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Horizontes Antropológicos

versão impressa ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. v.13 n.28 Porto Alegre jul./dez. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832007000200007 

ARTIGOS

 

"A ética confucionista e o espírito do capitalismo": narrativas sobre moral, harmonia e poupança na condenação do consumo conspícuo entre chineses ultramar*

 

 

Rosana Pinheiro-Machado**

Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

 

 


RESUMO

Neste artigo, partindo de uma reflexão sobre as transformações da China contemporânea concernentes ao mercado e ao consumo, discuto o papel da diáspora no resgate de valores "tradicionais", especialmente em relação às noções de harmonia, trabalho árduo e poupança, cuja base está no legado filosófico e religioso confucionista. Se hoje assistimos a um consumismo intenso das novas gerações que vivem na China, em sentido oposto, a condenação do consumo de bens supérfluos e a privação individual passam a ser sinais distintivos entre os imigrantes chineses, que trabalham como importadores e distribuidores de bens made in China em Ciudad del Este (Paraguai). Devido a tais características, esboço uma comparação com a ética calvinista, tal qual analisada por Max Weber, traçando aproximações e distinções entre protestantismo e confucionismo, no que diz respeito ao gasto conspícuo, à ética do trabalho e à acumulação de riquezas.

Palavras-chave: China, confucionismo, consumo, diáspora chinesa.


ABSTRACT

In this article, starting with a reflection on change of contemporary China concerning its market and consumption, I discuss the Diaspora role in the rediscovering of "traditional" values, especially related to harmony, hard work and saving notions which are based on religious and philosophic Confucian heritage. If, on one hand, today we can observe a deep consumerism among the young generations who live in China, on the other hand, the denying of conspicuous consumption appears as a distinctive feature among Chinese immigrants who live in Ciudad del Este (Paraguay) and work as importers and distributors of made in China goods. Due to these characteristics, I outline a comparison with the Calvinist Ethic, analyzed by Max Weber, drawing approaches and differences between Protestantism and Confucianism regarding conspicuous spending, work ethic and wealth accumulation.

Keywords: China, Chinese diaspora, Confucianism, consumption.


 

 

A atividade comercial ou mercantil, contemporaneamente, tem sido um traço da diáspora chinesa, que representa cerca de 35 milhões de pessoas ultramar.1 Ao longo dos séculos, houve várias ondas de emigração motivadas por diferentes razões e direcionadas aos cinco continentes. Nesse processo, os laços com a terra natal oscilaram entre maior ou menor estreitamento (Chan, 2000), variando conforme o contexto histórico. Atualmente, devido à evidência do boom econômico – que colocou a China como peça preciosa na vitrine da cena global –, bem como ao papel centralizador do Estado (Li, 2000), podemos dizer que há uma tendência à intensificação do elo econômico e cultural com a terra natal.

Este trabalho tem seu universo empírico voltado para uma das mais recentes manifestações da diáspora chinesa, qual seja, aquela que se deu entre os anos 1970 e 1980 em direção à América Latina ou aos chamados "países novos"2 (MaMung, 2000; Pan, 2006; Trolliet, 2000). Trata-se dos imigrantes situados no Paraguai, mais especificadamente em Ciudad del Este, região fronteiriça com Foz do Iguaçu (Brasil). Estima-se que haja cerca de dez mil chineses na fronteira, entre taiwaneses e cantoneses (província de Guangdong). Esse processo migratório está diretamente relacionado à diplomacia entre Taiwan e Paraguai e, posteriormente, ao boom do sudeste chinês. A grande maioria desses imigrantes trabalha como comerciante/importador de bens tipo "bugigangas" que, por serem produzidos em larga escala, são paradigmáticos da pequena e média indústria da província de Guangdong.

No intuito de acompanhar redes de comércio chinês, realizei trabalho de campo na fronteira entre Brasil e Paraguai entre novembro de 2005 e agosto de 2006. Embora as entrevistas formais, visitas a escolas, igrejas ou restaurantes tenham me sido úteis, foram justamente nos momentos de "aparentes horas jogadas fora" (Fonseca, 2000, p. 7, grifo meu) no interior das lojas, observando a rotina do entra e sai dos consumidores, que surgiram os depoimentos espontâneos mais valiosos.

Etnografando esse cotidiano, percebi que se repetia com freqüência uma retórica bastante forte, alicerçada em princípios confucionistas,3 que prima pelo trabalho árduo, poupança e perspicácia, família, harmonia e equilíbrio, frugalidade, autocontrole e a evitação de excessos. Nesse ideal de vida e privação, o consumo, ou melhor, o "consumismo", era o alvo certeiro de acusação, subjugado à infâmia e à imoralidade. Tal sistema simbólico está relacionado ao processo de construção identitária no exterior, no momento em que os imigrantes – distantes das transformações radicais que a China passou recentemente – resgatam aquilo que consideram mais "autêntico" da cultura, com vistas a se diferenciar do seu Outro, qual seja, os brasileiros e paraguaios, encarados pelos chineses como detentores de lógica de imediatismo, que resulta em práticas de consumo "supérfluo" e "irracional".

É paradoxal, entretanto, o fato de esses mesmos imigrantes constituírem-se intermediários de um mercado global de produtos feitos na China (importando e revendendo-os), e é justamente o universo consumista que os rodeia que lhes possibilita acumular capital. Assim, ao passo que se beneficiam da expansão desse mercado, negam o outro lado da moeda, que é o consumo, dissolvendo a díade mercado/consumo. No entremeio de um universo onde o consumir dos outros é imprescindível, os chineses adotam o não-consumo como valor para si.

A condenação do consumo conspícuo e o ideal de trabalho árduo, aliado a uma vida de privação e autocontrole, são justificados através de um discurso com base confucionista. Esse caminho revelado na etnografia foi instigando cada vez mais a uma tomada comparativa com a obra-mestra de Max Weber (2004), A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, visto que ambas as éticas (protestante e confucionista) possuem paralelos no que diz respeito a um tipo de conduta individual que tem como conseqüência a acumulação de capital.

Tal comparação já foi feita pelo próprio Max Weber, em obra posterior à ÉticaAs Religiões da China – quando o autor afirmou que, apesar das duas éticas serem semelhantes no alto grau de racionalização dos sujeitos, o calvinismo traria o espírito do capitalismo, enquanto o outro o desencorajaria. Há de se estar atento, contudo, ao que separa a realidade do mundo contemporâneo globalizado do universo chinês e europeu analisado por Weber há mais de um século. O mundo, a China e o confucionismo mudaram. Se defendo que o desafio da análise weberiana com a realidade etnográfica é frutífero como uma ferramenta teórico-conceitual, isso se dá a partir do próprio reconhecimento das limitações de tal comparação.

Cabe salientar também que frugalidade, trabalho árduo, poupança e acumulação com vistas às gerações futuras não são características exclusivas ao universo estudado, sequer à diáspora chinesa. Abundam exemplos de migrantes que adotam essa conduta no exterior e que, assim, constroem patrimônio. O comerciante de Ciudad del Este é, nesse sentido, como um padeiro português no Rio de Janeiro, um árabe dono de loja de tecidos em Londres, ou um brasileiro que abre uma churrascaria em Xangai. Então, qual a especificidade do caso chinês observado? E por que a obra de Max Weber nos ajuda a entender essa realidade?

A resposta para as duas questões está justamente no fato de que, no universo observado, o não-consumo e a poupança se dão através da retomada de uma ética filosófica/religiosa baseada na moral, na família, ordem e equilíbrio, noções fundamentalmente chinesas. E isso se constitui num instrumento poderoso para que os negócios fluam bem e propicie o desenvolvimento de uma atmosfera capitalista por excelência, a qual é de suma importância num extenso setor de mercado e consumo que une a China à América do Sul. Hoje, em Ciudad del Este, temos um grupo de imigrantes que, não ingenuamente, resgata e se apropria da retórica confucionista, ressignificado-a em diversos níveis da vida social.

