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Revista do Departamento de Psicologia. UFF

Print version ISSN 0104-8023

Rev. Dep. Psicol.,UFF vol.18 no.2 Niterói July/Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-80232006000200010 

Cidadania, trabalho e criação: exercitando um olhar sobre projetos sociais

 

Citizenship, work and criation: exercising a view upon social projects

 

 

Ângela Maria Dias FernandesI; Andréia Maia Accioly Moura, Diana Jaqueira Fernandes; Gabriela Fernandes Rocha; Greta Cataline de Vasconcelos Luna; Tereza Lidiane de Oliveira BarbosaII

 

 


RESUMO

Este texto pretende trazer algumas interrogações sobre os temas "cidadania", "trabalho" e "criação" e as formas como atravessam os projetos sociais que utilizam a arte como mediadora da atividade educativa, na Grande João Pessoa. Para tanto, parte de uma análise a respeito dos princípios filosóficos e pedagógicos que orientam esse campo de intervenção e da categoria de "risco social" utilizada, freqüentemente, nos discursos dirigidos às camadas empobrecidas da população. A partir de um mapeamento de onze projetos sociais que atuam com arte, o foco foi dirigido para um dos projetos – a Escola Piollin. A pesquisa, circunscrita enquanto investigação qualitativa identifica a existência de uma tensão na constituição das práticas e dos discursos. Neste percurso investigativo, focaliza a fala dos diversos atores sociais (coordenadores de projetos, educadores e alunos) buscando revelar alguns caminhos no ensino da arte dirigido às crianças, adolescentes e jovens das classes populares.

Palavras-chave: Arte e Educação. Projetos Sociais. Pesquisa Qualitativa.


ABSTRACT

This text intent to bring any questions about the themes "citizenship", "work" and "creation" and the forms how go through the social projects that use the art like educative activity's mediation, in great João Pessoa. Therefore, leave from analise about philosophycs and educatives principles that guide this investigation's field and from category of "social risk" used, frequently, in the discourses applied to population's poor classes. From survey on of eleven social projects that perform with art, the focus was applied to one of those projects – the Piollin School. The research, delineated while qualitative investigation, identify the existence of a tension in constituition of practices and discourses. This investigative trajectory focus in the discourses of social actors (projects' director, educator and students), looking for reveal any ways in the art's teaching, applied to children, adolescents and youth of popular classes.

Keywords: Art and Education. Social Projects. Qualitative Research.


 

 

INTRODUÇÃO

O ensino da arte voltado para crianças, adolescentes e jovens das classes populares tem sido colocado, principalmente pela mídia, como uma estratégia para "tirar crianças das ruas", "controlar a violência nos grandes centros urbanos" ou mesmo como proposta de ação junto à população em "situação de risco social". Os projetos sociais têm sido os principais responsáveis pelo desenvolvimento de atividades artísticas junto às camadas empobrecidas da população, sendo o espaço de práticas onde esse discurso busca legitimidade.

O texto aqui apresentado pretende interrogar essas afirmações colocando em relevo as tensões que este discurso provoca, tendo como base a pesquisa "Arte, Educação e Projetos Sociais: efeitos sobre os modos de ser e viver de crianças, adolescentes e jovens das classes populares" 1 que vem sendo realizada na Grande João Pessoa, desde agosto de 2004. Essa pesquisa se circunscreve no campo da investigação qualitativa afirmando uma possibilidade de intervenção nesse discurso que vem sendo naturalizado a partir das próprias práticas desenvolvidas. Na Grande João Pessoa foram localizados onze projetos sociais2 que utilizam à arte como mediadora, e realizado um mapeamento de seus fundamentos filosóficos e pedagógicos. A partir de janeiro de 2005 as atividades da pesquisa ficaram centradas em um desses projetos sociais - Escola Piollin - que se apresentou como um espaço produtivo para as interrogações aqui anunciadas. Desde a primeira abordagem feita pela equipe da pesquisa essa organização demonstrou uma abertura para a investigação desses aspectos de tensionamento solicitando uma avaliação qualitativa dos impactos de seu trabalho. Nessa segunda etapa as ações de investigação estiveram articuladas a um projeto de extensão que vem sendo desenvolvido nessa organização pela mesma equipe da UFPB3.

 

CIDADANIA ATRAVÉS DA ARTE? REFLEXÕES SOBRE ORGANIZAÇÃO POPULAR, POBREZA E ASSISTÊNCIA SOCIAL

Os projetos sociais aparecem com maior relevo no cenário de práticas educativas, no Brasil, a partir da década de 90. São implementados por entidades que constituem o Terceiro Setor e se caracterizam como Organizações Não-Governamentais (ONGs), associações comunitárias, fundações, ou entidades filantrópicas e outros. Esse grupo heterogêneo converge quanto ao objetivo de suas ações: promover o exercício da cidadania. Hoje, as áreas temáticas de maior interesse dessas organizações são problemáticas sociais como: violência contra a mulher e outras questões de gênero e raciais; controle da gravidez prematura e ações contra a transmissão da AIDS e defesa dos soropositivos; assistência a meninos e meninas residentes nas comunidades pobres ou que vivem e trabalham nas ruas. As organizações do terceiro setor se definem com fins públicos, ou seja, sem fins lucrativos, e suas ações estão especialmente no nível do poder local, no meio urbano e na gestão de cidades. (GOHN, 2000).

