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Horizontes Antropológicos

versão impressa ISSN 0104-7183versão On-line ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. v.11 n.23 Porto Alegre jan./jun. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832005000100035 

NOTICIÁRIO

 

Teses e dissertações em antropologia defendidas na Univeridade Federal do Rio Grande do Sul no período de Novembro de 2004 a Abril de 2005

 

 

Tese

 

BRUM, Ceres Karam
Orientador: Ruben Geogre Oliven

Esta terra tem dono: estudo sobre a história da história das missões no Rio Grande do Sul.

Essa pesquisa tem por objetivo mostrar a pluralidade de relações estabelecidas na atualidade com o passado colonial missioneiro no Rio Grande do Sul expressas nas narrativas que a ele remetem, demonstrando possíveis modalidades de leitura desse passado e os seus usos públicos e privados. Minha hipótese é que as referências à experiência missioneira (uma experiência de integração colonial a que os padres jesuítas submeteram os habitantes originários guarani durante os séculos XVII e XVIII) ocorrem em situações ritualizadas específicas a partir da geração de mitos em torno do passado missioneiro. Esses processos de mitificação, observados tanto nos discursos que o celebram quanto nos que o criticam, envolvem perspectivas apologéticas e performáticas de interpretação, com o intuito de criar uma consciência histórica individualmente concebida, relacionando a produção de imaginários relativos às Missões a identidades individuais e grupais acionadas através do pertencimento ao missioneiro e outros referentes. A análise antropológica dessas representações foi efetuada a partir de trabalhos de campo realizados entre grupos e instituições ligadas ao gauchismo, turistas, habitantes de alguns dos antigos povoados das Missões, políticos e Mbyá-Guarani, pretendendo apreender a diversidade de formas através das quais os indivíduos e grupos percebem esta experiência passada e a utilizam no seu presente.

 


 

Dissertações

 

MACHADO, Rosana Pinheiro
Orientador: Ruben Jorge Oliven

A garantia soy yo: etnografia das práticas comerciais entre camelôs e sacoleiros nas cidades Porto Alegre (Brasil) e Ciudad Del Este (Paraguai).

O centro de Porto Alegre (Brasil) caracteriza-se pela presença de vendedores de rua desde o século XVIII. Hoje, contudo, essa forma de comércio informal assume proporções extraordinárias, constituindo-se um fenômeno global relacionado à produção e comercialização de pirataria, consumida generalizadamente em todas as camadas sociais. O universo da pesquisa são os camelôs e sacoleiros regularizados que trabalham na Praça XV de Novembro da capital gaúcha e comercializam mercadorias contrabandeadas de Ciudad del Este (Paraguai), trazidas por eles próprios. A atuação dos camelôs no espaço público envolve uma permanente negociação – ora pacífica, ora conflituosa – com o poder público, lojistas, meios de comunicação e vendedores de rua em situação irregular. Afora as dificuldades do trabalho de rua e a competitividade do ofício, os comerciantes estudados formam suas redes de relações (sejam elas de vizinhança, de parentesco ou de companheirismo de viagem) pautadas pela presença constante da solidariedade e lealdade – códigos simbólicos que dão sustentação ao trabalho cotidiano, conferindo sentido ao trabalho e à vida social. Procura-se, com isso, fornecer uma visão ampla do universo estudado, mostrando várias de suas facetas, acompanhadas ao longo de uma etnografia que aconteceu tanto em Porto Alegre quanto na fronteira do Brasil com o Paraguai.

 


 

BALSAMO, Pilar Uriarte
Orientadora: Claudia Lee Williams Fonseca

Substituindo famílias, continuidades e rupturas na prática de acolhimento familiar intermediada pelo Estado de Porto Alegre, 1946/2003.

Esse trabalho trata sobre continuidades e rupturas nas políticas de assistência à infância em relação às diferentes concepções de família, infância, direitos e bem-estar de crianças e adolescentes. Particularmente aborda o caso do acolhimento familiar em Porto Alegre (Rio Grande do Sul, Brasil), e visa analisar os diversos programas de colocação familiar implementados entre 1946 e 2003. Sua história se apresenta como um exemplo de continuidade no que se refere à participação de membros da comunidade em programas públicos de assistência, que envolvem várias gerações, tanto entre as famílias de acolhida como entre as famílias de origem. Nesse trabalho, a questão da extraordinária longevidade (de mais de cinco décadas) do sistema de acolhimento familiar é abordada a partir da análise etnográfica da experiência de famílias participantes do Programa Lares Substitutos – última das modalidades de colocação familiar implementada pela Febem-RS. Essa perspectiva revela a forma como os mecanismos oficiais de funcionamento do programa se reformularam a partir das práticas informais de circulação de crianças. Essas práticas, já existentes dentro da comunidade, colaboraram com os objetivos originalmente planejados desde a administração, otimizando a utilização dos recursos disponibilizados pelos poderes públicos. A suspensão do Programa Lares Substitutos – que implica a ruptura da política oficial de acolhimento familiar, mas não da prática informal de circulação de crianças – é analisada no contexto das mudanças produzidas no marco do processo de implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente, entre 1994 e 2003.

