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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.8 no.17 Porto Alegre June 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832002000100005 

ARTIGOS

 

A pesquisa sobre o comportamento sexual na França na era da AIDS e sua continuidade

 

 

Michel Bozon

Institut Nacional d'Études Demographiques – França

 

 


RESUMO

Este artigo se propõe a relatar a situação da pesquisa sobre o comportamento sexual na França, na era da AIDS. Apresentarei aqui a implementação de um monitoramento do comportamento sexual e de sua continuidade. A primeira pesquisa ACSF (Análise de Comportamento Sexual na França) ocorreu em 1992 e abordava a sexualidade em seu sentido amplo. O dispositivo francês de pesquisa inclui três tipos de dados: pesquisas quantitativas, com populações específicas, uma série de cinco pesquisas tipo KABP (conhecimentos, atitudes e práticas) e, por fim, um conjunto de pesquisas qualitativas. Na conclusão, saliento a importância do projeto de comparação européia, o qual permitiu relativizar dados nacionais e diferenciar os processos sociais universais e os processos mais específicos de cada cultura.

Palavras-chave: sexualidade, HIV/AIDS, França, pesquisa sobre comportamento sexual.


ABSTRACT

This paper proposes to report on the situation of research on sexual behaviour in France in the AIDS era. I will present the implementation of sexual behaviour monitoring programs and their continuity. The first research study (ACSF – analysis of sexual behaviour in France) took place in 1992, and dealt with sexuality in its broader sense. The French research device included three types of data: quantitative surveys with specific populations, a series of 5 (five) KABP (knowledge, attitudes and practices) type studies, and finally, a set of qualitative studies. In the conclusion I highlight the importance of the European comparison project. The comparison allowed us to relativise national data and to differentiate the universal social processes from process that are more specific of each culture.

Key words: sexuality, HIV/AIDS, France, research on sexual behaviour.


 

 

Um efeito inesperado da epidemia de HIV/AIDS foi o desenvolvimento da pesquisa sobre comportamento sexual, com o objetivo de traçar e avaliar as políticas de prevenção da infecção. As grandes pesquisas quantitativas sobre os comportamentos sexuais representam um momento importante, específico e muito visível desse esforço coletivo. Por outro lado, não se pode esquecer que essas pesquisas foram incluídas em um dispositivo mais amplo de pesquisa e de seguimento dos comportamentos e das atitudes, que é menos conhecido e menos visível. Vou apresentar aqui a implementação, na França, de um monitoramento e de uma continuidade da pesquisa no comportamento sexual.

Voltando à primeira pesquisa, denominada ACSF – Análise de Comportamento Sexual na França –, lembro que foi realizada em 1992 por um grupo multidisciplinar, quando 20 mil pessoas foram entrevistadas, e, como nas pesquisas chilenas e brasileiras (Brasil, 2000; Goldstein et al., 2000), o questionário abordava a sexualidade em seu sentido amplo, ou seja, tanto os sentimentos, as relações e as normas morais, como as práticas sexuais e até as fantasias. Essa pesquisa propiciou a publicação de quatro livros e de numerosos artigos, que se estendem de primeiros resultados a aprofundamentos muito especializados (ACSF, 1998; Bajos; Bozon et al., 1998; Bozon; Leridon, 1993; Spira; Bajos, 1993), e teve, a curto e médio prazo, um grande impacto, tanto na opinião pública quanto no debate sobre a prevenção. Apesar disso, essa pesquisa, juntamente com outras duas, realizadas em 1994 – uma sobre os comportamentos sexuais dos adolescentes (Lagrange; Lhomond, 1997) e outra sobre os comportamentos no Caribe francês (Antilhas e Guiana) –, constitui somente o elemento inicial de uma grande base de dados sobre a sexualidade. A pesquisa qualitativa sobre a população geral serviu, assim, de referência (baseline suvey) para investigações paralelas e posteriores e para a avaliação das mudanças comportamentais.

O dispositivo francês de seguimento e de pesquisa em comportamento sexual inclui outros três tipos de dados: em primeiro lugar, pesquisas quantitativas em populações específicas; em segundo lugar, uma série de cinco pesquisas KABP, ou CAP (conhecimentos, atitudes e práticas), que são uma ferramenta conhecida entre os atores da saúde pública e da saúde reprodutiva; em terceiro lugar, um conjunto importante de pesquisas qualitativas, que aprofundaram temas difíceis e específicos. Finalmente, a pesquisa ACSF foi incluída em um projeto de comparação européia com 11 países do continente, que resultou na publicação de um livro comparativo.

 

As pesquisas quantitativas em populações específicas

Por maior que fosse a amostra, nossa pesquisa sobre a população geral não era bem adaptada para dar conta dos comportamentos de algumas populações de interesse para a prevenção. Penso sobretudo em três grupos: os homens homossexuais, os usuários de drogas injetáveis e as pessoas que vivem com o HIV/AIDS.

