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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.18 no.37 Porto Alegre Jan./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832012000100020 

RESENHAS

 

CAPONE, Stefania. Os yorubá do Novo Mundo: religião, etnicidade e nacionalismo negro nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Pallas, 2011. 361 p.

 

 

Ari Pedro Oro

Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Brasil

 

 

Stefania Capone é antropóloga e professora da Universidade de Paris X - Nanterre, além de diretora de pesquisa do CNRS francês e coordenadora do Centro de Estudos das Religiões e Culturas Afro-Americanas, de Nanterre. Dedica-se ao estudo do campo afro-religioso, em suas múltiplas dimensões, desde a sua graduação, na Itália, passando pelo mestrado, no Museu Nacional, do Rio de Janeiro, onde defendeu, em 1991, uma dissertação sobre a possessão no candomblé angola, e pelo doutorado, cursado em Nanterre, onde defendeu, em 1997, uma tese sobre o poder e a tradição no candomblé brasileiro. Realiza pesquisas de campo no Brasil (Rio de Janeiro, Salvador, São Luiz) desde 1983, mas também em Cuba e nos Estados Unidos (Nova York, Miami, Carolina do Sul, São Francisco e Filadélfia), das quais resultou uma produção científica que a tem colocado entre as mais talentosas, competentes e criativas antropólogas do campo afro-religioso-americano.

O leitor de língua portuguesa já havia tido a oportunidade de conhecer e apreciar as ideias de Stefania Capone (2004) em seu livro A busca da África no Brasil, sua tese de doutorado. Nele, tendo a figura de Exu como fio condutor, a autora analisa a política da construção da legitimidade e da pureza nos cultos afro-brasileiros, para as quais concorreram historicamente a tradição dos orixás e as pesquisas etnográficas.

Agora, o público de fala portuguesa é brindado com um livro que tem como universo etnográfico os Estados Unidos, mas cujas questões nele abordadas extrapolam essa nação e são pertinentes para o entendimento do amplo universo negro transatlântico, sobretudo o Brasil.

Os yorubá do Novo Mundo é um livro, publicado originalmente na França (Capone, 2005), que resulta de uma minuciosa e detalhada pesquisa bibliográfica e de campo conduzida por Stefania Capone nos Estados Unidos, entre os anos de 1997 e 2004. Nele, diz a autora, "quis salientar o caráter de continuidade que existe entre as diferentes experiências religiosas afro-americanas, em que a importância atribuída às origens e ao passado africano está bem no centro da história dos negros norte-americanos" (p. 13-14).

De fato, nesse livro, de forma semelhante ao movimento de reafricanização que ocorre no Brasil (e na América Central) - já abordado em A busca da África no Brasil - a autora retraça a histórica busca das raízes e da construção de uma identidade "étnica" dos negros norte-americanos que, especialmente a partir dos anos 1960, se aproximam da religião dos orixás, expressão que congrega as diferentes modalidades de culto de origem yorubá. Contribuiu fortemente para tanto o movimento de militantes e das vanguardas do nacionalismo cultural afro-americano que se aproximaram dos afro-cubanos praticantes da santería, iniciando-se nela e, em constante processo de negociação com estes últimos, edificando a religião dos orixás como símbolo da pureza racial e do nacionalismo cultural. Assim, a religião dos orixás assume o sentido político de identidade étnica, suscetível de revitalizar, dessa forma, a cultura yorubá em território americano.

Nesse contexto de recriação da comunidade yorubá e de reativação com uma cultura e uma ética africanas, multiplicaram-se nos Estados Unidos, nas últimas décadas do século passado, práticas religiosas africanas, sobretudo a santería cubana, levada naquele país por cubanos que fugiram da revolução castrista. Mas, o mais impressionante desse processo foi a fundação, em 1970, na Carolina do Sul, da aldeia "africana" de Oyotunji, por Baba Oseijeman Aelabu Adefunmi I - tido por muitos, não sem controvérsias, como "rei dos yorubá da América", falecido em fevereiro de 2005 - e cujo objetivo é ser "um pedaço da África na América" (p. 20).

Oyotunji se mantém ativa e se tornou um símbolo do retorno às tradições africanas e ao culto dos ancestrais, destruídos pelo tráfico negreiro. Oyotunji é um termo que em yorubá significa "restauração de Oyó", mostrando, assim, que um dos objetivos da edificação dessa aldeia é justamente restabelecer o "autêntico yorubá", identificado com o Reino de Oyó original, situado na atual Nigéria, anterior ao processo de cristianização. Assim sendo, os habitantes de Oyotunji, mas não somente eles, incorporam no quotidiano práticas socioculturais que remetem a valores considerados africanos e a uma nova configuração identitária afro-americana: possuem sua própria bandeira, com as cores do nacionalismo negro (vermelho, amarelo e verde); escola, onde se ensinam línguas africanas; seus membros vestem hábitos e portam penteados tidos como africanos; muitos assumem um nome africano; ali são realizados trabalhos coletivos e, principalmente, é cultuada a religião dos orixás.

