SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.14 número30ApresentaçãoO dom de jogar bola índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Horizontes Antropológicos

versão impressa ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. v.14 n.30 Porto Alegre jul./dez. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832008000200002 

ARTIGOS

 

Rodar: a circulação dos jogadores de futebol brasileiros no exterior*

 

 

Carmen Rial

Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil

 

 


RESUMO

Entre os milhões de brasileiros que atualmente residem no exterior, cerca de 5 mil são jogadores de futebol atuando em instituições reconhecidas, os clubes de futebol. O artigo aborda em uma perspectiva antropológica os processos migratórios desses jogadores brasileiros com carreiras de sucesso no sistema futebolístico contemporâneo, buscando compreender as características dessa circulação mundial particular de pessoas e de dinheiro, que apresenta enorme impacto no mediascape (Appadurai, 1990): de todas as "exportações" e de todas as emigrações brasileiras ora em curso, a de jogadores de futebol é a que apresenta maior impacto simbólico, tanto aqui como . Abordo os projetos, consumos e estilos de vida desses jogadores a partir dos dados de etnografia realizada na Espanha (Sevilha) e na Holanda (Eindhoven), e da interlocução com mais de 40 jogadores brasileiros vivendo ou tendo vivido em países no exterior, em contatos realizados no Canadá (Toronto), Holanda (Almelo, Groningen, Alkmaar, Roterdã, Amsterdã), Japão (Tóquio), França (Lyon, Le Mans, Nancy, Lille), Mônaco, Bélgica (Charleroi) e também no Brasil (Fortaleza, Salvador, Belém). Exploro as intersecções com idade, origem social e religião, constatando a forte presença de caçulas entre os jogadores (o caçulismo), a proveniência majoritária de camadas sociais subalternas e a adesão predominante a cultos evangélicos. Constato também uma crescente juvenilização desse fluxo emigratório. Concluo que a constante troca de instituição de trabalho ("clube" ou "clube global"), de países e o grande número de "repatriados", caracterizam como uma circulação esse movimento migratório: é o "rodar" de que falam os jogadores, atribuindo a essa noção um valor positivo de propiciar experiência. Essa circulação dá-se em zonas protegidas, onde um nacionalismo banal (Billig, 1995) é constantemente ativado. Mesmo depois da obtenção da cidadania legal continuam sendo vistos e percebendo-se como estrangeiros; a nacionalização tem assim um propósito estratégico (Sassen, 2008). Concluo que cruzam fronteiras geográficas sem ingressarem em países, pois suas fronteiras são os clubes e não os países.

Palavras-chave: clube global, emigração, futebol, nacionalização.


ABSTRACT

Among the millions of Brazilians who currently live abroad, nearly 5 thousand play football at the world's top clubs. This article uses an anthropological perspective to analyze the migration of these Brazilian players with successful careers, seeking to understand the characteristics of this particular global circulation of people and money, which has enormous impact on the mediascape (Appadurai, 1990): of all "exports". Of all Brazilian emigrations now underway, that of football players has the greatest symbolic impact, both in Brazil and abroad. Like the "brain drain" caused by the emigration of scientists, this is a case of "fleeting feet". I look at the plans, consumption and lifestyle of these players based on ethnographic data gathered in Seville, Spain and Eindhoven, Holland, and from discussions with more than 40 Brazilian players living or trying to live in foreign countries. The contacts were conducted in Toronto, Canada; Almelo, Groningen, Alkmaar, Rotterdam, and Amsterdam Holland, Tokyo, Japan; Lyon, Le Mans, Nancy and Lille France, Monaco; Charleroi, Belgium and in Fortaleza, Salvador and Belem, Brazil. I explore the intersections of age, social origin and religion and found that many of the players were the youngest siblings in their families. The large majority are poor and attend evangelical churches. I also found that these immigrant athletes are increasingly younger. I conclude that the constant exchange of employer (club or global club), of countries and the large number of "repatriots", characterize this migratory movement as a circulation. It is what the players call the "rotation", seen positively as an opportunity for experience. This circulation takes place in protected zones, where a banal nationalism (Billig, 1995) is constantly activated. Even after obtaining legal citizenship, they continue to be seen and perceive themselves as foreigners. Nationalization thus has a strategic purpose (Sassen, 2008). I conclude that they cross geographic borders without entering the countries, because their borders are the clubs and not the countries.

Keywords: emigration, football, global club, nationalization.


 

 

Ronaldo de Assis Moreira, bautizado para el mundo
del fútbol Ronaldinho Gaúcho, es desde ayer un
ciudadano español y de la Unión Europea. Cuando
afronta su quinto año de residencia en Barcelona, el
que fuera mejor jugador del mundo hace dos
temporadas consiguió los papeles que tantos
residentes extranjeros persiguen con ahínco (y con
menos suerte). La condición de comunitario convierte
a Ronaldinho en otro tipo de contribuyente para el
fisco español, mientras que su quinto año de estancia
en el Barça lo coloca en situación ventajosa para una
posible marcha a final de temporada, de acuerdo con
lo establecido en el Reglamento del Jugador de la
Fifa(...). El Ronaldinho español tendrá que aportar
ahora el 43 por ciento de sus ingresos a Hacienda, lo
que, si sigue con las ganacias del pasado ejercicio,
podría rondar los diez millones de euros en su
declaración fiscal. El asunto no agrada a los hermanos
del crack, su agente Roberto de Assis y la responsable
de su agenda diaria, Deisy. Según adelantó AS el
pasado domingo, Roberto se ha acercado al Chelsea
para intentar un traspaso millonario (Ortiz, 2007).

 

Nosso objeto não necessita de longas introduções. O futebol, como tem sido mostrado em inúmeros estudos, é um referente universal (Bromberger, 1995, 1998, 2001)1 que tem enorme impacto na mídia,2 quebrando recordes do evento mais assistido no planeta a cada Copa do Mundo (Rial, 2003). Essa hegemonia no mediascape (Appadurai, 1990), promove uma circulação mundial particular de pessoas e de dinheiro, na qual o Brasil aparece como um dos principais protagonistas, pelo domínio no campo futebolístico nos últimos anos,3 que resultou em uma valorização de seus jogadores no mercado exterior e conseqüente instauração de um fluxo migratório constante de jogadores brasileiros para o exterior, especialmente para a Europa, Ásia e América do Norte. "Bref: quem não conhece Ronaldinho Gaúcho?" A pergunta que esse artigo procura responder é outra: seriam Ronaldinho Gaúcho e seus colegas brasileiros de destino profissional emigrantes/imigrantes? E neste caso, poderiam ser caracterizados como transmigrantes – "imigrantes que desenvolvem e mantém relações múltiplas – familiares, econômicas, sociais, organizacionais, religiosas e políticas – que cruzam fronteiras" (Basch; Glick Schiller; Szanton Blanc, 1994, p. 7)? Qual o significado de "nacionalizações" de jogadores, como a da epígrafe? Para tentar respondê-la, porém, teremos de fazer um détour e buscar entender a circulação desses jogadores no interior de um espaço particular, o sistema futebolístico contemporâneo,4 que se mostra aqui, como em outras instâncias, precursor de configurações e movimentos sociais.

 

Antecedentes da atual emigração de jogadores

Ainda que apareça na mídia5 como algo inédito, a emigração de jogadores de futebol6 brasileiros não é um fenômeno recente. A primeira leva de emigração ocorreu na década de 1930, logo após a Copa do Mundo disputada no Uruguai, e teve como destino principal a Itália, terra de origem de ancestrais de muitos dos jogadores emigrantes, o que fez com que esse deslocamento tomasse ares de um retorno. O Brasil, só recentemente, transformou-se de país receptor de imigrantes laborais em um país que cede trabalhadores mais do que os recebe. O sentido do movimento dos jogadores de futebol no Brasil, portanto, antecipou a dos outros emigrantes brasileiros.

Embora modesta em números, a imprensa já demonstrava temores com relação à saída de jogadores para o estrangeiro, já então considerada como um "êxodo" em algumas matérias jornalísticas.7 Existindo desde as primeiras décadas do século XX, essa emigração acelerou-se nos últimos anos, em parte pela mudança da legislação européia pós-caso Bosman (que no Brasil tomou forma com a chamada Lei Pelé). O decreto Bosman, emitido pela Corte de Justiça da Comunidade Européia em 15 de dezembro de 1995, pôs fim à aplicação de cotas de jogadores europeus nos clubes da União Européia (atualmente composta de 27 países) ou do espaço econômico europeu (composto pelos países da União Européia mais Noruega, Islândia e Luxemburgo). Além disso, pós-decreto Bosman, foram assinados acordos com as Federações da Rússia, com países das antigas repúblicas soviéticas, com países africanos e caribenhos, possibilitando o livre-trânsito de jogadores nesses (e principalmente, desses) países. No Brasil, o decreto-lei nº 9.615/03/1998, conhecido como Lei Pelé, revogou a lei 6.354/76 "e determinou o fim do "passe", a forma pela qual os jogadores de futebol estavam atrelados aos clubes como sua propriedade. A nova Lei Pelé instituiu a "flexibilização" da relação do jogador, que passa a ser um trabalhador com direito ao controle de sua força de trabalho – direito de escolher onde quer jogar, controle sobre a transferência de um clube para outro e etc. (Bittencourt, 2007), um controle retomado ao final de cada contrato assinado com o clube, favorecendo assim a circulação dos jogadores entre os clubes do mesmo ou de outros países.

Uma conseqüência dessa legislação é a colocação do fator econômico no centro da circulação de jogadores entre países (extinguindo a barreira da origem nacional, que deixa de atuar assim como uma fronteira), com uma grande concentração de talentos nos clubes globais, atualmente situados na União Européia, que dispõem de maior capital econômico, a ponto de alguns desses clubes terem equipes compostas exclusivamente por jogadores estrangeiros.8 Dentre aproximadamente cinco milhões de brasileiros que vivem hoje no exterior, calcula-se que quatro mil9 sejam os jogadores de futebol. Mesmo tratando-se numericamente de um fluxo migratório pouco relevante – pois só no Japão encontramos cem vezes mais brasileiros, por exemplo – essa emigração tem grande presença no panorama midiático, não há meio de comunicação importante no mundo hoje que não dedique espaço para o futebol e para seus protagonistas principais, os jogadores, conforme tem sido mostrado em outros estudos (Bittencourt, 2005; Ollier, 2007; Rial, 2003; Silk; Amis, 2000; Silk; Andrews, 2001, Toledo 2002; Yonnet, 2007). Ronaldinho, Pelé e Ronaldo estão certamente entre os brasileiros e indivíduos mais conhecidos no mundo, liderando as enquetes de popularidade em diferentes países.10

Embora não apresente o mesmo impacto no panorama financeiro mundial que apresenta no panorama midiático (Appadurai, 1990), esta emigração tem conseqüências relativamente significativas no campo financeiro nacional. Sabe-se que a exportação de jogadores rendeu ao Brasil mais de US$ 1 bilhão desde 1993, ano em que o Banco Central começou a contabilizar os valores das transferências de jogadores, na categoria de serviços.11 É possível também que uma parte do dinheiro obtido nas transações nunca entre no país e não seja oficialmente contabilizada, indo parar em contas bancárias abertas em paraísos fiscais, como a Suíça.12 Porém, tendo a considerar que esses desvios sejam casos bastante minoritários, e é provável que uma parte considerável das divisas que entraram no Brasil através dos emigrantes seja proveniente desse grupo de jogadores.

No Brasil, ao contrário de outros países da região,13 grande parte dessas remessas ocorre via o sistema bancário. O BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) calculou em 5,6 bilhões de dólares as remessas de brasileiros em 2004; em 6,4 bilhões em 2005; e em 7 bilhões de dólares em 2006, o que coloca o Brasil atrás apenas dos mexicanos como o país que mais recebeu divisas de seus emigrantes na América Latina.14 Como boa parte dos salários desses jogadores regressa ao país na forma de remessa, e como os que saem o fazem por salários mais elevados do que os que tinham no país, deduz-se que se trata de uma emigração com aportes financeiros significativos, mesmo que sejam poucos a receber 20 milhões de euros por ano, como no caso da nossa epígrafe, para quem o salário no clube é apenas uma parte dos ganhos efetivos, aos quais se somam o chamado "direito de imagem" (pagos pelo clube para a exploração comercial de sua imagem) e os contratos publicitários.

Se esse fluxo migratório particular apresenta algum impacto no campo econômico nacional, ainda que incomparavelmente menor do que seu impacto simbólico, decisiva é sua relevância econômica para os clubes, para os quais essas vendas têm representado um importante aporte financeiro dado que sem ele dificilmente conseguiram manter o atual nível de salários de seus outros profissionais. Tomando por exemplo o caso do Internacional e do Grêmio, dois clubes que disputam a primeira divisão do futebol brasileiro, apresentando um bom desempenho também internacionalmente, temos que a venda de jogadores para o estrangeiro nos últimos seis anos significou uma receita anual média de R$ 20 milhões para o Inter e de R$ 15 milhões para o Grêmio, superiores aos valores médios obtidos no último ano com a venda do direito de imagem para a televisão (R$ 15 milhões) e com os aportes do quadro social (R$ 12 milhões), e colocando-se assim como a principal fonte de renda de seus orçamentos anuais, que são de cerca de R$ 36 milhões (Carlet, 2007).

Porém, bem maior ainda do que seu impacto financeiro é a sua significação simbólica. Quem no Brasil se recordaria de ter lido nos jornais reportagem sobre a exportação de aparelhos médicos – que, no entanto, renderam também acima de cem milhões de dólares para o país em 2005 e 2006?15 Com efeito, de todas as "exportações" e de todas as emigrações ora em curso, a de a de jogadores de futebol é a que apresenta maior impacto simbólico, tanto aqui como . Suas performances futebolísticas continuam sendo acompanhadas cotidianamente através do mediascape, que proporciona a transmissão de seus jogos nas diversas competições nacionais e européias, e reportagens sobre o seu dia-a-dia.

Ao contrário de outras ondas migratórias, onde os sujeitos são invisibilizados e aparecem como meros números em estatísticas até que algum antropólogo se interesse e os retire do anonimato (ou não, pois nas etnografias eles têm seguidamente seus nomes trocados), nossos interlocutores são bem conhecidos. Suas emigrações são anunciadas pela mídia bem antes de se realizarem, aparecem registradas oficialmente na CBF que disponibiliza em seu site (http://www.cbf.com.br) seus nomes, lugares de origem e de destino. Além disso, recebem festas de despedidas que podem envolver centenas de pessoas aqui e são recebidos com festa na chegada .