Segundo estudos desenvolvidos a respeito da organização popular e dos movimentos sociais, essas organizações surgem nos anos 80 quando se iniciou uma série de reivindicações por direitos, configurando-se a partir das lutas sociais um novo espaço de interlocução entre o Estado e a sociedade civil. As entidades que se constituem nesse processo trazem como marca a participação militante e o interesse na reconstrução democrática do país.

Nos anos 90, o aprofundamento das estratégias neoliberais de constituição do Estado Mínimo, através da restrição das ações de assistência social e as transformações no setor produtivo da sociedade, geraram mudanças nas políticas públicas, implantando um novo modelo de desenvolvimento pautado na transferência de serviços da área social para o setor privado sem fins lucrativos. Assiste-se a criação de uma esfera pública não-estatal, que reproduz as políticas públicas, mas não compõe o Estado. Conforme aponta Gohn, a partir dessa década pode ser identificada a atuação organizada da sociedade civil em atendimento a essa demanda através de Organizações Não-Governamentais. Destaca-se, neste grupo aquelas organizações oriundas ou herdeiras da cultura participativa, identitária e autônoma dos anos 70/80 articuladas aos movimentos sociais reivindicatórios e de expressão cultural e as organizações mais propositivas que atuam segundo uma lógica mais integrada às políticas neoliberais (GOHN, 2000, p. 62).

No processo de captação de recursos por essas organizações são desenvolvidos alguns programas governamentais em parceira com prefeituras e governo estadual e federal. As políticas públicas vão sendo dessa forma pulverizadas e a assistência à população passa do campo do direito para o da filantropia. Como conclui Gohn, "os novos cidadãos se transformaram em clientes de políticas públicas administradas pelas entidades do terceiro setor" (GOHN, 2000, p. 69). Constitui-se uma cultura política baseada na desmobilização das lutas por direitos que tende a reforçar as políticas assistenciais e compensatórias.

Esses programas governamentais são dirigidos às camadas populares e, conforme dados da atual pesquisa, apontam em seu discurso a finalidade de afetar as crianças, adolescentes e jovens em situação de risco social. Essa definição vem sendo problematizada, dado que é produzida a partir de uma associação direta entre pobreza e marginalidade como demonstram os estudos de Coimbra (2001) e Coimbra e Nascimento (2003). Na sociedade capitalista, a pobreza passou a ser naturalmente percebida como sinônimo de ociosidade, vadiagem, vícios e criminalidade. Dessa maneira, crianças, adolescentes e jovens pobres estariam pré-destinados a representar um "perigo social". De acordo com estas pesquisado-ras, tal idéia foi sustentada no século XX, pelas teorias racistas, eugênicas e higienistas, sendo até hoje disseminada.

É corrente na sociedade brasileira a construção de discursos e práticas apoiados nestas concepções preconceituosas, principalmente dirigidas à juventude pobre, que além de não ter seus direitos garantidos, é vista como uma ameaça ao bem-estar social. Segundo a ótica do capitalismo, existem alguns "modelos e nor-mas" que garantem o reconhecimento e a aceitação, como por exemplo, o emprego fixo e a família organizada. Aqueles que não obedecem à essas exigências são olhados com desconfiança, estigmatizados, evitados e afastados do convívio social. (COIMBRA; NASCIMENTO, 2003).

A população empobrecida é, também, marcada pela perversidade do trabalho infantil intimamente relacionado às deficiências do sistema educacional e à ausência de políticas públicas que respondam às suas necessidades de sobrevivência. O governo brasileiro pressionado, principalmente no cenário internacional, criou, na década de 90, segundo Alberto (2003), dois programas sociais: Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda (PRONAGER) e Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI).

O PETI foi implantado em 1996, tendo como meta a permanência das crianças e adolescentes (07 a 14 anos) nas escolas e o afastamento do trabalho infantil, através da implantação de um programa de distribuição de bolsas (R$ 40,00 para a zona urbana e R$ 25,00 a zona rural). Tal programa prevê a organização de pólos para a jornada ampliada, com atividades recreativas, esportivas, artísticas e culturais ou de reforço escolar freqüentados pelas crianças e adolescentes em horário complementar ao da escola. Também é prevista a promoção social das famílias por meio de ações sócio-educativas e de ampliação e geração de renda. A jornada ampliada, em várias localidades onde a escola ou o próprio município não contam com uma estrutura satisfatória, é organizada através de ONGs e outras entidades que compõem o Terceiro Setor por meio de parcerias.

Em João Pessoa, este programa foi implantado em abril de 2000, focalizando as crianças e adolescentes catadores de lixo no "Lixão do Roger", sendo atendidas naquele momento 846 famílias, incluindo 1431 crianças e adolescentes registradas como trabalhadores precoces (ALBERTO, 2003).

Nesta pesquisa, o PETI ganhou importância em função da parceria com os projetos sociais. Na Escola Piollin, projeto para onde o trabalho da pesquisa foi dirigido na segunda etapa, vem sendo objeto de estudo os atravessamentos que tal programa produziu na dinâmica da atividade educativa. Desde início de 2005, a equipe de profissionais da escola voltou-se para a construção de uma proposta de atuação para aquele ano que revelou alguns elementos de uma tensão existente no processo de definição de seus objetivos e estratégias. As discussões sobre os temas da profissionalização, da arte e da cidadania encontraram neste espaço de práticas um campo potente para as investigações aqui priorizadas.

