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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.8 no.18 Porto Alegre Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832002000200019 

RESENHAS

 

 

Liliane Stanisçuaski Guterres

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

 

 

DABUL, Lígia. Um percurso da pintura: a produção de identidades de artista. Niterói: EdUFF, 2001. 240 p.

 

A literatura sobre as relações entre arte e sociedade contemporâneas vem, significativamente, concentrando o debate nas determinações e implicações sociais da produção artística considerando, prioritariamente, artistas consagrados ou em situação de consagração, investidos, portanto, de alguma forma de reconhecimento público enquanto tal. Nessas análises, focadas nas produções artísticas, a condição de artista do ator social tende a ser naturalizada e dada como inerente.

Em Um percurso da pintura, Lígia Dabul desloca a atenção do objeto artístico para a prática artística, para a experiência coletiva que atuará como definidora da posição social de ser artista. A noção de percurso acompanha o texto etnográfico, dedicado a analisar os processos sociais de conformação de identidades de artista plástico. Nesse percurso de identificação, a autora está atenta à seletividade, à multiplicidade de formas e à circunstancialidade da constituição de identidades de artista, desvelando os mecanismos diferenciadores de indivíduos envolvidos no aprendizado e na prática da pintura. Mais do que nada quer saber como os indivíduos tornam-se artistas, buscando a prática artística da pintura em contextos de não-consagração dos atores sociais envolvidos com ela. Quer saber como se constitui a identidade dos produtores de objetos de arte e como estes constroem sua maneira de conceber a produção artística.

Inscreveu-se num curso de pintura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro. Essa escola, logo somos informados, dedica-se ao ensino da arte contemporânea, pertencendo, portanto, a outro campo de aprendizagem que não o da chamada "arte acadêmica", especificamente, a "pintura acadêmica". É extremamente pertinente e eficaz sua análise desta questão, mostrando a pintura contemporânea para além de sua identificação como "espontânea" e mostrando como é fruto do treinamento, envolvendo rupturas radicais com as disposições corporais e os procedimentos da pintura acadêmica.

Dabul, uma habitué do Parque Lage, consumidora dos inúmeros eventos culturais ali realizados, está familiarizada com esse ambiente. Será como aluna do curso de pintura para iniciantes que encontrará o estranhamento etnográfico. Confessa-nos: não sabia pintar. Sua etnografia, portanto, dá conta de uma turma do curso de pintura de uma escola de formação de artistas plásticos. Ali recolhe as trajetórias de artistas anterior à situação de consagração quando os indivíduos ainda não conquistaram o reconhecimento público autorizado por especialistas. Ali encontra alunos e estará atenta ao percurso da construção de identidades de um artista plástico, num meio artístico que avaliará sua produção de forma autorizada. Como se dá a identificação do aluno como artista? Quem o identifica enquanto tal? Quem segue a carreira de artista? Como os indivíduos tornam-se (ou não) artistas?

Dá peso analítico ao espaço social onde estão situados aqueles que produzem obras e seu valor. Ao localizar as práticas dos atores sociais no tempo e no espaço, aponta as disposições corporais adquiridas durante sua formação que identificam e revelam os comportamentos esperados de um artista. Dabul nos leva para dentro de sua turma, ali acompanhamos os exercícios dos alunos na sala de pintura, as discussões teóricas na biblioteca, as avaliações públicas de algumas obras realizadas na área interna da escola. Seu foco está na diversidade de experiências possíveis na apropriação desse espaço, mostrando a interatividade dos sujeitos na sua ocupação. Desvela a ambiência, cruzando as experiências vividas, buscando os diferentes significados da prática da pintura construídos pelos sujeitos participantes, significados que podem aparentemente se contradizer mas que, nos mostra a autora, não se excluem, ao contrário, convergem. Com descrições pormenorizadas das aulas, mostra os mecanismos de aprendizagem que levam os alunos a automatizar os procedimentos de pintura cujo significado encontra-se no próprio treinamento: é o espaço e tempo de aprendizagem das técnicas e, principalmente, da linguagem da pintura. Ali aprendem as atitudes, os comportamentos de pintura esperados de um artista.

Um percurso da pintura é uma obra bem construída, o tema é instigante, a análise consistente e a leitura do texto, agradável e elucidativa. É um retrato pormenorizado de como um grupo de indivíduos comporta-se, interage e diferencia-se ao longo da sua formação na prática da pintura. Dabul nos esclarece que o entendimento do que é arte contemporânea e o significado de ser artista conforma-se dinamicamente no processo de aprendizagem de "modos de pintar" e está intrinsicamente ligado às relações sociais envolvidas. Será pelo reconhecimento da capacidade de o ator social produzir significado com a pintura que sua identificação como artista se constrói.

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