Os jogadores de futebol ocupam uma parcela numérica e economicamente significativa, hoje, constituída por emigrantes que o fazem com a certeza de uma acolhida institucional. A mudança de país ocorre dentro da própria instituição, como os bichos-de-obra abordados por Gustavo Ribeiro (1992), os profissionais transnacionais analisados por Alain Tarrius (1992) e os trabalhadores qualificados, estudantes e experts analisados por Adrian Favell (2006). Os estudos sobre essa migração de trabalhadores especializados têm enfocado principalmente o trabalho intelectual, o chamado roubo de cérebro (como o que ocorre no vale de Silicon, na costa Oeste dos Estados-Unidos, que reúne comunidades de intelectuais de diferentes procedências étnicas para trabalhar em empresas de informática). Mas o Brasil também tem fornecido mão-de-obra especializada aos países centrais, principalmente no que se refere a um tipo especial de migração, que poderíamos designar como de pés-de-obra (Damo, 2007): jogadores de futebol que são atraídos ao exterior com o objetivo de ascenderem socialmente, graças ao talento demonstrado na profissão, no campo esportivo (Bourdieu, 1980; Nery, 2007; Toledo, 2002).

Os jogadores de futebol são emigrantes especiais também por serem, ao mesmo tempo, força de trabalho e mercadoria (Marx, 1978). Como mostrado em diversos trabalhos, eles concentram em si trabalho de outros e circulam como mercadorias, auferindo lucros a terceiros quando dessa circulação. Embora o vernáculo do futebol remeta mais a um modelo escravagista ("ser vendido", "pertencer a um clube" são termos ainda presentes na mídia, e em alguns países as circunstâncias da migração podem efetivamente torná-los prisioneiros16), ninguém discorda de que o sistema de intercâmbio de jogadores esteja plenamente inserido nos modelos mais avançados de capitalismo, e sua circulação seja comparável à do dinheiro (Simmel, 1977), como mostra Bittencourt (2007).

Essa circulação, hoje global, cria, no entanto, nódulos mais importantes do que outros, onde se concentram os principais clubes e os principais jogadores. Numa analogia com a categoria de Sassen (1991, 2003) de cidades globais, diria que as cidades globais no sistema futebolístico de hoje, as que abrigariam os clubes globais são Madri, Londres, Milão e Barcelona; e que cidades de pouco destaque político-econômico como Sevilha, Eindhoven e Munique apresentam uma importância muito maior no sistema futebolístico do que Nova York, Paris, Berlim ou Los Angeles. Como as cidades globais, as cidades globais futebolísticas, são nódulos de fluxos que atravessam as fronteiras de Estados-Nações, e não mais unidades territoriais localizadas no interior. É para essas cidades globais futebolísticas, ou mais precisamente, para os clubes globais nelas situados que os cerca de 40 jogadores brasileiros com quem conversei aspiram se dirigir. Seu projeto profissional é representativo do projeto de grande parte dos futebolistas hoje no mundo.

O crescimento dessa evasão de jogadores brasileiros nos últimos anos fez com que fosse denunciada, na mídia brasileira e por alguns outros agentes do sistema futebolístico, uma situação de "êxodo", considerada unanimemente como sendo uma "perda" para o país e vista como um mal capaz de atingir não apenas as performances desportivas nacionais, mas a própria imagem da nação que circula globalmente, por supostamente enfraquecer os clubes a seleção brasileira. Trata-se portando de uma emigração especial, que dificilmente poderia ser alinhada com a dos emigrantes laborais. Se falamos em roubo de cérebros para emigrações de cientistas, talvez possamos falar, nesse contexto, em roubo de pés.17

No entanto, como veremos, a constante troca de instituição de trabalho ("clube"), de países e o grande número de "repatriados" (cerca de um terço dos que saem), caracterizariam esse movimento migratório como circular: é o "rodar" de que falam os jogadores, atribuindo a essa noção um valor positivo de propiciar "experiência", de ensinar ("o futebol ensina", como disseram muitos).

 

Emigrantes em clubes globais: cidadania estratégica

Os clubes globais são instituições do sistema futebolístico fortemente internacionalizadas, dominadas por capital internacional, centradas no trabalho de emigrantes (jogadores), presentes cotidianamente na mídia global, e contando com o lealdade e o sentimento de pertencimento de indivíduos provenientes de diferentes Estados-Nações (os torcedores).

A importância dos jogadores brasileiros para os clubes globais pode ser medida, também, numericamente: seu contingente fez do Brasil a segunda nação em números de participantes na Liga dos Campeões em 2004 e a primeira em 2007. Evidentemente, nesse que é o principal campeonato europeu, não há clube brasileiro inscrito. Os futebolistas brasileiros não apenas estão numericamente presentes mas, mais importante, têm uma presença qualitativamente central pois não raramente ocupam as posições principais em cada equipe, são os destaques, seja atuando no ataque, posições que historicamente tem prevalecido como lócus de reconhecimento dos principais jogadores, seja atuando na defesa, o que é uma novidade dos últimos anos pois raramente eram defensores os principais jogadores de uma equipe.18

O mercado para os jogadores estrangeiros nesses clubes globais, porém, é restrito, uma vez que o grupo de jogadores raramente supera trinta e que, após o decreto Bosman, fronteiras legais existem na maioria dos países europeus impedindo a performance simultânea de mais de quatro estrangeiros.19 Para que esse mercado permaneça aberto, as "nacionalizações" tornam-se imprescindíveis. Neste, como em muitos aspectos, a emigração atual repete os esquemas de "nacionalizações" inaugurado pelos ítalo-brasileiros no êxodo de jogadores para a Itália no pós-Copa de 1930. Descendentes de emigrantes italianos, os jogadores obtinham seus passaportes italianos podendo assim ingressar livremente no país. Passaportes continuam sendo cortejados hoje e permanecem o principal mecanismo para se escapar das legislações que controlam o ingresso de seres humanos nos países centrais.

Adquirir a nacionalidade do país de acolhida, porém, nem de longe significa adquirir sentimentos nacionalistas em relação a esse país ou uma identidade outra que a brasileira. A brasilidade permanece como única identidade de pertencimento étnico. Os jogadores contatados nesta pesquisa, por exemplo, não falavam em nacionalizar-se e sim em "conseguir um passaporte comunitário" (uma fórmula impossível legalmente, já que nunca existiu um passaporte comunitário, pois este era expedido por cada um dos países que faziam parte da Comunidade Européia, hoje extinta para dar lugar a União Européia), mas que sintetiza bem a motivação para a nacionalização, qual seja, a de circular livremente entre os países membros da União Européia. Uma das principais razões para essa demanda não reside tanto na segurança de poder permanecer no país (são emigrantes legais, os clubes dispõem de meios para justificar suas presenças) e sim em obter um espaço para outro brasileiro ingressar no clube, dado os limites impostos pelas legislações nacionais do sistema futebolístico.

A obtenção desse passaporte muda o estatuto legal do jogador, que passa a ser um cidadão do país, com plenos direitos. Trata-se legalmente de uma dupla-nacionalidade, porém é difícil pensá-la em termos de duas nacionalidades.

Assim, a obtenção da nacionalização interfere na circulação não apenas por permitir a vinda de mais um estrangeiro para o clube, como também por proporcionar ao jogador alguns benefícios e impor alguns constrangimentos. Entre os constrangimentos, o mais importante parece ser o de obrigar o jogador a pagar o imposto de renda no país de acolhida (que no caso da Espanha, pode chegar a 43% dos rendimentos, como lemos na epígrafe), o que passa a ser um forte impulso para fazê-lo mudar para um clube "no exterior", preferencialmente, um outro clube global. Paradoxalmente, portanto, a "nacionalização" em países europeus favorece a saída desses países e não a permanência como nos casos de outras emigrações internacionais. Favorece uma maior circulação, pois os "nacionalizados" passam da categoria restritiva de mercadoria estrangeira (sujeitas aos limites impostos as mercadorias importadas pelas barreiras alfandegárias nacionais) para a de mercadoria da União Européia (e portanto, em princípio, com livre circulação no mercado europeu).

A nacionalização não é vista pelos jogadores como um afastamento do Brasil. Assim como não o é a cada vez mais freqüente participação de jogadores brasileiros em seleções estrangeiras. A proximidade do país de origem é constantemente afirmada em suas falas e, como pude verificar, em suas práticas cotidianas de consumo que compõem seus estilos de vida.

 

Quem são estes emigrantes que "rodam"? Caçulismo, projeto familiar e experiência religiosa

Carreiras (Hughes, 1993) profissionais que impliquem o deslocamento internacional de seus integrantes não são extraordinárias e nem tampouco novidades. Há já algumas décadas vêm sendo estudadas por uma literatura interessada nas conseqüências desse viver entre fronteiras. Porém, de modo geral, estas carreiras incluem agentes sociais com capital cultural elevado (estudantes, professores, cientistas, diplomatas, executivos de multinacionais, etc) e, mais raramente, trabalhadores provenientes de classes subalternas (empregados em plataformas petrolíferas, por exemplo). A identidade cosmopolita tem sido, por isso mesmo, relacionada com gosto estético e consumos (Hannerz, 1996) próprios de uma elite que transita entre cidades globais como se fosse sua própria cidade de origem, revisitando museus, galerias de arte, teatros e restaurantes com uma familiaridade própria de quem ali passou boa parte de suas vidas.20

De 2003 até agora, entrevistei cerca de 40 jogadores de futebol que viviam ou tinham vivido e exercido sua profissão no exterior, muitos em mais de dois países do exterior. Concentrei a etnografia nas cidades de Sevilha, na Espanha (onde morei quatro meses, com intervalo de um ano) e Eindhoven, na Holanda (onde estive em três oportunidades, com intervalo de dois anos), mas também conversei com muitos de seus familiares, amigos, empresários, técnicos e secretários diversos, realizei entrevistas, assisti a treinos e a jogos, visitei seus restaurantes preferidos e algumas de suas casas no Canadá (Toronto), Holanda (Almelo, Groningen, Alkmaar, Roterdã, Amsterdã), Japão (Tóquio) e também no Brasil (Fortaleza, Salvador, Belém). E mantive longas conversas telefônicas com jogadores e seus familiares na França (Lyon, Le Mans, Nancy, Lille, entre outros), Mônaco e Bélgica (Charleroi). As notas que seguem são baseadas principalmente nesses contatos diretos e buscam traçar um perfil desses emigrantes especiais, através do escrutínio de algumas dimensões que marcam seus estilos de vida.

Jogar futebol no Brasil não é ocupação da parcela social considerada miserável, pois o esporte demanda um mínimo necessário para um jovem se profissionalizar (chuteiras, contatos com os clubes, passagens de ônibus, dispensa do trabalho). Também não é ocupação das camadas sociais dominantes, cujos projetos (Schütz, 1987; Velho, 1981, 1999) de continuação da reprodução social do capital prevêem que os herdeiros, preferencialmente, os filhos homens, assumam a liderança dos negócios. Futebol então fica sendo um projeto possível para uma larga faixa da população brasileira, a das camadas subalternas, que vai dos pobres até as camadas médias baixas. Foi nesta faixa que encontrei a maioria dos meus interlocutores, com uma origem social de pais operários do ABC (trabalhadores rurais, serralheiros, carpinteiros, funileiros, vendedores ambulantes, empregadas domésticas, sacoleiras, marinheiros). As histórias que ouvi têm muitos pontos em comum, são histórias de vida de famílias de que, como reconhecem, não passavam fome, mas passavam necessidade.

Se buscássemos um padrão para a emigração de futebolistas brasileiros, diria que, em termos de localização econômica na hierarquia social, obtida através do questionamento da atividade profissional dos pais e algumas vezes também dos avós, a grande parte dos jogadores brasileiros que migram são originários de camadas subalternas (entre meus interlocutores, cerca de 90%). Alguns são originariamente de camadas médias baixas (cerca de 9%, um filho de delegado, um de enfermeira, alguns de professoras), e apenas um dos jogadores, entre os que contatei diretamente, eram de camadas médias (pai médico, mãe professora). Nesse aspecto, não diferem de outros emigrantes brasileiros, pois aqui também não são os mais pobres que os que migram, como postularia uma teoria ingênua.21

A literatura que trata de emigrações já mostrou que é uma falácia se pensar que esta população emigrante é formada por indivíduos pobres ou pertencentes às camadas mais baixas da população e que migram prioritariamente como estratégia para resolver problemas econômicos (Kearney, 1995, 1996). Estes estudos têm mostrado que a emigração é um projeto coletivo e de ascensão social, no mais das vezes familiar, e são escolhidos os indivíduos considerados mais capazes pelo grupo para tentar a aventura da migração. Aventura (Sarró, 2007; Simmel, 1936), pois esta viagem muitas vezes se realiza na ilegalidade envolvendo grandes riscos (como é o caso dos brasileiros que se dirigiram para os Estados Unidos a partir dos anos 1970 (Assis, 1995; Margolis, 1994; Reis; Sales, 1999).

Curiosamente, constatei que a grande maioria dos emigrantes são caçulas nas suas famílias, raros são os primogênitos – muitos tiveram irmãos mais velhos que também desejavam jogar futebol, mas tiveram que abandonar esse projeto para contribuir na economia familiar. Essa concentração de caçulas mostra que, na repartição familiar das atividades, foram beneficiados com a possibilidade de realizarem o projeto mais desejado entre os jovens de camadas subalternas no Brasil (Futebol, 1998): o de se tornarem jogadores de futebol profissional. Essa possibilidade implicou, como veremos, a dispensa de um trabalho precoce.

O caçulismo verificado entre esses jogadores corrobora a idéia de que a carreira de jogador de futebol é um projeto familiar (Damo, 2007; Rial, 2003, 2004) no qual é necessário algum excedente econômico para propiciar a liberação de um integrante da família do trabalho remunerado. Assim, o fato de serem os caçulas os que com mais probabilidade conseguem realizar o projeto de serem jogadores profissionais pode ser explicado tanto por terem tido a possibilidade de serem liberados da tarefa de garantir a sobrevivência do grupo familiar com o seu trabalho (função assumida pelos irmãos mais velhos) quanto por poderem contar com a presença de um integrante da família, irmão mais velho, pai e muitas vezes a mãe, para acompanhá-los à escolinha ou campos de prática, o que às vezes implica em longos deslocamentos em transporte público.

A tendência ao caçulismo, evidência estatística desde os primeiros contatos, ficou mais clara para mim, estranhamente, na conversa com um não-caçula, Luciano (Groening/Holanda). Ele era o mais velho dos filhos na família, iniciou jogando na rua "como todos os garotos" quando foi observado por um dono de mercearia, torcedor do Vasco da Gama e que por acaso era o fornecedor do presidente do clube. Com isso, conseguiu um contato e negociou a possibilidade de um teste para o garoto. Luciano foi para Vasco, passou a morar na concentração, sofreu com o isolamento, voltou para a pequena cidade do interior onde morava sua família.

