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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183

Horiz. antropol. vol.18 no.38 Porto Alegre July/Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832012000200008 

ARTIGOS

 

Saberes contados, saberes guardados: a polissemia da congada de São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais

 

 

Lilian Sagio Cezar

Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – Brasil

 

 


RESUMO

Neste artigo sobre a festa da congada de São Sebastião do Paraíso (MG), descrevo e interpreto os modos como seus dançadores transmitem conhecimentos específicos sobre a festa, codificando e decodificando mensagens que se reportam ao mudo vivível, mas também ao mundo invisível, cuja apreensão e compreensão abarcam códigos, modulação e educação dos sentidos de ordem diversa e específica. Para tanto a autora analisa discursos cosmológicos e as associações estabelecidas entre catolicismo, memória africana e ancestralidade.

Palavras-chave: agência, conhecimento, festa da congada, polissemia.


ABSTRACT

In this article about the Feast of Congada of São Sebastião do Paraíso, MG, the author describe and interpret this feast and the way the dancers transmitted they specifics knowledge, codify and decodify messages attributed to the look that if report to the visible world, but also to the invisible world, whose apprehension and understanding accumulate of stocks codes, modulation and education of the directions of diverse and specific order. This was done based on their cosmological discourse, the association they establish between Catholicism, African memory and ancestry.

Keywords: agency, Feast of Congada, knowledge, polyssemy.


 

 

Introdução

Mas afinal o que é a festa da congada? Que festa é essa que instituía e festejava a corte negra quando a República nascia e se afirmava em símbolos? Mas que festa é essa que festeja em poesia quando o analfabetismo é maioria; que festeja com o luxo quando a pobreza assola; que festeja o negro quando o branco ironiza; que festeja a morte quando se luta pela dignidade da vida? Que festa é essa que transforma pobres e negros em reis e rainhas? Mas, afinal de contas, que festa é essa que suspende o mundo e o mostra pelo avesso?

Essas são questões de fundo que me guiaram ao longo das pesquisas que realizei nos períodos de mestrado (2003-2005) e doutorado (2006-2010)1 e sobre as quais ainda me surpreendo! Tantas são as perguntas para as quais não obtive respostas únicas, coincidentes, simplesmente porque uma gama de respostas é acionada por meus interlocutores que oferecem assim visões ora complementares, paralelas, ora conflitantes, divisando a característica que mais me afeta (Favret-Saada, 2005): congadas são rituais e todo ritual é dialógico, portanto polissêmico. Assim a festa assume diferentes significados conforme os atores que dela participam, suas intenções manifestas, o lugar em que ela é realizada e a época, período de sua ocorrência. E, por mais contraditório que seja, afirmar a polissemia das festas de congada não implica deixar de entrever que seus múltiplos significados não possam ter sentidos de unicidade e permanência. Abordar essa polissemia a partir deste texto é uma tentativa de fugir à visão de que há somente significados díspares para aqueles que participam da festa, ditos "de dentro", em relação aos que não participam da festa, os "de fora".

A origem da congada remonta às irmandades católicas de escravos e libertos congregados ao redor dos "santos de pretos", sendo os principais Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia, São Elesbão. Essas irmandades tinham por costume organizar festas em louvor aos seus santos católicos específicos, realizando a coroação de uma corte, geralmente negra, passando assim a integrar o calendário festivo local e obter autorização das autoridades temporais para a realização de suas festas em espaço público, pelas ruas das cidades por onde passavam seus "memoráveis cortejos".

Nos séculos XVII e XVIII as relações entre Igreja e Estado em Portugal e seus domínios possibilitaram que o rei, por meio da Ordem de Cristo e da instituição do grão-mestrado, passasse a ser o responsável pelo exercício da vida religiosa do reino e colônias. No Brasil setecentista a atuação da Igreja estava longe de ser eficiente. Contribuíam para isso o fato de a sociedade estar dispersa ao longo de um vasto território com densidade populacional reduzida e agrária. Nesse contexto os capelães de engenhos e fazendas eram dependentes do pater familias, e responsáveis pela educação dos meninos e prestação de atendimentos religiosos aos habitantes locais. Nos escassos centros urbanos emergentes a partir do ciclo canavieiro e aurífero os representantes do clero regular estavam diretamente dependentes do poder régio em termos dos proventos uma vez que os dízimos eclesiásticos eram pagos ao rei de Portugal na qualidade de grão-mestre da Ordem de Cristo. O repasse do dinheiro para as côngruas dos vigários, construção de igrejas, etc., era realizado de forma esporádica e incompleta, gerando reclamações por escrito enviadas pelos clérigos ao rei. A construção de templos geralmente era realizada a partir da boa vontade de fiéis e das irmandades religiosas que rapidamente se espalharam por boa parte dos povoados da colônia.

As irmandades e confrarias religiosas eram instituições regidas por um compromisso, lei interna que estabelecia os estatutos da organização a serem obedecidos por todos os integrantes visando desenvolver a vida social e religiosa de seus associados. Eram associações religiosas que se faziam representar a partir do culto público e celebrações a santos específicos. Promoviam o benefício dos seus membros zelando pela assistência à doença e velhice, realização de enterros dignos aos irmãos e celebração das missas de defuntos, conforme o costume da época. Vinculadas à tradição medieval das confrarias, em geral, as irmandades no Brasil davam maior peso às categorias raciais e sociais pouco se integrando em qualquer finalidade profissional.

A ausência de um clero romanizado numeroso e a dependência da Igreja em relação ao Estado que autorizava e protegia as irmandades contribuíram para que elas servissem no passado escravocrata como espaço para o exercício, ainda que limitado, de formas de liberdade (Borges, 2005; Quintão, 2002; Soares, 2000), constituindo-se no principal lócus de manutenção de memórias e, consequentemente, de criação/recriação de formas de religiosidade africana no Brasil (Bastide, 1960; Silva, 2005).

Compunha a hierarquia das irmandades uma mesa cujos membros deviam ser eleitos para cumprir a função administrativa a partir dos cargos de juiz, procurador, mordomo, capitão-mor, com a incumbência de saber da vida particular de cada irmão e proporcionar ajuda quando necessário, observando também o cumprimento de suas obrigações, escrivão e tesoureiro, que respondiam pelas finanças dessas instituições e deveriam ser ocupados por pessoas que sabiam ler e escrever, o que acabava por determinar e demandar a participação de pessoas brancas nas irmandades negras.

Os honrosos cargos de reis e rainhas, específicos às irmandades negras, evidenciavam a relevância das articulações e distinções étnicas. O cargo de tesoureiro nas irmandades negras era por imposição prerrogativa de um branco, conforme estabelecido para a ocupação de determinados cargos (Mello e Souza, 2002; Monteiro, 2004; Quintão, 2002). Os desfiles ocorridos nas festas organizadas pelas irmandades de escravos por ocasião da coroação de reis e rainhas de nação, fossem africanas ou afrodescendentes, ficaram conhecidos no Brasil por congadas, congado, cucumbis, ou reinados de congos. Constituíram importante lócus de estruturação de grupos africanos e afrodescendentes e permitiram sua articulação à vida social, cultural, religiosa e política, sendo bastante comuns em toda a colônia e império. Ainda hoje congadas são celebradas em diversas localidades do Brasil, nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Paraná, Pará.

