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Revista do Departamento de Psicologia. UFF

Print version ISSN 0104-8023

Rev. Dep. Psicol.,UFF vol.18 no.1 Niterói Jan./June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-80232006000100001 

Editorial

 

 

Os artigos reunidos neste número da Revista foram apresentados em 2005 numa série de encontros organizados pelo LAPSO - Laboratório de Psicanálise e Laço Social.

O LAPSO teve sua fundação formalizada junto à Pro-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense neste ano de 2006, mas suas atividades remontam ao ano de 2002, quando os professores do Curso de Especialização em Psicanálise e Laço Social (Pós-Graduação Lato Sensu do Departamento de Psicologia) se reuniram e inscreveram no CNPq o Grupo de Pesquisa "Psicanálise e Laço Social".

A escolha dos nomes e dos temas que compõem este número da Revista ilustra bem o objetivo do Laboratório que é promover a pesquisa, a extensão e o debate em psicanálise na Universidade, pesquisa, extensão e debate que levem em conta a psicanálise, não somente como tratamento ambulatorial e em consultório, mas também a psicanálise como um fato de discurso, isto é, enquanto faz laço social. É tarefa do LAPSO reunir e endereçar esses trabalhos e essas pesquisas a um fórum de debate que possa dar o devidoalcance discursivo que caracteriza a proposta temática deste laboratório - alcance discursivo que caracteriza, no fundo, a própria Psicanálise.

Em março de 2005, teve início a série de encontros com uma mesa-redonda intitulada Psicanálise e Filosofia, para a qual foram convidados os professores Vladimir Safatle, do Departamento de Filosofia da USP, e Claudia Murta, do Departamento de Filosofia da UFES, assim como a psicanalista Ana Lucia Lutterbach-Holck, da Escola Brasileira de Psicanálise, tendo como debatedores os professores Claudio Oliveira e Ricardo de Sá. A este primeiro evento, seguiram-se mesas-redondas sobre "Psicanálise e Arte", "Psicanálise e Psiquiatria", "Psicanálise e Autismo", "Ler Freud Hoje", para as quais foram convidados professores, pesquisadores e psicanalistas de vários estados do Brasil, de diferentes Universidades e de distintas Instituições Psicanalíticas. A série de eventos culminou com a vinda do filósofo italiano Giorgio Agamben, que no dia 27 de setembro de 2005 ministrou, dentro da programação do Laboratório, a conferência "Oikonomia: sobre a gênese teológica do governo" .

A conferência do filósofo italiano situa-se dentro do projeto de uma tetralogia à qual o autor deu o título Homo Sacer. Como o próprio Agamben explica em entrevista concedida à argentina Flavia Costa, e que publicamos neste número da Revista, ao primeiro volume (O poder soberano e a vida nua, publicado em 1995, e lançado no Brasil, pela Editora UFMG, em 2002) seguirá um segundo, que terá a forma de uma série de investigações genealógicas sobre os paradigmas (teológicos, jurídicos e biopolíticos) que têm exercido uma influência determinante sobre o desenvolvimento e a ordem política global das sociedades ocidentais. O livro Estado de Exceção (publicado em 2003 e lançado no Brasil em 2004, pela Editora Boitempo) não é senão a primeira destas investigações, uma arqueologia do direito que, por evidentes razões de atualidade e de urgência, foi antecipada em um volume a parte. Porém, inclusive aqui, o algarismo II, indicando a seqüência da série, sinaliza que se trata unicamente da primeira parte de um livro maior, que compreenderá um tipo de arqueologia da biopolítica sob a forma de diversos estudos sobre a guerra civil, a origem teológica da oikonomia, o juramento e o conceito de vida (zoé) que estavam já nos fundamentos de Homo Sacer I. A conferência apresentada na UFF encontra-se dentro do plano deste segundo volume. O terceiro volume, que contém uma teoria do sujeito ético como testemunha, apareceu no ano de 1998 com o título Ciò che resta di Auschwitz. L'Archivio e il testimone (ainda inédito no Brasil). No entanto, talvez será somente com o quarto volume que a investigação completa aparecerá sob luz própria. No centro desse quarto livro estarão os conceitos de forma-de-vida e de uso. O que ali está posto em jogo é a tentativa de capturar a outra face da vida nua, uma possível transformação da biopolítica em uma nova política.