Tudo poderia ter parado por ali, pois ele sabia que a família precisava que trabalhasse para ajudar no apertado orçamento da casa, que contava com o salário do pai agricultor, plantador de café, e da mãe, babá: "Eu era o mais velho, tinha que ajudar. Mas meu pai disse que se era jogar futebol o que eu queria, eu deveria continuar, que ele daria um jeito. E graças a ele, eu continuei. O certo era ter parado e ido trabalhar". O "certo", o socialmente prescrito, o esperado, especialmente para um filho mais velho, do qual os caçulas parecem liberados. Luciano não foi completamente liberado do trabalho, mas conseguiu conciliar o trabalho no turno da tarde, na mercearia do torcedor vascaíno, até as oito da noite, com o futebol no clube da cidade, pois "eles precisavam, eu tinha que trabalhar lá, mesmo cansado". Para os mais velhos, portanto, uma prova a mais é requerida no projeto de seguir uma carreira futebolística: precisam trabalhar paralelamente ao futebol, e agradecer por ainda poder continuar jogando, pois o "certo" seria trabalhar em dois turnos.

Os jogadores precisam de um forte apoio familiar no início, não apenas por serem dispensados de contribuírem para o sustento familiar numa idade em que outros irmãos mais velhos já estariam trabalhando, mas também porque essa profissão implica em despesas com material esportivo (e são muitas as histórias envolvendo os trabalhos extras que foram necessários para a família para permitir a aquisição das primeiras chuteiras) e em despesas de transporte entre a residência e o local do treinamento. Como em alguns casos o jogador iniciante treina em mais de um clube, aumentando assim suas chances de se destacar e vir a se tornar um profissional, boa parte do tempo é gasto nesses deslocamentos, muitas vezes realizado com o acompanhamento de um parente mais velho. Esse apoio familiar pode permanecer ao longo de suas trajetórias profissionais, como podemos ver no texto da epígrafe onde os irmãos aparecem como responsáveis por áreas profissionais importantes. Ainda que menos freqüente do que o caçulismo, foi também recorrente entre os jogadores brasileiros de clubes globais a proveniência de famílias com a ausência do pai, onde a mãe vivia com os avós maternos22 ou só com os filhos, o que é uma composição comum entre as camadas subalternas no Brasil (Fonseca, 2000).

A maioria dos jogadores entrevistados tinha apenas o primário, cerca de 10% conseguiram terminar o secundário, um havia sido aprovado no exame vestibular (tendo abandonado a faculdade quando se mudou para o exterior) e apenas um formou-se em curso superior. Apenas duas entre suas esposas concluíram o terceiro grau, mas há uma tendência de que apresentem uma escolaridade maior do que a dos jogadores.

Todos demonstraram estar conscientes de que a ascensão econômica em suas vidas só foi possível graças ao futebol – atribuem a uma prerrogativa divina o fato de terem ascendido, como se tivessem sido escolhidos: "Tudo o que sou, devo a Deus", "Deus quis assim", "Graças ao Senhor" são frases que pontuam suas falas num reconhecimento da prática futebolística, enquanto uma potencialidade que muitos apresentam, porém é desenvolvida por poucos. Deus (não a religião, como alguns sublinharam) é um valor central em suas vidas, sendo a maioria deles evangélicos (há alguns católicos). A Bíblia é lida e os acompanha em viagens, alguns costumam reunir-se para a sua leitura, nas casas uns dos outros juntamente com suas famílias, ou nas concentrações, e a busca de uma Igreja Evangélica é motivo de deslocamentos.23 A crença em Deus tem papel fundamental na consolidação de uma ética pessoal rigorosa ("Deus ajuda a separar o que é ruim do que é bom"; "antes eu bebia, fazia coisas erradas", confessou Ricardo Oliveira), estabelece e consolida laços de amizade com outros jogadores brasileiros, assim como lhes fornece um apoio em um campo profissional extremamente competitivo ("Deus é um amigo que está contigo sempre", disse Edu).24

Praticamente todos os entrevistados empregaram o primeiro dinheiro que receberam para adquirir uma casa para a mãe, ou para fazer uma reforma, quando ela não deseja deixar a vizinhança onde mora, realizando um sonho e devolvendo um pouco do que dizem ter recebido. A "casa para mãe", a casa para família, é o principal objetivo dos jogadores no início da carreira, como pude perceber nos contatos com jogadores de diferentes gerações. Anseio de muitos emigrantes de camadas subalternas, a casa remete a uma idéia de segurança e de construção de redes de sociais (Machado, 2008) muito mais que a de um consumo ostentatório.

Por trás desse desejo de "dar a casa" para a mãe repousa a idéia de que com a casa o jogador estaria retirando a família de uma esfera de necessidade, lhe trazendo uma segurança cotidiana duradoura. Luciano, que passou a infância morando em uma casa alugada, com dois quartos ("os pais ficavam num e eu, meu irmão e minha irmão no outro") e banheiro no quintal, sonhou muito com o dia em que poderia, finalmente, com o dinheiro ganho do contrato com um clube da Bélgica, voltar ao Brasil e comprar uma casa para a família. "Foi emocionante, eu chorei, meu pai chorou, para mim aquilo era tudo." Nesse momento, Luciano ainda não imaginava que, alguns anos depois, com o dinheiro ganho em outros contratos, construiria outra casa no lugar dessa, muito maior, onde passaria as curtas férias que o clube lhe permite, duas vezes ao ano. Também não imaginava que, na distante Groeningen, viria a morar em uma casa sua, comprada num bairro nobre da cidade, com seus seis quartos. A casa para a mãe aparece assim como o contradom (Damo, 2007) obrigatório de muitos que as remessas proporcionam.

Estudar uma trajetória de sucesso coloca em questão trabalhar com a renda, e a renda é um tópico tabu na sociedade brasileira (como em outras) sendo mais fácil até tratar de algumas questões pessoais íntimas. Renda e sexo eram questões tabus nestes grupos e eu raramente abordei este tópico diretamente. Vale lembra que esses jogadores obtiveram uma renda elevada num período muito curto de tempo, e parte dela de modo não oficial. Sabe-se por exemplo que é comum o recebimento de premiações (os "bichos" como são chamados no Brasil) por vitórias em jogos; muitas dessas premiações são entregues diretamente em espécie e as vezes de uma forma de pessoa à pessoa, onde o jogador vai até o escritório do presidente do clube para receber o prêmio – é assim no Bétis, por exemplo.

No entanto, embora cercado de segredo da parte dos jogadores e dirigentes, esses números aparecem seguidamente na imprensa. Como a maior parte desses jogadores faz parte de um grupo de protagonistas do futebol de espetáculo, estando expostos permanentemente na mídia, não são poucas as informações sobre seus salários. Pelas informações da mídia, calculo que de modo geral, os jogadores que entrevistei na Espanha e na Holanda recebem entre 400 mil a 3 milhões de euros por ano,25 ao que se deve somar os prêmios por performances e os contratos publicitários, que em alguns casos superam o valor do salário. Nas vezes em que abordei o tema salário, o fiz indiretamente, citando fontes e números relativos a outros jogadores, obtendo assim estimativas aproximadas de suas rendas.26

Mais do que a preocupação com o fisco ou com possíveis seqüestros,27 creio que o que estava em jogo nesse segredo é o fato destes jogadores se construírem subjetivamente como provedores de suas famílias, como doadores, onde os valores da religião, da doação e do sustentar a família são centrais e, portanto, questões relativas a renda ou ao consumo tornavam-se um terreno escorregadio, pois riqueza e consumo não são valores socialmente positivados pelo grupo. Vendo-se como provedores e doadores e como instrumentos do poder divino, esses jogadores não têm a acumulação da renda ou o consumo como objetivos centrais. De fato, eles se vêem enquanto veículos que transportam, transformam e transmutam o dinheiro em bens para suas famílias.

Foi mais fácil falar sobre o consumo com as esposas dos jogadores. Elas não tinham um discurso público tão controlado, e demonstravam maior prazer em revelar o que compravam. O domínio das marcas, dos preços, das melhores opções, das opções de prestígio é como um capital cultural que precisa ser adquirido por essas mulheres. É claro que o seu papel na família não se restringe a fazer a mediação entre o mundo dos bens e a casa, o papel é muito mais amplo, elas fornecem sustentação emocional, afetiva, que poucas vezes é considerada na imprensa, que prefere representá-las como mulheres fúteis, centradas em atividades irrisórias.28

Como pude perceber também, performance futebolística e salário nem sempre estão em correspondência direta no sistema futebolístico, o salário depende de muitos fatores e tem a negociação do contrato como ponto decisivo – daí a importância de contar com o auxilio de empresários ou, no caso de jogadores mais experientes, de advogados ad hoc. Essa distância entre a performance e o salário é cada vez maior, de modo que é freqüente um jogador receber salários mais elevados no momento do seu declínio técnico do que recebia no auge carreira.29

 

Cosmopolitismo e identidade nacional: consumindo o Brasil no exterior

Muitos têm explorado o consumo como um aspecto de estratégias culturais mais amplas de identidade e manutenção pessoal. E alguns chegam a afirmar que a "soma de produtos consumidos expressa o que eu sou" (Friedman, 1990). Ainda que sem postular essa radicalidade, aceitamos que o gosto e o consumo podem ser boas portas de entrada para captarmos estilos de vida e dimensões de pertencimento nacional, cosmopolitismo (Hannerz, 1996) ou de agentes sociais, e não apenas em relação a suas posições de classe – como enfatizaram Veblen (1974) e Bourdieu (1979).

Os altos salários recebidos pelos jogadores na Europa e no Japão não se refletem em consumos ostentatórios de sua parte, como parte da imprensa leva a crer. De fato, seus hábitos de consumo aproximam-se mais os de uma camada média alta do que de milionários que são – não transitam em aviões particulares, não possuem iates ou submarinos, não passam as férias em ilhas particulares, não freqüentam restaurantes de luxo. Moram em casas espaçosas localizadas em bairros nobres,30 geralmente os que concentram grande número de jogadores de futebol, porém não vi na decoração das casas nenhuma grande extravagância. Continuam a vestir-se como os jovens de sua idade (com tênis, jeans e camisetas, ainda que essas sejam de marcas caras), a comer em casa ou em restaurantes que sirvam uma comida próxima da brasileira, a terem como diversão as salas de bate-papo da Internet (onde se relacionam com familiares, amigos e outros jogadores de futebol), os CDs e DVDs de músicas brasileiras, a TV Globo Internacional, os jogos eletrônicos (especialmente o Playstation da Fifa, disponível também em qualquer lan-house no Brasil). Nas férias, preferem voltar para as cidades de suas famílias no Brasil, mesmo quando essas, como no caso de Iriney (Celta, Espanha) se situem no interior da Amazônia. Os únicos consumos de luxo (Bourdieu, 1979) recorrentes entre eles são os seus automóveis, sempre carros novos de luxo, mas às vezes fornecidos pelo próprio clube, os brincos de diamantes ou as invariáveis trousses de toillete Louis Vuitton.

Na circulação entre os espaços mais freqüentados nos seus cotidianos – a casa, o automóvel, o estádio, o restaurante, a Igreja Evangélica – o contato com o Brasil ocorre. Todas as vezes que entrei em um automóvel de jogador, os CDs que foram tocados eram de musicas brasileiras e em duas delas, no carro de Ricardo Oliveira e de Edu (Bétis/Sevilha), eram de músicas evangélicas brasileiras. A televisão que assistem diária e intensamente é a Globo Internacional (retransmissora dos canais Globo, SBT e Record) de modo que mesmo distantes acompanham as noticias do Jornal Nacional e principalmente as "novelas das oito" e o programa de Sílvio Santos, restabelecendo assim, diariamente, através dessa media, os laços com os brasileiros daqui. Os que não contam ainda com a possibilidade de acessar esse canal por satélite, o lamentam (Rafael/Lille); os que podem e não o acessam, são tidos como "estrangeiros".31

Um dos consumos brasileiros que foi mais enfatizado é a comida brasileira. Esta foi uma presença brasileira unânime na Espanha, França e Holanda, e também na China, na Coréia e no Japão,32 mencionada como uma das maiores necessidades a ser preenchida quando fora do Brasil. A escolha alimentar desses emigrantes especiais recai sobre a "comida brasileira", uma categoria nativa que em alguns casos inclui o bobó de camarão, noutros o pão de queijo mineiro, e em todos os casos, o feijão com arroz e a carne bovina. Os restaurantes que freqüentam com uma assiduidade quase diária são brasileiros ou de uma culinária próxima da brasileira. Muitos produtos são trazidos na bagagem em cada visita ao país,33 muitos são adquiridos através de importadoras,34 muitos são trazidos pelos visitantes (parentes e amigos).

Se tomarmos os consumos cotidianos desses jogadores para análise, é a dimensão da identidade nacional a que mais claramente se expressa. A televisão, os DVDs e as fitas cassetes com músicas brasileira e mais ainda, a Internet,35 os trazem imaginariamente diariamente ao Brasil, ou se preferirem, os mantêm no Brasil, dando sentido à sua experiência na vida, se construindo como comunidade imaginária (Anderson 1989), ainda que no estrangeiro. Assim, o círculo das mercadorias que consomem reafirma permanentemente suas identidades nacionais, tanto quanto os signos mais explícitos dessa, como as bandeiras que enfeitam o hall de entrada da casa de Gomes (PSV/Eindhoven), ou que carregam quando das comemorações de títulos de seus clubes.

O local (Sevilha, Lille, Eindhoven, Le Mans, Marselha, Bruxelas, Alkmar, Tóquio, Toronto, Almelo) parece contar pouco para esses sujeitos, pois ainda que possam adquirir imóveis,36 ter filhos, vivem permanentemente com a possibilidade de mudar-se para outro clube, em outra cidade, em outro país. "Aqui é igual à Suécia", me disse Paris, a tia de Ari (Az da Holanda), referindo-se a simpática cidade de Alkmar do noroeste da Holanda, onde moram atualmente, depois de uma bem sucedida temporada no país nórdico. Desse modo, o que poderia parecer um consumo cosmopolita que os ligaria com outros lugares do planeta (TV a cabo, Internet, outras mídias eletrônicas), aparece aqui, de fato, como instrumento de aproximação com o Brasil, servindo para mantê-los integrados com a comunidade nacional de origem. Seus consumos assim revelam o que Michael Billig (1995) definiu como nacionalismo banal: diariamente, quase que inconscientemente, suas práticas cotidianas reafirmam sua brasilidade, os unem e marcam fronteiras com os outros, os locais.

 

A circulação no sistema futebolístico

A construção do habitus de esportista (Bourdieu, 1987; Wacquant, 2000, 2002), indispensável para que se ocupe lugar de destaque no campo esportivo, ocorre ludicamente, chutando latinhas ou bolas de meias, como bem mostrou Damo (2007). De fato, esportistas iniciam seu aprendizado regular, sistemático, disciplinado muito cedo, em locais que, não por acaso, são chamados de "escolinhas", e que marcam uma diferença com a verdadeira escola, mais dura, menos prazerosa, que muitos abandonam. Como os treinamentos tomam boa parte do tempo do dia, torna-se muito difícil conseguir prosseguir nos estudos e, no mais das vezes, estes são abandonados quando o jogador consegue se "federar" (ser registrado oficialmente como jogador de um clube, muitos ainda atuando nas categorias de base).