Congadas são tributárias da cultura material das festas barrocas que celebraram o fausto império português e os símbolos litúrgicos católicos em pomposas procissões e cerimônias religiosas. Segundo Chauí (2000), a religiosidade popular foi herdada do instituto do padroado e da noção de cristandade, cuja característica principal é a marcante presença dos leigos enquanto estimuladores de vida religiosa através de organizações como as irmandades, romarias, ermidas, devoções, procissões, festas, etc., e por isso mesmo entrou em relação conflituosa com o catolicismo tridentino imposto por Roma numa tentativa de privilegiar e legitimar a autoridade sacerdotal, pois essa censurava as práticas populares abolindo-as ou tutelando-as sob supervisão do clero oficial. Tais organizações de leigos mantiveram-se desde cedo através de artifícios e negociações conflituosas com os poderes instituídos, estabelecidas no nível local, mas sujeitas aos arbítrios de hierarquias superiores. Suas ações adequavam-se às pressões, dissimulando submissão às tutelas alheias impostas, como forma de tentar conservar o "núcleo duro", enquanto princípio gerador daquela manifestação religiosa. No caso das congadas o núcleo duro centra-se na escolha e coroação do rei e rainha, na articulação de uma rede social a partir de relações hierárquicas entre o séquito e os demais membros da festa. O alcance das ações do rei e da rainha da congada certamente são pontuais, localizados e visam interesses e valores específicos. A eficácia dessas ações permitiam a rememoração e (re)criação de práticas religiosas ancestrais reportadas à África, que ao longo do tempo vêm se mantendo relativamente secretas, enquanto forma de conhecimento restrita aos membros da festa.

Congadas são também tributárias das celebrações de vassalagem e fidelidade dedicadas às realezas africanas naquele continente e suas embaixadas, enquanto eficientes práticas parlamentares performáticas de envio de mensagens, presentes, solicitações e tratados aos soberanos de outras nações. Pela festa da congada acontece a articulação de tradições políticas e religiosas africanas às formas políticas e religiosas portuguesas, o que possibilitou a bricolagem dos símbolos que concomitantemente promovem cultos públicos católicos e reconstroem aspectos da cultura e religiosidade africana no interior de instituições tipicamente europeias, por meio dos rituais de coroação de reis e rainhas negras (Monteiro, 2004).

A quebra do cotidiano agenciada pela congada, sua transitoriedade encerrada no espaço e tempo de seus rituais, utiliza a polissemia da arte efêmera em forma de ornamentos, adornos, vestimentas, danças, músicas, cantos, coreografias, bailados, desfiles, procissões, jantares, fogos de artifício, para exaltar a lógica que silenciosamente congrega e comanda corpos, espíritos e almas.

A congada em São Sebastião do Paraíso (MG) se constitui enquanto festa afrodescendente que rememora ritualística e performaticamente, por meio da homenagem a uma corte negra, uma África ancestral contraposta à experiência do trauma da escravidão. Ao se afirmar enquanto festa religiosa católica essa congada estabelece para si um espaço físico e temporal legítimo para a sua realização, calcado na própria história da Igreja Católica, em especial, a da irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Por conta de seu caráter secular inferiu-se a essa festa o tradicional num duplo sentido, o da história da Igreja e de suas irmandades religiosas e o de memórias ancestrais africanas, o que por si só constitui fonte de polissemia.

Ao longo do século XX essa festa de congada sofreu constrangimentos no que diz respeito ao espaço destinado à sua realização por meio de ações que visavam o "melhoramento" urbano e representaram, na prática, um controle indireto e ambíguo das formas de sociabilidade proporcionada pelas festas. Em 1952 a cidade assistiu à abrupta demolição da antiga igreja de Nossa Senhora do Rosário,2 sede da irmandade e local onde a festa era realizada até então. A memória da demolição e saudade da antiga igreja é ainda sentida pelos congadeiros e moçambiqueiros mais antigos. A justificativa apontada pela maioria das pessoas que me relataram a demolição foi a insatisfação do dono do sobrado em frente à igrejinha, pessoa muito rica na cidade, que teria usado sua influência sobre as autoridades para que a vista de sua casa não fosse mais prejudicada pela fachada do templo. Uma outra explicação dá conta da venda da antiga igreja para a prefeitura a fim de que ali fosse definitivamente construída uma rodoviária, uma vez que as jardineiras já utilizavam a pequena praça ao redor da igreja como local de embarque e desembarque de passageiros. O dinheiro da venda da antiga igreja de Nossa Senhora do Rosário foi utilizado na reforma e ampliação da igreja da Matriz, distante somente dois quarteirões do local da antiga igrejinha.

A demolição da igreja de Nossa Senhora do Rosário de Paraíso trouxe consequências diretas para sua congada, instaurou-se um novo local para a realização da festa, a praça e a igreja da Matriz, localizadas no coração da cidade. Dentro do grande templo, durante a festa, se monta a mesa da irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Com a demolição da antiga igrejinha os ritos, cortejos e procissões passaram a acontecer sob os olhos da principal autoridade paroquial da cidade, cujo rigor e exigência anualmente se refletem diretamente nas presenças e vivências dos diferentes setores sociais que se encontram para festejar os santos da congada.

Hoje a irmandade de Nossa Senhora do Rosário em São Sebastião do Paraíso é composta pelos mesários responsáveis pelo dinheiro arrecadado durante a festa, com o empréstimo de capas e coroas para os pagadores de promessa, e pelo Rei Congo, Vice-Rei Congo, Rainha Conga, Rainha Perpétua e as duas princesas que, ao assumirem seus cargos após serem escolhidos entre os congadeiros e moçambiqueiros, assinam o livro da igreja e da prefeitura, para assim registrar as ações do simbólico séquito da congada. Esse registro é importante e reiteradamente alegado no caso de conflitos que coloquem em dúvida a autoridade dos integrantes do séquito diante da festa. Porém, o vínculo hierárquico estabelecido entre reis e rainhas e os ternos estão para além das formalidades e atribuições da irmandade, que ficou muito reduzida e cuja ação limita-se à arrecadação dos espólios.

A festa conta ainda com a administração burocrática realizada pela comissão organizadora da festa da congada, formada por um presidente e um vice-presidente e seus assessores responsáveis pelo cumprimento do regulamento da festa da congada aprovado em reunião por todos os membros da realeza, capitães dos ternos de congo e moçambique e membros da comissão organizadora da festa da congada. Suas ações estão subordinadas à prefeitura municipal, que realiza o repasse de verbas para o custeio dos desfiles dos ternos, a infraestrutura de arquibancadas, holofotes, palanques, equipamento de amplificação de som que é anualmente montada na rua Pimenta de Pádua, ao longo da extensão da praça da Matriz de São Sebastião para receber os desfiles que acontecem nas noites da festa. É também ao lado da Matriz que as bandeiras dos seis santos da festa são "levantadas"; as imagens dos seis santos da congada em seus respectivos andores ficam expostas, os membros da realeza da festa zelam e recebem os reis e rainhas de promessa durante as tardes de 26 a 30 de dezembro de cada ano.

O esquema montado pela prefeitura municipal para o repasse de dinheiro passou a impor certa adequação dos ternos em relação a valores, preocupações e padrões estéticos inicialmente não pertencentes à festa da congada. Houve a introdução de arquibancadas, o que fixou o local destinado aos cortejos de congadeiros e moçambiqueiros e o lugar dos fiéis, atribuindo a estes últimos o caráter de público; a instituição de competição entre os ternos de congo e os de moçambique, oferecendo troféus, maior recompensa financeira e aumento do tempo de desfile aos ternos julgados "melhores". A prefeitura passou também a instalar e disponibilizar a instalação de iluminação e amplificação de som ao longo da principal praça da cidade, a praça da Matriz, para a realização dos desfiles dos ternos em todos os dias da festa da congada, possibilitando que um maior público acompanhasse das arquibancadas os desfiles.

