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Revista do Departamento de Psicologia. UFF

Print version ISSN 0104-8023

Rev. Dep. Psicol.,UFF vol.19 no.2 Niterói July/Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-80232007000200022 

EVENTOS

 

Análise ergonômica do trabalho de prostitutas da Vila Mimosa

 

 

Antônio BarbosaI; Michele DiasI; Priscila TostesI; Thiago CursinhoI; Vanessa MesquitaI; Hérica GonçalvesII; Maudeth Py BragaIII

IAlunos do curso de graduação em Psicologia da UFF
IIBacharel em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. E-mail: hericacris@yahoo.com.br
IIIProfessora Adjunta do curso de Psicologia UFF. Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Campus Universitário do Gragoatá, Bloco O, sala 425 - São Domingos. CEP: 24210-350 - Niteroi, RJ. E-mail: maupy@vm.uff.br

 

 


Palavras-Chaves: Vila Mimosa. Ergonomia. Prostituta. Profissão.


 

 

Nosso propósito com este estudo foi o de colocar em análise uma situação de trabalho. A temática do mesmo refere-se ao trabalho de prostitutas realizado na "Vila Mimosa", um dos prostíbulos do Rio de Janeiro, para desenvolver um estudo da atividade de trabalho, mostrando como agem, atuam e a que condições são submetidas as "Prostitutas da Vila". A ergonomia foi utilizada como abordagem teórica, caracterizando-se por um 'conjunto de conhecimentos a respeito da interação do homem e seu ambiente de trabalho'e procura analisar o desempenho humano no trabalho, também busca modos de tornar o sistema de trabalho o mais adequado possível às características psicofisiológicas humanas; com isso, torna-se um dispositivo de melhoria das condições de vida. Com a finalidade de focalizar as relações de trabalho, foi desenvolvida uma pesquisa de campo com caráter exploratório. Os dados foram coletados através de observações globais das atividades desenvolvidas e de entrevistas com áudio, para que pudéssemos transcrever o discurso do operador, que é uma fonte de dados indispensável à Ergonomia. Foi realizado um extenso levantamento bibliográfico no campo da Psicologia do Trabalho, a fim de discutir o impacto causado por essa atividade de ocupação. Nas falas das prostitutas, encontramos a idéia de prostituição como venda de corpos, como uma violência social cometida contras elas próprias. Para elas, tal violência continua a crescer, concomitante com sua total banalização; mais ainda, a profissionalização da prostituição, que acolhe adeptos mesmo entre as feministas, define a apropriação e a 'mercantilização' total das mulheres como um trabalho que seria tão estatutário e dignificante quanto qualquer outro. Elas próprias vêem seu trabalho como algo de segunda ordem, como algo que não pode e não deve ser visto com 'bons olhos'. Foi notado que, para as entrevistadas, dizer que a prostituição é um trabalho é, no mínimo, um insulto ao mesmo, é o menosprezo total das condições que as levaram a se submeter e mesmo defender a "profissão" que exercem. A categorização "trabalho", para elas, promoveria a idéia de compra de mulheres, violentadas e prostituídas a um nível de mercado, de justificação monetária, de inserção nos mecanismos de produção e reprodução social. Para o grupo, o encontro com cada mulher entrevistada e a própria ida ao local de prostituição, foi um momento único e nos permitiu enxergar que, apesar de se poder generalizar em alguns pontos, as particularidades são essenciais para nos debruçarmos sobre o real significado do trabalhar na Vila Mimosa. Dentre as generalizações inclui-se o fato de que, por piores que sejam as condições das instalações e de salubridade oferecidas pela Vila, o local em questão foi escolhido em detrimento do trabalho da rua, no que tange a segurança. Por ser um local próprio para as práticas de prostituição, elas escapam de olhares de repreensão e recriminação social. Tal fato nos proporcionou não somente uma melhor forma de colher e analisar os dados, mas também rever nossa leitura sobre tais práticas.

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