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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.15 no.32 Porto Alegre July/Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832009000200008 

ARTIGOS

 

A situação etnográfica: andar e ver

 

 

Hélio R. S. Silva*

Universidade Federal do Rio de Janeiro - Brasil

 

 


RESUMO

No cronograma, a etnografia tem três fases, (situar-se, observar e descrever). A vivência do etnógrafo converte tais fases em atividades sincrônicas (andar, ver e escrever). O percurso no campo, sua observação e a descrição do contexto percorrido e observado são três fluxos que se misturam pela reciprocidade, interdependência e (inter)influências enquanto se tensionam pelas contradições e heterogeneidade das disposições e habilidades em jogo. Tudo isso compõe uma complexa ambiência, um contexto do qual deriva o estatuto do observador e as propriedades do universo observado. Cena de componentes tão inextricáveis impõe que a etnografia se torne o relato de um percurso. Dados e informações sobre a sociedade observada devem estar organizados no texto ao longo de uma espinha dorsal, o percurso do etnógrafo. Somente essa linha aglutinadora do material colhido poderá torná-lo legível. Tratase de pensar a etnografia como o relato de uma experiência conflituosa de um observador, condição para o entendimento do que foi observado.

Palavras-chave: escrever, etnografia, observar, situar-se.


ABSTRACT

In our mind, the field research has three phases, (to take a place there, to observe and to describe). In the experience of the anthropologist, nevertheless, such phases became tasks (to walk, to see and to write) developed at the same time. To stay in a field, to observe it and its description are three flows associate by reciprocity, interdependence and mutual influences and separate by the contradictions and different disposals and abilities necessary to achieve them. This arrangement composes a complex background, a context from what arises the status of the observer and the meaning of the observed universe. All around the scene are so tied to the observer that the ethnography only can be an account of a passage. Data and information on the observed society must be organized in the text throughout a spine, the passage of the ethnographer. Only this agglutinant line of the empiric data can be meaningful. In this sense the ethnography is the story of a conflicting experience of an observer, step to understand what occurs in the context.

Keywords: etnography, to observe, to stay, to write.


 

 

Situar

Situação ou posição, nos diz o dicionário, é a "maneira pela qual uma coisa está disposta, situada ou orientada". Este artigo trata da situação do etnógrafo e tece algumas considerações sobre as condições nas quais ele se situa no campo e neste inscreve seus percursos.

Trata, portanto, do trabalho do etnógrafo como "ato ou efeito de situar(-se), localizar(-se)"1 e da localização do etnógrafo no espaço social que estuda.

Tal localização é pensada em sua relação com os atores sociais que observa e em seus deslocamentos nos territórios onde tais atores se localizam e transitam. Essa será a posição do etnógrafo.2 A situação é, ao mesmo tempo, a circunstância na qual a condição, o ensejo e a oportunidade que o etnógrafo deve tornar favoráveis à obtenção dos dados e informações pertinentes ao seu projeto de pesquisa.3 Portanto, situação é circunstância e localização.

Em nosso contexto, tal atitude contraria uma tradição. Aquela dos discursos panorâmicos sobre a sociedade brasileira. Sua paulatina entronização e difusão na academia e sua divulgação entre um público maior contribuiu para o abrandamento da inclinação febril para a percepção do geral. A velha disposição cultivava um discurso generalizante que prescreve genéricos de forma generalizada. O antídoto para tal disposição como é óbvio é o trato com o particular e o inventário de suas particularidades.

Os retratos da sociedade brasileira em geral correspondiam quase sempre a projeções de propriedades socioculturais percebidas (ou supostas) em contextos restritos.

Fazendo a crítica do discurso sobre identidade nacional e cultura brasileira, entre outras inúmeras questões, Carlos Guilherme Mota (1977) aponta um dos óbices à consistência de tais diagnósticos e apanhados: a falta de monografias de base.

Entre a tradição e a maré montante das etnografias, nas tensões entre o macro e o micro, entre a generalização e a particularização, o que está em causa é a questão da eficácia.

Muitos se sentem desorientados. Recentemente, em um seminário, o presidente de uma das três mais importantes ONGs que trabalham no país com movimentos sociais reclamava ainda da falta de um discurso mapeador por parte da antropologia.

Indagação que estava na boca de um aluno de ciências sociais que inquiriu seu professor sobre a ausência na antropologia de um discurso sobre a sociedade em geral, para ouvir como resposta que ele não falava da sociedade em geral porque nunca teria estado lá e concluía:

Qual o ônibus que se pega para ir até a sociedade em geral?