A festa da congada acontece anualmente no período de 26 a 303 de dezembro e conta com a participação de aproximadamente mil dançantes organizados em nove ternos de congo e seis ternos de moçambique. São eles: ternos de moçambique Zambiê de Angola, Diamante, União dos Filhos de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, Netos de Artulino Duarte, Santos Dumont. Os ternos de congo são: Xambá, União, Ipiranga, dos Angolas, Sabiá, Anjos de São Benedito, Canários Paraisense, Bela Vista, Caçulas de Paraíso.

A congada é uma festa eminentemente sincrética e religiosa que acontece em louvor aos seis santos da congada, também denominados Seis Santos do Natal: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia, São Domingos, Santa Catarina e São Jerônimo. Na prática, sua organização acontece a partir de rede de dançadores que constituem os ternos,4 também denominados guardas ou batalhões de dançantes. Estes são grupos identitários formados por pessoas, geralmente de núcleos familiares específicos, reunidas ao redor de princípios simbólicos, identitários, religiosos, que partilham memória coletiva e padrões culturais. Cada terno geralmente possui um presidente, que é quem cuida da parte burocrático-administrativa dos preparativos para a festa da congada, e um capitão, geralmente aquele que cumpre o papel de proferir os cantos, assumindo a voz ativa do terno frente à sociedade envolvente. É também responsabilidade do capitão e dos seus companheiros mais próximos resguardar conhecimentos como cantos, toadas, fórmulas de benzer, utilização de chás e ervas, defumação, fechamento do corpo e fundamentos, conhecimentos esses que pertenceram aos antigos dançantes e foram deixados numa linha sucessória que afirma a própria hierarquia do grupo.

Cortejo é o nome dado à organização ritualística assumida pelos ternos quando esses saem às ruas da cidade para cumprir, dançando e cantando, "obrigações" específicas à festa da congada: buscar e conduzir os simbólicos Reis Congos, Rainhas Congas e princesas, as bandeiras dos seis santos da festa, "puxar" rainhas de promessa. Tal configuração segue a própria hierarquia ordenadora do terno, sendo o comando destinado ao capitão ou segundo capitão, independentemente de ser um terno de congo ou moçambique. A evolução das danças, músicas e melodias cantadas durante o cortejo variam conforme as especificidades inerentes aos rituais referidos como congos ou moçambiques.

 

O que faz um dançador ser congadeiro ou moçambiqueiro: transmissão de saberes e atribuição de fazeres na festa da congada

Os motivos que levam homens e mulheres a participarem dos ternos são muito distintos: a religião e tradição familiar, a devoção ao santo homenageado no dia, motivos de promessa feita pela própria pessoa ou por um de seus parentes, vontade de estar com amigos ou companheiros, etc. A escolha por um terno tem a ver com a identificação da pessoa com aquele grupo específico e isso se remete ao bairro onde mora, às pessoas que assumem o comando ou que dele fazem parte, à tratativa e ao clima de união e camaradagem entre seus integrantes, e principalmente, ao pertencimento a determinados grupos de alianças familiares intergeracionais.

Se por algum desses motivos eu decidisse dançar no Xambá, por exemplo, bastaria então ir até a casa da dona Maria Xambá, no bairro da Mocoquinha, na primeira semana de dezembro (porque sou precavida e há muita concorrência pelas camisas desse grande terno de congo), dar meu nome pra constar em sua lista, pagar R$ 5,00 pelo pano e levá-lo até uma das costureiras da cidade, encomendando a costura, e pronto, teria a camisa da última noite do desfile. Certamente dona Maria providenciaria que o chapéu que comprei fosse devidamente montado com longas fitas multicoloridas, ou senão eu poderia comprar um chapéu já enfeitado por R$ 100,00. Teria também de comprar e mandar fazer a faixa de cetim para usar amarrada na cintura e me incumbiria de usar a calça e o sapato da cor predeterminada na noite do desfile. Seria de bom-tom participar dos grandes ensaios que os capitães realizam nos finais de semana de outubro, novembro e dezembro. Certamente seria colocada no meio de uma das duas grandes filas que compõem o cortejo e não teria grande dificuldade de seguir os passos e tocar a caixa que a mim seria emprestada, a não ser por seu peso. Mas a grande pergunta é: isso me faria uma congadeira?

A resposta para a pergunta é, por mais contraditório que pareça, sim e não.

Diante do contexto da congada o novato teria somente a camisa da última noite de desfile dos ternos, o que lhe garantiria participar somente dessa ocasião. Por mais que seja importante participar do grandioso desfile da noite de 30 de dezembro, porque esse é o momento mais esperado pelos ternos com o preparo especial de fardamentos novos, além de ser também o momento mais esperado pelo público que comparece em grande número nas arquibancadas montadas na lateral da praça da Matriz, a participação do novato somente nesse evento lhe atribui um caráter provisório de dançador.

Naquele momento ele está submetido, ainda que temporariamente, aos códigos de conduta e etiqueta que estabelecem a obediência ao que é determinado pelo dono do terno. Concomitantemente, é considerada de responsabilidade do dono do terno e de seu benzedor a integridade física e espiritual do novato, assim como de qualquer um dos dançadores. Porém, sendo um dançador esporádico, sem estreita relação com as famílias mantenedoras dos ternos de congo e moçambique, esse dançador é mais um dentre tantos outros que, por falta de convivência, tendem a desconhecer a maior parte das intenções, obrigações e poderes agenciados pelo terno em seus cortejos e desfiles.

É interessante para os ternos de congo ter pessoas da comunidade envolvente dançando em seus cortejos e desfiles. Sem essas pessoas o tamanho de muitos ternos seria reduzido, o que comprometeria o brilhantismo dos desfiles que alcançam o tamanho completo da estrutura montada pela prefeitura na rua Pimenta de Pádua. Por outro lado, a participação de pessoas da sociedade envolvente acaba ampliando o número de pessoas conhecidas e comprometidas com os respectivos ternos, relações estas que podem capitanear influência e prestígio desses grupos em relação aos seus interesses específicos nas mais distintas esferas e redes sociais da cidade. Exemplo disso é o fato do atual prefeito de Paraíso, Mauro Zanin (DEM) ser lembrado e homenageado em versinhos proferidos durante os desfiles pelos capitães como dançador de terno de congo, por ter desfilado nos cortejos em dois anos consecutivos de festa. A congada entabula assim espaços de diálogo, sociabilidade, convívio, mistura e síntese.

Para se reconhecer e ser reconhecido como componente regular de um dos ternos da cidade, portanto se tornar um congadeiro ou moçambiqueiro de fato, o novato dependerá de sua própria conduta, dedicação e empenho para passar a pertencer a um desses grupos. Alguns fatores como a ancestralidade e o pertencimento às religiões afro-brasileiras podem influenciar o processo.

A ancestralidade diz respeito ao fato de algum membro da família do novato ter sido em vida congadeiro ou moçambiqueiro. Isso lhe confere um reconhecimento que lhe é anterior, diz respeito à consideração e deferência dos congadeiros e moçambiqueiros em relação àquele seu parente já falecido. Nesses casos é valorizada a força atribuída ao sangue e alma5 negra que, mesmo de maneira silenciosa e invisível, age entre as diferentes gerações fazendo com que aqueles que tiveram parentes dentre os antigos dançadores da festa se encaminhem no sentido de formar a nova geração de congadeiros e moçambiqueiros.