O confucionismo é aqui entendido antes como uma retórica flexível (Wang apud Li, 2000), do que uma verdade absoluta ou um modelo ideal perfeito. Interessa-me mostrar igualmente as contradições ou negociações desse sistema. As diferenças entre representações e práticas são importantes uma vez que, ao longo do trabalho de campo, comecei a perceber que, eventualmente, o informante que ressaltava veementemente a importância de poupar e de consumir apenas "o necessário" era o mesmo que outrora consumia tal qual condenava. Assim, busco entender quando e o que os informantes se permitem consumir.

Passado o trabalho de campo na fronteira Brasil/Paraguai, dando continuidade às minhas pesquisas sobre redes de comércio chinês, realizei trabalho de campo na província chinesa de Guangdong (de novembro de 2006 a maio de 2007), onde os bens comercializados em Ciudad del Este são produzidos. Por mais que as mudanças da China contemporânea fossem-me conhecidas, não deixei de me chocar ao chegar num país cujas grandes cidades são marcadas por uma estética hipermoderna e as gerações mais jovens por um consumo exacerbado. Encontrei um abismo entre a sobriedade dos imigrantes chineses da fronteira e a performatização da "modernidade" da terra natal. Devido a esse contraste instigante e revelador, ainda que meu foco seja o universo dos imigrantes, faz-se necessário, enfim, esboçar uma discussão sobre a realidade da China contemporânea no que diz respeito ao consumo, pensando como isso ajuda a complexificar a própria análise do universo da fronteira.

 

Do maoísmo ao consumismo: notas sobre consumo na China contemporânea

A expressão do capitalismo nas grandes cidades chinesas revela uma estética marcante permeada por símbolos do capitalismo global, bem como práticas de consumo intenso entre as gerações mais jovens. Por outro lado, muitos imigrantes, apesar de manterem vínculos diversos com a China, não vivenciaram com a mesma intensidade as transformações sociais que estão alterando o cotidiano, hábitos e representações naquele país. Afinal, tal mutação deu-se basicamente nos últimos 15 anos, período em que já se encontravam no exterior.

Atualmente, os rumos de tais mudanças começaram a ser questionados pelo próprio Partido Comunista da China que, temeroso das conseqüências catastróficas que isso poderia proporcionar em termos da "moralidade da nação", lançou como prioridade máxima o projeto intitulado "Construindo uma Sociedade Socialista Harmoniosa". O boom da economia chinesa vivenciado nos últimos anos – expresso no avassalador aumento da economia de mercado e no próprio consumismo da população – forçaram as autoridades chinesas, ao menos no âmbito discursivo, a recorrer à antiga herança cultural confucionista e taoísta que versa sobre a moral, o equilíbrio e a harmonia.

Se no trabalho de campo na fronteira percebi um discurso com base confucionista bastante forte, surpreendi-me ao chegar à China e encontrar, de novo, uma tentativa de resgate dessa mesma moralidade para solucionar os males do país. Embora no âmbito das políticas públicas haja um intenso esforço de retomada de valores orientais, a realidade do país ainda nos aponta uma sociedade que muda cada vez mais noutra direção ("ocidentalização") – ritmo esse não acompanhado na mesma velocidade pela comunidade imigrante observada, que se esforça para reconstruir uma China mais tradicional possível.

As transformações radicais pelas quais a China passou nos últimos anos (industrialização acelerada, abertura de mercado, êxodo rural, consumismo, entre outros) são, evidentemente, sentidas diferentemente entre chineses que vivem dentro e fora do território nacional. Para muitos que estiveram longe da terra natal nos últimos 20 anos, a "revolução" acarretada pelo crescimento econômico soa quase que de forma dramática, como percebemos nas palavras de um informante: "Voltar para a China é um sonho impossível. A China do nosso coração não é a China que eu vejo na televisão. Eu não posso voltar, eu não reconheço mais a minha terra." (Li, 46 anos).

Sob o ponto de vista do consumo, essas transformações são realmente vultosas, se pensarmos que há poucos anos a postura sóbria, revolucionária e maoísta predominava nas mentalidades. O consumo de "supérfluos" era repudiado. Embora inicialmente o Partido Comunista, sob o pensamento de Mao Tse-tung, tenha negado o confucionismo e o taoísmo,4 é certo que se beneficiou desse ethos, pois o mesmo ia ao encontro do ideal de desapego ao mundo material.

Atualmente, temos um quadro na China totalmente adverso à ética e estética maoísta. As novas gerações das grandes cidades não apenas consomem bens, como os devoram, tal qual um dragão chinês. As mulheres não usam mais o cabelo curto nem a boina de Mao: elas encrespam os cabelos, fazem cirurgia para abrir os olhos, usam os cosméticos mais sofisticados do mundo e as principais marcas de luxo. Isso reflete uma sociedade que produz avassaladoramente e, cada vez mais, consome o que produz.

No entanto, é importante atentar para o papel do Estado no aumento do consumismo da população. Se ontem reprimiu, hoje liberou. A produção em abundância sem, contudo, a existência de um mercado interno, começou a gerar problemas relativos à natureza desse próprio excedente na economia nacional. Era preciso cultivar o prazer do consumo individual através da idéia de "consumidores modernos e sofisticados", e isso foi feito através de inúmeras campanhas governamentais na metade da década de 1990. Assim, conforme argumenta Pun (2003), o desejo consumista se generalizou a partir de uma iniciativa de cima para baixo. A revolução do consumo na China ou o "movimento conspícuo", nas palavras da autora, começou como uma estratégia político-estatal de conectar a economia nacional à global.

Em poucos anos, a China transformou-se em um dos maiores mercados consumidores do mundo de aparelhos celulares, computadores, marcas de luxo da moda, cosméticos, etc.5 Todos esses aspectos são refletidos na estética hipermoderna das grandes cidades e das pessoas na contemporaneidade. Por outro lado, as desigualdades sociais entre a zona rural e urbana, entre pobres e ricos também se tornaram flagrantes.

Em meus primeiros meses na China, transitando entre Hong Kong, Shenzhen e Guangzhou, não conseguia esconder meu estranhamento daquilo que para mim era a performatizacão máxima da "modernidade", especialmente no que tange ao visual fashion de homens e mulheres jovens. Tudo era oposto ao que eu havia encontrado em Ciudad del Este. Além disso, eu estava diante de uma infra-estrutura urbana impecável, construção civil grandiosa e shoppings e mais shoppings espalhados por todos os lados. Especialmente em relação ao ramo de mercado que eu pesquisava, era surpreendida com a quantidade de lojas que vendiam as mais variadas grifes, originais ou cópias: Rolex, Dolce & Gabbana, Calvin Klein, Chanel, Dior, Tiffany, Cartier, Bally, Diesel. Além das bolsas Gucci e Louis Vuitton, consumidas generalizadamente entre chineses.

É notório o fato que tais bens são made in China. A minha surpresa, contudo, recaía na forma fenomenal e singular com que eles eram consumidos, devido à tamanha banalização. Junto com tais bolsas e acessórios, iPods e, especialmente, telefones celulares eram usados de tal maneira que pareciam extensão do corpo dos indivíduos.

Entender o papel do governo nacional em todo esse processo é tão fundamental quanto desafiador. O maoísmo condenou veementemente o consumo conspícuo. Nos últimos anos, foi o próprio Partido Comunista que estimulou a devoção às compras e abriu sua economia para o mercado internacional. Como remédio das transformações sociais e culturais acarretadas pela revolução econômica, o governo retoma o legado confucionista – remetendo-se às antigas noções de harmonia e equilíbrio e unindo-as à de socialismo – ao entender que os problemas atuais são frutos de uma perda ou distanciamento de uma moralidade.

O discurso oficial é de que foi preciso crescer e acumular para agora tratar das "questões domésticas". Não há harmonia sem equilíbrio. Equilíbrio significa, nessa lógica política, diminuir as desigualdades, a pobreza rural, a corrupção, os danos ambientais e o consumo conspícuo. Artistas, ONGs, meios educacionais e setores da mídia foram convocados para encabeçar esse macroprojeto que prevê uma série de ações até o ano de 2020 – meta para solução dos problemas que pairam sobre a China.