No que diz respeito à concepção de arte, a busca central é do reconhecimento dos caminhos divergentes no conjunto de projetos sociais atravessados pela ideologia do terceiro setor. Seguindo perspectivas diferentes de alinhamento às exigências contidas nas propostas de financiamentos, surgem desde propostas que qualificam a arte como processo de criação, até aquelas que a utilizam como instrumento de adaptação da pobreza à lógica de funcionamento neoliberal da sociedade.

Assim, seguindo um caminho de definição sobre a arte, a criação pode ser concebida como invenção, ou como nos diz Ostrower (2002) como formação de algo novo. "O ato criador abrange, portanto, a capacidade de compreender: e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar" (OSTROWER, 2002, p. 9). A atividade artística coloca em questão o ser humano que assiste e repete o caminho trilhado por outrem. Atravessada pela perspectiva da intervenção, a arte como criação circula entre os homens, as coisas e as palavras dando sentidos, produzindo enunciados. Como afirmam Faria e Garcia (2002), "ao transformar as coisas, o homem se transforma, em um processo dinâmico, no qual recria as coisas e a si mesmo" (FARIA; GARCIA, 2002, p. 48).

Em outra formulação, seguindo uma via utilitarista, a arte se afirma como elemento de fixação do sujeito através de estratégias restritivas do próprio ato criador. Aprisionada, muitas vezes em atividades repetitivas, a atividade artística conspira contra a própria condição humana, e sua capacidade de intervenção no mundo.

Na seqüência deste texto serão investigadas pistas que demonstram a existência de um tensionamento nesse conjunto de discursos e práticas sociais se constituindo como um campo de forças onde atuam interesses e concepções diversas no que diz respeito às políticas públicas, educação e arte. O foco será colocado, principalmente, sobre a definição dos objetivos dos projetos sociais e da clientela atendida. Dois temas aparecem como fundamentais: a utilização da expressão "situação de risco social" e a profissionalização através da arte.

 

ALGUNS ENUNCIADOS METODOLÓGICOS

Os procedimentos metodológicos utilizados nesta pesquisa articulam as contribuições da Análise Institucional (LOURAU, 1993) e a construção teórica de Gonzalez Rey (2002) que valoriza o olhar que se produz sobre o campo de investigação, trazendo como contribuição o conceito de indicador. Gonzalez Rey aponta que na pesquisa que busca focar as subjetividades no momento e no processo de sua produção, a ação daqueles que investigam é fundamental, assim como a participação de todos os sujeitos envolvidos. Neste processo de investigação, o foco está localizado nas formas de conceber o trabalho social e educacional por parte dos onze coordenadores dos projetos investigados na Grande João Pessoa e, particularmente, dos educadores da Escola Piollin e nos efeitos do trabalho sobre os modos de ser e viver de crianças, adolescentes e jovens de classes populares.

O conceito de indicador aqui é tratado como uma ferramenta, que auxilia na construção de cada instrumento. Os elementos do campo da investigação - objetos, práticas, sujeitos – são contextualizados, provocando o surgimento das principais interrogações, aquelas que indicam caminhos.

Com isso, nessa opção metodológica, não existe um dado objetivo a espera da pesquisa, tampouco, uma teoria que será construída ao final. A investigação, que pretende ouvir a fala dos sujeitos no mundo, entende que essa fala, esse sujeito e esse mundo se inventam, inventando o própro conhecimento.

Um trabalho de sistematização, centrado nos objetivos gerais do projeto social, na tarefa pedagógica e na visão sobre o educando, sua possibilidade de aprender e produzir conhecimento traz alguns destes elementos, norteando a construção de instrumentos, capazes de revelar os efeitos das atividades sobre os modos de vida de crianças, adolescentes e jovens. As temáticas assim reveladas se fizeram presentes em todos os momentos e etapas da pesquisa.

Questionários semi-estruturados e reuniões dinamizadas4 foram os instrumentos que permitiram recolher informações de modo a iluminar esse campo de produção de subjetividades. Lourau (1993) e Gonzalez Rey (2002) chamam atenção para a importância da discussão e análise coletiva do material, valorizando o processo de restituição. As respostas aos questionários não são tomadas como verdades totalizantes, mas como discursos que devem ser contextualizados e confrontados sendo prevista pela própria metodologia da pesquisa/intervenção uma ação coletiva sobre as informações coletadas individualmente.

Nesse sentido, foram organizados vários momentos de coletivização de todas as informações provenientes das ações de investigação. A realização de uma reunião com coordenadores dos projetos sociais visitados, ao final da primeira etapa da pesquisa, permitiu a apropriação coletiva das informações, resultando no mapeamento dos fundamentos filosóficos e pedagógicos, considerado como um importante instrumento na contextualização das práticas ligadas ao ensino da arte. Nesse momento, foi possível a definição dos indicadores que nortearam o início do trabalho na Escola Pollin. Essa contextualização foi fundamental para o desenvolvimento da segunda etapa da pesquisa, dado que favoreceu o reconhecimento do campo ao qual essa organização se refere. Na segunda etapa do processo investigativo, a abordagem dos educadores da escola foi realizada através de um questionário semi-estruturado construído com base nesses indicadores. No encontro com a equipe para análise das informações que sistematizavam o olhar dos educadores sobre sua prática, foram definidos os indicadores para análise dos efeitos do trabalho educativo nos alunos. Um terceiro instrumento foi, a partir daí, construído buscando o olhar das crianças, adolescentes e jovens sobre sua relação com a Escola Piollin. Todo esse material foi ao final dessa etapa reunido e restituído ao conjunto de educadores, coordenação e profissionais de apoio da escola.