O pertencimento às religiões afro-brasileiras, mais especificamente à umbanda, é bastante comum no contexto da congada. Essa religião oferece aos congadeiros e moçambiqueiros uma sistematização de conceitos e práticas que muitas vezes pertencem à festa, mas para as quais as explicações expressas pelos capitães e benzedores6 dos ternos são difusas, oferecidas deliberadamente de maneira parcial e fragmentada. Assim, os novatos já iniciados na umbanda reconhecem muitos dos códigos e etiquetas de matriz afrodescendente presentes na congada, o que lhes permite acessar mais rápida e facilmente as pessoas que ascenderam na hierarquia do seu terno, reconhecendo e participando de processos de transmissão de conhecimento por eles realizados.

Roger Bastide (1960) descreve o segredo enquanto conhecimento dotado de agência. Na síntese de um babalaô baiano entrevistado pelo autor, trata-se de uma

força mística perigosa, como tudo o que lhe é atribuído e que é preciso neutralizar. Em suma, a lentidão na divulgação dos conhecimentos secretos do candomblé é uma espécie de inoculação progressiva, de vacinação de coisas cada vez mais fortes, para que o dom do segredo não se transforme em perigo, tanto para quem o "dá" como para quem o "recebe". (Bastide, 1960, p. 346).

Assim, Bastide identificou e estudou esse princípio organizativo de hierarquias, a partir da posse e utilização de conhecimentos restritos à esfera do segredo, nas religiões afrodescendentes. Nesses contextos as formas de transmissão de conhecimento constituem, segundo o autor, sistemas de dotes e contradotes onde o iniciado estabelece vínculos de reciprocidade, dedicação e obediência em relação aos guardiões desses conhecimentos.

As famílias "donas dos ternos" são as herdeiras dos conhecimentos mais amplos sobre a festa da congada, seus porquês, suas agências, suas sequências rituais, em uma palavra, seus segredos e seus "fundamentos". Vale salientar que não são todos os pertencentes às tais famílias os detentores e guardiões dos "fundamentos" do terno, conhecimentos esses que são restritos aos chamados "donos" do terno, que poderiam ser seu capitão ou presidente, variando caso a caso conforme as especificidades e contingências pelas quais cada terno passou ao longo de sua existência. Assim, a distribuição de saberes segue regras próprias em que os vínculos entre mestres e seus respectivos aprendizes estabelecem reciprocidades e, ao mesmo tempo, hierarquizam as relações sociais entre os que já foram e os que aqui estão.

Os processos de transmissão desses conhecimentos formam canais de circulação de poder e prestígio e demarcam as posições sociais no interior dos grupos. Os "fundamentos" são saberes que possuem forma e conteúdo específicos, cujos preceitos devem ser meticulosamente seguidos conforme as orientações dadas e deixadas em vida pelo dono do terno em nome de seu santo, aos seus discípulos. Tais conhecimentos são transmitidos pelo dono do terno, ao longo de sua vida, para seus aprendizes de maneira desigualmente partilhada, deliberadamente fragmentada e elíptica. É exigida do aprendiz uma postura ativa, na medida em que ele deve criar para si e resguardar em segredo versões desses conhecimentos calcadas nos difusos conteúdos, falas e explicações de seus mestres, articulando-as aos cantos, que podem ser as toadas tradicionais deixadas pelos fundadores dos ternos ou pelas mensagens improvisadas que os capitães atuais cantam especificamente para cada pessoa que solicita sua bênção em forma de versos, acompanhando a toada tocada pelos dançadores ao longo de seus cortejos e desfiles.

Os "fundamentos" são saberes relacionalmente hierarquizados entre si conforme o grau de importância de cada um dos preceitos para a própria existência e manutenção do terno. A compreensão das lógicas explicativas que conectam e articulam as ações dos homens entre si, dos homens para com os santos e entidades e destas para com os homens são informações restritas para as quais os aprendizes são paulatinamente apresentados, desde que demonstrem certa dose de interesse, respeito aos ensinamentos, atenção e astúcia para garantir que o véu de segredo e mistério resguarde tais preceitos. Esses conhecimentos permitem aos dançantes julgar as ações e ingerências advindas dos próprios dançadores, dos meios políticos e do público em relação à congada durante aquele ano em que se vivencia a festa a partir de uma série de interpretações sobre eventos da natureza como o sol, a chuva, a tempestade, os raios, etc. Segundo os dançantes, cada elemento desses condiz ao humor ou ao julgamento do santo do dia em relação às atitudes dos homens para com a congada. Assim, o sol nos dias da festa pode ser considerado tanto uma coisa boa, quando entremeado por nuvens, quanto um castigo, quando escaldante a ponto de esquentar o asfalto abrindo bolhas nos pés dos pagadores de promessas que as cumprem descalços. Do mesmo modo a chuva, que pode ser considerada um presente enviado pelo santo quando resfria o asfalto e o calor de dezembro, mas também um castigo em forma de enxurrada que ensopa as roupas, traz o frio e afasta os fiéis e o público, colocando à prova a fé dos dançadores que realizam seus cortejos e desfiles. Independentemente da condição climática e de seus significados, congadeiros e moçambiqueiros devem cumprir a obrigação de cantar para os santos do dia em seus cortejos, a fim de plantar no presente a benevolência dos santos para os próximos anos.

Os aprendizes são testados sobre tais conhecimentos nas mais diversas situações em que os "fundamentos" agenciam e são agenciados em resposta às contingências inerentes às circunstâncias e desdobramentos que a própria congada entabula.

Músicas, toadas, melodias, habilidades de tocar os instrumentos musicais, habilidades de realizar os passos de dança ao mesmo tempo em que se toca o instrumento musical e se canta, são desenvolvidas ludicamente nos ensaios e, principalmente, nos os cortejos e desfiles dos ternos pelas ruas e avenidas da cidade durante a congada. Todas essas são importantes formas de transmissão de conhecimento entre gerações por meio das quais os anciãos se fazem conhecer e ensinam aos mais novos toda uma gama de exigências e experiências, repertórios que permitem aos dançadores que se identifiquem e se nomeiem enquanto congadeiros ou moçambiqueiros pertencentes à festa da congada.

O estabelecimento de vínculos de reciprocidade e laços de família são fundamentais para a articulação de alianças entre diferentes ternos de congo e moçambique, alianças que por vezes perduram por diferentes gerações. Em sentido diametralmente oposto, as disputas e contendas acontecem entre ternos cujos líderes e integrantes guerreiam entre si.

Jéferson de Jesus, congadeiro do terno Xambá e filho de criação da Rainha Perpétua Genuita Pereira de Paula,7 preocupado com minha integridade durante a pesquisa, aconselhou-me a nunca aceitar comida e bebida das mãos de um congadeiro ou moçambiqueiro. O capitão do terno de congo dos Angolas, Fernando Gonçalves, explicou que tal zelo vem dos antigos, pois naquele tempo existia muita maldade no mundo e isso era suficiente para que um congadeiro pegasse um punhado de matinho qualquer e transformasse aquilo em veneno, usando para isso somente suas orações e o macerar das mãos. Mas isso, completou o capitão, só acontecia antigamente.

A Rainha Perpétua Geni se lembra da festa no passado e do poder que tinham os antigos reis e capitães da congada. Conta a rainha que certo dia o terno de seu marido, o Chiquito Risada, escoltava a frente seu sogro, o então Rei de Congo Chico Risada, pelas ruas da cidade. Um outro terno rival entrou à frente daquele batalhão em pleno sinal de conflito. Chico Risada manuseou o seu bastão batendo com ele no peito três vezes e isso foi suficiente para que as caixas seguradas pelos congadeiros do terno opositor pegassem fogo e que de uma só vez o terno se desfizesse.