Esquemas que dão conta de tudo parecem mais eficazes para uns, enquanto outros não confiam no panorama. Uns encontram na generalização a via cômoda para assentar o discurso político e as grandes palavras de ordem. Outros percebem, nesses perfis que a todos retratam, apenas os grandes traços comuns, desprovidos dos detalhes e sem o plano de fundo da circunstância.

Questão mais complexa encontra-se fora do alcance deste artigo, mas deve ser mencionada. Trata-se do próprio estatuto científico do conhecimento produzido. Afinal, por definição, leis científicas se estendem sobre todos os quadrantes. Qual o estatuto de propriedades que a pesquisa restringe às "fronteiras da tribo" (Lévi-Strauss, 1973), ao quarteirão da metrópole?

Durante muito tempo, as observações etnográficas reduzidas a seu recanto específico pareciam acumular para alguns um tesouro de achados díspares, que se prestariam mais à dispersão e afugentariam tentativas e esforços para integrá-los em seus traços comuns capazes de fundamentar noções mais sólidas sobre sociedade e cultura, economia e política.

Para essa visão "engenheira" o etnógrafo se afigura romântico. Suscita simpatia, mas parece um tanto inútil em sua benigna mania de colecionar miudezas.

Um encontro com engenheiros de campanha política na recente disputa para a prefeitura do Rio de Janeiro revela ao autor deste artigo tipos curiosos que têm a cidade na cabeça e fazem cálculos precisos sobre seus arranjos e tendências. Quando a memória traz ali o reconhecimento das falhas de previsão e fracassos pelos quais foram responsáveis os cálculos cerebrais do passado, não questionam a natureza do cálculo nem a possibilidade de colocar a cidade na cabeça. ("Ando por aí, converso com um e com outro", clichê que autoriza o impressionismo de orelha em pé). Assim seguem.

Dificilmente uma cidade se aninha em forma de modelo no cérebro de qualquer estudioso. É espaço sobre o qual se anda e de onde se recolhem, na superfície, sinais que merecem leitura, ao mesmo tempo, ávida e cautelosa. O conhecimento da cidade é, portanto, um conhecimento produzido pelos percursos. Ela nunca se destaca do observador e se oferece como um quadro no museu, para cuja contemplação adequada ele busca, com seus passos que tateiam no chão, o lugar ideal, o ângulo perfeito.

A cidade é percorrida e é pensada apenas pelo transeunte que ela própria engloba. A cidade é vista do interior de suas entranhas. O desenho à vol d'oiseau é tentativa de levitar sobre o que só ganha sentido na pedestre circulação.

Seria imprudente fazer prognósticos. Deixemos aos engenheiros de campanha a volúpia mental de conter em si o que é necessariamente exterior e, portanto, surpreendente.

É curioso que uma das primeiras descobertas da Escola de Chicago é a de que não se encontra na cidade um tipo específico de sociedade contraposta ao rural, tema sobre o qual se debruçaram Simmel, Redfield, Wirth. O que se descobre são as tais áreas morais de Park. A cidade é mosaica. E se descobre um pouco depois que o sentido emerge da interação (Blumer, 1998) para se chegar à evidência de que a linguagem, instrumento por excelência dos processos interativos, é uma fonte de mal-entendidos (Goffman, 1986).

Essas as tensões prévias, expectativas e prevenções que cercam o etnógrafo. Mas como é mesmo que o etnógrafo opera em seu armarinho de miudezas?

 

Etnografia ou livro de andar e ver?

Luiz Veiga Leitão (1976) alude a uma tradição árabe. A da confecção de livros de andar e ver. O poeta, caudatário da tradição, fez o seu próprio livro com a matéria de suas andanças pela Europa, que foi editado em tiragem limitada por Robson Achiamé Fernandes em 1976. Talvez pudéssemos convocar a tradição árabe e ibérica e criar um nome nosso para a palavra clínica, etnografia. Faríamos livros de andar e ver. Afinal não é isso que o etnógrafo faz em áreas rurais, em sociedades tribais e nos contextos urbanos?

Livro de andar e ver. A delícia do título se impõe pela simplicidade da frase, livro de andar e ver, que distende ante o leitor três palavras claras, que significam coisa e atividades elementares, livro, andar, ver. Parece querer descrever literalmente atividades simples e primárias: registros de andanças e de coisas vistas.

No entanto, seu autor, ao decidir pelo registro em livro, sugere implicitamente tratar-se de matéria incomum.

