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Cadernos Pagu

Print version ISSN 0104-8333On-line version ISSN 1809-4449

Cad. Pagu  no.17-18 Campinas  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332002000100002 

ARTIGOS

 

Dualismos em duelo*

 

Dueling dualism

 

 

Anne Fausto-Sterling**

 

 


RESUMO

Os modos europeus e norte-americanos de entender como funciona o mundo dependem em grande parte do uso de dualismos - pares de conceitos, objetos ou sistemas de crenças opostos. Este ensaio enquadra especialmente três deles: sexo/gênero, natureza/criação e real/construído. Embora este texto verse sobre gênero, discuto regularmente o modo como as idéias de raça e gênero surgem a partir de supostos subjacentes sobre a natureza física do corpo. Entender como operam raça e gênero - em conjunto e independentemente - nos ajuda a compreender melhor como o social se torna corporificado.

Palavras-chave: Gênero, Raça, Biologia, Corpo.


ABSTRACT

Euro-American ways of understanding how the world works depend heavily on the use of dualisms - pairs of opposing concepts, objects, or belief sytems. This text focuses especially on three of these: sex/gender, nature/nurture, and real/constructed. And although this text focuses on gender, I regularly discuss the ways in which the ideas of both race and gender emerge from underlying assumptions about the body's physical nature. Understanding how race and gender work - together and independently - help us learn more about how the social becomes embodied.

Key words: Gender, Race, Biology, Body.


 

 

Masculino ou feminino?

Na correria e excitação da partida para as Olimpíadas de 1988, Maria Patiño, a principal das corredoras com barreira da Espanha, esqueceu o certificado médico declarando, em benefício dos funcionários da Olimpíada, o que parecia patentemente óbvio para quem quer que a olhasse: tratava-se de uma mulher. Mas o Comitê Olímpico Internacional (COI) tinha previsto a possibilidade de que algumas competidoras esquecessem seus certificados de feminilidade . Patiño apenas tinha que se apresentar ao "escritório central de controle da feminilidade"1, raspar algumas células da bochecha, e tudo ficaria em ordem - ou ela assim pensou.

Algumas horas depois da raspagem, recebeu um chamado. Alguma coisa não dera certo. Ela voltou para um segundo exame, mas os médicos ficaram em silêncio. Então, quando se dirigia ao estádio olímpico para começar sua primeira corrida, os funcionários de pista deram a notícia: ela tinha sido reprovada no teste de sexo. Ela podia parecer mulher, tinha a força de uma mulher e nunca tivera razão para suspeitar que não fosse mulher, mas o exame revelara que as células de Patiño continham um cromossomo Y e que seus lábios ocultavam testículos. Além disso, ela não tinha nem ovários nem útero.2 Segundo a definição do COI, Patiño não era uma mulher. Foi impedida de participar da equipe olímpica da Espanha.

Os funcionários olímpicos espanhóis sugeriram a Patiño que fingisse um acidente e se retirasse sem dar publicidade a fatos tão embaraçosos. Diante de sua recusa, a imprensa européia acabou descobrindo o acontecido e o segredo foi revelado. Poucos meses depois de sua volta à Espanha, a vida de Patiño se esboroou. Os funcionários espanhóis lhe retiraram os títulos conquistados e a impediram de voltar a competir. Seu namorado a abandonou. Foi despejada da moradia atlética nacional, sua bolsa de estudos foi revogada e, repentinamente, se viu diante da perspectiva de ter que lutar para sobreviver. A imprensa do país fez a festa às suas custas. Como ela disse mais tarde, "fui apagada do mapa, como se nunca tivesse existido. Dediquei doze anos aos esportes ."3

Abatida, mas não derrotada, Patiño gastou milhares de dólares consultando médicos a respeito de sua situação. Estes explicaram que ela nascera com uma síndrome de insensibilidade ao andrógeno. Isso queria dizer que, embora tivesse um cromossomo Y e seus testículos produzissem testosterona suficiente, suas células eram incapazes de detectar esse hormônio masculinizante. Por isso, seu corpo nunca produziu características masculinas. Mas na puberdade seus testículos produziam estrógeno (como os testículos de todos os homens), que, por causa da incapacidade de seu corpo de reagir à testosterona, provocaram o crescimento de seus seios, o estreitamento de sua cintura e o alargamento dos quadris. A despeito de um cromossomo Y e testículos, ela crescera como mulher e desenvolvera formas femininas.

Patiño resolveu enfrentar a decisão do COI. "Eu sabia que era uma mulher", insistiu com um repórter, "aos olhos da medicina, de Deus e, acima de tudo, aos meus próprios olhos ".4 Obteve o apoio de Alison Carlson, antiga jogadora de tênis e bióloga de Stanford contrária ao teste de sexo, e, juntas, começaram a preparar a defesa. Patiño submeteu-se a exames em que os médicos "analisaram suas estruturas pélvicas e ombros para decidir se ela era suficientemente femininapara competir".5 Dois anos e meio depois, a Federação Internacional de Atletismo Amador (FIAA) a readmitiu e, em 1992, Patiño voltou à equipe olímpica da Espanha, passando para a história como a primeira mulher a ter contestado o teste de sexo para mulheres atletas. A despeito da flexibilidade da FIAA, contudo, o COI permaneceu inflexível: ainda que a procura do cromossomo Y não fosse a melhor abordagem científica ao teste de sexo, o teste devia ser realizado.

Os membros do COI continuam convencidos de que um método cientificamente mais avançado será capaz de revelar o verdadeiro sexo de cada atleta. Mas por que o Comitê se ocupa tanto do teste de sexo? Em parte, as regras do COI refletem ansiedades políticas típicas da guerra fria: durante as olimpíadas de 1968, por exemplo, o COI instituiu o teste "científico" do sexo em reação a rumores de que alguns competidores do leste europeu tentariam obter glórias para a causa comunista trapaceando - homens disfarçando-se de mulheres para obter vantagens ilícitas. O único caso conhecido de um homem que se infiltrou numa competição feminina ocorreu em 1936, quando Hermann Ratjen, membro da Juventude Nazista, participou da competição de salto em altura como "Dora". Sua masculinidade não foi de grande valia: chegou às finais, mas em quarto lugar, atrás de três mulheres.

Embora o COI não tivesse exigido a moderna análise de cromossomos no interesse da política internacional até 1968, já vinha policiando o sexo das competidoras olímpicas num esforço para aplacar aqueles que temiam que a participação das mulheres no esporte as transformasse em criaturas masculinizadas. Em 1912, Pierre de Coubertin, fundador das olimpíadas modernas (das quais as mulheres foram, de início, excluídas), afirmou que "os esportes femininos [eram] contra as leis da natureza ".6 Se as mulheres não eram por natureza competidoras atléticas, então o que dizer das esportistas que chegavam à cena olímpica? Os funcionários das olimpíadas se apressavam a certificar a feminilidade das mulheres cuja participação permitiam, porque o ato mesmo de competir parecia implicar que elas não podiam ser mulheres de verdade .7 No contexto da política de gênero, o policiamento do sexo fazia todo sentido .8

 

Sexo ou gênero?

Até 1968 as mulheres que competiam nas Olimpíadas eram freqüentemente convidadas a desfilar nuas diante de um corpo de examinadores. Seios e uma vagina era tudo o que se necessitava para certificar a feminilidade. Mas muitas delas reclamavam que o processo era degradante. Em parte pelo aumento dessas reclamações, o COI decidiu fazer uso do moderno teste "científico" do cromossomo. O problema, porém, é que esse teste, e também a reação em cadeia de polimerase, mais sofisticada para detectar pequenas regiões do DNA associadas com o desenvolvimento de testículos que o COI usa hoje, não podem fazer o que o COI quer que façam. O sexo de um corpo é simplesmente complexo demais. Não existe o isso ou aquilo. Antes, existem nuances de diferença, [...] rotular alguém homem ou mulher é uma decisão social. Podemos utilizar o conhecimento científico para nos ajudar a tomar a decisão, mas só nossas crenças sobre o gênero - e não a ciência - podem definir nosso sexo. Além disso, nossas crenças sobre o gênero também afetam o tipo de conhecimento que os cientistas produzem sobre o sexo.

Nas últimas décadas, a relação entre a expressão social da masculinidade e da feminilidade e os aspectos físicos subjacentes foi debatida com ardor nas arenas científica e social. Em 1972, os sexólogos John Money e Anke Ehrhardt popularizaram a idéia de que sexo e gênero são categorias separadas. Sexo, diziam, se refere aos atributos físicos e é anatômica e fisiologicamente determinado. Viam o gênero como uma transformação psicológica do eu - a convicção interior de que se é homem ou mulher (identidade de gênero) e as expressões comportamentais dessa convicção.9

Enquanto isso, a segunda geração de feministas da década de 70 também afirmava que o sexo é diferente do gênero - que as instituições sociais, elas próprias projetadas para perpetuar a desigualdade de gênero, produziam a maioria das diferenças entre homens e mulheres.10 As feministas argumentavam que, embora os corpos de homens e mulheres tenham diferentes funções reprodutivas, são poucas as diferenças de sexo que não podem ser mudadas pelas vicissitudes da vida. Se as meninas não podiam aprender matemática tão facilmente quanto os meninos, o problema não estava em seus cérebros. A dificuldade decorria das normas de gênero - expectativas e oportunidades diferentes em relação a meninos e a meninas. Ter um pênis ou uma vagina é uma diferença de sexo. O desempenho superior dos meninos em relação ao das meninas em provas de matemática é uma diferença de gênero. É de se supor que estas possam ser mudadas, ainda que aquelas não o possam.

Money, Ehrhardt e as feministas colocaram os termos de tal maneira que sexo passou a representar a anatomia e funcionamento fisiológico do corpo e gênero passou a representar as forças sociais que moldam o comportamento.11 As feministas não questionavam o domínio do sexo físico; o que era posto em questão eram os significados psicológicos e culturais dessas diferenças - o gênero. Mas as definições feministas de sexo e gênero deixavam aberta a possibilidade de que as diferenças masculino/feminino em funções cognitivas e comportamento.12 podiam resultar de diferenças sexuais e, assim, em certos círculos, a questão de sexo versus gênero se tornou um debate sobre quanto a inteligência e alguns comportamentos estão embutidos nas conexões no cérebro13 , enquanto em outros casos não há remédio senão ignorar muitas das descobertas da neurobiologia contemporânea.

Ao renunciar ao território do sexo físico, as feministas ficaram expostas a ataques renovados com base na diferença biológica.14 De fato, o feminismo encontrou massiva resistência nos domínios da biologia, da medicina e de setores significativos das ciências sociais. A despeito de muitas mudanças sociais positivas, o otimismo dos anos 70 de que as mulheres alcançariam a igualdade social e econômica completa tão logo a desigualdade de gênero fosse enfrentada na esfera social tende a desaparecer diante da desigualdade aparentemente recalcitrante.15 E isso levou as acadêmicas feministas, de um lado, a questionarem a própria noção de sexo16 e, de outro, a aprofundarem suas investigações do que queremos dizer com palavras como gênero,cultura e experiência. A antropóloga Henrietta Moore, por exemplo, é contra reduzir as explicações de gênero, cultura e experiência a seus "elementos lingüísticos e cognitivos". Afirmo, como Moore, que "o que está em questão é a natureza corporificada das identidades e da experiência. A experiência... não é individual e fixa, mas irredutivelmente social e processual".17

Nossos corpos são complexos demais para dar respostas claras sobre a diferença sexual. Quanto mais procuramos uma base física simples para o "sexo" mais claro fica que o "sexo" não é uma categoria física pura. Aqueles sinais e funções corporais que definimos como masculinos e femininos já vêm misturados em nossas idéias sobre o gênero. Consideremos o problema enfrentado pelo Comitê Olímpico Internacional. Os membros do Comitê querem decidir em definitivo quem é homem e quem é mulher. Mas como? Se Pierre de Coubertin ainda estivesse vivo, a resposta seria simples: quem quer que desejasse competir não poderia ser, por definição, uma mulher. Mas esse tempo já passou. Poderia o COI utilizar a força dos músculos como medida do sexo? Em certos casos. Mas a força de homens e mulheres, especialmente no caso de atletas bem treinados, se sobrepõe em certa medida. (Lembre-se que três mulheres superaram Hermann Ratjen no salto em altura). Embora Maria Patiño se ajustasse à definição comum de feminilidade em termos de aparência e força, ela também tinha testículos e um cromossomo Y. Mas por que seriam esses os fatores decisivos?

O COI pode utilizar os testes de cromossomos ou de DNA para verificar o sexo de uma competidora, mas os médicos com dúvidas sobre o sexo de uma criança usam critérios diferentes. Eles cuidam em primeiro lugar das capacidades reprodutivas (no caso de uma menina em potencial) ou do tamanho do pênis (no caso de um menino). Se uma criança nasce com dois cromossomos X, ovários, um útero na parte de dentro, mas com um pênis e uma bolsa escrotal na parte de fora, por exemplo, é um menino ou uma menina? A maioria dos médicos dirá que é uma menina, a despeito do pênis, por causa de seu potencial para dar à luz, e intervêm usando cirurgia e hormônios para confirmar sua decisão. A escolha dos critérios a utilizar na determinação do sexo, e a escolha de simplesmente fazer essa determinação, são decisões sociais para as quais os cientistas não podem oferecer regras absolutas.

 

Real ou construída?

Entro nos debates sobre sexo e gênero como bióloga e como ativista.18 Diariamente, minha vida oscila numa teia de conflitos sobre as políticas da sexualidade e a construção e utilização de conhecimento sobre a biologia do comportamento humano. A principal afirmação aqui é que as verdades sobre a sexualidade humana, devidas aos estudiosos em geral e aos biólogos em particular, são um componente das lutas morais, sociais e políticas travadas em nossas culturas e como ativista.19 Ao mesmo tempo, componentes de nossas lutas morais, sociais e políticas são, em termos literais, corporificados no nosso ser fisiológico mesmo. Minha intenção é mostrar como essas afirmações mutuamente dependentes operam, em parte, enfrentando questões como a da criação, pelos cientistas - em suas vidas cotidianas, experimentos e práticas médicas - de verdades sobre a sexualidade; como nossos corpos incorporam e confirmam essas verdades; e como essas verdades esculpidas pelo meio social em que os biólogos praticam seu ofício, por sua vez, dão forma a nosso ambiente cultural.

Minha abordagem do problema é idiossincrática, e por boas razões. Intelectualmente, habito três mundos aparentemente incompatíveis. Em meu departamento, interajo com biólogos moleculares, cientistas que examinam os seres vivos da perspectiva das moléculas de que são feitos. Estudam um mundo microscópico em que causa e efeito permanecem em sua maioria dentro de uma única célula. Os biólogos moleculares raramente pensam sobre órgãos que interagem dentro de um corpo individual, e ainda menos freqüentemente sobre como um corpo com uma pele interage com o mundo que fica do outro lado dessa pele. A visão deles sobre o que faz um organismo viver está decididamente de cabeça para baixo, do pequeno para o grande, de dentro para fora.

Também interajo com uma comunidade virtual - um grupo de estudiosos reunidos por um interesse comum na sexualidade - conectando-me através de algo chamado de lista de discussão. Numa lista de discussões, pode-se levantar questões, pensar em voz alta, comentar notícias relevantes, argumentar sobre as teorias da sexualidade humana e relatar as últimas descobertas de pesquisa. Os comentários são lidos por um grupo de pessoas conectadas por correio eletrônico. Minha lista (que eu chamo de "Loveweb" ["rede do amor"]) consiste de diferentes tipos de estudiosos - psicólogos, estudiosos do comportamento animal, biólogos especializados em hormônios, sociólogos, antropólogos e filósofos. Embora muitos pontos de vista coexistam no grupo, a maioria está a favor de explicações biológicas, fundadas no corpo, sobre a sexualidade humana. Os membros da loveweb dão nomes técnicos para as preferências que acreditam imutáveis. Além de homossexual, heterossexual e bissexual, por exemplo, falam de hebefilia (atração por meninas púberes), efebefilia (provocada por machos jovens), pedofilia(provocada por crianças), ginefilia (atração por mulheres adultas) e androfilia (atração por homens adultos). Muitos membros da loveweb acreditam que adquirimos nossa essência sexual antes do nascimento e que ela se desdobra à medida que crescemos e nos desenvolvemos.20

Ao contrário dos biólogos moleculares e dos membros da loveweb, as teóricas feministas concebem o corpo não como uma essência, mas como um suporte vazio no qual o discurso e a performance constróem um ser completamente aculturado. As teóricas feministas escrevem de modo persuasivo e, muitas vezes, imaginativo sobre os processos através dos quais a cultura molda e efetivamente cria o corpo. Além disso, têm um olho na política (com maiúscula), que nem os biólogos moleculares nem os membros da loveweb têm. A maioria das estudiosas feministas se ocupa de relações de poder no mundo real. Muitas vezes, chegaram à sua obra teórica porque queriam entender (e mudar) a desigualdade econômica, política e social. Ao contrário dos habitantes dos outros dois mundos, as teóricas feministas rejeitam o que Donna Haraway, importante teórica feminista, chama de "truque de Deus" - a produção do conhecimento a partir de cima, a partir de um lugar que nega a localização do estudioso individual num mundo real e problemático. Em lugar disso, entendem que toda dedicação ao estudo acrescenta fios a uma teia que põe em relação corpos racializados, sexos, gêneros e preferências. Fios novos ou fiados de maneiras diferentes mudam nossas relações, mudam nosso estar no mundo.21

Viajar entre esses diferentes mundos intelectuais produz mais do que algum desconforto. Quando fico à espreita na loveweb, me deparo com ridicularizações gratuitas do feminismo, dirigidas a alguma feminista mítica que despreza a biologia e parece ter uma concepção estúpida de como o mundo funciona. Quando assisto a conferências feministas, as pessoas ululam de descrença sobre as idéias debatidas na loveweb. E os biólogos moleculares não pensam muito em nenhum desses dois mundos. As perguntas formuladas pelas feministas e pelos membros da loveweb parecem complicadas demais; a única maneira é estudar o sexo nas bactérias e nas leveduras.