A articulação com o projeto de extensão já citado anteriormente, permitiuavançar neste processo de investigação/intervenção. É importante frisar a perspectiva da equipe da escola no sentido do enfrentamento de conflitos dando visibilidade a algumas instituições que atravessam esse campo de práticas sociais.

 

O MAPEAMENTO DOS PROJETOS SOCIAIS COMO PRIMEIRO PASSO

A abordagem dos projetos se fez através da aplicação de um questionário semi-aberto, contendo dez questões divididas em três partes: 1 - identificação do projeto, incluindo o objetivo principal; 2 - caracterização da clientela; 3 - desenvolvimento do projeto, incluindo modos de funcionamento, dificuldades encontradas e avaliação das ações. Este questionário foi elaborado com o objetivo de sistematizar os fundamentos pedagógicos e filosóficos dessas iniciativas através de um procedimento formal. Na compilação dos resultados, as respostas subjetivas, quando possível, foram agregadas por temática. As respostas a cada questão deram origem a um gráfico para melhor apreensão do conjunto de informações.

Após a aplicação, compilação e análise preliminar das respostas ao questionário foi realizada a reunião dedicada à restituição do material aos coordenadores dos onze projetos sociais que foram visitados. A apreciação dos resultados foi seguida de um debate a partir das seguintes questões, que constituíram a estratégia de intervenção naquele grupo:

1. Podemos afirmar que o que nos une é a "arte". De que arte estamos falando? Profissão. Direito. Cultura. Prazer. Criação. Do que, de fato, estamos falando?
2. Os Projetos Sociais costumam aparecer nos programas de televisão como sendo uma forma de tirar a criança da rua ou do tráfico de drogas. Vocês acham isso adequado? A expressão "crianças e jovens em situação de risco social" tem que significado?
3. A relação com as famílias aparece como uma questão importante na dinâmica dos projetos. Como é vista essa relação? Como podem ser apontados novos caminhos?

Os resultados dos questionários serão apresentados a seguir, entremeados pelos debates ocorridos com os coordenadores na reunião de restituição, constituindo-se como produto um mapeamento dos onze projetos sociais que trabalham com arte na Grande João Pessoa e que integraram o campo dessa pesquisa.

As atividades realizadas pelos onze projetos pesquisados são bastante diversificadas. Nesse conjunto foram encontradas as seguintes modalidades de trabalho com arte, desenvolvidas na sua grande maioria como oficinas: teatro, música, capoeira, moda, sensibilização, artes plásticas, confecção de adereços, percussão, confecção de brinquedos, empalhamento de cadeiras, reforço escolar, informática, educação física e esportes, crochê e pintura em tecido. Um desses projetos desenvolve seus trabalhos ligados à evangelização, enquanto que um outro parte de temas relativos à saúde.

As equipes de profissionais são constituídas de educadores ou professores sendo que, na sua maioria, não há uma exigência de formação acadêmica na área de atuação específica. Em quase todas as equipes existe a participação de profissionais de apoio como pedagogo, assistente social e psicólogo. Dois projetos con-tam exclusivamente com trabalho voluntário.

O atendimento é dirigido a crianças, adolescentes e jovens, contabilizando um total de 1960 participantes de acordo com o que foi indicado nos questionários.

De todos os projetos somente um não recebe apoio financeiro de nenhuma instituição. Os demais recebem financiamento direto de organizações nacionais ou estrangeiras além de parcerias estabelecidas com a administração pública ou diretamente com pessoas físicas.

Os projetos sociais visitados indicaram que seu trabalho estava voltado para o desenvolvimento da cidadania através da arte (28%) e para a garantia do direito ao contato com a arte (27%). No entanto, na discussão gerada na reunião de restituição, o grupo presente acatou a afirmação trazida por um dos projetos na modalidade de resposta aberta que indicava como fundamental no seu trabalho o desenvolvimento da consciência do ser associada a melhoria da qualidade de vida. Essa última colocação, que mobilizou os debates entre os coordenadores, focalizava o indivíduo e suas experiências subjetivas, enquanto os temas cidadania e direito, trazidos no momento de resposta ao questionário, demonstravam uma maior preocupação na relação deste sujeito com a sociedade.

A profissionalização mobilizou o grupo mantendo-se uma divisão quanto a possibilidade de direcionar as atividades artísticas e culturais, que caracterizavam os projetos para a inserção no mercado de trabalho. Apesar de só contabilizar 17% das respostas este tema apareceu como polêmico.

Quanto ao efeito esperado com o trabalho educativo, os projetos pretendem aumentar a capacidade de expressão e criação (42%) e mudar a qualidade de vida das crianças, adolescentes e jovens (33%).

