SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.17 issue35A desnaturalização da menstruação: hormônios contraceptivos e tecnociênciaAntropologia no campo da saúde global author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.17 no.35 Porto Alegre Jan./June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832011000100008 

ARTIGOS

 

Biorrevelações: testes de ancestralidade genética em perspectiva antropológica comparada*

 

 

Verlan Valle Gaspar NetoI,**; Ricardo Ventura SantosII

IUniversidade Federal Fluminense - Brasil
IIFundação Oswaldo Cruz - Brasil

 

 


RESUMO

É cada vez maior o número de empresas que comercializam testes de ancestralidade genética a partir do DNA, sobretudo, na América do Norte. Tal fenômeno tem atraído a atenção das ciências sociais, em particular da antropologia. Neste artigo exploramos, enquanto um estudo de caso e a partir de uma perspectiva antropológica comparativa, os perfis de três empresas situadas em diferentes países: African Ancestry, nos EUA; Oxford Ancestors, na Inglaterra; Laboratório GENE, no Brasil. A partir da análise das suas respectivas páginas eletrônicas e de material divulgado na mídia, o intuito é tomar as duas primeiras como contraponto comparativo à última, de modo a avaliar o que as aproxima e distancia no tocante ao trato concedido ao potencial revelador de seus respectivos testes e, também, com que teor questões como pertença étnica/racial perpassam o merchandising de seus produtos e a sua postura pública. Em um plano mais amplo, argumenta-se que contextos sociopolíticos específicos influenciam as formas como os testes de ancestralidade genética são apresentados e justificados para seus respectivos públicos de consumidores. No caso específico da empresa brasileira, situá-la no panorama histórico-antropológico mais geral sobre "raça" e relações raciais, assim como nos debates correntes sobre o assunto, ajuda-nos a compreender como os testes de ancestralidade são justificados e apresentados à sociedade.

Palavras-chave: ancestralidade, genômica, identidades, mestiçagem.


ABSTRACT

There is a growing number of companies in different regions of the world, especially in North America, offering genetic ancestry tests based on DNA. This phenomenon has attracted attention in the social sciences, particularly anthropology. In this paper, we present a case study that explores, based on a comparative anthropological perspective, the profiles of three companies located in different countries that commercialize genetic ancestry tests: African Ancestry, in the United States; Oxford Ancestors, in England; and Laboratório GENE, in Brazil. Based on an analysis of their respective websites and materials released in the media, the objective is to use the first two as a counterpoint to the third in order to evaluate the similarities and differences in how they characterize the revelatory potential of their respective tests. We also explore the manner in which subjects such as ethnic/racial affiliation appear in the merchandising of their products and in their public postures. More broadly, it is emphasized that specific sociopolitical contexts influence the manners in which the genetic ancestry tests are presented and justified for their respective public consumers. In the specific case of the Brazilian company, it is argued that consideration of the broad historical and anthropological panorama of "race" and racial relations, as well as the current debates on the subject, helps us understand how ancestry tests are justified and presented to the public.

Keywords: admixture, ancestry, genomics, identities.


 

 

Introdução

If you don't know your heritage you can't fully know who you are. If you don't know who you are someone else will define you. If someone else defines you they tend to define you in terms that position themselves for power and you for subjugation. If you don't know your history you can't trace the trajectory of God's plan for your life and His plan for your family.1

O dia em que Kenneth Edward Copeland, um pastor de igreja norteamericano, recebeu os resultados de seu teste de ancestralidade genética asseverando sua estreita relação biológica com a Nigéria, foi exatamente o mesmo do nascimento de sua filha. Para ele, tratava-se não de uma mera coincidência, mas de um sinal divino que punha ele e sua família em uma espécie de conexão também espiritual com a África. A descoberta de sua ascendência iorubá, e a vinda ao mundo de sua filha significavam, conforme se depreende de seu depoimento na página eletrônica da empresa especializada na realização de testes de ancestralidade genética voltados para afro-americanos, African Ancestry, que a diáspora do povo africano estava garantida, inclusive como um plano de Deus. Essa (bio)revelação operou uma transformação tão profunda em sua vida que a criança recém-nascida foi imediatamente nomeada Abeni, o que, segundo Copeland, significa "nós oramos pela chegada dela", em iorubá. As genealogias tão bem explicitadas na Bíblia, assim como o elo biológico e espiritual com o continente do qual vieram seus antepassados, estavam reafirmadas através da "consagração" de sua filha.

Relatos com teor parelho a esse não são incomuns de serem encontrados nas páginas eletrônicas de empresas dedicadas à realização de testes de ancestralidade genética (ou genômica), principalmente nos Estados Unidos e na Europa.2 Claro, a exacerbação da dimensão espiritual aqui relatada se deve, em grande parte, ao fato de o autor do testemunho ser um pastor de igreja e, por isso mesmo (mas não só por isso), vivenciar a experiência de ter sua ascendência étnica biologicamente retratada como algo também espiritual.

O relato com o qual abrimos este ensaio é apenas uma amostra daquilo que vários pesquisadores têm identificado em suas abordagens acerca das implicações que os conhecimentos e as tecnologias geradas no âmbito da biologia e da medicina, incluindo-se os testes de ancestralidade genética, podem vir a ter sobre as vidas daqueles que se aventuram a se submeter a eles. De fato, o que alguns desses estudos têm demonstrado é que, em um cômputo geral, cada vez mais, à medida que a área biotecnológica se desenvolve e se alastra por todos os domínios nos quais a vida humana (e não humana) é posta em perspectiva, o movimento de "biologização" do mundo se espraia (Bolnick et al., 2007; Santos; Bortolini; Maio, 2010). Esse tipo de discussão, que já se encontrava presente nas obras de um Michel Foucault (1988) e de um Paul Rabinow (2002), com as noções de biopoder e biossociabilidade, respectivamente, vem ganhando contornos mais etnográficos nos últimos tempos (Comaroff; Comaroff, 2009; Gibbon; Novas, 2008; Koenig; Lee; Richardson, 2008; Lindee, 2010; Pálsson, 2007, 2010; Santos et al., 2009).

Dentro do escopo de possibilidades investigativas nas quais a interface entre a natureza e a cultura parecem se encontrar de forma nítida, com a consequente proliferação daquilo que Bruno Latour (2005) identificou como quase-sujeitos/quase-objetos, os testes de ancestralidade genômica vêm desempenhando um papel de destaque. O panorama com o qual nos defrontamos hoje, cotidianamente, é o que a apresenta como possuindo, de modo potencial e/ou efetivo, a resposta para muitas das inquirições, dilemas e infortúnios que nos são colocados. Empresas especializadas em testes de ancestralidade genética podem ser entendidas como um dos pontos críticos deste cenário. Na quase totalidade dos casos, essas empresas apresentam seus produtos como revelações que permitirão a um indivíduo, uma família ou mesmo uma comunidade descobrir o que, "de fato", e por que não, "de direito", eles são. Como bem assinala Lindee (2010, p. 7):

DNA has become an intimate experience and an actor in a network of kinship, identity, and meaning in industrialized and prosperous nations in which consumers can afford to purchase this kind of citizenship. The DNA experience is the central product of an industry that promises consumers various kinds of truth, generally for $79 to $399. The DNA mystique is what they are selling, along with "stunning" personalized ancestry maps.

Segundo Bolnick et al. (2007), a despeito de serem chamados de genética recreativa, ou de serem uma nova roupagem para o antigo hobby de se pesquisar árvores genealógicas a partir de critérios como o sobrenome familiar, os testes de ancestralidade genômica possuem poderosas implicações sociais. Quando alguém se submete a algum desses testes, no mais das vezes o faz orientado por questões que vão além da mera curiosidade, mesclando aspectos de ordem pessoal, política e/ou ideológica, além da dimensão de "mística do DNA" referida por Lindee (2010). Nesse sentido, ainda segundo esses autores, não seria demais acrescentar que a interpretação dos resultados de um teste de ancestralidade genética pode interferir em dimensões que vão do senso de identidade (seja em que amplitude for) ao sentimento familiar, da aceitação ou negação do conceito de "raça" ao racismo, de perspectivas espirituais a ideários políticos.