A meus colegas biólogos moleculares, membros da loveweb e feministas, então, costumo dizer o seguinte: como bióloga, acredito no mundo material. Como cientista, acredito na construção de conhecimento específico realizando experimentos. Mas como testemunha (no sentido quaker da palavra) feminista e, nos últimos anos, como historiadora, também acredito que aquilo que chamamos "fatos" do mundo vivo não são verdades universais. Antes, como escreve Haraway, eles "estão enraizados em histórias, práticas, línguas e povos específicos".22 Desde que o campo da biologia surgiu nos Estados Unidos e na Europa no começo do século XIX, ele está envolvido em debates sobre as políticas sexual, racial e nacional.23 E, como nossos pontos de vista, também a ciência do corpo mudou.24

Muitos historiadores consideram os séculos XVII e XVIII períodos de grande mudança em nossas concepções do sexo e da sexualidade25. Durante esse período um conceito de igualdade legal substituiu o exercício feudal do poder arbitrário e violento outorgado por direito divino. Como percebeu Michel Foucault, a sociedade ainda requeria alguma forma de disciplina. Um capitalismo nascente precisava de novos métodos para controlar a "inserção dos corpos no maquinário da produção e o ajuste dos fenômenos da população ao processo econômico"26 . Foucault dividiu esse poder sobre os corpos vivos (bio-poder) em duas formas. A primeira seria centrada no corpo individual. O papel de muitos profissionais da ciência (inclusive das ciências ditas humanas - psicologia, sociologia e economia) passou a ser o de otimizar e padronizar a função do corpo.27 Na Europa e na América do Norte, o corpo padronizado de Foucault foi sempre masculino e caucasiano [branco]. Embora este texto verse sobre gênero, discuto regularmente o modo como as idéias de raça e gênero surgem a partir de supostos subjacentes sobre a natureza física física do corpo.28 Entender como operam raça e gênero - em conjunto e independentemente - nos ajuda a compreender melhor como o social se torna corporificado.

A segunda forma de bio-poder de Foucault - "uma biopolítica da população" 29 - surgiu no início do século XIX quando os primeiros cientistas sociais começaram a desenvolver os métodos estatísticos de levantamentos para supervisionar e administrar "nascimentos e mortalidade, o nível de saúde, a expectativa de vida e a longevidade".30 Para Foucault, "disciplina" tinha um duplo significado. De um lado, implicava uma forma de controle ou punição; de outro, referia-se a um corpo acadêmico de conhecimentos - a disciplina história ou a biologia. O conhecimento disciplinar desenvolvido nos campos da embriologia, endocrinologia, cirurgia, psicologia e bioquímica estimularam os médicos a tentarem controlar o gênero mesmo do corpo - inclusive "suas capacidades, gestos, movimentos, localização e comportamentos".31

Ao ajudarem o normal a assumir a precedência em relação ao natural, os médicos também contribuíram para a biopolítica populacional. Tornamo-nos, escreve Foucault, "uma sociedade da normalização". 32 Um importante sexólogo de meados do século XX chegou a ponto de nomear seus modelos feminino e masculino em seu texto de anatomia como Norma e Normman (sic).33 Hoje vemos os conceitos da patologia aplicados em muitas situações - desde o corpo doente, enfermo ou diferente34 até as famílias monoparentais no gueto urbano.35 Mas a imposição da norma de gênero tem um motor social e não científico. A falta de pesquisa sobre a distribuição normal da anatomia genital, assim como a falta de interesse de muitos cirurgiões em usarem esses dados quando eles existem, ilustram claramente essa afirmação. Do ponto de vista dos praticantes da medicina, o progresso no manejo da intersexualidade envolve a manutenção do normal. Conseqüentemente deve haver só dois escaninhos: macho e fêmea. O conhecimento desenvolvido pelas disciplinas médicas dá aos médicos o poder de sustentarem uma mitologia do normal, alterando o corpo intersexual para ajustá-lo, tanto quanto possível, a um dos dois escaninhos.

O progresso médico de uma pessoa, porém, pode ser a disciplina e controle de outra. Intersexuais como Maria Patiño têm corpos refratários - até heréticos. Eles não cabem naturalmente em classificações binárias; só o instrumento cirúrgico pode fazê-los caber. Mas por que deveríamos nos importar se uma "mulher" (definida como tendo seios, vagina, útero, ovários e menstruação) tiver um "clitóris" suficientemente grande para penetrar a vagina de outra mulher? Por que importar-nos se existirem indivíduos cujo "equipamento biológico natural" lhes permita fazer sexo "naturalmente" tanto com homens quanto com mulheres? Por que amputar ou esconder cirurgicamente aquela "ofensiva haste" encontrada num clitóris particularmente grande? A resposta: a fim de manter as divisões de gênero, precisamos controlar aqueles corpos que são tão refratários que chegam a apagar as fronteiras. Como os intersexuais literalmente corporificam os dois sexos, contribuem para enfraquecer as afirmações sobre diferenças sexuais.

Este texto reflete uma política da ciência e do corpo que está mudando. Estou profundamente comprometida com as idéias dos modernos movimentos de liberação de mulheres e gays, que afirmam que o modo como tradicionalmente concebemos a identidade sexual e de gênero estreita as possibilidades da vida ao mesmo tempo em que perpetua a desigualdade de gênero. Para mudar a política do corpo, precisamos mudar a própria política da ciência. As feministas (e outras) que estudam o modo como os cientistas criam o conhecimento empírico já começaram a reconstruir a própria natureza do processo científico.36 Como em outras arenas sociais, esses estudiosos entendem que o conhecimento empírico prático está envolvido com as questões sociais e políticas de seu tempo. Estou na interseção dessas várias tradições. De um lado, os debates científicos e populares sobre os intersexuais e homossexuais - corpos que desafiam as normas do sistema dos dois sexos - estão profundamente imbricados. De outro, por baixo dos debates sobre o que significam esses corpos e como tratá-los estão lutas sobre o significado da objetividade e sobre a natureza atemporal do conhecimento científico.

Talvez o lugar em que essas lutas são mais visíveis sejam as explicações biológicas do que hoje chamaríamos de orientação ou preferência sexual. Consideremos, por exemplo, um programa de entrevistas de televisão sobre mulheres casadas que "descobriram", às vezes aos 40 anos, que eram lésbicas. O programa colocava a discussão em torno da idéia de que uma mulher que faz sexo com homens deve ser heterossexual, enquanto que outra que se apaixona por uma mulher deve ser lésbica. 37 Nesse programa, só existiam essas duas possibilidades. Embora as mulheres entrevistadas tivessem tido vidas sexuais ativas e satisfatórias com seus maridos, construindo e criando famílias, elas souberam que "eram" lésbicas no momento em que se sentiram atraídas por outra mulher. Além disso, sentiam que provavelmente sempre tinham sido lésbicas sem sabê-lo.

O programa mostrava a identidade sexual como uma realidade fundamental: uma mulher é inerentemente heterossexual ou inerentemente lésbica. E o ato de aparecer como lésbica podia negar uma vida inteira de atividade heterossexual! Colocada desta maneira, a apresentação da sexualidade soa absurdamente simplificada. E, no entanto, reflete algumas de nossas crenças mais profundas - tão profundas, na verdade, que boa parte da pesquisa científica (com animais e também com humanos) gira em torno dessa formulação dicotômica.38

Muitos estudiosos datam o começo dos modernos estudos científicos sobre a homossexualidade humana com a obra de Alfred C. Kinsey e colaboradores, publicada originalmente em 1948. Seus levantamentos do comportamento sexual de homens e mulheres forneceram aos pesquisadores da área um conjunto de categorias úteis para medir e analisar comportamentos sexuais .39 Tanto para homens como para mulheres, utilizaram uma escala de 0 a 6, onde 0 equivalia a 100% heterossexual e 6, a 100% homossexual. (uma oitava categoria - "X" - era para indivíduos que não experimentavam qualquer atividade ou atração erótica.) Embora tivessem construído a escala com categorias discretas, Kinsey e seus colaboradores sublinhavam que "a realidade inclui indivíduos de cada tipo intermediário, situados num continuum entre os dois extremos e entre as categorias da escala".40

Os estudos de Kinsey ofereciam novas categorias definidas em termos de excitação sexual - especialmente o orgasmo - sem permitir que termos como afeição,casamento ou relação contribuíssem para a definição da sexualidade humana41. A sexualidade continuava uma característica individual, e não algo produzido dentro de relações em situações sociais específicas. Como exemplo de minha afirmação de com o ato mesmo de medir os cientistas podem mudar a realidade social que queriam quantificar, observo que as categorias de Kinsey ganharam vida própria. Não só gays e lésbicas sofisticadas se referem ocasionalmente a si mesmas(os) pelo número de Kinsey (como num anúncio pessoal que pode começar "alto e musculoso Kinsey 6 procura..."), mas muitos estudos científicos usam a escala de Kinsey para definir sua população de referência.42

Embora muitos cientistas sociais entendam que é inadequado usar apenas a palavra homossexual para nomear a prática, identidade e desejo por pessoas do mesmo sexo, a escala linear de Kinsey ainda reina suprema no trabalho acadêmico. Em estudos que buscam os traços genéticos da homossexualidade, por exemplo, o meio da escala de Kinsey é desprezado; os pesquisadores tentam comparar os extremos do espectro na esperança de maximizar a chance de descobrir algo de interessante.43 Existem modelos multidimensionais de homossexualidade. Fritz Klein, por exemplo, criou uma escala com sete variáveis (atração sexual, comportamento sexual, fantasias sexuais, preferência emocional, preferência social, auto-identificação e estilo de vida homo/hetero) superpostas no tempo (passado, presente e futuro)44. Apesar disso, uma equipe de pesquisadores, analisando 144 estudos de orientação sexual, publicados no Journal of Homosexuality entre 1974 e 1993, descobriram que só 10% deles utilizavam uma escala multidimensional de homossexualidade. Aproximadamente 13% usavam uma única escala, em geral alguma versão dos números de Kinsey, e o resto usava a auto-identificação (33%), preferência sexual (4%), comportamento (9%) ou - o que é chocante, tratando-se de publicação científica - não descreviam seus métodos com clareza (31%).45

Assim como esses exemplos da sociologia contemporânea mostram que as categorias utilizadas para definir, medir e analisar o comportamento sexual humano mudam com o tempo, a recente explosão dos estudos sobre a história social da sexualidade humana também mostram que a organização e expressão social dessa sexualidade não são atemporais nem universais. Os historiadores apenas estão começando a extrair informações dos registros históricos, e todas as resenhas escritas certamente serão muito diferentes,46 mas ofereço um resumo em quadrinhos de parte desse trabalho na figura 1.

 

 

Enquanto coletam informações, os historiadores também discutem a natureza da própria história. O historiador David Halperin escreve:

A verdadeira questão que qualquer historiador da cultura da antiguidade e qualquer crítico da cultura contemporânea enfrenta é... como recuperar os termos nos quais as experiências dos indivíduos que viviam em sociedades passadas de fato se deram.47

A historiadora feminista Joan Scott faz observação semelhante, ao sugerir que os historiadores não devem supor que o termo experiência tem um significado auto-evidente. Em vez disso, devem tentar compreender a operação dos processos complexos e em constante mutação

pelos quais as identidades são atribuídas, rejeitadas ou abraçadas e "perceber" quais os processos que não são notados e, na verdade, atingem seus efeitos justamente porque não são notados.48

Em seu livro The Woman Beneath the Skin [A Mulher sob a Pele], a historiadora da ciência Bárbara Duden descreve seu contato com um manual médico em oito volumes. Escrito no século XVIII por um médico praticante, o livro descreve mais de 1800 casos de doenças de mulheres. Duden não se achou capaz de utilizar os termos médicos do século XX para reconstruir que doenças tinham aquelas mulheres. Em lugar disso, observou

partes de teorias médicas que teriam circulado na época, combinadas com elementos da cultura popular; percepções auto-evidentes do corpo aparecem ao lado de coisas [que lhe parecem] altamente improváveis.

Duden descreve sua angústia intelectual à medida que ficava mais e mais determinada a entender esses corpos femininos da Alemanha do século XVIII nos próprios termos deles:

Para obter acesso à existência íntima e invisível dessas mulheres doentes, tinha que aventurar-me através da fronteira que separa... o corpo íntimo por baixo da pele do mundo em torno dele... o corpo e seu meio-ambiente foram situados em domínios opostos: de um lado estão o corpo, a natureza e a biologia, fenômenos estáveis e fixos; do outro, o ambiente social e a história, domínios da mudança permanente. Com o traçado dessa fronteira, o corpo foi expulso da história.49

Em contraste com a angústia de Duden, muitos historiadores da sexualidade se lançam com entusiasmo ao novo campo, debatendo entre si enquanto escavam os recursos recentemente descobertos. Deleitam-se chocando os leitores com frases como: "O ano de 1992 marcou o centésimo aniversário da heterossexualidade na América do Norte"50 e "Entre 1700 e 1900 fizeram a transição dos três sexos aos quatro gêneros"51 . O que os historiadores querem dizer com frases como essas? O sentido essencial é que por mais que se recue em busca de evidência histórica (da arte pictórica primitiva à palavra escrita), os humanos sempre se dedicaram a uma variedade de práticas sexuais, mas essa atividade sexual está presa a contextos históricos. Isto é, as práticas sexuais e o entendimento social sobre elas não variam apenas com as culturas, mas também no tempo.

O artigo de 1968 da cientista social Mary McIntosh - "The Homosexual Role" ["O Papel Homossexual"] - forneceu a pedra de toque que levou os estudiosos a considerarem a sexualidade um fenômeno histórico.52 A maioria dos ocidentais, observou, supunha que a sexualidade das pessoas podia ser classificada de três maneiras: homossexual, heterossexual e bissexual.53l McIntosh achava essa perspectiva pouco informativa. Uma visão estática da homossexualidade como traço físico atemporal, por exemplo, não diz muito sobre porque diferentes culturas definem a homossexualidade de maneira diferente ou porque a homossexualidade parece mais aceitável em certas épocas e lugares do que em outras.54 Um importante corolário à insistência de McIntosh numa história da homossexualidade é que a heterossexualidade, e em verdade todas as formas de sexualidade humana, tem uma história. Muitos estudiosos embarcaram no desafio de McIntosh para dar um passado à expressão sexual humana.55

Mas os desacordos em relação às implicações desse passado são abundantes.56 Autores de livros como Gay American History [História Gay Norte-Americana] e Surpassing the Love of Men [Superando o Amor pelos Homens] esquadrinharam avidamente o passado na busca de modelos que pudessem oferecer uma afirmação psicológica aos membros do incipiente movimento de liberação dos gays.57 Da mesma forma que os impulsos iniciais do movimento das mulheres na procura de heroínas dignas de emulação, as primeiras histórias "gays" olhavam para o passado buscando justificativas para a mudança social no presente. A homossexualidade, afirmavam, sempre esteve conosco; devemos trazê-la para o primeiro plano.

A euforia inicial induzida pela descoberta, por parte desses estudiosos, de um passado gay logo foi complicada por acalorados debates sobre os sentidos e funções da história. Seriam nossas categorias contemporâneas sobre a sexualidade pouco apropriadas para analisar diferentes épocas e lugares? Se as pessoas gays, no sentido de hoje, sempre existiram, significaria isso que a condição é herdada em certa porção da população? O fato de que os historiadores descobriam evidência de homossexualidade em qualquer era que estudavam constituiria evidência de que a homossexualidade é um traço biologicamente determinado? Ou a história apenas poderia nos mostrar como diferentes culturas organizam de maneira diferente a expressão sexual em épocas e lugares específicos?58 Alguns consideravam esta última possibilidade libertadora. Afirmavam que comportamentos que podem parecer constantes na verdade podem ter sentidos totalmente diferentes em diferentes épocas e lugares. O fato aparente de que, na Grécia, o amor entre homens mais velhos e mais jovens fosse um componente esperado do desenvolvimento de cidadãos livres poderia significar que a biologia não tinha nada que ver com a expressão sexual humana?59 Se a história ajudava a demonstrar que a sexualidade era uma construção social, também poderia mostrar como chegáramos a nosso arranjo presente e, mais importante, oferecer algum exemplo de como alcançar a mudança social e política pela qual lutava o movimento de liberação gay.

