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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.8 no.18 Porto Alegre Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832002000200013 

ESPAÇO ABERTO

 

Entrevista com Pedro Ignácio Schmitz

 

 

Sérgio Alves Teixeira; Ruben George Oliven; Maria Eunice Maciel; Sergio Baptista da Silva

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

 

 

No dia 1º de outubro de 2002, no Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados (ILEA) da UFRGS, Pedro Ignácio Schmitz, professor aposentado e antigo catedrático de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi entrevistado por quatro integrantes do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/UFRGS, os professores Sérgio Alves Teixeira, Ruben George Oliven, Maria Eunice Maciel e Sergio Baptista da Silva, sob a coordenação desse último. A entrevista foi gravada em vídeo pela equipe do Núcleo de Antropologia Visual (Navisual) UFRGS, estando na câmara Rafael Devos e Olavo Marques, e na direção Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornélia Eckert. As transcrições das fitas foram realizadas pela equipe de bolsistas e monitores do Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais (NIT), Alexandre Aquino, Mônica Arnt e Roberta Mallmann. O coordenador da entrevista fez pequenas "costuras" no texto ora apresentado, o qual foi revisado pelo nosso entrevistado/homenageado deste Espaço Aberto.

 

Sergio Baptista: Eu gostaria de iniciar, primeiro, querendo dizer da satisfação que nós temos em contar com sua presença aqui prof. Schmitz, no ILEA, nesse ambiente bem informal. Gostaríamos de saber um pouco da sua trajetória profissional, intelectual, ao longo desses vários anos que o senhor vem trabalhando nas áreas da Antropologia e da Arqueologia. Estamos contando com a presença de professores antigos e mais novos, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, para conversarmos informalmente, fazer algumas perguntas para o senhor, e, a partir daí, alargar as suas memórias para que nos conte um pouco destes primeiros anos da Antropologia aqui na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Então, passo a palavra para o prof. Sérgio Teixeira fazer a pergunta inicial.

Sérgio Teixeira: Bom, é um prazer muito grande participar dessa entrevista. Depois que o prof. Schmitz assumiu a Cátedra da Antropologia, eu fui o primeiro assistente. Bem, na verdade, instrutor de ensino, no termo técnico. Então, eu percebi que o prof. Schmitz, tinha feito uma alteração profunda no modo da cadeira trabalhar. O titular anterior, prof. Rambo, era um histórico culturalista. E o prof. Schmitz deu um giro de 180º. E o prof. Schmitz me falava, talvez uns dois ou três anos depois de eu ter ingressado, que o que ele lia, realmente, era teoria. Não foi obsessão, mas ele tinha uma predileção e só lia teoria. Então a minha questão é a seguinte: como que o prof. Schmitz buscou novas maneiras de interpretar o objeto da Antropologia? Qual foi o percurso que ele fez?

Schmitz: Acho que não dei um giro de 180º. talvez de 90º, porque o pe. Balduíno Rambo seguia a Escola de Viena. Esta foi uma das maiores escolas de Antropologia, só que tinha certos pressupostos que, com o tempo, se mostraram falhos. Os próprios seguidores do pe. Wilhelm Schmidt, aos poucos, o foram abandonando. Ele foi o último que manteve a teoria toda e, com a morte dele, a Escola também morreu.

O pe. Wilhelm Schmidt tinha à sua disposição uma quantidade enorme de recursos humanos e de recursos materiais de editoração. Ele pertencia a uma ordem missionária, que tinha gente espalhada pelo mundo inteiro. Eles recebiam a incumbência de observar e descrever as culturas que encontravam nas diferentes áreas em que estavam trabalhando, em primeira mão. Isto ele publicava.

Aos poucos se percebeu que alguns pressupostos básicos não eram verdadeiros. Isso fez que um imenso prédio, que ele tinha construído, desabasse. E ninguém, depois, o quis retomar para reexaminar e reestruturar esse montão imenso de dados.

O pe. Wilhelm Schmidt tinha como pressuposto – não era só dele, mas ele foi o representante mais forte – que nós podemos reconstituir a história das populações, hoje, porque temos representantes dos primeiros grupos existentes ou, ao menos, uma continuidade daqueles primeiros grupos. Os pigmeus e os bosquímanos nos mostrariam como teria sido a cultura da humanidade, no seu começo. Esse foi o problema principal. Quando se mostrou que esses pigmeus e esses bosquímanos realmente não eram os representantes – hoje conhecemos a imensa trajetória do gênero humano – a construção toda se mostrou frágil e desabou. Em 1954 ele morreu.

Em 1963 fui estudar na Áustria e tomei algumas aulas na Universidade. Quando perguntei pela Escola de Viena, eles me responderam: "que escola?" No próprio núcleo em que eles estavam. Hoje, se vocês procuram alguma coisa sobre essa antiga escola histórico-cultural da Áustria, vão encontrar pouca coisa. Na falha dessa escola, o que apareceu pela frente, nesse momento, foi a Escola de História Americana, que era também histórica e difusionista como a escola austríaca. Nesse tempo, o estruturalismo ainda não era tão acentuado. Então, o que estava disponível, na década de 60, era a Escola Americana, que se tornou a dona deste segundo tempo da Antropologia na UFRGS. Então se trouxe alguma bibliografia e se começou a trabalhar dentro desta escola, até que aparecessem pessoas com outras abordagens e outras teorias, como o prof. Sérgio A. Teixeira e especialmente o prof. Ruben George Oliven. Minha mundança não foi tão radical: simplesmente foi passar de uma escola histórica, de grande difusionismo, para uma escola histórica menos difusionista, que trabalhava com assuntos mais concretos e mais controláveis, em que os pressupostos estavam mais próximos e não sendo postos em discussão.