A exigência de matrícula na escola pública apresentou-se como um tema também polêmico, dado que para alguns coordenadores esse poderia ser fator de exclusão das crianças, adolescentes e jovens que procuram o projeto social (36%). O grupo definiu sua clientela como sendo composta de moradores de áreas pobres, sendo que 55% afirmaram a possibilidade de estarem comprometendo-se com a manutenção do aluno na escola regular, ao fazerem a exigência da matrícula. Essa colocação foi também justificada como sendo prerrogativa dos órgãos financiadores.

Na discussão dos resultados, se impôs como importante relacionar as assertivas que mapeavam os objetivos dos projetos e a forma como definiram o grupo social para o qual o trabalho é dirigido. "Prevenir a marginalidade social" e "tirar a criança e os jovens das ruas", não foram assertivas consideradas como relevantes do ponto de vista da fala dos coordenadores. No entanto, ao categorizar as crianças, adolescentes e jovens com os quais trabalham, utilizaram, de forma bastante expressiva, a formulação de risco social. Na reunião de restituição, foi levantada uma discussão acerca desse tema, e todos os coordenadores de projetos presentes foram unânimes em afirmar que esse termo era utilizado comumente com o intuito de se igualar ao discurso da mídia, buscando assim uma comunicação com os órgãos financiadores. Alguns coordenadores, ainda, reafirmaram essa justificativa colocando que estavam referindo-se ao estado de vulnerabilidade do grupo social assistido, em função de suas precárias condições de vida.

Todos os projetos pesquisados afirmaram que os alunos são bastante criativos, embora, para 55%, podem ser encontradas limitações nas condições de aprendizagem, talvez por defasagens produzidas pela baixa qualidade do ensino público. A articulação com a escola foi identificada como uma preocupação, sendo que no debate o grupo apontou dificuldades em organizar atividades em parceria. O mais comum é a utilização do espaço físico da escola. Há uma expectativa de que o trabalho com arte repercuta no processo de escolarização melhorando as condições de aprendizagem, intervindo na formação da criança (respeito, cidadania, independência, aumento da auto-estima, conhecimento artístico, convivência em grupo, etc.), ou ainda, diminuindo a resistência em relação à escola.

A maioria dos projetos assume a existência de evasão associada, principal-mente, a necessidade de o aluno trabalhar para ajudar a família. Outros acontecimentos que podem estar relacionados à evasão são: a mudança de local de moradia e deficiências do próprio projeto.

As principais dificuldades encontradas, dizem respeito a limitações financeiras; a problemas no envolvimento das crianças, adolescentes e jovens (por não saber ler e escrever, por violência familiar ou por falta de estímulo) e às próprias características e organização do projeto, sendo apontados, a inadequação do espaço físico, o trabalho desenvolvido por voluntários e a precariedade na formação dos educadores.

Ao final dessa reunião foi indicado pela equipe da pesquisa o projeto no qual ficaria centrada a etapa seguinte da pesquisa, que seria a Escola Piollin. Trata-se de um projeto social constituído há cerca de 28 anos, inicialmente como escola de teatro. No primeiro semestre de 2005, a organização contava com uma equipe formada por doze educadores e cerca de cento e setenta alunos, promovendo atividades artísticas através de seis oficinas: moda, capoeira, teatro, reforço escolar, circo e música. Este projeto é mantido com verbas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) e, naquele momento contava com um convênio com o Fundo de Incentivo à Cultura. Alguns profissionais (educadores e funcionários) são cedidos por órgãos da Prefeitura ou do Governo do Estado.

A partir das discussões surgidas na reunião de restituição, reunindo coordenadores dos projetos sociais, foram construídos os instrumentos a serem utilizados na Escola Piollin para abordagem dos educadores, iniciando-se a segunda etapa da pesquisa. O trabalho de coleta de informações junto aos alunos incorporou os indicadores definidos a partir das respostas dos educadores e do procedimento de coletivização. Devido à importância dada ao "desenvolvimento da consciência do ser", como objetivo do projeto, segundo o debate ocorrido entre os coordenadores, este foi considerado um indicador a ser investigado, assim como o tema da profissionalização e da formação para o trabalho.

 

A ESCOLA PIOLLIN EM FOCO –ALGUMAS INTERROGAÇÕES SOBRE CIDADANIA, TRABALHO E CRIAÇÃO.

A fala dos educadores da Escola Piollin

A abordagem dos educadores foi realizada por meio de um questionário semi-estruturado onde foram investigadas as seguintes temáticas: o objetivo principal da Escola Piollin; o efeito esperado nas crianças e jovens a partir das atividades desenvolvidas; a definição do grupo social com o qual trabalham; a visão dos educadores acerca das possibilidades de aprendizado das crianças e jovens; a expectativa de repercussão no processo de escolarização formal; os efeitos do trabalho da Escola Piollin na comunidade atendida; e o significado para o educador do trabalho com arte.

Na seqüência deste texto será apresentada uma síntese dos resultados obtidos através desse instrumento.

Com relação ao objetivo principal do projeto os educadores consideram mais importante a perspectiva de desenvolver cidadania através da arte (34%). A assertiva "desenvolver a consciência do ser, melhorando a qualidade de vida", que foi considerada um indicador definido na etapa anterior, foi bastante relevante, com 33%. "Garantir o direito ao contato com a arte" foi indicado por 17% e "dar uma alternativa e prevenir a marginalidade social e o tráfico de drogas" recebeu 8% das respostas.