Muitos historiadores acreditam que os conceitos modernos de sexo e desejo apareceram por primeira vez no século XIX. Alguns indicam simbolicamente o ano de 1869, quando um reformador alemão do direito usou publicamente pela primeira vez a palavra homossexualidade, ao tentar mudar as leis anti-sodomia.60 A mera cunhagem de um novo termo não criou por passe de mágica as categorias de sexualidade do século XX, mas o momento parece marcar o início de sua emergência gradual. Foi durante esse período que os médicos começaram a publicar relatos de casos de homossexualidade - o primeiro em 1869, numa publicação alemã especializada em doenças psiquiátricas e nervosas.61 Com o crescimento da literatura científica, apareceram os especialistas que reuniram e sistematizaram as narrativas. As obras hoje clássicas de Krafft-Ebing e Havelock Ellis completaram a transposição dos comportamentos homossexuais de atividades publicamente acessíveis a outras administradas pelo menos parcialmente pela medicina.62

As definições da sexualidade que surgiram eram construídas sobre um modelo de dois sexos de masculinidade e feminilidade.63 Os vitorianos, por exemplo, contrastavam o macho sexualmente agressivo e a fêmea sexualmente indiferente. Mas isso criou um mistério. Se só os homens sentiam um desejo ativo, como poderiam duas mulheres desenvolver um interesse sexual mútuo? Resposta: uma das mulheres tinha que ser uma invertida, alguém com atributos marcadamente masculinos. A mesma lógica era aplicada aos homossexuais masculinos, vistos como mais afeminados que os homens heterossexuais .64 Esses conceitos se estendem até estudos de fins do século XX sobre roedores. Uma rata lésbica é a que monta; um rato gay é o que aceita ser montado.65

Na Grécia antiga, os homens que se envolviam em atos com outros do mesmo sexo mudavam, com a idade, de papéis femininos para papéis masculinos.66 Em contraste, na primeira parte do século XX, alguém envolvido em atos homossexuais era homossexual, como mostra o caso das lésbicas casadas do programa de TV, uma pessoa constitucionalmente pré-disposta à homossexualidade. Os historiadores atribuem o surgimento deste novo corpo homossexual a amplas mudanças sociais, demográficas e econômicas ocorridas no século XX. Nos EUA, muitos homens e algumas mulheres, que em outras gerações teriam permanecido nas fazendas das famílias, encontraram espaços urbanos de reunião. Longe dos olhos das famílias, eram livres para realizar seus desejos sexuais. Os homens que procuravam interações com outros do mesmo sexo se encontravam em bares ou na prática de certos esportes; à medida que sua presença se tornava óbvia cresciam as tentativas de controlar seu comportamento. Em resposta à polícia e aos reformadores morais, surgiu a auto-consciência de seu comportamento sexual - um senso embrionário de identidade.67

A identidade em formação contribuiu para sua própria apresentação em termos médicos. Os homens (e mais tarde as mulheres) que se identificavam como homossexuais procuravam agora a ajuda e a compreensão dos médicos. E com a proliferação dos relatos médicos, os homossexuais passaram a usá-los para construir suas próprias auto-descrições.

Ao ajudar a dar a um grande número de pessoas uma identidade e um nome, a medicina também ajudou a dar forma à experiência dessas pessoas e a mudar seu comportamento, criando não exatamente uma nova doença, mas uma nova espécie de pessoa, "o homossexual moderno".68

A homossexualidade pode ter nascido em 1869, mas o heterossexual moderno levou mais uma década em gestação. A palavra heterossexual fez sua aparição pública em 1880 na Alemanha, numa obra que defendia a homossexualidade.69 Em 1892, a heterossexualidade atravessou o Atlântico e, nos EUA, depois de um período de debate, estabeleceu-se entre os médicos um consenso de que

heterossexual se referia a um Eros normal, voltado ao "outro sexo". [Os médicos] proclamaram um novo separatismo heterossexual - um apartheid erótico que segregava os normais dos pervertidos sexuais.70

Durante os anos 30 o conceito de heterossexualidade chegou à consciência do público e, na época da Segunda Guerra Mundial, a heterossexualidade parecia uma característica permanente da paisagem sexual. Agora, o conceito enfrenta fogo pesado. As feministas contestam diariamente o modelo dos dois sexos, ao passo que uma comunidade gay e lésbica com forte identificação exige o direito de ser considerada plenamente normal. Transexuais, pessoas que mudam de gênero e uma florescente organização de intersexuais - todos formam movimentos sociais para incluir diferentes seres sexuais sob o guarda-chuva da normalidade.

Os historiadores cuja obra acabo de resumir sublinham a descontinuidade. Acreditam que a procura de "leis gerais sobre a sexualidade e sua evolução histórica será derrotada pela pura variedade de idéias e comportamentos passados".71 Mas alguns discordam. O historiador John Boswell, por exemplo, aplica o esquema de classificação de Kinsey à Grécia antiga. A interpretação que os próprios gregos davam ao molle (homem feminino) ou à tribade (mulher masculina) não vem necessariamente ao caso, na opinião de Boswell. A existência dessas duas categorias, que Boswell pode considerar como os da categoria 6 de Kinsey, mostra que corpos ou essências homossexuais existiram ao longo dos séculos. Boswell reconhece que os humanos organizaram e interpretaram os comportamentos sexuais de maneira diferente em diferentes épocas históricas. Mas sugere que uma faixa semelhante de corpos predispostos a atividades sexuais particulares existia então como hoje. "Construções e contexto articulam a sexualidade", insiste, "mas não apagam o reconhecimento da preferência erótica como categoria potencial". 72 Boswell considera a sexualidade "real" e não "socialmente construída". Enquanto Halperin vê o desejo como produto das normas culturais, Boswell dá a entender que muito provavelmente nascemos com inclinações sexuais específicas embutidas em nossos corpos. O crescimento, o desenvolvimento e a aquisição da cultura nos ensinam como expressar nossos desejos inatos, mas não os criam inteiramente.

Os estudiosos não deram ainda a palavra final no debate sobre as implicações de uma história da sexualidade. O historiador Robert Nye compara historiadores e antropólogos. Os dois grupos catalogam "crenças e hábitos curiosos" e tentam, diz Nye, "encontrar neles algum padrão comum de semelhança".73 Mas o que concluímos sobre as experiências passadas das pessoas depende em grande medida de acreditarmos que nossas categorias de análise transcendem o tempo e o lugar. Suponhamos por um momento que tivéssemos alguns clones viajando no tempo - humanos geneticamente idênticos vivendo na Grécia antiga, na Europa do século XVII e nos Estados Unidos de hoje. Boswell diria que se um clone particular fosse homossexual na Grécia antiga, também seria homossexual no século XVII ou hoje (figura 2, Modelo A). O fato de as estruturas de gênero diferirem em épocas e lugares diferentes pode dar forma ao desafio do invertido, mas não o cria. Halperin, contudo, diria que não há garantia de que o clone moderno de um antigo grego heterossexual também seria heterossexual (figura 2, Modelo B). O corpo idêntico pode expressar diferentes formas de desejo em eras diferentes.

 


 

Não há como decidir qual a interpretação correta. A despeito de semelhanças superficiais, não podemos saber se a tribade de ontem é o "sapatão" de hoje ou se o amante grego de meia idade é o pedófilo de hoje.74

 

Natureza ou criação?

Enquanto os historiadores examinam o passado em busca de evidência sobre a natureza inata ou socialmente construída da sexualidade humana, os antropólogos perseguem as mesmas questões em seus estudos dos comportamentos, papéis e expressões sexuais encontrados em culturas contemporâneas em todo o mundo. Os que examinaram dados de grande variedade de culturas não-ocidentais definem dois padrões gerais.75 Algumas culturas, como a nossa, definem um papel permanente para os que se envolvem no acasalamento com pessoas do mesmo sexo - "homossexualidade institucionalizada", na terminologia de Mary McIntosh.76

Em contraste com essas estão as sociedades em que todos os meninos adolescentes, como parte de um processo de crescimento esperado, se envolvem em atos genitais com homens mais velhos. Essas uniões podem ser breves e altamente ritualizadas, ou podem durar muitos anos. Aqui o contato oral-genital entre dois machos não implica numa condição permanente ou categoria especial do ser humano. O que define a expressão sexual em tais culturas não é tanto o sexo do parceiro quanto a idade e o status da pessoa com que se acasala.77

Os antropólogos estudam povos e culturas extremamente diferentes com dois objetivos em mente. Primeiro, querem entender a variação humana - as diferentes maneiras como os seres humanos organizam a sociedade para poderem comer e se reproduzir. Segundo, muitos antropólogos procuram universais humanos. Como os historiadores, os antropólogos estão divididos em relação ao que informações colhidas numa cultura podem dizer sobre as outras, ou se diferenças subjacentes na expressão da sexualidade têm maior ou menor importância do que semelhanças aparentes.78 Em meio a esses desacordos, os dados antropológicos são, de qualquer maneira, empregados com freqüência em argumentos sobre a natureza do comportamento sexual humano.79

A antropóloga Carol Vance escreve que o campo da antropologia hoje reflete duas linhas contraditórias de pensamento. Refere-se à primeira como "modelo das influências culturais da sexualidade", que, mesmo quando destaca a importância da cultura e do aprendizado na formação do comportamento sexual, ainda supõe que "o fundamento da sexualidade... é universal e biologicamente determinado; na literatura aparece como 'pulsão ou impulso sexual'."80 A segunda orientação, diz Vance, consiste em interpretar a sexualidade inteiramente em termos de construção social. Um construtivista social moderado poderia dizer que o mesmo ato físico pode ser portador de diferentes sentidos sociais em culturas diferentes81 , ao passo que um construtivista radical diria que "o desejo sexual é ele mesmo construído pela cultura e pela história a partir das energias e capacidades do corpo".82

Alguns construtivistas sociais estão interessados em revelar similaridades entre culturas. O antropólogo Gil Herdt, por exemplo, construtivista moderado, cataloga quatro orientações culturais primárias em relação à sexualidade humana. A homossexualidade estruturada pela idade, como a encontrada na Grécia antiga, também aparece em algumas culturas modernas em que meninos adolescentes passam por um período de desenvolvimento em que são isolados com homens mais velhos e praticam regularmente a felatio. Esses atos são entendidos como parte do processo normal para tornar-se um adulto heterossexual. Na homossexualidade de inversão de sexo,

a atividade com o mesmo sexo envolve uma inversão do comportamento normativo em relação aos papéis sexuais: os homens se vestem e agem como mulheres e as mulheres se vestem e agem como homens.83

Herdt usa o conceito de homossexualidade de papéis especializados para culturas que aprovam a atividade com o mesmo sexo apenas para pessoas que desempenham certos papéis sociais, como o xamã. A homossexualidade de papéis especializados contrasta vivamente com nossa própria criação cultural: o moderno movimento gay. Declarar-se "gay", hoje, nos Estados Unidos é adotar uma identidade e entrar num movimento social e, às vezes, político.

Muitos estudiosos adotam a obra de Herdt porque ela oferece novas maneiras para pensar o status da homossexualidade na Europa e nos EUA. Mas embora contenha novas tipologias que são úteis para o estudo comparado da sexualidade, outros argumentam que Herdt faz uso de suposições que refletem sua própria cultura.84 A antropóloga Deborah Elliston acredita que utilizar o termo homossexualidade para descrever as práticas de troca de sêmen nas sociedades melanésias

imputa [a elas] um modelo ocidental de sexualidade... que se baseia em idéias ocidentais sobre gênero, erotismo e personalidade e que, no limite, obscurece os significados dessas práticas na Melanésia.85

Elliston reclama que o conceito de Herdt de sexualidade estruturada pela idade obscurece a composição da categoria "sexual", e que é precisamente essa categoria que deve ser esclarecida para começo de conversa.

Quando voltam sua atenção para as relações mais gerais entre gênero e sistemas de poder social, os antropólogos enfrentam o mesmo tipo de dificuldades intelectuais de estudar "terceiros" gêneros em outras culturas. Durante os anos 70, ativistas feministas na Europa e nos EUA esperavam que os antropólogos pudessem fornecer os dados empíricos que apoiassem seus argumentos a favor da igualdade de gênero. Se existissem sociedades igualitárias em qualquer parte do mundo isso não implicaria que nossas próprias estruturas sociais não são inevitáveis? Alternativamente, o que aconteceria se as mulheres em toda cultura conhecida da espécie humana tivessem um status subordinado? Não significaria essa semelhança cultural, como sugeriu mais de um escritor, que a posição secundária das mulheres seria biologicamente determinada?86

Ao viajarem pelo mundo em busca de culturas que sustentassem a bandeira da igualdade, as antropólogas feministas não voltaram com boas notícias. A maioria delas pensou, como diz a antropóloga feminista Sherry Ortner, "que os homens constituem, de alguma maneira, o 'primeiro sexo'."87 Mas sobrevieram as críticas dessas primeiras análises comparativas, e nos anos 90 algumas importantes antropólogas feministas reavaliaram a questão. O mesmo problema que acontece quando se coletam dados com surveys surge nas comparações de estruturas sociais entre culturas. Para dizê-lo de maneira simples, antropólogos e antropólogas têm que inventar categorias onde colocar a informação reunida. Inevitavelmente, algumas das categorias inventadas envolvem os próprios axiomas não questionados da vida das(os) antropólogas(os), o que alguns estudiosos chamam de "proposições incorrigíveis". A idéia de que há apenas dois sexos é uma proposição incorrigível88 , e também o é a idéia de que as(os) antropólogas(os) saberiam reconhecer a igualdade sexual quando a encontrassem.

Ortner acredita que a discussão sobre a universalidade da desigualdade sexual continuou por mais de duas décadas porque as(os) antropólogas(os) supunham que cada sociedade era internamente consistente, expectativa que ela hoje acredita pouco razoável:

nenhuma sociedade ou cultura é totalmente consistente. Toda sociedade/cultura tem alguns eixos de prestígio masculino e outros de prestígio feminino, alguns de igualdade de gênero, e alguns (às vezes muitos) eixos de prestígio que não têm a ver com gênero. O problema no passado era que cada um(a) de nós estava tentando catalogar cada caso. [Agora ela afirma em lugar disso que] as coisas mais interessantes em relação a cada caso dado são precisamente a multiplicidade de lógicas em operação, dos discursos sendo falados, das práticas de poder e prestígio em jogo.89

Se atentarmos para a dinâmica, as contradições e os temas menores, acredita Ortner, torna-se possível ver tanto o sistema hoje dominante quanto o potencial para que temas menores se tornem os temas principais.90

Mas também as feministas têm suas proposições incorrigíveis, e uma das mais centrais é de que todas as culturas, como escreve a antropóloga nigeriana Oyeronke Oyewumi, "organizam seu mundo social segundo uma percepção dos corpos humanos" como macho e fêmea.91 Ao chamar as feministas européias e norte-americanas para o debate desta proposição, Oyewumi mostra como a imposição de um sistema de gênero - neste caso, pelo colonialismo seguido do imperialismo acadêmico - pode alterar nosso entendimento da diferença étnica e racial. Em sua própria análise detalhada da cultura yoruba, Oyewumi descobre que a idade relativa é de longe um organizador social mais significativo. Os pronomes yoruba, por exemplo, não indicam o sexo, mas sim quem é mais velho ou mais jovem do que aquele que fala. O que eles pensam a respeito de como o mundo funciona dá forma ao que os estudiosos produzem sobre o mundo. Esse conhecimento, por sua vez, afeta o mundo em operação.

Se os intelectuais yoruba tivessem construído o conhecimento original sobre a terra yoruba, Oyewumi acredita que "a senioridade teria sido privilegiada em lugar do gênero".92 Olhar para a sociedade yoruba através da lente da senioridade e não da do gênero poderia ter dois efeitos importantes. Primeiro, se os estudiosos euro-norte-americanos tivessem aprendido sobre a Nigéria com os antropólogos yoruba, nossos próprios sistemas de crenças sobre a universalidade do gênero poderiam ter mudado. Eventualmente, tal conhecimento poderia alterar nossas construções de gênero. Segundo, a articulação de uma visão fundada na senioridade da organização social entre os yoruba contribuiria para reforçar essas estruturas sociais. Oyewumi acredita, porém, que os estudiosos africanos muitas vezes importam as categorias de gênero européias. E,

ao escreverem sobre qualquer sociedade de uma perspectiva de gênero, os estudiosos necessariamente inscrevem o gênero nessa sociedade... Assim a pesquisa está implicada no processo da formação do gênero.93

Os historiadores e os antropólogos estão em desacordo sobre como interpretar a sexualidade humana em diferentes sociedades e na história. Os filósofos chegam a discutir a validez das palavras homossexual e heterossexual - os termos mesmos do debate. 94 Mas onde quer que se situem no espectro do construtivismo, a maioria argumenta a partir da suposição de que há uma divisão fundamental entre natureza e cultura, entre "corpos reais" e sua interpretação cultural. Levo a sério as idéias de Foucault, Haraway, Scott e outros, segundo as quais nossas experiências corporais devem sua existência ao nosso desenvolvimento em culturas e períodos históricos particulares. Mas especialmente enquanto bióloga quero tornar mais específico o argumento.95 À medida que crescemos e nos desenvolvemos, nós, literalmente e não só "discursivamente" (isto é, através da linguagem e das práticas culturais), construímos nossos corpos, incorporando a experiência em nossa carne mesma. Para entender essa proposição, precisamos desgastar as distinções entre o corpo físico e o corpo social.

