de seu arpão. Ele continua em pé com o arpão erguido sobre a cabeça, em posição de lançamento, atento, como que esperando um sinal, um ruído. E espera. Passa-se mais de uma hora e o pirarucu ainda não se aproxima da espera. Ele resolve então dar uma parada.

Vai até a canoa "pegá nossa merenda": café preto e algumas torradas joelhinhos, e acaba trazendo a minha máquina fotográfica, que eu havia deixado lá. Nesses breves minutos de parada o pirarucu bóia a poucos centímetros da espera de Sávio. "Pôxa! Agora dava pra dá um cacete nele", ele exclama desapontado. Ele me pede pra ficar de olho na espera dele enquanto ele vai dar uma olhada num outro ponto, onde os pirarucus já haviam boiado três vezes. Espero por um pouco mais de meia hora e a única coisa que vejo é um jacaré de pouco mais de um metro e meio emergir no meio da pemembeca pra pegar sol. Ouço o barulho de água batendo no limite do capinzal que me parece ser o pirarucu do Sávio. De repente, vejo um pirarucu grande saltar da água, mostrando a metade do seu corpo, que faz uma curva lateral, expondo assim a cauda brilhante de tom rosa e sépia. Cheguei a pensar que era um boto. Logo depois Sávio retorna dizendo que não adiantava mais esperar, que eles não estavam mais lá e de qualquer maneira, já estava na hora de voltar. Passava um pouco das 10:00 horas. Sávio ainda deu umas voltas nas redondezas da restinga e do campo próximo, mas não deu sorte. Embarcamos na canoa e tomamos o rumo do lago, a caminho de casa. Na volta, Sávio vinha contando algumas das suas histórias de pescaria e comentando, "pesca de pirarucu é a mais melindrosa que tem. Às vezes a gente só vem no cheiro dele, chega só pra pegar e volta pra casa. Outras, como essa, não pega nada."

Para pescadores como Sávio, o pirarucu incorpora o significado pessoal e social da paisagem na qual vive e é capturado. Por exemplo, muitos dos sítios de pescaria tinham histórias particulares e pareciam compor um detalhado mapa que condensava funções utilitárias, bem como referências emocionais relacionadas ao passado da família e da comunidade, e eventos sociais. Era sempre surpreendente observar a localização precisa de tais sítios numa paisagem em constante modificação, especialmente aqueles localizados dentro de florestas inundadas ou nos grandes pântanos formados durante a subida das águas. Era também claro que a precisão e o nível de detalhe deste mapa ambiental era variável, conforme a geração, gênero e ênfase individual do pescador. Sávio e Seu Didi me deram os mais sofisticados exemplos de conhecimento ambiental e envolvimento emocional com a paisagem. Parecia que cada um dos locais da área do entorno possuía algum significado, mesmo que fosse puramente anedótico.

Tal envolvimento alcançava a maioria das esferas da vida do pescador. Desentendimentos sociais e disputas pessoais eram intensificadas ou reduzidas, afeições confirmadas e laços sociais refeitos, a partir da prática e da vivência da pesca. Como já foi dito, este processo torna-se intimamente ligado com memórias, a mística da captura, um certo sentido de lugar e a própria identidade do ator, resultando numa unidade processual conectada a muitas esferas pessoais e sociais de significado, as quais são de difícil compartimentalização. Por esta razão, quando observada por olhos mais atentos, a fácil leitura econômica da pescaria do pirarucu sutilmente dissolve-se numa rede de significados e hábitos mais tênues.

No meio de tantos aspectos motivadores, disputas e conflitos não eram incomuns em Ituqui. Pontos de pescaria eram possessivamente guardados e "fronteiras" sutilmente estabelecidas entre comunidades e unidades domésticas. O direito ao recurso (o pirarucu), e, por extensão, aos significados e emoções que ele incorpora, tornou-se um luxo protegido por alguns. O decréscimo da população de pirarucus, a crescente dificuldade de suas práticas e a alta demanda de mercado colocaram muitos pescadores num dilema, onde a prática, o desejo, a identidade e a economia pareciam colidir com o que os desenvolvimentistas e ambientalistas gostam de chamar de "racionalidade" do uso do recurso.

