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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.8 no.17 Porto Alegre June 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832002000100001 

Apresentação

 

 

O tema Sexualidade e AIDS escolhido como fio condutor para os artigos aqui reunidos deve-se à longa tradição de pesquisa que o Núcleo de Pesquisa em antropologia do Corpo e da Saúde (NUPACS) tem nesta área de conhecimento. Tomamos como referencial a antropologia do corpo e da saúde, o que pode ser percebido através de outras publicações organizadas pelo NUPACS, tais como o livro Corpo e Significado e o n. 9 da Revista Horizontes Antropológicos, intitulado Corpo, Doença e Saúde, ambas coordenadas pela professora Ondina Fachel Leal. Nesta publicação optamos por uma temática mais específica e diretamente vinculada aos projetos de pesquisa desenvolvidos pelo NUPACS nos últimos anos. Isto deve-se, em parte, ao fato da área de antropologia do corpo e da saúde encontrar-se já consolidada no campo das ciências sociais brasileira e em função da importância que esta temática assumiu tanto na antropologia quanto na área da saúde coletiva.

A relevância científica e social do tema se reflete na preocupação com as implicações políticas e sociais das pesquisas presente em grande parte dos artigos aqui reunidos. Neste sentido, um primeiro aspecto que chama a atenção é que dentro da temática enfocada - Sexualidade e AIDS - os artigos privilegiaram questões que são, na atualidade, consideradas como problemas sociais, tais como sexualidade e juventude, gravidez adolescente, usuários de drogas e AIDS, homossexuais e AIDS. O reconhecimento destes temas enquanto problemas sociais faz emergir uma demanda por estudos, o que pode ser percebido pelo tipo de instituição que financia parte destes projetos. ao mesmo tempo, observa-se um comprometimento dos pesquisadores em fornecer respostas a esta demanda.

A excelente qualidade das pesquisas aqui apresentadas deve-se à capacidade dos pesquisadores não assumirem esta temática da forma como ela se apresenta no senso comum, mas buscarem problematizá-la e contextualizá-la a partir dos parâmetro das ciênciais sociais. Demonstram, assim, a importância de pensar o processo de construção social destas, suas implicações diferenciadas segundo classe social e gênero, entre outras questões.

O fato de grande parte dos artigos aqui apresentados tomarem por objeto de análise a juventude e o contexto da heterossexualidade é também representativo da trajetória desta área de investigação. Os primeiros estudos sobre sexualidade e AIDS buscavam compreender melhor alguns comportamentos sexuais considerados como diferentes ou desviantes - que também encontravam-se, naquele período, mais diretamente vinculados à epidemia da AIDS. No momento atual, já é possível pensar de forma mais sistemática as especificidades dos comportamentos sexuais de diferentes grupos sociais, tais como os jovens hetero e homossexuais. Este processo de constituição do campo da sexualidade e da AIDS dentro das ciências sociais é traçada no presente volume por um dos principais atores deste processo, Richard Parker. Em entrevista aqui publicada, ele mostra a constituição interdisciplinar deste campo e sua estreita relação com o campo da saúde reprodutiva e com a epidemia da AIDS. Salienta ainda a posição marginal desta área em relação ao campo acadêmico em virtude de sua inevitável vinculação com uma perspectiva mais aplicada. Destaca também a importância dos trabalhos brasileiros para a reflexão sobre a epidemia da AIDS em função da desconstrução que estes operam sobre categorias epidemiológicas, como as de homo-, bi- e heterossexual.

A sexualidade na juventude ganha destaque na atualidade, tanto pelo lado das ciências médicas e políticas de saúde, preocupadas sobretudo com as conseqüências da sexualidade na adolescência (DSTs, AIDS e gestação), como pela perspectiva das ciências sociais que, baseadas nas diferenças sociais e culturais, buscam desconstruir a própria idéia de adolescência demonstrando os diferentes significados e comportamentos dos jovens. É neste sentido que o artigo de Heilborn et al., ao discutir o pressuposto do projeto GRAVAD salienta a compreensão da juventude enquanto um processo. Nesta análise fica evidente a importância de levar-se em consideração a heterogeneidade das trajetórias juvenis, marcadas por aspectos como classe social e gênero, que se refletem, por exemplo, nas diferentes repercussões de uma gravidez nesta fase da vida. a importância das características de gênero para a compreensão das expectativas, da iniciação e práticas sexuais dos jovens são também ressaltadas a partir de contextos empíricos diversos, como pode visto no artigos Grimberg na Argentina e Rieth no sul do Brasil.