 

A negação dos dualismos

"Um diabo, um diabo nato, em cuja natureza a criação não cola". Assim o Próspero de Shakespeare denuncia Caliban em A Tempestade. Problemas de natureza e criação ocuparam a cultura européia durante algum tempo. Os modos europeus e norte-americanos de entender como funciona o mundo dependem em grande parte do uso de dualismos - pares de conceitos, objetos ou sistemas de crenças opostos. Este ensaio enquadra especialmente três deles: sexo/gênero, natureza/criação e real/construído. Em geral usamos os dualismos em alguma forma de argumento hierárquico. Próspero se queixa de que a natureza controla o comportamento de Caliban e de que seus (de Próspero) "cuidados tomados com humanidade" (para civilizar Caliban) de nada adiantam. A criação humana não pode vencer a natureza do diabo. [...] Mas, em virtualmente todos os casos, afirmo que os problemas intelectuais não podem ser resolvidos e nem se pode progredir socialmente pelo uso da queixa de Próspero. Em vez disso, ao considerar momentos discretos na geração do conhecimento biológico sobre a sexualidade humana, procuro cortar o nó górdio do pensamento dualista. Proponho modificar o bon mot de Halperin de que "a sexualidade não é um fato somático, ela é um efeito cultural",96 afirmando em lugar disso que a sexualidade é um fato somático criado por um efeito cultural. [...]

Por que usar dualismos para analisar gramaticalmente o mundo? Concordo com a filósofa Val Plumwood, que afirma que seu uso torna invisíveis as interdependências de cada par. Essa relação permite que conjuntos de pares se projetem uns sobre os outros. Consideremos um extrato da lista de Plumwood:

 

 

No uso cotidiano, os conjuntos de associações de cada coluna na lista costumam andar juntos. "A cultura", diz Plumwood, acumula esses dualismos como armas "que podem ser buscadas, afiadas e repostas. Velhas opressões armazenadas como dualismos facilitam e abrem caminho para novas opressões". 97 Por isso, ainda que meu foco seja o gênero, não hesitarei em indicar ocasiões em que as construções e ideologia da raça interferem com as do gênero.

Em última análise, o dualismo sexo/gênero limita a análise feminista. O termo gênero, posto numa dicotomia, necessariamente exclui a biologia. Como diz a teórica feminista Elizabeth Wilson: "Críticas feministas da estrutura do estômago ou hormonal... se tornaram impensáveis".98 [...] Tais críticas são impensáveis por causa da separação real/construído (às vezes formulada como uma divisão entre natureza e cultura), em que muitos projetam o conhecimento do real no domínio da ciência (tornando o construído equivalente ao cultural). Formulações dicotômicas tanto por parte de feministas quanto de não feministas conspiram para fazer com que a análise sócio-cultural do corpo pareça impossível.

Algumas teóricas feministas, especialmente durante a última década, tentaram - com graus variados de sucesso - criar uma explicação não dualista do corpo. Judith Butler, por exemplo, tenta reivindicar o corpo material para o pensamento feminista. Por que, ela se pergunta, a idéia de materialidade passou a significar aquilo que é irredutível, aquilo que pode dar suporte à construção, mas não pode ser construído? 99 Temos que falar, diz Butler (e eu concordo) sobre o corpo material. Existem hormônios, genes, próstatas, úteros e outras partes e fisiologias do corpo que usamos para diferenciar o macho da fêmea, que se tornam parte do campo de que emergem variedades de experiência e de desejo sexual. Além disso, variações em cada um desses aspectos da fisiologia afetam profundamente a experiência individual do gênero e da sexualidade . Mas cada vez que tentamos voltar para o corpo como algo que existe antes da socialização, antes do discurso sobre macho e fêmea, diz Butler, "descobrimos que a matéria está inteiramente sedimentada com discursos sobre o sexo e a sexualidade que prefiguram e limitam os usos que podemos fazer desse termo". 100

As idéias ocidentais da matéria e da materialidade corporal, diz Butler, foram construídas a partir de uma "matriz com gênero". Que os filósofos clássicos associavam feminilidade e materialidade pode ser visto nas origens da própria palavra. "Matéria" deriva de mater [mãe] e matrix [matriz], referindo-se ao útero e a problemas de reprodução. Tanto em grego como em latim, segundo Butler, a matéria não era entendida como um quadro vazio à espera da aplicação de sentido exterior.

A matriz é um... princípio formativo que inaugura e informa um desenvolvimento de algum organismo ou objeto... para Aristóteles, "matéria é potencialidade, forma é realidade..." Na reprodução diz-se que as mulheres entram com a matéria, os homens com a forma.101

Como observa Butler, o título de seu livro, Bodies That Matter [Corpos que fazem diferença], é um trocadilho bem pensado. Ser material é falar sobre o processo de materialização. E se os pontos de vista sobre o sexo e a sexualidade já estão embutidos em nossos conceitos filosóficos de como a matéria forma os corpos, a matéria dos corpos não pode constituir um campo neutro e pré-existente a partir do qual compreendemos as origens da diferença sexual. 102

Como a matéria já contém noções de gênero e sexualidade, ela não pode ser um recurso neutro sobre o qual construir teorias "objetivas" ou "científicas" do desenvolvimento e diferenciação sexual. Ao mesmo tempo, temos que reconhecer e usar aspectos de materialidade "que fazem parte do corpo". "Os domínios da biologia, anatomia, fisiologia, composição hormonal e química, doença, idade, peso, metabolismo, vida e morte" não podem "ser negados". 103 A teórica crítica Bernice Hausman concretiza esse ponto em sua discussão das técnicas cirúrgicas disponíveis para a criação de corpos transsexuais de macho para fêmea versus de fêmea para macho.

As diferenças [diz ela] entre vagina e pênis não são meramente ideológicas. Qualquer tentativa de enfrentar e decodificar a semiótica do sexo... precisa reconhecer que esses significantes fisiológicos têm funções no real que escapam... à sua função no sistema simbólico.104

Falar sobre a sexualidade humana requer um conceito do material. Mas a idéia do material já nos chega contaminada, contendo dentro dela idéias pré-existentes sobre a diferença sexual. Butler sugere que olhemos para o corpo como um sistema que, simultaneamente, produz significados sociais e é produzido por eles, exatamente como qualquer organismo biológico sempre resulta das ações simultâneas e combinadas de natureza e criação.

Diferente de Butler, a filósofa feminista Elizabeth Grosz atribui a certos processos biológicos um status que pré-existe a seu significado. Ela acredita que os instintos ou impulsos biológicos fornecem uma espécie de matéria-prima para o desenvolvimento da sexualidade. Mas matérias-primas nunca são suficientes. Elas precisam ter um conjunto de significados, "uma rede de desejos" 105 que organize os significados e a consciência das funções corporais da criança. Essa afirmação fica clara se seguirmos as estórias das chamadas crianças selvagens criadas sem limitações humanas e sem a inculcação de significados. Tais crianças não adquirem nem linguagem nem impulso sexual. Embora seus corpos forneçam a matéria-prima, sem um ambiente social humano a argila não pode ser modelada em forma psíquica reconhecível. Sem a sociabilidade humana, a sexualidade humana não pode se desenvolver. 106 Grosz tenta entender como a sociabilidade humana e o significado que claramente se originam fora do corpo acabam incorporados em sua constituição fisiológica e em seus comportamentos tanto inconscientes quanto conscientes.

Alguns exemplos concretos servem de ilustração. Uma mulher pequenina e grisalha, já bem entrada na casa dos 90, olha seu rosto enrugado no espelho. "Quem é essa mulher?", ela se pergunta. A imagem de seu corpo em sua mente não está em sincronia com o reflexo no espelho. Sua filha, de mais de 50 anos, tenta lembrar que, a menos que pense em usar os músculos da perna em vez do joelho, subir e descer a escada vai ficar cada vez mais doloroso. (Eventualmente adquirirá um novo hábito cinético e poderá dispensar o pensamento consciente sobre a questão.) As duas mulheres estão reajustando os componentes visual e cinético da imagem de seus corpos, formada com base em informação passada, mas sempre um pouco atrasadas em relação ao corpo físico.107 Como ocorrem tais reajustes e, em primeiro lugar, como se formaram nossas mais antigas imagens de nossos corpos? Aqui precisamos do conceito da psique, um lugar onde acontecem traduções de duas vias entre a mente e o corpo - uma ONU, por assim dizer, de corpos e experiências.108

Em Volatile Bodies [Corpos Voláteis], Elizabeth Grosz considera como o corpo e a mente surgem ao mesmo tempo. Para facilitar seu projeto, invoca a imagem de uma faixa de Möbius como metáfora da psique. A faixa de Möbius é um enigma topológico (figura 3), uma fita torcida uma vez e colada nas duas pontas para formar uma superfície retorcida. Podemos acompanhar a superfície, por exemplo, imaginando uma formiga que anda por ela. No começo da jornada circular a formiga está claramente do lado de fora. Mas à medida que avança na fita retorcida, sem jamais se afastar do plano, acaba por passar para a superfície interior. Grosz propõe que pensemos o corpo - o cérebro, músculos, órgãos sexuais, hormônios e mais - como a superfície interna da faixa de Möbius. A cultura e a experiência constituiriam a superfície externa. Mas, como sugere a imagem, as superfícies interna e externa são contínuas e podemos passar de uma para a outra sem nunca sairmos da superfície.

 

 

Como diz Grosz, psicanalistas e fenomenólogos apresentam o corpo em termos de sensações. 109 A mente traduz a fisiologia para um sentido interior do eu. A sexualidade oral, por exemplo, é uma sensação física que a criança e mais tarde o adulto traduz para um significado psicossexual. Essa tradução tem lugar na superfície interna da faixa de Möbius. Mas quando seguimos a superfície em direção a seu exterior, começamos a falar em termos de conexões com outros corpos e objetos - coisas que claramente são externas ao eu. Diz Grosz:

em lugar de descrever o impulso oral em termos de sensações... a oralidade pode ser entendida em termos do que faz: criar ligações. Os lábios da criança, por exemplo, formam conexões... com o seio ou a mamadeira, possivelmente acompanhados pela mão em contato com a orelha, cada sistema em movimento perpétuo e em inter-relação mútua.110

Continuando a analogia com a faixa de Möbius, Grosz pressente que os corpos criam as psiques, usando a libido como marcador para orientar o caminho dos processos biológicos para uma estrutura interior do desejo. Compete a uma área de estudos diferente estudar o "lado de fora" da faixa, uma superfície mais obviamente social marcada por

textos, leis e práticas pedagógicas, jurídicas, médicas e econômicas [para] dar forma a um sujeito social... capaz de trabalho, ou produção e manipulação, um sujeito capaz de agir como sujeito.111

Assim, Grosz também rejeita um modelo natureza versus criação do desenvolvimento humano. Embora reconhecendo que não compreendemos a extensão e limites da maleabilidade do corpo, ela insiste em que não podemos simplesmente "subtrair o ambiente, a cultura e a história" para acabar com "natureza ou biologia". 112

 

Além dos dualismos

Grosz postula impulsos inatos que são organizados pela experiência física em sensações somáticas, que se traduzem no que chamamos de emoções. Tomar o inato enquanto tal, porém, ainda nos deixa com um resíduo não explicado de natureza. 113 Os humanos são biológicos e, portanto, em certo sentido, seres naturais e sociais e, em certo sentido, artificiais - ou, se se quiser, entes construídos. Podemos imaginar um modo de ver a nós mesmos, à medida que nos desenvolvemos desde a fertilização até a velhice, como simultaneamente naturais e não naturais? Durante a última década, surgiu uma posição extremamente interessante que coloquei frouxamente sob a rubrica teoria desenvolvimentista sistêmica, ou TDS.114 O que ganhamos escolhendo a TDS como referencial analítico?

Os teóricos do desenvolvimentismo sistêmico negam que haja basicamente dois tipos de processos: um guiado pelos genes, hormônios e células do cérebro (isto é, a natureza) e o outro pelo ambiente, a experiência, o aprendizado ou forças sociais rudimentares (isto é, a criação).115 A primeira teórica sistêmica, a filósofa Susan Oyama, assegura que a TDS

dá mais clareza, mais coerência, mais consistência e uma maneira diferente de interpretar os dados; além disso, fornece o meio para sintetizar os conceitos e métodos... de grupos que vêm trabalhando em direções diferentes, ou pelo menos estão envolvidos num diálogo de surdos há décadas. [De qualquer modo, a teoria desenvolvimentista sistêmica não é mágica. Muitos resistirão a ela porque] ela dá menos... orientação sobre a verdade fundamental [e] menos conclusões sobre o que é inerentemente desejável, saudável, natural ou inevitável.116

Como, especificamente, pode a TDS ajudar a livrar-nos de processos de pensamento dualistas? Consideremos um exemplo do teórico Peter Taylor, uma cabra nascida sem as patas da frente. Durante sua vida, ela deu um jeito de pular sobre seus membros posteriores. Um anatomista que estudou seu corpo depois de morta descobriu que ela tinha uma espinha em forma de S (como os humanos), "ossos mais grossos, musculatura alterada e outros correlatos de andar sobre duas pernas".117 Esse esqueleto (e o de todas as cabras) se desenvolveu como parte de sua maneira de andar. Nem os genes nem o ambiente determinaram sua anatomia. Só o conjunto tinha tal capacidade. Muitos fisiologistas desenvolvimentistas reconhecem esse princípio. 118 Como escreve uma bióloga, "a estruturação ocorre durante a atuação nas histórias de vida individuais ".119

Há alguns anos, quando o neuro-cientista Simon Le Vay relatou que as estruturas cerebrais de homens gays e heterossexuais eram diferentes (e que isso refletia uma diferença mais geral entre homens e mulheres) viu-se no centro de uma tempestade.120 Embora um herói para muitos homens gays teve problemas com vários grupos. De um lado, feministas como eu não gostaram de seu uso pouco crítico de dicotomias de gênero, que no passado nunca contribuíram para fazer avançar a igualdade para as mulheres. De outro, membros da direita cristã detestaram seu trabalho por acreditarem que a homossexualidade é um pecado que os indivíduos podem decidir rejeitar.121 A obra de Le Vay, e mais tarde a do geneticista Dean Hamer, sugeria a eles que a homossexualidade era inata ou congênita.122 A linguagem do debate público logo se polarizou. Cada um dos lados contrastava palavras como genético,biológico,inato,congênito e imutável com ambiental,adquirido,construído e escolha .123

A facilidade com que tais debates evocam a separação natureza/criação é conseqüência da pobreza de uma abordagem não sistêmica.124 Politicamente, o referencial natureza/criação encerra enorme perigo. Embora alguns tenham a esperança de que o lado natural das coisas possa levar a maior tolerância, a história sugere que o contrário também é possível. Até os arquitetos científicos do argumento da natureza reconhecem o perigo.125 Numa notável passagem nas páginas de Science, Dean Hamer e seus colaboradores mostram a preocupação:

Seria profundamente antiético usar essa informação para tentar avaliar ou modificar a orientação sexual presente ou futura de uma pessoa. Ao contrário, cientistas, educadores, políticos e o público devem trabalhar em conjunto para assegurar que esta pesquisa seja usada em benefício de todos os membros da sociedade.126

A psicóloga e teórica feminista Elizabeth Wilson usa a celeuma em torno da obra de Le Vay para fazer importantes observações sobre a teoria sistêmica.127 Muitas teóricas feministas, queer e críticas trabalham deslocando deliberadamente a biologia e, assim, abrindo o corpo à conformação social e cultural.128 Mas esse é o movimento errado. Ela diz: "O que pode ser política e criticamente problemático na hipótese de Le Vay não é a conjunção neurologia-sexualidade em si, mas o modo particular de sua apresentação".129 Uma resposta política eficaz, continua, não precisa afastar o estudo da sexualidade das neurociências. Em lugar disso, Wilson, que quer que desenvolvamos uma teoria da mente e do corpo - uma explicação da psique que junte a libido ao corpo - sugere que as feministas incorporem à sua visão de mundo uma explicação da operação do cérebro que é chamada, em termos amplos, conexionismo.