Rejuvenescer a cultura e a sociedade é uma idéia-chave para construir uma sociedade harmoniosa. Rejuvenescer, paradoxalmente, significa recorrer à antiga herança filosófica. Segundo palavras otimistas de Francis Fung (2006, tradução e grifo meus), um intelectual orgânico do atual regime chinês:

Esse novo espírito é construído sobre a essência dos antigos ensinamentos chineses de harmonia, os quais, por sua riqueza, não tem paralelos no mundo. [...] Harmonia tem sido a filosofia dominante na China há 2,5 mil anos, e não é surpresa, apesar do bombardeio da cultura ocidental dos últimos 200 anos, a China redescobrir seu antigo patrimônio. [...] Será um árduo e longo caminho construir uma harmoniosa sociedade socialista na China moderna, não menos que a revolucionária "Longa Marcha" da história chinesa. O ano de 2006 será lembrado como o mais importante evento do Renascimento da Harmonia da China. Tem similar importância ao Renascimento da Europa após o redescobrimento da cultura grega antiga. O desenvolvimento da harmonia na China marca um novo período de vitalidade e espírito nacional assim como o país entra num novo período de desenvolvimento sustentável.

O equilíbrio (aqui igualdade e justiça social) e harmonia (bem-estar social) são noções complementares, continua o autor:

Mantendo a filosofia de harmonia chinesa, o equilíbrio é alcançado através da autodisciplina, valores morais elevados, ordem social em vez de leis estritas e sistema penal. O uso da força é para ser evitado e aplicado apenas como último recurso. A discussão das lideranças da China de hoje sobre Harmoniosa Sociedade estão retornando às antigas raízes [...]. Isto é baseado no intenso desejo do povo chinês por harmonia e o antigo ensinamento de tolerância, aprovação e igualdade. Laotze e Confúcio ensinaram um sistema abrangente de harmonia para a antiga China, a Communique é um sistema de socialismo com características chinesas da China de hoje. (Fung, 2006, tradução minha).

Prestando atenção na retórica oficial, percebemos justamente o sentimento de "perda de rumo" que implica uma "perda da moral" e, sob esse ponto de vista, faz todo o sentido pensar em justiça social recorrendo à herança filosófica confucionista. Não se trata apenas de solucionar problemas sociais de desigualdade, mas também de refletir sobre os rumos de tais transformações recentes e o que isso acarretou de mudança no comportamento da população. Busca-se uma "essência chinesa" em oposição à (estimulada) "invasão" de valores ocidentais dos últimos tempos.

As noções de harmonia e equilíbrio, embora sejam tratadas pelas autoridades chinesas como uma moral a ser resgatada, ou, pelo menos, que deva se estender à esfera política e social, na realidade são categorias fortemente enraizadas na cultura chinesa. Desde longa data, os sujeitos classificam o mundo através delas. Além do fato disso ter vindo à tona no trabalho de campo com os imigrantes, em período posterior, na própria China, ouvia cotidianamente as pessoas ressaltando a importância de que os atos humanos devem ter pingheng (equilíbrio).

A harmonia significa evitação do conflito. Se a religião ocidental pensa o mundo através da disjunção na qual Deus (bem) vence o Diabo (mal), na filosofia oriental essas forças não entram em conflito nem se sobrepõem uma à outra: elas se equilibram. Equilíbrio e moderação andam de mãos dadas. Logo, todo e qualquer excesso é maléfico. O presente é vivido com vistas para o futuro. Para se viver equilibradamente, o tempo futuro não pode ser uma incógnita: deve ser um lugar seguro. Nessa lógica, poupar e não esbanjar são atos necessários.

O "consumismo" seria o oposto de tal ideário, pois o atinge no cerne de sua temporalidade, no momento em que a vida útil dos objetos é cada vez mais curta em nome de novas necessidades e anseios. Gasta-se fugazmente para uma satisfação imediata. Se consumir é um valor presente na sociedade chinesa há apenas cerca de uma década, para aqueles que deixaram a China há pelo menos 20 anos ainda trata-se de uma prática/valor distante, e até mesmo repudiada, conforme mais adiante mostrado.

Em minhas conversas cotidianas na China, fosse com informantes ou amigos aos quais expunha meu estranhamento e as diferenças que percebia dentro e fora do território nacional, era sempre alertada para a ingenuidade ou precipitação de minhas impressões: "não se deixe enganar pelas aparências; face é aberta, mas coração é tradicional" – dizia-me Yifei, minha intérprete e professora de mandarim.

Embora não se saiba exatamente a profundidade das mudanças culturais ocasionadas pela liberalização do consumo na China, é inegável o fato de que o consumo de determinadas tecnologias ou outros símbolos globais traz consigo novas percepções de mundo e comportamentos. A lógica do descarte intrínseca ao consumismo, e tão fortemente vislumbrada entre as camadas médias urbanas na China, possui o imediatismo enquanto um valor necessário e isso, certamente, acarreta mudanças socioculturais profundas, tocando no âmago de uma sociedade que tem, desde longa data, o futuro, a permanência e a poupança como concepções de vida arraigadas nas mentalidades.

 

Comercializar sem consumir: o boom econômico e suas implicações na diáspora chinesa

Os imigrantes chineses de Ciudad del Este posicionam-se no mundo como atores centrais de um mercado capitalista e globalizado: são importadores de bens feitos na China e redistribuem-nos para o mercado latino-americano, já que Ciudad del Este constitui um dos maiores centros comerciais do mundo (fazendo girar aproximadamente 2 bilhões de dólares ao ano),6 no qual "sacoleiros" de diversos países, especialmente brasileiros, vão em busca de mercadorias para revenda.7

Se os imigrantes comercializam produtos top de linha do consumo contemporâneo, é curioso o fato de exaltarem a importância do não-consumo, pois, embora sendo agentes e difusores dessa prática, a condenam e a desprezam. Na loja de Wang (52 anos),8 um dos informantes que mais evoca a moral do despojamento, são vendidos brinquedos de diversos tipos. No primeiro mês de pesquisa encontrei variados modelos, mas quando retornei noutra temporada havia apenas objetos de Hello Kitty, a personagem infantil mais em voga naquele momento.

Wang, que durante as nossas conversas fazia-me sentir culpada até pelo refrigerante que eu bebia, soube mudar rapidamente seu estoque de brinquedos em nome dos apelos consumistas de seus clientes. Dominava a variação do mercado com astúcia, porém não queria aquilo para si. O que precipitadamente pode parecer uma contradição, desvela-nos as diversas e complexas camadas de significados com as quais os sujeitos negociam seus códigos e suas moralidades frente ao mundo dos bens. É possível comercializar, pois tal ato é um problema dos outros. Retira-se de si o peso consumista, no momento em que se atua como um mero intermediário. O que é bom para os outros é ruim para o uso pessoal, embora o consumo dos outros fosse vital para a contínua acumulação de capital.

Não há duvida que existe um conflito estabelecido nesse impasse. Há uma relação tensa com os bens; bens esses que ora simbolizam a fugacidade, ora a fortuna e a sobrevivência. Há de se negociar valores e, dentro dessa moralidade, há de se abrir exceções sem ferir a matriz de significado. A situação de Wang com o mundo material que o circunda é semelhante à de muitos imigrantes de Ciudad del Este. No entanto, se olharmos para sua condição dentro de um quadro social mais amplo – a diáspora chinesa – podemos encontrar algumas repostas para tal paradoxo.

A diáspora chinesa, uma das mais antigas e maiores da humanidade, teve seu início em direção aos países do Sudoeste asiático e depois se espalhou para Europa e "países novos". Ao longo dos séculos tem se caracterizado por diversas ondas migratórias, impulsionada por trocas comerciais, ocupação de tropas chinesas nos países vizinhos, invasões de estrangeiros, convulsões políticas e guerras, crise econômica. As províncias do Sul e Sudeste, por seu turno, concentram os maiores números de emigração, devido a sua localização junto à costa marítima e a uma já instaurada "cultura migratória e comercial".

Nos anos 1980, a industrialização da Republica Popular da China começa o seu boom. Cidades como Shenzhen (hoje umas das mais importantes do país) nasceram para dar conta das demandas propiciadas pela produção diversificada que se expandia na província de Guangdong. Esse mercado gerou um fluxo de pessoas e bens sem precedentes. Milhões de pessoas de diversas partes da China saíram de suas cidades e aldeias em busca de novas oportunidades de trabalho. Além da migração interna no país em direção a Guangdong, um grande contingente oriundo da própria província aproveitou esse momento para comercializar, além-mar, aquilo que a sua região começava a produzir em abundância.