A tradição ocidental (e oriental) é fértil em referências ao extraordinário, ao maravilhoso, às "visões do paraíso", ao país de Preste João, reinos de Shambhala, de Logres, floresta de Brocéliande, Pays de Cocagne, o lugar na América onde jorraria a fonte da juventude, referências remotas, reatualizadas em 1925 por James Hilton, com seu Shangri-La, um romance muito lido no Brasil até a década de 1960 em tradução publicada pela Globo de Porto Alegre e a partir de cujo texto Hollywood fez dois filmes de relativo sucesso nas décadas de 1930 e 1970. A viagem e o contato com o outro era o passaporte para o insólito e o maravilhoso. Essa a expectativa, como já fixou há muito tempoSérgio Buarque de Holanda (1999). À mentira e à imaginação cabiam preencher a lacuna quando o trânsito não trouxesse novidades impactantes.

O extraordinário comanda a escrita. Os livros dos velhos monastérios registravam os graves acontecimentos da vida humana: nascimento, batizado, casamento, óbito.

Na simplicidade das três palavras ordenadas, livro de andar e ver, mal se contêm e, portanto, se tensionam impulsivas - essa a graça do título - tarefas complexas, empreendimentos humanos arriscados, porque ao mesmo tempo férteis e enganadores. Escrever e ver. Escre(ver).

Andar como metáfora da vida. Andar como marca fundamental do humano. Como os nativos de Sahlins (1978). Ao contrário dos vegetais fixos no solo. Errare humanum est.

Essa errância (a vida, o trajeto, o percurso), balizada pelo olhar e fixada pela escrita, condiciona o olhar que acompanha, segue o curso das pessoas em volta e a paulatina mudança da paisagem, focalizando cada objeto relevante ao olhar.

Se o olhar é a captação de instantes, coisas, pessoas e paisagens, ele não é um registro (como uma fotografia) e sim um travelling, a melhor palavra para indicar seu sentido porque o recupera no deslocamento. Travelling, travel. Viajar.

O olhar vê onde o andar lhe leva.

O título simples indica três fluxos, o do andar em seu percurso, o do ver em seu rastreamento das marcas do deslocamento, o da escrita, ajustando o foco do olhar e arrepiando caminho sobre as claudicações do andar.

 

Andar

Seria possível prescrever, com exatidão, atitudes, postura e procedimentos de um etnógrafo no campo?

Sabemos apenas que os procedimentos devem ser definidos, a postura adotada e as atitudes tomadas a partir de alguns valores, como o respeito à comunidade estudada. E devem ainda estar orientados por uma definição mais ou menos clara do que se está fazendo ali, o que implica ter um problema teoricamente constituído e um exercício prévio nos métodos e técnicas da disciplina.

Há, contudo, na relação uma aporia. Nenhum etnógrafo vai ao campo senão movido por incertezas, dúvidas e perguntas. Há algo no campo que ele não sabe e não conhece. Seu movimento até ali é um movimento que busca saciar tal ignorância e desconhecimento. É verdade que essa é uma circunstância comum a todas as ciências, exatas ou não, naturais ou humanas. O que há de particular na relação etnográfica é a circunstância da intersubjetividade, velha questão para a qual Lévi-Strauss chamou atenção ou, para colocar em outros termos, a relação na mesma escala entre sujeito e objeto, como observou Roberto DaMatta (1981) em Relativizando.

O percurso do etnógrafo no campo deriva da conjunção exitosa ou atritada, isto é, pelos acordos e pelos entreveros entre a orientação que ele mesmo quer imprimir a seu itinerário e os itinerários permitidos, prescritos, previstos, aceitos pelos interlocutores/interagentes. Acordos que conduzem às melífluas fusões de horizontes ou a entreveros entrecortados de raios no horizonte e trovões sobre a cabeça.

Acordos e mal-entendidos, tessituras sociais por excelência, termos com os quais nos referimos às interações, sejam diálogos, cooperações ou competições, são propriedades sociais que impregnam o processo etnográfico. Por isso a identidade do etnógrafo, ética e cientificamente consolidada na academia, introjetada subjetiva e eticamente pelo sujeito específico, termina por reverberar no mundo profano em que o pesquisador transita. A identidade final, aquela que experimenta as provas e temperatura do contexto, resulta desses ideais cultivados na academia, das fantasias acalentadas pelo próprio e das desconfianças, intuições, preconceitos e finas percepções da coletividade na qual tenta se situar e se mover. De um lado, autopercepção e formulação de trajetórias permanentemente revistas. De vários outros lados, percepções alheias e permissões e restrições de deslocamentos também revistas constantemente. Quanto mais intensa for a vida social e tanto mais graves os impasses e dramas locais, essas revisões ganham uma intensidade que as torna proliferantes. Em alguns contextos, o jogo de tal produção de versões e interpretações para a presença do pesquisador complexifica os entendimentos do significado daquela presença. O modo como o etnógrafo é acolhido terá sempre correspondências com a imagem que o intruso projeta. Isso, no entanto, está inextricavelmente enredado na(s) maneira(s) particular(es) com que a imagem projetada é decodificada entre os nativos. A acolhida depende de tudo isso e a circulação do etnógrafo é orientada pelas múltiplas angulações com que a cena é percebida.