Todos ingressam no sistema futebolístico muito precocemente, praticando o futebol com regularidade (na escolinha ou em equipes de várzea) já na infância. Muitos têm pais que praticavam futebol na várzea e alguns até profissionalmente, e nos casos em que o pai não era praticante, geralmente existe outra figura masculina ligada ao futebol – um tio, um vizinho, o avô – que serve como instrutor na sua iniciação e/ou mediador no ingresso mais formal ao sistema futebolístico.37

A carreira futebolística é um projeto familiar, e muitas vezes antecede o nascimento do filho, como mostra bem a história que me contou Maycon (Inter de Milão), e que apresenta na narrativa o peso significativo de um mito:

Quando eu nasci, meu pai levou o nosso (dele e de seu irmão gêmeo) cordão umbilical no campo do Novo Hamburgo, no meio do campo. Ele pegou nosso cordão umbilical, meu e do meu irmão, e enterrou lá no centro do campo. E ele olhou pro céu e disse: "seja o que Deus quiser, um vai ter que dar certo". E aí eu acabei dando certo.

Embora possa ser narrada como um desígnio divino, o ingresso no sistema futebolístico realiza-se através de diferentes vias, mas as mais comuns são as de os jogadores se apresentarem para as seleções organizadas por clubes ("peneiras") ou serem observados por um especialista em detectar talentos ("olheiro"), que representa um clube ou conhece representantes de um clube. Conseguir autorização para morar "na concentração"38 é já uma primeira vitória do iniciante. De fato, quando iniciei a pesquisa, imaginava que a saída do país se constituía no marco mais significativo de ruptura em suas biografias. Porém, logo percebi que a ruptura não estava no movimento de emigração para o exterior, ela ocorria em outro momento, na primeira saída de casa, ainda no Brasil, que para alguns dos jogadores, ocorre na adolescência.39 Essa saída de casa é o inicio de sua circulação, o começo do rodar, onde a fronteira superada é a do círculo familiar e do círculo de vizinhança.

O deslocamento geralmente leva-os para uma cidade vizinha maior, mas não é incomum os casos em que vão para muito longe de casa, em outro estado e até outra região, uma orientação da circulação no sentido periferia-centro. Esse momento de ruptura é vivido como muito significativo: implica uma mudança radical nos seus estilos de vida, sendo visto pelos jogadores e por seus familiares como um sinal de que o projeto de uma carreira de futebolista está bem encaminhado. Por outro lado, essa ruptura evidencia que esse projeto, se bem-sucedido, terá como conseqüência o afastamento físico do círculo familiar e de vizinhança. Ou seja, o afastamento é vivido como muito doloroso, mas cercado de grandes esperanças de realização profissional.40

O ingresso e o trânsito no interior do campo futebolístico é sempre mediado por outros agentes sociais, através de relações pessoais ou profissionais. Muitos contam com algum intermediário que abriu as portas de um grande clube ainda na adolescência, caminho mais rápido para ascenderem à seleção nacional em suas categorias de base. A seleção se constitui na grande propulsora da saída de jogadores para o mercado no exterior, funcionando como a maior avalista da qualidade do jogador junto aos clubes estrangeiros. Dificilmente um jogador que tenha atuado na seleção brasileira, mesmo em suas categorias de base (sub-23, sub-20) não se transfere hoje para o exterior. É a melhor "vitrine", diriam os jogadores, e parece ter substituído a primazia ostentada em décadas passadas pelas "excursões" que os clubes brasileiros realizavam ao exterior.41

O contato com esses jogadores de carreiras de sucesso mostrou-me que a receita para ser contratado por um grande clube no exterior passa por uma iniciação precoce no sistema futebolístico, incentivada por um projeto familiar, e passa pela seleção brasileira. Já a receita para permanecer no exterior incluiria o casamento, e se possível filhos, e o pertencimento a uma religião, preferencialmente evangélica, cujos preceitos rigorosos ajudam a suportar a disciplina imposta pela carreira de futebolista, por eles definida como "sofrimento".

No momento da emigração, a maioria dos meus interlocutores estava inserida no sistema futebolístico como jogador de um clube participante da categoria principal do futebol brasileiro (que disputava o campeonato brasileiro na primeira divisão), estando, portanto empregados como jogadores de futebol quando de suas transferências, estas ocorrendo no quadro institucional que envolve dois clubes e pelo menos um empresário (agente Fifa42) e a CBF.43 Os jogadores com maiores salários entre os contatados na Europa já tinham se destacado em seus clubes e em campeonatos importantes, e atuado em seleções brasileiras, em categorias de base, mostrando haver uma trajetória possível com estágios determinados na carreira de futebolista.

Aqui se impõe um parêntesis para apontar um fenômeno recente e que aponta em outro sentido: a juvenilização da emigração. Como pude observar, esse destino anunciando alterou-se ao longo dos últimos anos, de modo a abarcar faixas etárias cada vez mais jovens. Essa juvenilização emigratória tem preocupado os clubes, que se sentem desprotegidos diante das facilidades de circulação oferecidas pela Lei Pelé, que está alterando a trajetória profissional esperada dos jogadores. Antes dessa lei os jovens emigravam a partir de grandes clubes e de passagens pela seleção brasileira – como no caso paradigmático de Ronaldo, que foi para o PSV com 17 anos por exemplo, mas que já havia atuado no Flamengo, no Cruzeiro e na seleção brasileira principal. Muitos dos jogadores que entrevistei já tinham realizado diversas viagens ao exterior antes de emigrarem. Nos últimos anos, porém, os clubes europeus dão mostras de terem mudado sua estratégia de contratações, buscando captar os jogadores antes mesmo que sejam conhecidos nacionalmente ou que atuem em grandes clubes, sendo cada vez mais freqüente a saída de jogadores adolescentes.

Essa estratégia de juvenilização de seus quadros não se dirige apenas ao Brasil, aos países da África ou da América Latina. Tampouco a perda de jovens jogadores é um problema que atinge apenas os clubes dos países periféricos, pois, como bem me assinalou Pedro Salazar, dirigente do PSV:

Nós também enfrentamos isso. Há três jogadores nossos, formados aqui, que hoje estão atuando no futebol inglês. Ou seja, que não retornaram para o clube o que o nosso clube esperava.

Se a juvenilização aparece como um fenômeno mais geral, ocorrendo em vários esportes além do futebol, no caso deste há a particularidade da anunciada mudança legislativa da Uefa que, preocupada em limitar a presença de jogadores nacionalizados em seleções de outros países que não os de origem, e preocupada em garantir alguma nacionalidade nos campeonatos europeus, pretende criar barreiras à circulação internacional de jogadores. De fato, os clubes parecem estar se antecipando à provável entrada em vigor de uma nova legislação que visa limitar o número de estrangeiros nas equipes européias e, para isso, permitirá somente a participação de jogadores "estrangeiros" que tenham passado por ao menos três anos de formação no clube.44

Ainda que seja o caminho mais curto, nem todos os 800 jogadores que deixarão o Brasil neste ano passaram pela seleção brasileira. Outras "vitrines" existem, entre elas, os torneios locais, os campeonatos de categorias de base, a Copa São Paulo, a Copa sub-20, as excursões ao estrangeiro e o próprio campeonato brasileiro. O campeonato brasileiro de futebol, mesmo não merecendo o mesmo destaque na mídia mundial que os campeonatos nacionais europeus, tem sido acompanhado por especialistas e profissionais do campo futebolístico (através de agentes residindo no Brasil ou enviados ao país, de fitas de vídeo e DVD gravadas ad hoc45) que garimpam os principais jogadores em suas diversas categorias, antes mesmo que cheguem à seleção e adquiram uma valorização no mercado.

A tendência do mercado futebolístico no Brasil é, assim, da exportação de jogadores em idades cada vez mais precoces.46 Muitos acabam sendo desconhecidos aqui, quando são vistos pela torcida brasileira através das transmissões de jogos dos campeonatos europeus de futebol. Alguns ainda se nacionalizam e passam a jogar por seleções de outros países.47

"Rodar", como já vimos, é valorado positivamente pelos jogadores, mas, como ressaltam, essas "transferências" devem ocorrer entre grandes clubes.48 O número de jogadores que retornam a clubes brasileiros, por períodos de tempo variáveis, é cada vez maior. O Brasil se tornou assim um possível destino provisório ou permanente dos jogadores exportados. Quando no auge da carreira, a volta ao Brasil é sinal de não-adaptação no exterior ("saudades", não agüentar o "sofrimento"), mas pode ter outras motivações, como a recuperação física e psicológica, a aproximação com o técnico da seleção visando uma possível convocação, e até dar aos filhos nascidos fora uma experiência no Brasil.49

Pelo oferecimento de altos salários, Estados Unidos, Arábia Saudita e Qatar também são destinos possíveis e cada vez mais prováveis para o final da carreira, como antecipou Pelé que, à sua época, foi para o Cosmos, nos Estados Unidos. Porém, quando perguntados, os jogadores invariavelmente demonstram desejo de terminar a carreira no Brasil, se possível jogando pelo clube que os tornou conhecidos – como um último contradom – ou, no caso dos que saíram muito cedo, pelo clube pelo qual torciam e continuam a torcer. O retorno para o Brasil, durante ou ao final da carreira, tem sido a regra e mais uma vez corrobora a tese de que essa emigração trata-se de fato de uma circulação.50

O sistema futebolístico, na esfera prestigiosa do futebol de espetáculo (ver nota 3) no qual se inserem, pressupõe o trânsito e a efemeridade da relação dos sujeitos com os seus clubes, sendo essa circulação um signo de sucesso. A categoria empregada por eles para se referirem a essa circulação é, como já vimos, a de rodar. Um jogador rodado é tido como experiente. Há um capital futebolístico adquirido nessa circulação que, quando transmitido, pode ser de valor muito alto para os novos jogadores.

Mais do que num país, numa cidade, eles estão em um clube – e os clubes, a partir de certo patamar da hierarquia do sistema futebolístico, apresentam certa homogeneidade de espaços e de práticas que independem do local onde estão situados: todos devem treinar ao menos uma vez por dia nos centros de treinamento ou no próprio estádio muito semelhantes uns com os outros, todos devem apresentar-se para os jogos, todos devem viajar e hospedar-se em hotéis, todos freqüentam salas de ginásticas, halls de aeroportos, salas de imprensa – ou seja, passam de um não-lugar (Augé, 1992) a outro. Devem, sobretudo, respeitar uma rígida regulamentação de conduta que, em alguns casos, como o da Holanda, dificilmente encontra paralelo entre outras profissões, senão na carreira militar. Horários rígidos pontuando o tempo de trabalho (e o do não-trabalho), disciplina vestimentária (ir ao estádio de terno e gravata, ter uma roupa para os deslocamentos antes dos jogos no seu estádio e outra nos jogos fora de se estádio, ausência de telefones celulares durante o deslocamento de ida – mas não no de volta - e nos vestiários, lugares fixos na mesa, ordem fixa de quem se serve durante as refeições, não-troca de camisas após os jogos com os adversários, pontualidade absoluta na chegada aos treinamentos e em todas as reuniões previstas, etc.), fazem o dia-a-dia dos jogadores ser absolutamente controlado, e as penalidades previstas para os casos de transgressões, monetárias e de exclusão da equipe fazem com que tenham interesse em aceitar o controle.

Freqüentemente, viajar entre fronteiras não significa necessariamente que estes jogadores conheçam os países que visitam. A rotina destas viagens é prevista pelo clube e altamente controlada, de modo que não resta grande margem de tempo para que possam se deslocar livremente no espaço das cidades e conhecer os locais onde estão. Quando perguntei a Denilson se conheciam muitos países, a resposta irônica foi "sim, os hotéis sim, conhecemos bem os hotéis e os aeroportos". Conhecer outros países, aliás, não é uma aspiração hegemônica no grupo, e como em outras dimensões, os fatores geração e idade de saída do país aparecem como divisores do grupo: esse é um desejo mais forte entre os jovens e os que deixaram o Brasil numa idade mais precoce.51

Embora aspirem, os jogadores brasileiros na Europa não podem vir muito seguidamente ao Brasil uma vez que os compromissos dos torneios nacionais e dos Campeonatos Europeus tomam quase todo o ano. E quando são chamados para servir à Seleção Brasileira (caso de quase todos os que contatei em Sevilha e Eindhoven) não têm tempo para visitarem os amigos e parentes pois a programação de sua estadia é prevista hora a hora pela Confederação Brasileira de Futebol.52 O período de férias, no entanto, evidencia esta busca de estar em contato com o Brasil, de viver em dois lugares, pois é impensável outro lugar para passar as férias que não seja o Brasil e em todos os casos na cidade natal e muitas vezes na casa dos familiares – que em muitos casos é a casa que compraram para os familiares, a "casa para a mãe", como mencionado anteriormente, destinada aos familiares e próximos, locus da inversão do seu primeiro ganho mais substancial e um dos muitos contradons (Damo, 2007).

Tive depoimentos de jogadores que viajaram para o Brasil em folgas de apenas três dias, e que, invariavelmente, passam suas férias em pequenas cidades do interior. E encontrei jogadores que incluem nos seus contratos cláusulas especiais que permitam o deslocamento quando de emergências.53

Refúgio prazeroso, o Brasil é também o lugar seguro, aonde se vai quando se está doente, precisando de tratamento médico, o sistema de tratamento brasileiro é tido unanimemente por esses jogadores como mais eficiente.54 Na conversa que tive com um dos médicos de uma clínica em Sevilha, que atende os jogadores (mas não exclusivamente, atende também acidentes de trabalho que envolvem traumatismos), anotei a queixa de que os jogadores brasileiros eram " muito mimados", exigiam uma atenção maior do que a dos outros pacientes. Ora, no Brasil dificilmente um clube do mesmo porte enviaria seus atletas para uma clínica paga pela Previdência Social e voltada para trabalhadores em geral. Como bem mostra a etnografia de Bittencourt (2007) no Atlético Paranaense, dos profissionais consagrados a jogadores iniciantes, os atletas todos são atendidos por departamentos médicos bem equipados tecnologicamente e que raramente recorrem a clínicas no exterior do clube.

Mais do que os equipamentos tecnológicos, a vantagem apontada pelos jogadores no tratamento no Brasil diz respeito ao acompanhamento de perto, por médicos, por fisioterapeutas ou outros profissionais da saúde. O que traduz de modo positivo o seu equivalente apontado pelo médico de Sevilha: sim, são "mimados". Do mesmo modo com suas esposas, que vão ao Brasil acompanhando filhos para consultas a pediatras quando não passam no Brasil uma parte grande dos períodos de gravidez, como foi o caso de Flávia, esposa de Gomes, que saiu da Holanda logo nos primeiros meses pois estava desnutrida e com principio de depressão.55

Quando não se pode estar no Brasil, se traz o país para perto. No país de origem, o que mais conta é a família e os amigos. O fluxo de visitas do e ao Brasil é intenso envolvendo a rede familiar e amigos e não se dá apenas nas férias e em casos de doença. Embora não apareça sempre nas conversas com os jogadores,56 é muito comum a presença de um amigo do jogador no exterior. Essa circulação de amigos raramente aparece na imprensa57 e muitas vezes sofre com restrições legais, como ocorre na Europa, onde a permanência restringe-se a três meses, duração máxima do visto de turista, o que obriga a pais, mães, amigos e empregadas domésticas a fazerem idas e vindas periódicas.