Além de "criar" pessoas e personalidades (Gibbon; Novas, 2008), ou núcleos familiares ancorados em uma pretensa ancestralidade comum (Lindee, 2010), os testes de ancestralidade podem gerar atrabiliárias discussões quando aplicados a contingentes populacionais mais amplos. Como mostra Pálsson (2007), por meio de relatos etnográficos e pesquisas junto à imprensa internacional, iniciativas empresariais de armazenamento, registro e escrutínio de materiais biológicos humanos, inclusive para fins de saúde pública e montagem de genealogias associados a temas como parentesco, nacionalidade e cidadania, sempre observados sob um viés genético, tornaram-se alvo de amplos debates públicos em contextos nacionais como Islândia, Inglaterra, Tonga, Canadá, Taiwan, Estônia e Suécia. Portanto, para além da esfera microscópica das relações interpessoais e de parentesco, o alcance do impacto desse tipo de teste pode ser muito maior na medida em que as análises de genealogia genética são vistas enquanto ferramentas capazes, concreta e simbolicamente, de corroborar ou contrapor medidas institucionais voltadas para o beneficiamento político, econômico e social de grupos sociais, quer sejam eles minoritários ou não (Bolnick et al., 2007).

A ideia de "raça" permanece lucrativa porque serve de atrativo para consumidores que se sentem pertencentes ou próximos a um dado perfil étnicoracial (Bolnick et al., 2007; Lindee, 2010). Empresas que defendem em suas respectivas páginas eletrônicas a inexistência de "raças" enquanto entidades biológicas são as mesmas a oferecer testes de ancestralidade genética para grupos etnicamente delineados, no mais das vezes de modo sub-reptício.

Nas páginas que se seguem nós exploramos, enquanto um estudo de caso e a partir de uma perspectiva antropológica comparativa, os perfis de três empresas situadas em diferentes países, que comercializam testes de ancestralidade genética: African Ancestry, nos EUA; Oxford Ancestors, na Inglaterra; Laboratório GENE, no Brasil. O intuito é tomar as duas primeiras como contraponto comparativo à última, a fim de avaliar o que as aproxima e distancia no tocante ao trato concedido ao potencial revelador de seus respectivos testes e, também, com que teor questões como pertença étnica/racial perpassam o merchandising de seus produtos e a sua postura pública. Em um plano mais amplo, será argumentado que contextos sociopolíticos específicos influenciam as formas como os testes de ancestralidade genética são apresentados e justificados para seus respectivos públicos de consumidores. No caso específico da empresa brasileira, situá-la no panorama histórico-antropológico mais amplo sobre "raça" e relações raciais, assim como nos debates correntes, ajuda-nos a compreender como os testes de ancestralidade são justificados e apresentados à sociedade.

Passemos, pois, aos dados propriamente ditos. Em um primeiro momento apontaremos as informações concernentes às duas empresas internacionais para, em seguida, expor aquelas referentes ao caso brasileiro e que ilustram a discussão aqui levantada.3

 

De Adão e Eva a clãs genômicos ancestrais

Quando um visitante acessa a página eletrônica da empresa norte-americana especializada em testes de ancestralidade genética4 voltados para afroamericanos, African Ancestry, a primeira coisa com a qual ele se depara é um conjunto de slides com a seguinte mensagem (ver Figura 1):

Learn why African Ancestry is the answer. Do you know where are you from? Not the city where you were born, but the place where your ancestry began more than 500 years ago. Finally with African Ancestry you can uncover the roots of your family tree, trace you DNA, find your roots. Do you know? African Ancestry is the only company that can trace your ancestry back to an African country of origin.5

 

 

Com um banco de dados derivado de milhares de amostras de DNA coletadas junto a nativos africanos, correspondentes a 30 países e a mais de 200 grupos étnicos, a empresa, liderada pela economista Gina Paige (presidente) e pelo geneticista Rick Kittles (diretor científico), atesta ser a única do gênero capaz de traçar a ancestralidade genética de um indivíduo de modo a descobrir de que país e grupo étnico, especificamente, ele descende. O intuito é, conforme aparece em vários momentos na página eletrônica, proporcionar aos clientes uma vasta gama de experiências que lhes permitirão descobrir quem eles realmente são, incitando-lhes a uma reorientação das perspectivas culturais, psicológicas, físicas e emocionais que eles têm sobre si mesmos e sobre o continente de onde vieram seus antepassados.

Mas ao querer comungar dessas benesses, é importante que o cliente note que um teste de ancestralidade genética é, na verdade, um projeto de família, pois, na medida em que os resultados de uma pessoa podem ser estendidos aos de outrem que partilhem um mesmo grupo ancestral, uma rede de conexões é estabelecida entre os que se submetem aos testes e entre estes e seus respectivos países e grupos originários. Essa viagem de volta ao lar primordial através da (bio)revelação dos segredos escondidos no DNA mitocondrial e no cromossomo Y6 serviria também a um propósito histórico e cultural - ajudar a sanar lacunas, no sentido de um recuperação histórica e identitária, causadas pelo sistema escravocrata norte-americano.7

A dádiva, naturalmente, envolve um conjunto de objetos que, sem dúvida, poderiam vir a formar um relicário. Eles simbolizam material e externamente aquilo que se encontra inscrito nos pontos mais recônditos dos corpos. O pacote de resultados enviado por correspondência pela African Ancestry engloba uma carta na qual consta a revelação da ancestralidade; a sequência de DNA analisado de forma impressa; um certificado (ou diploma) de ancestralidade; um mapa da África, colorido; um guia de referência sobre os países africanos; e o acesso à comunidade on-line da empresa (Figuras 2 e 3).

 

 

 

 

Ao menos nos relatos aos quais se tem acesso, o apelo parece funcionar. Testemunhos de anônimos e celebridades revelam que, tal qual apontado por Lindee (2010), o mundo daqueles para os quais os segredos genéticos foram revelados passa a se caracterizar por um apanhado de transformações repletas de logro e alegria. Sendo assim, enquanto um morador da Filadélfia afirma que os testes abriram-lhe uma perspectiva futura melhor, uma atriz, Kimberly Elise, atesta que passou a se sentir mais fortalecida porque descobriu ser descendente dos songhai, uma tribo africana de artesãos e guerreiros reais. Ela se sente feliz por saber que, sendo uma songhai, poderá transmitir (geneticamente, provavelmente) aos filhos os dons artísticos e a realeza que ela mesma herdou de sua tribo. Já outra mulher, possivelmente uma professora, ao descobrir que sua ascendência materna é 100% africana, relacionada à tribo fulani, na Nigéria, coloca que sua vida foi modificada radicalmente. Tanto que ela mandou fazer cópias de seu diploma genético para distribuir entre os parentes e amigos e passou a andar com cópias dos mesmos em sua bolsa todos os dias.