Embora um dos pontos fortes das pesquisas sobre sexualidade seja o estudo de contextos específicos de significação, é imprescindível uma referência a análises mais gerais, tanto aquelas que lançam um olhar histórico sobre os discursos e percepções de gênero e sexualidade, como aquelas que evidenciam dados epidemiológicos e demográficos dos comportamentos sexuais. No primeiro caso, temos o artigo de Rodhen que centra sua análise na constituição da ginecologia enquanto especialidade médica, demonstrando sua legitimidade para intervir não apenas no corpo mas também no comportamento das mulheres a partir da premissa de que esse, diferentemente do comportamento dos homens, é gerenciado pela sexualidade. A segunda perspectiva é aqui discutida no artigo de Bozon que analisa os diferentes enfoques metodológicos utilizados nas pesquisas sobre sexualidade na França, destacando a importância de uma abordagem comparativa. O próprio autor ao participar de pesquisas em dois países da América Latina, Chile e Brasil, argumenta que, sem perder de vista as especificidades, deve-se buscar aportes metodológicos que permitam estabelecer comparações.

A área da sexualidade ganha um destaque especial com a epidemia da AIDS. Estes estudos partem de discussões mais amplas (sexualidade, gênero, doença, identidade, entre outras) e procuram evidenciar as particularidades colocadas pela doença e sua construção social. Sobressaem-se, neste sentido, os trabalhos sobre grupos sociais que apresentam comportamentos específicos - representados neste volume pelos artigos de Terto Jr., sobre homossexuais e Piccolo e Knauth, sobre usuários de drogas – e sobre as pessoas diretamente implicadas na doença, como é o caso de artigo de Valle que analisa um grupo de pessoas vivendo com HIV/AIDS.

É também com a epidemia da AIDS que a preocupação com a aplicabilidade do conhecimento produzido torna-se mais evidente, seja através da formulação de recomendações para as políticas públicas, seja buscando meios e conteúdos culturalmente mais adequados para a transmissão e discussão de informações. Esta preocupação tem servido para lançar um novo olhar sobre os dados e também sobre as metodologias utilizadas, como pode ser visto nos artigos de Agra Hassen, Terto Jr. e Heilborn et al.

Importa salientar que a divisão dos artigos em duas partes é um recorte apenas didático e organizacional, visto que a imbricação entre sexualidade e AIDS está presente na maior parte dos textos. Poderíamos também destacar outros aspectos transversais aos diferentes artigos, como as questões de gênero e classe social. Nossa intenção, entretanto, ao elegermos a temática da Sexualidade e AIDS é a de contribuir para a sistematização e interlocução entre os diferentes olhares lançados sobre o tema.

Por fim, cabe ainda apresentar a secção Espaço Aberto onde incluímos dois artigos, além da entrevista com Richard Parker, já referida anteriormente.

Primeiro, a conferência de adam Kuper, intitulada O Retorno do Nativo, proferida na sessão de abertura da 23ª Reunião da Associação Brasileira de Antropologia – ABA–, realizada em junho de 2002, na cidade de Gramado, RS. O autor, que nasceu na África do Sul e radicou-se na Inglaterra questiona o uso de conceitos largamente utilizados pela Antropologia – como raça, cultura, civilização, nativos, indígenas – bem como de teorias antropológicas um tanto ultrapassadas na formulação de políticas públicas atuais.

A seguir, publicamos o artigo de Jane Beltrão que analisa periódicos do século XIX enfocando as correlações entre a divulgação científica e a autoridade médica dos profissionais de saúde da época no Grão-Pará assolado, pela epidemia de cólera.

Como é de regra, a realização de um trabalho deste tipo é fruto de muitas contribuições. Por ser devido, agradecemos a todos que contribuíram para sua concretização e, de modo particular, aos autores, à Fundação Burle Marx pela autorização para utilizar Duas figuras de autoria de seu consagrado patrono, como ilustração de capa e a toda equipe Horizontes Antropológicos mais diretamente associada à sua confecção.

 

Ceres Víctora
Daniela Riva Knauth