Foi nesse contexto econômico e social que muitos chineses chegaram a Ciudad del Este, que, devido às relações diplomáticas entre Paraguai e Taiwan, já possuía um número significativo de taiwaneses realizando comércio na cidade fronteiriça, juntamente com imigrantes árabes. A situação dos taiwaneses é semelhante a dos cantoneses: chegaram poucos anos antes, também para comercializar bugigangas as quais, antes de serem produzidas na República Popular da China, eram feitas em Taiwan. Então, trata-se de um processo migratório que se deu entre o final dos anos 1970 até o início dos 1990. Há, basicamente, uma primeira geração de 40/50 anos e a segunda, de filhos jovens e/ou crianças.

Se os imigrantes se caracterizam por uma retórica de negação e até repúdio aos bens de consumo "supérfluo", a sua condição no mundo é fruto desse mercado em expansão. No entanto, por um determinado período, a própria China foi apenas um locus industrial devido à sua mão-de-obra barata, sendo o mercado consumidor externo. Assim, a produção interna era descolada do consumo, visto que por mais de dez anos esse mercado significou apenas um meio de trabalho. Como já citei anteriormente, observando o trabalho de Pun (2003), foi apenas na metade dos anos 1990 que industrializar e consumir passaram a ser, na China, uma díade complementar. Entre um e outro, há uma descontinuidade temporal de aproximadamente uma década. O processo de emigração dos informantes situa-se justamente nesse entremeio. Nesse sentido, quando eles deixaram a terra natal, não havia ainda qualquer "febre consumista", pois o sonho do consumo floresceu nas mentalidades tardiamente.

 

Poupança, perspicácia e privação: acumular sem esbanjar

Além da descontinuidade temporal entre o início da produção e do consumo interno, há outra variável de dimensão mais simbólica que deve ser levada em consideração: a própria condição de imigrante. Longe da terra natal, os indivíduos, identificados com seu país de origem tendem a exaltar traços diacríticos de sua cultura. Além disso, a alteridade frente ao estrangeiro faz com que "construir-se chinês" no Paraguai seja conceber a si próprio como diferente dos latino-americanos.

Para Redding (1993), a imigração chinesa tem se caracterizado por manter um forte vínculo sentimental com a China e uma sensação psicológica de não ter deixado a terra natal, o que propicia uma romantização sobre a mesma. Nesse sentido, o autor sublinha que o confucionismo aparece como código moral conveniente, pois valoriza a solidariedade familiar e comunitária. Além disso, ele é tomado como o que há de mais tradicional e autêntico da cultura, sendo alvo de inúmeras (re)interpretações e adaptações conforme o contexto.

Muitos dos meus dados de pesquisa foram observados no cotidiano mais espontâneo de meus informantes, assim como outros foram falas premeditadas especialmente ditas para mim (brasileira) a respeito da China e do que é ser chinês. No conjunto das informações, as noções de futuro, perspicácia e poupança eram sempre colocadas em oposição ao imediatismo e ao jeitinho latino. Nessa oposição, sobressaía a idéia de que uma "cultura de 5 mil anos" era notoriamente mais sábia. Iniciei o trabalho de campo tentando contato com Wang, mas, quando achei que a conversa começava a fluir, fui barrada em minha ansiedade:

Calma, menina, não adianta querer saber tudo hoje. É que nem comer muita comida, vai encher a barriga e depois vomitar, porque não tem espaço para tudo e depois acaba a comida e fica com fome. Tem que ser aos poucos, cada dia come um pouquinho.

Para ele, refrigerante era sinônimo de supérfluo, já que a água existia para matar a sede. Roupas existiam para proteger o corpo; carro, para locomoção. No seu visual de cabelo raspado, roupas de tons cinza e as suas sandálias transparecia a imagem de um homem extramente humilde e desprovido dos objetos do mundo material. Tudo isso ao lado de uma retórica que evocava Confúcio sobre comportamento e sabedoria.9 Espontaneamente, certa vez ele pegou uma garrafa e disse-me: "Isso é não ser chinês [apontava para a garrafa]: você está com sede e tem essa garrafa cheia de água. Você vai tomar tudo de uma vez e saciar sua sede e esquecer que amanha não vai ter o que beber".

Noutra ocasião, um pouco mais exaltado, pois estava ao lado de um paraguaio que lhe cobrava algumas contas, esbravejava: "Latinos, paraguaios são burros: ganham um dinheirinho e já enchem o carro de gasolina no final de semana e vai pra praia gastar, depois não têm dinheiro para comer, chinês pensa no futuro."

Suas falas demonstram a importância de guardar dinheiro e isso seria, conseqüentemente, o oposto do consumismo, prática na qual se despende dinheiro em nome de um desejo passageiro. Poupar é sempre em nome de um projeto futuro, em geral, em nome dos filhos e sua educação. Não esbanjar, viver sem excesso e moderadamente significa equilíbrio e isso trará harmonia, esta sempre compartilhada em nível familiar. Se a poupança em nome das novas gerações é uma característica comum entre imigrantes de diversas nacionalidades, a visão de futuro e harmonia deixa isso ainda mais forte entre chineses ultramar.

Por essas razões, para os chineses é bastante conflitante lidar com paraguaios e brasileiros que não necessariamente possuem a mesma relação com os usos do dinheiro nem a mesma concepção de consumo. Conforme observei em trabalho anterior, por exemplo, os sacoleiros, que são os consumidores diretos dos chineses, caracterizavam-se pelo gasto imediato do lucro obtido: o que se ganhava era imediatamente revertido em presentes caros para a rede de amigos ou parentes, como uma forma de demonstração de afeto, mesmo que isso significasse ficar sem capital para fazer retroalimentar a cadeia comercial. Havia, entre aqueles comerciantes pertencentes a camadas populares brasileiras, a idéia do gozo imediato devido ao fato de "sermos todos mortais" (Pinheiro-Machado, 2005).

Desse modo, para os chineses, a poupança é o resultado da perspicácia e da vida equilibrada e sem excessos. Ou seja, sem gasto conspícuo. A devoção ao trabalho árduo é o caminho para tanto. Traçando um paralelo com a ética calvinista, que toma austeridade com valor máximo de vida a fim de alcançar a salvação divina, a poupança e a acumulação de riqueza, na interpretação weberiana, não pode ser um fim em si mesmo, embora sejam decorrência do trabalho árduo e da privação individual e vistas positivamente como resultado da predestinação (Weber, 2004).

A diferença entre o confucionismo e o calvinismo no que diz respeito à poupança pode ser sintetizada na noção de divino e não-divino. Para o primeiro, ela é o fim a ser alcançado através de uma vida de privação. O gozo, ainda que usufruído pelas gerações futuras, tem um caráter mundano. No calvinismo, ao contrário, o trabalho árduo e a privação devem ser o ideal de vida do indivíduo e, assim, a poupança é apenas uma conseqüência natural que aponta que a missão na terra foi bem cumprida e a salvação é alcançada. Assim, por motivações até opostas (divino e mundano), as duas éticas vão se assemelhar no que se refere à relação do ser humano para com o desfrute dos bens materiais.

O consumo sob o ponto de vista da ética calvinista deveria possuir fins puramente práticos e utilitaristas, cujo objetivo era saciar as necessidades básicas dos seres humanos. Além disso:

A ascese protestante intramundana [...] agiu dessa forma, com toda veemência, contra o gozo descontraído das posses; o gozo estrangulou o consumo, especialmente o consumo de luxo. [...] a ascese lutou do lado da produção da riqueza privada contra a improbidade, da mesma forma que contra a avidez puramente impulsiva – condenando essa última com os nomes de covetousness [cobiça], mamonismo, etc.: a ambição da riqueza com o fim último de ser rico. [...] Confrontando agora aquele estrangulamento do consumo com essa desobstrução da ambição de lucro, o resultado externo é evidente: a acumulação de capital mediante coerção ascética à poupança. (Weber, 2004, p. 155-157, grifo do autor).