É interessante notar aqui que a ênfase concedida à existência de grupos étnico-raciais identificáveis geneticamente permite aos interessados em se submeter aos testes da African Ancestry romper com a categoria de afro-americano. Uma pancategoria que, embora localize seus indivíduos em pelo menos dois grandes grupos de referência, americanos porque nascidos nos Estados Unidos, e africanos porque descendentes dos escravos trazidos da África, dilui suas especificidades. O projeto da empresa não é apenas o de formar uma família, mas antes, um conglomerado de mais de 200 pequenas famílias tribais que devem ser assumidas enquanto tais de modo a permitir que seus filhos pródigos d'além-mar retornem, espiritual, e muitas vezes fisicamente, a elas. Uma parte substancial do incentivo a isso está no "Muro do retorno", parte da página eletrônica na qual aparecem inscritos os nomes de clientes famosos como Oprah Winfrey e Morgan Freeman, cujas ancestralidades genéticas remontam, respectivamente, à Libéria e à Nigéria. Poderíamos dizer que temos aqui, de certa maneira, um duplo movimento de desterritorialização e reterritorialização (Deleuze; Guattari, 1996), conforme observamos no relato de Cedrick White, a seguir:

My maternal ancestry matched 98.9% of the Yoruba of Nigeria... and my paternal ancestry matched 100% with the Akan of Ghana... I have yet to celebrate, confirmation upon confirmation!!!!!!!!!!!!!!!!! Ooooooooooooo....... weeeeeeeeeeee!!!!! From childhood to adulthood, my fate has only whispered truth upon truth, and, yes indeed I have the scientific proof to attest for it!!!! (Nigerian-Ghanaian American, no longer just a generic African-American!!!).8

O deslumbramento diante das revelações obtidas mediante a consulta a um teste de ancestralidade genética não é uma exclusividade daqueles que procuram os serviços da African Ancestry. Conforme havíamos assinalado no início deste ensaio, testemunhos similares também são encontrados na outra empresa aqui considerada, Oxford Ancestors, bem como em algumas outras já retratadas em estudos previamente referenciados.9

A Oxford Ancestors, situada na Inglaterra, foi uma das primeiras empresas a oferecer testes de ancestralidade genética no mundo. Segundo relato disponível em sua página eletrônica, o empreendimento surgiu após a crescente visibilidade pública e acadêmica dos trabalhos de seu fundador e responsável, na Universidade de Oxford, o geneticista Bryan Sykes, o qual se tornou uma referência mundial em análises de DNA mitocondrial, cromossomo Y e, principalmente, na extração de material genético proveniente de fósseis. Quando, em 2001, ele lançou seu mais famoso livro, resultado de seus estudos genéticos, The seven daughters of Eve (Sykes, 2001), a demanda por testes de ancestralidade genética referentes a grupos ancestrais europeus cresceu exponencialmente.

Embora menos contundente do que a African Ancestry, inclusive iconograficamente, a Oxford Ancestors apresenta igualmente como "missão" permitir que seus usuários possam (re)descobrir suas origens a partir de seu próprio material genético. Versando para potenciais clientes, Bryan Sykes, na mensagem inicial da página eletrônica, convida as pessoas a darem um voto de confiança às credenciais do grupo liderado por ele, haja vista que os produtos oferecidos pela empresa têm sua origem em pesquisas desenvolvidas em um âmbito acadêmico (universitário) de grande prestígio internacional, qual seja, a Universidade de Oxford (ver Figura 4).

 

 

Segundo a empresa, na parte dedicada às perguntas e respostas mais frequentes, os testes de ancestralidade genética oferecidos em sua cartela de produtos não podem identificar o fundo étnico-racial de uma pessoa porque não há qualquer base genética que corrobore a existência de "raças". Essa é uma colocação interessante porque a "raça", ou o caráter étnico, explicitamente negados, parecem ser fazer presentes, ainda que implicitamente, sob a alcunha de clãs ancestrais geneticamente diferenciados e identificáveis. Sob esse prisma, a Oxford Ancestors atesta a existência de 36 clãs maternos e 18 clãs paternos ancestrais ao redor do mundo. Desse contingente, seus testes seriam capazes de identificar para o continente europeu um total de 12 clãs ancestrais e nativos, sete matrilineares e cinco patrilineares.

Esses clãs nativos e ancestrais, maternos e paternos, por seu turno, estão relacionados a um "casal" primordial alegoricamente identificado como "Eva Mitocondrial" e "Adão do Cromossomo Y", respectivamente.10 Mas não é em direção a eles, os ancestrais de toda a humanidade sobre a terra, que os clientes da Oxford Ancestors trilharão seu caminho de volta "ao lar". A especialidade da empresa é oferecer aos seus clientes a oportunidade de chegar a pontos espaçotemporais menos distantes, porque, tal qual no caso da African Ancestry, o que temos aqui não é apenas "um lar", mas, antes, um conjunto de "lares específicos" que permite possibilidades de identificação particularizadas no seio de uma categoria maior - europeu.

A página eletrônica oferece informações e identificações apenas para os clãs de linha materna, denominados "As Sete Filhas de Eva". Apresentados em uma perspectiva temporal, que parte do mais antigo para o mais recente, para cada um deles são encontradas informações que mesclam localização geográfica presente e pretérita (origem e dispersão) e índices percentuais de representatividade genética dentro da população europeia atual e, em alguns casos, mesmo em outros continentes. Desse modo, é bem possível que um cliente europeu da Oxford Ancestors, uma vez submetido a um teste de ancestralidade genética, descubra ser proveniente de Úrsula ("pequena ursa", em latim), Xênia ("hospitaleira", em grego), Helena ("luz", em grego), Velda ("governante", em escandinavo), Tara ("montanha pedregosa", em gaélico), Katrine ("pura", em grego) ou Jasmine ("flor", em persa). O clã de Xênia, por exemplo, o segundo mais antigo, remete há 25 mil anos e computa 7% dos nativos europeus em três ramos assim distribuídos: Europa Oriental, Europa Ocidental e Centro do continente europeu. A estimativa da Oxford Ancestors é de que 1% dos nativos americanos provenha desse clã.

Conforme assinalamos no parágrafo anterior, a empresa não disponibiliza, ao menos publicamente, informações e nem identificações específicas para os supostos cinco clãs masculinos provenientes do Adão do Cromossomo Y. Há regiões da página eletrônica da empresa que só podem ser acessadas por clientes cadastrados e, muito provavelmente ali, bem como nos certificados expedidos, encontrem-se tais informações. Em todo caso, a empresa menciona como diferencial de seus testes de ancestralidade paterna a possibilidade de complementação entre informações genéticas e modalidades genealógicas mais tradicionais, como aquela na qual as ascendências são traçadas a partir do sobrenome paterno. Essa junção, aliás, aparece como uma das especialidades de Sykes.

As (bio)revelações proporcionadas pela Oxford Ancestors também causam impactos e permitem a criação de redes de biossociabilidade (Rabinow, 2002) acompanhadas de movimentos de desterritorialização e reterritorialização (Deleuze; Guattari, 1996) reais e virtuais pautadas no sentimento de pertença a uma determinada tribo ancestral.11 Vejamos alguns testemunhos ilustrativos,12 cujos autores só estão originalmente identificados por iniciais e país de origem:

Through the MatriLine database I contacted one of your customers. Through searching both our lines it turns out we are 4th cousins once removed. Without having our DNA done we would not have found each other, so again thanks. (JG, Escócia).

Thank you for sending me the results of my Tribes of Britain Ancestry test. I must say that I am now feeling very 'Nordic' and have taken to eating more fish and longing for the open seas. This is really a most fascinating project and many of my friends and relatives are intending to find out if they too are a Viking. (GG, Inglaterra).

When I received my DNA results from Oxford Ancestors telling me that through my mother I am of the clan of Ursula I almost cried. Your service is incredible and I am really grateful for what you do. (FO, EUA).

Na próxima seção nós veremos como, para o caso brasileiro, ainda que os testes sejam concebidos, mesmo indiretamente, como revelações, o foco não está na busca por grupos ancestrais específicos, geneticamente distinguíveis e localizados, ou mais especificamente, tipos puros, mas, antes, na mistura.

 

Que preto, que branco, que índio o quê?