 


 

TEIXEIRA, Talita Bender
Orientadora: Maria Eunice de Souza Maciel

Trapo formoso: o vestuário na quimbanda.

Esse trabalho tem por objetivo analisar as representações relacionadas com o vestuário dos fiéis da quimbanda – modalidade que, dentre as religiões afro-brasileiras presentes no Rio Grande do Sul, cultua as entidades espirituais denominadas Exu e Pomba-Gira. Tendo como foco de análise o imaginário social acionado pelos praticantes da quimbanda na confecção do vestuário, observo a constituição de um ethos significativo para o grupo ao qual se circunscreve a etnografia, ou seja, membros de dois terreiros que praticam a quimbanda na cidade de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre.

 


 

HORVATH, Verônica Perez
Orientadora: Ceres Gomes Víctora

Viver com HIV nos abrigos residenciais: um estudo antropológico sobre a inclusão de crianças portadoras de HIV nos Abrigos da Fundação de Proteção Especial na cidade de Porto Alegre.

Essa dissertação apresenta uma investigação a respeito da situação de inclusão de crianças soropositivas nos Abrigos Residenciais da Fundação de Proteção Especial, na cidade de Porto Alegre, como uma tentativa de contribuir com a pesquisa sobre os aspectos sociais da Aids no Brasil. O método de pesquisa utilizado foi o etnográfico, com um trabalho de campo conduzido entre dezembro de 2003 e julho de 2004, em um dos três Abrigos Residenciais da Fundação, conhecidos até final dos anos 1990 como "casa de portadores". Estudam-se os fatores sociais relacionados com a transmissão do vírus de mãe para filho, e as implicações dessa transmissão no processo de abrigamento de crianças pelo Estado. Por meio da observação do dia-a-dia das pessoas que trabalham e moram no abrigo, trata-se de compreender as formas, por vezes sutis, com que a Aids penetra no cotidiano da instituição, analisando-se os fatores que levam à persistência no tempo de denominações como "casa de portadores", tendo como eixo central as representações que os monitores têm do seu trabalho em relação a outros abrigos da fundação. Por último, toma-se a história do local desde a sua constituição como "casa de portadores" até a sua atual organização como Abrigo Residencial, analisando os efeitos que a luta contra a Aids e o debate sobre os direitos da criança tiveram na mudança de política em relação às crianças soropositivas abrigadas, levados adiante pela fundação, assim como as ambigüidades e contradições próprias de um momento institucional em que novas estratégias de inclusão das crianças soropositivas estão sendo aplicadas nos Abrigos Residenciais.

 


 

MEINERZ, Nadia Elisa
Orientadora: Daniela Riva Knauth

Entre mulheres: estudo etnográfico sobre a constituição da parceria homoerótica feminina em segmentos médios.

Nessa dissertação, são analisadas as práticas e significados sociais envolvidos na constituição da parceria homoerótica entre mulheres pertencentes aos segmentos médios da população, na cidade de Porto Alegre. A partir da abordagem etnográfica, o trabalho discute a compreensão da homossexualidade feminina explorando as diferentes formas de vivenciar as experiências sexuais e afetivas. A análise dos espaços de sociabilidade demonstra que o par homoerótico se estabelece em meio à conformação de estilo de vida, compartilhado pelas redes de relações nas quais as mulheres estão inseridas. A busca de parceiras, orientda pelo "gosto de classe", informa sobre o tipo de feminino valorizado, que pode ser sintetizado na expressão: "nem caminhoneira e nem perua". O processo de construção da feminilidade, que se dá entre mulheres, é pautado, ao mesmo tempo, pela repetição e pela subversão das expectativas de gênero. As narrativas sobre as histórias da parceria que compõem a trajetória sexual e afetiva das participantes da pesquisa apresentam os valores e significados atribuídos pelas mulheres às suas práticas sexuais. A pesquisa demonstra ainda que a constituição da parceria está relacionada a diferentes formas de enunciação das relações homoeróticas, que vão desde a ênfase em dar visibilidade como estratégia política até a posição de não deixar a homossexualidade estampada na cara. A escolha pela forma de enunciação da homessexualidade pode ser interpretada segundo diferentes concepções de individualismo que são discutidas em relação à constituição da parceria sexual afetiva.

