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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.8 no.18 Porto Alegre Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832002000200001 

Apresentação

 

 

Sergio Baptista da Silva

 

 

O tema Arqueologia e Sociedades Tradicionais, que aglutina os artigos, a entrevista e a maioria das resenhas deste número, pode ser abordado de diferentes maneiras. Aqui, ele foi tratado segundo um enfoque teórico-metodológico que pretende articular duas áreas do campo antropológico – a Arqueologia e a Etnologia Indígena, sob a forma de uma subdisciplina – a Etnoarqueologia –, que envolve a compreensão de artefatos, estruturas e quaisquer outros vestígios de sociedades do passado, através da utilização de dados históricos e etnográficos, dentro de um contexto cultural muito bem definido, testados os modelos etnoarqueológicos daí surgidos por intermédio de metodologias arqueológicas próprias. Na criação desses modelos para a compreensão do passado, a interlocução com membros de sociedades indígenas ou tradicionais e a analogia etnográfica são ferramentas metodológicas potentes.

Em primeiro lugar, gostaria de enfatizar que as aproximações epistemológicas entre uma Arqueologia voltada para os estudos de vertente sincrônica e com ênfase no cotidiano, através das análises espaciais e da possibilidade de estudos simbólicos da cultura material, e a Etnologia são evidentes, especialmente no Brasil. O trabalho etnológico sobre mito-cosmologia, etnoestética, organização social e política de sociedades indígenas atuais tem grande valor para a compreensão do objeto arqueológico, mesmo não dando ênfase particular à materialidade da cultura destas etnias. Em outras palavras, a inter-relação entre materialidade, de um lado, e sociedade e cultura, de outro, necessita ser buscada e explorada pelos estudos arqueológicos.

Fora e dentro de nosso país, as discussões teóricas e metodológicas sobre a utilização de dados históricos e etnográficos para o entendimento, por exemplo, de sistemas ideológicos e simbólicos do registro arqueológico avançaram consideravelmente nos últimos anos. De qualquer forma, a relação entre passado e presente, estrutura e evento, mito e história, tradição e inovação, é tarefa complexa e desafiante que não mais se limita, como nos moldes funcionalistas, a pseudoquestões como "perda cultural", "aculturação" ou "desintegração cultural progressiva".

Os artigos reunidos neste número pretendem contribuir neste sentido, avançando teoricamente em relação às abordagens processualistas/funcionalistas/empiristas em Arqueologia, demonstrando as férteis possibilidades epistemológicas da articulação entre Etnologia e Arqueologia.

Nosso artigo de abertura, Teorizando a Etnoarqueologia e a Analogia, foi publicado originalmente como o segundo capítulo de Ethnoarchaeology in Action (2001), dos quais Nicholas David e Carol Kramer são co-autores. Nele, são analisados os avanços pós-processuais da teoria arqueológica e suas implicações para a Etnoarqueologia. Os autores discutem as relações entre, de um lado, Arqueologia e, de outro, Etnoarqueologia/Etnologia, refletindo sobre o "lugar" da Etnoarqueologia no campo do saber antropológico.

O artigo de Gustavo G. Politis aborda as bases teóricas e metodológicas da Etnoarqueologia, tecendo considerações sobre o uso da analogia etnográfica na interpretação do registro arqueológico. O autor, ao concentrar sua atenção na pesquisa etnoarqueológica produzida na América do Sul, apontando três tendências principais destes estudos, propõe uma nova concepção para os projetos etnoarqueológicos, concepção esta que não abranja somente os aspectos tecno-econômicos, mas que incorpore o plano ideológico e simbólico.

O artigo de Philippe Descola, cujas reflexões interessam tanto a arqueólogos como a etnoarqueólogos e etnólogos, analisa a temática da gênese social das técnicas, enfatizando a importância que os princípios estruturais dos sistemas sociológicos e cosmológicos exercem sobre a adoção de novas relações técnicas. O autor exemplifica sua proposição teórica a partir da rejeição da domesticação animal pelas sociedades indígenas amazônicas.

O xamanismo Kaingang é dissecado por Robert R. Crépeau, ao mesmo tempo em que o autor estabelece comparações desta prática entre os Kaingang com o xamanismo Bororo.

O artigo de Pedro Paulo Funari discute a exclusão de grupos subordinados (escravos, índios, miscigenados, pobres, "desaparecidos") na longa tradição da prática arqueológica pré-histórica e histórica no Brasil, avaliando os desenvolvimentos recentes dos discursos arqueológicos em nosso país.