No texto que enviou para este número da Revista, e que não está explicitamente dentro do plano de investigações de Homo Sacer, embora não seja sem relações com o que aí investiga, Giorgio Agamben mostra-nos como Aristóteles procurou confrontar-se exaustivamente com as ambigüidades e as aporias da sua teoria da potência. A figura da potência que ele extrai dessa leitura obriga-nos a repensar não apenas a relação entre a potência e o ato, entre o possível e o real, mas também a considerar de uma forma nova, na estética, o estatuto do ato da criação e da obra, e na política, o problema da conservação do poder constituinte no poder constituído. Apresentamos o texto em sua versão original acompanhado da tradução para o português para que os leitores possam verificar o quanto a tradução foi feliz na tarefa árdua de traduzir o texto de um autor que explora como poucos a potência da língua. A categoria de potência, aliás, atravessa muitos dos primeiros livros de Agamben, como Bartleby, la formula della creazione, publicado em 1993. Dessa primeira fase de sua obra, foi publicado, em 2005, no Brasil, Infância e História, pela editora UFMG.

As interfaces entre filosofia e psicanálise são discutidas sob diferentes perspectivas em três dos trabalhos aqui reunidos. No primeiro artigo sobre este assunto, A Ciência e a Angústia, Cláudio Oliveira reflete acerca da relação entre a ciência, a angústia e o nada, articulando as leituras de Heidegger e de Lacan. O autor afirma que Lacan e Heidegger abordam de modo semelhante o problema da ciência, uma vez que se pode entrever, no trabalho de ambos, a afirmação de que o desconhecimento da angústia por parte da ciência deve-se a algo que Lacan chamou de foraclusão e que, na filosofia heideggeriana, aparece como "o não querer saber do nada". Segundo Cláudio Oliveira, Lacan e Heidegger indicam que o nada pode ter efeitos, pode ser causa, por exemplo, da angústia.

Vladimir Safatle assina o artigo Sexo, Simulacro e Políticas da Paródia. Nesse texto, a interface entre psicanálise e filosofia é trabalhada a partir da discussão da noção deleuziana de humor como um modo de dizer a verdade, que é da ordem do sexual, e como uma forma de crítica à submissão do desejo à Lei. A discussão sobre o humor no enfoque deleuziano é aproximada das teses lacanianas sobre o semblante e a estrutura do fetiche com a finalidade de indicar as limitações da crítica tal como é pensada pelo filósofo Gilles Deleuze. A noção de paródia é tratada pelo autor como um dos desdobramentos possíveis deste debate.

O terceiro trabalho sobre este tema é o de Claudia Murta. No artigo O Amor entre Filosofia e Psicanálise, a autora busca tratar a condição do amor como ponto de interferência entre Filosofia e Psicanálise. Seguindo o aforismo lacaniano segundo o qual "não há relação sexual", a autora afirma que o amor é uma suplência possível para a relação sexual impossível, assim como se apresenta como um campo possível para articular a relação impossível entre Filosofia e Psicanálise.

A relação arte e psicanálise é o fio condutor que reúne os trabalhos de Tania Rivera e de Edson Luiz André de Souza. Cinema e Pulsão: sobre "Irreversível", o trauma e a imagem é o título do texto de Tania Rivera. A autora discute o estatuto da imagem na contemporaneidade, indicando a potencialidade traumática da imagem através da noção freudiana de lembrança encobridora. Tania parte de uma análise do filme "Irreversível", dirigido por Gaspar Noé, para colocar em questão que se trata na imagem - diz respeito à ligação entre sexo e violência - e que talvez não possa ser contado, mas apenas repetido.

Noite e Dia e Alguns Monocromos Psíquicos é assinado por Edson Luiz André de Souza. Neste trabalho, o autor apresenta uma bela leitura de um conto de Jack London - A Sombra e o Brilho - para examinar o jogo entre a identidade e a diferença, problema abordado através de referências literárias, artísticas e também à obra de Lacan.

Em A Letra e o Significante: Nome Próprio na Psicose, Mariluci Novaes, professora do Instituto de Letras da UFF, discute temas que atravessam os campos da psicanálise, da lógica e da lingüística para mostrar que, se o psicótico algumas vezes reage mal ao seu nome, é porque talvez ele se reconheça mal nas injunções da Lei, da língua, da cultura e do desejo.

Antônio Teixeira assina o artigo Entre signo e significante: a Esquizofrenia Incipiente segundo Conrad. Neste trabalho o autor trata da atualidade das pesquisas de Conrad que "propõe pensar o desencadeamento psicótico nos termos da estrutura formal da percepção delirante".

A Incidência Real da Causa na Psicanálise, de Fernanda Costa-Moura é um artigo que trata da articulação da noção de causa na psicanálise, tendo como referência o Seminário A Angústia de J. Lacan. A autora conclui que a revisão da noção de causalidade proposta por Lacan instaura uma dimensão original de tal noção.

Por fim, na seção EVENTOS, os leitores poderão conferir os trabalhos apresentados em congressos científicos por alunos de graduação e pós-graduação em parceria com os professores orientadores.

 

Marcia Moraes

Claudio Oliveira