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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.14 no.30 Porto Alegre July/Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832008000200007 

ARTIGOS

 

Ganhar jogo, pagar jogo e ganhar visita: prática futebolística em um bairro rural*

 

 

Enrico Spaggiari**

Universidade de São Paulo – Brasil

 

 


RESUMO

Pretendo refletir sobre algumas abordagens possíveis do futebol a partir de uma experiência etnográfica num bairro localizado no perímetro rural de São Bento do Sapucaí (SP), onde investiguei os possíveis entrelaçamentos entre as formas associativas e de sociabilidade em torno das práticas futebolísticas e o universo comunitário do bairro. Por meio desses entrelaçamentos pude verificar a existência de certas dinâmicas no contexto futebolístico local, onde as ações de receber e visitar outras equipes implicam regras e deveres inteligíveis dentro de uma lógica de reciprocidade particular. Partindo da premissa de que existe uma heterogeneidade de significados e práticas do esporte, proponho, ainda, problematizar as premissas dicotômicas que fomentam o debate envolvendo, principalmente, os usos dos conceitos de esporte e jogo, mas também a dimensão ritual e a dimensão cotidiana, tendo sempre em mente que são planos em constantes articulações.

Palavras-chave: antropologia do esporte, bairro rural, futebol, jogo.


ABSTRACT

I intend to reflect on some possible approaches on football from an ethnographic experience in a neighborhood located in the rural perimeter of São Bento do Sapucaí (SP), where I investigated the possible interlacements between associative forms and sociability around football and the universe of the community. By means of these interlacements I could verify the presence of certain dynamics in the local football contexts, where the actions to receive and to visit other teams imply intelligible duties and rules in a system of particular reciprocity. From the premise that heterogeneity exists of meanings and practices of the sport, I intent to discuss the dichotomic premises that fuel the debate involving, mostly, the uses of the concepts of sport and game, but also the ritualistic and the everyday aspects, keeping in mind that they are always interconnected.

Keywords: anthropology of sport, football, game, rural neighborhood.


 

 

Introdução

Porque, apesar de seu [do jogador] ardente desejo de ganhar, deve sempre obedecer às regras do jogo. (Huizinga, 2005, p. 14).

Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa1 desenvolvida no 1º semestre de 2006, desdobramento do projeto A Arena em Torno do Futuro Plano Diretor de São Bento do Sapucaí: Novos Significados da Relação entre Cidade e Campo,2 que, dentre seus principais objetivos, tinha o de investigar os entrelaçamentos e sobreposições entre as dimensões rural e urbana. Dentro desse projeto mais amplo, enfatizei o plano rural com base em pesquisa etnográfica no Baú do Centro, bairro localizado no perímetro rural da cidade, e investiguei os aspectos constitutivos da comunidade local, enfocando as formas associativas e de sociabilidade em torno da prática futebolística da equipe "amadora"3 E. C. Baú (Esporte Clube Baú), cujos jogos ocorrem em campeonatos ou em amistosos com times da região.

Provisoriamente, utilizo neste artigo os termos "espetacularizado" e "comunitário" para analisar a prática futebolística no Baú do Centro, uma configuração entre tantas outras derivações do football association4 no Brasil, que compõem uma diversidade de futebóis (Damo, 2007) praticados nos espaços das grandes, médias e pequenas cidades, pouco estudados pela antropologia e pelas ciências sociais brasileiras. Na interessante classificação formulada por Arlei Damo (2007, p. 40) – que divide as práticas futebolísticas em quatro matrizes: espetacularizada, bricolada, comunitária e escolar – a comunitária é uma matriz intermediária, mais padronizada que a pelada (bricolada), porém sem um corpo administrativo do alcance do sistema regido pela FIFA (espetacularizada), apesar de ser uma prática dotada de um sistema organizado e complexo. Outro exemplo de modalidade comunitária é o futebol de várzea. Por fim, a matriz escolar abrange, principalmente, atividades desenvolvidas nas escolas, nas aulas de Educação Física.

Apesar do desenvolvimento de trabalhos significativos, a produção das ciências humanas privilegiou uma linha de pesquisa que analisa, a partir de eventos e símbolos nacionais (a Copa do Mundo, a Seleção Brasileira, os ídolos), o plano espetacularizado e o futebol enquanto um elemento operador e definidor de uma identidade brasileira. Esse enfoque está presente na bibliografia acadêmica das ciências sociais brasileiras sobre esporte desde o pioneiro livro Universo do Futebol, organizado por Roberto DaMatta (1982). As demais matrizes futebolísticas, indicadas por Arlei Damo, ainda merecem um maior aprofundamento, principalmente no que se refere ao conhecimento da diversidade de práticas.

É possível mapear algumas pesquisas recentes que enfocaram práticas futebolísticas exercitadas nos espaços urbanos e não-urbanos,5 traçando um diálogo com reflexões antropológicas atuais que se propõem a retomar criticamente uma produção anterior sobre futebol, enfocando-o como "uma atividade dotada de uma notável multivocalidade – uma vocação complexa que permite entendê-lo e vivê-lo simultaneamente de muitos pontos de vista" (DaMatta, 1994, p. 12) e como um fenômeno multifacetado que atinge inúmeras dimensões socioculturais, não somente no seu lócus espacial e temporal de ritualização (as partidas do futebol espetacularizado), mas também no plano cotidiano.

Penso as dimensões ritual e cotidiana a partir da análise realizada por Toledo (2002), que propôs, ao estudar o universo do futebol profissional, analisar as partidas de futebol profissional enquanto espaços rituais, e os treinos, cursos, preparativos, bastidores, enquanto espaços cotidianos.6 Partindo da premissa de que existe uma heterogeneidade (Stigger, 2002) dos significados do esporte – "um elemento da cultura que, de forma distintiva, faz parte do cotidiano e dos estilos de vida de indivíduos e de grupos particulares" (Stigger, 2002, p. 16) –, concordo com a proposta de Toledo de não opor as dimensões ritual e cotidiana, polarizando-as, pois considero que estão interligadas. Porém, é possível centralizar o enfoque em uma das duas, tendo sempre em mente que são planos em constantes entrelaçamentos, onde tanto a prática cotidiana alimenta a dimensão ritual, como também o inverso.

Uma "antropologia das práticas esportivas" deve estar atenta a estes dinamismos e não confinar sua investigação aos eventos esportivos, do mesmo modo que uma antropologia urbana não deve ficar restrita a explicar o fenômeno urbano, a própria cidade como variável independente (Toledo, 2001, p. 137).

Para contribuir ao debate em torno da diversidade de significados e práticas do esporte, opto por privilegiar o diálogo com Johann Huizinga, autor7 que proporciona questões interessantes à análise do enfoque deste artigo, a saber: as relações em torno das práticas futebolísticas desenvolvidas num bairro localizado no perímetro rural de São Bento do Sapucaí (SP), orientadas por certas dinâmicas onde as ações de receber e visitar outras equipes implicam regras e deveres inteligíveis dentro de uma lógica de reciprocidade particular – ganhar jogo, pagar jogo, ganhar visita.