Quando não trazem um amigo, o próprio clube incentiva a aproximação com outros brasileiros, tratando de contratar em grupo. Está, aliás, tem sido uma característica da migração bem sucedida dos jogadores brasileiros no exterior: a constituição de redes de companheiros no clube, que dividem a responsabilidade, que compartilham uma mesma linguagem, em campo e fora de campo. É de se prever até que esse acompanhamento profissionalize-se no futuro, como indica o sistema adotado pelos empresários de Ari (Az), que contrataram um jornalista, Márcio, para acompanhar o jogador em todos os seus momentos, servindo de intérprete, motorista, secretário e inclusive morando em sua casa, numa prática que mescla prestação de serviços com vigilância e amizade, dissolvendo as fronteiras entre o trabalho e a vida pessoal.

A circulação dos jogadores brasileiros, portanto, ocorre em uma zona constituída de não-lugares (aeroportos, estádios) e de lugares (a casa), estes nacionalmente marcados pelo consumo e o estilo de vida brasileiro. Trata-se, portanto, de uma circulação que poderia ser caracterizada como imóvel na medida em que os sujeitos implicados deslocam-se geograficamente sem se deslocarem simbolicamente.

 

Emigrantes? Brasileños/brésiliens/brazilians/braziliaanse

Percebidos como emigrantes que causam perdas no país de origem ao partirem – fala-se em "êxodo" de jogadores, poder-se-ia falar em diáspora – no país de destino, no entanto, emigrante não é um termo que lhes seja associado. Estes jogadores nunca são referidos em reportagens sobre imigração, sendo invisíveis nas matérias de jornais que abordam os imigrantes na Europa (atualmente, um contingente de cerca de um milhão de pessoas). Imigrante é nessas reportagens uma categoria com conotações negativas – fala-se no "problema da emigração" – e que designa populações de baixa renda, redes de tráfico de drogas, desempregados, empregos clandestinos, mercado-negro, etc. Estes jogadores em nada se aproximam desse perfil de imigrante, pois se reserva a categoria para os trabalhadores braçais e geralmente ela é associa ao crime e à ilegalidade.58

Assim, é compreensível que na imaginação dos europeus dos países pesquisados, imigração brasileira evoque o translado de prostitutas e travestis, que de fato existe, mas raramente de seus ídolos futebolísticos. Emigrante/imigrante tampouco são categorias nativas, pois os jogadores jamais se referiram enquanto emigrantes/imigrantes, mas como profissionais atuando no exterior por um período de tempo e que retornarão ao país de origem para ali realizarem a conversão profissional ou se aposentarem.

Continuam sendo estrangeiros, ou melhor, brasileños/brésiliens/brazilians/braziliaanse também para os europeus, uma categoria que remete evidentemente ao pertencimento nacional, mas que, para além disso, é um valor, funciona como uma qualitativo positivo na sua profissão. Em um raciocínio de magia por similitude, ser brasileiro e jogador futebol é ser um bom jogador de futebol. A palavra "brasileño" e suas traduções, que invariavelmente acompanham os nomes dos jogadores, atua como um adjetivo que qualifica positivamente no que diz respeito à habilidade com a bola, e negativamente no que concerne ao respeito as normas do clube. Brasileños/brésiliens/brazilians/braziliaanse são tidos como rebeldes, festeiros, e sofrendo do mal da "saudade"; em outras palavras, continuam a serem vistos como potenciais bad-boys (na gíria futebolísticas, um malandro (DaMatta, 1990)), embora a maioria dos meus interlocutores tivessem comportamentos opostos, sendo evangélicos inclusive, uma opção não sem conseqüências (Weber, 1996) para seus valores e práticas cotidianas.59

A mobilidade atual do capital permite a desterritorialização de muitos serviços que podem ser feitos por trabalhadores de qualquer lugar do planeta, desde que tenham a educação necessária, que muitas vezes resume-se ao domínio do língua em um treinamento básico, como é o caso dos atendimentos aos clientes por telefone que têm se concentrado em países como a Índia (empresas norte-americanas) ou no Marrocos (empresas francesas). Porém, os emigrantes continuam sendo necessários nos países centrais, especialmente nas cidades globais (Sassen, 1991), cumprindo funções subalternas, que a população local recusa mesmo diante do desemprego, como é o caso dos serviços de cuidado e de limpeza. Ou cumprindo funções que requerem um aprendizado corporal que ainda está mais desenvolvido nos países periféricos. Este é o caso, no sistema futebolístico, dos jogadores latino-americanos e africanos nos clubes globais.

Os jogadores abordados nesta pesquisa fornecem um exemplo empírico extremo deste viver entre fronteiras que tem sido relacionado aos emigrantes em estudos recentes. Poderiam ser caracterizados como transmigrantes? Não obstante suas presenças físicas , eles continuam vivendo no Brasil, tanto no plano da imaginação quanto no econômico, pois no Brasil mantêm casas, sítios, carros, contas bancárias, investimentos múltiplos e sustentam familiares – e nesse sentido, são transmigrantes. Mesmo depois de nacionalizados, eles continuam a se ver como brasileiros e a pensar o futuro como sendo o Brasil. A obtenção da cidadania legal tem assim um propósito estratégico, não implicando em um pertencimento nacional outro. São cidadãos europeus de direito, sem terem deixado de sentirem e serem percebidos como estrangeiros. Essa 'nacionalização', caso claro de busca de cidadania com propósitos estratégicos (Sassen, 2003, 2008), não implica de modo algum em uma desnacionalização ou renacionalização.

A Espanha, a França, a Holanda, a Coréia, o Japão ou qualquer outro lugar em que a sua mobilidade no sistema futebolístico os leve a "rodar", é apenas uma passagem, algo que se faz como um trabalho, com sacrifício, para receber a recompensa de prestigio profissional e financeira. Vivem um exílio voluntário, com a dor que esse termo encerra. Continuam se pensando como vivendo no Brasil – e o ato falho de Julio Batista foi eloqüente da sensação de viverem em dois lugares: "Eu moro em SP", me disse, referindo-se a um lugar que fica a 12 horas de avião de sua atual residência, sem se dar conta do tempo do verbo, no presente. Seus consumos e estilos de vida, porém, não revelam um cosmopolitismo presente em outras categorias profissionais. Estamos longe dos sujeitos cosmopolitas criticamente associados a uma elite ocidental "who were the fullest expression of European bourgeois capitalism and colonial empires" (Beck, 2002, p. 17).

O "rodar", a efemeridade de suas permanências nas instituições de trabalho e nos países no exterior, caracteriza essa emigração como uma circulação e poderia ser chave explicativa para a manutenção do sentimento nacional. Essa situação de provisoriedade também pôde ser observada em outras etnografias de emigração, mas ao contrario de estudos como o de Sayad (1992), aqui o provisório não é dissimulação.60 Essa circulação, como busquei mostrar, ocorre em circuitos particulares, zonas, que podem abranger diversos Estados-Nações, sem que suas fronteiras sejam especialmente relevantes.

Voltemos à epígrafe inicial. Ronaldinho Gaúcho, nacionalizado espanhol, tendo jurado obediência à constituição, à bandeira e à monarquia espanhola, não se considera e nem é considerado espanhol, na Espanha como no Brasil. Joga no Barcelona, clube global que apresenta como slogan "mucho más que um club", por ter sido durante os anos de Franco um dos únicos espaços de afirmação de identidade catalã, e continuar sendo um dos bastiões da luta pela autonomia da Catalunha. Tampouco ele é catalão ou gaúcho, uma identidade que não reivindica, embora o nome.

Ele, como outros jogadores, como os jovens judeus (Majer, 2008) e os garçons das estações de esqui (Dias, 2008), dificilmente correspondem ao perfil do emigrante/imigrante, e chamá-los assim é utilizar o que Beck (2002) ironicamente define como uma categoria zumbi.61 Estão no país de passagem, não se consideram e não são considerados como imigrantes, sua referência de fronteira simbólica não é a nacional/local, mas a clubística, vivem em zonas e bolhas institucionais que os protegem e os controlam, mediando suas relações com o mundo exterior, fazendo-os passar de um não-lugar (Augé, 1992) a outro, onde o local (Feldman-Bianco, 2006, Sassen, 2008) tem um impacto reduzido em suas vidas. Assim, cruzam fronteiras geográficas sem entrarem em países, pois suas fronteiras são os clubes e não os países. Nacionalizam-se, sem mudar de identidade nacional. E, de um continente a outro, são eles quem mais fortemente encarnam o Brasil na imaginação da população mundial hoje.

 

Referências

ANDERSON, B. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989.         [ Links ]

APPADURAI, A. Disjuncture and difference in the global cultural economy. In: FEATHERSTONE, M. (Org.) Global culture. London: Sage, 1990. p. 295-310.         [ Links ]

AUGÉ, M. Non-lieux. Paris: Seuil, 1992.         [ Links ]

ASSIS, G. de Oliveira. Estar aqui... estar lá... Uma cartografia da vida entre dois lugares. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social)–Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1995.         [ Links ]

BASCH, L.; GLICK SCHILLER, N.; SZANTON BLANC, C. Nations unbound: transnational projects, postcolonial predicaments and deterritorialized nation-states. Langhorne: Gordon & Breach, 1994.         [ Links ]

BECK, U. The cosmopolitan society and its enemies. Theory, Culture & Society, London, v. 19, n. 1-2, p. 17-44, 2002.         [ Links ]

BERGAMO, Mônica. Time titular. Folha de S. Paulo, São Paulo, 2 jul. 2006. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0207200608.htm>. Acesso em: ,2 jul. 2006.         [ Links ]

BILLIG, M. Banal nationalism. London: Sage, 1995.         [ Links ]

BITTENCOURT, F. Metáforas do esporte. Metáforas e narrativas de guerra: o uso da linguagem esportiva na cobertura jornalística da guerra entre Estados-Unidos e Iraque. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 26, n. 2, p. 9-20, 2005.         [ Links ]

BITTENCOURT, F. Simmel e o futebol: da comunidade de afeto à equivalência abstrata do dinheiro. Comunicação oral na VII Reunião de Antropologia do Mercosul, Porto Alegre, 2007.         [ Links ]

BOURDIEU, P. La distinction – critique sociale du jugement. Paris: Minuit, 1979.         [ Links ]

BOURDIEU, P. Comment peut-on être sportif? In: BOURDIEU, P. Questions de sociologie. Paris: Minuit, 1980. p. 173-195.         [ Links ]

BOURDIEU, P. Choses dites. Paris: Minuit, 1987.         [ Links ]

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989.         [ Links ]

BOURDIEU, P. Sur la television, suivi de l'emprise du journalisme. Paris: Liber, 1996.         [ Links ]

BOURDIEU, P. Les structures sociales de l'economie. Paris: Seuil, 2000.         [ Links ]

BOTTENBURG, M. van. Global games. Urbana: University of Illinois Press, 2001.         [ Links ]

BROMBERGER, C. Le match de football. Paris: Maison de Science de l'Homme, 1995.         [ Links ]

BROMBERGER, C. Football, la bagatelle la plus sérieuse du monde. Paris: Bayard, 1998.         [ Links ]

BROMBERGER, C. El fútbol como visión del mundo y como ritual. In: BROMBERGER, C. Nueva antropologia de las sociedades mediterráneas. Barcelona: Icaria, 2001. p. 253-274.         [ Links ]

CARLET, W. Zero Hora, Porto Alegre, 30 ago. 2007. Esportes.         [ Links ]

DAMATTA, R. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Guanabara, 1990.         [ Links ]

DAMO, A. Do dom à profissão: uma etnografia do futebol de espetáculo a partir da formação de jogadores no Brasil e na França. São Paulo: Hucitec: Anpocs, 2007.         [ Links ]

DIAS, G. M. Trabalho temporário, fronteiras e mobilidade: relatos da experiência de trabalhadores australianos e neozelandeses no Okemo. Comunicação oral no simpósio Circulação Internacional, Fronteiras e Subjetividades. XXVI Reunião da ABA, Porto Seguro, 2008.         [ Links ]

ELIAS, N.; DUNNING, E. Quest for excitement: sport and leisure in the civilizing process. Oxford: Basil Blackwell, 1986.         [ Links ]

FAVELL, A. The human face of global mobility. London: Transction, 2006.         [ Links ]

FELDMAN-BIANCO, B. Comida, música, religião e futebol: reconfigurações identitárias de refugiados africanos no Brasil. Comunicação oral no simpósio Circulação Transnacional, Fronteiras e Identidades: diálogos Luso-Brasileiros. XXV Reunião da ABA, Goiânia 2006.         [ Links ]

FONSECA, C. Família, fofoca e honra: etnografia de relações de gênero e violência em grupos populares. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2000.         [ Links ]

FRIEDMAN, J. Being in the world: globalization an localization. In: FEATHERSTONE, M. (Org.) Global culture. London: Sage, 1990. p. 311-328.         [ Links ]

FUTEBOL. Produção VideoFilmes e GNT. Direção de João Moreira Salles, Arthur Fontes e Rudi Lagemann. Documentário, 1998.         [ Links ]

GUTTMANN, A. From ritual to record: the nature of modern sports. New York: Columbia University Press, 1978.         [ Links ]

HANNERZ, U. Cosmopolitas y locales en la cultura mundial. In: HANNERZ, U. Conexiones transnacionales: cultura, gente, lugares. Madrid: Ediciones Cátedra, 1996, p. 165-180.         [ Links ]

HUGHES, E. C. The sociological eye – selected papers. New Brunswick: Transaction 1993.         [ Links ]

INTEGRATION and trade in the Americas. [s.d.]. Disponível em: <http://idbdocs.iadb.org/wsdocs/getdocument.aspx?docnum=798294>. Acesso em 20 jun. 2008.         [ Links ]

KEARNEY, M. The Local and the global: the Anthropology of Globalization and Transnationalism. Annual Review of Anthropology, v. 24, p. 547-565, 1995.         [ Links ]

KEARNEY, M. Reconceptualizing the peasantry. In: KEARNEY, M. Anthropology in global perspective. Boulder: Westview Press, 1996.         [ Links ]

MACHADO, I. J. de R. Hierarquia das fronteiras e o ponto de vista etnográfico. Comunicação oral no simpósio Circulação Internacional, Fronteiras e Subjetividades. XXVI Reunião da ABA, Porto Seguro, 2008.         [ Links ]