Sérgio Teixeira: Como o senhor saiu fora da Escola de Viena? Qual foi o estímulo para isso, qual foi o contato, quase físico, para isso?

Schmitz: Foi a percepção de que ela tinha falhado. Foi só isso. Eu sei que o pe. Balduíno Rambo, quando se deu conta, ficou desgostoso. Ele sentiu porque era a vida dele, ele tinha ganhado a sua vida nessa formulação; ele tinha os seus manuais. Mas como eu era muito chegado a ele e ele muito chegado a mim, ele não interferiu. Pelo contrário, ele me deu todas as possibilidades de desenvolvimento, porque achou que eu poderia continuar um trabalho que ele tinha começado.

Ruben: Ele faleceu jovem, não é?

Schmitz: Aos 56 anos. Ele esperava viver ainda 20 anos porque o grande trabalho dele não era a Antropologia. Ele dava Antropologia porque era um cidadão, reconhecido em Porto Alegre. Naquele tempo, a universidade, especialmente a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, não tinham tantos especialistas, como hoje. Naquele tempo, a universidade era uma universidade de "cidadãos honoráveis". Rambo entrou na universidade na categoria de cidadão respeitável, uma pessoa de destaque. Os nossos outros professores, prof. Sérgio lembra, o prof. Lourenço Prunes, o prof. Othelo Laurent, para citar só dois, eram desembargadores, pessoas que tinham destaque na sociedade.

A grande obra de Balduíno Rambo é a botânica. Ele teria gostado de ensinar botânica, mas a cátedra já estava ocupada. Rambo também foi convidado para dar ética no direito. Mas, realmente, lhe coube responder pela Antropologia.

Ruben: Mas, professor, será que não tem uma diferença entre um desembargador: de uma pessoa que entendia do direito, inteligente, bem informado, que podia se tornar professor de geografia, história, e alguém que exercia uma atividade de cientista? E o prof. Rambo tinha uma atividade como botânico, quer dizer, ele tinha uma prática e um método. O que eu queria lhe perguntar é como é que ele passou essa mensagem? O senhor, por um lado é autodidata, mas não é bem autodidata. O senhor aprendeu com o mestre e ele lhe encaminhou num campo que não era o dele, quer dizer, se tornou arqueólogo... Melhor, encaminhou-se para Arqueologia e, ao mesmo tempo, para a Antropologia. Como é que foi essa aprendizagem que foi, ao mesmo tempo, trabalhar com uma pessoa com a qual o senhor tinha uma relação muito forte e que tinha uma mentalidade de cientista e, ao mesmo tempo, lhe disse: bom, desenvolva a Arqueologia, desenvolva a Antropologia. Como é que foi esse processo?

Schmitz: O processo que eu percebi foi muito pequeno. Eu sei que um dia o pe. Balduíno Rambo me chamou e disse: "Olha, não tem ninguém trabalhando seriamente em Arqueologia no Brasil. Esse seria um campo pra você". Ponto, nada mais. Assim. Só isto. "Eu vou lhe ajudar." Então ele me proporcionou saídas do País - naquele tempo não havia pós-graduação. Ele me favoreceu, me deu aparelho fotográfico, me facilitou algumas viagens. Mas foi só isto.

Ruben: E até lá o senhor não pensava em ser arqueólogo?

Schmitz: Eu não tinha nada pela frente. Eu ia ser historiador. Porque o meu verdadeiro pai era outro. Eu fui desviado da minha carreira. Quem me chamou para a universidade foi o pe. Luis Gonzaga Jaeger, que estava velho. Naquele tempo, eu plagiava umas histórias para juventude. O pe. Luis Gonzaga Jaeger olhou e disse: "Mas é um menino que escreve. Eu quero um continuador". Eu não o conhecia nem ele conhecia a mim. Quando eu terminei a minha filosofia, em São Leopoldo, ele pediu ao provincial: "Olha, eu quero esse estudante na Universidade Federal". Naquele tempo, o bispo não queria que a gente viesse para Federal, tinha que estudar na Católica. "Eu quero que esse menino faça um bom Curso de História." Eu tive que fazer exame de madureza, no colégio Júlio de Castilhos, porque o meu curso não valia para entrar na Universidade Federal, nesse curso. Eu fiz a minha madureza naquele fim de ano e o vestibular na Universidade. Era secretário do pe. Luis Gonzaga Jaeger e tinha como destino ser historiador – continuar a história da província sul-brasileira que o pe. Luiz Gonzaga Jaeger tinha começado a fazer. Eu sempre brinco dizendo "tem que cair umas estrelas na cabeça da gente, que não sejam muito grandes, para não esmagar e que sejam suficientemente grandes para iluminar o caminho". Na minha cabeça caíram várias estrelas dessas. A do Luis Gonzaga Jaeger foi a primeira.

Eu era do interior, de Bom Princípio, nunca tinha visto uma cidade. E, de surpresa, fui jogado na Universidade Federal. Em 1957, quando estava no terceiro ano do bacharelado em geografia e história, Balduíno Rambo, que era meu professor, me pergunta: "Você não gostaria de trabalhar comigo?" Eu disse: "Pode ser." Assim, quando terminei o bacharelado comecei a lecionar. Ao mesmo tempo fazia a didática e minhas notas apareciam ao lado das notas dos meus alunos. Prof. José Proenza Brochado estava um ano atrás de mim e era meu aluno.

Em 1959 fui fazer meu Curso de Teologia, em São Leopoldo. Com a morte de Rambo, em setembro de 1961, como seu primeiro assistente, tive de assumir as duas cátedras, a de Antropologia e etnologia e a de Etnografia do Brasil e língua tupi-guarani.