Na abordagem dos coordenadores dos projetos, a opção "profissionalizar" foi escolhida em grande número, e nesse estudo com os educadores essa resposta não aparece. Esse dado suscita uma reflexão acerca das diferenças entre os objetivos citados pelos coordenadores no mapeamento dos projetos e pelos educadores da Escola Piollin.

Outro ponto importante é no que diz respeito ao efeito esperado a partir do trabalho desenvolvido, principalmente, nas oficinas de arte. A grande maioria das respostas está relacionada ao "desenvolvimento da auto-estima e da autonomia das crianças e jovens" (41%) e "mudança no comportamento, diminuindo a violência" (25%).

O terceiro tema, que diz respeito à definição do grupo social com o qual trabalha, houve uma opção da maioria pela elaboração de respostas abertas. Três educadores definiram os alunos como pertencendo a um grupo social "abaixo da linha da pobreza, miserável". Quatro educadores colocaram respostas que foram agrupadas da seguinte forma: "crianças e jovens de baixa renda, carentes, desvinculadas do meio artístico e marginalizadas, envolvidas com o mercado formal e de baixa condição de vida". Os três últimos educadores responderam tratarse de "crianças e jovens em situação de risco social".

Quanto ao questionamento sobre as possibilidades de aprendizagem dos alunos, 70% responderam que estes são "criativos, com possibilidade de aprender". Apenas 30% apontaram a existência de limitações nas condições de aprendizagem.

No que diz respeito à repercussão do trabalho na aprendizagem dos alunos, 80% das respostas assinalaram uma "melhora na formação da criança e do jovem em termos de cidadania, convivência em grupo e respeito ao próximo".

Com relação ao questionamento do envolvimento das famílias nas atividades da Escola Piollin, todos os educadores afirmaram que era importante que houvesse esta interligação por meio de: promoção de reuniões e palestras; formação de grupos para se discutir o que está acontecendo na Escola Piollin; participação em oficinas na mesma modalidade daquelas oferecidas às crianças, adolescentes e jovens.

Após a compilação e análise preliminar dos resultados, foi realizada a reunião para restituir as informações colhidas à equipe da Escola Piollin, contando com a participação dos educadores, dos coordenadores da escola e dos profissionais de apoio. A dinâmica da reunião de restituição foi elaborada não só a partir das informações alcançadas no âmbito da pesquisa, como também daquelas que foram trazidas pelo projeto de extensão que vem sendo desenvolvido desde janeiro de 2005. A realização de um Seminário Interno (janeiro de 2005) e de dois outros encontros trouxe um importante debate sobre os vínculos institucionais da Escola Piollin, em especial com o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI). No momento de organização da estratégia a ser utilizada na restituição, o material da pesquisa foi redimensionado, absorvendo esse tema. Após a apreciação dos dados, a equipe da escola, dividida inicialmente em três grupos, trabalhou a partir das seguintes orientações:

1) Observem as duas respostas mais pontuadas às perguntas sobre o objetivo do projeto da Escola Piollin e os efeitos esperados com o seu trabalho e respondam à indagação abaixo:
Objetivo principal do Projeto: "desenvolver a cidadania através da arte; desenvolver a consciência do ser, melhorando a qualidade de vida".
Efeitos esperados: "aumentar a auto-estima e a autonomia; mudança no comportamento diminuindo a violência".
O que significa para o grupo cada uma dessas respostas. Como vocês vêem a relação entre esses objetivos e os efeitos esperados pela ação do projeto? Identifiquem no cotidiano da Escola Piollin as possibilidades e limites para que os objetivos sejam alcançados. Quais atividades ou práticas são capazes de promover esses efeitos? Como identificar que foram alcançados?
2) Na identificação do grupo social com o qual os educadores trabalham foram encontradas (de um modo geral) as seguintes definições:
• Crianças e jovens em situação de risco social;
• Crianças e jovens desvinculados do meio artístico e marginalizadas;
• Abaixo da linha da pobreza; miseráveis;
• Crianças e jovens envolvidos com o mercado formal e de baixa condição de vida.

Como o trabalho dos educadores enfrenta a realidade vivida pelas crianças e jovens? Há perspectivas de mudança desse quadro? Quais os elementos que poderiam indicar que houve mudanças?

3) Na questão do questionário referente à repercussão nas condições de aprendizagem a resposta mais pontuada (80%) foi:
• Melhorando a formação da criança e do jovem (em termos de exercício da cidadania, convivência em grupo e respeito ao próximo). As duas outras opções receberam 10% cada uma em termos de preferência:
• Diminuindo a resistência em relação à escola;
• Melhorando o desempenho escolar.

A atual relação com o PETI, ao qual estaria ligada a maioria das crianças, interfere nessa expectativa de resultados do trabalho dos educadores ou não? Por quê?

Durante o debate, ficou claro que nem sempre os professores conseguem promover mudanças no comportamento de seus alunos, o que para alguns se torna uma angústia, um sentimento de impotência ou mesmo de culpa, enquanto que outros encaram como uma dificuldade ou limite localizado no aluno.

Na segunda questão, não houve discussão a respeito do termo "situação de risco social" como ocorreu entre os coordenadores. Neste momento, foram feitas algumas indicações de como observar no dia-a-dia das crianças, adolescentes e jovens as mudanças esperadas. O debate confirmou que o trabalho deve focar o desenvolvimento do sujeito conforme sugerido pelos questionários.