Na congada os conflitos são entabulados não somente entre ternos distintos, mas também entre pessoas e até mesmo entre pessoas e santos. O capitão do terno Ipiranga, conhecido como João Baiano, conta que começou a dançar Congo no Xambá aos 12 anos. Durante muito tempo dançou naquele terno até que um dia o capitão lhe deu uma grande bronca por ele ter se atrasado para o cortejo. Por isso, João Baiano fez promessa de nunca mais dançar em nenhum terno a não ser que esse fosse um terno novo. João ajudou a organizar e fundar o terno Ipiranga. Passou a sair no terno mas, segundo ele conta, via muita coisa errada. Por isso, João fez um desafio à Bandeira de Nossa Senhora do Rosário de que ele não sairia mais na congada, pois não acreditava que as imagens existiam uma vez que elas permitiam que o presidente do Ipiranga saísse bêbado. Naquele mesmo ano, esse presidente e o seu capitão deixaram o terno Ipiranga e ele, João Baiano, assumiu a presidência passando, desde então, a ser um instrumento às Imagens do Rosário.

Das narrativas acima se depreende que alguns congadeiros e moçambiqueiros agenciaram e manipularam, por meio de orações e atitudes, os santos e ancestrais enquanto elementos dotados de poder imanente. Assim como constatado por Cardoso (1982) e Brandão (1985), a utilização de tais elementos durante a festa da congada acontece em situações de conflito, agindo no sentido de enviar e fazer o mal ao inimigo ou então no sentido de desfazer o mal por ele enviado.

Se por um lado a congada se mantém sob a égide da Igreja Católica, por outro, elementos ditos "tradicionais" conferem especificidade à significação e utilização próprias de símbolos do catolicismo na realização da festa. Os conflitos travados entre os diversos ternos, a partir de seus específicos conhecimentos sobre a congada, a memória daquilo que é "tradicional" ao grupo conforme os ensinamentos deixados por seus ancestrais, a posse e uso de elementos e poderes simbólicos vinculados à religiosidade do grupo, visam também a obtenção de prestígio social via ascensão na estrutura hierárquica da festa.

Exemplo atual do uso de tal estratégia pode ser observado nos discursos realizados pelos capitães de terno de congo e moçambique em relação aos demais ternos: notadamente todos os capitães citam o seu próprio batalhão como realmente "tradicional" e religioso. Os demais, segundo os capitães, não seguem mais a "tradição", o que representa uma ameaça à própria festa. Tais falas são generalizadas e podem ser relacionadas ao discurso intelectual de outrora, que pensava as culturas como microssistemas isolados e puros, enraizados em territórios determinados, sob constante ameaça de contaminação e, por conseguinte, extinção. Entretanto, o desenrolar da pesquisa indica que a maioria dos ternos do município está ligada aos preceitos afirmados como "tradicionais" e religiosos pelos próprios congadeiros e moçambiqueiros. Exemplos disso são os rituais de subida e descida das bandeiras, a "meia-lua", as procissões aos santos da festa, os jantares comunitários, a presença das imagens dos santos no palanque durante os desfiles dos ternos nas noites da congada, entre outros.

Presenciei a entabulação de conflitos que aconteceram durante os desfiles noturnos dos ternos de congo e moçambique, e envolveram capitães e padrinhos de ternos da cidade. Isso ocorre sem que o público presente nas arquibancadas perceba, ou seja, sem que os conflitos, que são constitutivos e inerentes à própria festa, interfiram ou ameacem a congada diante da sociedade envolvente. Se considerarmos que os rituais desenvolvidos durante a festa pertencem à categoria dos processos ligados à comunicação, compreenderemos que estão presentes num mesmo ritual as atividades de codificação e enunciação que tendem a possibilitar infinitos modos de leitura, e que esses são circunscritos por relações sociais objetivas que envolvem tensões e forças estabelecidas entre grupos e agentes relacionados a processos históricos específicos. Nesse sentido age a sutileza das frases ditas, o peso das palavras onde "um pingo é letra" e o senso de responsabilidade de todos para com a congada enquanto festa de santo.

Os conflitos travados entre os diversos ternos visam desde a resolução de alguma contenda à obtenção de prestígio social via ascensão na estrutura hierárquica específica à congada. Apesar de serem travados entre homens e mulheres participantes da festa, a resolução desses conflitos conta com o respaldo da ascendência ancestral de cada um dos guerreiros e de seus respectivos santos de proteção. Ao longo desses anos de pesquisa acompanhei diferentes contendas travadas entre os membros da congada, sendo que algumas delas perduraram por anos. Posso afirmar que somente os percebi e tomei conhecimento de suas dimensões a partir da fala e explicação das próprias pessoas envolvidas que me chamavam a atenção sobre detalhes específicos, que explicitavam as atitudes guerreiras tomadas pelas distintas partes das disputas. Vez por outra era interpelada se eu tinha visto que fulano ficara fitando tal pessoa à distância, ou se havia notado que uma pessoa tinha dado um cachimbo para outra fumar no momento do ritual da Subida das Bandeiras. Em nenhum desses casos eu tinha atentado para tais elementos, talvez por não ter tido meus sentidos modulados e educados para observar e considerar os detalhes das ações e atitudes dos dançantes diante da gama de rituais, cantos, histórias e contextos que vivenciei durante a festa. Esses comentários, porém, me fizeram prestar cada vez mais atenção ao que eu considerava "detalhe", uma vez que justamente esses elementos, etiquetas, posturas e atitudes agenciavam ações e reações voltadas à tabulação e/ou resolução dos conflitos.

A sutileza da etiqueta e das normas de comportamento implicadas na congada faz com que alguns moradores da cidade considerem as pessoas que realizam a congada como melindrosas, no sentido de se ofenderem por muito pouco. Aprendi com meus interlocutores que uma palavra e até mesmo um gesto são passíveis de serem interpretados como ofensa ou desrespeito, e por isso mesmo capazes de desencadear a guerra entre pessoas que até então se respeitavam mutuamente. Mas o que parece sem motivo descortina a existência de um código que delimita e estabelece regras de etiqueta que obrigatoriamente devem ser usadas enquanto sinal de respeito e deferência entre as pessoas do grupo, enquanto marcadores sociais de pertencimento e hierarquia.

Talvez a mais relevante das regras de etiqueta seja o ato de cumprimentar e saudar uns aos outros. A bênção é obrigatoriamente tomada pelos dançadores aos benzedores, capitães e presidentes de seus respectivos ternos, e pode ser falada ou performada. Quando se pede a bênção por meio somente da fala o solicitante diz "bença!" e o cumprimento é respondido com a frase "Deus te abençoe". Nos casos de maior intimidade entre as pessoas, como as pertencentes a uma mesma família de sangue ou de santo, a bênção é solicitada de maneira performática por aquele que ocupa a menor hierarquia ao que ascendeu dentro do grupo. O solicitante estende e segura em sua mão a mão que será beijada ao pedir a bênção daquele que responderá, como no outro caso, "Deus te abençoe". O cumprimento termina com um abraço e troca de três tapinhas nas costas entre as pessoas. A distância entre as pessoas durante o abraço e a troca ou não de beijos nos rostos dependerá da proximidade ou distância entre as pessoas que se cumprimentam, desses cumprimentos serem trocados somente entre mulheres, somente entre homens ou entre homens e mulheres, o que denotará o respeito e consideração entre aqueles que se saúdam.