Quando Wang menciona que roupa é para vestir, comida para matar a fome, entre outros, subentende-se, da mesma forma, uma moralidade de base confucionista, em que o gasto é administrado dentro de uma racionalidade utilitarista, e o que foge disso é repreensível.

Embora esse discurso sobre o consumo ostentatório se assemelhe com a ética calvinista, dentro de uma lógica de base confucionista a irracionalidade do gasto conspícuo está no risco de se perder de vista a segurança futura, o que pode trazer desequilíbrio para a família. Busca-se a riqueza sem culpa, pois a mesma, por exemplo, pode servir para solucionar eventuais problemas que venham a surgir no interior da família10 – instituição social norteadora na qual deve pairar a harmonia. No calvinismo, conforme pontuou Weber em inúmeras passagens da Ética Protestante, os sujeitos, embora acumulem capital, possuem uma relação desconfortável e culposa com a riqueza, pois ela tem caráter tentador de desvio da missão predestinada por Deus.

Nesse sentido, a negação aos bens de consumo e a forma racional de acumulação de capital com base em princípios filosóficos, culturais e religiosos chineses tem como fundo o alto nível de solidariedade familiar. Ora, para Weber (1968), em As Religiões da China, obra posterior à Ética, essa era justamente a razão pela qual a sociedade chinesa estava fadada a um não desenvolvimento pleno do capitalismo; pois, para o autor, o negócio em família desencoraja a burocratização necessária para tanto. Hoje, conforme argumentarei no item seguinte, entretanto, existe uma extensa discussão teórica que entende que o sucesso das redes de empreendimento e firmas chinesas é justamente o fato de se desenrolarem através de redes pessoais e familiares.

Ainda no rastro dos apontamentos de Weber (2004), a devoção ao trabalho, por seu turno, enquanto prática norteadora de vida e sinônimo de virtude espiritual, em muitos aspectos se assemelha à ética confucionista, pois pressupõe uma conduta de vida submetida ao autocontrole, à privação de prazeres mundanos e a imposição de uma jornada de trabalho árdua.

Durante minha etnografia em Ciudad del Este, na qual estava disposta a "entrar na vida cotidiana dos imigrantes", por inúmeras vezes fui tomada por uma enorme frustração por não conseguir imergir na vida social para além das lojas. Por quase um ano fiz inúmeras perguntas sobre os temas mais diversos e sempre obtinha o mesmo tipo de resposta. Em suma:

– Por que veio para cá?
– Pra trabalhar.
– O que faz nas horas vagas?
– Durmo, pois estou cansado do trabalho.
– Quando não dorme, o que faz?
– Nada, trabalho.
– Fale sobre tua rotina.
– Acordo cedo, trabalho até tarde chego em casa cansado e vou dormir.

A certa altura, a seguinte interrogação me perseguia: "será que não acontece nada na vida dessas pessoas?" A angústia da falta de um "algo mais" fazia-me concluir que se tratava de um problema metodológico, pois a etnografia estava sendo incapaz de dar um passo além. Conversando com Quing (46 anos) – um dos comerciantes mais bem-sucedidos da cidade, sócio de famoso shopping –, já um tanto sem expectativa, antecipei-me: "Então a vida é só trabalho, né? Trabalho, trabalho, trabalho e juntar dinheiro para educação dos filhos, né?" Sua resposta foi um singelo "sim", mas acompanhado de um indescritível brilho nos olhos: "Sim, é isso aí; você disse tudo agora, isso é como a gente pensa, isso é importante para nós."

A partir daquele momento, entendi que o problema não era a etnografia, mas que, de fato, para eles o trabalho era realmente tudo: sentido da vida, esfera social englobante na qual se desenrola boa parte da sociabilidade e da socialização. A racionalidade confucionista e calvinista compartilham, nesse sentido, a idéia do dever do indivíduo em relação à carreira, da obrigação que ele se impõe perante a atividade profissional graças à submissão de conduta de vida consciente (Weber, 2004). Tal sentimento, juntamente com a abdicação do lazer e do ócio, será decisivo para a acumulação de riqueza.

A questão do consumo está, pois, diretamente relacionada ao ócio e aos prazeres mundanos. Não podem, portanto, "dar-se ao luxo" do supérfluo, seja por seu caráter de desperdício, seja ainda pelo incômodo sentimento de culpa que provoca. Lin (37 anos), vinda de uma aldeia da província de Guangdong e que hoje vende bolsas e falsificações de perfume Dior, considerava a privação como norteadora de sua vida. Além de informante, constituímos laços de amizade que extrapolaram o escopo da pesquisa, quando, então, a renúncia ao consumo ficou ainda mais evidente.

Quando estávamos em sua loja no Paraguai e voltávamos para o Brasil atravessando a Ponte da Amizade (que liga Foz do Iguaçu a Ciudad del Este), eu sempre optava por atravessar de ônibus por achar mais seguro e conveniente. A escolha de Lin, entretanto, era sempre caminhar um quilômetro a pé, mesmo sob o ápice do calor acima de 40ºC e congestionamento infindável. Para além da economia de um dólar, a imposição do sacrifício era necessária, o que lhe fazia jamais abrir exceções diante do clima ou do estado de saúde.

Convidei Lin para inúmeros passeios e refeições, mas sem sucesso; pois, em todas as ocasiões, meus convites foram recebidos com respostas negativas. Lin alegava o preço caro de todas as coisas. Durante o carnaval, em que não havia clientes no Paraguai, ela, então, dessa vez tomando a iniciativa, convidou-me para assistir o carnaval de rua, visto que o mesmo era gratuito. O programa, no entanto, não poderia exceder à meia-noite, pois teria que descansar para o novo dia de trabalho.

Para a ética calvinista, tal qual analisada por Weber, o ócio e a perda de tempo com luxos desnecessários era o maior dos pecados. Os indivíduos deveriam dormir no máximo oito horas por dia e até mesmo os esportes eram repreensíveis, ao passo que representavam um desperdício de tempo e de produtividade sobre determinada vocação predestinada. Os imigrantes chineses, embora não vejam o desperdício de tempo como um perigo à salvação divina, também concebem como condenáveis o ato de despender dinheiro e tempo em lazer. De forma semelhante, também impera um código de conduta moral onde a renúncia de hoje é a glória de amanhã, não no plano divino pós-morte, mas no campo terreno do desfrute das gerações futuras.

 

O papel da família (jia) chinesa para uma vida de privação e prosperidade

Se a família vive em harmonia,
todos os negócios irão prosperar...

(Provérbio chinês)

Para Weber (1968), apesar da alta racionalidade e autocontrole dos chineses, a emergência do ethos capitalista estaria comprometida na China e/ou nos empreendimentos chineses devido a alguns aspectos culturais e religiosos fortemente arraigados na sociedade.

O legado confucionista valoriza a hierarquia, a conformação ao mundo tal qual ele é, a aceitação da ordem, a polidez e, principalmente, a importância dos laços familiares e da ancestralidade. Há um alto nível de reciprocidade no interior das famílias e ajuda em casos de adversidades, o que desencorajaria o pagamento de dívidas. Todos esses fatores constituíam empecilhos para o desenvolvimento do capitalismo pleno, segundo interpretação weberiana. Além das considerações supracitadas, Shang Zhiyng (1997) acrescenta que o confucionismo tolera a idéia do mágico, valoriza a sorte e não possui a noção de missão ou chamamento divino.

Ainda no tocante aos empecilhos ao desenvolvimento do capitalismo na China apontados por Weber, Shang Zhiyng (1997, tradução minha) esclarece o papel da família e das redes de relações:

Jen é o principio moral que prevalece na ética confucionista. Seu valor de orientação do relacionamento pessoal lida com a central harmonia. Jen tem dois significados: (a) amar membros da família e (b) amar a todos. O caminho para cultivar a Jen é a consciência e o altruísmo [...]. Para Confúcio li [cerimonial] contém as normas de comportamento e as regras para a etiqueta social sob a direção da Jen, a unidade que faz com que o relacionamento pessoal seja harmonioso e a ordem social estável.