MAJER, L. Ir, ficar ou voltar: objetivos, anseios e dificuldades de brasileiros que emigraram a Israel. Monografia (Graduação em de Ciências Sociais)–Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2008.         [ Links ]

MARGOLIS, M. Little Brazil: an ethnography of Brazilian immigrants in New York City. Princeton. Princeton University Press, 1994.         [ Links ]

MARX, K. Capital: a critique of political economy: vol. 1. Moscow: Progress Publishers, 1978.         [ Links ]

MILLMAN, J. Brasileiros ilegais desafiam lógica econômica da migração aos Estados Unidos. The Wall Street Journal Américas/Estado de São Paulo, São Paulo, B7, 24 jan. 2005.         [ Links ]

MORIN, E. Les stars. Paris: Seuil, 2007.         [ Links ]

NERY, A. L. Exportação de atletas supera a de bananas. 2007. Disponível em: <http://www2.camara.gov.br/comissoes/ctd/antigas/exportacao-de-atletas-supera-a-de-bananas>. Acesso em: 1 ago. 2007.         [ Links ]

OLLIER, F. Footmania: critique d'un phenomena totalitaire. Paris: Homnisphères, 2007.         [ Links ]

ORTIZ, F. La nacionalización de Ronaldinho podría forzar su marcha al Chelsea. AS.com, 28 ago. 2007. Disponível em: <http://www.as.com/futbol/articulo/nacionalizacion-ronaldinho-podria-forzar-marcha/dasftb/20070828dasdaiftb_59/Tes>. Acesso em: 28 ago. 2007.         [ Links ]

PISCITELLI, A. On "gringos" and "natives": gender and sexuality in the context of international sex tourism in Fortaleza, Brazil. Vibrant, v. 1, n. 1/2, p. 87-114, 2004.         [ Links ]

REIS, R. R.; SALES, T. (Org.). Cenas do Brasil migrante. São Paulo: Boitempo, 1999.         [ Links ]

REMESSAS no Brasil. [s.d.]. Disponível em: <http://www.iadb.org/exr/spe/bidamericatv/videos.cfm?language=PO&articleid=2963>. Acesso em: 20 jun. 2008.         [ Links ]

REMITTANCES from Portugal to Brazil could reach 420 million euros a year, study says. Inter-American Developtment Bank News, 25 mai. 2006. Disponível em: <http://www.iadb.org/news/articledetail.cfm?language=EN&artid=3095>. Acesso em: 20 jun. 2008.         [ Links ]

RIAL, C. Futebol e mídia: a retórica televisiva e suas implicações na identidade nacional, de gênero e religiosa. Antropolítica, Niterói, v. 14, n. 2, p. 61-80, 2003.         [ Links ]

RIAL, C. Os boleiros em Andaluzia: estudo da emigração de jogadores de futebol brasileiro à Espanha. 2004. Relatório de pesquisa Capes/MECD.         [ Links ]

RIAL, C. Os jogadores brasileiros na Espanha: emigrantes porém... Revista de Dialectología y Tradiciones Populares, v. 61, n. 2, p.163-190, 2006.         [ Links ]

RIAL, C.; GROSSI, M. P. Living in Paris: old and small places in a world city. In: JEZERNIK, B. Urban symbolism and rituals. Ljubljana: Oddelek za etnologijo in kulturno antropologijo/Univerza v Ljubljani, 1999. p. 31-53.         [ Links ]

RIBEIRO, G. L. Bichos-de-Obra: fragmentação e reconstrução de identidades. Revista Brasileira de Ciências Sociais, n. 18, p. 30-40, 1992.         [ Links ]

RIBOT, O. Alves cuesta 42 millones y el Madrid se lo piensa. AS.com, 22 ago. 2007. Disponível em: <http://www.as.com/futbol/articulo/alves-cuesta-42-millones-madrid/dasftb/20070822dasdaiftb_42/Tes. Acesso em: 24 ago. 2007.         [ Links ]

SARRÓ, R. La aventura como categoría cultural: apuntes simmelianos sobre la emigración subsahariana. Comunicação oral no simpósio Circulação Transnacional, Fronteiras e Identidades, Unicamp, Campinas, 2007.         [ Links ]

SASSEN, S. The global city. New York, London, Tokyo. Princeton. Princeton University Press, 1991.         [ Links ]

SASSEN, S. Contrageografías de la globalización: género y ciudadanía en los circuitos transfronterizos. Madrid: Traficantes de Sueños, 2003.         [ Links ]

SASSEN, S. Strategic Gendering in the global economy. In: LA IGUALDAD no es una utopía. Nuevas Fronteras: Avances y Desafíos. Conferencias plenarias. Madrid: Thomson-Aranzadi, 2008.         [ Links ]

SAYAD, A. L'immigration, ou les paradoxes de l'alterité. Brussel: De Boeck Université, 1992.         [ Links ]

SCHÜTZ, A. Le chercheur et le quotidien.phénoménlogie des sciences sociales. Paris: Meridien Klinkcksieck, 1987.         [ Links ]

SILK, M.; ANDREWS, D. L. Beyond a boundary? Sport, transnational advertising, and the reimagining of national culture. Journal of Sport & Social Issues, v. 25, p. 180–201, 2001.         [ Links ]

SILK, M.; AMIS, J. Institutional pressures and the production of televised sport. Journal of Sport Management, v. 14, p. 267–92, 2000.         [ Links ]

SIMMEL, G. La aventura. In: SIMMEL, G. Cultura femenina y otros ensayos. Madrid: Revista de Occidente, 1936. p. 123-138.         [ Links ]

SIMMEL, G. Philosophie de l'argent. Paris: Presses Universitaires, 1977.         [ Links ]

SOUZA, M. M. de. Bola dividida. Zero Hora, Porto Alegre, 18 jun. 2007. Esportes.         [ Links ]

TARRIUS, A. Les fourmis d'Europe. Paris: l'Harmattan, 1992.         [ Links ]

TOLEDO, L. E. Lógicas no futebol. São Paulo: Hucitec: Fapesp, 2002.         [ Links ]

VEBLEN, T. Teoria da classe ociosa. São Paulo: Abril Cultural, 1974. (Coleção Os Pensadores, v. 40).         [ Links ]

VELHO, G. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da sociedade contemporânea. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.         [ Links ]

VELHO, G. Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.         [ Links ]

WACQUANT, L. Putas, escravos e garanhões: linguagens de exploração e de acomodação entre boxeadores profissionais. Mana, v. 6, n. 2, p. 127-146, out. 2000.         [ Links ]

WACQUANT, L. Corpo e alma: notas etnográficas de um aprendiz de boxe. Rio de Janeiro: Relume-Damará, 2002.         [ Links ]

WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Lisboa: Editorial Presença, 1996.         [ Links ]

YONNET, P. Football: les paradoxes de l'identité. Le Débat, n. 146, p.178-191, set./out. 2007.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 28/02/2008
Aprovado em: 25/06/2008

 

 