A terceira questão foi a que gerou intenso debate. O vínculo com o PETI ganhou maior visibilidade. A maioria dos educadores indicou que a inserção neste programa modificava a motivação do aluno em participar das atividades artísticas da escola. O fato de receberem uma bolsa, os obrigava a freqüentar a escola significando uma interferência negativa. Para outros educadores, essa interferência não era sentida, cabendo ao educador e à própria atividade da oficina, a produção de um vínculo positivo do aluno com a escola, ressaltando a existência de alunos que participam das atividades porque gostam, por prazer, recebendo a referida bolsa ou não. O vínculo com o PETI também trouxe para a discussão a forma como o programa atravessa as relações de trabalho na equipe, dado que são freqüentes os atrasos no pagamento dos educadores e a relação estabelecida entre escola e prefeitura é muito mais de terceirização do que de parceria.

Este vínculo institucional ganhou relevância, sendo definido como um indicador a ser investigado na abordagem dos alunos.

A FALA DOS ALUNOS DA ESCOLA PIOLLIN

A abordagem dos alunos foi realizada por meio de um questionário semiestruturado, incorporando na sua construção, alguns temas presentes na restituição dos educadores. A perspectiva colocada pelos educadores de que a vinculação da Escola Piollin com o PETI estivesse repercutindo de forma negativa no trabalho educativo, foi examinada na abordagem dos alunos como um importante indicador. Outro tema também qualificado foi o relativo à profissionalização dado a diferença de concepções observadas na fala do conjunto de coordenadores de projetos e dos educadores da Escola Piollin. Como havia um grupo muito maior de alunos no turno da manhã matriculados no PETI do que no turno da tarde, foi feita uma opção de separação desses grupos no momento de compilação dos resultados. Nessa etapa foram abordados todos os 170 alunos da escola. As respostas ao questionário estão expostas na grade abaixo

 

 

O que pode ser observado por meio dos resultados, é que os alunos, segundo seu depoimento, freqüentam a Escola Piollin pelo prazer de aprender coisas novas, e não pelo fato de receberem a bolsa do PETI. Segundo o discurso dos alunos o vínculo principal não é com a bolsa, mas com a Escola Piollin. Para essas crianças, adolescentes e jovens a "função" da escola estaria na abertura para o novo. Esta colocação pode também ser correlacionada às respostas fornecidas à indagação de como se sentem desde que entraram para a Escola Piollin: a maioria apontou sentir-se mais alegre, seguido da opção mais criativo. A valorização do trabalho em grupo e das oficinas, também, demonstra o vínculo positivo que os alunos mantém com a escola, contrariando a análise elaborada pela equipe.

Outro ponto importante a ser ressaltado é com relação à questão que investiga o que o aluno espera aprender nas oficinas. O número de respostas referentes à assertiva "uma profissão" foi bastante expressivo, fato que não foi observado nos questionários dos educadores, que rechaçaram essa possibilidade. Esse se apresenta como mais um tema de divergência, demonstrando perspectivas diferentes na ação de pertencimento à essa organização educativa.

A partir dessa pesquisa com os alunos, foram realizadas duas reuniões de restituição com a equipe da Escola Piollin, ampliando a análise das relações que vêm sendo estabelecidas no cotidiano da escola. O foco foi colocado sobre o aluno, já que ficou evidente a diferença nas concepções e no vínculo que estes estabelecem com as práticas. A necessidade de ampliação dos canais de comunicação entre idealizadores deste projeto e alunos tem sido colocada como uma das formas de intervenção apontada pela pesquisa. O projeto de pesquisa que pretende dar continuidade ao processo aqui tratado buscará aprofundar o estudo dos efeitos do estabelecimento de convênios e parceiras nas práticas da Escola Piollin.

 

CONCLUSÕES

Esse processo investigativo tornou visível o atravessamento de importantes temas nas práticas educativas realizadas através de projetos sociais com arte.

A perspectiva de que as oficinas de arte assumam ou não a característica de profissionalização, surgiu no campo da pesquisa desde o momento de construção do mapeamento dos onze projetos sociais da Grande João Pessoa, persistindo como fala divergente no espaço da pesquisa/intervenção na Escola Piollin.

No levantamento dos princípios filosóficos e pedagógicos do conjunto de projetos sociais, somente alguns coordenadores de projetos apontaram no sentido destes espaços se constituírem como um local de preparação para o trabalho. Na etapa da pesquisa centrada na Escola Piollin, o grupo de educadores majoritariamente recusou o sentido de profissionalização no seu trabalho. No entanto, os alunos expressaram a expectativa de que sua participação nas atividades da escola estivesse ligada à possibilidade de prepará-los para o trabalho. Esse tema mostrou-se potente dado que revela investimentos diferentes em um mesmo campo de práticas.