O tupi-guarani tinha-se tornado obrigatório no Curso de História por influência do dr. Plínio Ayrosa, da Universidade de São Paulo. Lecionei tupi-guarani durante alguns anos. Eu tinha estudado guarani, durante dois anos, com o prof. Alejandro Ortigoza, na PUC-RS. Depois Balduíno Rambo me proporcionou um estágio, de um mês, no Paraguai, onde convivi com os meninos de um colégio, participei de atividades no meio do povo e tive algumas aulas com o pe. Guasch, grande estudioso da língua. Cheguei a entender quando as pessoas do povo falavam porque misturavam muitas palavras em castelhano, mas nunca aprendi a falar. A disciplina destinava-se a mostrar a cultura, ensinar regras básicas de gramática, ler pequenos textos, mostrar a influência da língua no vocabulário e na nomenclatura Geográfica do Brasil.

Assim passei da História para a Antropologia, lecionei Antropologia Física e língua tupi-guarani e finalmente me especializei em Arqueologia.

Lembro que, em 1965, de surpresa, recebi a visita do dr. Alfredo T. Rusins, representando o diretor do IPHAN, com uma carta de recomendação do dr. Luis de Castro Faria, um cheque com dinheiro suficiente para fazer uma pesquisa arqueológica e um recibo pronto para ser assinado. Eram verbas do IPHAN que tinham que ser gastas rapidamente para não caírem em exercício findo. Durante onze anos, por ocasião do Natal, vinha um cheque parecido, já agora, sempre, pelo correio. E assim me tornei arqueólogo.

Maria Eunice: Mas, professor, eu quero lhe perguntar é sobre essa sua trajetória anterior, de Bom Princípio até a UFRGS.

Schmitz: Bom Princípio era chamada, naquele tempo, "a paróquia modelo", porque tinha mais padres e freiras que saíram de lá do que da maior parte das outras paróquias dos jesuítas. Minha família era grande, nós éramos onze; oito vivos, ainda hoje; três morreram cedo, com essas doenças que hoje em dia se resolvem com antibiótico. Quando cheguei aos doze anos, fui para o seminário. Me decidi. Era uma carreira possível, era uma coisa que estava dentro da perspectiva. Eu fui para Salvador do Sul, onde eu fiz cinco anos de estudos, de 42 até 47. Era uma escola clássica onde se aprendia latim, inglês, francês, razoavelmente. Com 18 anos, tinha terminado meu ginásio e fui para o noviciado dos Jesuítas. O seminário já era para formação de Jesuítas. De Bom Princípio para Salvador do Sul e de Salvador do Sul para Pareci Novo, nenhuma cidade no meio. Fiz dois anos de noviciado e depois passei para dois anos de estudos clássicos. Com latim, literatura, grego, retórica e uma porção de outras coisas. Depois fui fazer o Curso de Filosofia, em São Leopoldo, no Colégio Cristo Rei. Nesse tempo eu escrevia algumas histórias para a juventude. Eram imitações de histórias que Balduíno Rambo e outros colegas mais velhos escreviam. Eu inventava uma história parecida.

Ruben: Era publicado onde?

Schmitz: No Anuário Inaciano, um almanaque de grande circulação, especialmente na colônia alemã. Originalmente ele só existia em alemão, depois também em português. Balduíno Rambo, todos os anos, tinha uma história fantástica na edição alemã, que se chamava "Die Fahne des heiligen Ignatius" (A bandeira de Santo Inácio). Eu escrevia na edição portuguesa. Através dele pe. Luis Gonzaga Jaeger, tomou conhecimento de minha existência.

Sérgio Teixeira: Mas eram história, crônicas do cotidiano, ou não?

Schmitz: Não eram crônicas. Eram histórias fantásticas ligadas à terra e sua colonização.

Continuando a responder a Eunice. Eu tenho um irmão que é jesuíta e uma irmã que é religiosa. Somos três religiosos e cinco casados. Esses cinco casados têm vinte e oito filhos, de modo que a família continua garantida. Nossas famílias eram muito grandes e muito religiosas: um dia contei 125 primos irmãos, entre eles também muitos religiosos. Tenho ainda dois sobrinhos sacerdotes, do clero da Arquidiocese de Porto Alegre, um deles pároco, o outro formador de novos sacerdotes.

Depois que fiz meu Curso de Fiosofia, em 1955, fui para o colégio Anchieta, em Porto Alegre, onde estava o pe. Jaeger. Naquele tempo, depois da filosofia, nós fazíamos um estágio de magistério, durante três ou quatro anos, como uma primeira experiência profissional. Comecei como regente de classe da quinta série. Depois trabalhei na oitava e logo também no científico e no clássico e finalmente na universidade. Quando cheguei no colégio, sem nenhuma experiência, meus colegas apostavam que eu não daria conta: era um grande colégio só de meninos de classe média. Os alunos mais difíceis eram os da oitava e os professores, às vezes, tinham problemas e precisavam ser substituídos. Lembro minha primeira aula: estava no pátio, sem nenhuma aula naquele dia. No fim do recreio me chama o prefeito de disciplina e manda atender uma turma cujo professor estava faltando. Eu não tinha nada na mão, nem nada preparado; improvisei uma aula para os quase cinquenta alunos. Os adolescentes subiram nas classes, passaram por baixo, conversaram, assobiaram e eu dando matéria. A segunda aula, já agora preparada, foi a mesma coisa. Na terceira aula, silêncio total e plena atenção. Os jovens me tinham testado: não me irritei, nem gritei. Nunca mais tive problemas e fui paraninfo da turma.

Sergio Baptista: Prof. Schmitz, eu gostaria que o senhor resgatasse um pouco do que estava falando sobre o magistério aqui na Universidade, principalmente com a língua guarani. Eu até lhe trouxe, para dar uma olhada, Breves noções de gramática guarani, de agosto de 61. Eu gostaria que o senhor falasse um pouco disso, desses acasos da sua vida, como foi este seu contato primeiro, com as sociedades indígenas, com a língua guarani. O senhor fez todo um estudo, conheceu vários autores – Leon Cadogan, Antonio Ruiz de Montoya. O que ficou desses acasos e desses seus primeiros contatos com as sociedades indígenas?