 

A cidade, o bairro e a etnografia

São Bento do Sapucaí é uma cidade do Estado de São Paulo, na Serra da Mantiqueira, numa região montanhosa e relativamente isolada, entre o Vale do Paraíba e o sul de Minas. A cidade tem aproximadamente 10,3 mil habitantes, com um pouco mais da metade, 5,7 mil, morando nos bairros rurais.8

Localizado no Vale do Baú, região rural do município, o Baú do Centro situa-se a aproximadamente 22 quilômetros da área central de São Bento. A maior parte do trabalho de campo foi desenvolvida no Baú do Centro, com algumas excursões a outros dois bairros próximos, Baú de Cima e Torto, ampliando assim o recorte; o que permitiu averiguar certas relações e práticas que reúnem os bairros em torno da Igreja Católica e da Juventude Franciscana. O Baú do Centro e, de forma ampla, a cidade de São Bento, são fortemente marcados pelo papel organizativo da Igreja Católica, que conta com 90% de adesão na cidade.9 A Igreja Católica constitui um significativo fator institucional de organização comunitária, bem como de comunicação entre seus bairros (muitos deles rurais), como, por exemplo, nas festas religiosas que ocorrem ao longo do ano, momentos privilegiados de celebração, sociabilidade e levantamento de fundos para a paróquia local (cf. Frúgoli Jr., 2006a, 2006b). Portanto, as relações do Baú do Centro (aproximadamente 300 habitantes) com o Baú de Cima (aprox. 250 hab.) e o Torto (aprox. 180 hab.)10 foram também importantes para compreender o modo como a organização comunitária e religiosa do Baú do Centro amplia relações internas ao bairro, bem como entre os demais bairros.

Viajei três finais de semana por mês para São Bento do Sapucaí, reservando o quarto fim de semana para a uma revisão crítica dos dados coletados e para uma reflexão estratégica dos próximos passos. Portanto, não fiz um acompanhamento diário do cotidiano local, pois somente em dois feriados observei as atividades locais nos dias da semana. Entretanto, eram feriados religiosos, sendo utilizados, por muitos, para descanso do trabalho, visitas a parentes e compromissos na cidade, em horários específicos e delimitados para não atrapalhar as atividades e práticas religiosas. Apesar de não poder acompanhar sistematicamente o cotidiano do bairro, tive o privilégio de contemplar, inúmeras vezes, as duas atividades semanais de maior interação: a celebração religiosa na igreja aos sábados (às 19h30) e os jogos de futebol aos domingos (das 14h às 18h). Há uma terceira atividade, mas que ocorre mensalmente: a missa realizada pelo Padre Ronaldo (pároco da Igreja Matriz de São Bento), na manhã de domingo.

A maioria dos entrevistados foi selecionada conforme a indicação de alguns "interlocutores", entre eles: Luiz Ilhéus (antigo morador, próximo dos 80 anos, e que tem um forte papel centralizador na organização comunitária e religiosa do bairro); Paulinho (jogador e atual coordenador de atividades da Juventude Franciscana); e Roberto Batata (jogador e principal organizador do futebol local). Entretanto, o freqüente contato com estes informantes não seria suficiente para o conhecimento das dinâmicas socioculturais do bairro, por isso investi em visitas a outros moradores locais, independentemente de seus vínculos com os "interlocutores" citados. Destas conversas, surgiram algumas questões intrigantes para a pesquisa, configurando um quadro de informações novo a cada final de semana no campo.

O primeiro contato com a região, estabelecido por Frúgoli Jr., havia sido através de Luiz Silveira e Cunha, antigo morador do Baú do Centro. A partir deste dado, fui a campo com a missão de encontrar Seu Luiz, conhecido como Luiz Ilhéus,11 o primeiro "interlocutor". Envolvido com a organização comunitária e religiosa da região, Seu Luiz Ilhéus (já aposentado) coordena a Juventude Franciscana desde seu retorno ao bairro.

Tive a oportunidade ainda de vasculhar o "baú" do Seu Luiz Ilhéus, recheado de músicas e poemas escritos por ele (violonista e letrista nas horas vagas e de breve carreira nos anos 40 e 50), sobre o bairro e sua história, a cidade de São Bento, os bairros próximos, moradores e também sobre as atividades da Juventude Franciscana, como a campanha realizada durante 1989, para a limpeza do riacho Baú. Esses textos, vários musicados, abordam temas do dia-a-dia do bairro rural, envolvendo questões sobre religião, natureza, alcoolismo e drogas, vida rural, o bairro e histórias do Baú, Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí. A partir desse material,12 pude me inteirar da campanha para a limpeza do riacho Baú e suas conseqüências, como a volta de lambaris, que há muito não eram vistos nas águas do riacho. A presença do Seu Luiz Ilhéus como interlocutor da pesquisa foi fundamental não só pelas informações, mas também como facilitador e agenciador de novos contatos com moradores do Baú do Centro e, também, dos bairros vizinhos Baú de Cima e Torto.

O segundo contato foi com Paulinho, coordenador da juventude franciscana há aproximadamente sete anos. Acompanhei algumas reuniões desse grupo, realizadas aos sábados, por volta das 18h40, antes da celebração na Igreja. Hoje, com poucos membros, o grupo se reúne para conversar sobre a comunidade, os problemas do bairro, atividades religiosas, valores e deveres dos jovens. Após os primeiros contatos com Paulinho (também jogador do E.C. Baú), conheci os grupos de jovens do bairro e algumas pessoas ligadas diretamente à organização do futebol, principalmente Roberto Batata, que não só organiza como também atua nas partidas do E. C. Baú. Era a ele creditado o texto da coluna sobre esporte no Jufra-Fala. Só mais tarde descobri que o próprio Luiz Ilhéus escrevia a coluna. Foi a partir da leitura do jornal comunitário Jufra-Fala, pequeno caderno de informação comunitária, elaborado e distribuído pela juventude franciscana e pelo conselho de moradores do bairro, que alimentei um interesse inicial por certas dinâmicas socioculturais locais, com ênfase nas práticas futebolísticas.

A partir destes três "interlocutores" – Luiz Ilhéus, Paulinho e Roberto – estabeleci minha rede de contatos no bairro, ampliando-a a cada fim de semana, visitando inúmeras casas do Baú do Centro, para depois ampliar também o recorte etnográfico, incluindo entrevistas com moradores do Baú de Cima e do Torto. O fato de ser conhecido de Luiz Ilhéus e Roberto Batata abriu, literalmente, as portas das casas de moradores do Torto e do Baú de Cima.

 

Prática futebolística no Baú do Centro

Farei uma rápida descrição do cenário e da dinâmica futebolística do Baú do Centro, a começar pelo campo de futebol, situado num terreno plano ao lado da estrada que leva ao bairro, fechado no lado oposto por uma das colinas da verde paisagem montanhosa da região. O campo de jogo não alcança as dimensões de um campo de futebol profissional,13 mas a forma retangular é parecida (a largura do campo é menor que o comprimento de uma trave a outra). O campo é todo de grama, com alguns pontos mais "carecas"; marcado com cal para delimitar as áreas dentro do campo,14 corta-se a grama semanalmente para não crescer e dificultar a prática do futebol e aos sábados os moradores/jogadores limpam toda a dimensão do mesmo, pois o terreno é usado, nos dias da semana, para pastagem de gado.

Nas laterais da arena de jogo, tanto na direção da estrada quanto na direção da colina, há espaços cobertos por matos de meio metro de altura, isolando o campo e impedindo que a bola se perca ou atinja algo que possa quebrar. Atrás de uma das traves também há um terreno coberto por mato e na outra extremidade há um espaço gramado onde muitos espectadores assistem ao jogo. As partidas não dispõem de gandulas, assim, as pessoas – jogadores, espectadores e crianças pequenas (a depender de quem está mais próximo da esfera) – ajudam a buscar as bolas quando essas se afastam muito do campo.