Logo, o trajeto no campo não decorre apenas dos móveis do etnógrafo. O campo é também um território demarcado, com limites que impõem múltiplos significados aos percursos trilhados ou possíveis e muitas fronteiras, zonas de transição, ambiguidade.

O trabalho de campo é dramático porque as predisposições subjetivas e o aparato reunido nos bastidores são postos em questão. O solo do campo não foi configurado para amparar sua consistência, para acolher seus princípios.

A identidade final do etnógrafo resulta dessa produção que é sua formação posta à prova por critérios inteiramente diversos daqueles que presidiram, orientaram e moveram a formação.

Todo o aparato envolvido em sua formação, no entanto, é convocado e utilizado para enfrentar uma incógnita, o que legitima e justifica o empreendimento. Ora, a penetração nesse universo desconhecido que se busca aclarar e compreender tem fortes correspondências com o estágio de liminaridade dos processos rituais e suas sequelas psicológicas de ansiedade e incerteza. Um tipo de ansiedade que se corresponde com as tensões e desgastes dos pesquisadores das ciências exatas, daqueles que pesquisam em laboratórios, mas que vêm acrescidos da circunstância - e aqui nada mais esclarecedora que a expressão "escala" usada por Roberto DaMatta (1981), como já se observou linhas acima - de que todo o trabalho se deu pelo estreitamento de laços, pelo envolvimento, pelas vias da interação e interlocução entre sujeito e objeto que se encontram na "mesma escala". O que isso quer significar? Apenas que nas relações em que os termos envolvidos encontram-se na mesma escala, e particularmente quando os termos em causa são seres humanos que se relacionam a partir de posições in situ e identidades adquiridas na flexão entre a definição de ego e as definições de seus interlocutores, o que está em causa é uma desestabilização do observador, o que é mais do que a subjetividade (que compartilha com seus colegas das ciências exatas e naturais) e mais do que a interferência sobre o objeto (que comunga com botânicos e zoólogos).4

É claro ainda que o etnógrafo de há muito deixou de ser a figura um tanto enigmática de obscuros desígnios. Para ficar nos limites dos contextos urbanos, uma figura conhecida e rotulada. Pode ser uma presença incômoda, a querer vasculhar com interesse o que parece óbvio e prosaico aos nativos.

Entre lideranças e integrantes de movimentos sociais, envolvidos com laudos e em busca de discursos legitimados, pode ser também uma presença aguardada, capaz de pôr no papel a história do lugar e de seus habitantes. Uma respeitabilidade deriva dessas últimas possibilidades, acompanhada dos riscos de manipulação. Se a postura inicial é a do respeito à comunidade e se a neutralidade é um ideal impossível e se deve, como lembra Howard Becker (1977), decidir o lado em que se está, nem sempre há uma coincidência perfeita entre as aspirações legítimas e as imposições etnográficas. As versões eficazes sociais, politicamente e etnograficamente não se ajustam com facilidade em muitos casos.

Esse andar pelo espaço delimitado no qual a pesquisa transcorre permite que o etnógrafo se situe, isto é, adquira naquele contexto um lugar e uma identidade. Trata-se de um percurso marcado pela interação. Ora, interagir pela participação nos rituais, nos trabalhos, no lazer e pela interlocução nas entrevistas informais, nas conversas suscitadas pela participação, nos bate-papos que até parecem escapar dos desígnios do trabalho de campo, alimentados apenas pelas amizades ali contraídas.

Essa interação implica mutualidade. Nessa ação, o etnógrafo sofre e exerce influência dos/sobre os outros, afeta e é afetado. Influência e afetação que incidem sobre identidade, condição e desenvolvimentos.

Trata-se de um processo comunicativo, que tem no diálogo sua instância mais visível (ou audível), mas que não se esgota nele. Esse processo comunicativo sofre refrações no campo. Isso torna sua conceituação abstrata de amplitude genérica pouco útil no empreendimento de particularização, pois o diálogo e a comunicação em geral ganham propriedades e dinâmicas distintas se ocorrem no âmbito doméstico, entre membros de uma família, em ambiente predominantemente masculino ou feminino, entre crianças, no trabalho, no lazer, na caça e na pescaria.

Há na experiência etnográfica um esforço de compartilhamento, mais ou menos exitoso em função das resistências que a presença do pesquisador suscite e das esferas de atividades nas quais se encontre em termos de atividades desempenhadas, trabalhos desenvolvidos, festas comemoradas, rituais realizados.