A imagem pública do Laboratório GENE - Núcleo de Genética Médica, é estreitamente vinculada à figura de seu fundador e presidente, o médico geneticista Sérgio Danilo Pena, também professor titular de bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Entre outros procedimentos, o laboratório realiza testes diagnósticos de doenças de fundo genético, consultas de genética clínica, exames laboratoriais de citogenética e testes de paternidade. Oferece também testes de ancestralidade, incluindo ancestralidade materna (DNA mitocondrial), paterna (cromossomo Y) e autossômica (intitulado, pela empresa, como teste de ancestralidade genômica). É a única companhia no Brasil que oferece esta última modalidade de teste para o público geral.

De modo diferente ao que ocorre com as duas empresas descritas anteriormente, voltadas exclusivamente para os testes de ancestralidade, a página eletrônica do GENE, de um modo explícito, trabalha apenas com um pequeno marketing voltado para os testes dessa natureza. Há uma ênfase na dimensão qualitativa e pioneira de sua atuação enquanto uma empresa dotada de produtos cientificamente certificados e confiáveis para fins de análises no campo da genética clínica, análises laboratoriais e testes de paternidade.

Essa quase ausência de referências diretas aos testes de ancestralidade genética na página do Laboratório GENE, com exceção das informações técnicas, não significa que haja pouca ênfase no tema. Nas porções denominadas "TV GENE" e "GENE na Imprensa", o visitante se depara com um conjunto de links associados a matérias jornalísticas dedicadas à cobertura das pesquisas e serviços realizados pelo laboratório. Nelas, há entrevistas e colunas assinadas por Sérgio Pena (sobretudo em Ciência Hoje Online, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC), nas quais o geneticista expõe seus pontos de vista sobre variados assuntos relacionados não só à biologia, mas também, à antropologia, à história e à filosofia.13

É importante considerar aqui que Pena é responsável por influentes estudos relacionados à ancestralidade da população brasileira (Alves-Silva et al., 2000; Bastos-Rodrigues et al., 2006; Carvalho-Silva et al., 2001; Parra et al., 2003; Pena et al., 2009, 2011). Dentre eles, destaca-se Retrato molecular do Brasil (Pena et al., 2000), cujos resultados e teor propositivo ganharam notoriedade pública justamente no momento em que o Brasil discutia seus últimos 500 anos de história. Nesse trabalho, Pena e colaboradores articulam seus achados com as interpretações de alguns autores clássicos da antropologia, sociologia e história no Brasil, como Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, de modo a colocar a pesquisa genética como também potencialmente geradora de uma "interpretação do Brasil" (Santos; Maio, 2005).

Na última década, Sérgio Pena se tornou um geneticista de grande visibilidade pública no Brasil, com marcante envolvimento nos debates sobre "raça" e relações raciais. Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 2 de agosto de 2006, escreveu: "Certamente, a humanidade do futuro não acreditará em raças mais do que acreditamos hoje em bruxaria." (Pena, 2006). Para ele, só há uma possibilidade classificatória, em termos biológicos, para a humanidade: a individualidade, já que a espécie humana seria composta por mais de seis bilhões de indivíduos geneticamente diferenciados (Pena, 2008). Sob tal perspectiva, a população brasileira ganha lugar de destaque porque seu perfil genético é visto como um dos mais misturados do mundo, com contribuições de origem europeia, africana e ameríndia pouco vistas em escala semelhante em outras partes do mundo.

Segundo consta na página eletrônica do GENE, os exames oferecidos apresentam alguns diferenciais com relação àqueles disponibilizados por algumas empresas no exterior: são oferecidos testes de ancestralidade genômica autossômica (para a identificação do grau de mistura gênica), além dos de patrilinhagem e matrilinhagem, e, o mais importante, eles partem de metodologias científicas desenvolvidas no país: "Assim, o Laboratório GENE usa métodos desenvolvidos no Brasil, por brasileiros, maximizando a eficiência na análise da ancestralidade genética dos brasileiros".14

E o que significa a disponibilidade de uma bateria de testes voltados para o perfil genético dos brasileiros? Parece-nos que, diferentemente daquilo que encontramos nas propostas da Oxford Ancestors e da African Ancestry, o foco do Laboratório GENE está mais na mistura genética. E por que isso? Porque a realização de um teste de ancestralidade genética desse laboratório envolve entrar em contato com uma revelação que questiona a crença na ideia de pureza racial baseada tanto em atributos fenotípicos quanto em genealogias, tal qual demonstrado nas pesquisas de média e larga escala junto a indivíduos de diferentes perfis cromáticos e oriundos de diferentes partes do país (Parra et al. 2003).

Há ainda outro ponto a ser destacado. Mesmo que os testes de ancestralidade paterna, materna e genômica possam ser adquiridos separadamente, as instruções presentes na página eletrônica da empresa sugerem aos interessados em descobrir suas origens genéticas que se submetam aos três testes conjuntamente, de modo a obter informações complementares. É que as análises do DNA mitocondrial e do cromossomo Y revelam apenas o ancestral máximo, em cada linhagem, do indivíduo, para um dado grupo continental: europeu, africano ou ameríndio. Elas não revelam o mais importante a ser descoberto, que, segundo se lê, é o índice quantitativo de mistura gênica. Esse índice só pode ser obtido mediante a submissão ao teste de ancestralidade genômica, porque este envolve material genético recombinante. Logo, os testes de ancestralidade genômica, que não são oferecidos em nenhum dos dois casos anteriormente aqui trabalhados, demonstram o quanto somos misturados aqui no Brasil. Esta mistura, aliás, permitir-nos-ia ser identificados por um epíteto particular, conforme se depreende da entrevista concedida por Pena à jornalista Ana Lúcia Azevedo (2002) no jornal O Globo, em 11 de agosto de 2002: "O Brasil teve um processo de mistura genética inusitado na História, gerando o brasileiro atual, que decidimos chamar, irreverentemente, de Homo brasilis."15

Atentas às repercussões dos trabalhos de Pena, e interessadas em levar para o grande público suas descobertas feitas no âmbito acadêmico, empresas do ramo da notícia e do entretenimento requisitaram, em alguns momentos, os testes desenvolvidos no Laboratório GENE. Uma das iniciativas que ganhou particular visibilidade foi aquela organizada pela BBC Brasil em 2007. Intitulado "Raízes Afro-Brasileiras", o projeto era uma reprodução, in loco, de uma iniciativa similar levada a cabo nos EUA, e que envolveu personalidades "afro-americanas". Na versão brasileira, esperava-se descobrir o percentual de contribuição africana na composição genética de nove personalidades negras: Milton Nascimento, Djavan, Seu Jorge, Neguinho da Beija-Flor, Sandra de Sá, Daiane dos Santos, Obina, Ilde Silva e Frei David. O intuito do projeto, segundo sua coordenadora, Silvia Salek, em entrevista ao Jornal da Ciência, em 19 de maio de 2007, era fomentar entre os brasileiros, a partir do exemplo dado pelas celebridades, o desejo de descobrir mais a fundo as contribuições culturais e genéticas recebidas dos africanos (BBC Brasil..., 2007).16

Se havia alguma expectativa, por parte dos idealizadores do projeto, de que os testes seriam capazes de "comprovar" aquilo que se via nas peles de seus convidados e que estes incorporariam os resultados como uma prova de sua condição afrodescendente mais ou menos puro, esta foi alcançada apenas parcialmente. Se por um lado boa parte dos nove convidados viu nos resultados de seus respectivos testes uma (bio)revelação que confirmava ou não aquilo que eles pensavam ser, por outro as interpretações dessas revelações apresentaram algumas dissonâncias.

