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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.10 no.21 Porto Alegre Jan./June 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832004000100001 

Apresentação

 

 

Nada mais oportuno, hoje, em face da qualidade dos questionamentos pelos quais estamos passando todos nós, pesquisadores na área das ciências humanas, do que dedicar um número de Horizontes Antropológicos ao tema e à problemática apaixonante da pesquisa antropológica e as novas tecnologias, em particular sobre os impactos das redes digitais e eletrônicas na produção de saberes e fazeres etnográficos.

O título escolhido (Antropologi@web) não pretende definir o tema de que trata, ou seja, a pesquisa antropológica na Internet, mas sugerir o ângulo do qual foram escritos os diversos trabalhos aqui apresentados. O formato deste número, contendo uma série de artigos abrangendo grande variedade de assuntos, reunidos numa espécie de fórum de debates em torno do tema Internet é, sem dúvida, uma proposta adequada para apresentar os múltiplos caminhos da investigação antropológica sobre as modalidades de trocas sociais e simbólicas no mundo contemporâneo, tendo como base as novas tecnologias da informática.

Da mesma forma, a concepção da capa, apresentando a máscara Dogon fusionada à imagem digital de um chip escaneado, alude ao conjunto de entroncamentos e conectores que configuram os caminhos/linhas e nós/pontos característicos da estrutura formal da informação digital, no sentido de provocar uma reflexão sobre os processos que vimos realizando de deslocamento e localização, transformação e armazenagem de informações etnográficas pela memória digital, em substituição à memória analógica, sem que se problematize o estatuto de representação que atribuímos a tais "unidades de informação".

A solidez dos argumentos teóricos contidos nos artigos que conformam o corpo deste número de Horizontes Antropológicos revela que os estudos antropológicos em torno das novas tecnologias da informática e das redes eletrônicas não apenas estão associados ao surgimento de novas modalidades de conhecimento no campo dos saberes e fazeres científicos, mas participam da construção da própria figura humana projetada pelo mundo contemporâneo.

Algumas das características principais da Internet e que colocam em evidência as mudanças sociais relacionadas às tecnologias e novas lógicas econômicas são densamente tratadas por Keith Hart, no artigo que abre esta revista. Especialista em teoria da globalização, Hart, antropólogo inglês, demonstra em seu artigo que pesquisar o tema da Internet é tentar dar conta da própria trajetória da disciplina antropológica na sua relação com a história social e econômica, o que provoca o antropólogo a refletir sobre sua própria trajetória intelectual, no sentido de situar sua prática no âmbito dos novos arranjos sociais inaugurados nas sociedades contemporâneas. Paralelamente, atento a este processo organizacional complexo onde a antropologia da Internet remete aos constrangimentos de uma antropologia na Internet, Hart busca problematizar a questão do que consiste a identificada revolução digital em seu impacto nos diversos níveis da vida social.

Uma antropologia atenta às questões diferenciais das interações sociais configuradas on e off-line, esta é a perspectiva trazida pelo artigo dos antropólogos ingleses Daniel Miller e Don Slater, onde os autores analisam esse fenômeno na etnografia de cibercafés em Trinidad. De forma muito original os autores ressituam as atitudes metodológicas da participação, observação, conversa, texto da construção da pesquisa antropológica atenta à experiência singular com as novas interfaces digitais, problematizando as superposições temporais vividas no cotidiano local na interação com a Internet.

E precisamente porque a antropologia das sociedades complexas moderno-contemporâneas avança no sentido de contestar dicotomias de sistemas culturais tais como a oposição entre Modernidade versus Tradição, é que prosseguimos com o artigo de Jessica De Largy Healy, que traz sua pesquisa junto a comunidades aborígines australianas, onde a autora desvenda as políticas de emancipação cultural desses grupos nos contextos comunicacionais e educacionais das novas redes eletrônicas e digitais, em especial na singularidade do saber Yolngu disseminado pela estrutura da web como forma de organização político-emancipatória dessas comunidades aborígines.

Inspirada nos recursos interativos e integrativos oriundos das novas tecnologias da informática, a revista propõe um espaço de reflexão no sentido de compreender o protocolo da linguagem que funda a "era das tecnologias virtuais". O artigo de Airton Luiz Jungblut é, nesse ponto, esclarecedor para a compreensão de que, independentemente das críticas esboçadas por muitos cientistas sociais sobre as formas complexas que a Internet propõe de operar os jogos sociais, importa o desafio de se apresentar condições de interpretação para o estudo dos processos de transformação social que fundamenta a conectividade disponibilizada pelas novas tecnologias da informática.