Enfim, estamos a detalhar atividades, experiências e circunstâncias bastante conhecidas de todos os praticantes da etnografia, que são a maioria dos leitores de Horizontes Antropológicos. Trata-se apenas de uma evocação para salientar pelos detalhes e lembrar o grau de envolvimento que sofremos no campo.

Os velhos manuais de sociologia funcionalista às vezes ilustravam o texto com a imagem de um círculo que representaria a sociedade. Muitas vezes, estava dividido em áreas como economia, política ou religião.

A evocação aqui feita talvez nos suscite, pelo grau de impregnação com que a observação ocorre, que pudéssemos sobrepor à velha imagem uma linha sinuosa que representasse o percurso do etnógrafo, o seu andar pela sociedade que estuda. O que ele vê é inextricável de sua situação, ou seja, o lugar que ocupa, o trajeto que faz para ouvir, apalpar, cheirar, xeretar, degustar e ver.

 

Ver

A relação na mesma escala aduz algumas particularidades ao par sujeito-objeto. Implica avançar um pouco mais sobre o reconhecimento das interferências subjetivas na observação de fenômenos físicos e naturais. E assim reconhecer que na experiência etnográfica estamos a observar idiossincraticamente uma cena da qual fazemos parte. O que envolve, além da relatividade que a subjetividade impõe à percepção, a capacidade de se incluir como peça exterior cuja presença altera a cena. Não se trata apenas de uma observação que altera o objeto observado, mas de uma alteração produzida pela participação do observador na cena que ele mesmo observa.

Todo etnógrafo só pode estar em uma cena alterada pela sua presença. O significado da cena exige não apenas um reconhecimento do caráter subjetivo da observação, mas sobretudo a capacidade de ter uma noção objetiva de sua própria presença.

Há graduações nas possibilidades abertas por tais incursões. Existem universos sociais plenamente desconhecidos, outros relativamente conhecidos. Algumas pesquisas incursionam quase com a missão de fazer o mapa local, outras retornam precedidas de outras incursões para propor novas questões e examinar aspectos ainda não contemplados.

A tensão básica, no entanto, estará sendo produzida pelo desconhecimento, pela dúvida, pelo empenho em descobrir e saber. A experiência etnográfica consiste sobretudo nisso.

Formação profissional, diálogos com colegas, professores e orientadores,5 teorias e métodos que domina, dúvidas e questões sobre o trabalho que empreende, idiossincrasias pessoais são variáveis heterogêneas. Estão contudo agudamente presentes na situação etnográfica. Por mais díspares que sejam,6 tornam-se íntegras na situação, logo integram - porque corporificam e animam - o etnógrafo no campo. É verdade que se evoca aqui um conjunto obscuro, sobre o qual apenas o psicanalista do etnógrafo poderá lançar talvez alguma luz. O que importa é que em cada caso, a Ciência conta com um Hubbard imprevisível, particular e intransferível para vasculhar os confins de tudo quanto é humano. Afirmação que se faz consciente de que é esse o único instrumento adequado à proeza.

Essa obscuridade é o cadinho7 no qual se conforma a contribuição subjetiva para a identidade do etnógrafo. Autopercepção que indica apenas o significado que ele mesmo julga ter ali. Se é verdade que a função da personagem é mover a ação, essa identidade forjada subjetivamente orienta o trajeto do etnógrafo no campo.

No entanto, todo esse complexo sofre no campo abalos significativos, desafios permanentes, enfim, encontra resistências.

Essa autopercepção constrói para si um significado de ordem especular. O significado pleno, solar, social pode até ser prismático e múltiplo, mas será sempre constituído pelas tensões entre autopercepção e alterpercepção.8

Uma cena etnográfica só é confiável quando o etnógrafo se inclui na paisagem desenhada. É preciso que haja um ajuste de perspectiva entre a silhueta traçada de si próprio e a paisagem em volta. Cumpre ajustar as proporções entre o observador e o cenário observado que inclui coisas e seres e, entre esses, o próprio etnógrafo.

Contudo, a consciência de si que o empreendimento etnográfico exige não é a de projetar sobre a cena o que o etnógrafo pensa de si, mas de projetar ali a identidade e os significados que ele adquire na interlocução, na participação, na interação entre tudo que pensa de si mesmo e tudo que todos os outros pensam dele mesmo.

É no jogo tenso entre aguda observação do entorno e introspecção como trampolim para se lançar na cena que episódios, situações, acontecimentos poderão adquirir sentido, significados legíveis.

