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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.14 no.30 Porto Alegre July/Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832008000200019 

RESENHAS

 

 

Luciana Duccini

Universidade Federal da Bahia – Brasil

 

 

CSORDAS, Thomas. Corpo/significado/cura. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2008. 463 p.

Para os pesquisadores de processos de cura religiosos, "tradicionais" ou "alternativos", uma das maiores dificuldades pode ser sintetizada pela intrigação de Lévi-Strauss (1975, p. 228) em A Eficácia Simbólica: "Mas a doente, tendo compreendido, não se resigna apenas: ela sara. E nada disso se produz em nossos doentes, quando se lhes explica a causa de suas desordens [...]". Afirmar que terapias rituais, lato senso, operam através de uma "manipulação simbólica", da "catarse", "sugestão", ou de um "efeito placebo" apenas muda o problema da interpretação de lugar. Afinal, em que consistiriam tais mecanismos simbólicos ou psicossomáticos que poderiam ser acionados através de ritos específicos?

O livro de Thomas Csordas, finalmente traduzido, Corpo/Significado/ Cura aborda diretamente a questão explorando as implicações teóricometodológicas de se tentar dar conta da experiência de quem passa pela "cura". A obra reúne dez artigos, baseados na larga experiência de Csordas em pesquisas acerca de rituais de cura entre católicos carismáticos norte-americanos e índios navajos, que não formam uma coleção limitada a comparações transculturais de procedimentos e significados envolvidos no adoecer, no curar e nas relações com o sagrado. Antes, os textos configuram uma unidade cuja ambição é testar um paradigma para a interpretação dos sentidos de "ser humano" que seja capaz de dar conta tanto do vivido e suas transformações quanto do culturalmente estabelecido, do compartilhado e dos significados já sedimentados. Em outros termos, um paradigma que englobe tanto o que é sentido quanto o que é refletido e, mais ainda, o faça de uma posição aquém das dicotomias clássicas entre experiência e linguagem, sujeito e objeto, corpo e mente. A idéia central é a de que o mundo em que somos é uma totalidade não desprovida de sentido, embora nem sempre estes assumam a forma reflexiva que os transforma em significados objetivados.

O ponto de partida do autor foi a constatação de que muitos modelos analíticos ou relegam a experiência de cura a um âmbito "simbólico" – ou "imaginário" e, portanto, "irreal" –, ou recorrem a mecanismos inespecíficos, como os citados acima, para explicar a transformação da situação do paciente (p. 18-19, 48-51). Embora as análises sobre rituais iluminassem diversos as-pectos das particularidades culturais dos grupos pesquisados, da performance religiosa, seus quadros simbólicos, relações de poder e asserções sobre pessoa e mundo, ao considerar tratamentos para os males do corpo e da alma, paravam "um pouco aquém" da experiência em transformação propriamente dita. Desse modo, mesmo quando se admitia a "eficácia" do tratamento, as formas pelas quais ele operaria sobre o paciente, permaneciam totalmente incompreendidas.1

De fato, quando se parte de abordagens que consideram a cultura como sistema simbólico, coloca-se, de antemão, um empecilho para a interpretação da experiência. Esta, afinal, tem sido considerada como o que escapa e contradiz o sistema de significados ou como um âmbito "pré-significativo", sobre o qual a reflexão, colocaria uma camada de sentidos culturalmente compartilhados. De forma que viveríamos sempre aquém do mundo dos significados, normalmente localizado no nível da linguagem, com suas estruturas e formas específicas de modulação do contínuo e fluído que seria a vida. A perspectiva de Csordas, sustentada no desenrolar do livro, afirma a necessidade de situar as análises da experiência humana não onde ela "termina" – os objetos culturalmente constituídos – e sim onde ela "começa" – na percepção – que não nos dá objetos prontos, mas perspectivas sempre renováveis do "real" (p. 105107). Assim, o campo empírico das terapias religiosas é a base para uma proposição cujas conseqüências vão além dessa temática específica e cujo interesse, portanto, não se limita aos interessados em curas rituais, incluindo uma reflexão acerca das relações entre cura, religião e política identitária e sobre os "novos seres" que encontramos no mundo da biotecnologia.