Obviamente, os homens homossexuais estão presentes na pesquisa ACSF, porém em quantidade insuficiente, o que é comum acontecer em pesquisas quantitativas com grupos que ficam socialmente estigmatizados. Além disso, as perguntas em uma pesquisa geral não são bem adaptadas às situações muito particulares nas quais vivem esses homens. Tão logo apareceu a epidemia na França, elaborou-se um sistema original e autônomo de vigilância e de seguimento das práticas e atitudes dos homens gays. A cada ano, entre 1985 e 1993, e depois, em 1995, 1997 e 2000, foram organizadas pesquisas sobre os estilos de vida homossexuais, o que resultou numa seqüência de 10 pesquisas, com uma média de 2 mil a 3 mil entrevistados em cada uma. Em relação à metodologia, tratava-se de um questionário auto-aplicado, incluído em uma seleção de revistas homossexuais. As respostas eram de uma amostra de voluntários que mandavam o seu questionário pelo correio. Esse é um sistema que tem vantagens e limites. Uma das vantagens é que o sistema é muito econômico. Entre os limites, está o fato de que a amostra não é absolutamente aleatória. A população acaba sendo selecionada, já que os que respondem são movidos pelo desejo próprio de o fazerem. De fato, e felizmente, não existe um registro de homossexuais que possa servir de base amostral, e faz pouco sentido a idéia de construir uma amostra desse tipo. No entanto, se forem comparadas entre si as dez pesquisas sobre a composição sociodemográfica da mostra, percebe-se que a distribuição das idades e dos estatutos socioeconômicos dos entrevistados não mudou de uma pesquisa para outra. Isso permite uma comparação entre pesquisas e permite estimar mudanças comportamentais no tempo, dado que o núcleo das perguntas sobre práticas de risco e atitudes permaneceu estável. Com esse instrumento, foi possível destacar, por exemplo, uma baixa importante e conjuntural da participação dos homossexuais no mercado sexual, na segunda metade dos anos 80, e, ao contrário, um retorno ao mercado sexual e uma subida importante da vida a dois a partir dos anos 92 e 93. O questionário de 1997 adaptou-se à nova situação terapêutica, com uma nova problemática: que influência tiveram as novas terapias sobre a prática da prevenção e atitudes de risco? Haveria um descuido da conduta preventiva? Num primeiro momento, a resposta parecia ser negativa. Mas os dados da última pesquisa da série, realizada em 2000, demonstram um aumento geral dos comportamentos de risco, especialmente entre os jovens e nas relações eventuais, sendo essas mais freqüentes entre os gays. Outros temas aparecem no questionário mais recente, como, por exemplo, a observação dos tratamentos e a dinâmica do casal homossexual, tema que emerge em relação à lei sobre o contrato civil entre pessoas de mesmo sexo, que foi finalmente adotada em novembro de 1999 (o PACS).

Não me deterei na pesquisa organizada entre os usuários de droga. Cito somente um resultado: parece que os usuários de droga levam em conta a prevenção do risco em relação ao intercâmbio de seringas, mas não se preocupam com os riscos de uma vida sexual sem prevenção, sendo muito escasso o uso do preservativo. Finalmente existe um projeto de pesquisa sobre as pessoas que vivem com o HIV; a idéia não é somente aprofundar o tema da adesão terapêutica, mas também abordar, como um conjunto, os novos problemas com que se deparam os soropositivos e as pessoas doentes, tanto no âmbito da sexualidade e da vida cotidiana, como na esfera do trabalho (o tema da volta ao trabalho, por exemplo). Essa pesquisa quantitativa encerrou-se em 2002.

 

Monitoramento e seguimento da população geral

Em relação ao monitoramento e ao seguimento das atitudes e das práticas na população geral, o papel principal é assumido pelas pesquisas KABP. Cinco delas foram realizadas na França, em 1987, 1990, 1992, 1994 e 1998. As três últimas são totalmente comparáveis. Utilizam indicadores padronizados sobre os comportamentos sexuais, como o número de parceiros sexuais nos últimos cinco anos, ou nos últimos doze meses, e também sobre as atitudes frente à prevenção e às pessoas soropositivas. Em 1998, apareceram novas perguntas sobre os anti-retrovirais e as mudanças de atitude que sua introdução pode acarretar. Entre 1994 e 1998, não se alterou a proporção de pessoas que têm mais de um parceiro durante o ano, mas se reduziu a proporção dos que têm muitos parceiros. É necessário destacar uma nova tendência: nesse mesmo período, aparece na população um distanciamento em relação aos que vivem com HIV. Isso não significa um declínio da tolerância, que sempre esteve em um nível muito elevado na França, nem um descuido ou uma queda no uso do preservativo. Entretanto, com a chegada dos anti-retrovirais há uma desmobilização frente à AIDS. Também diminui de maneira muito forte o recurso ao teste de AIDS. Observa-se, por outro lado, que o grau de informação da população sobre os anti-retrovirais está muito mais elevado na França do que em outros países europeus. Finalmente, na pesquisa de 1998, foi incluído um módulo de perguntas que era mais de investigação do que de monitoramento, comum a todas as pesquisas européias de seguimento em comportamento sexual: era dedicado a uma descrição em profundidade da história da relação do entrevistado com seu último novo parceiro nos últimos 12 meses. Com isso, é possível analisar como se modifica a preocupação com a prevenção no curso de um relacionamento: mais de três quartos dos entrevistados usam o preservativo em uma primeira relação sexual com um novo parceiro; porém um quarto já o havia abandonado no momento da pesquisa (alguns meses depois). A última pesquisa, realizada em 2002, demonstrou novas tendências entre os jovens, como, por exemplo, uma maior indiferença em relação à prevenção.