Laplantine (2004), por exemplo, refere-se a ver e escrever como atividades distintas, que se sucedem. Além de ver, o etnógrafo deve escrever o que viu.

Ocorre que ver, sendo diferente de olhar pura e simplesmente, implica uma organização do que foi olhado, espiado, espionado, entrevisto, reparado, notado, percebido ao longo do percurso etnográfico.

Ver implica um olhar que se organiza; um olhar organizado e reorganizado; que vai organizando; que organiza e reorganiza; que vai revendo; que revê e dá por revisto.

A matéria do olhar, isto é, o que o olhar modela, é a matéria do escrever, isto é, aquilo que a escrita modela. Enquanto anda e olha, o etnógrafo está sendo teleologicamente movido para uma escrita e está permanentemente entrevendo uma tarefa ao cabo de tudo: escrever.

 

Escrever

Escrever, no sentido aqui evocado, é mais que garatujas ou exercícios caligráficos, despejo no papel de matéria confessional, anotações práticas e diárias, lembretes de agenda, embora no processo contenha todas as possibilidades elencadas e muitas outras. Implica uma organização do que está sendo escrito, rabiscado, insinuado, intuído, anotado. Notas, anotações, registros, palavra solta que evoca, frase interrupta,9 palavras e expressões copiadas de textos prévios expostos em neon, cartazes, avisos públicos, rabiscos privados, transcrições de entrevistas gravadas, fixação de conversas mantidas longe do gravador, sínteses de acontecimentos, reparos sobre diálogos escutados, comentários soltos, fragmentos que se acumulam e são avidamente guardados sob a forma de flagrantes textuais que parecem uma joia preciosa ao etnógrafo e que ele não sabe bem como colocar, onde engastar. Dispersos que se acumulam, parecendo ao autor ora preciosidades, ora banalidades. Ficam por ali (o etnógrafo duvida: "Estarei delirando."), eis quando, vapt, e o termo, a frase, a observação esdrúxula adquire sentido e consistência e se encaixa, sonora e significativa, no fluxo do texto.

Escrever implica uma organização (ou talvez possa implicar uma desorganização) de uma matéria textual, um texto que se organiza (assim foi sempre, mas as facilidades do computador deixaram isso claríssimo de 20 anos para cá), que vai se reorganizando, que vai se revendo, que revê, que é revisto.

A matéria do escrever, isto é, o que a escrita modela, é a matéria da visão, da audição, do olfato, do tato, do paladar, mas sobretudo as sensações compósitas, as percepções produzidas por múltiplos canais, pelos cruzamentos áudio-táteis, palato-visuais, as sensações produzidas pela mistura "daquela música" com "aquele cheiro". Todos os cinco sentidos estão a modelar os estímulos do campo, alguns deles modelam em operações combinadas.

Tudo isso deve ser convertido em um texto.

Essas modelações dos sentidos nunca são definitivas. Os sentidos estão sempre a rever (uma metonímia), a pegar de novo, a sopesar, a ouvir de novo a gravação e nela descobrir algo que não foi considerado na primeira audição. Daí as correções e acomodamentos impostos pelas revisões dos sentidos (simétricas das correções sintáticas e ortográficas e das remontagens de parágrafos e trechos das revisões textuais).

Uma etnografia, enquanto texto, não deixa de ser um olhar revisto ou, se a frase soar rebarbativa aos mais sensíveis, um olhar que revê. E revê porque está em outro ângulo.

Os procedimentos técnicos relativos à fatura do texto, sua edição, tão claros nas velhas editoras de antes do computador, com seus redatores, copydesks, revisores de primeira, segunda, terceira provas, escritores, editores, compositores.

Rotinas secularmente institucionalizadas e que se materializam em salas específicas, setores organizados administrativamente, cubículos, gabinetes, mesas, pranchetas, salas ruidosas sobre máquinas possantes.

Essas engrenagens das velhas editoras e gráficas podem constituir uma matéria etnográfica para que pensemos a questão da escrita nos termos em que gostamos de pensar a sociedade - etnograficamente.

Ao oferecer pela tradição material e humana das organizações que buscavam materializar a escrita e torná-la pública - isto é, editar.

O etnógrafo é um redator, um editor, um revisor, um copy-desk. Sua prática com o texto se desenvolve distendendo múltiplas linhas de performances das quais ele próprio é o regente.

Ora, antes de constituir uma matéria textual10 da qual irá extrair seu texto definitivo, o redator já extraíra uma matéria difusa do etnógrafo que ele mesmo foi. Matéria feita de lembranças, impressões, dúvidas, hipóteses, questões, anotações. Esse aglomerado formidável nunca é um amontoado heteróclito. Desde o começo sofreu ordenações, direcionamentos, classificações, interpretações, análises orientadas por teorias, métodos, técnicas, hipóteses, o estado da arte e pela interlocução com orientadores, professores, colegas, alunos e especialistas na área na qual o trabalho de campo quer se integrar.