Schmitz: O que eu ensinava de tupi-guarani era o suficiente, naquele tempo, para cumprir a lei, para as pessoas terem uma noção do que se falava, das palavras que passaram para o nosso vocabulário. Para isso bastava um pouco de gramática, um pouco de exercício, mostrar como a língua tinha sido importante para a formação do nosso vocabulário, inclusive de alguns dos nossos costumes.

Na minha vida há poucas coisas planejadas. O próprio ensino de Antropologia foi assim. Eu lembro o primeiro semestre em em que dei aula de Antropologia Cultural. Eu só tinha um manual relativamente simples. Não havia nada nem na biblioteca, nem em qualquer outro lugar. Depois, com o correr do tempo, passei a ter a maior biblioteca de Antropologia do sul do Brasil.

Sérgio Teixeira: Posso fazer uma intervenção aqui? Mas o prof. Schmitz disse que as pessoas que começaram a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFRGS eram pessoas notáveis da sociedade. Então, o prof. Rambo era um desses notáveis. O prof. Othelo Laurent, o Desembargador Lourenço Prunes, Francisco Machado Carrion, o dr. Dante de Laytano, todos eram notáveis e todos catedráticos. E o prof. Schmitz era, na ocasião, primeiro assistente. Falece o prof. Rambo, o prof. Schmitz começa a responder pelas cátedras.

E então a questão é essa: como uma pessoa, que era assistente de uma pessoa expoente, que era o prof. Rambo, ia ocupar a cadeira dele no Departamento, na Congregação dos professores – que tinha reunião com muito mais freqüência do que hoje – como uma pessoa, na sua situação, se entrosou naquilo ali? Porque, afinal, não era um fundador original. Então minha questão é essa: como é que o senhor se situou, com o título de catedrático, naquele cenáculo?

Schmitz: Eu estava comentando com o prof. Ruben há pouco sobre essas comissões de alto nível em que a gente está. Eu estou no Conselho Consultivo do IPHAN, atualmente, onde estão generais, secretários de cultura e gente desse nível. Eu me sinto uma formiguinha no meio deles. Essa era a minha sensação na Congregação dos professores, onde estavam os desembargadores, onde estava todo esse povo. Eu era um guri, naquele tempo, bem quietinho lá num canto. Eu lembro do Gerhard Jacob com seu charutão; eu lembro essas outras pessoas todas, que falavam com toda segurança. Eu tinha 30 anos, naquele tempo. Não tinha nenhuma experiência. Não tenho até hoje, mas naquele tempo eu não tinha nada mesmo. Sei que a direção, durante um tempo, pensou em trazer um professor americano para a cátedra. Depois essa idéia foi abandonada. Mais tarde se pensou em abrir concurso de cátedra. Mas acho que o único que se inscreveu no concurso de cátedra foi o prof. Gerhard Jacob. Os outros todos que estavam numa situação parecida com a minha, não o fizeram. Até que surgiu a livre-docência, com caráter especial. Ela foi possível quando a constituição do país, durante quatro anos, permitiu que, além dos doutores, também pessoas com dez anos de formação ou cinco anos de magistério universitário, se inscrevessem nesse concurso. Quando o prazo já estava espirando, em três meses, escrevi a tese sobre "Sítios de pesca lacustre em Rio Grande, Rio Grande do Sul". Isso foi possível porque eu tinha um cabedal de conhecimentos, uma pesquisa feita e uma equipe de colaboradores. Com o concurso ganhei o título de livre-docente em Antropologia e de doutor em história e geografia, sem ter feito nenhum curso mais. Com os novos doutores livre-docentes, somados aos doutores de curso, foi possível instalar a pós-graduação no Brasil, que hoje forma seis mil doutores por ano.

Esse título foi como um grande guarda-chuva que validou os trabalhos não coordenados do período anterior. Vou relembrar alguns.

Quando pe. Rambo me falou que eu poderia fazer carreira como arqueólogo, em 1960, escrevi vinte cartas para outras tantas universidades no país e no exterior, buscando a oportunidade de um estágio numa escavação. Só o dr. Alberto Rex González, da Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, me respondeu, dizendo que estava preparando uma expedição de três meses aos contrafortes do Andes e se eu quisesse e pagasse todas as minhas despesas, seria bem recebido. Era uma expedição de trinta e tantos alunos de graduação em Antropologia. Ficamos dois meses, sem comida adequada, sem dinheiro suficiente, sem uma hospedagem razoável. Tudo o que se pode e não se pode fazer, numa expedição, eu aprendi. Inclusive meu diário e minhas fotos também ficaram lá.

Em 1962 e 1964 fiz também estágios com a arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, no museu da UFPR, em Paranaguá, escavando sambaquis.

Mais tarde (1970/71) passei um ano na Universidade Nacional de La Plata, pensando no doutorado, mas meu currículo não fechava com o da universidade argentina.

Tenho também uma madrinha americana, a Dra. Betty J. Meggers, da Smithsonian Institution, que junto com seu marido Clifford Evans, trouxe para o Brasil, em 1964, o Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica (Pronapa). Não participei deste programa, nem dos posteriores organizados por ela, mas sempre tive a sua colaboração. No começo ela parecia me considerar apenas como um competidor, porque localmente eu estava desenvolvendo um programa parecido com o dela. Depois realizei programas parecidos em outras regiões do país. Em todos estes trabalhos, durante toda a minha carreira de arqueólogo, ela não só me oferecia as datas de C14 necessárias, mas também assistência bibliográfica e três estágios, dois nos Estados Unidos e um no Chile.