Para o confucionismo, e de um modo geral, para a sociedade chinesa, a harmonia na família (jia) é um dos valores máximos a serem alcançados no curso da vida. Todavia, definitivamente, para Weber, os negócios familiares desestimulariam uma série de fatores intrínsecos ao ethos capitalista. "Características como paternalismo, pessoalidade, oportunismo, flexibilidade não seguem o padrão ocidental de profissionalização e burocratização" (Redding, 1993, p. 3, tradução minha).

Desde longa data, entretanto, diversos autores têm chamado atenção para algumas especificidades de certos setores produtivos chineses (Chan, 2000; Freedmam, 1967; Gipouloux, 2000; Li, 2000; Redding, 1993; Schak, 2000; Wei-Ping, 2000; entre muitos outros), que fluem através de redes familiares e de parentesco.11 Atualmente, contrariamente à idéia weberiana presente em As Religiões da China, é amplamente reconhecido o quanto o negócio familiar não apenas pode ser propício ao desenvolvimento do capitalismo, quanto se constitui num locus privilegiado para tanto. Além disso, desde o trabalho clássico de Maurice Freedman (1967) sabe-se que a competição e os conflitos são características intrínsecas ao sistema familiar chinês.

Segundo Delaune (1998) e Granovetter (apud MaMung, 2000), o sucesso no comércio chinês deve-se às redes de favores entre iguais e à habilidade estrategista. Em casos de comunidades ultramar, o autocentramento, que prima pela evitação dos conflitos, gera um grau de confiança maior. O espírito conciliador está, sobretudo, na manutenção da paz familiar, que jamais deve ser quebrada. O trabalho em família faz com que informações circulem com mais rapidez e lealdade, as desavenças sejam mais facilmente contornadas e o lucro fique concentrado no âmbito da mesma unidade. Para King (apud Li, 2000), a base dos negócios familiares chineses (e também dos pseudofamilares) é o predomínio de valores confucionistas que primam pela lealdade e obrigação. A personalização das redes e a reciprocidade conduzem os empreendimentos, criando um ambiente de investimento de capital que transcende as fronteiras nacionais.

A família, e todos os códigos que giram em torno dela, tem sido, portanto, central no entendimento do sucesso do capitalismo chinês contemporâneo ou, menos pretensiosamente, de certos setores produtivos ou mercantis. Contudo, devido às tantas revoluções culturais e sociais as quais a China passou no último século desde a publicação de As Religiões da China, não podemos dizer, em meu ponto de vista, que Max Weber estava "errado", pois certamente trata-se de dois países completamente diferentes – o de ontem e o de hoje. O interessante dessa questão é que, embora Weber tenha afirmado que o confucionismo se constituiria o grande empecilho que frearia o espírito capitalista, a grande maioria dos autores contemporâneos supracitados que estuda a díade capitalismo ou empreendimento chinês e família usa a própria teoria weberiana (sobre racionalidade e religião) para explicar a especificidade chinesa, partindo do princípio que a afirmação de "insucesso" não serve como modelo explicativo, pois a mesma é extremamente datada no tempo, e a China mudou. Além disso, nem sequer podemos dizer que existe um confucionismo puro nas redes de comerciantes estudadas, mas antes uma aplicação e manipulação de um ethos conforme conveniente.

Em relação aos imigrantes de Ciudad del Este, os negócios familiares seguem uma lógica semelhante ao que foi apontado acima. É fundamental que haja estabilidade – fator esse responsável pelo sucesso da atividade comercial. Devem-se evitar os conflitos e cultivar a boa convivência social, mesmo que superficial, mantendo o quadro das relações pessoais saudável. Mas é no escopo familiar, principalmente, que as idéias de harmonia e equilíbrio nas relações ficam bastante claras.

Por exemplo, os jovens possuem plena consciência de que os pais dão o máximo de si para que não haja casamento interétnico, pois isso seria fonte conflitos na família: princípios e práticas seriam questionados. Quando eu menciono essa questão, Pedro Li (26 anos) responde:

Esse é o problema de geração. Se eu casar com uma brasileira, a geração dos meus pais não aceita um estrangeiro, mas para mim não são estrangeiros. No fundo, no coração deles, essa raiz de chinês já está muito plantada, não são como nós. Eles não aceitam... A cultura para eles tem que estar no coração mesmo, para evitar problemas familiares e facilitar a comunicação.

O casamento interétnico desestabiliza a harmonia e, nesse aspecto o consumo aparece novamente como um marcador de diferenças entre duas ordens culturais distintas (latina e chinesa). Afinal, a mulher brasileira ou paraguaia12 é considerada pela geração mais velha como dotada de valores fúteis e imediatistas, o que implicaria um prejuízo econômico à família, pois esta, ao invés de poupar, teria que satisfazer os "caprichos" consumistas da esposa.

Assim, a poupança, que é fruto do despojamento e da perspicácia de um trabalho árduo, seria inconciliável com os "valores consumistas da mulher latina". A mulher chinesa, por seu turno, tem um papel fundamental para a manutenção da harmonia familiar, pois é ela quem educa os filhos e ajuda o marido a manter um ideal de privação. O interessante nesse sentido é que, apesar dessa retórica calorosa, muitos imigrantes possuem relações extraconjugais interétnicas, o que é perfeitamente aceitável dentro de suas concepções de mundo. O casamento é que tem que ser evitado. Boatos de chineses que largaram a família para "aventurar-se" com uma paraguaia ou brasileira (e, ainda por cima, encheram-nas de presentes) são verdadeiras lendas locais na fronteira e contadas com o intuito pedagógico de espalhar o exemplo de que "homem que se aventura vai à miséria".

Enquanto eu estava acompanhando o trabalho do Chang (36 anos) na redação do jornal chinês da cidade, comentei o que Pedro Li disse a respeito da vontade de "se misturar". Ele, nervoso e acendendo um cigarro, disse que aquilo era fruto dos "calores da juventude", pois "casamento tem que ser com uma mulher chinesa, pois elas nos dão suporte para crescer. Ele não sabe nada da vida. Brasileiras e paraguaias são sanguessugas, levam qualquer homem à miséria."

Porém, graças a uma feliz coincidência etnográfica, o telefone tocou naquele momento. Ele resmungava, fumava ainda mais e suava frio ao telefone. Desligou e começou a falar em tom de desabafo:

Era minha ex-mulher... Quer mais dinheiro... Te digo uma coisa: todo o chinês que casa com uma paraguaia fica pobre. Eu não conheço nenhum que não tenho ficado, porque mulher paraguaia tira nosso dinheiro. Vocês, latinos, só pensam no hoje, no hoje. Saí da China pobre e juntei 20 mil dólares em pouco tempo aqui, até casar com uma paraguaia, que tomou todo meu dinheiro. Eu dava tudo para ela: perfumes, casa, carro, cremes, tudo de primeira linha. Tinha 60 pares de sapato e 30 blusas. Eu nunca comprei nada para mim, só para ela e meu filho. Mas ela sempre queria mais e mais e mais, nunca estava satisfeita com o que tinha. Eu tinha que dar o dinheiro que ela pedia, porque era minha mulher, responsabilidade minha, não podia ter a mãe dos meus filhos queixando-se de mim para meu filho. Hoje eu não tenho nada e nenhum chinês que casou com mulher latina tem, porque vocês pensam só em ser feliz hoje porque são jovens, não pensam no dia da amanhã. Mulher latina é boa pra se divertir, pra brincar, corpinho bonito e tal, mas hoje eu quero uma mulher chinesa para casar e conseguir reestruturar minha vida e estar concentrado para juntar dinheiro para mim e para o estudo de meus filhos.

Nesse depoimento em particular os latino-americanos aparecem como consumistas e imediatistas e os chineses como persistentes. A mulher é fonte de uma tentação quase diabólica e suga o dinheiro, desviando o homem de sua "vocação". Ela é fútil e "fácil". Mesmo assim, ele continua alimentando a coleção de sapatos, celulares e cremes, pois acredita que possui um vínculo inquebrantável de responsabilidade e de dever de equilíbrio com a família, no qual não deve apenas pagar o estudo do filho, mas também deixar a mulher satisfeita para que não reclame dele para o filho. Nesse caso, a responsabilidade matrimonial, a contragosto, se expressa como um dever de manutenção de gastos e renovação de presentes. Por fim, a mulher chinesa13 aparece como a fonte de segurança de uma vida estável e moderada, capaz de apoiar uma vida de privação e assim ajudar no acúmulo de capital.14

O casamento entre chineses e, de preferência, entre pessoas de uma mesma rede de relações, ajuda no desenvolvimento dos negócios, nos circuitos de informação e lealdade. Assim, atinge-se um quadro de harmonia, de "cada coisa em seu lugar". Uma mulher latino-americana desestabiliza essa ordem do mundo. Ela introduz novos hábitos, novas formas de lidar com o dinheiro e novas práticas de consumo. Isso significa que a geração próxima poderia ser profundamente afetada. Por isso, certas mulheres podem ser "boas para brincar" (nas duras palavras de Chang), mas não para o matrimônio, esfera na qual o senso da responsabilidade familiar é muito maior.