Não há arquibancadas, mas isso não impede que haja um padrão na distribuição dos torcedores. Numa das laterais, existem alguns troncos de madeira utilizados para assento, que são ocupados pelos treinadores, jogadores e reservas. Um tronco comprido é especialmente ocupado pelas mulheres do Baú (jovens, senhoras de meia-idade, da terceira idade) e também por crianças de idade pré-escolar. Os homens assistem ao jogo atrás de uma das traves do campo. O padrão de distribuição de espectadores só é contrariado pelos casais de namorados, que assistem ao jogo tanto junto com as mulheres quanto no espaço ocupado pelo público masculino.

A equipe do Baú tem duas formações: o time A e o time B. A equipe A é formada pelos melhores jogadores do bairro, enquanto que a equipe B é formada essencialmente pelos jogadores mais experientes e também pelos mais novos, ainda na fase da adolescência. O time B joga normalmente aos domingos, às 14h, e o time A às 16h do mesmo dia. Quando um bairro adversário não tem jogadores suficientes para formar um time B, convida-se a equipe de outro bairro para a partida preliminar no domingo.

O horário pode variar, caso seja acertado entre as duas equipes adversárias anteriormente. Porém, não há jogos de noite, pois não há iluminação no campo do Baú. Em duas oportunidades, fui informado, em cima hora, que não haveria jogo. Na semana da Páscoa, mais precisamente no Domingo de Ramos, um jogo foi desmarcado, pois aconteceria no mesmo horário das missas que seriam celebradas no Torto e no Baú de Cima. Em outra oportunidade, um jogo agendado para as 14h foi desmarcado, devido à realização da partida Brasil versus Austrália, às 13h, dia 18 de junho de 2006, válida pela Copa do Mundo de Futebol Masculino.

Os jogadores do E. C. Baú são, em grande parte, moradores do bairro, o que não impede que o time seja composto também por jogadores de outras localidades. No momento da pesquisa, sete jogadores eram de fora do Baú do Centro: dois do Torto, quatro do Baú de Cima e um do perímetro urbano de São Bento do Sapucaí.

O treinador é quem seleciona os jogadores que participam dos dois jogos. Para participar, o morador precisa entrar em contato com o técnico, no caso, o Zé Candinho. Não há, portanto, uma variedade de jogadores, mas na verdade uma pequena variação da escalação dos times A e B a cada domingo de jogo. Roberto Batata, por exemplo, joga sempre no time B, pois o jogo não exige um ritmo forte como o do time A, que Roberto, por volta dos 40 anos, não conseguiria acompanhar. Já Ricardo, principal jogador do bairro, sempre participa das partidas do time A.

Porém, é comum um "sobe e desce" em relação aos demais jogadores, principalmente pelo fato de ambos os times jogarem muitas vezes desfalcados ou sem atletas reservas. Em várias ocasiões, um mesmo jogador participou das duas partidas, um pouco em cada. Quando o time A precisa de jogadores, alguns do time B sobem e quando este precisa, alguns jogadores descem. Nessas trocas, o mais comum é um jovem jogador se destacar no time B e após um período de amadurecimento, integrar a equipe A. O caminho inverso ocorre quando um jogador da equipe A não consegue, devido à idade, acompanhar o ritmo mais forte das partidas principais, e assim é integrado à equipe B.

Não é fácil delimitar uma faixa etária, pois é bem ampla, mas posso afirmar que varia de dezesseis a quarenta e cinco anos. Porém, a maioria dos jogadores está na faixa dos vinte a trinta anos. Não farei uma avaliação da qualidade técnica dos mesmos,15 pois isso exigiria uma comparação com outras práticas, ditas "amadoras" ou "profissionais", não inseridas no contexto local; além de ser uma avaliação subjetiva.

A distribuição tática do time do Baú varia muito pouco nas partidas e na maioria das vezes joga-se no 4-4-2,16 há, porém, um predomínio das decisões individuais sobre a configuração tática, muito pelo fato de o time não treinar durante a semana e apenas jogar aos domingos. A posição dentro do campo obedece a uma lógica particular, um processo próprio do jogo, da organização e distribuição tática dos jogadores, como foi lembrado pelo treinador e alguns jogadores entrevistados. Os mais velhos, devido à idade mais avançada e ao fato de serem mais experientes, jogam na defesa e no meio-campo, posições que não demandam freqüentes arrancadas de velocidade, comuns na posição de atacante e lateral. A experiência é um atributo importante em todas as posições, mas zagueiros e goleiros carregam a responsabilidade de atuar próximo à meta (as três traves que formam o gol) do próprio time, onde cada erro pode resultar em gol para o adversário, enquanto que o atacante, ao perder a posse de bola no ataque, não comprometerá imediatamente a sua meta, pois a equipe adversária terá que percorrer mais da metade do campo, superando vários jogadores do outro time, para enfim alcançar e marcar um gol a seu favor. Por isso, é corriqueiro alocar os mais talentosos e os mais jovens na posição de atacante, aproveitando a velocidade e agilidade destes jogadores.

Faz-se necessária uma contextualização dessas observações, pois se aplicam a esse recorte de estudo, onde há regras e lógicas implícitas para os jogadores que, nesse contexto, sabem lidar com esses códigos. No futebol espetacularizado e em outros futebóis constroem-se outras lógicas específicas. Contudo, na pesquisa de mestrado, em andamento, tenho verificado certas correlações entre o que foi observado no futebol desse bairro rural com o que venho observando nas partidas de futebol de várzea em bairros periféricos paulistanos.

As regras dos jogos no Baú do Centro são parecidas com as do futebol profissional. Não são permitidas entradas desleais, agarrar pela camisa, empurrar o adversário e o uso das mãos por parte dos jogadores quando a bola está em jogo (com exceção dos goleiros). O jogo é interrompido quando a bola ultrapassa as linhas laterais e do fundo do campo. São onze jogadores de cada lado num campo menor que o oficial, o que deixa o jogo mais disputado, pois há uma concentração de jogadores num espaço mais reduzido. Os jogos têm árbitros, porém não têm assistentes nas laterais do campo, conhecidos popularmente como "bandeirinhas". Mesmo assim, existe a regra do "impedimento",17 que está sob a responsabilidade do árbitro.

O jogo é sério e competitivo, o que não implica dizer que há um antagonismo com o plano lúdico (cf. Toledo, 2002), tampouco que o lúdico esteja ausente no futebol espetacularizado. Abordarei, mais à frente, aspectos do debate envolvendo os conceitos de esporte, jogo, lúdico e agonístico.

Os jogadores têm liberdade para cobrar, como colega de equipe, um passe, uma corrida mais dedicada ou mesmo mais seriedade no jogo. Mas não há o excesso de gritos e reclamações que há no futebol profissional. Trata-se de um espaço para a camaradagem, o que não implica dizer que todos são amigos. Existe uma rivalidade com o jogador adversário, porém é raro que floresça algo maior que uma discussão ou bate-boca. Apesar do clima de competição dentro da partida, os jogos são, em sua maioria, leais. Como salientava Roberto Batata, conversando com os companheiros antes das partidas: "todos têm que trabalhar na segunda-feira".