No que se refere à intervenção de projetos voltados para o uso "racional" de recursos pesqueiros, apesar de algumas experiências supostamente bem-sucedidas em algumas áreas do baixo Amazonas (Projeto Várzea, 2001), grande parte do que tem sido feito parece colidir com a resistência, por parte das populações locais, e especificamente dos pescadores, de abrir mão do "recurso". Neste, processo, a disputa sobre as práticas de pesca parece se inserir numa disputa sobre o significado desta última. Por um lado, o paradigma desenvolvimentista atrelado a uma naturalização científica do mundo (o peixe, o recurso, o produto) por outro a socialização local das relações humanas (o pirarucu, o velhaco, o outro).

 

Conclusão

Como já foi colocado no início deste artigo, não é minha intenção enfatizar mais ainda o aspecto econômico e utilitarista da pesca do pirarucu, pois tal já foi feito por outros com bastante competência. Quero, sim, mostrar que, imbricado a estes aspectos mais evidentes da pesca, existe um rede de significados e práticas profundamente conectados a uma tonalidade local no fazer e no como fazer as coisas do mundo, que podemos chamar de um ethos (Geertz, 1973, p. 126-127). Esta tonalidade não é apenas uma visão de mundo, mas sentimentos e predisposições forjadas na prática em si (Bourdieu, 1983a, 1983b), ou, como diria Anthony Giddens, na própria lógica da ação (1990, 1993).

A pesca do pirarucu combina magnificamente todos estes níveis. Em primeiro lugar, no exemplo da pescaria de Sávio, pode-se dizer que a contextualização da prática evoca memórias de experiências e eventos sociais onde importantes informações ecológicas sobre a paisagem, tecnologia e comportamento animal são codificados. Segundo, o mesmo tipo de experiência servirá como elemento central na criação de novos significados ou na ratificação de antigos, seja na maneira de ver o outro social humano ou o outro social natureza (animal). Por último, mas ainda intrinsecamente conectado à significação da prática da pesca, os importantes sinais de prestígio e status emanados da repetição de narrativas, muitas vezes quase míticas, e estórias de pescaria de pirarucu, onde dois atores compatíveis (pescador e peixe) entram numa disputa. A captura de um pirarucu, principalmente, quando realizada pelo "modo antigo", traz ao pescador um prestígio especial, o de vencedor, ou talvez de dominador, em uma relação com um outro social (a natureza, o pirarucu) na qual diferentes domínios da experiência humana se mesclam.

As considerações acima têm importantes implicações, não apenas para Antropologia em si, como também para as práticas de intervenção que grassam na Amazônia, sob a égide do ambientalismo e do "desenvolvimento sustentável". Como eu mesmo escrevi em outro artigo (Murrieta, 1998), talvez o segredo da preservação do "recurso pesqueiro" (o pirarucu) esteja na valorização do significado que a vivência da pesca carrega, com sua mística particular e suas ramificações para os diferentes domínios sociais. Desta forma, evitaremos abordar a pesca do pirarucu pelas lentes de um cientificismo excessivo e sua conseqüente "des-socialização" semântica da natureza, que tem orientado tantas das iniciativas equivocadas de projetos desenvolvimentistas da região.

 

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1 Embora este seja um tipo de padrão geral, há muitas evidências, no baixo Amazonas de mulheres intensivamente envolvidas em atividades de pesca (Alencar, 1994; Maneschy et al., 1995). Em 1994 (Maneschy et al., 1996) realizou-se, em São Luiz, o primeiro Encontro Brasileiro de Pescadoras do Norte e Nordeste.
2 Um pirarucu adulto pode chegar a 3 metros (Queiroz, 1999).
3 Portaria 480/91 proíbe a pescaria de pirarucu na bacia Amazônica brasileira de 01/dezembro a 31/maio (Issac et al., 1993, p. 198).

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