A questão do consumismo para os chineses não é tão grave enquanto se mantém como um problema dos outros (da mulher "latina", por exemplo). O problema é quando ele invade as fronteiras da própria família e do próprio grupo étnico. Vejamos: trabalhando-se arduamente e com muita perspicácia, privando-se de prazeres e do lazer, evitando gastos considerados supérfluos, assim consegue-se poupar. Poupa-se para a segurança da família e especialmente para educação dos filhos. O que aconteceu em Ciudad del Este é que a segunda geração, diferentemente de seus pais, que saíram muito pobres do país, pôde voltar para a China para cursar as melhores universidades. No entanto, ao contrário de uma esperada "retomada de laços", voltam mais tarde para o Paraguai questionando os valores tradicionais e aderindo às práticas de consumo com as quais tiveram contato com a geração de jovens chineses.

Tocadores de mp3, iPods, celulares cada vez mais novos, cortes de cabelo modernos, carros esportivos são alguns dos objetos desejados pelos jovens filhos dos imigrantes. Graças ao esforço dos pais de proporcionar estudo, a segunda geração parece-se muito mais com a conjuntura da China contemporânea do que com seus pais, que estiveram distantes das transformações recentes da terra natal. Como me disse Pedro Li:

É muito forte a China plantada no coração deles... Eu sou chinês, eu gosto da comida, das músicas... Eu sei que eu sou diferente de ti, por exemplo, mas eu também gosto de outras coisas, de me abrir para o mundo. Quando eu cheguei na China [risos] eu era "mais chinês" do que os meus colegas, entende?

O conflito cultural de geração é um conflito, entre outras coisas, fundamentado no consumo. Sobre isso, ficam-nos em aberto as seguintes questões: a juventude constitui-se uma geração que introduz novos valores na comunidade e a muda radicalmente? Ou a comunidade possui estratégias suficientes para contornar a situação, sendo isso apenas "os calores da juventude" (segundo disse Chang), e a vida adulta mostrará o caminho daquilo que se acredita ser a verdadeira virtude humana?

 

Quando se permite "dar-se ao luxo" e o sucesso empreendedor

Qualquer conduta de vida que se caracteriza pelo rigor e até por uma radicalização de suas normas há de buscar subterfúgios e abrir exceções. A retórica confucionista opera através de um senso estrito de privação e condenação de certos prazeres mundanos. Ora, a vida no exterior e todas as novidades que ela apresenta têm a dupla característica de resgatar e acirrar o discurso de um legado cultural como o confucionismo e, ao mesmo tempo, de impor a curiosidade de experimentar o novo e de escapar à regra estrita.

Como tenho defendido, o confucionismo deve ser entendido como um código flexível. Entender as contradições, exceções, negociações, etc. complexifica a análise do nosso objeto. Discutirei, pois, um pouco sobre o "fugir à regra": as práticas dos imigrantes que se distanciam por completo da retórica sustentada na maior parte do tempo. Isso não significa dizer que os informantes são cínicos ou que suas falas são contraditórias ou inverdades. Apenas que os indivíduos são capazes de lidar com dois (ou mais) códigos, no caso aqui, o mundo chinês e as descobertas "latinas". Como citei anteriormente, a mulher estrangeira é uma dessas exceções, pois a ela dar-se-ão inúmeros presentes.

No Paraguai, muitos chineses possuem relação extraconjugal com mulheres da fronteira. Muitos comerciantes possuem funcionárias locais e jovens. Vejamos Wang, o informante mais "ortodoxo" que conheci. Ele empregava duas, sempre que eu entrava na loja elas se olhavam e riam, dando a entender que eu era um alvo em potencial para seu patrão. Certa vez, uma falou-me que eu tinha "caído na loja como um presente", ou seja, ele, em toda a sua privação e modéstia, nem precisara procurar por uma mulher.

Wang após aproximadamente vinte minutos evocando Confúcio, demonizando o gasto conspícuo e ressaltando a importância de se pensar no futuro, sempre me convidava para jantar. Eu desviava o assunto de todas as maneiras e, então, sua proposta ia aumentando de intensidade a fim de me convencer: "eu tenho carro, eu posso te pagar o restaurante mais caro que você quiser. Escolha qualquer lugar, qualquer coisa, eu tenho dinheiro, eu pago!" O gasto conspícuo, então, aparecia.

Não se trata aqui de tentar invalidar ou sequer questionar o discurso dos informantes. Nesse caso podemos perceber que até mesmo os códigos mais estritos de conduta moral possuem flexibilidade e maleabilidade, especialmente em um ambiente de contato intercultural. A possibilidade de uma mulher estrangeira, para muitos chineses, é fonte tentadora de gasto conspícuo, que pode se caracterizar como desvio ou exceção à regra. Isso pode ser vislumbrado na "coleção de sapatos e cosméticos" da ex-mulher de Chang, por exemplo. Da mesma forma, o empreendedor chinês que tinha que pagar duas pensões para filhos que obtivera em duas diferentes relações extraconjugais com brasileiras. Em Foz do Iguaçu, um outro fato curioso acontecia, revelador do imaginário local. Quase sempre que eu entrava em um táxi e dizia que estudava os chineses, os motoristas contavam alguma história de um imigrante que havia ficado "deslumbrado" pelas mulheres de lá. Muitos se indagavam por que eles davam tantas coisas para as mesmas.

O interessante é que toda a repressão que os chineses impõem a si próprios para com o consumo acaba gerando, em determinadas situações, numa liberalização extremada, que é resultado de um não-aprendizado dos limites consumistas do mundo da fronteira. Na maioria das vezes, quando se decidia gastar com mulheres, isso significava gastar muito, sem comedimento, o que era estranho para muitos brasileiros e paraguaios.

Além da esfera dos jogos afetivos, a primeira vez em que fui ao cassino do Paraguai, surpreendi-me com a quantidade de chineses jogando e gastando fortunas: cifras acima de quatro dígitos... Aquilo para mim era inconcebível diante de tudo o que eu ouvia e via deles diariamente.

Vários trabalhos mostram que, na vida de imigrante, os cassinos são um dos principais espaços de sociabilidade dos chineses (por exemplo, Chan, 1990; Wundrak, 2006). De fato, a sorte, o palpite, é algo muito importante para a cultura chinesa, conforme anteriormente já havia chamado atenção o próprio Weber (1968). Gastar muito dinheiro num cassino, de acordo com a lógica nativa, não significa, entretanto, uma contradição ao ideal de perspicácia, privação e poupança, já que tal gasto representa um desafio à sorte e ao autocontrole frente aos olhos da comunidade (informação verbal).15

Se alguns chineses gastam muito em cassinos, é porque muito deles acumularam verdadeiras fortunas. A imigração chinesa de Ciudad del Este, no geral, pode ser considerada bem-sucedida, pois a maioria das pessoas conseguiu acumular dinheiro e bens. Não são raros os enriqueceram, e até mesmo os "mais pobres" tinham conseguido adquirir algum patrimônio.

Voltamos aqui a um ponto crucial da comparação entre calvinismo e confucionismo. A concepção de sucesso presente entre os imigrantes chineses está muito ligada à idéia do esforço individual; e culpam a apenas si próprios por qualquer fracasso. Entre eles, não há a lamúria de um sistema injusto, pois entendem que todos tiveram oportunidades parecidas. O problema é algum vacilo na trajetória individual; por isso, aceitam com resignação o fracasso, embora reconhecendo que só o trabalho árduo poderá reconduzi-los à boa sorte.