 

Altos e baixos no futebol rural

O primeiro jogo de futebol envolvendo o bairro do Baú foi no dia 6 de janeiro de 1919 e desta data até hoje, a equipe de futebol teve vários nomes, superando períodos de desmanche dos times e de desorganização do esporte no bairro, mas que não foram suficientes, segundo os entrevistados, para que o futebol ali acabasse. A partir de agosto de 2005, após um breve período em que o futebol não foi praticado no bairro, a equipe de futebol do Baú do Centro passou a ter o nome de Esporte Clube Baú. A nova formação é comandada por Zé Candinho, ex-jogador da região e considerado um dos "pais do futebol" na comunidade. O nome anterior da equipe era Baú Futebol Clube, porém o time foi desmontado por causa dos desentendimentos entre Zé Candinho e Alcides Corrêa, outra importante figura do bairro ligada ao esporte.

Segundo entrevistados, o futebol sempre teve seus altos e baixos, com inúmeras equipes ao longo dos 86 anos de história da prática futebolística, porém não havia atravessado um período tão longo de inatividade quanto após o conflito entre Alcides e Candinho.18 O caso mais grave, que resultou em perdas significativas para o futebol do bairro e também para toda a comunidade, ocorreu em um jogo no campo do Baú, quando Alcides, irritado com o desenrolar da partida, sacou a arma que carregava junto ao corpo e deu um tiro para o alto, assustando jogadores e torcedores. Após este incidente, equipes de outros bairros de São Bento ou de cidades próximas não marcaram partidas contra a equipe do Baú, receosos do que pudesse acontecer. Havia temor também do lado do Baú, com medo de vingança por parte dos outros times.

Roberto Batata e outros jogadores apontam que o descompasso no futebol do bairro provocou resultados negativos na prática futebolística feminina. Treinado por Roberto, o time feminino havia se consolidado no bairro, disputando inúmeras partidas contra equipes de Campos do Jordão e atraindo a atenção dos moradores. As partidas eram disputadas em horários e dias diferentes dos jogos masculinos. Porém, Roberto afirma que quando houve o desentendimento entre os organizadores do futebol, Alcides passou a agendar os jogos dos homens no mesmo horário das partidas de futebol feminino. Alcides, por outro lado, afirmou, quando entrevistado, que o futebol feminino deixou de ser praticado devido ao reduzido número de jogadoras que, com o passar do tempo, mudaram de cidade após o casamento; em sua defesa, cita o exemplo de suas três filhas – Adriana, Angélica e Auricélia – que jogavam no time feminino e que, após o casamento, abandonaram as atividades futebolísticas.

Os altos e baixos, comuns na trajetória da equipe de futebol do Baú do Centro, podem influenciar a construção e alimentação das redes de sociabilidade na cidade de São Bento do Sapucaí. Essas trocas são feitas a cada domingo, principalmente nas partidas amistosas entre bairros, oferecendo oportunidades de criar ou reforçar laços de amizade e aliança. A ação de receber a equipe de outro bairro ou mesmo de visitar o campo do adversário implica regras e deveres inteligíveis dentro de uma lógica de reciprocidade que pode ser compreendida na relação do ganhar jogo, pagar jogo e ganhar visita (sentenças empregadas pelos "nativos" e que empregarei como categorias analíticas).

Não parto de uma noção fechada de sociabilidade, preferindo flexibilizá-la a partir dos diversos usos do conceito, que, em sua maioria, partem da noção original proposta por Simmel (1983, p. 168), que pensa a sociabilidade como pura forma de convivência com o outro, liberada "de todos os laços com os conteúdos", e que "existem por si mesmas e pelo fascínio que difundem pela própria liberação destes laços"; noção posteriormente trabalhada por autores da Escola de Chicago, que realizaram uma leitura espacializada do conceito de sociabilidade simmeliano, pensando muito mais no "conteúdo social concreto das relações de convivência, de interação, de socialização" do que propriamente na forma (Eufrásio, 1996, p. 37). A partir dessas primeiras abordagens, ampliou-se e diversificou-se o uso do conceito nas pesquisas antropológicas contemporâneas. (Frúgoli Jr., 2007) Na última parte deste artigo, assinalo qual a noção de sociabilidade que se aproxima do conjunto de relações apreendidas no contexto desta pesquisa.

 

Ganhar jogo, pagar jogo, ganhar visita

Huizinga (2005) propõe em sua obra Homo Ludens: o Jogo como Elemento da Cultura, cujo subtítulo adianta a tese principal do autor, uma análise do jogo19 não apenas enquanto uma manifestação cultural, mas, principalmente, como um conceito que, ao mesmo tempo, gera e integra a noção de cultura. Assim, a cultura, para o autor, surge e se desenvolve sob a forma de jogo – no jogo e pelo jogo-, ou seja, o jogo é mais antigo que a cultura e pode ocorrer fora dela.20 Ressalta, entretanto, que a cultura não nasce "do" jogo do mesmo modo como o recém-nascido se separa da mãe, mas que ela surge "no" jogo e carrega seu caráter lúdico (Huizinga, 2005, p. 193). Porém, o autor levanta – numa abordagem evolucionista com a qual não concordo – uma questão que exigiu sua atenção nos capítulos finais do livro: "será que efetivamente a cultura nunca se separa do domínio do jogo?" ou, "em que medida a cultura atual continua se manifestando através de formas lúdicas?" (Huizinga, 2005, p. 193, 217).

Huizinga (2005, p. 7) analisa inúmeras esferas sociais – poesia, música, dança, filosofia, guerra e direito – à procura de elementos lúdicos em todas elas, evidenciando, assim, que as "grandes atividades arquetípicas da sociedade humana são, desde o início, inteiramente marcadas pelo jogo", elemento essencial no ritual.21 Porém, o elemento lúdico, "decadente" desde o século XVIII, não estaria presente nas épocas atuais, "mais sofisticadas", com a mesma intensidade verificada nas sociedades ditas "primitivas".22 Segundo o autor, isso já podia ser apurado no século XIX, época na qual se perdeu parte relevante dos elementos lúdicos de períodos anteriores.23 Como teria ocorrido esse processo?

À medida que uma civilização vai se tornando mais complexa, vai se ampliando e revestindo-se de formas mais variadas, e que as técnicas de produção e a própria vida social vão se organizando de maneira mais perfeita, o velho solo cultural vai sendo gradualmente coberto por uma nova camada de idéias, sistemas de pensamento e conhecimento; doutrinas, regras e regulamento; normas morais e convenções que perderam já toda e qualquer relação direta com o jogo. (Huizinga, 2005, p. 85).

Portanto, ocorreria um ocultamento do "homem lúdico" no cotidiano de nossas vidas, revestido por novas camadas e, assim, restando num segundo plano, encoberto por fenômenos culturais. Neste cenário levantado por Huizinga, o fenômeno esportivo – uma forma de competição sujeita a um sistema de regras, ou seja, um jogo – também estaria, no final do século XIX,24 afastando-se dos elementos do jogo, apesar de ainda carregar uma forte influência da esfera lúdica. Este afastamento se daria a partir da sistematização e regulamentação do esporte ("o jogo vira negócio"), com regras mais rigorosas e complexas, visando a espetacularização e o lucro; o que implicaria perda de características lúdicas puras. Portanto, para o autor, o esporte afastou-se da esfera lúdica e transformou-se "numa coisa sui generis: nem é jogo nem é seriedade [...] o esporte se tornou profano, foi 'dessacralizado'" (Huizinga, 2005, p. 220).