 

As pesquisas qualitativas sobre o comportamento sexual

Na pesquisa e no seguimento do comportamento sexual na França, as pesquisas qualitativas sempre puderam contar com o apoio da Agência Nacional de Pesquisa sobre a AIDS (ANRS), que é a grande agência financiadora. A pesquisa qualitativa sempre foi considerada como um contraponto e um complemento indispensável à pesquisa quantitativa. A pesquisa antropológica, apoiada pela ANRS, dedicou-se à observação de lugares e de populações de difícil acesso. Houve monografias sobre ONGs de luta contra a AIDS, por exemplo, sobre Act Up. Houve trabalhos sobre os travestis do Bosque de Boulogne e sobre a prostituição na cidade de Lyon. Houve um estudo muito interessante sobre a prática e os lugares públicos de intercâmbio de casais, que estão se multiplicando. O pesquisador demonstra que o intercâmbio de casais é mais uma espécie de reorganização do comércio sexual do que uma forma de liberação dos costumes, como é apresentado, às vezes, pelos meios de comunicação. Os trabalhos qualitativos não têm só uma importância descritiva, contribuem também para a construção de novos enfoques sobre sexualidade. Foi, por exemplo, em um estudo comparativo sobre as atitudes preventivas dos homens homossexuais, em várias cidades grandes ou pequenas, que foi proposta a noção de proteção imaginária e simbólica. A idéia é que a maioria das pessoas conheça os riscos que corre e trate de proteger-se. Porém muitos o fazem por meio de uma manipulação simbólica das recomendações de prevenção, para que as práticas efetuadas se inscrevam em seu marco de referência cognitiva e cultural, o que geralmente é o suficiente para dar-lhes a impressão de que não estão correndo nenhum risco. Assim, algumas pessoas decidem utilizar (ou não) o preservativo com um novo parceiro em razão da sua aparência física.

A pesquisa psicológica, por outro lado, dedica-se a dois tipos de estudos. São feitos, trabalhos sobre as representações sociais da AIDS e da contaminação, como no setor da saúde, entre os médicos e as enfermeiras. Outros trabalhos abordam as estruturas de personalidade. Um estudo recente está dedicado ao conceito de otimismo, mostrando que as pessoas caracterizadas por uma personalidade de tipo otimista são pouco propensas à prevenção. Entre os trabalhos sociológicos atuais, quero mencionar um estudo muito interessante sobre as mulheres soropositivas: a própria autora mostra que o problema maior dessas mulheres é a gestão do segredo de sua contaminação, especialmente nas relações amorosas. Nas relações ocasionais, existe a possibilidade de a mulher ficar calada sobre o assunto, enquanto que existe uma obrigação moral de revelar a soropositividade quando há um compromisso amoroso, por incipiente que seja. E o momento da revelação gera muita angústia para essas mulheres.

 

O interesse das comparações internacionais

Finalmente, como disse no início, a pesquisa francesa sobre a população geral foi incluída em um projeto de comparação européia. Os responsáveis pelas principais pesquisas do Continente reuniram-se para compartilhar os seus dados e definir os temas e indicadores possíveis de uma comparação. O trabalho foi muito mais difícil do que o esperado, porque infelizmente as pesquisas tinham sido preparadas sem nenhum acordo prévio entre os países; os enfoques eram diversos, e havia uma ampla variação na formulação das perguntas. Dividimos o trabalho em 12 capítulos, que foram escritos, cada um, por grupos de autores de várias nacionalidades. Com um finlandês, escrevi, por exemplo, o capítulo sobre iniciação sexual na Europa (Bozon; Kontula, 1998), que demonstra a existência de dois modelos bastante distintos: um modelo igualitário dos países escandinavos, no qual os homens e as mulheres iniciam sua vida sexual mais ou menos na mesma idade, e um modelo do sul, caraterizado por um padrão dieferenciado para cada sexo, onde os homens iniciam-se bem mais cedo que as mulheres. O interesse da comparação internacional vai mais além do prazer do intercâmbio com colegas de outros países. Basicamente, a comparação permite relativizar dados nacionais e diferenciar processos sociais universais e processos mais específicos de uma cultura. Quando não se tem pontos de referência exteriores, é mais difícil interpretar o alcance de resultados nacionais. Na minha experiência de trabalho com países do Cone Sul, foi muito instrutivo constatar que existem muito mais fenômenos parecidos entre França e países como Chile ou Brasil do que eu esperava no princípio.

 

Referências bibliográficas

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