Durante um bom tempo da pesquisa, ouvindo as lamentações de Lin e Wang, achava-os um exemplo de um empreendimento malsucedido quando comparados com outros comerciantes chineses ou árabes da região. Ambos reclamavam diariamente da fraqueza dos negócios e da dureza da vida. Lin negava-se a ir a restaurantes e, mesmo sob as piores condições, sacrificava-se para atravessar a ponte a pé. Wang vestia roupas maltrapilhas e sua loja era extramente modesta. Entretanto, pouco a pouco, fui descobrindo algumas de suas posses e propriedades. Lin tinha um apartamento residencial, duas lojas, uma sala de estoque, um carro e uma van. Por seu turno, Wang era proprietário de um prédio de quatro andares...

Na realidade, é justamente a desvalorização da riqueza (ou o discurso de privação e despojamento) que a atraía. Como salientou Weber (2004), a ganância ilimitada de ganhos não se identifica com o capitalismo, nem com seu espírito. O capitalismo se identifica com a restrição e controle dos impulsos "irracionais". Assim, a acumulação de capital em nome de uma geração futura dá-se através da abdicação de todos (ou quase todos!) gastos conspícuos.

 

Notas conclusivas

Embora boa parte da população ultramar chinesa mantenha inúmeros elos comerciais e afetivos com a China, as transformações recentes e radicais no país fazem com que ser chinês fora do território seja bastante diferente se comparado àqueles que viveram e ainda vivem cotidianamente as mudanças de valores e comportamentos.

Ao passo que as podemos perceber o florescimento do consumo como "hedonismo moderno" (Campbell, 2001) em diversas partes da China – ao vermos crescer espantosamente a aquisição de bens de última geração disponíveis no mercado –, muitos imigrantes, devido à própria condição enquanto tal, andam no sentido oposto, apegando-se inclusive à retórica confucionista e proclamando a humildade. Para eles, não se trata de uma moralidade a ser resgatada (tal qual procura-se fazer na China por meio de políticas públicas), mas algo que pode fazer todo o sentido e ajudar no objetivo de uma vida de privação, na qual se poupa em nome de um futuro seguro e equilibrado, e de uma família e vida harmoniosa.

A poupança e a privação caracterizam uma conduta de alta racionalidade e autocontrole dos indivíduos, conforme já constatado por Weber em seus estudos sobre a China no início do século XX, quando mostra as semelhanças com a ética protestante. Os dados etnográficos indicam que na contemporaneidade tal paralelo entre as duas éticas – o confucionismo e o calvinismo – ainda desponta como um caminho frutífero de análise; pois, na vida de empresário além-mar, presente no universo empírico por mim observado, o confucionismo é resgatado, reatualizado conforme os usos que convêm, e usado como base moral para justificar, por exemplo, o não-consumo.

Entre os limites e possibilidades de tal comparação, destaco a diferença entre os significados atribuídos à acumulação de capital, que para os chineses é um fim em si mesmo e o trabalho o meio para tanto, e no calvinismo o trabalho é a própria missão predestinada e a riqueza uma conseqüência natural (mas desalentadora) da aprovação de Deus. Ganhar dinheiro, embora através de racionalidades e sacrifícios similares, possui uma ética mundana para os chineses, e divina para os calvinistas.

Podemos ainda concluir que é justamente uma determinada apropriação da "ética confucionista" que estimula o espírito capitalista devido às suas inúmeras características apontadas ao longo deste artigo. Hoje, estamos diante de um fenômeno do capitalismo chinês dentro e fora do território nacional. Meu esboço explicativo acerca do sucesso de um caso específico observado foi fundamentado nas noções de Max Weber sobre o papel do ethos religioso no desenvolvimento dos negócios. Ainda que o autor tenha inferido que confucionismo e capitalismo eram excludentes, este artigo tentou explicar o mercado chinês, numa análise de um microcosmo, justamente sob um ponto de vista weberiano.

Finalmente, interessada nas questões sobre consumo, apresentei situações etnográficas em que códigos culturais dão os contornos para a renúncia e a condenação do consumo conspícuo (consumismo), ressaltando com isso a tensão resultante frente a um mercado chinês em expansão. Por outro lado, partindo do pressuposto em que os sistemas simbólicos são dinâmicos, esbocei igualmente algumas possibilidades que fazem com que condutas morais sejam negociadas, reinventadas frente ao novo, permitindo, assim, o gozo pleno do mundo material.

 

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Recebido em 19/02/2007
Aprovado em 14/06/2007

 

 

* Agradeço a Wenner Gren Foundation pelo suporte decisivo a essa pesquisa; aos professores Ruben George Oliven, Denise Jardim e Pedro Fonseca (UFRGS) pela sugestão deste título e pelos valiosos comentários.
** Doutoranda em Antropologia Social.
1 Para Peter Li (2000), a população é de 37 milhões. Outras duas fontes citam o mesmo número (entre 30 e 35): La Diáspora Chinoise (2000), de Troillet; e Dictionnaire de l'Ethnologie et de l'Aanthropologie, organizado por Pierre Bonte et Michel Izar, no verbete escrito por Y. Live. Os dados são do ano de 2000.
2 Em se tratando de ondas da diáspora chinesa, "países novos" representam, por exemplo, países da América Latina e do Sul. O mais antigo processo migratório deu-se para as ilhas do Pacífico/Sudeste asiático, posteriormente para Europa e Estados Unidos.
3 Confúcio (551-479 AC, Kung-Fu-Tze, em chinês). Filósofo, moralista e teórico político que teve grande importância na China e em toda Ásia oriental. Confucionismo é um ethos moral filosófico e religioso, baseado em princípios taoístas, oriundo do legado de Confúcio e posteriormente de seu discípulo Mencius. Tem as noções de moral, integridade, modéstia e humanidade como norteadoras.
4 Devido ao ser caráter religioso e que estimula a supremacia do poder masculino.
5 Como é possível ver nas últimas estatísticas sobre consumo na China, disponíveis na compilação China by Numbers 2007, publicado pela China Economic Review (2007).
6 Relatório da Receita Federal do Brasil referente ao ano de 2005.
7 A maioria dos comerciantes de Ciudad del Este são imigrantes, chineses ou árabes. Sobre o sistema mercantil de Ciudad del Este, ver Rabossi (2004) e Ribeiro (2006).
8 Os nomes dos informantes foram trocados.
9 Isso me lembra uma situação de entrevista com vários comerciantes de Shenzhen (vindos cada um de uma província diferente da China), na qual fui indagada sobre o que estava pesquisando e disse que no momento estava interessada em confucionismo. Uma risada generalizada foi o retorno que obtive: "Mas isso é tão antigo. Por que você está interessada nisso?"
10 Ajudar um parente em necessidade, proporcionar educação para os filhos, tratamento de saúde, etc.
11 S. Gordan Redding é, inclusive, autor de um livro chamado The Spirit of Chinese Capitalism (1993).
12 Falo na mulher, pois os relacionamentos públicos interétnicos, em geral, acontecem com homens chineses e mulheres latino-americanas e não o contrário.
13 Um interessante paralelo pode ser feito com os tipos-ideais de mulheres presentes no imaginário masculino da MPB analisado por Oliven (1987, p. 57). As brasileiras e paraguaias seriam como as que gostam de vida fácil e tiram o dinheiro do homem, as chinesas como mulheres "submissas e passivas, centradas no lar, e a serviço no homem e que ordenam as relações sociais e compõem o cotidiano".
14 É interessante observar que apesar de toda a carga preconceituosa e estereotipada que isso possa ter, os chineses que largaram as esposas, de fato, ficaram pobres. Isso ocorre por diversas razões, tais como o rompimento conflituoso com uma ordem cultural e familiar, a exclusão de redes de proteção e reciprocidade da comunidade e o deslumbramento com uma vida nova que faz pensar que tudo deve ser radicalmente diferente. Enquanto os chineses davam tudo para as mulheres, como se isso fosse quase que uma necessidade cultural das latinas, os brasileiros com os quais conversava a respeito, diziam-me: "mas por que esses "china" dão tudo pras mulheres? Parece que ficam doidos..."
15 Comunicação pessoal de Chan, em 2006.