A matéria difusa deve se transformar em uma matéria textual. A primeira era materialmente heterogênea. A segunda é um código linguístico, materialmente uniforme, com suas regras invariáveis. Nem todas as possibilidades riquíssimas da linguagem escrita, nem toda a literatura e todos os grandes nomes que possamos evocar para comprová-lo, nada disso conjura a percepção de que de todas as séries comunicativas convocadas no campo e notavelmente multiplicadas pelas suas relações de significação,11 o texto etnográfico se faz com apenas uma dessas séries. Nesse sentido, o texto etnográfico é metonímico.

A pintura representa o mundo por traços e cores, a literatura por palavras e frases, a música pela melodia e harmonia.

Em arte, a especificidade de uma linguagem foi tradicionalmente o penhor elegante da performance e dos fundamentos da própria arte.12

A etnografia, não sendo arte, e tentando dar conta tradicionalmente de grupos estigmatizados para incluí-los no rol da humanidade contra as disposições preconceituosas e imperialistas do século XIX, lida primeiramente com expressões sociais e culturais não exatamente correspondentes a uma tradição de linguagem escrita que, embora tenha se difundido, teve uma origem precisa, isto é, de uma época historicamente datada, uma região geograficamente circunscrita, uma província antropologicamente situada.

O interesse por grupos desviantes na antropologia urbana não é senão uma revitalização e retomada da raiz da própria antropologia. O que era um trobriandês em 1921?

O texto etnográfico, que sofreu os influxos do texto acadêmico, da monografia, das teses e dissertações, papers que circulam no universo acadêmico, sofreu ainda a influência do romance, esse gênero que surge contemporâneo do próprio surgimento das grandes cidades industriais da Europa. Quando surgem as primeiras etnografias, uma tradição já se formava. Os primeiros etnógrafos foram leitores de Dickens, Balzac e Zola.

Escrever requer uma arrumação, uma ordenação. Contém uma estrutura. É uma composição, como se chamava o texto escolar que nossos avós escreviam na aula de português, sempre premidos por um tema sugerido pelo professor. Escrever, descrever, comentar, interpretar, aludir, referir-se a, transcrever, citar, sintetizar.

Tudo isso orientado pela dupla tradição dos textos acadêmico e literário. Esse texto e esses modelos produzem atritos e tensões com os universos que emergem dos espaços desamparados e desassistidos das grandes metrópoles nos quais a criatividade, a invenção se orientam nos caminhos de surpresas que impõem aos modelos palatáveis na academia desafios complexos para os quais talvez estejamos desatentos na confortável admissão de que não fazemos literatura.

 

Conclusões

Essas observações breves (e que exigem um aprofundamento que só terá sentido no debate e no regime de trocas entre etnógrafos, no acatamento de visões diversas das que aqui estão sendo postuladas) arranham dimensões como tempo, movimento, dinâmica, sequência, sintagma. Remetem a uma tripla e inextricável atividade do etnógrafo, sua circulação no campo, sua observação do campo e sua versão do que aconteceu ali e seus significados.

Andar, ver e escrever, três fluxos que se encontram dinamicamente interrelacionados, a exercerem e sofrerem influências recíprocas.

O que se propõe aqui é uma possibilidade de pensar o nosso acervo de conhecimentos sobre o fazer etnográfico numa perspectiva integrada em que as dimensões aqui consideradas sejam percebidas e pensadas numa perspectiva integradora e não sequencial, que sejam vistas como fluxos.

A possibilidade aberta por tal perspectiva que se concentra nesse ato de fluir, nesse escoamento ou movimento contínuo de algo que segue um curso, que sugere alternância, transbordamentos, superabundância que extravasa os limites de cada série delimitada analiticamente, que impõe ao etnógrafo o que é excessivo na experiência e que se acumula de forma imponderável na sucessão dos acontecimentos.

Trata-se de rever a sequência dos episódios testemunhados e vividos pelo observador, decorrentes da sequência de seus deslocamentos e posicionamentos e que estão sendo fixados na sequência com que os narra em seu texto. As diferenças entre o fluxo observado e o fluxo do texto, interferências do redator sobre o observador.

O observador encontra-se em ação. Seu trabalho não é contemplativo, é interacional. Encontra-se em ação, está situado e se desloca. Interage, na ação e como interlocutor.

