SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.11 issue24A recusa da "raça": anti-racismo e cidadania no Brasil dos anos 1830Performing the nation: Swahili music and cultural politics in Tanzania author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.11 no.24 Porto Alegre July/Dec. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832005000200014 

RESENHAS

 

L'Homme: Revue Française d'Anthropologie: Musique et Anthropologie, Paris: EHESS: CNRS: CNL: Société Française d'Ethnomusicologie, n. 171-172, juil./déc. 2004. 584 p. Acompanha CD.

 

 

Marília Raquel A. Stein

Universidade Federal do Rio Grande do Sul* – Brasil

 

 

Com esse duplo número, a revista L'Homme marca um importante espaço na antropologia francesa para a construção de sua identidade etnomusicológica, ao eleger como dossiê temático "Música e Antropologia". Dimensão cultural pouco explorada pela antropologia desse país, a etnomusicologia francesa, aí representada pela equipe do Musée de L'Homme, por exemplo Gilbert Rouget, Hugo Zemp, Bernard Lortat-Jacob, aliada à produção de expressivos nomes norte-americanos como Anthony Seeger, Bruno Nettl, Steven Feld e do franco-canadense Jean Jacques Nattiez, busca sua afirmação como disciplina acadêmica, por um lado, de forma autônoma, por outro, conjugada de forma interdisciplinar com a antropologia. O estruturalismo, que pela via da lingüística influenciaria de forma marcante alguns estudos em etnomusicologia da segunda metade do século XX na França e nos EUA, ainda mostra-se ativo paradigma interpretativo em alguns artigos, porém cede espaço majoritário – de reflexão e compreensão da música como cultura – para análises baseadas na semiologia, no interacionismo simbólico, na antropologia da performance. Se já foram publicados em revistas antropológicas francesas alguns dossiês sobre música, 1 ainda assim esse volume de L'Homme parece representar um fórum particularmente preocupado em sistematizar percepções e concepções de antropólogos e etnomusicólogos franceses e anglo-americanos.

Na apresentação do volume, Bernard Lortat-Jacob e Miriam Rovsing Olsen (p. 7-26), destacam a ausência da pesquisa sobre práticas musicais nos livros mais importantes da antropologia contemporânea francesa e a existência de um único periódico em francês na área de etnomusicologia, publicado em Genebra (Suíça), os Cahiers de Musiques Traditionnelles. Percebe-se nas entrelinhas desse texto introdutório a herança histórica da etnomusicologia francesa ancorada nos estudos estruturalistas. Às preocupações de caráter universalizador, à pergunta pela natureza antropológica da música, contrapõe-se, no entanto, uma nova identidade paradigmática nos estudos etnomusicológicos franceses, constituída a partir da crítica a uma dupla alteridade – o estreitamento analítico da lingüística estrutural francesa e a perspectiva culturalista norte-americana aplicada à música. Ainda no texto de apresentação é apontado que a definição culturalista de etnomusicologia como o estudo da "música na cultura", proposta por Alan Merriam, nos Estados Unidos em Anthropology of Music (1964) – mesmo que mais tarde substituída pelo mesmo autor pela definição de etnomusicologia como o estudo da "música como cultura" (Ethnomusicology 21, 1970) – ainda hoje persiste, particularmente em trabalhos em língua inglesa. Os autores apontam também o fato dessa obra, promotora do casamento entre música e antropologia, desconsiderar os estudos etnomusicológicos em língua francesa de precursores como André Schaeffner e do romeno, radicado em Paris, Constantin Brailoiu.

Sem esgotar os domínios da etnomusicologia, a revista revela a polifonia desta institucionalmente frágil área acadêmica, tão marcada pela vigilância epistemológica em relação a um objeto que não se deixa escrever nem gravar com facilidade, enquanto fenômeno acústico, cinestésico e, acima de tudo, fruto de interações humanas e, portanto, simbólico. As novas tecnologias audiovisuais podem auxiliar por um lado a captar imagens e sons, e também a entrar em diálogo com os grupos musicais estudados, porém, por outro lado, desafiam os pesquisadores a refletir sobre os trânsitos e as transformações desse objeto musical, lançado para além do domínio das interações que envolvem tecnologias do corpo a contextos interacionais mediados pelas tecnologias das redes virtuais e comerciais globais.

