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vol.18 issue37"Os charruas vivem" nos Gaúchos: a vida social de uma pesquisa de "resgate" genético de uma etnia indígena extinta no Sul do BrasilGenes, boleadeiras e abismos colossais: elementos para um diálogo entre genética e antropologia author indexsubject indexarticles search
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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.18 no.37 Porto Alegre Jan./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832012000100016 

ESPAÇO ABERTO

 

Resposta ao trabalho de Kent e Santos: "'Os charruas vivem' nos Gaúchos: a vida social de uma pesquisa de 'resgate' genético de uma etnia indígena extinta no Sul do Brasil"*

 

 

Maria Cátira Bortolini

Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Brasil

 

 


RESUMO

As atividades oriundas de ações humanas, incluindo pesquisas científicas, são estruturadas sob contextos individuais e coletivos. A artigo de Kent e Santos considera isso num cenário específico, mas ao descreverem tal fato eles também dão margem a ações interpretativas. O mais importante no trabalho dos autores é chamar a atenção para ciências emergentes de áreas biológicas, cujos resultados poderiam auxiliar não só no entendimento sobre a dinâmica envolvida no "fazer ciência", mas também no como as ações humanas podem estar longe de serem compreendidas dentro de um contexto cultural-reducionista. Desse modo, os autores introduzem mais elementos ao debate sobre a necessidade de persistirem, bem como a legitimidade de ainda existirem, as barreiras que separam a antropologia biológica, na qual a genética humana se identifica, e a antropologia sociocultural.

Palavras-chave: ações interpretativas, dinâmica do "fazer ciência", genética humana, herança genética charrua.


ABSTRACT

Human actions, including scientific research, are structured in individual and collective contexts. Kent and Santos's paper considered that in a particular scenario, but when they consider this fact they also give opportunity to interpretive actions. The most important is that the authors draw attention to emerging areas of the biological sciences, whose results could not only assist in understanding the dynamics involved in "doing science", but also as how human actions may be far from being understood only within a cultural-reductionist context. In this way, the authors introduce more elements to the debate on the need to persist, and the legitimacy of the barriers that separate biological anthropology, in which human genetics is inserted, and sociocultural anthropology.

Keywords: Charrua genetic inheritance, "doing science" dynamics, human genetics, interpretive actions.


 

 

O Homo sapiens descende de uma longa linhagem de animais na qual a vida em grupo, e as interações sociais decorrentes dela, não é uma opção, mas sim uma eficiente estratégia de sobrevivência. Assim, qualquer especialista classificaria facilmente nossa espécie como sendo "obrigatoriamente gregária" (Waal, 2006). Desse modo, não deve causar surpresa o fato do comportamento humano envolver uma enorme gama de fenótipos plásticos e complexos com bem estabelecidas conexões com a nossa trajetória evolutiva, mas que pode, no entanto, ser reformulado em muitos de seus aspectos através de praticas e tradições socioculturais (Foley, 1991; Pinker, 2011; Powell; Shennan; Thomas, 2009; Sell; Tooby; Cosmides, 2009).

Numerosos antropólogos da ciência e outros pesquisadores vêm, pelo menos desde as décadas de 1960 e 1970, fornecendo elementos para o entendimento de como se dá a influência da vida social do investigador na esfera da pesquisa científica (de qualquer natureza). De fato, estudos vinculados à antropologia da ciência têm sugerido que, assim como ocorre com outras atividades oriundas de ações humanas, a pesquisa científica é estruturada não só sob certos contextos individuais, mas também sob fortes influências socioculturais, incluindo institucionais (tradições departamentais, interesses políticos e econômicos dos gestores dos recursos disponíveis para a pesquisa científica, entre outros). Desse modo, é difícil imaginar que um geneticista desenvolveria seu trabalho científico sem que ele estivesse impregnado de aspectos de sua personalidade, motivações e contextos micropolíticos. Mesmo no âmbito de uma ciência natural, dita "mais dura", como a genética, onde as hipóteses são examinadas por experimentos replicados inúmeras vezes, os resultados testados sob rigor estatístico e confrontados com pareceres de revisores ad hoc antes de sua publicação, há, em certas circunstâncias, margens flexíveis para atividades interpretativas onde, como mencionado acima, motivação, formação, propósitos e interesses do(s) pesquisador(es) possam ser percebidos. Talvez dentro da genética humana, a subárea que mais proporciona esse tipo de flexibilidade seja justamente a genética histórica, disciplina que busca, através de marcas no genoma de indivíduos, elementos que possam ser usados para o resgate da história das populações modernas e extintas, muitas dessas sem registros tradicionais de sua trajetória. Além disso, a genética histórica traz resultados que não raro despertam profundo interesse do público leigo em geral, pois, como mencionado, pode fornecer novos dados para a montagem, e mesmo a reconstrução completa, de cenários de interesse (seja individual ou coletivo) que passaram despercebidos, ou mesmo que eram impossíveis de serem resgatados pelo registro arqueológico e histórico convencional. Diante disso, é esperado que muitas vezes os geneticistas que desenvolvem seus projetos nessa área sejam requeridos para discorrer para um público leigo sobre temas envolvendo suas pesquisas. Considerando essa demanda, é esperado encontrar diferentes linguagens no relato dos resultados, evidente tentativa de se adequar ao veículo e seu público-alvo. Sob esse prisma, o trabalho de Kent e Santos não é de todo surpreendente.