Há uma outra experiência muito importante na minha carreira. Passei um ano (1963/64) fazendo estudos diversificados na Áustria, especialmente uma permanência mais longa no Museu Etnográfico, na sede do Império Austro-Húngaro. Não foi tanto o estudo, quanto a vivência. Até ali eu escutava os meus colegas falando que eles tinham estado em Paris, em Roma, em Munique e eu ficava humilhado. Depois disso não mais.

Ruben: Como eram as relações... Porque depois se criou o Departamento de Ciências Sociais, não me lembro em que ano, e o senhor era aí catedrático... da disciplina...

Schmitz: Mas nesse tempo eu não sei se ainda era catedrático, porque a Constituição aboliu a cátedra.

Ruben: Bom, mas o senhor era professor titular.

Schmitz: Eu era Professor titular, naquele tempo, sim.

Ruben: E era uma época que era mais... digamos assim... as ciências mais prestigiosas, mais ricas em recursos de pesquisa eram a Ciência Política e a Sociologia. Como era a relação com esses cientistas sociais?

Schmitz: Como eu sempre tive tempo parcial, dava aulas no Curso de História e só vinha mesmo para dar as minhas horas, o meu contato com esses professores era muito pequeno. Mas sua afirmação é verdadeira e prof. Sérgio Teixeira pode testemunhar como foi difícil a Antropologia ocupar o seu lugar junto aos outros dois setores. Tivemos mais problemas com o rigor dos professores de matemática e estatística e, no tempo da maior crise política, um incidente que levou à cassação de um professor de política.

Sérgio Teixeira: Eu vou responder, mais ou menos, o que o Rubem falou; se me permite? Pelo que sempre se falou aqui – o prof. Schmitz talvez não participasse muito disso porque ele não dava aula nas ciências sociais, quem dava era eu –, essa questão da disciplina mais prestigiosa ser a Sociologia e a Política em detrimento da Antropologia. O prof. Schmitz não participava bem disso, ele dava aula na História. Nas Ciências Sociais é que se via com absoluta clareza essa preeminência da Sociologia e da Política, por parte dos alunos e o conjunto dos professores. A Antropologia era desqualificada. Mas, o prof. Schmitz dizia uma coisa que eu acho que eu já registrei nas minhas memórias... que já falei em Horizontes Antropológicos 7. Ele sempre dizia (se não é literal, é quase): "Vamos trabalhar duro que seremos reconhecidos e abriremos espaço". Isso o prof. Schmitz sempre disse, não é? Então, ele sentia que, de fato, nós... ficávamos meio periféricos, não é? Mas a reação foi essa: vamos trabalhar duro – continuar trabalhando duro – que certamente seremos reconhecidos e teremos espaço... e foi no que deu. Se as palavras não são essas, a idéia é assim que funciona.

Maria Eunice: Se permite, professor? Eu queria retomar uma coisa: trabalhar duro, começando com um único livro, é trabalhar duríssimo.

Schmitz: É uma aventura.

Maria Eunice: Eu queria que o senhor falasse, justamente, dessa aventura, desse tempo. Um único livro... Era uma Antropologia que hoje em dia a gente não consegue imaginar. Tinha medição de crânios. Nós ainda temos o medidor de crânios. É uma outra Antropologia completamente diferente da que hoje a gente desenvolve.

Schmitz: Eram várias Antropologias. A disciplina que nasceu na UFRGS, não de uma escola americana, ela nasceu de uma escola européia. E, na escola européia, Antropologia Física se estuda num campo da universidade e Etnografia num outro campo. A Arqueologia num campo, ainda, diferente. Na escola americana, desde o começo, Antropologia Física, Antropologia Cultural, Arqueologia pré-histórica são um só campo de estudo. Mas no começo a Antropologia biológica era uma disciplina que tinha um professor que era médico (prof. Petruzzi). Durante um ano eu dei esta disciplina, olhando mais os aspectos evolutivos, genéticos, as raças e a variedade biológica humana. Algumas dessas noções continuaram a ser dadas porque faziam parte do modo como os norte-americanos oferecem o programa básico de Antropologia. Pe. Balduíno Rambo ainda mandou comprar um esqueleto e a aparelhagem de medição, que era importada da Suíça.

Com a volta do prof. Sérgio Teixeira com seu mestrado na Unicamp e do prof. Ruben George Oliven, com doutorado na Inglaterra, a Antropologia desenvolveu, criou primeiro um Curso de Especialização, depois um Mestrado e Doutorado.

Ruben: O senhor participou da formação teórica de todos que estão aqui.

Schmitz: De fato eu trabalhava teoria antropológica. Não ensinava, mas fazia aprender. Os alunos tinham que ler os livros principais dos autores mais importantes, analisá-los e discuti-los. Eu escutava suas apresentações e discussões de olhos fechados e só intervinha quando era absolutamente necessário.

Ruben: Essa pergunta é que eu queria fazer. Essa é uma pergunta-chave. Existe um debate sobre quando o senhor estava de olhos fechados e sacudindo a cabeça... Metade dos seus alunos acham que o senhor realmente dormia, e outra metade acha que era uma técnica: não estaria mais do que cochilando... um pouco. O senhor sempre fazia a pergunta exata. O senhor já me contou que tem uma enorme facilidade de dormir, inclusive em ônibus. Agora é a sua grande chance do senhor elucidar o que o senhor estava fazendo com os olhos fechados e balançando a cabeça.

Maria Eunice: No ônibus, eu sou testemunha: ele dormia com a pasta, segurando.

Ruben: Eu quero saber em aula.

Schmitz: Olha: eu não sei se eu estava dormindo ou se eu estava acordado. É que realmente, para me concentrar, eu sempre fecho os olhos. Escuto muito melhor. Isto não quer dizer que eu esteja sempre escutando.