A variedade de tendências teóricas é exposta lado a lado nas cinco partes do volume. Na primeira secção, "Campo musical/campo semântico", encontram-se quatro artigos que exploram a concepção semântica do campo musical, isto é, as práticas musicais são abordadas como sistemas de representação. O primeiro texto, de Gilbert Rouget, aborda três ações musicais dos pigmeus BaNgombé (República do Congo), cujas performances repetidas cotidianamente representam práticas polifônicas que se põem em ressonância com todo o corpo social, sendo interpretadas como práticas de sobrevivência, associadas a uma função vital, eficaz e real. O segundo artigo, de Jean-Jacques Nattiez, busca compreender a articulação entre os campos musical e semântico, propondo uma escala de análise de como a música se inscreve em diferentes âmbitos de comunicação: como substitutiva da linguagem verbal, como tradutora de identidades de divindades no ritual, entre outras. Bernard Lortat-Jacob assina o terceiro artigo, sobre a prática musical polifônica de quatro cantores de Castelsardo (Sardenha, Itália), em que cada execução torna significantes as relações que se estabelecem: dominação, afirmação de pertença familiar, busca de harmonias e dissonâncias tanto sociais quanto musicais. Miriam Olsen busca, em seu artigo, o sentido musical a partir da análise das técnicas de composição dos berberes (Marrocos). Todos agricultores e músicos, inspiram-se na ordem botânica (nas propriedades orgânicas e sistemáticas da natureza) para a criação das estruturas musicais e coreográficas da l´ahwas, principal forma cantada e dançada pelo grupo.

A segunda secção, "Conhecer uma sociedade por sua música", inicia com artigo de Vincent Dehoux, em forma de diálogo entre um etnólogo e um etnomusicólogo, sobre a natureza da música e seu potencial de através dela se revisitar a história. Anthony Seeger, na seqüência, reflete em seu artigo sobre as expressões musicais da sociedade indígena Suyá, do Mato Grosso (Brasil), que canta aquilo que é. Ou seja, o canto, performatizado coletivamente, possui uma estrutura dual que remete à organização global dessa sociedade ameríndia, às concepções de espaço e à cosmologia suyá. Os artigos da equipe de etnomusicólogos do Musée de L'Homme, assinados por Jean Lambert, Mireille Helffer e Dana Rappoport, analisam as práticas musicais como operadoras do ritual em cenários ligados a tradições religiosas do Iêmen, Nepal, Indonésia. Na performance dos cantores em Sanaa (Iêmen), se exprime a relação entre tempo musical e tempo social dessa cultura: uma concepção ambivalente de tempo que a música produzida entre homens em reuniões cotidianas revela. Nas tradições musicais em um mosteiro de budismo tibetano, a música não só cria o espaço ritual, como também faz falarem as divindades, atribuindo-lhes propriedades sonoras. Entre os Toraja, em Sulawesi, nas festas de adormecer e festas de despertar a música participa da constituição da metafísica do grupo. O último artigo dessa secção é assinado pela antropóloga americana Margaret Buckner, enfocando o simbolismo da campânula, um instrumento musical real dos Manjako (Guiné-Bissau).

A terceira secção é dedicada à "Análise musical, terreno e experimentação", cujos artigos transcendem a análise textual-musical, lembrando-nos, conforme a apresentação de Lortat-Jacob e Olsen, que música não é uma simples combinação de sons; ela é também um projeto estético, gesto coletivo ou individual e, definitivamente, processo tanto quanto sistema – um sistema que carrega em si princípios de sua maleabilidade e de seu dinamismo interno. Assim, no primeiro artigo apresentado nesse bloco, o etnomusicólogo norte-americano Stephen Blum propõe que a música seja compreendida por conjuntos de códigos de comunicação associados a representações e interações sociais, sendo indispensável analisá-la em seu contexto de produção e recepção. Nos artigos seguintes, tanto o africanista austríaco Gerhard Kubik quanto Marc Chemilier analisam repertórios tradicionais para harpa e xilofones na África central e oriental, relacionando-os a esquemas cognitivos universalizantes. Finalizando a secção, Nathalie Fernando propõe uma análise do sistema escalar da música dos pigmeus bedzan, dos Camarões, que se caracterizaria por propriedades ora estruturais, ora mutantes. A autora propõe uma intervenção sobre o objeto analisado, produzindo eletronicamente versões alteradas das execuções originais, submetidas estas aos comentários dos músicos bedzan.

