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Horizontes Antropológicos

Print version ISSN 0104-7183On-line version ISSN 1806-9983

Horiz. antropol. vol.21 no.43 Porto Alegre Jan./June 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-71832015000100017 

Resenhas

WILKIS, Ariel. Las sospechas del dinero: moral y economía en la vida popular. Buenos Aires: Paidós, 2013. 192 p.

Moisés Kopper1  *

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil

WILKIS, Ariel. Las sospechas del dinero: moral y economía en la vida popular. 2013. Paidós, Buenos Aires: 192p.


Poucos temas são, ao mesmo tempo, tão clássicos e controversos quanto o dinheiro. Sua exegese analítica foi realizada por gerações de economistas, e sua problematização é concomitante ao próprio surgimento das primeiras grandes teorias sociológicas. Talvez, justamente, por conta dessa passagem – um tanto problemática para a primeira geração de cientistas sociais (ver Simmel, 1998; Weber, 1978) – da economia à sociologia, o dinheiro tornou-se um daqueles “temas” que, à maneira da linguagem, pela sua ambiguidade, viu-se, de um lado, como um objeto de investigação privilegiado e, de outro, como próprio meio pelo qual o objeto poderia ser explicado1 (Hart, 2012).

Em função de sua abstração – ou melhor, do princípio de que o dinheiro apenas se explica pela sua abstração como mecanismo de equivalência e intercambialidade –, a análise sociológica em torno de suas funções esteve muito próxima do significado que adquiria em modelos econômicos hegemônicos: isto é, como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor (Carruthers, 2005; Clarke, 1996, p. 209-211). Por sua vez, a antropologia engajou-se nesse debate a partir do estudo de formas variáveis de dinheiro em sociedades primitivas ou, em todo o caso, não ocidentais (Douglas, 1967; Polanyi, 1957; Zelizer, 2010, p. 97-98).

Apenas na década de 1980, com o surgimento de uma literatura especializada sobre o tema, e a institucionalização da sociologia e antropologia da economia (Neiburg, 2010), o dinheiro volta a ser objeto de investigações acadêmicas das ciências sociais (Hann; Hart, 2011; Smelser; Swedberg, 2005). Os primeiros sinais dessa inflexão se tornam visíveis na tentativa de estender a compreensão do dinheiro para áreas até então não dominadas pelos economistas, com especial atenção para a análise dos efeitos não econômicos da ação econômica (Maurer, 2006; Parry; Bloch, 1989; Zelizer, 1994, 2009, 2010). Os questionamentos passaram a envolver os usos, os efeitos, as apropriações e potencialidades que o dinheiro produziria nas vidas e relações das pessoas no seu cotidiano – o que vinha ao encontro de novas concepções teóricas que percebiam a economia enquanto campo emaranhado e embebido (“embedded”) na vida social. A pergunta deslocava a unilateralidade do dinheiro e o diluía em múltiplas e diversas espécies, ao mesmo tempo em que questionava a existência, insuspeita e homogênea, de sua vertente moderna.

O trabalho de Ariel Wilkis – Las sospechas del dinero: moral y economía en la vida popular – insere-se na esteira dessa tradição. Ao mesmo tempo, provoca o leitor noutra direção, recuperando o desafio de pensar uma sociologia do dinheiro a partir da moeda enquanto peça central da vida social. Resultado de dez anos de investigações etnográficas realizadas na região metropolitana de Buenos Aires, a pesquisa de Wilkis tem, entre seus méritos, o de trabalhar nas fronteiras entre a antropologia e a sociologia, permitindo-lhe privilegiar a riqueza etnográfica dos dados e manobrar com os instrumentos teóricos que potencializam o seu entendimento.

Produto de uma nova geração efervescente de pesquisadores argentinos, muitos dos quais com titulação acadêmica obtida em centros de excelência europeus, Wilkis doutorou-se, simultaneamente, pela École de Hautes Études en Sciences Sociales e pela Universidad de Buenos Aires. Atualmente, é professor de sociologia na Universidad Nacional de San Martín, e cocoordenador do Centro de Estudios Sociales de la Economía (CESE), vinculado ao Instituto de Altos Estudios Sociales (IDAES).

A partir de um estilo livre de escrita – em tom quase ensaístico –, a narrativa de Wilkis mergulha o leitor nas incertezas e negociações cotidianas que permeiam o fluxo da vida e marcam as relações das classes populares com o dinheiro. Sem descurar dos contextos macroinstitucionais que servem de moldura às ações de sujeitos concretos, o autor oferece-nos ferramentas para compreender como o dinheiro articula as experiências pessoais às dinâmicas sociais, econômicas e políticas em que estão imersas.