Quais são enfim as influências e as relações entre os três fluxos. Como fluem, como influem e mudam os cursos uns dos outros. É o regime dessas interinfluências que deve aceder à consciência do etnógrafo. Ora, influir é fazer fluir para dentro. Estar atento a essa economia de trocas entre essas dimensões do trabalho é ainda estar aberto às sugestões que essas atividades podem influir. Influir é inspirar e sugerir. Influir é fazer penetrar no ânimo. Influir é exercer influência em ou sobre. Estar aberto para as contribuições das próprias atividades.

Esses três grandes fluxos sofrem a ação, os efeitos, influência, enfim, os influxos uns dos outros. A consciência dessas disposições e dessas práticas permite que uma certa convergência se torne perceptível.

Todas essas considerações podem até ter alguma relevância para o leigo como maneira de evocar didaticamente algumas propriedades da vida social.Para o especialista, soarão redundantes e expletivas. É que elas não estão sendo aqui evocadas senão para salientar o quanto são esquecidas quando enfocamos o trabalho do etnógrafo. Casa de ferreiro, espeto de pau.

Essas considerações nos alertam para o quanto estamos precavidos para o registro das entropias do campo.

Uma etnografia só tem três fases na operação analítica que orienta a redação do projeto e do relatório final. A vivência do etnógrafo converte tais fases em atividades sincrônicas (andar, ver e escrever). O percurso no campo, sua observação e a descrição do contexto percorrido e observado são três fluxos que se misturam pela reciprocidade, interdependência e (inter) influências enquanto se tensionam pelas contradições e heterogeneidade das disposições e habilidades em jogo. Tudo isso compõe uma complexa ambiência, um contexto do qual deriva o estatuto do observador e as propriedades do universo observado. Cena de componentes tão inextricáveis impõe que a etnografia se torne o relato de um percurso. Dados e informações sobre a sociedade observada devem estar organizados no texto ao longo de uma espinha dorsal, o percurso do etnógrafo. Somente essa linha aglutinadora do material colhido poderá torná-lo legível. Trata-se de pensar a etnografia como o relato de uma experiência conflituosa de um observador, condição para o entendimento do que foi observado.

 

Referências

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Recebido em: 14/12/2008
Aprovado em: 05/04/2009

 

 

* Pesquisador Associado do LeMetro, Laboratório de Etnografia Metropolitana, IFCS/UFRJ, Brasil.
1 Dicionário Houaiss, verbete "situação" (Instituto Antônio Houaiss, 2001).
2 Dicionário Houaiss, verbete "situação": "localização de um corpo no espaço em relação a um ou vários pontos de referência fora dele; posição". (Instituto Antônio Houaiss, 2001).
3 Dicionário Houaiss, verbete "situação": "circunstância oportuna para a realização de algo; condição, ensejo, oportunidade." (Instituto Antônio Houaiss, 2001).
4 Aqui mais uma analogia com a situação existencial do neófito nos ritos de iniciação. Valeria a pena avançar sobre suas implicações?
5 Inclusive aqueles diálogos ocultos aos quais Tereza Pires do Rio Caldeira (1988) se referiu para ilustrar a tensão entre o observador e o escritor.
6 E por mais óbvias que soem.
7 Dicionário Houaiss, verbete "cadinho": "local ou instância em que algo (ou alguém) é testado, analisado, constituído ou depurado, submetido a provas ou condições extremas." (Instituto Antônio Houaiss, 2001).
8 Isto é, o que os outros pensam e dizem do etnógrafo.
9 Por exemplo, a frase interrompida (que muitas vezes encontramos em nosso diário de campo ou em um papel qualquer à mão quando nos ocorreu a observação que ela registra) indica claramente a tensão que existe entre observar e escrever. Estamos no campo permanentemente lutando contra o esquecimento. A anotação sobre a perna, o debruçar diário sobre a caderneta de campo, os expedientes mnemônicos aos quais recorremos como forma de assegurar a retenção do fluxo indicam dramaticamente que há uma outra tensão, além daquela flagrante entre observar e participar e, talvez, mais importante que esta. Trata-se da tensão entre observar e participar, e reter, memorizar e colocar no papel o que se observou e aquilo de que se participou.
10 É tentadora a comparação com o escultor. Essa matéria amorfa que sugere n possibilidades e sobre a qual o cinzel fará cortes definitivos, abandonando uma infinidade de possibilidades. Não calculamos, contudo, os riscos da comparação.
11 A tese de Haydée Caruso (2009) abre uma perspectiva interessantíssima para pensar a questão.
12 O que não impede, por razões que extrapolam o teor deste artigo, a ocorrência de formas artísticas híbridas como a ópera ou o cinema, ou mesmo as experiências multimídias contemporâneas.

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