Na secção "Por que cantar mais do que falar?" dois textos discutem as relações entre canto e fala em settings africanos. O artigo de Monique Brandily analisa as escolhas entre cantar e falar entre os Teda (Chade) como condicionadas ao lugar, às circunstâncias ou ao status social dos locutores. As modalidades de uso vocal assumem, portanto, função de operador sociológico que cria e reforça oposições, tais como homem/mulher, cidade/deserto. No artigo seguinte, Hugo Zemp debruça-se sobre a propriedade dos xilofones de produzir palavras a partir dos três tons da língua senoufo (Costa do Marfim). Essa possibilidade de construção de sentido no interior do contexto de performance estreita a relação entre intérpretes e audiência.

A última secção da revista enfoca "Música, política e instituição". Bruno Nettl, um dos decanos da etnomusicologia nos Estados Unidos, interpreta as schools of music norte-americanas como sociedades tribais, muito organizadas, hierarquizadas, que recorrem ao mito e celebram seus semideuses: Bach, Mozart, etc. Nettl joga com o estranhamento da música erudita ocidental, colocando-a no lugar do "outro" pelo olhar do investigador e pelo método da disciplina. Seguindo a linha dos estudos pós-coloniais, Schéhérazade Qassim Hassan discute como a idéia de modernidade se expressa na música árabe, seja pela adoção da escrita musical, seja de instrumentos ocidentais, resultando em simplificação e negligência em relação à música árabe em sua forma e função principais. Paradoxalmente, é essa imagem ocidentalizada da música árabe que ocupa a cena internacional como se fosse sua principal expressão. O inglês Martin Stokes, atualmente na Universidade de Chicago, aborda a complexidade dos jogos de poder articulados pela via musical, trazendo como exemplo um grupo de rappers turcos emigrados na Alemanha – apreciado por uma burguesia em busca de exotismo e considerado nos anos 1990 como expressão de uma juventude alternativa, antes de conquistar na Turquia a simpatia da extrema-direita. Uma berceuse das Ilhas Salomão reorquestrada para o CD Deep Forest, do músico de jazz norueguês de renome internacional Jan Garbarek, é o foco da análise de Steven Feld, um dos mais argutos críticos dos usos e abusos dos saberes musicais tradicionais pela indústria fonográfica e, por vezes, por projetos pretensamente humanistas.

Em conjunto, etnomusicólogos franceses e norte-americanos demonstram a importância das práticas musicais na construção das sociedades contemporâneas, na medida em que o "musicar" envolve, constituindo, transformando ou reforçando, saberes e comportamentos culturalmente circunscritos. A antropologia francesa contribui, assim, para o desenvolvimento de um pensamento etnomusicológico interdisciplinar e pluralista, enfrentando, junto com pesquisadores norte-americanos, os desafios científicos e políticos de aliar o método de campo à análise do mundo contemporâneo. Resta o desejo de ver nascer, quem sabe nos ecos deste impulso da revista L´Homme, um segundo periódico em língua francesa dedicado à etnomusicologia (fazendo par ao que se publica em Genebra), e que congregue pesquisadores de outros continentes, para ampliar ainda mais a corrente polifônica de pesquisa que tende a dominar a etnomusicologia neste início de século.

Acompanha o volume um CD (76 min) com extratos musicais gravados em campo pelos autores dos artigos – abrangendo uma grande diversidade de culturas e expressões musicais.

 

 

* Doutoranda em Etnomusicologia.
1 Publicou-se, por exemplo, um volume de L´Homme sobre "Geste, Musique et Poésie" em 1998 (n. 146) e outro sobre jazz em 2001 (n. 158-159). Também dois números temáticos na Ethnologie Française: "Ethnomusicologie, recherches récentes" (1984/3) e "Musiques dans la rue – terrain de jeu" (1999/1). Ainda um dossiê "Musique et émotion" apareceu na revista Terrain (n. 37/2001). Vale mencionar também duas outras coletâneas: uma do Cahiers d´Études Africaine (n. 168/2002), dedicado às "Músicas do mundo"; e outra a partir de uma jornada de estudos do Centre d'Etudes Africaines: "Músicas populares: usos sociais e sentimentos de pertencimento" (Paris, EHESS, 2003).

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License