* Agradeço a Capes e ao CNPq pelos financiamentos que possibilitaram essa pesquisa.
1 "Uno dos pocos elementos – cuando no el único – de una cultura mundial masculina, algo que resulta evidente para cualquier persona al margen de la variedad de regiones, naciones y generaciones a las que pertenezca." (Bromberger, 2001).
2 Por mídia refiro-me aqui aos meios de comunicação eletrônicos, que se encontram sujeitos as ingerências do campo jornalístico (Bourdieu, 1996).
3 É o único país com cinco títulos mundiais de futebol, o único a ter participado de todas as Copas do Mundo, o que liderou o ranking da Fifa por mais tempo nas últimas décadas e o que mais vezes conquistou o título da Fifa de melhor jogador do mundo. Partindo do conceito de campo de Bourdieu (1987), chamo de sistema futebolístico a união de vários campos relacionados com a prática do futebol, um sistema cujas origens remontam ao século XIX, como já foi mostrado em outros trabalhos (Bottenburg, 2001; Elias; Dunning, 1986; Guttmann, 1978). O sistema futebolístico inclui o campo futebolístico – que vai desde o futebol amador praticado nas escolinhas e várzeas até o futebol de espetáculo; onde a instituição transnacional Federação Internacional de Futebol (Fifa) tem papel central, atuando através das federações regionais e as confederações nacionais, organizando e regulando essa prática – mas não se restringe a esse, pois inclui outros campos, como o campo jornalístico e o campo econômico. Toledo (2002) analisou a relação entre esses campos. Minha pesquisa me levou a concluir que nem sempre um produto valorizado no campo futebolístico, necessariamente o é no sistema futebolístico, pois neste, o campo jornalístico tem papel importantíssimo. Por exemplo: poucos torcedores no mundo são capazes de lembrar os nomes dos jogadores campeões europeus de seleções da Eurocopa de 2005; muitos no entanto sabem a escalação do Real Madrid de 2005, que não vencia um título há vários anos. Os jogadores gregos campeões em Portugal nem de longe se aproximam do valor dos jogadores galáticos do Real Madrid. No "star system" (Morin, 2007) que é característico do sistema futebolístico atual, a vitória numa competição importante não necessariamente significa o auge na hierarquia do sistema futebolístico. Partindo dos conceitos de capital cultural, capital social e capital simbólico de Bourdieu (1987, 1989, 2000), estou chamando de capital futebolístico a soma de conhecimentos particulares ao campo futebolístico, sejam eles conhecimentos corporais (saber como empregar o corpo nas performances futebolísticas), sociais (conhecer pessoas importantes para a ascensão no campo) ou econômicos (saber administrar contratos e inversões monetárias).
4 Dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) mostram que em 2002 foram 665 jogadores transferidos para o exterior; em 2003 foram 858; em 2004 foram 857; em 2005 foram 804; em 2006 foram 851 e em 2007, até agosto, foram 694. Os 851 atletas do ano passado se transferiram para clubes de 86 países, incluindo alguns, como Líbia, Uzbequistão, Ilhas Faroe, Chipre, Vietnã, Tailândia, com pouca tradição no sistema futebolístico. As vendas renderam no ano passado, segundo o Banco Central, US$ 131 milhões (valor médio de US$ 15,4 mil).
5 São também fontes secundárias dessa pesquisa os jornais Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Zero Hora e A Noticia (SC), assim como os programas de televisão SportvNews, Redação Sportv, Expresso da Bola, Arena Sportv, Bem Amigos (todos da Sportv), Bate-Bola, Loucos por Futebol, Pontapé Inicial (todos da ESPN), além dos jornais Marca e As (Espanha), Gazzetta dello Sport (Itália), L'équipe (França), Placar e Globo Esporte (Brasil), consultados quase que diariamente na Internet nos últimos cinco anos, além da Revista Cruzeiro e de exemplares de diversos jornais de décadas anteriores, do acervo do historiador de futebol Airton Fontenelle, consultados em Fortaleza.
6 "Jogador de futebol" ou "futebolista" aqui e em todo o texto é usado no sentido de jogador de futebol de campo, profissional. Também os jogadores de futebol amador emigram e também emigram os jogadores de futsal – só para se ter uma idéia da intensidade dessa última emigração, basta lembrar que a seleção espanhola, campeã mundial, era formada basicamente por brasileiros nacionalizados, merecendo do jornal Marca (principal jornal esportivo espanhol) a manchete "Brasil B". Os jogadores de futsal serão considerados apenas quando transitem entre o campo e a sala, como é o caso de alguns jogadores que contatei em Toronto, no Canadá, se localizando na faixa de renda mais baixa dessa pesquisa, alguns dos quais associam o trabalho como jogador de futebol com o de operários na construção civil.
7 Agradeço ao historiador cearense Airton Fontenelle, detentor de uma das mais completas bibliotecas sobre futebol no Brasil, o acesso às matérias sobre futebol, publicadas em jornais brasileiros dos anos 1930 em diante.
8 Caso dos clubes ingleses como o Chelsea ou o Arsenal.
9 A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) que contabiliza tanto as saídas quanto as entradas de jogadores, divulga os dados de retornos apenas a partir de 2005, impedindo assim um cálculo exato. Os retornos em 2005 foram de 465 jogadores, em 2006 foram de 311 jogadores e em 2007, até agosto, foram de 375 jogadores (cf. http://www.cbf.com.br). Chegamos a esse número de cerca de quatro mil em conversas informais com os integrantes do GT de Antropologia do Esporte, na RBA e na RAM, e especialmente com o antropólogo Arlei Damo (UFRGS). A esse grupo de pesquisadores, assim como os participantes do Simpósio Circulação Transnacional, Fronteiras e Identidades (organizado por Bela Feldman-Bianco (Unicamp), em Campinas, em setembro de 2007), agradeço pelos comentários a essa pesquisa. Numa reportagem recente, (Souza, 2007, p. 45), um dirigente do setor de registro da CBF, Luiz Gustavo também estimou em quatro mil o número de jogadores no exterior.
10 Mesmo em um país como a França, onde o capital cultural da população é tido como alto em relação a outros países no mundo, as pesquisas de opinião apontam Zinedine Zidane como o francês que desperta a maior admiração dos franceses, ao lado do bispo Pierre, fundador da entidade caritativa Emaüs. Ronaldo liderou uma pesquisa realizada às vésperas da Copa de 1998 que buscava saber quem era o indivíduo mais conhecido no mundo.
11 Segundo dados do Banco Central, os jogadores renderam para o país com suas vendas em 2005, US$ 159,2 milhões. No ano passado, o volume de dólares foi um pouco menor, tendo totalizado US$ 131 milhões referentes à exportação de jogadores para clubes do exterior. O certo é que "nos dois últimos anos (2005 e 2006), as transferências de jogadores de futebol brasileiros para o exterior renderam mais dólares ao país do que as vendas de algumas frutas tradicionais da pauta de exportações brasileira, como banana, melão, mamão e uva" (Nery, 2007).
12 Como o caso Corinthians e suas transações de jogadores (como Carlos Alberto) recentemente revelou.
13 A América Latina e o Caribe são regiões que lideram a captação de remessas no mundo, com um total de 53 bilhões e 600 milhões em 2005, superando os investimentos estrangeiros na região. Cf. no site do BID (Remessas do Brasil, [s.d.]).
14 Cf. no site do BID Integration… ([s.d.]) e Remittances… (2006).
15 Segundo Nery (2007) os instrumentos e aparelhos médicos totalizaram US$ 104,146 milhões (2005) e US$ 119,175 milhões (2006), um pouco menos do que as exportações de jogadores.
16 Encontrei na mídia inúmeros relatos de jogadores que atuaram em países árabes, especialmente na Arábia Saudita, que mencionaram seqüestro de passaporte, corte de água e luz nas residências, etc.
17 Ainda que o Brasil detenha a hegemonia no sistema futebolístico atual, tanto no campo futebolístico quando no campo jornalístico, os futebolistas brasileiros não lideram as transações mais caras efetuadas no futebol. Ronaldo é o primeiro a aparecer, num modesto oitavo lugar (custou 45 milhões de euros quando de sua transferência da Inter de Milão para o Real Madrid), atrás de Zidane (75 milhões de euros, em 2001, da Juventus para o Real), Figo (61 milhões de euros em 2001, do Barcelona para o Real), Crespo (51 milhões de euros em 2000, do Parma para a Lázio), Vieri (48 milhões de euros em 1999, da Lázio para a Inter), Mendieta (48 milhões de euros em 2001, do Valencia para a Lázio), Bufon (47 milhões de euros em 2001, do Parma para a Juventus), Ferdinand (47 milhões de euros em 2002, do Leeds para o Manchester). Schevchenko (45 milhões de euros em 2006, do Milan para a Chelsea ) e Verón (42,5 milhões de euros em 2001, da Lázio para o Manchester) completam a lista das dez transações mais caras, que conta portanto com a liderança de um francês e tem dois argentinos, dois espanhóis e apenas um brasileiro.Poucas foram as transações de brasileiros que superaram os 30 milhões: Denílson (32 milhões de euros, em 1998, do São Paulo para o Bétis, na época, a transação mais cara já realizada) e Robinho (30 milhões de euros, em 2005, do Santos para o Real).
18 Como Lúcio considerado um dos principais jogadores da Alemanha, Gomes e Alex na Holanda, Luisão em Portugal, Pepe na Espanha, entre outros.
19 Com exceção de países como a Inglaterra, onde o Chelsea, clube inglês que pertence ao milionário exilado russo Abramovich, chegou a disputar partidas alinhando 11 estrangeiros como titulares.
20 Hannerz (1996, p. 168) apresenta uma definição mais sofisticada: "Un cosmopolitismo más genuino es, en primer lugar, una orientación, una voluntad de comprometerse con el Otro. Comporta una actitud intelectual y estética abierta a las experiencias culturales divergentes, una búsqueda de contrastes antes que de uniformidad. Familiarizarse con más culturas es convertirse en un aficionado, es ver esas culturas como su fueran obras de arte."
21 "A idéia de que a migração é simplesmente uma questão de impulso por causa da pobreza é simplista. Há muitos fatores em ação: oportunidades de trabalho, expansão das comunidades de compatriotas no exterior, habilidades que têm alta demanda e podem ser transpostas. Esses fatores favorecem a classe média assim como os pobres.", explica Jeffrey Davidow, diretor do Instituto das Américas na Universidade da Califórnia, em San Diego (Millman, 2005).
22 Caso de Júlio Batista (Sevilha/Espanha), Ricardo Oliveira (Bétis/Espanha), Leandro (Ajax/Holanda). Os nomes do clube e do país que aparecem entre parênteses correspondem ao momento da entrevista pois, dada a grande circulação no sistema futebolístico, muitos dos jogadores entrevistados mudaram de clubes várias vezes durante os cinco anos dessa pesquisa – neste caso, por exemplo, Júlio Batista (Sevilha/Espanha-Arsenal/Inglaterra-Real Madrid/Espanha), R. Oliveira (Bétis/Espanha-Milan/Itália-Zaragoza/Espanha), Leandro (Feyenoord/Holanda-Ajax/Holanda).
23 Gomes, Alex e suas famílias vão de Eindhoven à Amsterdã para freqüentar um templo evangélico. Os jogadores do Celta de Vigo (Edu quando jogava lá, Roberto, Iriney, Fernando Bahiano costumavam reunir-se na casa de Andreson para rezarem). Hélio, sem ser evangélico, passou a freqüentar o templo em Toronto para encontrar outros brasileiros. Ricardo Oliveira e Fabiana procuraram o templo em Sevilha, e, como no de Gomes e Flavia, não gostaram do estilo, ainda que curiosamente por razões inversas. Enquanto a esposa de Gomes disse não gostar pois eles em Amsterdã eram "muito sérios", diferente do Brasil, onde se é "mais alegre", a esposa de Ricardo Oliveira julgou o contrário sobre o templo visitado em Sevilha. A Internet tem auxiliado também nesse campo (Kaká consultava diariamente o site de sua Igreja, Renascer em Cristo, na concentração durante a Copa do Mundo de 2006, recebendo preces especiais do casal de bispos que a lidera, e tem ele mesmo a aspiração de tornar-se pastor quando deixar o futebol). Essa proximidade com a Igreja evangélica já fez com que um jogador da seleção brasileira, Müller, deixasse o futebol para tornar-se pastor e outro, Jorginho, o assessor direto do treinador Dunga na seleção brasileira, abrisse um templo na praça principal de Munique (informação pessoal da antropóloga M. Amélia Dickie (UFSC)). Assim, procurar as Igrejas Evangélicas – como os restaurantes freqüentados por brasileiros – foi uma estratégia de localizar os jogadores em cidades estrangeiras, como cedo me apercebi.
24 Transcrevo abaixo algumas falas sobre esse tópico:
(i) "No Brasil a gente fazia umas reuniões um dia antes das partidas, a gente cantava alguns hinos, a gente lia a Bíblia e usava a palavra, um dia antes da partida, e no dia do jogo a gente faz uma oração antes de entrar em campo. Aqui não porque aqui, a maioria não é religioso, então fica um pouco difícil, mas eu acho que isso, não podemos julgar ninguém, cada um tem sua religião e temos querespeitar. É igual ao que diz na Bíblia: "Deus deu o livre arbítrio para cada um, então somos livres pra fazer o que queremos", então quem sou eu pra julgar alguém." Adriano/Sevilha.
(ii) "Eu sou mais religioso, eu sou evangélico, acredito" diz Denílson/Bétis, na conversa que tenhocom ele e Assunção; "Eu não, eu aceito tudo, se me chamar para Igreja eu vou. (risos) gosto e religião não se discute. Cada um tem o seu gosto e sua religião, tem que respeitar. Eu sou católico e você é crente" responde Assunção/Bétis; "Importância de Deus. Eu acho que nada acontece por acaso e tudo tem uma resposta e esta resposta só Deus pode dar. Eu oro sempre. Porque a maldade existe também. Se você não orar a maldade toma conta de você. Eu sempre oro, peço coisas, nãomais ou menos. É meio que uma briga, né, o bem, contra o mal." retruca Denílson; "Procuro agradecer tudo o que ele me deu. Graças a ele tenho uma vida boa, por mais que eu não seja (religioso)" finaliza Assunção.
(iii) "Eu me converti eu sou evangélico em 1996, depois do meu casamento, você me perguntou se eusou religioso, acho que a opinião que eu tenho, é que Deus não gosta de religião, ele gosta de entrega e de coração total, então independente de religião acho que o mais importante é a gente buscar a Deus, então Deus é a pedra angular que é base de tudo de nossa vida, eu penso assim, e a gente sempre faz reuniões aqui no Bahia, eu o Neto, o Luciano que são cristãos, chegou agora o Marcelinho que também é cristão."Dill, Bahia que jogou na França e na Suíça.
(iv) "(Alex/PSV): "Pra mim é super importante conheci aos 14 anos, através aniversário da minhatia, minha mãe me chamou pra ir a igreja, eu fui gostei. E para mim Deus é aquilo na minha vida, foi quem me deu força, foi quem me colocou aqui, e agradeço a Deus todo dia, por ele ter me sustentado, me ajudado a chegar até aqui. Não basta só contar com Deus tem que ter um esforço.
E: E você freqüenta alguma igreja aqui?
Alex: Eu vou às vezes em Amsterdã, mas é longe, ai vou eu, minha esposa, minha filha também.
E: E lá tem algum outro jogador brasileiro que freqüenta essa igreja?
Alex: Não é que aqui tem pouco jogador brasileiro na Holanda, tem em Munique, o Zé Roberto o Edmilson, em Lyon, o Edmilson, sempre fazia, ele dirigia (as orações), mas aqui é mais devagar tem poucos jogadores também.
E: E como é que você ficou sabendo dessa igreja em Amsterdã?
Alex: Eu vi pelo site "Deus é Amor", é www.deuseamor.com.br, é do Brasil mesmo, aí eu liguei lá falei com o pastor, tem na Bélgica, Suíça, Inglaterra, sempre to indo lá. Pra mim é fundamental.
E: E você tem amigos que são da igreja, são muitos brasileiros, são mais holandeses?
Alex: A maioria são brasileiros, o pastor também é brasileiro, não fala holandês, é tudo em portugues, sempre agente conversa com o pessoal ali, não são jogadores, mas tem uma certa amizade".
25 Robinho receberia 3 milhões de euros anuais (250 mil euros por mês), segundo a revista Placar. Esse seria o mesmo salário de Ricardo Oliveira (3 milhões de euros por temporada) segundo La Gazzetta del Sport de 4 de julho de 2007, inferior ao de Denilson. Émerson, segundo o site do jornal As, receberá 3,5 milhões de euros por ano em cada uma das 3 temporadas que assinou com o Milan A.C. Um pouco a mais do que Júlio Belleti que receberá mais de 3 milhões de euros por cada uma das três temporadas que assinou com o Chelsea. Daniel Alves iria cobrar 6 milhões de euros para cada uma das cinco temporadas que assinaria com o mesmo clube, mas não pode transferir-se pois o Sevilha não aceitou transferi-lo por menos de 42 milhões de euros. (Ribot, 2007). Alex, emprestado ao PSV, receberia 80 mil euros por mês, provavelmente bem mais agora que retornou ao futebol inglês. Por mais elevados que possam parecer, esses salários são inferiores a de certos treinadores ingleses, como Mourinho (mais de 3 milhões de euros por mês), segundo o jornalista Décio Lopes (Redação Sportv).
26 Reproduzo um trecho tenso da entrevista com Maycon (Mônaco/ disputa o campeonato da França), com quem conversei descontraidamente por mais de uma hora. Pergunto: "Você pode me dizerquanto que é seu salário?" Maycon responde de imediato: "Ah não. Não!" Retruco: "É confidencial, não. Tudo bem. Não tem problema. Eu sei, por exemplo, que o Alex do PSV ganha em torno de 85 mil euros e o jogador tal 30 mil. Você fica entre isso?" Mais calmo, ele responde. "Está. Está entre isso aí." Atualmente na Inter de Milão e na seleção brasileira, Maycon deve receber bem mais do que o salário que tinha no Mônaco.
27 Durante o período da pesquisa, Ricardo Oliveira, Robinho e Luis Fabiano tiveram familiares seqüestrados.
28 Por exemplo: a Folha de S. Paulo, um dia após a derrota do Brasil na Copa, apresentou uma reportagem de uma página escrita por Mônica Bergamo (2006) sobre as mulheres de alguns jogadores. A reportagem precisaria ser contextualizada, pois é publicada justamente no momento em que, após a derrocada inesperada na Alemanha, se espalhou pelo Brasil uma indignação contra os jogadores, visto como desinteressados no resultado de campo e distantes das paixões da comunidade imaginária formada pelos torcedores que se confundem nesse momento com os cidadãos do país. A indignação tomou a forma de uma crítica ao seu estilo de vida, representado na mídia como de um consumo de luxo. Na reportagem, a colunista social aborda a relação das esposas e namoradas dos jogadores, enfatizando o seu consumo de luxo. Trata de Suzana Werner, jornalista, ex-namorada de Ronaldo em 1998 e hoje casada com o goleiro Julio César, que é citada como tendo feito uma maratona de compras com a atriz Daniela Escobar: "Dani olha isso, uma loja chamada Baby Dior, fala sério, que luxo!", "estou encantada com Munique, tem cada galeria linda", de arte?, "não de lojas, amore. Acabei de sair da Zara com uma bolsa cheia. E gastei só 200 euros (cerca de 560 reais) muito barato. Estou amando.", da esposa de Cafú e de Zagallo.