A antiga abordagem ao entendimento do cérebro era anatômica. A função podia ser localizada em partes específicas do cérebro. Em última análise, função e anatomia eram a mesma coisa. Essa idéia está subjacente ao debate do corpus callosum, por exemplo, e também à querela em torno da obra de Le Vay. Muitos cientistas acreditam que uma diferença estrutural representa a localização cerebral de diferenças comportamentais observadas. Por oposição, modelos conexionistas130 afirmam que a função surge a partir da força e complexidade de muitas conexões neurais que atuam ao mesmo tempo.131 O sistema tem algumas características importantes: as respostas são com freqüência não lineares, as redes podem ser "treinadas" para responder de maneiras particulares, a natureza da resposta não é facilmente previsível e a informação não está localizada em lugar nenhum - ao contrário, ela é o resultado líquido das muitas conexões diferentes e de suas diferentes forças.132

Os princípios de certas teorias conexionistas oferecem interessantes pontos de partida para a compreensão do desenvolvimento sexual humano. Como as redes conexionistas, por exemplo, são em geral não lineares, pequenas mudanças podem produzir grandes efeitos. Implicação para o estudo da sexualidade: podemos facilmente estar procurando aspectos do ambiente que dão forma ao desenvolvimento humano no lugar errado e na escala errada.133 Além disso, um mesmo comportamento pode ter muitas causas subjacentes, eventos que acontecem em momentos diferentes do desenvolvimento. Suspeito que nossos rótulos homossexual, heterossexual, bissexual e transgênero não são boas categorias, e podem ser melhor entendidos apenas em termos de eventos singulares de desenvolvimento134 que afetam indivíduos particulares. Assim, concordo com os conexionistas que afirmam que "o próprio processo de desenvolvimento está no centro da aquisição do conhecimento. O desenvolvimento é um processo de emergência".135

Na maioria das discussões públicas e científicas, o sexo e a natureza são considerados reais, e o gênero e a cultura são vistos como construídos.,136 Mas trata-se de falsas dicotomias. Começo com os marcadores mais visíveis e exteriores do gênero - os órgãos genitais - para mostrar como o sexo é, literalmente, construído. Os cirurgiões removem partes e usam plástico para criar órgãos genitais "apropriados" para pessoas nascidas com partes do corpo que não são facilmente identificáveis como masculinas ou femininas. Os médicos acreditam que seu saber lhes permite "ouvir" a verdade que a natureza lhes diz sobre o sexo a que tais pacientes devem pertencer. Suas verdades, porém, vêm do campo social e são reforçadas, em parte, pela tradição médica de tornar invisíveis os nascimentos intersexuais.

Nossos corpos, assim como o mundo em que vivemos, são certamente feitos de materiais. E freqüentemente usamos a pesquisa científica para entender a natureza desses materiais. Mas essa pesquisa científica envolve um processo de construção do conhecimento. [...] Aqui me ocupo de uma única controvérsia científica: homens e mulheres têm corpora callosa (uma região específica do cérebro) com diferentes formas? Nessa discussão, mostro que os cientistas constroem seus argumentos escolhendo abordagens e ferramentas experimentais particulares. A forma inteira do debate é limitada socialmente, e as específicas ferramentas escolhidas para a análise (por exemplo, um tipo particular de análise estatística ou o uso de cérebros de cadáveres em lugar de imagens de ressonância magnética do cérebro) têm suas próprias limitações históricas e técnicas.137

Em circunstâncias apropriadas, porém, até mesmo o corpus callosum é visível a olho nu. O que acontece, então, quando nos aprofundamos ainda mais - na invisível química do corpo? [...] No período de 1900 a 1940 os cientistas escavaram a natureza de modo particular, criando a categoria dos hormônios sexuais. Os próprios hormônios se tornam marcadores de diferença sexual. Então, a descoberta do hormônio sexual ou de seu receptor em qualquer parte do corpo (por exemplo, as células dos ossos) torna sexual aquela parte do corpo previamente neutra em relação ao gênero. Mas se analisarmos a questão historicamente podemos ver que os hormônios esteróides não precisavam ter sido divididos nas categorias sexual e não sexual138 . Poderiam, por exemplo, ter sido considerados como hormônios do crescimento, afetando ampla gama de tecidos, inclusive os órgãos reprodutores.

Hoje, os cientistas concordam sobre a estrutura química das moléculas esteróides que rotularam de hormônios sexuais, embora não sejam visíveis a olho nu. [...] Os cientistas usaram o novo conceito do hormônio sexual para aprofundar o entendimento do desenvolvimento genital em roedores e em parte em sua aplicação do conhecimento sobre os hormônios sexuais a algo ainda menos tangível que a química do corpo: o comportamento relativo ao sexo. Mas, parafraseando o bardo, o curso da verdadeira ciência jamais foi fácil. Experimentos e modelos, descrevendo o papel dos hormônios no desenvolvimento de comportamentos sexuais em roedores, fornecem um paralelo sinistro para os debates culturais sobre os papéis e capacidades de homens e mulheres. Parece difícil evitar a idéia de que nosso próprio entendimento científico dos hormônios, do desenvolvimento do cérebro e do comportamento sexual são, da mesma forma, construídos em contextos sociais e históricos específicos, e carregam suas marcas. [...]

 

 