Insatisfações e tensões geradas pelos resultados não fazem parte do escopo de testemunhos elencados nas páginas eletrônicas das empresas de testes de ancestralidade genética (Lindee, 2010), mas podem ser apreciadas em outros canais de discussão, conforme perceberam Santos, Bortolini e Maio (2010). Em todo o caso, o princípio do resultado de um teste de ancestralidade genética enquanto agente produtor, redefinidor ou mesmo desafiador de identidades pode ser apreciado nos comentários que os participantes do projeto da BBC Brasil fizeram a respeito de seus testes, alguns deles reproduzidos aqui, os quais expressam encantamento, surpresa, desconfiança, desdém ou mesmo raiva.

Daiane dos Santos foi a primeira a ter seu resultado divulgado. Por conta dos percentuais obtidos (39,7% africana, 40,8% europeia, 19,6% ameríndia), a ginasta foi assinalada pela jornalista Carolina Glycerio (2007b), em matéria da própria BBC Brasil, publicada em 28 de maio de 2007, como o protótipo da brasileira, por ser portadora de um perfil genético "bem equilibrado". Para a própria ginasta, em entrevista na mesma matéria, o teste confirmava algumas de suas suspeitas e também revelava uma novidade - o alto percentual de genes europeus: "A parte da família da minha mãe é muito estranha. Tem primo loiro, índio, ruivo, negro. É tudo misturado. É igual ao Brasil, ninguém é puro de nenhum lugar, é uma mistura de raças. [...] Essa parte européia foi a maior surpresa para mim." A despeito do resultado, ainda assim ela se encarava como uma afrodescendente, dada a cor de sua pele: "Acho que pela cor da pele. O importante é que todos somos brasileiros."

Já a atriz e modelo Ilde Silva viu nos resultados de seu teste (71,3% europeia, 19,5% africana, 9,3% ameríndia) a confirmação daquilo que ela há muito experimentava em sua vida: um sentimento de indefinição, dada tanta mistura em sua própria família, e a própria postura da sociedade brasileira, pautada por inúmeros matizes classificatórios, conforme se depreende de sua entrevista à Carolina Glycerio (2007c), na BBC Brasil, em 29 de maio de 2007:

Até eu não sei como me definir. Me considero negra, mulata. Branca, não. [...] Sabia que tinha um lado holandês, mas é muita mistura. Meu pai é negro, com olho cor de mel. Minha mãe é mais clara [...] Já tive problema com isso [mistura]. As pessoas nunca conseguiram me considerar negra. Ao mesmo tempo, tem muito trabalho que eu não faço porque sou negra.

Para o músico, compositor e cantor Djavan, os testes revelavam muito mais do que sua constituição mais ou menos misturada. Eles revelavam o que havia de mais profundo em sua alma, tão identificada com o continente africano. No caso de Djavan (65% africano, 30,1% europeu, 4,9% ameríndio), destaca-se a forma como ele tomou sua composição genética como razão última de seus atributos particulares, como a musicalidade e a habilidade de falar espanhol sem nunca ter estudado a língua. O trecho a seguir, extraído de uma entrevista concedida pelo cantor à Carolina Glycerio (2007d), da BBC Brasil, em 30 de maio de 2007, é bastante ilustrativo:

Eu sou uma pessoa do mundo, mas me sinto indubitavelmente negro em tudo. A minha música é negra, eu sou um homem negro e adoro as religiões que descendem da África. [...] Na primeira vez que eu fui à África, em 81, tomei o maior susto, quando eu pude identificar ali a raiz da minha música, porque eu tenho uma música que no início da minha carreira era muito contestada por muita gente. Diziam que era uma coisa estranha, que não tinha nem pé nem cabeça, que a minha divisão rítmica era uma coisa estranha e tal. [...] Cheguei em Angola e pude ver nitidamente onde estava a raiz disso tudo. [...] Na primeira vez que eu tive em Sevilha, fiquei chocado com a identificação. O cheiro da cidade me transportou para uma sensação que eu nunca tinha sentido. É como se eu já tivesse vivido naquele lugar por vários e vários anos na minha vida e estivesse voltando. [...] Quando eu viajo, dou entrevista em espanhol.

Entre os desapontados figuram o cantor e compositor Seu Jorge e o religioso e ativista da causa negra no país, Frei David.17 Seu Jorge (85,1% africano, 12,9% europeu, 2% ameríndio), por exemplo, atribuiu duas razões para o seu desalento. Gostaria de ser "100% negro" e, em sua ótica, a presença europeia em seus genes era a prova material da barbárie que os brancos infligiram historicamente sobre os negros, conforme se lê em entrevista concedida à Carolina Glycerio (2007e), da BBC Brasil, em 30 de maio de 2007:

Tinha muita esperança de ser 100% negro. Se fosse, eu ia pedir uma indenização muito pesada nesse país, mas sou filho dos culpados também. [...] Miscigenação era barbárie. Não tinha isso de história de amor, era barbárie. Fico feliz em saber que parte da minha galera resistiu e compõe 85% dos meus genes. [...] Tem que ser negro para saber o que é você entrar em um ônibus, como uma pessoal normal, e ver os passageiros saltando antes do ponto, escondendo relógio, ligandopara a viatura. É uma agressão muito forte. É violento.

Mas a maior polêmica ficou a cargo de Frei David (68,2% africano, 30,8% europeu, 1,0% ameríndio), que viu nos resultados não só uma frustração, pois para ele o objetivo principal era o aprofundamento do conhecimento sobre as raízes africanas dos envolvidos, mas também uma manipulação, por parte de Sérgio Pena, de modo a enfraquecer a bandeira levantada pelo movimento negro no país. Na entrevista dada à Carolina Glycerio (2007f), em 31 de maio de 2007, ele afirmou:

Eu me sinto muito frustrado com o trabalho, uma vez que o cerne do projeto era aprofundar a origem africana. [...] Não aceito que a ciência não tenha instrumental técnico para aprofundar a herança africana considerando que ali foi e é o berço da civilização. Ele [Sérgio Pena] simplesmente boicotou de maneira consciente o resultado. [...] Nunca vi nenhuma batida policial em ônibus, por exemplo, que antes de discriminar perguntasse à pessoa quantos por cento de genes afro ela teria. A discriminação e o discriminador, que tantos estragos trazem ao tecido social brasileiro, não vêem na genética os argumentos para parar de discriminar. No entanto querem que o discriminado pare de lutar por seus direitos porque "todos temos genes afro".

Sérgio Pena, evidentemente, negou ter conferido um tratamento diferenciado aos testes de Frei David, e se colocou à disposição do líder religioso para esclarecer quaisquer dúvidas sobre os resultados. Além disso, a despeito de os participantes se sentirem mais ou menos negros, e de verem revelados em seus testes características inatas provenientes dos grupos ancestrais continentais, ou mesmo de não terem apreciado sua condição miscigenada, para Pena o mais importante a ser ressaltado a partir da iniciativa era que havia um aspecto de particular abrangência a ser levado em conta. Talvez com exceção de Milton Nascimento, os perfis genômicos dos participantes refletiam o que seus estudos acadêmicos vinham apontando ao longo dos anos, inclusive os mais recentes, para a realidade brasileira: a cor da pele é um pobre indicador de ancestralidade biológica.18 "É incrível, mas os resultados que obtivemos nas nove pessoas estudadas são um microcosmo dos resultados de nosso estudo com indivíduos autoclassificados como pretos em São Paulo", asseverava ele em entrevista a Reinaldo Lopes (2007), na página eletrônica G1, em 29 de maio de 2007. Afinal, ainda segundo ele em entrevista à Carolina Glycerio (2007a), em 28 de maio daquele mesmo ano, "tirando os imigrantes de primeira e de segunda geração, é praticamente impossível que um brasileiro não carregue um pouco de ancestralidade africana ou ameríndia".