Para Huizinga, portanto, vem ocorrendo o desaparecimento do espírito lúdico, antes encontrado com maior intensidade nas "sociedades primitivas". Para o autor, essa dissipação lúdica é, em certos momentos, imperceptível, pois existiria, principalmente na esfera da política, o falso jogo, uma ilusão lúdica que ocultaria interesses políticos ou econômicos: "O autêntico jogo desapareceu da civilização atual, e mesmo onde parece ainda estar presente trata-se de um falso jogo, de modo tal que se torna cada vez mais difícil dizer onde acaba o jogo e começa o não jogo" (Huizinga, 2005, p. 229).

Esse processo se daria principalmente no esporte profissional, onde estariam ausentes a espontaneidade e despreocupação, porém influenciaria também o esporte amador, como no caso das grandes empresas que organizam suas próprias associações esportivas e contratam funcionários em função da habilidade para o futebol,25 invertendo a lógica para "o negócio vira jogo" (Huizinga, 2005, p. 222-223). Apesar de não concordar com o enfoque evolucionista proposto por Huizinga, ainda sim é importante questionar, a partir da leitura de suas obras, o que se ganha no esporte dito amador e, especificamente, na prática futebolística no Baú do Centro? "O que é 'ganhar', e o que é realmente 'ganho'?" (Huizinga, 2005, p. 57).

Quando o E. C. Baú joga no seu próprio campo contra a equipe de outro bairro, o time do Baú ganha visita e a equipe adversária, que se desloca do seu bairro, ganha jogo. É importante frisar que ganhar jogo não envolve necessariamente vencer a partida, tampouco um ganho financeiro pela vitória, mas sim ganhar a chance de jogar futebol contra um adversário, pois o duelo garante, para além da partida, a oportunidade de fazer trocas com um bairro vizinho, fortalecendo os laços de amizade: "O resultado do jogo como fato objetivo é insignificante e em si mesmo 'indiferente'" (Huizinga, 2005, p. 57).26

O ganhar jogo implica na realização de uma nova partida, mas agora no outro bairro. A equipe que ganhou visita na primeira oportunidade, agora terá a chance de pagar jogo. Nesse caso, o pagar é uma medida simbólica, que garante a continuidade das relações de troca, dentro de uma lógica de reciprocidade local. Porém, o pagar pode ao mesmo tempo ter um sentido material. Caso a equipe anfitriã da primeira partida não honre o compromisso marcado com a realização do primeiro jogo, pagará certa quantia à equipe adversária. Trata-se de um modo de abonar parte das despesas que um dos bairros teve ao se deslocar até o campo do adversário para ganhar o jogo. Essa garantia, estabelecida antes mesmo da primeira partida, pode variar de acordo com os bairros envolvidos.

A garantia não é aplicada a todas as situações. Caso um dos bairros não disponha de um campo próprio, a disputa envolve apenas um domingo. Nesse exemplo, o ganhar jogo tem um caráter ainda mais forte para o bairro sem campo de futebol, pois mesmo com as despesas, sair do bairro é necessário para ter a chance de praticar o esporte. Em outro caso, pode ocorrer de uma equipe utilizar o campo de terceiros para ganhar visita ou pagar jogo. As possíveis despesas para locação serão arcadas pelo bairro anfitrião.

Existe também a possibilidade de a garantia ser dispensada em troca do uso da palavra. Porém, dependerá da relação entre os bairros na disputa, da distância espacial entre os bairros – quanto maior a distância, maior será a despesa da equipe que se deslocou até o outro bairro – além da presença e reconhecimento, por ambos os bairros, das pessoas de valor que avalizarão o cumprimento da palavra. A pessoa de valor é normalmente alguém ligado ao futebol do bairro e que tem prestígio dentro do universo comunitário local ou mesmo num recorte mais amplo, pois esse indivíduo terá de ser também aceito pelo outro bairro.

Acompanhei ou registrei, a partir de relatos, alguns desdobramentos das relações e lógicas que tentei expor nos parágrafos anteriores. No primeiro semestre de 2006, a equipe do bairro do Cantagalo (bairro rural de São Bento) disputou uma partida no campo do Baú para pagar jogo travado ainda em 2005. A equipe do Cantagalo desmarcou duas vezes o encontro, o que fez com que Zé Candinho pedisse a Adenilson, um dos jogadores do Baú, filho do Alcides e que mantinha relações próximas com os adversários, para ir ao Cantagalo exigir o pagamento da garantia. Caso não fosse agendado um novo jogo, a equipe do Cantagalo desembolsaria R$100,00 por não pagar jogo.

Em outro jogo, promoveu-se uma lúdica confraternização27 da equipe do Pica-Pau (bairro de Campos do Jordão) com alguns moradores do Baú, no bar da Nadir. Porém, poucos jogadores do Baú compareceram, preferindo voltar para casa e descansar para a semana de trabalho. Alguns moradores atribuíram à influência da Juventude Franciscana dentro da organização comunitária local a ausência dos jogadores do Baú na confraternização com os visitantes no bar.

Em outra oportunidade, Alcides agendou, em acordo com Zé Candinho, uma partida contra a equipe de um bairro de Taubaté, onde mora um de seus irmãos. Para ganhar visita, Alcides ajudou financeiramente no deslocamento da equipe de Taubaté até o Baú e recepcionou os jogadores adversários para um almoço em sua casa, reunindo a maioria dos jogadores das duas equipes para um momento de confraternização antes do duelo. Nesse caso, o jogo no campo do Baú não implicou um segundo jogo, pois a equipe do bairro de Taubaté não tinha um campo próprio e não dispunha de dinheiro, naquele momento, para agenciar uma partida, alugar um campo ou financiar uma recepção.

Deste modo, há sempre alguma coisa em jogo e joga-se não somente "por" alguma coisa, mas também "em" e "com" alguma coisa. Porém, o que está em jogo não é somente o resultado do jogo em si mesmo, pois é possível ganhar "alguma coisa mais do que apenas o jogo enquanto tal" (Huizinga, 2005, p. 57-58). A vitória pode vir "acompanhada de diversas maneiras de aproveitá-la [...] podem ser a honra, a estima, o prestígio [...] alguma coisa mais do que a honra [...] pode ter um valor simbólico e material, ou então puramente abstrato". Ganha-se estima e honra, que "concorrem para o benefício do grupo ao qual o vencedor pertence" (Huizinga, 2005, p. 58), num processo constante de "dar, receber e retribuir", no sentido maussiano, de modo particular em cada caso.

Segundo Mauss (2003), a reciprocidade na troca é um dos fundamentos básicos de sistemas de prestações totais, como o kula ou o potlatch, nos quais a dádiva é uma maneira de estabelecer vínculos sociais entre doador e donatário; ela produz alianças matrimoniais, políticas, religiosas, econômicas, jurídicas e diplomáticas. Numa definição mais ampla, a dádiva inclui não só presentes como também visitas, festas, comunhões, esmolas, heranças e outras prestações. Novos vínculos são gerados com a circulação da dádiva, pois ela não é de graça, exigindo sempre retribuição.