A partir da discussão do referencial teórico da Etnoarqueologia e incorporando ao seu estudo dados etnográficos sobre a sociedade Guarani, Robson Antonio Rodrigues e Mariza Coutinho Afonso analisam a ocupação pré-colonial Guarani no atual Estado de São Paulo.

Fabíola Andréa Silva, a partir da interpretação que os Asurini, do Xingu, fazem dos vestígios arqueológicos existentes em seu território, faz importante reflexão sobre as diferentes possibilidades interpretativas do passado, enfocando os vários sujeitos desta interpretação.

O autor desta apresentação e organizador deste número de Horizontes Antropológicos, por sua vez, enfoca em seu artigo as interpenetrações entre os diferentes domínios do cosmos Kaingang, discutindo o papel do sistema xamânico como mediador entre estes domínios. Ao mesmo tempo, o texto propõe-se a refletir sobre a singularidade cultural do conceito kaingang de "natureza".

O artigo de José Otávio Catafesto de Souza, baseado na leitura de documentos coloniais e em informações tanto arqueológicas como etnográficas e etnológicas sobre os Guarani, traz valiosa contribuição para a análise do sistema econômico nas sociedades Guarani pré-coloniais.

Em Sociedades Indígenas, Racismo y Discriminación, Oscar Alfredo Agüero examina a relação Estados nacionais/sociedades indígenas, na América Latina, qualificada pelo autor como de "discriminação racista", a partir de uma reflexão teórica sobre os conceitos de raça, de globalização e de "intencionalidade étnica indígena".

O Espaço Aberto deste número contém a publicação da entrevista do Professor Pedro Ignácio Schmitz, concedida a quatro de seus antigos alunos e, posteriormente seus colegas no Departamento e Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS Sérgio Alves Teixeira, Ruben George Oliven, Maria Eunice Maciel e Sergio Baptista da Silva. A entrevista com o Prof. Schmitz, antigo professor catedrático de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dá conta de algumas facetas interessantes e inéditas da história da institucionalização da disciplina. Seu depoimento e suas memórias tecem todo um quadro histórico, intelectual e teórico no qual a Antropologia Social, a Etnologia Indígena e a Arqueologia Pré-Histórica lançam suas raízes acadêmicas no Rio Grande do Sul a partir das décadas de 50 e 60 do século passado.

Juntamente com esta entrevista um depoimento de Sergio Alves Teixeira sobre sua vivência de 30 anos na Antropologia da UFRGS (em Horizontes Antropológicos nº 7) e uma entrevista com Ruben George Oliven (Horizontes Antropológicos nº 13), fornecem um conjunto abrangente de informações e considerações sobre a Antropologia da UFRGS, de seu início (1942) até o presente

Também em Espaço Aberto, publicamos o artigo de Travis Wendel e Ric Curtis, que aborda as estratégias anticrime adotadas nos últimos vinte anos em Nova Iorque, sugerindo que o mercado de drogas não foi eliminado ou reduzido na cidade, mas "reconfigurado, em parte devido às táticas agressivas de policiamento, por mudanças ocorridas nos bairros e pela preferência dos consumidores". Os autores defendem a idéia de um policiamento responsável, admitindo que a minimização dos danos causados pelo tráfico não será alcançada pela perseguição aos usuários.

A capa deste número exibe fotografia de autoria de José Otávio Catafesto de Souza, que revela atividade de coleta de fibras vegetais para a confecção de trançados pelos Kaingang moradores de Porto Alegre. A mãe kaingang e seu filho foram retratados no Morro Santana, situado a apenas uma dezena de quilômetros do centro da cidade, em cuja periferia leste vários grupos kaingang (cerca de trezentas pessoas) vêm fixando residência há mais de uma década.

A realização deste trabalho envolveu a contribuição de muitas pessoas. Em particular, gostaria de agradecer aos editores da Revista e ao pessoal do NIT – Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais – professores, pesquisadores associados, bolsistas, monitores, alunos de pós-graduação e de graduação – cujo envolvimento foi essencial para a concretização deste volume.

Por fim, gostaria de referir que este número presta uma homenagem póstuma a três saudosos antropólogos, falecidos em datas recentes, todos eles ligados à Etnologia Indígena no Brasil: Aracy Lopes da Silva, Oscar Alfredo Agüero e Jorge Pozzobon, os dois últimos tendo exercido docência na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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