Essa ênfase no caráter mestiço da população brasileira se encontra claramente exposta no modelo de certificado que sua empresa disponibiliza para aqueles que compram seus testes de ancestralidade (Figura 5). Além de ter os haplogrupos referentes à sua ancestralidade materna e paterna identificados, inclusive geograficamente, o clientes do Laboratório GENE ainda podem visualizar seu "posicionamento genômico" no interior de um triângulo cujos vértices simbolizam os três grandes grupos continentais responsáveis pela conformação genética brasileira - ameríndios, africanos e europeus, o que, de certa forma, remete-nos à clássica discussão de DaMatta (1984) sobre a realidade social brasileira.

 

 

Vale destacar que essa mesma ênfase na mistura tem levado Sérgio Pena a se colocar publicamente de forma contrária à adoção do ingresso por reserva de vagas por critérios étnico-raciais no Brasil, principalmente no caso das universidades públicas. Ao percorrermos as matérias jornalísticas disponibilizadas na página eletrônica do Laboratório GENE, vemos que não são poucas as vezes nas quais ele critica, de algum modo, esse modelo de política afirmativa, vista por ele como um mecanismo de perpetuação da crença na ideia de "raça" e, por conseguinte, do racismo. Veja-se, por exemplo, sua fala em matéria do jornal O Estado de S. Paulo, de 13 de janeiro de 2002: "O racismo é perverso e condenável, mas acredito que a reserva de cotas em escolas e empregos para os negros ou afrodescendentes, mesmo sendo aceitável, justificável e talvez mesmo desejável, não deixa de ser racista, já que discrimina os não negros." (Branco..., 2002).

Inquirido pelo jornalista Marcelo Leite (2002), em reportagem da Folha de S. Paulo de 17 de dezembro de 2002, sobre a possibilidade de aplicação dos testes de ancestralidade genômica oferecidos por seu laboratório em políticas afirmativas, Pena foi enfático em sua negativa: "Não temos nenhuma intenção de que esse índice seja usado para avaliação individual. Seria um novo racismo." Da mesma forma, ele criticou a implantação do sistema de cotas da Universidade de Brasília, como se depreende de sua fala em matéria de Betina Bernardes, publicada na edição de maio de 2004 da revista Primeira Leitura, e também em artigo de sua autoria, publicado no Jornal da FUNDEP (UFMG) em junho de 2005, cujos trechos, respectivamente, reproduzimos aqui:19

O mais ridículo dessa história é que lembra aqueles filmes das décadas de 30 e 40, em que nazistas mediam pessoas para saber se era judeu ou não. Há um ranço daquela eugenia, daquela antropologia muito racial, que havia no começo do século passado. [...] Raças não existem cientificamente. Raças são uma construção social, cultural. Quem tem que arcar com essa decisão não é a ciência, é a sociedade e a cultura. O meu ideal, pessoalmente, seria uma sociedade não racializada. Obviamente, numa sociedade não racializada, não se pode ter cotas raciais. [...] Nosso artigo descreve a população brasileira. Qualquer decisão deve levar isso em conta. (Bernardes, 2004).

Na década de 1960, Stanislaw Ponte Preta criou a sigla "Febeapá" para designar o "Festival de Besteira que Assola o País". Como a CPMF,20 o Febeapá veio para ficar e continua assolando após estes 40 anos de existência. Recentemente, a Universidade de Brasília (UnB) deu uma notável contribuição a ele quando montou uma comissão para homologar a "identidade racial" dos candidatos ao vestibular pela análise de fotografias. (Pena, 2005).

Como síntese dessa parte da discussão, se nós pudéssemos atribuir um único título ao conjunto de colocações e proposições de Sérgio Pena sobre a população brasileira, aliadas às informações disponíveis na página eletrônica de sua empresa, com sua ênfase na mistura genética, este poderia ser sem dúvidas o título de uma canção do poeta, músico e cantor Arnaldo Antunes (1996), Inclassificáveis. Com uma estrutura próxima à estética concretista, essa canção apresenta em seus versos, assim como os testes de ancestralidade do Laboratório GENE, a sociedade brasileira enquanto composta por pessoas racialmente "inclassificáveis":

Que preto, que branco, que índio o quê? / Que branco, que índio, que preto o quê? / Que índio, que preto, que branco o quê? / Que preto branco índio o quê?/ Branco índio preto o quê? / Índio preto branco o quê? / Aqui somos mestiços mulatos / Cafuzos pardos mamelucos sararás / Crilouros guaranisseis e judárabes / Orientupis orientupis / Ameriquítalos luso nipo caboclos / Orientupis orientupis / Iberibárbaros indo ciganagôs / Somos o que somos / Inclassificáveis.

Trata-se, sem dúvidas, de uma interessante proximidade entre as perspectivas de Pena e Antunes sobre a composição étnico-racial (e cultural) dos brasileiros, onde ciência e arte concebem a população como, de fato, fenotípica e genotipicamente inclassificável, exceto senão pela alcunha de miscigenada.

 

Conclusão - o DNA, esse deus fe(i)tiche

Sugerimos neste ensaio que, nos três casos considerados, os testes de ancestralidade genética são vistos e apresentados como veículos de (bio)revelação, através dos quais, potencialmente, transformações de si podem vir a ser operadas. O que a genética procura mostrar através desses testes é que, se, por um lado, cada exemplar do Homo sapiens sobre a terra é possuidor de um genoma só seu, por outro, esse mesmo genoma também apresenta relações com os de outras pessoas, no passado e no presente. As similitudes e diferenças genéticas, no que toca à ancestralidade, funcionam como indicadores de aproximação e distanciamento, inserindo as pessoas em uma cartografia que ao mesmo tempo desafia e redefine os limites do tempo e do espaço.

Mas se o resultado de um teste é uma (bio)revelação em si mesmo, a natureza da revelação muda de empresa para empresa, o que nos parece refletir os contextos históricos, sociais e políticos nos quais se inserem cada uma delas, nos respectivos âmbitos nacionais. E é aqui que as principais diferenças entre os três casos aparecem. African Ancestry e Oxford Ancestors disponibilizam testes que, segundo elas, permitem aos interessados descobrir a que grupo étnico específico, dentro da África e da Europa, respectivamente, eles pertencem ou descendem, tanto por matrilinhagem quanto por patrilinhagem. Já o Laboratório GENE, ao mesmo tempo em que disponibiliza análises de matrilinhagens e patrilinhagens genéticas, oferece testes de análise da composição de DNA autossômico, com foco na contribuição dos três grandes grupos continentais tidos como formadores da população brasileira: africanos, europeus e ameríndios. Nos dois primeiros casos a ênfase recai sobre a existência de grupos étnicos específicos que, de alguma sorte, atualizam-se ao longo do tempo e do espaço, marcados muito mais pela permanência do que pela dissolução de suas características biológicas (e até mesmo não biológicas) essenciais. No caso do laboratório brasileiro, embora o ponto de partida sejam três grandes grupos populacionais claramente definidos, o que é enfatizado é a diluição das características de cada um deles em uma composição biológica que é algo além da soma das partes constituintes. A ênfase no tema da mistura é um ponto de destaque no mapa genético oferecido pelo GENE para seus clientes.21

Nos casos aqui considerados, há de se estar preparado para enfrentar as (bio)revelações oriundas do DNA, esse deus fe(i)tiche (Latour, 2002) que guarda segredos inimagináveis. Afinal, conforme nos mostra as palavras do pastor Copeland, reproduzidas no início deste trabalho, aceitar o resultado de um teste de ancestralidade genética como uma verdade sobre si mesmo parece ser, antes de qualquer coisa, um ato de fé.