Sérgio Teixeira: O senhor organizou vários encontros de Antropologia no Rio Grande do Sul: Ijuí, Passo Fundo, São Leopoldo, em Caxias... Como foi isso aí? Como é que o senhor viu... O senhor levava os seus livros... era um certo... (não vai ficar ruim pro meu lado)... era um certo "desbunde" de exuberância bibliográfica quando o Professor Schmitz exibia seus livros, não é? E aquilo causava para certas pessoas uma admiração: eram 20, 30, 40 livros, sobre assuntos diversos; a maioria deles eram livros em inglês. E causava certo espanto; espanto não... uma certa... As pessoas ficavam aplastadas. Era impactante! Aquele volume de trinta livros de Antropologia reunidos, e pertencentes a uma pessoa! A intenção não era essa. Quer dizer: esses encontros surgiram meio ao acaso; não surgiram somente da Antropologia mas também da Arqueologia.

Ruben: Arqueologia e Antropologia, junto ou separado?

Schmitz: Era separado. Mas surgiram porque havia professores autodidatas, que estavam ensinando Antropologia no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina também. A gente pensou: vamos reunir essas pessoas. Vamos conversar sobre determinados temas. A gente fazia seminários sobre temas que eram importantes naquela época e que esses professores podiam estar lecionando. Isso era feito anualmente, e era uma festa da Antropologia. Porque a comunicação entre os antropólogos era feita nessa oportunidade. O professor Sérgio lembrou em Ijuí, Passo fundo, São Leopoldo, Caxias. Era um período em que as pessoas comunicavam, as pessoas aprendiam, e a gente apresentava bibliografia também. Porque a bibliografia dessas pessoas era muitas vezes um só livro, como eu comecei. Porque a Antropologia estava entrando na universidade. Não havia nenhuma preparação. Não havia nenhum curso para esses professores. Durante muitos anos, nós nos reunimos assim. Até que surgiu o mestrado que reuniu um corpo de professores muito maior e um corpo de alunos muito maior. Depois do mestrado, essas reuniões já não tinham mais sentido. O professor Rubem ainda participou em São Leopoldo...

Ruben: Participei.

Schmitz: Eu lembro da primeira reunião de Arqueologia que realizei. Em 1965 fiz um convite para o primeiro seminário de amadores de Arqueologia. Se reuniram mais de 50 pessoas; não havia nenhum profissional, nem eu nem ninguém. Eu era talvez o mais audacioso. O segundo seminário já não era mais de amadores, mas de profissionais universitários. Nesse tempo, eu comecei a receber a verba do IPHAN. Essa verba eu distribuía entre os mais preparados e dispostos. Com eles, em cinco anos, fizemos o primeiro levantamento da Arqueologia do Rio Grande do Sul. A equipe durou muitos anos. Até que a maior parte dessas pessoas foi se afastando, algumas procurando um curso de mais alto nível e se profissionalizando, mas a maior parte deixou mesmo de praticar.

No campo da Arqueologia as dificuldades de formação eram grandes em âmbito nacional. Quem mais fortemente se deu conta dessa problemática e buscou uma primeira solução foi o prof. José Loureiro Fernandes, professor de Antropologia na UFPR. Ele trouxe arqueólogos do exterior para formar brasileiros: o casal Josef Emperaire e Annette Laming-Emperaire, da França; Wesley R. Hurt, dos Estados Unidos; o casal Orssich, da Europa Oriental; o casal Clifford Evans e Betty J. Meggers, dos Estados Unidos. Esses são os pais fundadores da Arqueologia brasileira, que este ano, em várias reuniões, estamos lembrando. Não é propriamente o começo, mas o recomeço depois de um intervalo. Alguma ligação com o passado foi mantida pelo Dr. Luis de Castro Faria, por isso, quando o IPHAN começou a distribuir verbas, foi ele o avalista dos escolhidos. No tempo em que eu era diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Leopoldo e todos os meses tinha de ir ao Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, eu tinha duas visitas obrigatórias: ao Dr. Castro Faria e ao Dr. Rodrigo Mello Franco de Andrade, fundador do IPHAN, onde também encontrava o Dr. Alfredo T. Rusins e muitas vezes o Dr. Lúcio Costa e o arquiteto Oscar Niemeyer.

Sergio Baptista: As figuras de Madame Annette e da Dra. Meggers são muito importantes na Arqueologia, são fundamentais. Eu gostaria que o senhor comentasse um pouco isso: as influências delas na Arqueologia brasileira, e as influências delas na sua trajetória e, principalmente, na Arqueologia. Eu gostaria que o senhor pensasse aqui, com a gente, o papel dessa Arqueologia no campo da Antropologia, e o seu lugar ou nas ciências sociais ou nos departamentos de História.

Schmitz: Essa era um das questões que se levantavam pelo Brasil afora, quando vocês eram meus alunos. O povo dizia: Como é que um arqueólogo pode ser professor de teoria antropológica? No fim as mesmas começaram a entender que a Arqueologia é parte integrante da Antropologia americana e sua teoria é a da Antropologia. Hoje muitos acreditam que Arqueologia é Arqueologia e nada mais, mas essas são outras histórias.

O que Annette nos trouxe foram dois interesses da escola francesa: o primeiro ligado ao estudo dos sambaquis, o segundo ao povoamento inicial do continente, o "homem das cavernas" com as suas pinturas e gravuras. Eu trabalhei em duas temporadas em sambaquis e com Annette aprendi a fazer escavações minuciosas em grandes superfícies com as quais se podem reconstituir as formas de estabelecimento dos grupos e seus lugares de atividades. O estudo dos sambaquis desde então cresceu muito e abordou novos aspectos da tecnologia, da dieta, das formas de instalação e da sociedade. Pessoalmente venho fazendo contribuições que julgo importantes com relação à diversidade das ocupações litorâneas por populações de culturas e origens distintas.