Do mesmo modo todos os dançantes devem pedir a bênção à realeza da festa da congada e, por obrigação, o Reis Congo, Rainha Conga, Rainha Perpétua e princesas concedem sua bênção àqueles que lhes solicitava. Essa reciprocidade independe do fato de as pessoas gostarem ou não uma das outras, terem ou não conflitos entre si; a regra da bênção desconsidera num primeiro momento tais contendas. Assim, quando um capitão de um terno cumprimenta um outro capitão, um Rei Congo, uma Rainha Conga ou Perpétua, geralmente pede sua bênção, estende sua mão para segurar e beijar a mão da pessoa que está sendo saudada. Como resposta obtém um "Deus te abençoe" e recebe um beijo na mesma mão que segurou a mão inicialmente beijada, denotando não somente carinho e respeito, mas, principalmente, a proximidade hierárquica entre quem dá a bênção e aquele que a recebe. Em seguida as pessoas se abraçam e dão três tapinhas, três toques nas costas uma das outras em retribuição ao cumprimento inicial realizado. Ouvi em diferentes ocasiões que durante a congada, às vezes, tapinhas nas costas podem derrubar uma pessoa.

E num desses três tapinhas nas costas uma capitã de terno de moçambique perdeu a voz e precisou ser acudida por uma benzedora que não era a específica de seu terno. Quando tomou conhecimento do que tinha acontecido em pleno desfile, o benzedor do terno da capitã ficou muito ofendido com a benzedora por essa ter tomado seu lugar na resolução de um conflito que inicialmente não lhe pertencia, mas que foi interpretado por todos os presentes como uma prova do poder da benzedora ao desfazer o trabalho mandado para aquela capitã. Nesse episódio uma guerra de olhares trocados entre os dois benzedores, guias partidas e contas espalhadas durante os cortejos, foi travada. Ambos os lados enviaram suas agências numa disputa em que venceu a parte que tinha seus poderes mais bem escorados. A resolução da contenda foi dada com a desistência do benzedor em uma atitude de submissão e deferência à benzedora demonstrada pelo baixar os olhos nos cumprimentos trocados entre ambos durante aquele desfile.

O pedido de bênção denota também o pertencimento ou não à própria festa. É justamente por meio do fato de não mais pedir a bênção que dona Maria Xambá explica a modificação na dinâmica familiar durante a congada após a mudança de religião de suas irmãs e sobrinhos

Uai, lá na casa da minha sobrinha mesmo, sei lá, ela é católica, a menina dela parece que é evangélica, a menina dela não gosta que ela guarda muito as coisa de congo dentro de casa, menina não, moça, porque ela já é moça. Ela de primeiro passava perto da gente e falava "bença". Sei lá, eu acho esquisito, é isso, eu acho que não tem nada a ver, né? Agora não, ela passa perto da gente e fala "oi, você tá boa?" e pronto, não fala "bença" mais. Acho que é isso que está atrapalhando. Minhas irmãs mesmo, minhas irmãs era tudo católica, elas iam lá pro barracão e me ajudava o dia todinho. Agora virou tudo crente, só tem duas que não é e que vai lá no barracão me ajudar. Não pisa lá mais, aí vai e influencia, né? Vai diminuindo. O filho dela dançava e virou crente, tudo virou crente e foi afastando, é isso que vai diminuindo as coisas. [...] Aí eu falei "olha aí gente, eu acho que Deus está em toda religião, tá em toda parte", mas elas não acreditam nos santos e elas não comem as comidas que você fizer. Que nem as comidas que eu faço lá no barracão e essas coisas elas não comem, dizem que não pode, que é pecado e que elas tão pecando. Eu falei então pra elas "cês ficam então do jeito que vocês quer que eu fico pra cá", que eu não ligo com as religião e acho que elas também deveria ser assim. Cada um indo na sua religião, mas Deus sendo um só. Mas pra elas não dá certo. [...] Tenho um sobrinho que chega aí e diz "vocês se vestem tudo de palhaço, quando vocês morrer vocês vão tudo pro inferno, que vestir isso aí é vestir roupa de palhaço".

Ao recusar utilizar uma das principais etiquetas de saudação entre os membros pertencentes às famílias congadeiras e moçambiqueiras, esses familiares de dona Maria Xambá explicitam seu não pertencimento ao terno e demonstraram por meio de suas atitudes e comentários a desconsideração em relação à festa e seus específicos rituais e valores religiosos.

Dona Maria Xambá explica a origem da realização da festa da congada nesse município, bem como o motivo pelo qual somente os moçambiques podem entrar dentro da igreja para cantar e dançar para os santos durante os dias da festa, ao contrário dos ternos de congo:

Essa dança é africana e os santos que eles achou para levar pra igreja o terno de congo passou e levou e ele não ficava na igreja. Aí o moçambique passou e não precisou acompanhar, ela acompanhou o moçambique. Então, portanto, o moçambique entrou na igreja de Nossa Senhora do Rosário, é a dança que pode entrar na igreja. A congada dança pra ela, mas não pode entrar dentro da igreja. Porque ela acompanhou e ela quis mais e eles [moçambiques] ficaram na frente das congadas. Portanto que quando vai buscar uma bandeira, se não tiver um moçambique não pode tirar ela. O congo foi o primeiro a ir visitar a santa. Ela abençoou, deu proteção, achou que estava certo a festa, mas enquanto o moçambique não passou ela não foi. De certo o moçambique chamou mais atenção.

Sempre que questionei a diferença entre os ternos de congo e os ternos de moçambique para algum capitão de terno, diferentes versões desse mesmo mito me foram narradas. No dia 30 de dezembro de 2009, Jéferson, congadeiro do terno Xambá e filho de criação de Rainha Perpétua Geni, notou com grande indignação que um terno de moçambique não iniciou com seu cortejo a procissão daquele dia. Assim, os andores com as imagens dos seis santos da congada seguidos pelo andor da imagem de São Sebastião foram escoltados somente pelos congadeiros e moçambiqueiros que os carregavam em seus ombros, sem que as caixas tocassem nenhuma toada, sem que os ternos de moçambique viessem lhes escoltando. Ao invés disso, o megafone amplificava as palavras e orações de irmão Vicente, ex-moçambiqueiro do terno de moçambique Diamante e responsável pela parte religiosa da festa junto à comissão organizadora da congada.

Jéferson então perguntou para outro moçambiqueiro se ele já tinha visto uma procissão sem o terno de moçambique abrir o cortejo. O dançador respondeu que a festa acontecia em louvor a Nossa Senhora do Rosário, que os negros se organizaram para tirar a santa da gruta, mas ela acompanhou somente os moçambiques, não os ternos de congo. Por isso os moçambiques deveriam vir à frente dos cortejos, da mesma maneira que somente os moçambiques poderiam entrar na igreja para cantar para os santos.

Imediatamente questionei o papel dos ternos de congo nos cortejos e sobre a ordem cerimonial que observei em diferentes contextos quando esses ternos abriam os cortejos sendo seguidos pelos ternos de moçambique, como por exemplo, nas procissões e cortejos para a subida das bandeiras. Eles me responderam que em primeiro lugar deveriam vir os ternos de moçambique e somente então os ternos de congo, o que justificava a indignação de Jéferson não somente em relação a essa quebra ritual devida à ingerência da prefeitura na condução da festa, mas em relação às próprias ações dos congadeiros e moçambiqueiros que permitiam tais desmandos ao abrirem mão do cumprimento de outras ações como deixar de seguir em cortejos pelas ruas para chegar de carro ou ônibus perto do local da festa, não conduzir mais os reis e rainhas de promessa desde a igreja até suas casas após o cumprimento das mesmas, o fato de os ternos terem como fonte de renda somente o auxílio da prefeitura para a realização de seus cortejos e não mais realizarem eventos como bingos e quermesses para a arrecadação de dinheiro para a festa.