 

Referências

ALVES-SILVA, J. et al. The ancestry of Brazilian mtDNA lineages. American Journal of Human Genetics, n. 67, p. 281-286, 2000.         [ Links ]

ANTUNES, A. Inclassificáveis. In: ANTUNES, A. O silêncio. Rio de Janeiro: Sony/BMG Ariola, 1996. 1 CD. Faixa 6.         [ Links ]

AZEVEDO, A. L. Livro conta história do brasileiro pela lente da genética. O Globo, Rio de Janeiro, 11 ago. 2002. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/livroContaHistoria.htm>. Acesso em: 15 jun. 2010.         [ Links ]

BASTOS-RODRIGUES, L. et al. The genetic structure of human population studied through short insertion-deletion polymorphisms. Annals of Human Genetics, n. 70, p. 658-665, 2006.         [ Links ]

BBC BRASIL busca ancestrais africanos dos brasileiros. Jornal da Ciência, 19 maio 2007. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/2007/BBCBrasil.pdf>. Acesso em 25 jun. 2010.         [ Links ]

BERNARDES, B. E se formos todos negros? Primeira Leitura, p. 52-53, maio 2004. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/2004/todosNegros.pdf>. Acesso em: 20 jun. 2010.         [ Links ]

BOLNICK, D. A. Individual ancestry inference and the reification of race as a biological phenomenon. In: KOENIG, B. A.; LEE, S. S.-J.; RICHARDSON, S. S. (Org.). Revisiting race in a genomic age. Piscataway: Rutgers University Press, 2008. p. 70-85.         [ Links ]

BOLNICK, D. A. et al. The science and business of genetic ancestry testing. Science, v. 318. p. 399-400, 2007.         [ Links ]

BRANCO também pode ser afrodescendente. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 jan. 2002. Geral. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/brancoAfrodescendente.htm>. Acesso em: 15 jun. 2010.         [ Links ]

CARVALHO-SILVA, D. R. et al. The phylogeography of Brazilian Y-chromosome lineages. American Journal of Human Genetics, n. 68, p. 281-286, 2001.         [ Links ]

COMAROFF, J. L.; COMAROFF, J. Ethnicity, Inc. Chicago: Chicago University Press, 2009.         [ Links ]

DAMATTA, R. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1984.         [ Links ]

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Micropolítica e segmentaridade. In: DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia: volume 3. Tradução de Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolmir. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. p. 83-115.         [ Links ]

FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. 11. ed. Tradução Maria Theresa da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1988.         [ Links ]

GIBBON, S.; NOVAS, C. Introduction: biosocialities, genetics and the social sciences. In: GIBBON, S.; NOVAS, C. (Org.). Biosocialities, genetics and the social sciences. London: Routledge, 2008. p. 1-18.         [ Links ]

GLYCERIO, C. 'Brasil tem a cara do futuro', diz professor. BBC Brasil, São Paulo, 28 maio 2007a. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/2007/brasilCaraFuturo.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2010.         [ Links ]

GLYCERIO, C. Daiane dos Santos é 'protótipo da brasileira'. BBB Brasil, São Paulo, 28 maio 2007b. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/2007/daianaSantos.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2010.         [ Links ]

GLYCERIO, C. "Ninguém sabe como me definir", diz atriz negra e 70% européia. BBC Brasil, São Paulo, 29 maio 2007c. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/2007/ninguemSabeComoDefinir.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2010.         [ Links ]

GLYCERIO, C. "Resultado 'bate' com o que eu sinto", diz Djavan. BBC Brasil, São Paulo, 30 maio 2007d. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/2007/djavanResultado.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2010.         [ Links ]

GLYCERIO, C. Seu Jorge: "se eu fosse 100% negro, lutaria por indenização". BBC Brasil, São Paulo, 30 maio 2007e. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/2007/seuJorgeIndenizacao.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2010.         [ Links ]

GLYCERIO, C. 68% africano, ativista queria mais informações sobre sua origem. BBC Brasil, São Paulo, 31 maio 2007f. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/200768africano.pdf>. Acesso em: 25 jun. 2010.         [ Links ]

KOENIG, B. A.; LEE, S. S.-J.; RICHARDSON, S. S. (Org.). Revisiting race in a genomic age. Piscataway: Rutgers University Press, 2008.         [ Links ]

LATOUR, B. Reflexões sobre o culto moderno dos deuses fe(i)tiches. Tradução de Sandra Moreira. Bauru: Edusc, 2002.         [ Links ]

LATOUR, B. Jamais fomos modernos: ensaios de antropologia simétrica. 3. reimpressão. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2005.         [ Links ]

LEITE, M. Raça é só conceito social, diz DNA brasileiro. Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 dez. 2002. Folha Ciência. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/racaConceito.htm>. Acesso em: 15 jun. 2002.         [ Links ]

LINDEE, S. Map your own genes!: the DNA experience. 2010. Manuscrito.         [ Links ]

LOPES, R. J. DNA de negros famosos retrata Brasil mestiço. G1, 29 maio 2007. Disponível em: <http://www.laboratoriogene.com.br/geneImprensa/2007/dnaNegrosFamosos.pdf>. Acesso em 25 jun. 2010.         [ Links ]

MAIO, M. C.; SANTOS, R. V. Políticas de cotas raciais, os "olhos da sociedade" e os usos da antropologia: o caso do vestibular da Universidade de Brasília (UnB). In: MAIO, M. C.; SANTOS, R. V. (Org.). Raça como questão: história, ciência e identidades no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2010. p. 252-284.         [ Links ]

PÁLSSON, G. Anthropology and the new genetics. New York: Cambridge University Press, 2007.         [ Links ]

PÁLSSON, G. Decode me: genomic anthropology and personal genomics. Current Anthropology (In print), 2010.         [ Links ]

PARRA, F. C. et al. Color and genomic ancestry in Brazilians. PNAS, v. 100, n. 1. p. 177-182, 2003.         [ Links ]

PENA, S. D. (Org). Homo brasilis: aspectos genéticos, lingüísticos, históricos e sócio-culturais da formação do povo brasileiro. Ribeirão Preto: Funpec, 2002.         [ Links ]

PENA, S. D. O febeapá que assola o país. Jornal da FUNDEP, Belo Horizonte, jun. 2005. Primeira Pessoa. Disponível em: <www.laboratoriogene.com.br>. Acesso em: 22 jun. 2010.         [ Links ]

PENA, S. D. Ciência, bruxas e raça. Folha de S. Paulo, São Paulo, 2 ago. 2006. Opinião. Disponível em: <www.laboratóriogene.com.br>. Acesso em: 23 jun. 2010.         [ Links ]

PENA, S. D. Humanidade sem raças? São Paulo: Publifolha, 2008. (Série 21).         [ Links ]

PENA, S. D. et al. Retrato molecular do Brasil. Ciência Hoje, n. 59, p. 16-25, 2000.         [ Links ]

PENA, S. D. et al. DNA tests probe the genomic ancestry of Brazilians. Brazilian Journal of Medical and Biological Research, v. 42, n. 10, p. 870-876, 2009.         [ Links ]

PENA, S. D. et al. The genomic ancestry of individuals from different geographical regions of Brazil is more uniform than expected. PLoS One, v. 6, n. 2, p. 1-9, 2011.         [ Links ]

RABINOW, P. Artificialidade e iluminismo: da sociobiologia à biossociabilidade. In: BIEHL, J. G. (Org.). Antropologia da razão: ensaios de Paul Rabinow. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002. p. 135-157.         [ Links ]

SANTOS, R. V.; BORTOLINI, M. C.; MAIO, M. C. No fio da navalha: raça, genética e identidades. In: MAIO, M. C.; SANTOS, R. V. (Org.). Raça como questão: história, ciência e identidades no Brasil. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2010. p. 197-217.         [ Links ]

SANTOS, R. V.; MAIO, M. C. Antropologia, raça e os dilemas das identidades na era da genômica. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, v. 12, n. 2, p. 447-468, 2005.         [ Links ]