Para o autor, há um elemento especial nas dádivas para que elas sejam dadas e também retribuídas. Dar, receber e retribuir implica não só uma troca material; o presente tem uma dimensão espiritual, pois dar um presente é ceder um pedaço de si e aceitar alguma coisa de alguém, é acolher sua essência espiritual. Essa essência pode ser perigosa e venenosa, o que faz da troca de dádivas um ato simultaneamente espontâneo e obrigatório.

A não retribuição – o pagar jogo – acarreta perda da autoridade, o que está relacionado a um segundo fundamento básico do potlatch: a noção de honra e prestígio que a dádiva proporciona. O sistema de trocas recíprocas amarra os clãs em obrigações; por isso a retribuição precisa ser sempre superior ao presente que foi dado, criando uma competição pública por status, na qual o clã que der uma festa onde se consome uma grande quantidade de bens terá mais prestígio. Há no potlach, também, destruição e ostentação dos próprios bens ou os dos outros com quem se troca.

Huizinga absorve as análises do antropólogo francês e constrói um interessante diálogo28 com as reflexões maussianas ao propor uma interpretação lúdica da lógica de reciprocidade. Para o autor, o instinto agonístico – a necessidade humana de lutar pela honra e glória – é o princípio básico presente em todos os costumes relacionados aos sistemas de prestações totais como o kula ou potlach: "A virtude, a honra, a nobreza e a glória encontram-se desde o início dentro do quadro da competição, isto é, do jogo" (Huizinga, 2005, p. 73).

Deste modo, as relações e formas de reciprocidade desenvolvidas a partir do ganhar jogo, pagar jogo e ganhar visita, evidenciam as partidas de futebol como uma prática significativa na configuração das redes de relações em São Bento do Sapucaí, pois "[os jogos] cumprem os desígnios que fundamentam a vida em sociedade [...] colocam os homens em ação e relações recíprocas, de competição, cooperação, contraste e hierarquia" (Toledo, 2005, p. 145). O futebol surge, portanto, como um fenômeno esportivo estratégico na construção de articulações e reforço de vínculos entre os diversos bairros, pois "para alguém ganhar é preciso que haja um parceiro ou adversário; no jogo solitário não se pode realmente ganhar" (Huizinga, 2005, p. 57).

Stigger (2002), ao criticar algumas formulações de Huizinga, enfatiza a distinção esporte moderno/jogo elaborada pelo autor holandês, para quem o esporte teria adulterado as peculiaridades lúdicas encontradas no jogo. Como vimos acima, o argumento de Huizinga concentra-se numa crescente perda de aspectos lúdicos na sociedade moderna (principalmente a partir do século XVIII), em diferentes domínios sociais, inclusive o universo esportivo.

Especificamente no caso do esporte, Huizinga defende que – apesar de, à primeira vista, parecer que este fenômeno estaria vinculado à esfera lúdica –, isto efetivamente não acontece, pois, comparado com os jogos anteriores ligados ao divertimento ocasional, o esporte sofre uma deslocação no sentido da seriedade (Stigger, 2002, p. 194).

De fato, Huizinga pensa uma transformação relacionada à gradativa perda de elementos lúdicos que antes existiam; como também afirma que este processo não afeta somente o "espírito profissional" – dimensão marcada pela competitividade e seriedade, e carente de espontaneidade –, implicando alterações inclusive nas práticas ditas "amadoras".

Entretanto, em seu desafio de confrontar empiricamente as generalizações teóricas de Huizinga, Stigger reitera a polarização jogo/esporte proposta por Huizinga. Penso que os dados obtidos por Stigger (2002, p. 195) – de que "os participantes levam a efeito a sua maneira especifica de praticar o esporte numa perspectiva lúdica" – apenas enfatizam, mesmo que partindo de "representações nativas", a divisão muito trabalhada entre jogo/divertimento e esporte/seriedade. Como se as práticas espetacularizadas, expostas por Huizinga como "esporte moderno", não apresentassem aspectos lúdicos significativos, enquanto que nas práticas não espetacularizadas preponderaria o espírito lúdico. Porém, saliento que é possível haver, como defende Stigger, uma ênfase na seriedade na prática espetacularizada e um predomínio do aspecto lúdico nas demais práticas, especificamente, nos três grupos estudados por Stigger; e que este quadro pode variar conforme o contexto ou recorte estudado.

Esses processos de evolução lúdica (ou "involução", ao olhar para a obra de Huizinga) são refutados por Toledo (2005), que propõe pensar as duas formas de manifestação – jogo e esporte – a partir de um modelo analítico sintetizado como continuum lúdico. Embora a noção de continuum remeta a tradicionais polarizações (continuum rural-urbano, por exemplo), o autor esclarece que sua proposta não é delimitar pólos lúdicos, como jogo/arcaico em oposição ao esporte/moderno:

Não se trata disso, pois, sobretudo quando o que se quer relatar é o modo como as pessoas no cotidiano vivenciam a experiência multifacetada do lúdico, tanto jogo quanto esporte definem, antes, estados ou situações típico-ideais, apartadas num nível mais formal, digamos, de ordem da morfologia social (o que está e o que não está institucionalizado, por exemplo). (Toledo, 2005, p. 143).

Embora não se possa afirmar, devido à diversidade de práticas futebolísticas, que esse processo ocorra em todas as situações, defendo que as oposições esporte/jogo e ritual/ cotidiano – como também entre as matrizes espetacularizada, bricolada, comunitária e escolar –, precisam ser entrelaçadas na investigação antropológica dos fenômenos esportivos.

Alvitro, portanto, que a premissa dicotômica que fomenta esse debate precisa ser problematizada. O que não é verificado na argumentação de Stigger, quando este, amparado pelas propostas de Eric Dunning sobre o significado social do esporte, sugere que Huizinga procurou definir o esporte por meio de conceitos rígidos, que destoariam de contextos já investigados e descritos. Contextos como os pesquisados por Stigger, que oferecem outra interpretação, na qual os praticantes da atividade desenvolvem o esporte como um fim em si mesmo, cujo componente principal é o divertimento e o prazer para si próprio. Penso que Stigger reforça os antagonismos – embora o faça com menos rigidez –, opondo os modos singulares de praticar futebol, por ele mesmo estudados, ao esporte do tipo espetacularizado, prática que estaria direcionada para a apreciação dos outros (adversários e torcedores) e orientada à obtenção de resultados (ou, ainda, interesses materiais e prestígio).

Como o próprio Stigger destaca, ao retomar algumas questões analisadas por Dunning, os aspectos característicos do esporte espetacularizado não se restringiriam somente a essa matriz; alcançariam inclusive as práticas ditas "amadoras", visto que a partir da propagação do esporte definido como "profissional", "os meios de comunicação estabeleceriam padrões de comportamento, que seriam também imitados por outros desportistas: por exemplo, por aqueles que praticam esporte no lazer" (Stigger, 2002, p. 196). Porém, o tema ainda exige, como afirma Stigger, questionar as generalizações cultivadas a partir dos estudos sobre a matriz espetacularizada e perspectivas reducionistas de pensar as práticas não espetacularizadas como modelos "em miniatura do esporte de alto nível".

 

Considerações finais

Campo de futebol do Baú do Centro, momentos antes do inicio do jogo. Preleção à beira do campo com o técnico Zé Candinho. Não há entre os jogadores ou com o técnico, uma conversa mais detida sobre a tática a ser seguida. Os jogadores dirigem-se ao campo, reúnem-se no gramado, formam um círculo, rezam o Pai Nosso e entoam o grito "Baú, Baú".

