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Horizontes Antropológicos

versão impressa ISSN 0104-7183versão On-line ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. v.11 n.23 Porto Alegre jan./jun. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832005000100032 

RESENHAS

 

Gutemberg Armando Diniz Guerra

Universidade Federal do Pará – Brasil

 

 

BELTRÃO, Jane Felipe. Cólera, o flagelo da Belém do Grão-Pará. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi: Universidade Federal do Pará, 2004. 354 p. (Coleção Eduardo Galvão).

Revelada nesse trabalho cuidadoso de Jane Felipe Beltrão, sente-se a alma de Belém. Alma nascida, clonada (ou será gêmea?) das cidades portuguesas, onde personagens continuam se reproduzindo ao longo do tempo, lá e aqui. Com os personagens vêm os seus papéis, repetidos ou adaptados, suas vidas em todas as suas múltiplas facetas, de alegria e dor, feiúra e beleza, saúde e doença. O texto resulta de uma tese de doutorado, defendida na Universidade Estadual de Campinas, em 1999, junto ao Programa de Pós-Graduação em História Social do Trabalho. O fio da trama é o cólera de 1855, desembarcado da galera Deffensor (que ironia!), chicoteando a cidade de Belém do Pará e o mundo ocidental, com toda a sua morbidez do antes, durante e depois da doença, com toda a força e dramaticidade que o tema comporta.

Organizado com maestria, o texto tem cinco capítulos que desenvolvem os elementos fundamentais para a compreensão do assunto. No primeiro, introduz conhecimentos sobre os aspectos sociais de uma epidemia, aplicados ao cólera, munindo o leitor de instrumentos críticos para a apropriação do objeto da tese. O capítulo seguinte relata a trajetória da doença de Portugal ao Brasil, como um passageiro dos navios da época. No terceiro as polêmicas do enfrentamento entre as linhas de conduta médica começam a se delinear pelo debate a respeito do diagnóstico, o que é aprofundado no quarto capítulo com a querela entre alopatas e homeopatas. O quinto capítulo é um mergulho nas condições de vida cotidiana da população no período da doença. Segue-se uma conclusão em que a autora reflete sobre a importância do evento na história do país.

O estilo de Jane Felipe Beltrão prende o leitor pela fluência enriquecida de detalhes ilustrados pela enorme quantidade e excelente qualidade das fontes consultadas nos arquivos do Brasil e de Portugal. Junte-se a isso a considerável bibliografia lusófona, anglófona e francófona consultada e devidamente citada, complementada com anexos de inconfundível valor histórico, como o da liberação da galera-vetor do problema. O método de trabalho está ali explicitado na conversa viva entre autor e fontes. É ali também que se percebe o fôlego da pesquisadora, caprichosa com os rigores da academia e o toque de sensibilidade para que o relato se aqueça na interpretação dos documentos escritos. Generosa, oferece farta ilustração dos tipos que povoaram o cotidiano das cidades brasileiras e lusitanas do período, estimulando o leitor a uma entrada no túnel do tempo e da gênese da cultura brasileira em todas as suas dimensões. Reproduz, além das imagens, os pregões e a mordacidade presente nas entrelinhas dos documentos consultados, ao que acrescenta o seu próprio e refinado humor ou sua incontida revolta.

Dos detalhes, construídos de fontes qualificadas e manejadas pela historiadora criativa e bem formada, brota a sensação de ter recebido sopro recente, a alma de Belém. Quem ler esse livro vai sentir e perceber a cidade com intensidade diferente em cada um dos seus logradouros, em cada placa de denominação das ruas, em cada nome de praças e avenidas, hospitais, cemitérios. Elas incorporam novos significados, reforçadas pelas identidades reveladas de médicos, governadores, cidadãos comuns tornados heróis, gentes e sítios marcados pela história. Os mapas e croquis antigos da cidade oferecem e reforçam aproximação que é própria do conteúdo que as denominações carregam.

Muito interessante e instrutiva é a discussão sobre os tratamentos e a presença da homeopatia se afirmando como um tratamento valioso. Ali se explicita a força de toda a estrutura ainda presente na cidade, das redes de saberes locais e regionais, com seus curandeiros, rezadores, raizeiros, farmacêuticos e médicos homeopatas.

Atrativa é a forma que propõe de conhecer essa cidade de canais, terras firmes e baixadas, pela reação ao flagelo do Cholera morbus. Flagelo em seus múltiplos sentidos: da identificação citológica do agente patológico ao castigo imposto pela doença aos habitantes da cidade amazônica. Nesse relato, vem a carga do passado embutido no presente e prenhe de ameaças ou esperanças para o futuro. Não seria de Jane Felipe Beltrão se assim não estivesse escrito. Quem a conhece no seu exercício do artesanato científico, tecelã de histórias com o fio do argumento bem fundado, não se surpreenderá. Vai se deliciar de tê-la em nosso quadro de intelectuais e bons autores. Quem não a conhece vai querer ler outras de suas produções semeadas nos congressos, seminários, textos de trabalho, artigos, entrevistas e orientações espalhados em veículos nacionais e internacionais.

Perguntas e incômodos ficarão martelando na cabeça e no espírito de quem se habilitar a ler Cólera, o Flagelo da Belém do Grão-Pará. A primeira é de que, tendo vivido aquele violento surto da doença, como puderam as administrações permanecer e deixar ficar tão vulneráveis as infra-estruturas do município? Como pode ainda Belém estar na modernidade e comportar esgotos e valas a céu aberto? Como pode essa cidade, depois de tudo o que sofreu, ter menos de 10% de rede de esgoto adequada a uma cidade desse porte? Na medicina, alopata ou homeopata, quanto acúmulo se fez e se desfez? O texto, como todo bom texto, provoca inquietudes. Belém pode ser qualquer cidade brasileira, no sentido de que todas elas estão sujeitas a esse tipo de ocorrência. O livro termina com uma cena que, misturando fantasia e realidade, carnaval e doença, propõe a continuação do debate sobre o cólera. Notícia de um jornal brasileiro de circulação nacional dá conta de um feirante em crise de vômitos e diarréia, no alto de um muro, servindo de motivo de riso aos foliões. Não estava bêbado, mas em acesso de cólera em plena festa de carnaval, em 1992, em Recife!

Jane Felipe Beltrão é antropóloga e historiadora, pesquisadora e professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Pará.

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