* Capítulo 1 de Sexing the Body: Gender Politics and the Construction of Sexuality. Nova Iorque, Basic Books, 2000. Cadernos Pagu agradecem a autorização da autora e da editora para a tradução deste capítulo. Pequenas referências aos demais capítulos do livro foram suprimidas e estão indicadas no texto por [...]. (Tradução: Plínio Dentzien; Revisão: Valter Arcanjo da Ponte.         [ Links ])
** Professora de Biologia e Women's Studies, Universidade de Brown, Rhode Island, EUA.
1 HANLEY, D. F. Drug and sex testing: Regulations for international competition. Clinics in Sports Medicine 2, 1983, pp.13-17.         [ Links ]
2 Minha apresentação dos eventos se baseia nos seguintes relatos: de la CHAPELLE, A. The use and misuse of sex chromatin screening for "gender identification" of female athletes. Journal of the American Medical Association 256 (14) 1986, pp.1920-23;         [ Links ] SIMPSON, J. L. Gender testing in the Olympics. Journal of the American Medical Association, op. cit., p.1938;         [ Links ] CARLSON, A. When is a woman not a woman? Women's Sports and Fitness 13, 1991, pp.24-29;         [ Links ] ANDERSON, C. Tests on athletes can't always find line between males and females. Washington Post, 6-01-1992, p.A3;         [ Links ] Grady, D. Sex test. Discover, junho de 1992, pp.78-82;         [ Links ] LE FANU, J. Olympic chiefs urged to drop sex test. Sunday Telegraph, 2-02-1992, p.2;         [ Links ] VINES, G. Last Olympics for the sex test? New Scientist 135 (1828) 1992, pp.39-42;         [ Links ] WAVELL, S. e ALDERSON, A. Row looms over Olympic sex test. Sunday Times, Oversea News, 26-01-1992.         [ Links ]
3 Citado por CARLSON, A. When is a woman not a woman? Op. cit., p.27.
4 Id., ib. O nome técnico da condição de Patiño é Síndrome da Insensibilidade ao Andrógeno. É uma das várias condições que levam os corpos a apresentarem misturas de partes masculinas e femininas. Hoje chamamos esses corpos de intersexuais.
5 VINES, G. Last Olympics for the sex test? Op. cit., p.41.
6 Id., ib. p.42.
7 Essa contradição assolava o atletismo feminino em todos os níveis. Ver Verbrugge, M. H. Recreating the body: Women's physical education and the science of sex differences in America, 1900-1940. Bulletin of the History of Medicine 71 (2), 1997, pp.273-304.         [ Links ]
8 As Olimpíadas em especial, e o esporte feminino em geral, colocaram todo tipo de diferença de gênero no centro de sua prática. A exclusão das mulheres de certos eventos e a existência de regras diferentes para os jogos masculinos e femininos são exemplos óbvios. Para uma discussão detalhada sobre gênero e esporte, ver CAHN, S. K. Coming on: Gender and sexuality in 20th century women's sports. Cambridge, Harvard University Press, 1994.         [ Links ] Para outros exemplos de como o próprio gênero contribui para a construção de diferentes corpos masculinos e femininos nos esportes, ver LORBER, J. Believing in seeing: Biology as ideology. Gender and Society 7 (4) 1993, pp.568-81;         [ Links ] e ZITA, J. N. Male lesbians and the postmodernist body. Hypatia 7 (4) 1992, pp.106-27.         [ Links ]
9 Money e Ehrhardt definem "papel de gênero" como "tudo aquilo que uma pessoa diz e faz para indicar aos outros ou a si mesma o quanto é masculina, feminina ou ambivalente". Definem a "identidade de gênero" como "a unidade e persistência da individualidade como masculina, feminina ou ambivalente... A identidade de gênero é a experiência privada do papel de gênero, e o papel de gênero é a experiência pública da identidade de gênero". MONEY, J. e EHRHARDT, A. A. Man and woman, boy and girl. Baltimore, Johns Hopkins University Press, 1972, p.4.         [ Links ] Para uma discussão da separação que Money faz entre "sexo" e "gênero", ver HAUSMAN, B. L. Changing sex: Transsexualism, technology and the idea of gender in the 20th century. Durham, NC, Duke University Press, 1995.         [ Links ] Money e Ehrhardt distinguem entre sexo cromossômico, sexo gonádico fetal, sexo hormonal fetal, dimorfismo genital, dimorfismo cerebral, a resposta dos adultos ao sexo da criança, imagem do corpo, identidade de gênero juvenil, sexo hormonal na puberdade, erotismo na puberdade, morfologia na puberdade e identidade de gênero adulta. Todos esses fatores, acreditam, operam em conjunto para definir a identidade de gênero adulta de uma pessoa.
10 Ver RUBIN, G. The traffic in women: Notes on the 'political economy' of sex. In: REITER, R. R. (org.) Toward and anthropology of women. Nova Iorque, Monthly Review Press, 1975, pp.157-210.         [ Links ] Rubin também questiona a base biológica da homossexualidade e da heterossexualidade. Observe-se que as definições feministas de gênero se aplicavam tanto a instituições quanto a diferenças pessoais ou psicológicas.
11 A dicotomia sexo/gênero muitas vezes se torna sinônimo dos debates sobre natureza/criação ou mente/corpo. Para uma discussão sobre como usar essas dicotomias como ajuda para entender o entrelaçamento de sistemas de crenças sociais e científicos, ver FIGLIO, K. M. The metaphor of organization: An historiographical perspective on the bio-medical sciences of the early 19th century. History of Science 14, 1976, pp.17-53.         [ Links ]
12 Muitos cientistas e seus popularizadores dizem que os homens são mais competitivos, mais agressivos ou assertivos, mais sexuais, mais inclinados à infidelidade e mais. Ver POOL, R. Eve's rib: The biological roots of difference. Nova Iorque, Crown Publishers, 1994 e WRIGHT,         [ Links ] R. The moral animal. Nova Iorque, Pantheon, 1994.         [ Links ] Para uma crítica dessas afirmações, ver FAUSTO-STERLING, A. Why do we know so little about human sex? Discover 13: 6, 1992;         [ Links ] Beyond difference: A biologist's perspective. Journal of Social Issues 532, 1997;         [ Links ] Feminism and behavioral evolution: A taxonomy. In: GOWATY, P. A. (org.) Feminism and evolutionary biology. Nova Iorque, Chapman and Hall, 1997.         [ Links ]
13 Este debate é problemático para as feministas porque opõe a autoridade da ciência, especialmente a biologia, à autoridade da ciência social - e em qualquer enfrentamento desse tipo a ciência social tende a perder. Em nossa cultura, a ciência carrega consigo a pompa do acesso especial à verdade: a pretensão à objetividade.
14 Spelman rotulou o medo feminista do corpo de "somatofobia". Ver SPELMAN, E. Inessential woman: Problems of exclusion in feminist thought. Boston, Beacon Press, 1988.         [ Links ] Recentemente, um colega comentou comigo que eu parecia temer as teorias biológicas do comportamento. Isso o intrigava porque, ao mesmo tempo, ele percebia que me dedico aos estudos biológicos como uma maneira de obter informações interessantes e úteis sobre o mundo. Ele estava certo. Como muitas feministas, tenho boas razões para temer trazer a biologia para a cena. E não só por meu conhecimento sobre séculos de argumentos que usaram o corpo para justificar desigualdades de poder. Também me deparei com esses argumentos num nível pessoal ao longo de minha vida. Na escola primária, uma professora me disse que as mulheres podiam ser enfermeiras, mas não médicos (depois de ter anunciado minha intenção de ser médica). Quando, como jovem professora-assistente, entrei no Departamento em Brown, um catedrático do Departamento de História me disse, gentilmente, mas com grande autoridade, que a história mostrava que nunca existiram mulheres geniais nem nas ciências nem nas letras. Parece que nascemos para ser medíocres. Para coroar tudo isso, ao voltar de reuniões científicas, emocionalmente abalada por minha incapacidade de participar dos conclaves exclusivamente masculinos, onde aconteciam os verdadeiros intercâmbios científicos (nas conversas sociais e nas refeições), lia que "grupos de homens" eram um resultado natural dos laços entre os homens que tinham evoluído a partir de comportamentos pré-históricos de caça. Nada a fazer, realmente, em relação a isso. Hoje compreendo que experimentei o poder político da ciência. Esse "poder é exercido de maneira menos visível, menos conspícua (do que o poder do Estado ou institucional) e não sobre, mas através das estruturas institucionais dominantes, das prioridades, práticas e linguagens das ciências". HARDING, S. After the neutrality ideal: Science, politics, and strong objectivity. Social Research 59 (3), 1992, p.567,         [ Links ] ênfase original. Não é de surpreender que eu e outras feministas suspeitássemos (e suspeitemos) da tendência a fundar o desenvolvimento da psique em alguma essência corporal. Reagíamos ao que veio a ser chamado de "essencialismo". Hoje, assim como há um século, as essencialistas feministas argumentam que as mulheres são naturalmente diferentes - e que tal diferença constitui a base tanto da desigualdade quanto da superioridade social. Para uma entrada no extenso debate feminista sobre o essencialismo, ver MARTIN, J. R. Methodological essentialism, false difference, and other dangerous traps. Signs 19 (3) 1994 e BOHAN,         [ Links ] J. S. Regarding gender: Essentialism, constructionism, and feminist psychology. In: GERGEN, M. M. e DAVIS, S. N. (org.) Toward a new psychology of gender: A reader. Nova Iorque, Routledge, 1997.         [ Links ]
15 Para uma discussão sobre essa recalcitrância em termos dos esquemas de gênero na vida adulta, ver Valian, V. Runing in place. The Sciences, janeiro/fevereiro 1998;         [ Links ] Why so slow? The advancement of women. Cambridge, MIT Press, 1998.         [ Links ]
16 Ver os capítulos 1-4 do livro; também FEINBERG, L. Transgender warriors. Boston, Beacon Press, 1996;         [ Links ] KESSLER, S. J. e MCKENNA, W. Gender: An ethnomethodological approach. Nova Iorque, Wiley, 1978;         [ Links ] Haraway, D. Primate Visions. Nova Iorque, Routledge, 1989;         [ Links ] Modest_witness@second_millennium. femaleman_meets_oncomousetm. Nova Iorque, Routledge, 1997; HAUSMAN, B. L. Changing sex... Op. cit.; ROTHBLATT, M. The apartheid of sex: A manifesto on the freedom of gender. Nova Iorque, Crown, 1995;         [ Links ] BURKE, P. Gender shock: Exploding the myths of male and female. Nova Iorque, Doubleday, 1996;         [ Links ] Dreger, A. D. Hermaphrodites and the medical invention of sex. Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1998.         [ Links ] Uma apresentação sociológica recente dos problemas da corporificação considera que " 'o gume' da recente teorização social sobre o corpo pode estar situado dentro do próprio feminismo". WILLIAMNS S. J. e BENDELOW, G. The lived body: Sociological themes, embodied issues. Londres, Routledge, 1998, p.130.         [ Links ]
17 MOORE, H. L. A passion for difference: Essays in anthropology and gender. Bloomington, Indiana University Press, 1994, pp.2-3.         [ Links ] [NE: Existe tradução do capítulo 3 - Fantasias de poder e fantasias de identidade: gênero, ração e violência - Cadernos Pagu (14), Núcleo de Estudos de Gênero-Pagu/Unicamp, 2000.         [ Links ]]
18 Meu ativismo social incluiu participação em organizações de defesa de direitos civis para todos, independente de raça, gênero ou orientação sexual. Também trabalhei em problemas tradicionalmente feministas como abrigos para mulheres espancadas, direitos reprodutivos e igualdade de acesso das mulheres à academia.
19 Estou querendo ampliar essa afirmação para incluir todo conhecimento científico, mas aqui atenho-me apenas à biologia - o empreendimento científico que melhor compreendo. Para argumentos mais extensos sobre o tópico, ver LATOUR, B. Science in action. Milton Keynes, Reino Unido, Open University Press, 1987 e SHAPIN,         [ Links ] S. A social history of truth: civility and science in seventeenth-century England. Chicago, University of Chicago Press, 1994.         [ Links ]
20 Alguns observariam que as pessoas exprimem sexualidades muito impopulares a despeito de forte pressão social contrária, incluindo até a ameaça de dano corporal. Claramente, argumentam, nada no ambiente teria encorajado o desenvolvimento de tal comportamento, mas o corpo o exibe. Outros dizem que deve existir alguma disposição determinada antes do nascimento que, em interação com fatores ambientais desconhecidos, levaria a uma sexualidade adulta fortemente defendida e muitas vezes imutável. Membros deste último grupo, provavelmente a maioria dos participantes da loveweb, chamam a si mesmos de interacionistas. Mas sua versão do interacionismo (significando que o corpo e o ambiente interagem para produzir padrões de comportamento) demanda grande dose de corpo e apenas algum borrifo de ambiente. "A verdadeira questão", diz um dos mais firmes e articulados entre os interacionistas, "é saber como o corpo gera o comportamento" (discussão na "Lovenet").
21 A dedicação ao estudo não é o único agente de mudanças; combina-se com outros agentes, inclusive os mais tradicionais, como votar e formar blocos de preferências de consumo.
22 HARAWAY, D. Modest_witness@second... Op. cit., p.217. Ver também Foucault, M. The order of things: An archaeology of the human sciences. Nova Iorque, Random House, 1970;         [ Links ] GOULD, S. J. The mismeasure of man. Nova Iorque, Norton, 1981;         [ Links ] SCHIEBINGER, L. Why mammals are called mammals: Gender politics in eighteenth-century natural history. American Historical Review 98 (2), 1993;         [ Links ] Nature's body: Gender in the making of modern science. Boston, Beacon Press, 1993.         [ Links ]
23 Ver STOKING, G. W. Victorian anthropology. Nova Iorque, Free Press, 1987;         [ Links ] Bones, bodies, behavior: Essays on biological anthropology. Madison, University of Wisconsin Press, 1988;         [ Links ] RUSSETT, C. E. Sexual science: The Victorian construction of womanhood. Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1989;         [ Links ] POOVEY, M. Making a social body: British cultural formation, 1830-1864. Chicago, University of Chicago Press, 1995.         [ Links ]
24 A historiadora Lorraine Daston observa que a idéia da natureza ou do natural invocada nos debates sobre o corpo mudou entre os séculos XVIII e XIX: "A natureza do início da modernidade era incapaz de 'fatos dutos'... A natureza moderna é abundante de amargas revelações sobre as ilusões da ética e da reforma social, pois a natureza era implacavelmente amoral". DASTON, L. The naturalized female intellect. Science in Context 5 (2) 1992, p.222.         [ Links ]
25 Durante esse período, sustenta Foucault, a passagem do Feudalismo ao Capitalismo precisava de um novo conceito do corpo. Os senhores feudais aplicavam o poder diretamente. Camponeses e servos obedeciam porque Deus e seu soberano assim falavam (exceto, é claro, quando se rebelavam, o que faziam de tempos em tempos). A punição para a desobediência era, aos olhos modernos, violenta e brutal: a roda e o esquartejamento. Para uma descrição espantosa dessa brutalidade, ver os capítulos de abertura de FOUCAULT, M. Discipline and Punish. Nova Iorque, Random House, 1979.         [ Links ]
26 FOUCAULT, M. The history of sexuality. Nova Iorque, Pantheon, 1978, p.141.         [ Links ]
27 Esses esforços criaram "uma anátomo-política do corpo humano". Id., ib., p.139, ênfase original.
28 Como alguns dos argumentos sobre sexo e gênero representam os velhos argumentos sobre natureza/criação em roupagem moderna, sua resolução (ou, como defendo, sua dissolução) é relevante para os debates sobre diferenças raciais. Para uma discussão da raça em termos do moderno conhecimento biológico, ver MARKS, J. Human biodiversity: Genes, race and history. Nova Iorque, Aldine de Gruyter, 1994.         [ Links ]
29 FOUCAULT, M. The history of sexuality. Op. cit., p.139, ênfase original.
30 Id., ib. Sobre como o avanço da estatística permitiu que os cientistas do século XX fizessem afirmações sobre diferenças sexuais no cérebro humano ver FAUSTO- STERLING, A. Sexing the Body. Op. cit., capítulo 5.
31 SAWICKI, J. Disciplining Foucault. Nova Iorque, Routledge, 1991, p.67.         [ Links ] Para discussões específicas de Foucault num contexto feminista, ver MCNAY, L. Foucault and feminism. Boston, Northwestern University Press, 1993.         [ Links ]
32 FOUCAULT, M. Two lectures. In: Gordon, C. (org.) Power/knowledge: Selected interviews and other writings 1972-1977 by Michel Foucault. Nova Iorque, Pantheon, 1980, p.107.         [ Links ]
33 MOORE, L. J. e CLARKE, A. E. Clitoral conventions and transgressions: Graphic representation in anatomy texts, c1900-1991. Feminist Studies 21(2), 1995, p.271.         [ Links ]
34 Ilustrando a anátomo-política do corpo humano.
35 Exemplificando a biopolítica da população.
36 HARDING, S. After the neutrality ideal... Op. cit.; Strong objectivity: A response to the new objectivity question. Synthèse 104 (3), 1995;         [ Links ] HARAWAY, D. Modest_witness@second... Op. cit.; Longino, H. Science as social knowledge: Values and objectivity in scientific inquiry. Princeton, Princeton University Press, 1990;         [ Links ] Rose, H. Love, power and knowledge: Toward a feminist transformation of the sciences. Bloomington, Indiana University Press, 1994;         [ Links ]NELSON, L. H. e NELSON, J. (orgs.) Feminism, science and the philosophy of science. Boston, Kluwer Academic, 1996.         [ Links ]
37 STROCK, C. Married women who love women. Nova Iorque, Doubleday, 1998.         [ Links ]
38 Além disso, as teorias derivadas de tais pesquisas afetam profundamente o modo como as pessoas vivem suas vidas. Recentemente, por exemplo, um movimento que visava transformar homossexuais em heterossexuais ganhou grande publicidade. Faz grande diferença para os homossexuais individuais que os outros pensem que eles podem mudar ou que acreditem que seu desejo homossexual é permanente e imutável. LELAND, J. e MILLER, M. Can gays "convert"? Newsweek, 17-08-1998;         [ Links ] DUBERMAN, M. Cures: A gay man's odyssey. Nova Iorque, Dutton, 1991.         [ Links ] Para discussão adicional sobre esse ponto, ver ZITA, J. N. Male lesbians... Op. cit. Para uma análise detalhada da bissexualidade, ver GARBER, M. Vice versa: Bisexuality and the eroticism of everyday life. Nova Iorque, Simon & Schuster, 1995.         [ Links ] O sociólogo Bruno Latour diz que quando uma descoberta científica se torna tão plenamente aceita que a dignificamos chamando-a de fato, colocando-a sem questionamento em manuais e dicionários científicos, ela desaparece de vista, para trás de um véu a que chama de caixa preta.LATOUR, B. Science in action. Op. cit. Colocado um fato na caixa preta de Latour, as pessoas param de olhar para ele. Ninguém se pergunta se, na época de sua origem, funcionou ideologicamente na arena social e política, ou se incorporava práticas culturais ou visões de mundo particulares.
39 KINSEY et alii.Sexual behavior in the human male. Filadélfia, Saunders, 1948;         [ Links ] e Sexual behavior in the human female. Filadélfia, Saunders, 1953. As oito categorias de Kinsey. 0: "todas as respostas psicológicas e atividades sexuais dirigidas a pessoas do sexo oposto". 1 - "respostas psico-sexuais e/ou experiência pública quase inteiramente dirigida a indivíduos do sexo oposto"; 2 - "preponderância das respostas psico-sexuais e/ou experiências públicas heterossexuais, embora respondam de maneira diferente a estímulos homossexuais"; 3 - indivíduos que "ficam a meio caminho na escala heterossexual-homossexual"; 4 - indivíduos cujas "respostas psicológicas são com maior freqüência dirigidas a outros indivíduos do próprio sexo"; 5 - "quase inteiramente homossexuais em suas respostas psicológicas e/ou atividades públicas"; 6 - "exclusivamente homossexuais". X - "não respondem eroticamente nem a estímulos heterossexuais nem a estímulos homossexuais e não têm contatos físicos públicos". Id., ib., 1953, pp.471-72.
40 Quando examinaram os encontros sexuais acumulados desde a adolescência até os 40 anos relataram que as respostas homossexuais atingiam 28% das mulheres e quase 50% dos homens. Quando perguntaram sobre interações que levaram ao orgasmo, os números ainda eram altos: 13% das mulheres e 37% dos homens (Id., ib., p.471). Kinsey não endossava a idéia da homossexualidade como categoria natural.
41 É claro que ele também estudou esses outros aspectos da existência social humana, mas não faziam parte explicitamente da escala 0-6 e a complexidade e sutileza da análise de Kinsey muitas vezes se perderam em análises subseqüentes. Em 1989, alguns pesquisadores se queixavam da inadequação da escala de Kinsey e propuseram modelos mais complexos tipo grade. Um criou uma grade com sete variáveis na vertical (atração sexual, comportamento sexual, fantasias sexuais, preferência emocional, preferência social, auto-identificação, estilo de vida hetero/homo) e um gradiente temporal (passado, presente e futuro) horizontal. KLEIN, F. The need to view sexual orientation as a multivariable dynamic process: A theoretical perspective. In: MCWHIRTER, D. P. et alii (orgs.) Homosexuality/heterosexuality: Concepts of sexual orientation. Nova Iorque, Oxford University Press, 1990.         [ Links ]