A descrição acima, registrada em caderno de campo, refere-se à prática futebolística no Baú do Centro, porém poderia ser formulada a partir da observação de inúmeras outras práticas cotidianamente ativadas por todo o Brasil. Acredito que essa pesquisa possa ser compreendida enquanto um novo esforço etnográfico, pertencente a um grupo de trabalhos mais recentes que enfocam as diversas práticas futebolísticas – os futebóis propostos por Damo (2007) – e a relação destas com aspectos significativos da sociedade brasileira, privilegiando práticas cotidianas que, agregadas, ajudam a compor o universo esportivo e a vida social.

No contexto urbano, por exemplo, existem dinâmicas específicas no futebol de várzea29 praticado por toda a cidade de São Paulo, mas principalmente nas periferias paulistanas, espaços onde se constrói um universo diversificado de significações e que mobilizam indivíduos e grupos a interagir, inserindo-os, assim, na vida social do bairro, da cidade e do país, através do esporte que praticam nesse contexto. A prática futebolística no Baú do Centro produz uma dinâmica semelhante ao recriar semanalmente processos ritualizados nas partidas de futebol profissional, que alcançam outras inúmeras dimensões socioculturais.

A análise de tais práticas perpassa o debate envolvendo os usos dos conceitos de esporte e jogo – ou lúdico e agonístico, divertimento e seriedade –, que mobilizou e ainda mobiliza as investigações e preocupações de diversos autores. Para essa discussão, optei por problematizar, mais especificamente, a crítica empreendida por Stigger (2002) aos argumentos de Huizinga, embora pudesse convocar outros autores importantes, entre eles, Roger Caillois (1990) e Donald Guay (1993).

Asseverar que os resultados das partidas disputadas pelo Baú do Centro têm um valor secundário entre os participantes não implica defender que o jogo não é assinalado pelo aspecto agonístico, pela seriedade e desejo de vitória, mas sim realçar que o resultado adverso do E. C. Baú numa partida dificilmente influenciará negativamente a prática futebolística no bairro, a ponto de provocar sua extinção (mesmo que momentânea).

Se por um lado, percebi que não há uma preocupação dos praticantes do Baú do Centro em registrar os resultados dos jogos disputados, visto que pouco consegui apreender sobre jogos anteriores, mesmo os travados no ano anterior; por outro, o esforço e a dedicação física na atividade evidenciam uma preocupação com a produtividade e a performance na partida. Tanto que nem todos podem participar da equipe do Baú, o que mostra, ainda, a existência de uma prática assinalada por uma determinada seletividade, talvez menos exigente que a seleção no futebol espetacularizada, mas que não deixa de fazer referência à produtividade dos jogadores. Se o resultado é parte essencial do universo espetacularizado, também é relevante nas práticas ditas amadoras, embora se considere que nelas seja priorizado o prazer do jogo pelo jogo. Assim, a competitividade e os conflitos podem ocorrer, pois os indivíduos, dentro de um universo esportivo, associam à prática do esporte diferentes significados. Por isso, a relação cotidiana entre os praticantes é constantemente negociada, atingindo momentos de interação e de conflito.

Portanto, a noção de sociabilidade aqui trabalhada, a partir da definição e dos alcances da noção de jogo de Huizinga, pode ser pensada em termos simmelianos. Simmel (1983, p. 168) propôs a sociabilidade como uma "forma lúdica da sociação", ao mesmo tempo descompromissada e interessada, pautada mais pela forma do que pelo conteúdo da relação construída. Num outro sentido, é possível aproximar, novamente, Huzinga e Mauss, como o faz Caillé (2002, p. 224) ao enfatizar, amparado por leituras maussianas, que tudo na sociedade "são apenas relações, até a natureza material das coisas".

Deste modo, a proposta não é alargar, a partir das investigações no universo espetacularizado, a análise sobre a performance e o rendimento para todos os tipos de práticas esportivas. Mas sim compreender as singularidades das performances e rendimentos esportivos dos praticantes popularmente identificados como "amadores", pois não são atividades desprovidas de propósitos relacionados aos resultados e à produtividade. Singularidades que evidenciam como a prática futebolística no Baú do Centro está associada ao divertimento e atrelada à produção de interação entre os moradores; onde é possível, de forma concomitante à competitividade e ao desejo de ganhar, encontrar prazer na prática do esporte mesmo nas derrotas, pois se ganha algo para além do jogo e dos resultados.

 

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Recebido em: 27/02/2008
Aprovado em: 02/07/2008

 

 