A relação da Escola Piollin, assim como de outros projetos sociais, com o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) parece contribuir para a imposição deste tema como um elemento importante na constituição das práticas. O recebimento de uma bolsa, com a finalidade de manter a criança e o adolescente distante do trabalho precoce parece interferir na relação do aluno e da comunidade com a atividade artística e com a escola. No entanto, não apresenta potência na produção de mudanças na relação das camadas mais empobrecidas com o trabalho. A demanda dos alunos no sentido de preparação para o trabalho não está em consonância com os princípios deste programa governamental, tampouco, com as diretrizes assumidas pelos educadores na realização das atividades. Essa análise indica a necessidade de que seja problematizado junto às crianças, adolescentes e jovens o tema da profissionalização e do trabalho o que poderia produzir uma nova relação entre os alunos e a escola.

Uma questão importante diz respeito à forma de inserção do educador neste programa ou em outros que tenham como propósito garantir o financiamento de projetos sociais. A falta de regulamentação e a informalidade nos contratos de trabalho facilitam, também, o atravessamento do tema da profissionalização no conjunto dos trabalhadores em educação, colocando em pauta a necessidade de erradicar o trabalho precarizado no campo do ensino da arte.

Outro tema importante revelado nas falas dos três atores sociais envolvidos na pesquisa (coordenadores dos projetos sociais, educadores e alunos da Escola Piollin) é a perspectiva de desenvolvimento do sujeito, ou do ser, como foi referido por um dos coordenadores e assumido pelos educadores da Escola Piollin e ainda, de desenvolver a cidadania através da arte. A garantia do contato com a arte como direito que caracterizou a fala dos coordenadores dos projetos, não foi plenamente assumida pelos educadores. Estes mantiveram seu olhar voltado para o sujeito através da expectativa em aumentar a auto-estima e a autonomia por meio de seu trabalho, desejando produzir mudanças inclusive em alguns aspectos do comportamento das crianças, adolescentes e jovens.

O processo de auto-reflexão encaminhado junto aos alunos, através da aplicação dos questionários, trouxe a informação de que, para estes, a participação nas oficinas os teria tornado mais alegres e mais criativos. Essas falas podem ser identificadas como pertinentes ao desenvolvimento do sujeito, como pretendem os educadores na Escola Piollin.

As categorias "cidadania" e "risco social" foram justificadas no mapeamento dos projetos como sendo uma fala assumida no diálogo com parceiros (financiadores). Essa questão colocou em evidência a perspectiva, identificada, também, no tema da profissionalização, de que o discurso e as exigências dos órgãos de fomento intervenham diretamente na dinâmica educativa dos projetos sociais.

Pode-se afirmar que o estabelecimento de parcerias coloca em análise os limites e as possibilidades de cada projeto. A parceria entre um órgão financiador e uma entidade tomada como prestadora de serviços constitui um campo de for-ças. Trata-se de um espaço de produção de sentidos aonde as práticas vão ganhando contornos. Naquele momento, na Escola Piollin, o tema que se fez presente atravessando as práticas foi o trabalho, através da profissionalização.

É importante ressaltar as contribuições da metodologia da investigação/intervenção no conhecimento aqui produzido. A cada etapa foram sendo definidos indicadores que tinham como função apontar caminhos na dinâmica da pesquisa. Dessa forma, foi possível identificar o tema da qualificação para o trabalho e verificar de que modo ao se constituir como uma instituição, ou seja, como um con-junto de práticas sociais, esteve presente no cotidiano da pesquisa e das atividades educativas marcando as relações sociais.

 

NOTAS

1 Este projeto de pesquisa vem sendo desenvolvido pelo Departamento de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba, por uma equipe formada pela professora orientadora e seis alunas docurso de graduação em psicologia. Tal projeto está inserido no Grupo de Pesquisa Trabalho e Subjetividade da UFPB.

2 A base principal de consulta para a constituição da listagem de projetos foi o cadastro do FórumEstadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, também sendo contatadas outras iniciativas que mesmo não cadastradas ou oficializadas, foram localizadas a partir de indicações informais.Os projetos envolvidos foram os seguintes: Apoporã; Associação Folia de Rua - Projeto FoliaCidadã; Bamidelê - Grupo de Mulheres Negras; Casa Pequeno Davi; CECIF - Centro EducativoIrmãos Fortuna - Núcleo da Pastoral do Menor; Clube do Menor Trabalhador; Fundação Dom Helder Câmara - Projeto O Futuro depende de nós; MAC - Movimento de Adolescentes e Crianças; PAMEN - Pastoral do Menor; Projeto Beira da Linha; Escola Piollin.

3 Trata-se do projeto "Ações da psicologia educacional na Escola Piollin: o processo de formação/potencialização de educadores em arte" (FERNANDES et al., Bandex/UFPB/2005).

4 Os questionários construídos tomaram como base os instrumentos utilizados na pesquisa "A es-cola pública e a psicologia: a produção de um olhar sobre as estratégias de ação de diferentesatores sociais na trama da exclusão social", realizada no Rio de Janeiro, no período de 2000 a2004. As conclusões da referida pesquisa podem ser encontradas em: FERNANDES, A. M. D.(2004 a, 2004b, 2004c).

 

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Recebido em: novembro / 2005.
Aceito em: junho / 2006.

 

 

I Doutora em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano /Universidade de São Paulo Professora Adjunta do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Paraíba Endereço – Rua Golfo de Botínia 94 apt. 101/Ed. Res. Grafite – Intermares/Cabedelo Paraíba – PB, Cep – 58310 – 000. E-mail: angeladfernandes@yahoo.com.br
II Graduandas do Curso de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba.

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