A ordem cerimonial dos cortejos segue assim a ordenação mítica de maneira que os símbolos e imagens tidas como sagradas figuram sempre contíguos aos ternos de moçambique. Em determinados rituais os ternos de congo iniciam a sequência dos cortejos sendo seguidos pelos ternos de moçambique, como no caso da subida das bandeiras, porém em outros os ternos de moçambique saíam à frente dos cortejos, como no caso das procissões em que os andores das imagens dos seis santos da congada são conduzidos por diferentes ruas e avenidas da cidade até chegar à igreja da Matriz, conforme as falas de Jéferson.

Essa versão é distinta das explicações que obtive da Rainha Perpétua Geni e da presidenta do terno de congo Maria Xambá. Segundo elas os cortejos devem ser iniciados pelos ternos de congo, que cumprem a função de abrir os caminhos para que os ternos de moçambique, ternos santos, possam por ali passar.

O capitão do terno de moçambique Zambiê de Angola João Victor explica da seguinte maneira a ornamentação e ordem dos cortejos:

A saia do moçambique praticamente vem do nascimento do Menino Deus. Quando o Menino Deus nasceu, quem é católico e quem é observador sabe que o Menino Deus nasceu na Gruta de Belém. E quando o Menino Deus nasceu, isso está escrito lá no presépio pelas entidades do presépio, então as imagens, as criações, o gado, as ovelhas, o boi bento, então ele traz essa entidade do nascimento do Menino Deus no presépio. Então quando o Menino Deus nasceu os Três Reis Magos foi os primeiros a ficar sabendo que o Menino Deus foi nascido, pelo canto de um galo. Então eles se reuniu, os três que é Gaspar, Baltazar e Belchior, os três saíram em busca da Lapa de Belém pra conhecer o Menino Deus. E justamente na viagem deles eles encontraram um rei que não aceitava outro rei. Era ele que queria ser rei, o maior rei. O Menino Deus veio e nasceu, o nascimento Dele, do Rei do Mundo. O outro rei não aceitou, então mandou, tava caçando onde foi que nasceu pra mandar matar. Então os Três Reis Santos passou na casa dele e pediu pouso e ele investigou eles pra ver o que eles estavam fazendo, pra onde estavam indo, pra onde é que eles lá ia. Aí Baltazar escondeu, Belchior escondeu, mas Gaspar falou, que era o mais novo, tinha pouco entendimento, não tinha experiência nenhuma do mundo, ele explicou o que que eles ia fazer. Então ele [rei] mandou um capataz dele ir atrás deles [Três Reis Magos], seguir eles pra ver onde eles ia, pra quando chegasse lá o capataz matasse o Menino Deus. Então no atravessar de uma noite pra outra a escuridão fechou e na hora que eles estavam descansando, os Três Reis descansando e o capataz com eles, junto com eles, surgiu uma claridão no meio da escuridão que foi a Estrela do Oriente. Ela surgiu e guiou, mostrou onde era a Gruta de Belém onde tinha nascido o Menino Deus. Então foi onde os Três Reis se levantou e seguiu a estrela e deixou o capataz dormindo, e ele se perdeu deles. Então os Três Reis Santo começou a viajar de noite e descansava de dia enquanto que o capataz caçava eles de dia e eles estava escondido. Até que chegaram na gruta. Chegaram na gruta e fizeram a apresentação deles que eles tinha que fazer e ficaram sabendo com os conhecidos dali que o Menino Deus estava na gruta e não podia ficar lá, porque lá não tinha nada pra ele, lá só tinha um montinho de capim. Como é que aquela Senhora ia ficar com o Menino Deus ali? Então formaram um terno de congo pra poder fazer a festa, pra poder tirar Ele da gruta, e com o barulho poder intimidar o capataz. Então chegaram no terno de congo batendo e o Menino Deus ficou com medo das caixas e entrou mais pra dentro da gruta, não quis sair. Então chegou o moçambique, com a caixinha só, batendo, os instrumentos fininho no pé, pouco barulho, aquela batida cansada e vestiram de mulher que é aonde tem a saia do moçambique que é pra enganar o capataz. Aí entraram na gruta, o moçambique, como você pode ver que quem entra na igreja é só o moçambique, o congo não entra, então o moçambique entrou lá dentro da gruta e Nossa Senhora entrou dentro do moçambique, tudo vestido de mulher e ela com aquela criança ali no meio, tudo num grupo de mulher.8 O capataz ficou encantado com aquele bando de mulher, mas cadê? Quando vê o Menino saiu. Foi lá pra pegar, mas encontrou essa mulherzada, entrou lá, mas não encontrou nada, e nisso [e faz sinal com as mãos de que as coisas se evanesceram]. Então o moçambique se vestiu de mulher pra enganar o capataz, senão eles não tiravam o Menino da gruta.

O mito da festa da congada9 de Paraíso descortina elementos que estão na base de ser e estar no mundo específicos àqueles que pertencem ao grupo de congadeiros e moçambiqueiros, o que permite o estabelecimento de um sentido comum a esse universo, gerando a compreensão e inteligibilidade das relações estabelecidas entre seus participantes.

O mito estabelece que:

• tais agremiações (congo e moçambique) cultuam Nossa Senhora do Rosário;

• Nossa Senhora do Rosário age no reconhecimento dessa religiosidade;

• Nossa Senhora do Rosário age ao acompanhar os especiais dançadores dos ternos de moçambique;

• a presença e agência da santa atribuem caráter dignitário e sagrado aos grupos por ela escolhidos, e profano quando não há manifestação da santa.

As entrelinhas desse mito descortinam também a existência de um segredo relativo ao motivo pelo qual Nossa Senhora do Rosário escolheu os antigos ternos de moçambique para acompanhá-la, assim os consagrando, ou seja, legitimando o poder e a hierarquia atribuída e reconhecida em relação a eles. A hierarquização estrutural dos ternos que compõem a festa segue também os preceitos do mito fundador da congada. Os antigos moçambiqueiros e congadeiros, ancestrais já falecidos, são referenciados, respeitados e cultuados por todos os capitães dos ternos, reis e rainhas da congada. As novas gerações de congadeiros e moçambiqueiros cumprem obrigação de preservar sob a égide do segredo a "tradição" dos antigos, resguardando para si a posse e administração do sagrado.

Os membros do grupo ligados à "tradição" constituinte da festa da congada, mesmo que espalhados pelo município ou vivendo em outras cidades e estados, compartilham de uma mesma devoção que tem como base o conhecimento adquirido com os antigos e o compromisso consigo mesmo e com as gerações futuras, enquanto disposições incorporadas, dotadas de capacidades criativas e inventivas que se reportam à ancestralidade enquanto memória e possibilidade ativa de comunicação. O respeito e devoção aos antepassados, enquanto agentes do sagrado e intercessores nos ensinamentos e usos de poderes sobre-humanos, permitem o elo entre o passado, presente e futuro do grupo, garantindo sua reprodução e a consequente manutenção dos conhecimentos relativos à festa. Esse é um dos mecanismos sociais que vinculam a experiência pessoal dos agentes do presente à das gerações passadas, de modo que, por meio desse vínculo, a hierarquização e reprodução do grupo seja garantida.