Através de colaboradores e companheiros de Annette, também aprendi a trabalhar os povoadores mais antigos do território e posso dizer que, nas pesquisas feitas no cerrado brasileiro, tive a oportunidade de encontrar e pesquisar sítios que são fundamentais para entender o desenvolvimento da cultura indígena no planalto e no pantanal. Publiquei, também, vários volumes sobre a arte rupestre desses povoadores primordiais.

Betty Meggers trouxe especialmente o estudo dos horticultores pré-coloniais e a discussão de seu desenvolvimento em direção ao estabelecimento ou não de um estado indígena. Dr. José Proenza Brochado produziu, no meu entender, a melhor síntese dos resultados do Pronapa (1965-1970), embora, mais tarde renegasse o programa, estabelecendo, na sua tese de doutorado, uma síntese diferente para os grupos ceramistas brasileiros. Pessoalmente trabalhei grupos ceramistas do sul e do centro-oeste do Brasil.

A pesquisa arqueológica esteve fortemente ligada à disciplina de Antropologia, no departamento de ciências sociais da UFRGS, mas depois se deslocou para as outras instituições para as quais os professores se transferiram, depois de aposentados. E, em grande parte, se tornou atividade profissional, não universitária, nem acadêmica.

Com a resolução 01/86 do Conama, a Arqueologia brasileira, antes predominantemente acadêmica, passou a ser fortemente contratual. A resolução prevê que em cada lugar em que se faça intervenção no solo, seja para um novo loteamento, uma nova estrada, uma ferrovia, uma barragem ou um linha de transmissão de energia é preciso um resgate do patrimônio arqueológico. Essa disposição coincide com um período em que as verbas para a pesquisa se tornaram muito difíceis. Com a resolução as empresas são obrigadas a gastar uma certa porcentagem do orçamento do projeto em pesquisas, o que traz dinheiro e infinitas possibilidades de trabalho, em qualquer lugar do Brasil. Os antigos projetos extensivos que nós fazíamos tinham, em grande parte, a função de ver o que estava acontecendo nas diversas regiões do território. Os projetos de salvamento estão cumprindo parcialmente essa função, de modo que para os arqueólogos não envolvidos nessa tarefa sobram outros problemas, inclusive costurar e aprofundar os resultados incompletos produzidos nos projetos de salvamento. Minha equipe que é acadêmica tenta entender como os pescadores-coletores do Pantanal se movimentavam durante o ano entre a coleta de moluscos e a pesca nas grandes lagoas ligadas ao rio Paraguai, a coleta de arroz nativo nos alagados e do algarrobo no Chaco e ainda migravam de acordo com a oscilação anual das enchentes do rio. E o estabelecimento de uma história contínua que começa com as chamadas casas subterrâneas do planalto meridional no começo de nossa era e termina com os índios kaingang, seus sucessores. Ou o veraneio, no litoral atlântico, dos índios agricultores do interior.

Ruben: O senhor está envolvido também no CNPq com um projeto que é a formação de novos arqueólogos no exterior.

Schmitz: De fato, conseguimos no CNPq um certo número de bolsas privilegiadas para formação de arqueólogos nas melhores universidades do exterior. Mas também conseguimos bolsas privilegiadas para formação de doutores no Brasil, concretamente num curso de caráter internacional, na PUC RS.

A formação de arqueólogos, no Brasil, ainda é um problema só resolvido parcialmente. Já tivemos, na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, um curso de bacharelado em Arqueologia, que, depois de muitos anos, fechou e que eu saiba, não se abriu outro.

A Arqueologia, como é interdisciplinar, aproveita pessoas formadas em campos diferentes, como História, Ciências Sociais, Geografia, Geologia, História Natural, que recebem sua identificação como arqueólogos através de um treinamento pós-graduado. Este treinamento era, e continua sendo feito, em programas de outras disciplinas. Atualmente existem programas na PUC/RS e na UFPE, ligados à História; na UFS, ligado à Geografia; na UCG ligado à Antropologia; na USP, agora específico de Arqueologia.

Sergio Baptista: Como é que surgiu a Etnologia aqui na UFRGS? Mais a questão ligada aos índios, às sociedades indígenas vivas.

Schmitz: A etnologia tinha duas cátedras: a de etnologia geral, que era o estudo das populações do mundo e a de Etnografia do Brasil. O pe. Balduíno Rambo, em ambas, seguia a escola do pe. Wilhelm Schmidt. Para as aulas tinha escrito dois textos escolares, que ele lia e explicava para os alunos, como os catedráticos europeus. Pe. Balduíno Rambo também fez algumas visitas aos Kaingang, ocasião em que recolheu o material que ainda se encontra na reserva técnica da Universidade. Quando ele falou que eu poderia fazer carreira em Arqueologia, ele me disse: "Eu estou trabalhando com os Kaingang, você vai para a Arqueologia". Mas eram visitas esporádicas, nenhuma pesquisa em profundidade. Durante anos eu dei a matéria sobre os índios, mas a partir de bibliografia brasileira. Professor José Proenza Brochado também trabalhou esta matéria, mas nenhum de nós fez pesquisa no campo.

Ruben: Em que língua o senhor falava com o Padre Rambo?

Schmitz: Só em português. Ele mesmo só falava alemão quando no meio dos colonos de origem alemã e, então, de acordo com a ocasião falava o alemão clássico ou o dialeto local.

Balduíno Rambo era um cidadão brasileiro destacado. Vou lembrar alguns dados. O Instituto Anchietano de Pesquisas publicou um pequeno livro de Arthur Rabuske, S.J., intitulado Balduíno Rambo S.J. sacerdote, naturalista, escritor e líder popular.