Porém, o mais importante do trabalho elegante desenvolvido pelos autores é de outra natureza e está longe de apenas fornecer mais um exemplo que corrobora um panorama já conhecido. Envolve uma motivação entusiasmada para promover a aproximação entre áreas do conhecimento que têm se mantido afastadas, muitas vezes sob colossais abismos, a maior parte deles gerados e mantidos por desinformação e preconceito. São raros no Brasil estudos que buscam entender a etnografia de um laboratório de genética (ver, como um raro exemplo, Dornelles, 2010). É ainda mais difícil se encontrarem resultados de estudos genéticos sendo considerados por qualquer antropólogo sociocultural. Antes do que alimentar preconceitos e perpetuar a desinformação, Kent e Santos se sentiram atraídos pelo desafio desse tipo de conhecimento e pelo diálogo com os geneticistas. Não houve, por parte deles, nenhum receio de que os resultados de um projeto de pesquisa na área da genética histórica fossem apresentados e interpretados segundo suas percepções (entrando aqui também ações interpretativas num nível bem maior do que qualquer geneticista poderia supor fazer, já que de acordo com Whitley (1985) pesquisadores das ciências humanas, devido à própria natureza dos trabalhos que realizam, usualmente, fundamentam suas ideias a partir de discussões epistemológicas funcionais para a consolidação de motivações próprias). Os autores tiveram ainda a paciência e o mérito de buscar entender um mundo onde DNA e técnicas como genotipagem e sequenciamento fazem parte da rotina. Além disso, não houve receios de terem como alvo de investigação os próprios agentes idealizadores e realizadores do trabalho genético. Os autores com isso ilustram de forma indireta, mas sem dúvida consciente, sua percepção de que ficar longe de resultados gerados por ciências emergentes como a genética histórica, e aqui podemos estender a outras tais como a neurociência social cognitiva, genética do comportamento e psicologia evolutiva, pode alijar antropólogos sociais de dados e elementos importantes que poderiam auxiliar não só no entendimento sobre a dinâmica envolvida no "fazer ciência", mas também como as ações humanas podem estar longe de serem compreendidas dentro de um contexto cultural-reducionista. Desse modo, com seu trabalho os autores introduzem de forma oportuna mais um capítulo no debate sobre a necessidade de persistirem, bem como a legitimidade de ainda existirem, as barreiras que separam a antropologia biológica, na qual a genética humana se identifica, e a antropologia sociocultural.

Dentro desse contexto, Kent e Santos trouxeram algo por demais importante no caso específico do projeto de pesquisa que coordeno e que foi alvo de suas investigações: a menos que haja preconceito e desinformação, seria difícil hoje falar dos Charrua e sua contribuição para a formação do povo gaúcho sem comentar os resultados dos estudos genéticos que temos gerado. Achamos muito provável, já que cremos no poder de métodos científicos e na robustez das evidências por nós levantadas, que a herança Charrua vá além das boleadeiras. Para chegarmos à exata proporção dessa contribuição genética mais estudos com marcadores em nível do genoma nuclear são necessários, o que estamos tratando de fazer através do Consórcio para Análise da Diversidade e Evolução na América Latina (Candela), cuja amostra brasileira será representada basicamente por 1500 gaúchos de várias regiões de nosso estado. Nesse novo projeto (já em andamento) será investigada a diversidade relacionada a um milhão de marcadores espalhados ao longo de todo o genoma nuclear. A expectativa é de que logo novos detalhes sobre a dinâmica de mestiçagem no Rio Grande do Sul sejam revelados.

