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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.14 no.30 Porto Alegre July/Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832008000200014 

RESENHAS

 

 

Antônio Bosi

Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Brasil

 

 

NEWMAN, Katherine S. No shame in my game: the working poor in the inner city. New York: Russel Sage Foundation: Vintage Books, 1999. 388 p.

O crescimento da desocupação e de empregos precários nos EUA divulgado recentemente pelo Bureau of the Census, confere relevo ao estudo que Katherine Newman publicou sobre "emprego pobre". Com este termo, a autora, professora de Antropologia Urbana no Kennedy School of Government at Havard University, definiu a ocupação de jovens empregados em redes de "fast food", no Harlem (trata-se da rede McDonald's chamada no livro de "Burger Barn"). Estes são, principalmente, afro-americanos e hispânicos (majoritariamente dominicanos e porto-riquenhos), entre 15 e 23 anos, sem qualificações específicas para o mercado de trabalho e cuja remuneração não excede o salário mínimo.

No livro, Newman constrói um retrato dessa realidade estabelecendo criativas combinações entre mais de 300 entrevistas realizadas durante a década de 1990 e séries estatísticas sobre programas sociais, escolaridade, pobreza e perfil étnico dessa população. Seu esforço de pesquisa e reflexão é organizado a partir da seguinte pergunta: "por que, numa nação marcada por uma prosperidade estranha a muitas nações, nós vemos crescer o número de pessoas que trabalham, mas ainda estão pobres?" (p. xiii). Responde a isto dizendo que existe uma ética ligando esses jovens pobres ao mundo do trabalho.

Leitora de Sennett, ela confere visibilidade aos fios que tecem as vidas desses trabalhadores em termos de valores familiares herdados e projetados. Os entrevistados destacam o peso que mães, pais e irmãos têm em suas próprias trajetórias. Por mais complicadas que sejam as árvores familiares desses jovens, muitas vezes marcadas por separações conjugais que conduzem a uma diversificação e ampliação da própria família, agregando meios e meias-irmãs, as escoras encontradas para enfrentar a vida com empregos ruins e salários insuficientes estão neste tipo de instituição. Como disse uma entrevistada: "os familiares são nossos melhores amigos" (p. 192).

Esta questão ganha relevância por dois motivos. Ela revela onde e de que modo trabalhadores pobres estão "resolvendo" suas vidas num contexto em que a malha de assistência social pública estadunidense encolheu bastante. Em que pese o fato da reforma no sistema de assistência, realizada pelo governo Clinton em 1996, ter sido diversamente interpretada, o sentimento de orfandade desses trabalhadores, relativamente ao Estado, atribui à família uma centralidade estratégica em detrimento da ausência das instituições públicas em guetos formados no interior das grandes cidades. Além desses trabalhadores não viverem uma realidade de pleno emprego, os salários recebidos impossibilitam uma sobrevivência independente. Um funcionário de "fast food" precisa do apoio logístico da família, sem o qual dificilmente conseguiria pagar aluguel e alimentar-se.

A segunda razão da importância da família relaciona-se ao próprio emprego. A busca por ocupação não é respondida a partir do exame sobre as habilidades e saberes laborais dos postulantes. Ao menos não o é nos termos convencionais de uma racionalidade de mercado que comumente se apóia na procura de competências. Nos casos estudados por Newman, o acesso aos empregos geralmente é mediado por redes de amigos e de familiares. O critério é pessoal; é um fiador que oferece a senha para a entrada neste mercado de trabalho (p. 161-174). A confiança estabelecida nesses termos tende a estimular uma relação de trabalho referenciada na gratidão e na responsabilidade.

Mesmo considerando ser grande a possibilidade da gratidão se esvair cedo – devido às precárias condições de trabalho –, a responsabilidade tem lastro mais profundo, alicerçado na família e nos amigos. A ética do trabalho identificada por Newman parece repousar nesse tipo de responsabilidade, cujo traço principal reside na transferência da finalidade do trabalho para algum compromisso afetivo, moral. Diferentemente de Sennett, Newman encontra nessa ética a possibilidade das pessoas construírem "narrativas de vida" (Sennett, 1999) que passam por forte apelo ao aprendizado da língua inglesa e à formação escolar (p. 122-149) como caminhos para "mudar sua realidade para melhor". Num sentido mais difícil de ser captado nas entrevistas, esse tipo de "melhoramento" perseguido é a seqüência da escalada iniciada por pais que imigraram para os Estados Unidos ou que continuam a trabalhar duro em seus países de origem. É uma trajetória de longa duração, resistente ao que Sennett (1999) chamou de "corrosão do caráter".