42 Ver BAILEY, J. M. et alii. Heritable factors influence sexual orientation in women. Archives of General Psychiatry 50, março de 1993;         [ Links ] WHITAM, F. L. et alii. Homosexual orientation in twins: A report on 61 pairs and three triplets sets. Archives of Sexual Behavior 33 (3), 1993;         [ Links ] HAMER, D. et alii. Linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Science 261, 1993;         [ Links ] e PATTATUCCI, A. M. e HAMER, D. H. Development and familiality of sexual orientation in females. Behavior Genetics 25 (5) 1995.         [ Links ] Desde o começo Kinsey foi atacado política e cientificamente. Perdeu seu financiamento depois que alguns congressistas se enfureceram. Os cientistas, especialmente os estatísticos, atacaram sua metodologia. Kinsey obteve seus dados de um número extraordinariamente grande de homens e mulheres, mas de uma população predominantemente branca, de classe média e do meio-oeste, usando o que os sociólogos consideram uma amostra "bola de neve". Começando com estudantes como fonte, espalhou-se para seus amigos e família, amigos dos amigos e suas famílias e assim por diante. À medida que se espalhava o rumor sobre a pesquisa (por exemplo, em suas palestras públicas), escolhia mais pessoas, algumas voluntariamente depois de ouvi-lo falar. Embora tivesse procurado ativamente pessoas de outros ambientes, não há dúvida que selecionou um segmento da população especialmente disposto, e em alguns casos até interessado, em falar de sexo. Será que isso explica a alta freqüência de encontros homossexuais em seus relatórios? Do lado positivo, Kinsey e um pequeno número de colaboradores altamente treinados de maneira consentânea com o racismo e o sexismo do período, os entrevistadores de Kinsey tinham que ser homens e WASP [White, Anglo-Saxon, Protestant], realizaram todas as entrevistas. Em lugar de utilizar questionários pré-testados, seguiam um procedimento memorizado e tinham liberdade para seguir linhas de questionamento para confirmar que tinham obtido respostas completas. Abordagens mais modernas ao survey substituíram esse processo de entrevistas mais flexível, mas também mais idiossincrático por um nível de padronização que permite utilizar entrevistadores menos treinados. É muito difícil saber se, como resultado, perdem-se dados importantes. Devo essa observação a James Weinrich (comunicação pessoal). BRECHER, E. M. e BRECHER, J. Extracting valid sexological findings from severely flawed and biased population samples. Journal of Sex Research 22 (1), 1986;         [ Links ] IRVINE, J. M. Disorders of desire: Sex and gender in modern American sexology. Filadélfia, Temple University Press, 1990;         [ Links ] From difference to sameness: Gender ideology in sexual science. Journal of Sex Research 27 (1) 1990.         [ Links ]
43 Essa é uma característica necessária quando se trabalha com estudos de ligação molecular (para qualquer traço multifatorial) devido ao seu baixo poder de resolução. LANDER, E. S. e SCHORCK, J. N. Genetic dissection of complex traits. Science 265, 1994.         [ Links ] Se um traço não for drasticamente estreitado, é impossível encontrar associações estatisticamente significativas. Mas estreitar o traço torna impossível generalizar a descoberta para a população como um todo. PATTATUCCI, A. M. Molecular investigation into complex behavior: Lessons from sexual orientation studies. Human Biology 70 (2) 1998.         [ Links ]
44 Para o modelo de grade, ver KLEIN, F. The need to view sexual orientation... Op. cit. Para uma versão de um modelo ortogonal, ver WEINRICH, J. D. Sexual landscapes: Why we are what we are; why we love whom we love. Nova Iorque, Scribners, 1987.         [ Links ]
45 CHUNG, Y. B. e KATAYAMA, M. Assessment of sexual orientation in lesbian/gay/ bisexual studies. Journal of Homosexuality 30 (4) 1996.         [ Links ] No mais importante levantamento recente sobre as práticas sexuais humanas nos EUA, Laumann, Gagnon, Michael e Michaels apresentam seus resultados em termos de três eixos: comportamento, desejo e identidade em relação ao mesmo sexo. Descobriram, por exemplo, que 59% das mulheres com pelo menos algum interesse homossexual exprimiam desejo pelo mesmo sexo, mas não exibiam outros comportamentos, e 15% relatavam desejo e comportamento relativo ao mesmo sexo e se auto-identificavam como lésbicas; 13% relatavam comportamento com o mesmo sexo (interações sexuais), mas sem forte desejo homossexual e sem identificar-se como lésbicas. Embora as distribuições exatas para os homens sejam diferentes, vale a mesma conclusão geral. Há "alto grau de variação no modo como os diferentes elementos da homossexualidade são distribuídos na população. Essa variabilidade está relacionada à maneira como a homossexualidade está organizada subjetivamente como conjunto de comportamentos e práticas e experiências, e isso levanta questões interessantes sobre a definição da homossexualidade". LAUMANN, E. O., GAGNON, J. H. et alii.The social organization of sexuality: Sexual practices in the United States. Chicago, University of Chicago Press, 1994, p.300.         [ Links ] O tamanho da amostra desses estudos foi de 3.432, idades entre 18 e 59 anos. Há discrepâncias nos dados, que os autores mencionam e discutem. Entre elas: 22% das mulheres dizem ter sido forçadas a algum ato sexual, mas apenas 3% dos homens admitem ter forçado mulheres ao sexo. Os homens declaram mais parceiros sexuais do que as mulheres e, então, com quem eles estão fazendo sexo? Ver COTTON, P. How "definitive" is new sex survey? Answers vary. Journal of the American Medical Association 272 (22) 1994;         [ Links ] e Reiss, I. Is this the definitive sex survey? Journal of Sex Research 32 (1) 1995.         [ Links ]
46 Muitas vezes, ouço de meus colegas biólogos que nossos compatriotas em outras áreas do conhecimento têm menos dificuldades do que nós porque o conhecimento científico muda constantemente enquanto as outras áreas são estáticas. Portanto, temos que revisar constantemente nossos cursos, ao passo que um historiador ou um especialista em Shakespeare poderiam legitimamente repetir, ano após ano, a mesma aula. De fato, nada poderia estar mais longe da verdade. O campo da literatura muda constantemente à medida que novas teorias e filosofias da linguagem passam a fazer parte das ferramentas acadêmicas. Uma professora de inglês que não atualiza suas aulas ou não desenvolve novos cursos que reflitam essa mudança é tão criticada quanto o professor de bioquímica que dá suas aulas diretamente a partir dos manuais. As atitudes de meus colegas representam uma tentativa de manter as fronteiras - um método de tentar fazer do trabalho científico algo de especial. A tendência das análises correntes da ciência sugere, porém, que ela não é assim tão diferente. Para uma visão geral do trabalho nos estudos sociais sobre a ciência, ver HESS, D. J. Science studies: An advanced introduction. Nova Iorque, New York University Press, 1997.         [ Links ]
47 HALPERIN, D. M. One hundred years of homosexuality and other essays on Greek love. Nova Iorque, Routledge, 1990, pp.28-29.         [ Links ]
48 SCOTT, J. The evidence of experience. In: ABELOVE, H.; BARALE, M. A. e HALPERIN, D. M. (orgs.) The lesbian and gay studies reader. Nova Iorque, Routledge, 1993, p.408.         [ Links ]
49 DUDEN, B. The woman beneath the skin. Cambridge, Harvard University Press, 1991, pp. v, vi.         [ Links ]
50 KATZ,, J. The invention of heterosexuality. Nova Iorque, Dutton, 1995.         [ Links ]
51 TRUMBACH, R. London's Sapphists: From three sexes to four genders in the making of modern culture. In: EPSTEIN, J. e STRAUB, K. (orgs.) Bodyguards: The cultural politics of gender ambiguity. Nova Iorque, Routledge, 1991.         [ Links ]
52 MCINTOSH, M. The homosexual role. Social Problems 16, 1968.         [ Links ]
53 Na filosofia, o problema da caracterização da sexualidade humana é em geral discutido em termos de "tipos naturais". O filósofo John Dupré escreve em geral sobre as dificuldades da classificação biológica de qualquer espécie: "Não há um modo único e dado por Deus de classificar os diversos produtos do processo de evolução. Há muitas maneiras plausíveis e defensáveis de fazê-lo, e a melhor maneira vai depender tanto dos propósitos da classificação quanto das peculiaridades dos organismos em questão". DUPRÉ, J. The disorder of things: Metaphysical foundations of the disunity of science. Cambridge, Harvard University Press, 1993, p.57.         [ Links ] Para outras discussões de tipos naturais em relação à classificação da sexualidade humana, ver STEIN, E. The mismeasure of desire: The science, theory and ethics of sexual orientation. Oxford, Oxford University Press, 1999;         [ Links ] e HACKING, I. World making by kind making: Child abuse for example. In: DOUGLAS, M. e HULL, D. (orgs.) How classification works: Nelson Goodman among the social sciences. Edimburgo, Edinburgh University Press, 1992;         [ Links ] Rewriting the soul: Multiple personality and the sciences of memory. Princeton, Princeton University Press, 1995.         [ Links ] Mesmo agora muitas de nós passamos algum tempo livre especulando sobre se fulano ou beltrano é "realmente" careta ou "realmente" queer, da mesma forma que "poderíamos nos perguntar se uma certa dor indica câncer". MCINTOSH, M. The homosexual role. Op. cit., p.182.
54 Só por uma viajem no tempo, diz Latour, poderíamos entender a construção social de um fato científico particular. As partes interessadas deveriam voltar ao período imediatamente anterior ao aparecimento do fato em questão sobre a Terra e verificar como os cidadãos de uma ápoca anterior participaram da "descoberta", discutiram sua realidade e finalmente chegaram a um acordo colocando-a na caixa preta da factualidade (ver nota 38). Assim, não podemos entender as modernas formulações científicas sobre a estrutura da sexualidade humana sem viajar para trás no tempo até seu momento de origem.
55 Existe hoje uma rica e crescente literatura sobre a história da sexualidade. Para uma revisão das idéias sobre a masculinidade e a feminilidade, ver FOUCAULT, M. The use of pleasure: The history of sexuality. Nova Iorque, Vintage, 1990;         [ Links ] e LAQUEUR, T. Making sex: Body and gender from the Greeks to Freud. Cambridge, Harvard University Press, 1990.         [ Links ] Para estudos da sexualidade em Roma e no começo da era Cristã, ver BOSWELL, J. Sexual and ethical categories in premodern Europe. In: MCWHIRTER, D. P.; SANDERS, S. A. e REINISCH, J. M. (orgs.) Homosexuality/heterosexuality... Op. cit.         [ Links ]; e BROOTEN, B. J. Love between women: Early Christian responses to female homoeroticism. Chicago, University of Chicago Press, 1996.         [ Links ] Para estudos atualizados sobre a Idade Média e o Renascimento, ver TRUMBACH, R. Sex and the gender revolution: Heterosexuality and the third gender in Elightenment London. Chicago, University of Chicago Press, 1998;         [ Links ] Sodomitical subcultures, sodomitical roles and the gender revolution of the eighteenth century: The recent historiography. In: Maccubbin, R. P. (org.) 'Tis nature's fault: Unauthorized sexuality during the Enlightenment. Cambridge, Cambridge University Press, 1987;         [ Links ] Bray, A. Homosexuality in Renaissance England. Londres, Gay Men's Press, 1982;         [ Links ] HUUSSEN, A. H. J. Sodomy in the Dutch Republic during the eighteenth century;         [ Links ] e Rey, M. Parisian homosexuals create a lifestyle, 1700-1750. In: MACCUBBIN, R. P. (org.) 'Tis nature's fault... Op. cit.         [ Links ];. Para as mudanças na expressão da sexualidade nos séculos XVIII e XIX, ver PARK, K. Hermaphrodites and lesbians: Sexual anxiety and French medicine, 1570-1621. Conferência pronunciada no Encontro Anual da History of Science Society, 1990;         [ Links ] JONES, A. R. e STALLYBRASS, P. Fetichizing gender: constructing the hermephrodite in Renaissance Europe. In: EPSTEIN, J. e STRAUB, K. (orgs.) Bodyguards... Op. cit.         [ Links ]; TRUMBACH, R. London's Sapphists... Op. cit.; Sex, gender and sexual identity in modern culture: Male sodomy and female prostitution in Enlightenment London. Journal of the History of Sexuality 2 (2), 1991;         [ Links ] FADERMAN, L. Surpassing the love of men. Nova Iorque, William Morrow, 1982 e VICINUS,         [ Links ] M. "They wonder to which sex I belong": The historical roots of the modern lesbian identity. In: ALTMAN, D. (org.) Homosexuality, which homosexuality? Amsterdã, An Dekker/Schorer, 1989.         [ Links ]
56 Para narrativas históricas adicionais, ver BOSWELL, J. Same-sex unions in premodern Europe. Nova Iorque, Villard Books, 1995;         [ Links ] BRAY, A. Homosexuality in Renaissance England. Op. cit.; BULLOUGH, V. L. e BRUNDAGE, J. A. (orgs.) Handbook of medieval sexuality. Nova Iorque, Garland Publishing, 1996;         [ Links ] CADDEN, J. Meanings of sex difference in the Middle Ages: Medicine, science and culture. Nova Iorque, Cambridge University Press, 1993;         [ Links ] CULIANU, J. P. A corpus for the body. Journal of Modern History 63, 1991;         [ Links ] DUBOIS, E. e GORDON, L.Seeking ecstasy on the battlefield: Danger and pleasure in 19th century feminist sexual thought. Feminist Studies 9 (1) 1983;         [ Links ] GALLAGHER, C. e LAQUEUR, T. (orgs.) The making of the modern body. Berkeley, University of California Press, 1987; GRONEMAN, C. Nymphomania: The historical construction of female sexuality. Signs 19 (2), 1994;         [ Links ] JORDANOVA, L. Natural facts: A historical perspective on science and sexuality. In: MACCORMACK C. P. e STRATHERN, M. (orgs.) Nature, culture and gender. Cambridge, Cambridge University Press, 1980;         [ Links ] Sexual visions: Images of gender in science and medicine between the 18th and 20th century. Madison, University of Wisconsin Press, 1989;         [ Links ] KINSMAN, G. The regulation of desire: Sexuality in Canada. Montreal, Black Rose Books, 1987;         [ Links ] LAQUEUR, T. Sexual desire and the market economy during the industrial revolution. In: STANTON, D. C. (org.) Discourses of Sexuality. Ann Arbor, University of Michigan Press, 1992;         [ Links ] e MORT, F. Dangerous sexualities: Medicomoral politics in England since 1830. Nova Iorque, Routledge, 1987.         [ Links ] Para idéias sobre como a saúde e a doença se ligam a nossas definições de sexo, gênero e moralidade, ver MOSCUCCI, O. The Science of woman: Gynaecology and gender in England 1800-1929. Cambridge, Cambridge University Press, 1990;         [ Links ] MURRAY, J. Agnolo Firenzuola on female sexuality and women’s equality. Sixteenth Century Journal 22 (2), 1991;         [ Links ] PADGUG, R. Sexual matters: On conceptualizing sexuality in history. Radical History Review 20, 1979;         [ Links ] PAYER, P. J. The bridling of desire: Views of sex in the later middle ages. Toronto, University of Toronto Press, 1993;         [ Links ] PORTER, R. e MIKULAS, T. (orgs.) Sexual knowledge, sexual science: The history of attitudes to sexuality. Cambridge, Cambridge University Press, 1994;         [ Links ] PORTER, R. e HALL, L. The facts of life: The creation of sexual knowledge in Britain, 1650-1950. New Haven, Yale University Press, 1995;         [ Links ] ROSARIO, V. (org.) Science and homosexualities. Nova Iorque, Routledge, 1997;         [ Links ] SMART, C. Disruptive bodies and unruly sex: The regulation of reproduction and sexuality in the 19th century. In: SMART, C. (org.) Regulating womanhood. Nova Iorque, Routledge, 1992;         [ Links ] e TRUMBACH, Sodomitical subcultures, sodomitical roles, and the gender revolution of the eigteenth century: The recent historiography. In: MACCUBBIN, R. P. (org.) ‘Tis nature’s fault... Op. cit.         [ Links ]; Gender and the homosexual role in modern western culture: the 18th and 19th centuries compared. In: ALTMAN, D. (org.) Homosexuality, which homosexuality? Op. cit.         [ Links ]
57 KATZ, J. Gay American History: Lesbians and gay men in the USA: A documentary history. Nova Iorque, Crowell, 1976;         [ Links ] e FADERMAN, L. Surpassing the love of men. Op. cit.         [ Links ]
58 HALWANI, R. Essentialism, social constructionism and the history of homosexuality. Journal of Homosexuality 35 (1) 1998,         [ Links ] fornece um exemplo da natureza corrente do debate.
59 Às vezes considerada como o berço da democracia moderna, Atenas era na verdade governada por um pequeno grupo de elite de cidadãos do sexo masculino. Os outros – escravos, mulheres, estrangeiros e crianças – tinham status subordinado. Essa estrutura política era a base de sexo e gênero. Não havia, por exemplo, qualquer proibição sobre o sexo entre homens. O que importava era o tipo de sexo que se fazia. Um cidadão podia fazer sexo com um jovem ou com um escravo se ele penetrasse ativamente e o outro fosse penetrado. Esse tipo de sexo não violava a estrutura política ou colocava em questão a masculinidade do parceiro ativo. Por outro lado, o sexo com penetração entre cidadãos de status igual “era virtualmente inconcebível” (HALPERIN, D. M. ... Op. cit., p.31). O ato sexual era uma declaração de posição social e política. “Sexo entre um superior e um inferior social era um drama em miniatura da polarização que servia para medir e definir a distância social entre eles” (ID., IB., p.32). A posição fazia diferença. No padrão que surge da análise da variedade de atos sexuais retratados em pinturas de vasos gregos, os cidadãos sempre penetravam as mulheres e os escravos por trás. (Não, a posição missionária [papai-mamãe] não é universal nem “natural”!) Mas nas muito referidas relações entre um homem mais velho e seus jovens protegidos o sexo (sem penetração) era face a face(KELLER, E. F. Reflections on gender and science. New Haven, Yale University Press, 1985).         [ Links ] Weinrich distingue entre três formas de homossexualidade identificadas seja em diferentes culturas ou em épocas anteriores: homossexualidade com inversão, homossexualidade em função da idade e homossexualidade de faz-de-conta (role-playing). WEINRICH, J. D. Sexual landscapes... Op. cit.         [ Links ]; HERDT, G. Developmental discontinuities and sexual orientation across cultures. In: REINISCH, J. M. et alii. (orgs.) Homosexuality/ heterosexuality... Op. cit.         [ Links ]; Mistaken gender: 5-alpha reductase hermaphroditism and biological reductionism in sexual identity reconsidered. American Anthropologist 92, 1990.         [ Links ]
60KATZ, J. The invention of heterosexuality. Op. cit.         [ Links ]; Outros autores (KINSMAN, G. The regulation of desire... Op. cit.         [ Links ]) observaram o uso por escrito da palavra em 1869 pelo húngaro K. M. Benkert. Alguma coisa devia estar no ar.
61 HANSEN, B. “American physicians” discovery of homosexuals, 1880-1900: A new diagnosis in a changing society. In: ROSENBERG, C. e GOLDEN, J. (orgs.) Framing disease. New Brunswick, Rutgers University Press, 1992;         [ Links ] “American physicians” earliest writings about homosexuals, 1880-1900. Milbank Quarterly 67 (supl. 1), 1989.         [ Links ] Relatos franceses, italianos e norte-americanos começaram em seguida.
62 ELLIS, 1913. Alguns historiadores observam que o envolvimento da profissão médica na definição dos tipos de sexualidade humana era apenas parte da estória. Para grande variedade de apresentações mais nuançadas, ver KRAFFTEBING, R. V. Psycopathia sexualis,with special reference to contrary sexual instinct: A medico-legal study. Filadélfia, F. A. Davis, 1892;         [ Links ] CHAUNCEY Jr., G. Christian brotherhood or sexual perversion? Homosexual identities and the construction of sexual boundaries in the World War I era. Journal of Social History 19, 1985;         [ Links ] Gay New York:Gender,urban culture and the making of the gay male world,1890-1940. Nova Iorque, Basic Books, 1994;         [ Links ] HANSEN, B. “American physicians” discovery of homosexuals... Op. cit.         [ Links ]; “American physicians” earliest writings about homosexuals... Op. cit.; D’EMILIO, J. Sexual politics, sexual communities: The making of a homosexual minority in the United States: 1940-1970. Chicago, University of Chicago Press, 1983;         [ Links ] Capitalism and gay identity. In: ABELOVE, H.; BARALE, M. A. e HALPERIN, D. M. (orgs.) The lesbian... Op. cit.         [ Links ]; D’EMILIO, J. e FREEDMAN, E. B. Intimate matters:A history of sexuality in America. Nova Iorque, Harper & Row, 1988;         [ Links ] e MINTON, H. Community empowerment and the medicalization of homosexuality: Constructing sexual identities in the 1930’s. Journal of the History of Sexuality 6 (3) 1996.         [ Links ] Duggan escreve: “os sexólogos da virada do século, longe de criarem ou produzirem novas identidades lésbicas, extraíam seus “casos” das próprias histórias das mulheres e de relatos jornalísticos dessas histórias, tanto quanto da ficção e da pornografia francesas como bases “empíricas” de suas teorias”. DUGGAN, L. The trials of Alice Mitchell: Sensationalism, sexology and the lesbian subject in turn-of-the-century América. Signs 18 (4) 1993, p.809.         [ Links ]
63 Em períodos anteriores, a sexualidade masculina e feminina era entendida como um contínuo de quente a frio. LAQUEUR, T. Making sex... Op. cit.         [ Links ]