Quanto aos desdobramentos e consequências sociais da pesquisa e o fato dessa ser usada de modo "negativo" ou "positivo", mais uma vez isso só denota que as motivações de quem se apodera de estudos científicos não são diferentes daquelas de outras pessoas, sendo também muitas vezes movidas por interesses e propósitos próprios, embora nem sempre isso se dê de uma forma que reconheceríamos como correta. Kent e Santos fazem muito bem ao chamar a atenção para esse tópico. Porém, o exemplo "negativo" citado por eles chamou bastante minha atenção particularmente pelo fato de que nem eu nem qualquer colaborador ou estudante envolvido na investigação tínhamos imaginado qualquer coisa nesse sentido, ou seja, nossos resultados serem usados para "relativizar a sua extinção [dos Charrua] e, assim, diluir a responsabilidade pelo genocídio do qual as populações indígenas têm sido vítimas no Rio Grande do Sul". Apesar da oportuna ressalva levantada pelos autores de como os dados gerados por uma pesquisa científica podem ser apropriados por sujeitos com interesses diversos, algumas perguntas emergiram do exemplo "negativo" por eles imaginado. Esse exemplo é negativo exatamente por quê? Mesmo que o desaparecimento dos Charruas tenha se dado somente pelo fim de sua cultura (o que é um tanto quanto absurdo de se hipotetizar, porém aqui vale como exercício especulativo), o "genocídio" de uma cultura não é por si só devastador? O que exatamente ainda precisa ser dito sobre o genocídio dos povos nativos e qual seria a implicação exata de se relativizar esse fato? Nós, os descendentes contemporâneos de povos de diferentes culturas que se encontraram (e se enfrentaram) num passado longínquo de colonialismo, devemos valorizar exatamente o quê?

Para finalizar, vale mencionar aqui também o exemplo da apropriação "positiva" dos dados genéticos gerados no estudo que coordenei. Nesse caso, diferentemente do exemplo "negativo", Kent e Santos fornecem um exemplo não hipotético: "[...] para a comunidade contemporânea dos Charrua, a noção de que 'permanecem' até os dias de hoje teve um efeito de empoderamento em sua luta pelo reconhecimento oficial e seus direitos territoriais." Recentemente tive um contato inesperado com as pessoas autodeclaradas charrua que vivem em Porto Alegre, as mesmas que foram entrevistadas por Kent e Santos e que forneceram elementos para que os autores chegassem à conclusão transcrita acima. Um deles me deu um presente (colar de sementes, dentro de um envelope com os dizeres "arte rupestre charrua"), e diante da cacique Acuabé me agradeceu ainda com um abraço a suposta ajuda, que eu nem imaginava ter dado. Agradeci a deferência e o presente e ao me despedir e sair rapidamente para atender a um compromisso, ainda tive tempo de ouvir: "Tu és a nossa geneticista!"

 

Referências

DORNELLES, R. Sequenciando a genética de populações: por uma etnografia a partir do laboratório. Monografia (Bacharelado em Ciências Sociais)-Instituto de Filosofia e Ciências Humannas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.         [ Links ]

FOLEY, R. A. How useful is the culture concept in early hominid studies? In: FOLEY, R. A. (Ed.). The origins of human behaviour. London: Unwin Hyman, 1991. p. 25-35.         [ Links ]

PINKER, S. The better angels of our nature: why violence has declined. London: Penguin Books, 2011.         [ Links ]

POWELL, A.; SHENNAN, S.; THOMAS, M. G. Late Pleistocene demography and appearance of modern human behavior. Science, n. 324, p. 1298-1301, 2009.         [ Links ]

SELL, A.; TOOBY, J.; COSMIDES, L. Formidability and the logic of human anger. Proc Natl Acad Sci USA, n. 106, p. 15073-15078, 2009.         [ Links ]

WAAL, F. B. Primates and philosophers: how morality evolved. Princeton: Princeton University Press, 2006.         [ Links ]

WHITLEY, R. The intellectual and social organization of the sciences. Oxford: The Clarendon Press; Oxford University Press, 1985.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 14/08/2011
Aprovado em: 16/04/2012

 

 

* Agradeço ao professor Ruben Oliven pela oportunidade de participar deste debate, bem como ao professor Franciso M. Salzano pela constante fonte de inspiração.