A primeira parte do livro pode ser considerada uma introdução à fenomenologia cultural, na qual Csordas expõe um "modelo retórico" de análise dos "processos endógenos" mobilizados no ritual de cura carismáticos para a compreensão de seus modos de operar e de sua "eficácia" (p. 31-32, e 294298 para aplicação ao contexto navajo), apresentando uma elaboração teórica aprofundada do que ele chama de "paradigma da corporeidade". Um movimento dialético entre a reflexão conceitual e o campo lhe permite considerar a experiência religiosa como momento da percepção e da constituição de "objetos culturais" no mundo. Dessa forma, o experienciado ressalta como um "ato comunicativo original" – intersubjetivo – no qual sempre há sentido (p. 115), embora não aquele já objetivado que seria aposto a uma experiência caótica inicial.2 O autor argumenta que os conceitos de pré-objetivo e de habitus permitem tratar da emergência de sentido na experiência sem considerá-la como "pré-cultural", por ter lugar num mundo culturalmente constituído e socialmente compartilhado. A análise da cura religiosa, portanto, indica o alcance muito mais amplo das posições defendidas, uma vez que considera as relações complexas entre o nível existencial da vida, os sentidos das experiências e os objetos da cultura e do pensamento. Os capítulos seguintes avançam numa espécie de aplicação desta proposta, testando-a no contraste entre dois rituais de "cura do aborto" – de católicos carismáticos norte-americanos e no mizuko kuyo japonês – destacando as diferenças culturais na constituição de mundos e entre interpretações de um mesmo processo terapêutico ritual por ministros de cura carismáticos e por profissionais da saúde mental, mostrando como ambos os tipos de "diagnósticos" são relatos construídos acerca de objetos culturais, independente dos conteúdos diversos que apresentem, sejam eles "doenças" ou "demônios" (p. 220).

A proposta é permitir uma compreensão profunda da experiência humana que não seja limitada a um nível puramente microssocial, tal como Csordas enfatiza ao mudar o foco para as curas religiosas entre os navajos, na segunda parte do livro. Muito mais do que uma apresentação de um novo contexto etnográfico, os textos expõem um confronto entre o paradigma da corporeidade e a análise de novos dados. Assim, o modelo retórico para a compreensão da cura religiosa é retomado e refinado diante das especificidades da experiência de adoecer e curar navajo, e como conseqüência, exige repensar as dicotomias entre causa e sintoma; doença "como entidade" e "como processo"; sistemas "etnomédicos" e "biomédicos"; e entre corpo e mente (p. 239) usualmente presentes na interpretação de curas "tradicionais". Ao prosseguir na análise do campo navajo, Csordas evidencia também a capacidade do paradigma da corporeidade para revelar especificidades culturais,

com o reconhecimento de que a diferença não é simplesmente uma cobertura cultural sobre um substrato biológico, nosso argumento vai além da afirmação prosaica de que cultura e biologia determinam mutuamente a experiência da enfermidade, rumo a uma descrição de base fenomenológica tanto da biologia como da cultura. (p. 363).

Na última parte do livro, temos a proposição do conceito de modos somáticos de atenção (capítulo nove) para tratar dos processos multissensoriais através dos quais experimentamos (com) nossos corpos em mundo habitado por outros (p. 371-374). Tal constructo permite a consideração tanto de nossas experiências num mundo repleto de sentidos, quanto a própria base para a auto-objetivação. Por fim, Csordas conclui o livro com um breve passeio pela biotecnologia, perguntando-se que tipo de seres passará a habitar nosso mundo (mesmo que virtualmente, no "ciberespaço") a partir de transformações trazidas a nossa existência e representações corpóreas. Sem dúvida, trata-se de uma bem vinda tradução de um trabalho de amplo escopo teórico que tem, ademais, o mérito de, enfim, fixar em português o termo "corporeidade" para embodiment, possibilitando uma certa unificação para um debate atual e ainda vigoroso nas ciências sociais.

 

Referências

GOOD, B. J. Medicine, rationality, and experience: an anthropological perspective. New York: Cambridge University Press, 1994.         [ Links ]

LÉVI-STRAUSS, C. A eficácia simbólica. In: LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p. 215-236.         [ Links ]

 

 

1 Esse impasse assenta na concepção dominante de que o conhecimento biomédico trata de entidades "naturais" (p. 330), enquanto que outros modelos se baseariam em "concepções" culturalmente construídas. Good (1994) revela a construção "cultural" das "entidades naturais" no ensino da medicina.
2 Esta postura permite distinguir a fenomenologia, fortemente baseada em Merleau-Ponty, de Csordas daquela de Schutz, para quem a experiência é um fluxo ao qual a reflexão acrescentará sentido.