Pouca gente conheceu sua verdadeira personalidade. Parecia ter uma casca-grossa, como um coco, mas por dentro era mole, sentimental como só ele. E tinha uma perspicácia incrível. Ele olhava para uma pessoa, sentava e a descrevia da ponta do cabelo até a planta do pé.

Rambo procurava ter uma visão integrada das coisas. Assim, para conseguir uma compreensão melhor do ambiente ele sobrevoou o Rio Grande do Sul e depois partes do Brasil, começando uma cobertura aérea, como mais tarde a Cruzeiro do Sul realizou como base da Cartografia do Exército, que todos nós usamos com tanto proveito. Do trabalho no Rio Grande do Sul, resultou A fisionomia do Rio Grande do Sul, um livro ainda hoje indispensável.

Ele talvez seja mais conhecido como botânico. Sua coleção de noventa mil plantas secas convivia com ele no mesmo espaço. Mas ele se cuidava "para que o cemitério de plantas não invadisse a sua vida espiritual", como registrava no seu diário, que escrevia todas as noites, desde os 14 anos até o fim de sua vida.

Ruben: O diário era em alemão?

Schmitz: Era. É uma pilha de uns dois metros de altura de pequenos volumes, uniformes, escritos em estenografia ou em caracteres góticos, em letra muito regular e páginas densas. Nele está estampada sua vida, suas pesquisas, suas vivências, suas viagens, as reflexões científicas, o esboço de suas histórias populares, seus poemas, suas decepções, sua oração. Ele era profundamente religioso e até místico.

O pe. Rambo tentou fazer um estudo completo das fanerógamas (plantas com flores abertas) do Rio Grande do Sul. Para isso ele tinha recolhido sistematicamente todas essas milhares de amostras e as ia publicando na medida em que conseguia estudar as diferentes famílias. Preocupava-o concluir o trabalho e por isso pedia a Deus e especialmente à Mãe de Jesus que lhe dessem mais vinte anos de vida. Em 1961, entre janeiro e setembro, ele ainda preparou onze trabalhos sobre famílias de plantas, publicadas após a sua morte.

Ele morreu cedo, em setembro de 1961, em conseqüência de um derrame cerebral, aos 56 anos de idade. Tinha pressão alta e nunca se cuidou muito. Suas coleções estão no Instituto Anchietano de Pesquisas, que ele tinha criado juntamente com o pe. Luis Gonzaga Jaeger e continuam sendo estudadas.

Quero lembrar outros aspectos da vida, registrados no diário que Arthur Rabuske está transcrevendo. O pe. Rambo era orador fascinante. Numa festa religiosa em Itapiranga, uma das colônias que os padres jesuítas tinham criado no oeste de Santa Catarina, e que ele acompanhava de perto, a igreja não comportou todos os presentes e por isso a celebração da Missa foi ao ar livre, as pessoas sentadas na grama, eu sentado numa pilha de tijolos. Na hora do sermão o pe. Rambo se levantou, juntou as mãos na frente do ventre e falou uma hora, em alemão clássico, sem mover as mãos. Também do povo ninguém se mexeu. Sintonia total.

Sérgio Teixeira: Como era fundar colônias? Com que dinheiro?

Schmitz: Era como fazer assentamentos, em áreas virgens, liberadas pelo governo, ou pouco exploradas, compradas de seus proprietários. Para isso o padre jesuíta Teodoro Amstadt tinha criado um banco cooperativo (Caixas Rurais), de acordo com um modelo alemão. Balduíno Rambo era muito ligado a essas novas fundações e à colônia alemã, da qual foi provavelmente o melhor conhecedor. Ele a acompanhava diretamente e para ela editava a revista Skt. Paulusblatt (Folha de São Paulo). Essa revista, que ainda se edita, embora não tenha mais o sentido que possuía nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, era "a revista" das colônias alemãs católicas e Rambo era o seu editor. Quando o superior religioso, por intrigas na direção da associação das colônias, lhe tirou a direção da revista, pe. Rambo obedeceu, mas foi como lhe arrancar uma parte da sua vida.

Houve outras decepções que o deixaram triste e abatido. Iam-lhe tirando o solo em que estava enraizado.

Quero fechar esta entrevista lembrando um canto, que ainda me emociona cada vez que o lembro. Foi composto pelo pe. Rambo como o hino do 19º Congresso dos Colonos alemães católicos, que se reuniram, em 1939, em Caaró, lugar em que foram mortos, pelos índios, três padres, pioneiros na fundação das reduções jesuítas no Rio Grande do Sul. Nesse tempo as colônias alemãs eram florescentes, Rambo era um de seus guias, mas nuvens negras se desenhavam no horizonte. (Ver abaixo).

 

 

Hino dos peregrinos ao 19º Congresso Católico em Caaró, RS

Balduíno Rambo, S.J.
Die Fahne des hl. Ignatius, v. 7º, janeiro de 1940, Estação São Salvador (Montenegro), p. 5.

Peregrinos, com o bordão do caminhante armados, seguimos a voz do sino que da Campanha nos convida; para o túmulo sagrado do beato Padre Roque nos dirigimos.
Estribilho: Teu coração caminha à nossa frente, na dor e na fadiga. Dá-nos tua bênção, de Deus Amigo, teu povo somos nesta vida.
Por tua mão de Deus o Filho, nos pardos dias da pré-história, seu soberano trono de bondade ergueu em nossa pátria Amigo.
Teus gloriosos feitos nós cantamos na vida e no martírio. De tua plantação os frutos nós colhemos, de teu espírito herdeiros nos fazemos.
Assim unidos caminhamos, nesta terra peregrinos, até que teu cajado de pastor do Pai à porta nos conduza e sua eterna Paz nos assegure.

(Tradução livre de P. I. Schmitz)

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