Stefania Capone, no dizer de N. Luca (2007, p. 135, tradução minha), "põe em cena, através do exemplo de uma comunidade transnacional, a reconstrução, pelos afro-americanos, de uma identidade coletiva negra passando pela reafiliação com linhagens africanas imaginadas". Mais do que isso, em Oyotunji recupera-se um "panafricanismo ritual" e o sonho de uma "comunidade afro-americana", distinta da cultura WASP, de que Stefania Capone retraça nesse livro os principais momentos históricos. Assim sendo, Oyotunji cristaliza, aglutina e representa, para além das diferentes práticas sociais, crenças e valores simbólicos, a "alma africana" e a "cultura africana" imaginadas.

O livro é composto de oito capítulos. Utilizando-se magistralmente das contribuições da história e dos recursos da antropologia, sua autora retraça o desenvolvimento da dita "igreja negra" - na verdade um conjunto heterogêneo de denominações religiosas afro-americanas de cunho protestante - e do surgimento do nacionalismo negro associado à religião (cap. 2), assim como do amplo e diversificado renascimento cultural afro-americano, a partir dos anos 1920, e sua importância na edificação política da religião afro-americana (cap. 3). Antes disso, porém, no capítulo 1, apresenta, a partir de uma literatura especializada, as continuidades e descontinuidades da religião negra norte-americana em relação ao seu passado africano, preparando, assim, o leitor, para a compreensão dos capítulos que seguem. A história e as vicissitudes da religião dos orixás nos Estados Unidos, sobretudo da santería levada pelos cubanos e seu encontro com os afro-americanos e o nacionalismo negro, com as consequentes modificações dali advindas, constitui o foco do capítulo 4. A trajetória de vida de Adefunmi, principalmente as motivações e ideias do fundador da aldeia de Oyotunji, bem como a história desta última, sua organização, regras sociais que ali prevalecem, rituais celebrados e valores sustentados (como a importância dos laços com os ancestrais e a revitalização da cultura yorubá), são analisados no capítulo 5. A passagem da santería à "religião yorubá", ou seja, para uma religião "purificada", com a análise dos significados e sentidos atribuídos aos ancestrais, bem como questões atinentes à passagem da unidade cultural africana ao particularismo étnico, assegurado pela "religião yorubá", são analisadas, entre outros tópicos, nos capítulos 6 e 7. Enfim, o capítulo 8 analisa o processo de unificação e de estandardização dos cultos, evidentemente nunca alcançados, para o qual concorrem algumas instituições internacionais e redes transnacionais, como as Conferências Mundiais sobre Tradição dos Orixás e Culturas (COMTOC), cujo conteúdo das suas nove edições é analisado pela autora; o National African Religion Congress (NARC), que também realiza conferências anuais; e os egbé, ou redes entre as casas de culto, cujas atividades não se limitam ao território americano.

Os capítulos mencionados lidam com questões teóricas atuais e pertinentes, sobretudo nas ciências sociais da religião, tais como: as relações e tensões entre religião e política, entre religião e etnicidade, entre tradição e inovação; os sentidos da cultura na constituição de uma política da identidade; as negociações das significações rituais, semânticas e imagéticas em contextos sociais concorrenciais; os fluxos e as vicissitudes das redes religiosas transnacionais, entre outros.

Portanto, Os yorubá do Novo Mundo não é um livro a mais consagrado a questões sensíveis concernentes ao universo afro-norte-americano. Constitui um livro especial, que, é certo, vem se somar a uma literatura já existente, mas enquanto uma rica e importante contribuição, escrita por uma antropóloga qualificada, perspicaz e criativa.

Enfim, embora o foco etnográfico desse livro se situe nos Estados Unidos, as problemáticas e questões, práticas e teóricas, que aborda, transcendem aquele universo, sendo também pertinentes para se abordar o campo afro-religioso brasileiro - tanto pelos praticantes quanto pelos estudiosos - assim como melhor compreender as questões e tensões que transitam no interior dos movimentos políticos envolvendo os negros brasileiros. Portanto, este é um livro extremamente útil para todos os interessados na história dos negros norte-americanos e dos afrodescendentes das Américas, bem como em antropologia da religião e em antropologia política.

 

Referências

CAPONE, S. A busca da África no Brasil: tradição e poder no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas/Contracapa, 2004.         [ Links ]

CAPONE, S. Les Yoruba du Nouveau Monde: religion, ethnicité et nationalisme noir aux États-Unis. Paris: Karthala, 2005.         [ Links ]

LUCA, N. De la liberté religieuse et du multiculturalisme aux Etats-Unis: l'exemple des yorubá... uma lecture décalée. Archives des Sciences Sociales des Religions, Paris, n. 140, p. 133-144, 2007.         [ Links ]