29 Beckham tinha mais prestigio futebolístico quando era o capitão da seleção inglesa e jogava no Real Madrid, um clube global, mas ganha hoje quase 10 vezes mais em Los Angeles onde negociou contrato com um desconhecido clube norte-americano por 50 milhões de dólares anuais.
30 Seiscentos mil euros pagou Edu pela sua, a de Ricardo Oliveira, Denílson e Assunção provavelmente custaram mais caro. Estas casas estão longe dos espaços diminutos habitados por emigrantes brasileiros em cidades globais (Rial; Grossi, 1999).
31 Túlio, que não sabia da existência desse canal na França: "antes não tinha, quando eles chegaram aqui (outros jogadores brasileiros) eles me disseram que eu já nem parecia brasileiro, já falava francês, já comia as coisas daqui. Aí a gente passou a ver todos os dias (a novela das oito), na casa deles". Leandro (Ajax), na Holanda desde os 12 anos, com companheira holandesa, não se interessa em tê-lo.
32 Esse tema será desenvolvido em outro artigo. Para se ter uma idéia da importância da alimentação no consumo dos brasileiros no exterior, lembro que dos 500 milhões de dólares de importações japonesas do Brasil, 200 milhões são de alimentos para a comunidade de 300 mil brasileiros que vivem no Japão. Isso tem implicações curiosas na indústria alimentícia brasileira. Por exemplo, para que fosse possível essa exportação, a fábrica de chocolates Lacta teve que passar a importar leite da Nova Zelândia (junto com a Suíça, um dos únicos países cujo leite tem entrada permitida no Japão). A Lacta passou a produzir um "brant", parando suas máquinas de tempos em tempos para trocar o leite brasileiro, vetado pelos japoneses pois apresentaria um nível elevado de clorofórmios fecais. (informação pessoal do conselheiro Sérgio Azevedo, Embaixada do Brasil em Tóquio). Também na Holanda, onde realizei pesquisa etnográfica em fevereiro 2005 e em dezembro 2007 a março 2008, as importações brasileiras são significativas. Apenas para a loja/site. Finalmente, no Brasil, tomei conhecimento através de Flávia, esposa de Gomes (PSV/Holanda), e do jogador Alex, que são enviados oito containeres repletos de produtos brasileiros anualmente, a maior parte sendo de itens alimentares, destinados aos imigrantes residindo na Holanda e nos países vizinhos.
33 E não apenas, como poderíamos supor, feijão, farinha e outros itens de consumo tidos como "nacionais", mas sucos Tang (esposa de Edu), remédios variados (esposa de Gomes).
34 Os jogadores entrevistados foram unânimes em dizer que preferiam consumir produtos brasileiros, sendo fácil seu acesso a eles. Na Holanda, compra-se até palha de aço brasileira pela Internet, através do site "Finalmente Brasil", que serve também outros países europeus através da venda por correspondência, e há uma loja em Amsterdã abastecida anualmente por oito containeres de produtos brasileiros (xampus, pomada Minâncora, pão de queijo, cervejas, Fanta Uva, carnes, etc.); o pai de André Bahia, do Feyenoord me convidou para comer um bobó de camarão, possível graças ao "mercado do Suriname" de Roterdã; comi arroz, feijão e picadinho de carne na casa de Ari, abastecida pelos "turcos"; no Japão, visitei um grande caminhão que se reveza estacionando a cada 15 dias em frente a Embaixada do Brasil, do Banco do Brasil e em outros pontos, onde os clientes entram, e encontram em suas prateleiras desde frangos Perdigão, sabonetes Phebo, salsichões para churrasco, até arroz e revistas Playboy.
35 Notei que os mais jovens tinham maior facilidade para usar todas as ferramentas da Internet, incluindo a telefonia, o que para os de mais de 24 anos já não era tão usada, sendo o telefone o recurso preferido. Todos me forneceram seus e-mails, e eu mesma troquei mensagens com alguns jogadores, comprovando que seu uso é intenso.
36 Os jogadores de maior renda ("galáticos" e alguns nacionais) costumam adquirir os imóveis onde moram, como uma estratégia financeira que visa garantir maior rentabilidade para seus ganhos, pois alugar casas nos bairros e condomínios de prestígio onde habitam seria empatar um dinheiro alto que não teria retorno. Cerca de metade dos jogadores com que conversei, no entanto, receberam do clube o apartamento onde moram e muitas vezes também o carro, sendo esses, parte do contrato com o clube.
37 Não me deterei aqui na formação do jogador de futebol, na sua iniciação no campo futebolístico, remetendo que foram suficientemente exploradas em outros trabalhos (Futebol, 1998; Rial, 2004) e especialmente por Arlei Damo (2007).
38 Concentração é o termo que designa o espaço (e o tempo) onde os jogadores são reunidos nos dias que antecedem os jogos, de modo a afastá-los dos perigos da vida mundana. Ali, na ausência de familiares, de bebidas alcoólicas e de sexo, acredita-se que possam melhor se concentrar nas tarefas a realizarem no próximo jogo. Muitos clubes no Brasil mantêm prédios de moradia para os seus jogadores, que também são assim designados. Nos grandes clubes, onde os salários são mais elevados, esses locais são destinados aos jovens das categorias de base. Nos clubes pequenos, onde os jogadores ganham salários baixos, elas servem de moradia também para os profissionais provenientes de outras cidades. As novas determinações do Estatuto do Menor têm impedido que muitos clubes acolham meninos com menos de 14 anos e uma estratégia que tem sido usada é a sua residência na casa de dirigentes do clube.
39 Adaílton, filho de médico, conta que aos 14 anos foi morar sozinho em Belo Horizonte, em apartamento alugado pela família. Os outros jogadores – Renato, Gomes, Alexandre, Edu, etc. –, moraram desde cedo nas concentrações de seus clubes. Com isso, garantiam também a alimentação. Contou-me Gomes: "Fiz amizade com o cozinheiro que me dava alguma coisa para fazer um sanduíche de noite, pois ofereciam só o almoço. Nos fins de semana, quando não tinha cozinheira, eu comia pão com pão." Contou-me Renato: "Para Campinas eu fui (aos 14 anos) com um menino que jogava comigo no Gracena, eu fiquei com ele, era praticamente ali o meu melhor amigo, entre os 50 meninos que tinha no alojamento, e ali fui conhecendo outras pessoas".
40 Como ocorreu com o menino David (13 anos), que ajudei a transitar pelo aeroporto de Congonhas, ele voltando da primeira visita que fazia a família em Belém desde que veio jogar no interior de SP há três anos, visita motivada pela morte da avó materna.
41 Além dos seus jogos serem mais facilmente transmitidos para outros locais no mundo, a seleção brasileira tem atuado fora do Brasil, o que facilita essa exposição. Seu contrato com a fornecedora de material esportivo prevê a realização de seis jogos por ano, nas chamadas "datas Fifa" – datas reservadas nos calendários das competições nacionais para jogos entre seleções, portanto, jogos internacionais.
42 Somente os empresários credenciados pela Fifa podem mediar transações internacionais, e essesjogos têm ocorrido na Europa e na Ásia. Para que um empresário se torne agente Fifa ele precisa passar por um teste de conhecimentos. Seus ganhos nas transações ficam em torno de 10%. A importância crescente desses empresários faz com que muitos os considerem as forças políticas centrais no futebol brasileiro hoje, superando o poder dos dirigentes dos clubes. Eles aparecem também como instituições paralelas, que reúnem sob suas guardas jogadores de diferentes clubes, irmanados de um modo inédito. Assim, não é de estranhar que um escritório de Porto Alegre tenha publicado no jornal Zero Hora um pequeno anúncio felicitando o goleiro Gomes, que joga no PSV da Holanda, quando de sua convocação para a seleção brasileira. Gomes nunca atuou em clubes gaúchos e não tem nenhuma relação com o Estado do RS – a não ser o fato de ser um dos jogadores empresariados por esse escritório. Os agentes Fifa bem sucedidos deslocam-se pelo planeta atendendo seus clientes nas relações com os clubes. Não é raro também que os jogadores contratem os agentes Fifa de modo ad hoc, e depois lancem mão de outros profissionais no país – advogados, empresários locais. O fato é que as relações entre jogadores e empresários na maioria dos casos, ultrapassam a dimensão profissional. Muitos dos meus interlocutores se referiram aos empresários como sendo "da família", mantendo com eles relações de dívida e gratidão. Tive oportunidade de me encontrar e conversar três vezes com empresários, em situações bem diversas: em um almoço na casa de Fabiana e Edu/Bétis (empresário espanhol), no restaurante português "O Bola", em Toronto, freqüentado pelos jogadores brasileiros (empresário grego), e com Márcio Cruz, jovem brasileiro representante de um grupo de empresários suecos (na sede do Az, em Alkmaar, na Holanda).
43 Exceção a essa constante é a de Alexandre (Lens), que foi para a França aos 14 anos, através de um empresário representante do Nantes que, por acaso, o viu jogando em uma partida de várzea. Ou de Leandro (Ajax) que foi descoberto pelos empresários holandeses aos 12 anos, a partir de um vídeo documentário filmado sobre a vida de meninos da favela do Rio de Janeiro. Note-se que a saída de jogadores que atuam nas categorias de base ou de jogadores com idades inferiores a 18 anos, tem sido cada vez mais freqüente no Brasil. Casos recentes de grande repercussão foram as saídas de Anderson (do Grêmio para o Porto de Portugal, atualmente no Manchester United da Inglaterra), Alexandre Pato (do Inter para o Milan da Itália); mas encontrei vários jogadores brasileiros jovens atuando na Holanda em 2008, o que não ocorria em 2005, quando de minha primeira visita ao país.
44 A mídia brasileira, apesar de um tom alarmista e um certo exagero, também tem dado destaque a esse fenômeno: "Nem é preciso falar das centenas de garotos que deixam o país, levados por empresários ou pelos próprios pais, para jogar em clubes espalhados por países que vão do Turgistão ao Vietnã. Eles nem chegaram aos clubes e, portanto, não têm as saídas registradas pelos arquivos da CBF. São amadores e ninguém é capaz de calcular o seu número. Só deixam o anonimato quando umdeles aparece em um time ou seleção estrangeira e se descobre que nasceu no Brasil. É o caso do atacante Denny Seilhaber, da seleção dos Estados Unidos que esta disputando o Mundial Sub-20."(Souza, 2007).
45 Pude visitar uma editora de DVDs que funcionava em uma pequena sala nos fundos do restaurante "O Bola", em Toronto, e assisti a diversos dos seus DVDs, atentando para as estratégias de edição empregadas – além do esperado (gols, dribles) observei e me foi confirmado que deveria se mostrar o jogador nas cenas em que aparecem muitos torcedores no estádio, mostrá-lo através de imagens de emissoras de televisão, e outras táticas de construção de uma imagem enquanto um sujeito que atua em um grande clube e nele se destaca. No perfil dos jogadores que acompanha os DVDs, muitas vezes, o peso ou a altura dos jogadores é alterado.
46 Alguns clubes têm comprado jogadores e os mantido nos clubes brasileiros para que amadureçam – é o caso de um jovem atleta do Santos, adquirido pelo Real Madrid. Outros são levados precocemente ao exterior, passando a atuar nas categorias de base. Entrevistei dois deles, Túlio de Mello, que fez sua formação no Nantes e atua no Le Mans, e que foi levado para a França aos 14 anos, desacompanhado e sem falar a língua e Leandro, que fez sua formação a partir dos 12 anos no Feyenoord da Holanda.
47 Esse também não é um fenômeno inédito, visto que o primeiro brasileiro campeão mundial de futebol, Amphiloquio Guarisi (Filó), o foi jogando pela Itália, em 1934. Também Mazzolla, quase 30 anos depois, campeão com o Brasil em 1958, jogaria pela Itália como Altafini.Temos vários outros brasileiros em seleções estrangeiras, alguns muito famosos (Deco, que joga por Portugal), outros desconhecidos no Brasil, como Eduardo da Silva, naturalizado croata, que defende a seleção do país e foi o artilheiro da seleção nas Eliminatórias da Eurocopa de 2006; Dos Santos e Clayton, naturalizados tunisianos, Mehmet Aurélio, ex-Marco Aurélio, primeiro estrangeiro a defender a seleção da Turquia; Kuranyi e Paulo Rink (Alemanha), Marcos Senna e Donato (Espanha), Zaguinho e Zinha (México), Alex, Rui Ramos e Wagner Lopes (Japão). Assinala-se que Senna tornou-se o primeiro brasileiro a sagrar-se campeão da Eurocopa em 2008, tendo sido eleito também para a seleção européia pelos especialistas da Uefa.
48 Maycon: O negócio de rodar, é bom você rodar em grandes clubes. Porque você ficar rodando em times pequenos é a mesma coisa de você não fazer nada. Mas você jogar em bastantes clubes assim, conhecer línguas diferentes, isso aí é excepcional. Mas eu, pra mim eu estou bem tranqüilo aqui, me sinto bem aqui. Se eu ficar aqui por dez anos…
49 Caso de Ricardo Oliveira e Adriano que se recuperaram fisicamente no Refis (centro de treinamento do São Paulo e depois passaram uma temporada jogando pelo clube; de Nilmar, Adailton que esperam aumentarem as possibilidades de convocação e de Zé Roberto, cujos filhos nascidos quando já estava na Alemanha nunca tinham vivido no Brasil, o que pesou na decisão de passar um ano no Santos.
50 Alguns poucos jogadores acabam fixando-se no exterior: caso de Sonny Anderson (Lyon/França) que abriu um restaurante brasileiro em Lyon; de Hugo (Groeningen/Holanda), que passou a treinar as categorias de base do clube; de Leonardo (Milão/Itália), atualmente dirigente do Milão.
51 Entre os jogadores que contatei, apenas os que chegaram na Europa muito jovens colocaram as viagens no exterior como prioritárias no seu projeto de vida, caso de Adriano, do Sevilha ("quero conhecer a Grécia, outros países"), Túlio (Le Mans) e Leonardo (Ajax). Os que moram nas proximidades de Paris – na Holanda, na França – confessaram visitar a cidade sempre que possível, nas suas folgas – e na cidade, a avenida Champs-Elysée (e nessa, a loja Louis Vuitton) é o local mais visitado.
52 Os clubes, alias, são bastante rigorosos quanto a estas viagens; clubes globais como Real, Barcelona e Milão chegam a fretar aviões para que o regresso dos atletas seja mais rápido.
53 Como foi o caso de Renato, que incluiu a possibilidade de se deslocar quando do nascimento do primeiro filho, e outros que gostariam de poder fazer esse deslocamento e são impedidos, caso de Ricardo Oliveira, quando do seqüestro de sua irmã. A cláusula de liberação para o carnaval já não faz parte desses contratos – estamos lidando aqui com good-boys, pois como me disseram mais de uma vez, "terminou a era dos bad-boys, nenhum clube os aceitaria".
54 Foi o caso de Ronaldo, Kléberson, Ricardo Oliveira, Cris, Kaká, Leonardo, Eduardo, e uma lista imensa de jogadores atuando em diferentes países que, com diferentes lesões, mas todas demandando um tratamento mais prolongado, preferiram realizá-lo em solo brasileiro.
55 Segundo ela: Bastou pisar no Brasil, ali mesmo no aeroporto, que todo o enjôo passou.
56 Denílson não me falou de Marrom, o amigo que trouxe para Sevilha. Fique sabendo da sua trajetória através dele próprio e de Luis Oliveira, sobrinho/irmão de Ricardo Oliveira, para quem Marrom trabalhava quando o encontrei em 2004.
57 Ronaldo, por exemplo, que tem sua vida coberta em mínimos detalhes pela mídia, mantinha em sua casa um quarto para seu amigo César desde a transferência para o PSV, aos 17 anos; e isso mesmo durante o seu primeiro casamento, só sendo desativado quando do segundo casamento, por pressão de Daniella Cicarelli. Quando o amigo casou-se, foi morar na casa que recebeu de presente de Ronaldo na Bahia. Essa prática hoje já não vem acompanhada de rumores sobre homossexualismo, como os que inicialmente cercaram o acompanhamento do amigo jornalista Roberto Moure a Falcão, quando de sua ida a Roma, na década de 1980.
58 Na Espanha, imigrantes é um termo reservado aos africanos (tanto do norte da África, magrebinos, quanto os subsaharianos, como os designa a imprensa que chegam a Tarifa em perigosas embarcações ou tentam passar pelas três cercas de seis metros de altura de Melilla), ou aos trabalhadores originados dos países de língua hispânica na América Latina ou do leste europeu, o Brasil estando relacionado principalmente com a imigração de prostitutas (Piscitelli, 2004).
59 Às vezes, estes jogadores são também designados pela imprensa européia como "cariocas" como se carioca fosse sinônimo de brasileiro e não de nascido no Rio de Janeiro. Isso é especialmente recorrente na Espanha. Edu e Ricardo Oliveira, por exemplo, aparecem como "cariocas" em matérias do jornal Marca em 2004, mas um ano depois, em 2005, o jornal parece ter aprendido a real acepção do adjetivo e prefere chamá-los de "paulistas". Esta necessidade de uma designação regional teria de ser explicada à luz da construção do sentimento nacional espanhol, que, ao contrário do brasileiro, passa pelas regiões, de modo que antes de ser "espanhol", se é basco, catalão ou andaluz… Para se ter uma idéia da diferença, embora alguns jogadores portem no nome a região de onde vêm – caso de Ronaldinho "Gaúcho" – pode acontecer de serem de uma região e terem no nome outra, caso do paulista Fernando "Baiano", do gaúcho Mineiro e tantos outros.
60 Uma das características fundamentais do fenômeno da imigração é que, fora algumas situações excepcionais, ele contribui para dissimular a si mesmo sua própria verdade. Por não conseguir sempre pôr em conformidade o direito e o fato, a imigração condena-se a engendrar uma situação que parece destiná-la a uma dupla contradição: não se sabe mais se se trata de um estado provisório que se gosta de prolongar indefinidamente ou, ao contrário, se se trata de um estado mais duradouro, mas que se gosta de viver com um intenso sentimento de provisoriedade (Sayad, 1992, p. 5).
61 "Zombie categories are living dead categories, which blind the social sciences to the rapidly changing realities inside the nation-state containers, and outside as well." (Beck, 2000, p. 23).