 


 

SANTOS, Marcio Martins dos
Orientador: Ari Pedro Oro

Tribunos do povo, servos de Deus: um estudo antropológico sobre políticos e religião na cidade de Porto Alegre.

A presente dissertação pretende ser uma contribuição para o debate acerca das combinações e imbricações entre a religião e a política no Brasil, enfocando a atuação de dois vereadores da Câmara Municipal de Porto Alegre (CMPA) que são também pastores da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

A etnografia do primeiro mandato desses pastores-vereadores, incluindo-se aí sua recente campanha à reeleição, traz subsídios para a reflexão acerca das interferências mútuas entre esses dois campos da realidade social. Se, no início, vemos tais parlamentares colocarem sua igreja acima dos partidos e buscarem uma "sacralização" da tribuna, locus que pretendem converter em mais um espaço de difusão da "palavra de Deus", com o passar do tempo, todavia, evidencia-se uma necessidade desses sujeitos se adequarem a uma lógica de atuação condizente com uma certa concepção de política vigente no país, a qual enfatiza a importância de uma democracia "moderna" e "laicizada". Entretanto, isso necessariamente não implica num enfraquecimento do papel de mediação que esses agentes cumprem ao estabelecer vínculos entre as instâncias burocrático-estatais e seus "fiéis-eleitores": as "doações" que fazem aos "necessitados" são inscritas numa lógica de reciprocidade que, baseada em elementos presentes num certo "imaginário religioso", se pretende bastante diferenciada do clientelismo e do assistencialismo. Por outro lado, a análise da votação obtida por esses parlamentares nas últimas eleições sugere que esse "trabalho social" não foi suficiente para expandir as "bases eleitorais" para além do espaço da igreja: ao invés de uma ampliação, houve um pequeno declínio em relação ao pleito anterior, convidando-nos a uma reflexão sobre os limites da expansão eleitoral dos "políticos religiosos".

 


 

LOPEZ, Laura Cecília
Orientadora: Denise Fagundes Jardim

"¿Hay alguna persona en este hogar que sea afrodescendiente?" Negociações e disputas políticas em torno das classificações étnicas na Argentina.

Essa dissertação analisa aspectos relativos ao processo de etnogênese dos negros na Argentina, particularmente, em Buenos Aires. Trato da etnogênese dos afro-argentinos no contexto mais amplo de transnacionalização dos movimentos sociais, fazendo uma apreciação dos debates atuais observados na Argentina sobre relações étnicas e raciais e as políticas reparatórias. Pretende-se compreender como fluxos e agentes transnacionais revitalizam a discussão sobre as descontinuidades entre o "étnico", o "racial" e o "nacional" nos debates sobre a identidade nacional argentina e reordenam noções e classificações raciais.

Para tanto, observo os lugares em que transcorrem os debates e os agentes que participam diretamente dos fatos relativos à inserção no censo nacional de uma quantificação dos afro-descendentes na Argentina visando fundamentar as políticas reparatórias de Estado. Através da observação direta e de entrevistas abertas, esse trabalho toma o episódio recente da modificação do censo como foco de uma situação exemplar, prestando atenção às negociações e disputas entre diferentes atores (funcionários do governo local, agentes globais e ativistas). O censo está enquadrado numa problemática teórica mais ampla sobre a composição étnica da nação e que expressa de modo mais claro um campo de tensões políticas. Dessa forma, explora-se como algumas das lideranças étnicas refletem sobre a reconfiguração de sua identidade étnica e se vêem comprometidas, como mediadoras, com as políticas de Estado e as tendências internacionais.

Analiso depoimentos de líderes afro-descendentes na Argentina que estão despontando nas negociações com os atores globais, mostrando histórias pessoais de inserção em movimentos sociais mais longa e diversa do que poderíamos supor, que não veríamos se adotássemos as "suspeitas" que recaem sobre a instrumentalidade de seu envolvimento. Dessas trajetórias podemos conhecer algo a mais da reflexão contínua sobre identidade étnica e o modo como se fabrica no bojo das trajetórias militantes, bem como perceber a variedade de experiências que as compõem e o modo como se reconfiguram frente a novos fluxos sociais.

 


 

SILVEIRA, Diego Soares da
Orientadora: Claudia Lee Williams Fonseca

Narrativa histórica, etnografia e reforma agrária em um assentamento rural.