SANTOS, R. V. et al. Color, race and genomic ancestry in Brazil: dialogues between Anthropology and Genetics. Current Anthropology, v. 50, n. 6, p. 717-819, 2009.         [ Links ]

STEIL, C. A. (Org.). Cotas raciais na universidade: um debate. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2006.         [ Links ]

SYKES, B. The seven daughters of Eve: the science that reveals our genetic ancestry. New York: W. W. Norton, 2001.         [ Links ]

WINSTON, C. E.; KITTLES, R. A. Psychological and ethical issues related to identity and inferring ancestry of African Americans. In: TURNER, T. R. (Ed.). Biological anthropology and ethics: from repatriation to genetic identity. New York: State University of New York Press, 2005. p. 209-229.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 20/10/2010
Aprovado em: 10/03/2011

 

 

* Este texto é produto do projeto de pesquisa "Raça, genômica e mestiçagem na América Latina: uma abordagem comparativa", coordenado por Peter Wade (University of Manchester) e, no Brasil, por Ricardo Ventura Santos (financiado pelo ESRC - Economic and Social Research Council, nº RES-06223-1914, Inglaterra). Agradecemos a Emerson Sena, Luiz Fernando Dias Duarte, Michael Kent, Peter Fry e Peter Wade pelos comentários acerca de uma versão prévia deste ensaio.
** Doutorando em Antropologia.
1 Depoimento de Kenneth Edward Copeland no sítio eletrônico African Ancestry (ver http://www.africanancestry.com/testimonials/index.html).
2 Como boa parte dos relatos reproduzidos neste trabalho advém das páginas eletrônicas das empresas aqui destacadas, cumpre-nos assinalar que, possivelmente, os critérios empregados para a sua divulgação estão relacionados às formas como as empresas gostariam de ser vistas aos olhos dos clientes, ou seja, como peças de marketing. Em nosso entender, contudo, isso não diminui sua importância para fins de análises antropológicas, já que, para além da dimensão econômica, eles também podem ser entendidos como uma amostra de como as empresas gostariam que seus produtos, os testes de ancestralidade, fossem apreendidos no plano sociocultural. Vale adicionar ainda que diversos depoimentos, aparentemente, correspondem a relatos verídicos, já que há nomes e imagens associadas a eles, inclusive de personalidades.
3 Os dados foram obtidos a partir de uma ampla coleta realizada em âmbito virtual, conduzida no período de 23 de abril a 2 de julho de 2010. Foram consideradas praticamente todas as informações disponibilizadas nas páginas eletrônicas das referidas empresas, as quais, entre outras coisas, contam com links para matérias publicadas na imprensa sobre os seus trabalhos (principalmente o Laboratório GENE) e também espaços nos quais seus usuários dão seus testemunhos sobre as percepções e as experiências a partir dos resultados dos testes (apenas African Ancestry e Oxford Ancestors).
4 Sugerimos consultar Bolnick (2008) e Bolnick et al. (2007) para uma discussão sobre os pressupostos e os problemas metodológicos envolvidos nos testes de ancestralidade genética comercializados pelas principais empresas norte-americanas e europeias.
5 Ver http://www.africanancestry.com.
6 O DNA mitocondrial é transmitido apenas por mulheres para seus filhos e filhas, e não sofre recombinação, sendo usado para traçar a ascendência materna. Já o material genético do cromossomo Y, que passa de pai para filho, e que também não sofre recombinação, é empregado para traçar a ascendência paterna. Em ambos os casos, alterações podem ocorrer mediante mutações, mas são raras, sobretudo em curtos intervalos de tempo.
7 Uma versão mais detalhada desse argumento pode ser vista em Winston e Kittles (2005). Esses autores defendem a importância dos testes de ancestralidade genética para afro-americanos como uma ferramenta que lhes permite, por direito, remontar às suas origens étnicas assim como o fazem outros cidadãos norte-americanos com relação à Europa.
8 Ver http://www.africanancestry.com/testimonials/index.html
9 Lindee (2010), com a Ancestral Origins DNA; Pálsson (2007, 2010), com a DecodeMe; Santos, Bortolini e Maio (2010), também com a African Ancestry.
10 A palavra "casal" aparece aqui assinalada entre aspas porque, na verdade, conforme as informações disponibilizadas na página eletrônica da referida empresa, há um considerável hiato temporal entre as suas partes constituintes. A Eva Mitocondrial teria vivido na África entre 150 e 200 mil anos, ao passo que o Adão do Cromossomo Y teria habitado o mesmo continente entre 60 e 80 mil anos atrás.
11 A empresa oferece aos seus clientes a oportunidade de, uma vez cientes de sua ascendência, partilhar informações e experiências entre si através de uma página de relacionamentos acessível apenas àqueles cadastrados.
12 Ver http://www.oxfordancestors.com/content/view/33/53.
13 As matérias audiovisuais chegam a quase 50, com 15 delas relacionadas ao tema genealogia por DNA. Já as matérias em meio impresso e eletrônico ultrapassam a marca de 300 publicações, entre notas, entrevistas, reportagens completas ou mesmo diminutas menções ao nome de Pena. Desse contingente, a grande maioria se refere aos testes de ancestralidade genética ou ao tema da composição étnica e racial do Brasil. O período histórico coberto é 2000-2010.
14 Há na página do GENE uma crítica aos procedimentos de certas empresas estrangeiras que comercializam testes de ancestralidade, em particular aquelas que prometem predizer a ancestralidade local de um indivíduo dentro do continente africano: "Obviamente então quem alegar que pode apresentar este elevado nível de (pseudo-) precisão estará fazendo inferências sem base científica rigorosa, com intuitos comerciais e enganando o consumidor." (ver http://laboratoriogene.info/Genealogia_por_DNA/Comparacao.htm).
15 Esse epíteto é também o título de uma coletânea de artigos organizada por Pena (2002), na qual são discutidas as questões referentes à composição biológica, histórica e cultural dos brasileiros.
16 Na esteira deste projeto a BBC Brasil lançou um concurso no qual uma pessoa, caso vencedora, poderia fazer gratuitamente um teste de ancestralidade genética no Laboratório GENE para conferir os percentuais de DNA ameríndio, europeu e africano em sua composição biológica. Para tal os interessados deveriam enviar um formulário preenchido com seus dados, disponibilizado no sítio eletrônico, e um texto com no máximo cem palavras explicitando o porquê de seu interesse em se submeter ao teste.
17 Dos nove convidados apenas o cantor Milton Nascimento não se pronunciou publicamente sobre os resultados de seu teste (99,3% africano, 0,4% europeu, 0,3% ameríndio).
18 Para um estudo de caso envolvendo testes de ancestralidade genômica e perspectivas identitárias no Brasil, no qual são analisadas as tensões referentes a esse tipo de intersecção, ver Santos et al. (2009).
19 Sobre o caso UnB ver Steil (2006) e Maio e Santos (2010). Vale ressaltar que Sérgio Pena foi um dos ouvidos na recente audiência pública do Supremo Tribunal Federal (STF), oportunidade na qual ele reafirmou suas proposições contrárias à ideia de "raças" e ao sistema de cotas no país. Outros especialistas ouvidos pelos ministros do STF incluíram antropólogos, sociólogos e historiadores, além de militantes do movimento negro. Na página eletrônica do STF (http://www.stf.gov.br) há informações relevantes sobre essa audiência pública.
20 CPMF é a sigla de um imposto federal (Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira) que vigorou de 1997 a 2007.
21 Vale mencionar que recentemente o GENE passou a oferecer testes de ancestralidade com o mapeamento de ancestralidade judaica (materna e paterna). Este é um ponto que merece aprofundamento, pois sugere uma ênfase em averiguação de pertencimento étnico específico a partir de análise genética que não é uma ênfase previamente observada nos serviços oferecidos pelo laboratório.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License