A hierarquia de cada um dos ternos e os critérios para escolha de reis, rainhas e princesas da festa tendem a valorizar o quanto cada um dos agentes está próximo dos ensinamentos e comportamentos dos antigos congadeiros e moçambiqueiros já falecidos, que são os agentes tidos como sagrados. A valorização dos ancestrais está relacionada a africanidade, enquanto forma de ser e estar no mundo, e à depuração da alma que os sofrimentos infligidos pela escravidão proporcionaram aos congadeiros e moçambiqueiros ancestrais. Nesse sentido, não existe ex-dono de terno de congo ou moçambique, uma vez que, para congadeiros e moçambiqueiros, mesmo depois da morte, os donos de terno agem em relação aos dançantes congregados a partir da bandeira daquele terno específico. Essas agências estão vinculadas aos conhecimentos proporcionados pelos segredos que constituem a "tradição" e os "fundamentos" da festa, revelados conforme o grau ocupado por cada participante na hierarquia constituinte do grupo. As pessoas que ocupam a mais alta hierarquia dentro da festa preparam, ao longo de sua própria vida, os futuros capitães, Reis Congo e Rainhas Conga. Isso implica não somente a dedicação e participação dos membros do grupo durante os dias da realização da festa, mas durante o ano todo.

A aproximação dos ternos em relação às coisas próprias da Igreja Católica, no caso a presença e ação de Nossa Senhora do Rosário, pode ser considerada uma forma de realização e apropriação do sagrado10 por parte da congregação leiga mantenedora da festa. Os ternos de moçambique são considerados "ternos santos" no contexto dessa festa da congada de Paraíso. O sagrado é atribuído a esses ternos por meio da designação mítica de escolhidos de Nossa Senhora do Rosário. O relato simbólico expresso no mito autoriza os ternos de moçambique a entrarem cantando e dançando dentro da igreja da Matriz, depois de cantarem para os Reis Congo e Rainhas Conga e Perpétua na porta dessa igreja, durante os dias da festa da congada.

A realização da festa da congada, por ser concretizada em espaço público, acaba delimitando e se constituindo elemento de reconhecimento identitário do grupo de congadeiros e moçambiqueiros em relação a eles próprios, organizados em diferentes ternos e em relação aos demais moradores do município. Em geral, as pessoas moradoras de São Sebastião do Paraíso percebem a festa da congada como uma festa eminentemente católica, vinculada ao ciclo de festejos do Natal. O padre Monsenhor Ilário Pardini, em entrevista à TV Sudoeste durante os desfiles da congada no dia 27 de dezembro de 2003, ao ser questionado sobre a ação da Igreja junto à comunidade, principalmente durante a realização das congadas, declara:

Isso chama-se religião popular, religiosidade popular e demonstra a fé que esse povo tem, uma festa tão grande que eles vêm cantar, à maneira deles, louvar a Deus da maneira deles, cada um tem uma maneira de fazer, não é, então a maneira que eles acham melhor é essa, cantando, dançando, pulando. Davi no Antigo Testamento, o Davi, ele pulava em frente à Arca da Aliança, então o povo também pula e isso é muito bonito, é maravilhoso.

O desenvolvimento e realização da festa circunscrevem-se aos preceitos da Igreja Católica. Contudo, a festa opera uma subversão das relações instituídas dentro do campo religioso (Bourdieu, 1992), lócus onde diferentes religiões estão em permanente processo de disputa em relação à posse e administração do sagrado. Proclamando os ternos de moçambique como "ternos santos", por meio da escolha e ação mítica de Nossa Senhora do Rosário enquanto agente do sagrado, a festa reinventa e rearticula crenças, modelos, conceitos e formas de adesão às religiões ampliando o espectro de possibilidade e significação do que pode ser considerado religioso. Nas palavras do Rei Congo Eurípdes: "Às vezes muitos não sabe, mas enquanto um congadeiro tiver vestido de congo dentro do carçadão, está fazendo a mesma parte religiosa da Igreja. É onde que nós somos da paz juntos."

A festa da congada não é só a quebra espaçotemporal do cotidiano pela instauração liminar do eterno retorno mítico. É também o exercício da margem que esvaece e suspende sua própria borda, e assim tambores, chicotes, pés descalços e gungas ancestrais ganham espaço nas ruas da cidade, dando visibilidade a essa forma específica de rememorar e de ser religioso que reverencia Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia, São Domingos, Santa Catarina e São Jerônimo, lado a lado com Pai João, Pai Benedito, Pai Cambinda, Vovó Cambinda, Vovó Maria Conga, Vovó Catarina, Zumbi dos Palmares e Zambi.11

 

Referências

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Recebido em: 28/02/2012
Aprovado em: 30/07/2012

 

 

1  Ver Cezar (2005, 2010).
2  A bibliografia recente aponta diferentes exemplos de demolição de igrejas centenárias de irmandades negras tendo como justificativa o processo de urbanização e implantação de melhorias nos centros urbanos (Abreu, 1994). Na prática as demolições contribuíram para a segregação de espaços urbanos e expulsão da população negra em direção às periferias das cidades.
3  Os desfiles e cortejos são precedidos pelo ritual de subida das bandeiras, tido como abertura da festa da congada, que acontece no dia 8 de dezembro, e sucedidos pelo ritual de descida das bandeiras, realizado no dia 31 de dezembro, que finaliza o ciclo anual da festa.
4  Terno é o nome mais comum a denominar esses grupos.
5  Quando não é permitido atribuir às pessoas o sangue negro por ascendência familiar é atribuída a alma negra por ascendência espiritual, via reencarnação.
6  Ouvi em diferentes ocasiões a nomenclatura "capitão", "padrinho", "benzedor" referente àquele que cuida tanto dos aspectos religiosos quando da salvaguarda em relação às ameaças de "feitiçaria" e "macumbaria", que são expressamente cerceadas e combatidas durante a congada, pelos próprios padrinhos dos ternos.
7  Em 2007 a Rainha Perpétua Genuita Pereira de Paula, conhecida carinhosamente como Rainha Geni, foi uma das reconhecidas pelo Prêmio Mestres das Culturas Populares Humberto do Maracanã, oferecido pelo Ministério da Cultura.
8  Grifo meu.
9  Versões semelhantes desse mito foram registradas por escrito a partir de diversas congadas do Brasil. Ver Introdução ao estudo do congado, organizado por pesquisadores da Universidade Católica de Minas Gerais (1964). Em Catalão (GO), Brandão (1985) registrou versão semelhante a esse mito e fez sua análise estrutural a partir das discussões e teoria analítica desenvolvida por Lévi-Strauss.
10 As relações sociais estabelecidas entre os sujeitos pertencentes à mesma igreja baseiam-se na distinção entre aqueles que administram e lidam com símbolos ditos sagrados e os demais sujeitos, que geralmente são excluídos dessas funções. Esse tipo de organização social corresponde ao campo religioso (Bourdieu, 1992).
11 Os conhecimentos sobre Zambi ou Nzambi (maior divindade banta) não são facilmente revelados e estão correlacionados às gungas (instrumento musical sagrado feito a partir de pequenas latas de flandres fixadas a uma cinta de couro que se leva no tornozelo) e ao nganga, ou mestre superior, ao qual os ternos dão passagem em seus cortejos. Para referências aos nganga como sacerdotes bantos, ver Slenes (1991-1992).

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