De um lado o ciberespaço, que entra como espaço de conexão, colaboração, compartilhamento e interação, já em processo de cotidianização; de outro os ambientes virtuais, contendo componentes de interação e compartilhamento, e colocando o usuário em condição de imersão sensorial coerente e operacional. Nesse sentido, o artigo de Mário J. L. Guimarães Jr., sob a perspectiva de uma etnografia em novas tecnologias tratando dos corpos virtuais empregados em ambientes "imersivos", especificamente criados para a sociabilidade virtual, vem problematizar as questões das interações sociais na web para além dos determinismos do mercado tecnológico. O autor traz, assim, uma importante reflexão sobre o tema do design e da programação computacional para os estudos antropológicos do ciberespaço, ao abordar as interfaces de visualização como parte integrante de trocas sociais no ambiente das redes digitais.

Na abertura do antropólogo para a pesquisa em torno dos dispositivos de apresentação e disponibilização de dados através das visualizações geradas por computadores, apresentamos o artigo de Luiz Antônio Rocha, artista plástico e arquiteto, cujo tema trata da criação artística em ambientes virtuais, denominada ciberarte. Ao referir que o desafio da criação do ambiente imersivo da tela do computador pelo artista se projeta na criação de uma interface entre o real e o virtual que conecte o corpo humano às tecnologias digitais, o autor revela que é a combinação de ciberespaço e realidade virtual (virtual reality) um dos fatores que tem permitido, cada vez mais, que a Internet se caracterize como um ambiente virtual interativo, e onde as informações a serem disponibilizadas na forma de nós e links da web atingem progressivamente o status de representação do real.

Nessa perspectiva, o artigo de Diana Maria Gallicchio Domingues sobre a magia do ciberespaço encontra na teoria clássica dos rituais em antropologia uma inspiração na compreensão do tecnoecossistema (equipamentos e softwares) que é acionado na interatividade homem/máquina no ambiente virtual. Segundo a autora, na ciberarte a experiência corporal imersiva se aproxima da posição que ocupa o corpo nos antigos rituais, o que significa afirmar que as trocas físicas, mentais, sensoriais, perceptivas e cognitivas que o corpo experimenta na interface com as novas tecnologias da realidade virtual imersiva provocam o pensamento antropológico a refletir sobre a representação do Eu na encruzilhada da interseção do real e do virtual tecnológico.

Ao se filiar, portanto, ao estudo das formas integrativas, criativas e interativas de práticas sociais propostas pelas novas tecnologias informáticas, os temas da tradução, interfaces e redes de interfaces colocam, nos dias de hoje, o antropólogo frente à desmaterialização da prática etnográfica. Assim, na linha dos trabalhos sobre as dimensões cibersociais, retornamos a alguns artigos de antropólogos que têm participado da construção científica dos estudos antropológicos na e da web.

Joon Ho Kim, em seu artigo, retoma o trabalho inovador de N. Wiener sobre a cibernética dos anos 1940, acompanha essa trajetória até sua vulgarização sob a influência do gênero literário de ficção científica conhecido como cyberpunk (termo creditado a Gardner Dozois, editor dos livros de Isaac Asimov, nos anos 1980). Além de evidenciar a velocidade das transformações no campo das novas tecnologias, o autor retoma o tema da inteligência artificial, do mundo escuro das corporações mundiais e do poder que elas exercem no controle das informações pela literatura mundial para pensar as ações terroristas dos hackers às redes mundiais de computadores. Cyberpunks ou hackers, trata-se aqui de estilos de vida, "atitudes" irreverentes e iconoclastas diante das novas tecnologias da informática, apontando para a fragilidade de seus sistemas de segurança. Mas a paisagem do ciberespaço não se constitui apenas de comunidades hackers e de poderosas corporações mundiais. É o que nos revela, na seqüência, o artigo de Renata Apgaua sobre o sistema operacional Linux. No seu artigo, a autora enfatiza as formas de sociabilidade via Internet sob a ótica da teoria clássica da reciprocidade em antropologia. Da mesma forma, o artigo de Jonatas Dornelles ensaia uma apropriação dos pressupostos metodológicos clássicos da pesquisa etnográfica com redes sociais na análise da sociabilidade virtual junto a usuários das salas de conversações disponibilizadas pelo provedor Terra, cotejando as suas trocas sociais on-line e aquelas por eles realizadas em situações off-line na cidade, uma vez que o grupo social da pesquisa era residente em Porto Alegre.

A incorporação de tecnologias virtuais na prática etnográfica situa, portanto, o antropólogo no dilema que origina o próprio fenômeno da disseminação descontínua da modernidade tecnológica no âmbito das ciências humanas.

Essas tecnologias acompanham igualmente o cotidiano das tarefas etnográficas, como experienciado por Luiz Eduardo Robinson Achutti e Maria de Nazareth Agra Hassen, e aqui relatadas em forma de artigo, a partir de um projeto multidisciplinar na área da educação e da antropologia.

Por fim, Espaço Aberto apresenta uma reflexão em torno da narrativa como gênero de escrita que aporta questões epistemológicas centrais para a antropologia contemporânea, onde Richard Price nos honra com a publicação de seu depoimento, intitulado Meditação em Torno dos Usos da Narrativa na Antropologia Contemporânea.

Ana Luiza Carvalho da Rocha

Cornelia Eckert