* Uma versão preliminar deste artigo foi apresentada na 31ª Reunião Anual da Anpocs em outubro de 2008, no GT Sociedade e Esporte, coordenado por José Jairo Vieira e Hugo Lovisolo. Agradeço aos valiosos comentários dos coordenadores, como também dos demais participantes. Sou grato, ainda, ao Prof. Dr. Heitor Frúgoli Jr., à Profª DrªAna Lúcia Pastore Schritzmeyer, a Carlos Filadelfo de Aquino, a Aline Izabel Costa Carvalho, a Thais Waldman e Sérgio Settani Giglio, pelas leituras e preciosas sugestões. Agradeço ao CNPq pelo financiamento à época da pesquisa, e à Fapesp pelo apoio atual.
** Mestrando em Antropologia Social.
1 Pesquisa de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC/ USP/ CNPq), período março-julho/2006, orientada pelo Prof. Dr. Heitor Frúgoli Jr. (DA/ FFLCH/ USP).
2 De autoria do Prof. Dr. Heitor Frúgoli Jr, com Bolsa Produtividade em Pesquisa – PQ (CNPq), nível 2, no período entre março/2005 e fevereiro/2008. Durante os cinco meses de duração da iniciação científica pude desenvolver a pesquisa proposta, além de colaborar para a pesquisa mais ampla desenvolvida por Frúgoli Jr.
3 Penso que o emprego da categoria "futebol amador" para diferenciar a prática esportiva no Baú do Centro da categoria "futebol profissional", organizado pela Fifa (Fédération Internationale de Football Association) e regrado pela International Board (órgão da Fifa), como lembra Damo (2002), precisa ser reavaliado, visto que são categorias a serem problematizadas e redimensionadas, frente à variedade de tipos diferentes de práticas futebolísticas, devido à utilização exaustiva dos termos "amadorismo" e "profissionalismo" – dicotomia adotada no campo intelectual sem as cuidadosas mediações necessárias.
4 Prática que desembarcou no Brasil de forma mais institucionalizada e orientada pelas regras usadas no futebol oficial praticado na Inglaterra do século XIX. Conferir o Capítulo 1 de Mascarenhas (2001).
5 No conjunto de trabalhos recentes há, entre outras, pesquisas sobre futebol de praia em Santos (Nori, 2002); peladas em bairros de trabalhadores no Rio de Janeiro (Guedes, 1998); a prática desse esporte em espaços públicos da cidade do Porto, em Portugal (Stigger, 2002); estudos que enfocaram o futebol de várzea paulistano (Hirata, 2005; Magnani; Morgado, 1996; Santos, 2001) e pesquisas sobre jogos de futebol em aldeias indígenas (Vianna, 2002).
6 Vale ressaltar, ainda, a notável pluralidade, analisada por Toledo (2002, p. 15-18), de contextos e atores envolvidos com o campo futebolístico profissional, recortando-o em três categorias de agentes – profissionais, especialistas e torcedores – e tomando, como significativos, espaços rituais e cotidianos de construção de representações, a princípio despretensiosos: cursos para treinadores, botecos e programas esportivos de televisão.
7 Conferir alguns autores, entre outros, que trabalham com o tema do "jogo" e do "esporte": Caillois (1990), Guay (1993) e Bracht (2003).
8 Dados do Censo Demográfico de 2000 (IBGE).
9 Dados extraídos da Prefeitura Municipal da Estância Climática de São Bento do Sapucaí (2003).
10 Dados extraídos da Prefeitura Municipal da Estância Climática de São Bento do Sapucaí (2003).
11 Segundo a esposa de Seu Luiz, Maria Amélia, o nome "Ilhéus" remete à linhagem Silveira e Cunha, de origem portuguesa, da Ilha da Madeira.
12 Cataloguei parte desse material para a pesquisa mais ampla de Heitor Frúgoli Jr.
13 Os estádios brasileiros adotam, em sua maioria, as dimensões obrigatórias para partidas internacionais: comprimento mínimo de 100 e máximo de 110 metros, e largura mínima de 64 e máxima de 75 metros.
14 O círculo central, a linha que divide o campo em duas metades, as duas grandes áreas, as duas pequenas áreas, as marcas de pênalti e as de escanteio.
15 A qualidade técnica consiste no domínio dos principais fundamentos do futebol (chutes a gol, passes curtos e longos, cabeçada, drible), e na capacidade de aliar estes fundamentos ao conhecimento tático em campo.
16 As variações táticas difundidas entre os profissionais do futebol – jogadores, técnicos, especialistas, jornalistas – ignoram, na sua explicitação numérica (por exemplo: 3-5-2, 4-4-2, 4-3-3), a posição do goleiro (com o qual seria: 1-3-5-2, 1-4-4-2, 1-4-3-3); por isso que a soma das posições nos modelos táticos sempre será 10, apesar dos times iniciarem a partida com 11 jogadores em campo.
17 Um jogador estará em "impedimento" ao receber um passe de um companheiro, e entre ele e a linha de fundo não houver dois ou mais jogadores adversários. O impedimento só se configura quando o jogador, a quem for direcionada a bola, parte do campo de defesa do adversário, ou seja, do campo de ataque da sua equipe.
18 Não consigo expor detalhadamente os motivos da briga entre os dois, pois o caso foi, de certa forma, velado pelos moradores. Há indícios, entretanto, que o problema envolveu a escalação dos filhos de Alcides na equipe do Baú. Alcides tem oito filhos jogadores e três filhas que participavam da equipe feminina; os nomes de todos os seus filhos, homens ou mulheres, começam com a letra A.
19 Definição de jogo: "O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da 'vida quotidiana'" (Huizinga, 2005, p. 33).
20 O autor cita o exemplo das brincadeiras entre cachorros, que brincam "mediante um certo ritual de atitudes e gestos. Respeitam a regra que os proíbe morderem […] e, o mais importante, eles, em tudo isto, experimentam evidentemente imenso prazer e divertimento". O homem e os animais compartilham o espírito lúdico, já que "os animais não esperaram que os homens os iniciassem na atividade lúdica" (Huizinga, 2005, p. 3).
21 É importante lembrar que, para Lévi-Strauss (2005, p. 46-49), jogo e ritual são opostos entre si. O jogo criaria eventos a partir de estruturas; haveria um conjunto de regras que definiria um espaço simétrico para dois times, ou seja, os dois estão submetidos às mesmas regras. No desenrolar da disputa ocorreria uma disjunção: o jogo começa igualado, mas produziria a diferença, com algum lado em desvantagem. O ritual, por seu lado, criaria estruturas a partir de eventos, partindo de uma assimetria e terminaria por criar uma conjunção, aproximando e igualando os dois lados da disputa.
22 Huizinga (2005, p. 144) distingue o que ele chama de "sociedades primitivas" e "sociedades sofisticadas", ou, em outra polarização, "nosso pensamento" e "pensamento primitivo" ou "mítico", este último desenvolvido pelo selvagem, para quem, "com sua extremamente limitada capacidade de coordenação lógica, tudo é possível" no mito, "o veículo adequado para as idéias do homem primitivo acerca do universo". Tal limitação é compreendida pelo autor na comparação que faz entre a criança e o selvagem, quando afirma que "a esfera lúdica, tal como a observamos na vida da criança, abarca toda a vida do selvagem" (Huizinga, 2005, p. 157).
23 O autor critica grandes correntes do pensamento do século XIX por serem adversas ao fator lúdico na vida social, entre elas a concepção marxista de que o mundo é governado por forças econômicas e interesses materiais (Huizinga, 2005, p. 213).
24 Século catalisador do esporte moderno, tanto para Huizinga que entende a competição – equipes jogando uma contra as outras – como o ponto de partida do esporte moderno (período no qual os jogos se tornam mais sérios), quanto para Elias e Dunning (1992, p. 192), que acreditam no surgimento do esporte como parte de uma mudança "civilizadora" (embora ainda marcado por valores patriarcais) já na primeira metade do século XIX, quando "o tipo aristocrático ou de society dos passatempos que dominavam, com o sentido do termo 'sport', na Inglaterra, […] propagou-se a outros países, tendo sido adotado pelas correspondentes elites sociais antes de os tipos mais populares, como futebol, se desenvolverem com as características de um sport". Huizinga (2005, p. 219), porém, questionará em que medida o espírito anglo-saxão pode ser considerado a razão principal para a gênese desse processo na Inglaterra do século XIX, embora não haja dúvida, para o autor, de que "a estrutura da vida social inglesa lhe foi altamente favorável".
25 Conferir a pesquisa de Antunes (1992) sobre a prática do futebol, no início do século XX, em indústrias e fábricas no Brasil.
26 Huizinga (2005, p. 57) traz exemplos curiosos a complementar sua afirmação, como a história envolvendo o Xá da Pérsia, que, em visita à Inglaterra e convidado a assistir uma corrida de cavalos, recusou-se a observar a disputa, "alegando saber muito bem que alguns cavalos correm mais depressa do que os outros".
27 "Assim como o jogo, também a festa implica uma suspensão da vida cotidiana e cria um tempo e um espaço artificiais" (Schritzmeyer, 2001, f. 52).
28 Allan Caillé (2002) já indicara as semelhanças nas perspectivas dos dois autores, embora valha realçar que as paridades entre dádiva e jogo não excluam a existência de variantes ou cizânias entre Huizinga e Mauss. Caillé (2002, p. 248) lembrará que "Mauss quase não aborda o jogo explicitamente, ainda que perceba, episodicamente, a proximidade do potlatch, do jogo e da guerra. Não há dúvida que, para ele, todos esses desempenhos agonísticos mostram uma parte considerável de jogo. Mas é no homo ludens de Huizinga, escrito em referência explícita ao Ensaio sobre o dom, e que constitui mesmo uma espécie de Ensaio sobre o dom composto no registro do jogo, que se verá melhor destacar-se o tema central para o nosso intuito, o da equivalência do dom – pelo menos do dom agonístico – do jogo e da atividade simbólica."
29 Estudos recentes demonstraram que o futebol varzeano não é destituído de regras ou de organização (cf. Hirata, 2005; Magnani; Morgado, 1996).