Esse trabalho tem como tema a reforma agrária, entendida aqui enquanto uma política pública implementada pelo Estado, e como objeto de reflexão um processo de assentamento que teve início na década de 1990, e dura até os dias de hoje. O assentamento 19 de Setembro fica em Guaíba (RS), uma pequena cidade localizada nos arredores de Porto Alegre. São 25 famílias de agricultores provenientes da região norte do estado, cujo ingresso nas mobilizações políticas do MST se deu no final dos anos 1980, em um período de transição democrática. Desde o momento em que foram assentados, os agricultores passaram a ser alvo de um conjunto de projetos de "mudança social", tendo como objetivo a concretização de ideais políticos diferenciados: de um lado, o MST, com sua proposta de transformação do camponês em um trabalhador rural consciente dos seus interesses de classe; do outro lado, os agentes governamentais, com seus ideais de agroindústria e inserção do camponês no mercado mundial. Entretanto, a análise da experiência cooperativista implementada no 19 de Setembro demonstra que na prática, pelo menos na década de 1990, essas oposições não eram tão claras assim. Além disso, a análise da ruptura do projeto cooperativista revela o "sujeito oculto" da reforma agrária, aquele que não aparece na mídia, e que se constitui a partir de um projeto camponês: família, trabalho e terra. Diferente do que alguns estudos de caso têm apontado, a organização e o valor família, no caso aqui analisado, convivem perfeitamente com um imaginário político constituído simbolicamente na luta. A análise das narrativas dos assentados mostra que, ao invés de uma introjeção da resignação, os assentados constroem uma imagem de si positiva, tendo como elemento fundamental a simbologia épica do herói, que vence os obstáculos com fé, esperança e bravura.

 


 

BICCA, Alessandro
Orientador: Carlos Alberto Steil

Os eleitos do cárcere: etnografia sobre violência e religião no sistema prisional gaúcho.

A presente dissertação é uma etnografia que tem como objetivo estudar a relação entre atos de violência e como esses podem ser justificados através do discurso religioso. Para tal pesquisei um grupo evangélico, denominado de Estrela do Cárcere, vinculado a Assembléia de Deus e composto por 145 presidiários que cumprem pena privativa de liberdade na Penitenciária Estadual do Jacuí, no município de Charqueadas, Rio Grande do Sul. A pesquisa de campo ocorreu de maio de 2003 a novembro de 2004.

No decorrer do trabalho discorro sobre o significado de ser crente dentro do presídio, a importância da honra e sua influência nas formas de ascensão hierárquica, bem como questões que envolvem a aquisição e o impacto simbólico da habilidade da escrita e leitura para o grupo. Concluindo, relativizo o conceito de violência entre os presos crentes e não-crentes, e discuto como o discurso religioso pode justificar atos de violência praticados entre os detentos. A religião atua como um sistema simbólico e possibilita aos "irmãos" reescrever o seu passado e ter acesso a uma comunidade que os apóia, fornece suporte emocional e material, tanto enquanto presidiários como quando saem do presídio. A violência é percebida de forma diferente entre os crentes e os não-crentes. Entre os presos não-crentes a violência física é o recurso mais utilizado para resolver qualquer problema interno. Entretanto, para os crentes, a violência só é utilizada como último recurso para manter a ordem e a disciplina no grupo, e quando se faz necessária passa a ser percebida não mais como violência, mas como punição e castigo aos que desobedecem a "vontade de Deus".

 


 

GENZ, Antônio Carlos de Madalena
Orientador: Carlos Alberto Steil

A música silenciosa do Darma: o estudo antropológico das práticas e representações de uma comunidade zen-budista em Porto Alegre.

Na medida em que procuramos estudar a implantação e recepção do budismo no Brasil através de um grupo de praticantes sem vínculos étnicos com os países de origem dessa religião, e seu encontro com um mestre autêntico dessa tradição, procuramos mostrar os processos de negociação através dos quais é assimilado esse ensinamento. Por meio de entrevistas e dados etnográficos, vemos que nem sempre, ou necessariamente, a assimilação desse ensinamento é feita dentro dos quadros de entendimento da categoria religião. Como uma categoria que engloba o de religião, muitos dos praticantes entendem o que fazem e vêem a si mesmos como percorrendo um caminho espiritual. Esse percurso reflete uma tendência moderna dos sujeitos a fazer escolhas a partir de uma matriz marcada pela autonomia e reflexividade. Esses dados projetados sobre a questão da formação de uma identidade budista no campo religioso brasileiro se abrem a interrogações, uma vez que, além de religião, o budismo pode ser ressignificado em termos de caminho espiritual ou filosofia de vida, entre outros.

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