Observar a dinâmica do dinheiro a partir das classes populares implica lidar, constantemente, com o repertório moral de injunções prescritivas a respeito do seu uso cotidiano. Uma genealogia rápida dessas gramáticas demostraria a evolução histórica dos polos sobre os quais recaem tais “suspeitas”: da figura do usurário (Le Goff, 1989), passando pelas novas burguesias emergentes (Campbell, 2001), até chegar às novas classes médias, resultado das recentes políticas de redistribuição de renda e da expansão do consumo. Wilkis demonstra, com efeito, que a crítica convencional e irrestrita ao cárter corrosivo do dinheiro passa progressivamente a ser substituída por um conjunto de modulações morais que associa a liberdade – isto é, a possibilidade de considerar um campo para a agência – a certas categorias de sujeitos tidas como indesejáveis ou impróprias para exercê-la adequadamente.

Sua sociologia moral do dinheiro tem, pois, um duplo objetivo. De um lado, esforça-se em demonstrar seu caráter positivo, múltiplo e criador, na esteira de uma concepção total do fenômeno (Mauss, 2003), o que fica evidente na própria disposição dos capítulos: dinheiro doado, militado, sacrificado, cuidado, ganhado e emprestado. Como tal, o dinheiro permite uma reflexão e circularidade sobre as diferentes camadas semânticas da vida popular: a filantropia, a política, a religião, o ambiente doméstico, a economia popular e o acesso ao crédito. De outro lado, sua agenda de investigação tensiona-se com o “dinheiro suspeitado”, uma vertente moralizante que considera problemático o seu cruzamento com a religião e a política, e joga dúvidas sobre o dinheiro desinteressado da doação, do sacrifício, do cuidado e do empréstimo.

Na abordagem de Wilkis, a circulação monetária é diretamente proporcional ao reconhecimento de propriedades enquanto virtudes no interior de relações específicas. O dinheiro torna-se o resultado visível e o meio pelo qual os sujeitos medem, comparam, avaliam, hierarquizam e diferenciam pessoas e atos sociais: “El concepto de capital moral se ubica en esta perspectiva: pretende mostrar el dinero como un transporte de virtudes y valores morales en lógicas monetarias plurales.” (p. 28, grifo do autor). Em última instância, portanto, o dinheiro é múltiplo não tanto porque variam seus usos, mas porque coloca à prova, e demanda justificações morais calcadas em ordens de valor distintas. Cada peça de dinheiro aciona hierarquias de virtudes e tipos de reconhecimento que empoderam diferentemente os sujeitos que se situam em seu horizonte; daí porque uma sociologia moral deve, necessariamente, traçar as continuidades e rupturas de seus emaranhados empíricos:

Propongo una sociología moral para capturar las significaciones y los desperfectos del dinero, y así reconstruir las tensiones, los conflictos y los dilemas a los que los hechos monetarios exponen a las personas y sus vínculos sociales. (p. 26-27).

A estrutura do livro reflete essa proposta, e está baseada nas distintas peças de dinheiro que arrematam as narrativas de seus informantes. No primeiro capítulo, Wilkis lança algumas reflexões sobre as implicações do dinheiro doado, a partir de um recorrido de seu trabalho de campo com vendedores da revista Hecho en Buenos Aires (ver também Wilkis, 2008) e uma cooperativa de catadores de lixo, acentuando cenas desveladoras de litígios morais que “se modulan al ritmo de regímenes heterogéneos (y opuestos) de opiniones y sentimientos sobre el dinero” (p. 46).

A partir do segundo capítulo, Wilkis explora outras modalidades de dinheiro, contextualizadas a partir de suas experiências de campo em Villa Olimpia, um bairro periférico que experimentava, ao tempo de seu primeiro contato, um projeto de urbanização que a converteria em um “laboratório monetário” (p. 58). Articulando a agência de lideranças políticas, figuras eclesiásticas e moradores locais, Wilkis reconstitui o campo de tensões que configura o dinheiro enquanto unidade de conta moral. Com particular destreza, consegue reconectar temas caros à sociologia e antropologia do dinheiro, a partir dos marcos de calculabilidade (p. 155) de Mary, sua principal informante, cuja trajetória perpassa a obra. Através de sua narrativa é possível observar as nuances e efeitos empíricos de uma economia popular globalizada, pontuada por mercados e feiras informais, pela financeirização do crédito e oferta de dinheiro, pelos programas de transferências monetárias condicionadas, pela circulação do dinheiro na política popular e pelos novos arranjos familiares e subjetivos que os usos do dinheiro cotidianamente suscitam.

Referências

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2.  CARRUTHERS, B. The sociology of money and credit. In: SMELSER, N.; SWEDBERG, R. The handbook of economic sociology. Princeton: Princeton University Press, 2005. p. 355-362. [ Links ]

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1De fato, o dinheiro e sua materialidade estão na origem das disputas sobre a relação do homem moderno com a história e a subjetividade. Acusado, frequentemente, de aniquilar as relações sociais por meio da produção de equivalências intrínsecas e objetivas, o dinheiro foi largamente considerado como o oposto da produção de sentido – este, necessariamente transcendente e excedente em relação aos objetos e processos a que se refere.

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Doutorando em Antropologia Social. Contato: moiseskopper@gmail.com.

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