Contudo, a promissora trilha aberta por Newman perde força toda vez que ela comemora a insistência de jovens pobres em trabalhar, igualando culturalmente segmentos economicamente desiguais: "a boa notícia é que, a despeito de todas as dificuldades, a nação de trabalhadores pobres continue procurando sua salvação no mercado de trabalho." [...] "Como nós veremos, esta cultura (do trabalho) não pára nos portões dos guetos" (p. 61).

Newman não valoriza o fato de que essa ética do trabalho é estruturada a partir de experiências de resistência desses trabalhadores aos empregos disponíveis; nem tampouco que os entrevistados manobram valores desse "ethos" do trabalho, exigidos pelo empregador, fazendo-os parecerem essenciais, definidores de um caráter sobrevivente ao desamparo do Estado. Como uma de suas entrevistadas registra:

Infelizmente, quando você lida com a América empresarial, você tem que falar a linguagem dela. Isto faz parte da vida. Quando você tenta conseguir alguma coisa, você tem que se tornar parte deste organismo. Você não pode mostrar quem você é. (p. 74).

Ainda mais incisiva, outra entrevistada oferece um roteiro sobre como conseguir empregos de salário baixo:

Algumas pessoas são estúpidas. Elas não mostram responsabilidade ou interesse, até mesmo na entrevista de emprego. Mesmo se você vai apenas se candidatar, você deve agir, você sabe, como uma pessoa normal. [...] Não use um brinco no nariz. Isto é nojento. Não use grandes brincos. Se você não pode usá-los quando está trabalhando, por que você os usaria numa entrevista de emprego? (p. 75).

Outro aspecto não ressaltado por Newman indica o quão provisório este tipo de emprego é encarado pelos jovens entrevistados. Nenhum deles declarou gostar do que faz e muito menos desejar sua permanência nessa ocupação. Aliás, a descrição da rotina desse tipo de trabalho é marcada pelo tédio, pela repetição e pela absoluta falta de exigência intelectual:

Você não tem que entender. Você segue as campainhas e você entrega a carne com a rapidez que você puder. É como eu disse a você, para trabalhar no McDonald's você não precisa de uma cara, você não precisa de um cérebro. Você precisa ter duas mãos e duas pernas e mover-se tão rápido quanto você puder. O sistema inteiro é assim. (p. 140).

Esta dimensão das entrevistas de Newman confirma a avaliação feita por Harry Braverman sobre o capitalismo estadunidense há 30 anos: o trabalho tende a ser cada vez mais sem sentido e degradado (Braverman, 1987). Se essa afirmação encontra algum amparo histórico – e eu penso que sim –, torna-se importante dialogar com as evidências selecionadas por Newman, recolocando sua pergunta inicial noutros termos, ou na direção que uma parte da sociologia do trabalho vem insistindo: "o que faz os trabalhadores trabalharem tão duro?" (Burawoy, 2000). Talvez encontremos uma resposta mais convincente se fizermos a noção de ética, operada por Newman, descer até o cotidiano dos trabalhadores para indagá-los sobre sua presença no mundo do trabalho, dando espaço àquilo que eles nos contam.

Esta crítica não invalida a instigante pesquisa de Newman sobre essa jovem força de trabalho que nos EUA constitui-se como empregados domésticos, zeladores, garçons, funcionários de "fast food", enfim, ocupações geralmente preteridas pelos estadunidenses. Ao contrário, o rico material levantado no livro tem o mérito de expor e indagar hipóteses sobre o sentido do trabalho na contemporaneidade do capitalismo. Tem mérito também porque problematiza a realidade do mundo do trabalho nos EUA e afirma que as coisas por lá não vão bem. Ela faz isso ao estilo dos democratas que tentam voltar ao poder de Estado. Mas faz.

 

Referências

BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1987.         [ Links ]

BURAWOY, M. Manufacturing consent: changes in the labor process under monopoly capitalism. Chicago: Chicago University Press, 2000.         [ Links ]

SENNETT, R. A corrosão do caráter. Rio de Janeiro: Record, 1999.        [ Links ]