64 A verdadeira invertida do período se vestia como o sexo oposto e, quando possível, assumia trabalho masculino. Escrevendo em 1928, Ellis descreve a lésbica invertida: “os movimentos bruscos e enérgicos, a atitude dos braços, a fala direta... a franqueza e o senso de honra masculinos... tudo sugere ao observador cuidadoso a anormalidade psíquica subjacente... há muitas vezes gosto pronunciado por cigarros... mas também uma tolerância decidida dos charutos. Há também desagrado e, às vezes, incapacidade para a costura e outras ocupações domésticas, e também alguma capacidade para o atletismo”. (ELLIS, H. Studies in the psychology of sex. Vol II: Sexual Inversion. Philadelphia, P. A. Davis, 1928, p.250.         [ Links ]) Nenhum livro deixou isso mais claro, ao mesmo tempo em que afetava as vidas de milhares de lésbicas até os anos 70 do que HALL, R. The Well of Loneliness. Londres, Cape, 1928;         [ Links ] SILVERMAN, K. Male subjectivity at the margins. Nova Iorque, Routledge, 1992, capítulo 8.         [ Links ]
65 Embora a noção de invertido tenha influenciado fortemente os especialistas em sexo (que vieram a ser conhecidos como sexólogos) da virada do século, a idéia era instável, mudando à medida que os papéis sexuais estritos enfraqueciam e os homens e mulheres começaram a aparecer nos mesmos espaços públicos. Ellis e depois Freud começaram observando que nos homens se poderia separar papéis e comportamentos masculinos do desejo pelo mesmo sexo. Assim a escolha do objeto (ou o que hoje, muitas vezes, chamamos de preferência sexual) cresceu em importância como categoria para classificar a sexualidade. Uma divisão semelhante foi mais lenta no caso das mulheres, talvez não surgindo até que a revolução feminista dos anos 70 estilhaçasse os rígidos papéis sexuais. Para mais informações sobre a história da sexologia, ver BIRKEN, L. Consuming desire:Sexual science and the emergence of a culture of abundance. Ithaca, Cornell University Press, 1988;         [ Links ] IRVINE, J. M. Disorders of Desire... Op. cit.         [ Links ]; BULLOUGH, V. L. Science in the bedroom:A history of sex research. Nova Iorque, Basic Books, 1994;         [ Links ] ROBINSON, P. The modernization of sex: Havelock Ellis, Alfred Kinsey, William Masters and Virginia Johnson. Ithaca, Cornell University Press, 1976 e MILLETTI,         [ Links ] N. Tribadi, saffiste, invertite e omosessuali: Categorie e sistemi sesso/genere nella rivista de anthropologia criminali fondata de Cesare Lombroso 1880-1949. DWF 4 (24), 1994.         [ Links ] Para uma descrição fascinante dessa transformação do ponto de vista das próprias lésbicas, ver KENNEDY, E. L. e DAVIS, M. D. Boots of leather, slippers of gold: The history of a lesbian community. Nova Iorque, Routledge, 1993.         [ Links ]
66 Embora não se perturbassem com o sexo entre homens, os gregos reconheciam a existência de molles, homens não masculinos que queriam ser penetrados, e tribades, mulheres que, embora fizessem sexo com homens, preferiam outras mulheres. Consideravam os dois grupos mentalmente perturbados. Mas a anormalidade não estava no desejo pelo mesmo sexo. O que preocupava os médicos gregos era que molles e tribades eram desviantes de gênero. Ou misteriosamente desejavam ceder o poder masculino tornando-se parceiros passivos no sexo ou, intoleravelmente, tentavam, tornando-se o parceiro ativo, assumir o status político masculino. Tanto o molle como a tribade diferiam das pessoas normais por terem excesso de uma coisa boa. Eram considerados hiper-sexuais. (Os molles aparentemente desenvolveriam o desejo de serem penetrados, porque o papel ativo não lhes ofereceria alívio sexual suficiente.) David Halperin escreve: “esses desviantes do gênero desejam o prazer sexual da mesma forma que a maioria das pessoas, mas têm desejos tão fortes e intensos que são levados a inventar meios pouco comuns e indecentes de satisfazê-los”. HALPERIN, D. M. One hundred years of homosexuality... Op. cit., p.23.         [ Links ]
67 O historiador Bert Hansen escreve: “Um senso tentativo de identidade facilitava a continuidade da interação... que por sua vez facilitava a formação da identidade sexual para mais indivíduos”. HANSEN, B. “American physicians” discovery of homosexuals... Op. cit., p.109.         [ Links ]
68 ID., IB., p.125. Ver também MINTON, H. Community empowerment... Op. cit.         [ Links ] O historiador George Chauncey fornece evidência de um mundo social amplo e razoavelmente aberto e aceito para os gays urbanos durante o primeiro terço do século XX. Afirma que, em contraste com esse período, a cultura gay enfrentou um grande período de repressão dos anos 30 aos 50. (CHAUNCEY, C. Gay New York... Op. cit.         [ Links ]) Allan Bérubé documenta a participação de homens e mulheres gay na Segunda Guerra Mundial. Sugere que o moderno movimento gay é em parte um legado de sua luta nas Forças Armadas. (BÉRUBÉ, Allan. Coming out under fire:A history of gay men and women in World War Two. Nova Iorque, Free Press, 1990.         [ Links ]) Para uma interessante história oral do movimento pelos direitos dos gays no pós-guerra, ver MARCUS, E. Making history:The struggle for gay and lesbian equal rights. Nova Iorque, Harper Collins, 1992.         [ Links ] Outros ensaios sobre o período do pós-guerra são encontrados em ESCOFFIER et alii. (orgs.) The queer issue: New visions of America’s lesbian and gay past. Radical History Review 62 1995.         [ Links ] Para discussões dos problemas historiográficos na escrita de histórias da sexualidade, ver WEEKS, J. Discourse, desire and sexual deviance: Some problems in the history of homosexuality. In: PLUMMER, K. (org.)The making of the modern homosexual. Londres, Hutchinson, 1981;         [ Links ] Sex,politics and society:The regulation of sexuality since 1800. Londres, Longman, 1981;         [ Links ] e DUGGAN, L. Review essay: From instincts to politics: Writing the history of sexuality in the US. Journal of Sex Research 27 (1), 1990.         [ Links ]
69 Sua entrada na língua inglesa aconteceu em 1889 com a tradução da Psychopathia Sexualis de Krafft-Ebing.
70 KATZ, J. The invention of heterosexuality. Op. cit., p.16.         [ Links ] O conceito de heterossexual surge hoje para nós como inexoravelmente natural. Mas passaramse os primeiros 30 anos do século vinte antes que ele se firmasse em terras norteamericanas. Em 1901 nem o termo heterossexual nem o termo homossexual apareciam no Oxford English Dictionary. Nos anos 10 e 20, escritores, dramaturgos e educadores sexuais enfrentaram a censura e a desaprovação pública para criar um espaço público para o heterossexual erótico. Em 1939 a palavra heterossexual finalmente emergiu do semi-mundo médico para atingir a honra das honras, a publicação no The New York Times. Daí para a Broadway, numa canção do musical Pal Joey, foi outra década. A letra completa de Pal Joey é citada na página 20; para uma exposição mais detalhada da história do conceito moderno de heterossexualidade, ver KATZ, J. The invention of heterosexuality. Op. cit.         [ Links ] Em 1929, a educadora sexual Mary Ware Dennett foi condenada por enviar material obsceno – um panfleto de educação sexual para crianças – pelo correio. Seus escritos criminosos afirmavam as alegrias da paixão sexual (claro que nos limites do amor e do casamento). A escritora Margaret Jackson diz que o desenvolvimento no campo da sexologia prejudicou as feministas do período “ao declarar que aqueles aspectos da sexualidade e da heterossexualidade masculinas eram de fato naturais, construindo um modelo ‘científico’ da sexualidade sobre essa base”. JACKSON, M. “Facts of Life” or the eroticization of women’s oppression? Sexology and the social construction of heterosexuality. In: CAPLAN, P. (org.) The cultural construction of sexuality. Londres, Tavistock, 1987, p.55.         [ Links ] Para discussão adicional do feminismo, sexologia e sexualidade no período, ver JEFFREYS, S. The spinster and her enemies: Feminism and sexuality 1880-1930. Londres, Pandora, 1985.         [ Links ]
71NYE, R. A. Introduction. In: NYE, R. A. (org.) Oxford Readers: Sexuality. Oxford, Oxford University Press, 1998, p.4.         [ Links ]
72 BOSWELL, J. Sexual and ethical categories in premodern Europe. In: MCWHIRTER, D. et alli (orgs.) Homosexuality/heterosexuality... Op. cit., pp.22, 26.         [ Links ]
73 NYE, R. A. Introduction. Op. cit., p.4.         [ Links ]
74 Como sugere WEINRICH, J. D. Sexual landscapes... Op. cit.         [ Links ]
75 Nem todos os antropólogos concordam sobre o número exato de padrões; alguns chegam a citar seis. Como em relação a muitas das idéias aqui discutidas,a academia segue seu curso, com o grande afluxo de novos dados e a proliferação de abordagens para a análise dos velhos.
76 MCINTOSH, M. The homosexual role. Op. cit.         [ Links ]
77 MCINTOSH, M. The homosexual role. Op. cit. (orgs.         [ Links ]) Asian homosexuality e Ethnographic studies of homosexuality; e MURRAY, S. O. (org.) Oceanic homosexualities. Ambos publicados em Nova Iorque, Garland Publishing, 1992.         [ Links ]
78 Para resenhas de estudos comparados da sexualidade humana, ver DAVIS, D. L. e WHITTEN,R. G. The cross-cultural study of human sexuality. Annual Review of Anthropology 16, 1987;         [ Links ] WESTON, K. Lesbian and gay studies in the house of anthropology. Annual Review of Anthropology 22, 1993;         [ Links ] e MORRIS, R. C. All made up – Performance theory and the new anthropology of sex and gender. Annual Review of Anthropology 24, 1995.         [ Links ]
79 Ver como Weinrich usa a noção de universais humanos para inferir a base biológica de traços comportamentais. WEINRICH, J. D. Sexual landscapes... Op.cit.         [ Links ]
80 VANCE, C. S. Anthropology rediscovers sexuality: A theoretical comment. Social Science and Medicine 33 (8), 1991, p.878.         [ Links ]
81 Note-se que tal definição permite considerar Boswell um construtivista social moderado, embora acredite que o desejo homosexual é inato, trans-histórico e trans-cultural. Na verdade, a expressão construção social não se refere a um corpo unificado de pensamento. O significado da expressão mudou no tempo; “construtivistas” mais modernos são em geral mais refinados que os antigos. Para uma discussão detalhada das diferentes formas de construtivismo e essencialismo, ver HALLEY, J. E. Sexual orientation and the politics of biology: A critique of the argument from immutability. Stanford Law Review 46 (3), 1994.         [ Links ]
82 VANCE, C. S. Anthropology rediscovers sexuality... Op. cit., p.878. Halperin certamente pertence a uma categoria construtivista mais radical.
83 HERDT, G. Developmental discontinuities... Op. cit., p.222.
84 Uma leitura cuidadosa da apresentação que Herdt faz das sociedades melanésias revela três suposições (ocidentais) subjacentes: que a homossexualidade é uma prática para toda a vida, que ela é uma “identidade” e que essas definições da homossexualidade podem ser encontradas em todo o mundo.
85 ELLISTON, D. A. Erotic anthropology: “Ritualized homosexuality” in Melanesia and beyond. American Ethnologist 22 (4), 1995, p.849 e 852.         [ Links ] Os antropólogos têm desacordos semelhantes sobre as práticas norte-americanas nativas a que os estudiosos se referem como “Berdache” – uma variedade de práticas que envolvem papéis e comportamentos trans-gênero culturalmente sancionados.Alguns argumentam que a existência da Berdache demonstra que a suposição de papéis e comportamentos trans-gênero é uma expressão universal da sexualidade inata, mas outros acreditam que essa é uma visão simplista e ahistórica de práticas que variam na história e entre culturas norte-americanas.Carolyn Epple, que estudou a nádleehí (a palavra navajo para a “Berdache”) dos navajo contemporâneos observa que as definições navajo da prática variam de caso a caso. Tal variação tem sentido porque a visão do mundo navajo que ela estudou “parece dar maior destaque a definições baseadas na situação do que as categorias fixas”. Epple é cuidadosa e qualifica expressões como “visão de mundo navajo”, indicando que fala sobre aquela que seus informantes discutem. Não há uma visão de mundo singular, porque ela muda histórica e regionalmente, e é mais bem compreendida como um complexo de sistemas de crenças superpostos. Isso contrasta com as suposições euro-americanas de que a homossexualidade é um tipo fixo ou natural. Para discussões sobre tipos naturais, ver DUPRÉ, J. The disorder of things... Op. cit.; KOERTGE, N. Constructing concepts of sexuality: A philosophical commentary. In: MCWHIRTER, D. P. et alli (orgs.) Homosexuality/heterosexuality... Op. cit.         [ Links ]; e HACKING, I. World making by kind making... Op. cit; e Rewriting the soul... Op. cit. Além disso, observa Epple, os navajo não vêem a nádleehí necessariamente como uma transgressão de gênero. Os navajo que ela estuda concebem todas as pessoas como simultaneamente masculinas e femininas. Assim, não descreveriam um homem com trejeitos de mulher como feminino. “Dado que o masculino e o feminino estão sempre presentes”, diz Epple, “uma valorização do ‘masculino’ versus o ‘feminino’ refletirá em geral a perspectiva do observador e não algum valor absoluto”. EPPLE, C. Coming to terms with Navajo Nádleehí: A critique of Berdache, gay, alternate gender and two-spirit. American Ethnologist 25, 1998, p.32.         [ Links ] Para outras críticas do “Berdache”, ver JACOBS S. – E. et alii (orgs.) Two spirit people: Native American gender identity, sexuality and spirituality. Urbana, University of Illinois Press, 1997.         [ Links ]
86 Ver GOLDBERG, S. The Inevitability of Patriarchy. Nova Iorque, William Morrow, 1973;         [ Links ] e WILSON, E. O. On human nature. Cambridge, Harvard University Press, 1978.         [ Links ]
87 ORTNER, S. B. Making gender: The politics and erotics of culture. Boston, Beacon Press, 1996.         [ Links ]
88 Embora não tenham inventado o conceito, Kessler e McKenna usam a idéia com excelente efeito em sua análise dos estudos trans-culturais dos sistemas de gênero. KESSLER, S. J. e MCKENNA, W. Gender... Op. cit.         [ Links ]
89 ORTNER, S. B. Making gender... Op. cit., p.146.
90 Escreve Ortner: “As hegemonias são poderosas, e nossa primeira tarefa é entender como funcionam. Mas as hegemonias não são eternas. Sempre haverá (para o bem e para o mal) arenas de poder e autoridade que estão fora da hegemonia e que podem servir tanto como imagens quanto como pontos de apoio para argumentos alternativos”. ID., IB., p.172.
91 OYEWUMI, O. De-confounding gender: Feminist theorizing and Western culture, a comment on Hawkesworth’s “Confounding gender”. Signs 23 (4), 1998, p.1053.         [ Links ] Ver da mesma autora The invention of women: Making an African sense of Western gender discourses. Minneapolis, University of Minnesota Press, 1997.         [ Links ]
92 ID. De-confounding gender... Op. cit., p.1061.
93 ID. The invention of women... Op. cit., p.xv. Oyewumi observa que as divisões de gênero são especialmente visíveis nas instituições estatais africanas, que originalmente derivam de formações coloniais – isto é, representam as imposições transformadas do colonialismo, inclusive as crenças dos colonizadores em relação ao gênero.
94 STEIN, E. Review of queer science: The use and abuse of research on homosexuality. Journal of Homosexuality 35 (2), 1998.         [ Links ] Para um tratamento completo das idéias de Stein, ver STEIN, E. The mismeasure of desire... Op. cit. Muitas das pesquisas biológicas, psicológicas e antropológicas contemporâneas usam a homossexualidade como categoria real ou natural. Exemplos incluem WHITAM, F. L. et alii. Homosexual orientation in twins... Op. cit.; BAILEY, J. M. e PILLARD, R. C. A genetic study of male sexual orientation. Archives of General Psychiatry 48, dezembro de 1991;         [ Links ] BAILEY, J. M. et alii. Heritable factors influence sexual... Op. cit.; e BUHRICH, N. et alii. Sexual orientation, sexual identity and sex-dimorphic behaviors in male twins. Behavior Genetics 21 (1), 1991.         [ Links ]
95 Outra bióloga feminista, Linda Birke, vai na mesma direção, mas como seu livro está no prelo, e só li um esboço preliminar e a publicidade, não posso citá-la de maneira mais específica. BIRKE, L. Feminism and the biological body. Edimburgo, Edinburgh University Press. [no prelo]         [ Links ]
96 HALPERIN, D. A. Is there a history of sexuality? In: ABELOVE, H. et alii. (orgs.) The lesbian and gay studies reader. Op. cit., p.416.         [ Links ]
97 PLUMWOOD, V. Feminism and the mastery of nature. Nova Iorque, Routledge,1993, p.43.         [ Links ] Plumwood também argumenta que os dualismos “resultam de um certo tipo de dependência negada em relação a um outro subordinado. Essa negação, combinada com uma relação de dominação e subordinação, dá forma à identidade de cada lado do dualismo” (ID., IB., p.41). Bruno Latour usa um referencial diferente para dizer algo semelhante – que natureza e cultura foram artificialmente separadas para criar a prática científica moderna. Ver LATOUR, B.We have never been modern. Cambridge, Harvard University Press, 1993.         [ Links ]
98 WILSON, E. Neural geographies: Feminism and the microstructure of cognition.Nova Iorque, Routledge, 1998, p.55.         [ Links ]
99 Em suas palavras, ela “quer perguntar como e porque a ‘materialidade’ se tornou um sinal de irredutibilidade, isto é, como foi que a materialidade do sexo veio a ser entendida como aquilo que apenas suporta construções culturais e, portanto, não pode ser uma construção”. BUTLER, J. Bodies that matter:On the discursive limits of sex. Nova Iorque, Routledge, 1993, p.28.         [ Links ]
100 ID., IB., p.29.
101 ID., IB., p.31.
102 Para outros exemplos de significados sedimentados na ciência, ver
SCHIEBINGER, L. Why mammals are called mammals... Op. cit., sobre a escolha por parte de Lineu do seio como palavra para designar a classe dos mamíferos; e JORDANOVA, L. J. Sexual visions: Images of gender in science and medicine between the 18th and 20th century. Madison, University of Wisconsin Press, 1989,         [ Links ] sobre a apresentação das mulheres no Suicídio de Durkheim.
103 BUTLER, J. Bodies that matter... Op. cit., p.66.
104 HAUSMAN, B. L. Changing sex... Op. cit., p.69.
105 GROSZ, E. Volatile bodies:Towards a corporeal feminism. Bloomington,
Indiana University Press, 1994, p.55.         [ Links ]
106 SINGH, J. A. L. Wolf-children and feral man. Nova Iorque, Harper, 1942;         [ Links ] GESELL, A. e SINGH, J. A. Wolf child and human child: Being a narrative interpretation of the life-history of Kamala, the wolf girl; based on the diary acount of a child who was reared by a wolf and who then lived for nine years in the orphanage of Midnapore, in the province of Bengal, India. Nova Iorque, Harper and Bros, 1941;         [ Links ] CANDLAND, D. K. Feral children and clever animals. Nova Iorque, Oxford University Press, 1993;         [ Links ] MALSON, L. e ITARD, J. M. G. Wolf children and the problem of human nature and the wild boy of Aveyron. Nova Iorque, Monthly Review Press, 1972.         [ Links ]
107 “A imagem do corpo não pode ser simples e inequivocamente identificada com as sensações fornecidas por um corpo puramente anatômico. A imagem do corpo é uma função tanto da psicologia e do contexto sócio-histórico do sujeito como de sua anatomia”. GROSZ, E. Volatile bodies... Op. cit., p.79. Ver também BORDO, S. Unbearable weight: Feminism, Western culture and the body. Berkeley, University of California Press, 1993.         [ Links ]
108 A filósofa Iris Young considera um conjunto semelhante de problemas em seu livro e ensaio com o mesmo título. YOUNG, I. M. Throwing like a girl and other essays in feminist philosophy and social theory. Bloomington, Indiana University Press, 1990.         [ Links ]
109 A fenomenologia é um campo que estuda o corpo como participante ativo na criação do eu. Diz Young: “Merleau-Ponty reorienta toda a tradição desse questionamento situando a subjetividade não na mente nem na consciência, mas no corpo. Merleau-Ponty dá ao corpo vivido o estatuto ontológico que Sartre...dá apenas à consciência”. YOUNG, I. M., Throwing like a girl... Op. cit., p.147.Grosz se apóia numa releitura de Freud, no neuro-fisiologista Paul Schilder e no fenomenólogo Merleau-Ponty. SCHILDER, P. The image and appearance of the human body: Studies in the constructive energies of the psyche. Nova Iorque, International Universities Press, 1950;         [ Links ] MERLEAU-PONTY, M. Phenomenology of perception. Nova Iorque, Humanities Press, 1962.         [ Links ]
110 GROSZ, E. Volatile bodies... Op. cit., p.116.
111 ID., IB., p.117. Os estudiosos a que Grosz se volta para entender os processos de inscrição externa e formação do sujeito incluem Michel Foucault, Friedrich Nietzsche, Alphonso Lingis, Gilles Deleuze e Felix Guattari.
112 Para uma discussão adicional das posições que Grosz desenvolve, ver GROSZ, E. Space, time and perversion. Nova Iorque, Routledge, 1995;         [ Links ] YOUNG, I. M., Throwing like a girl... Op. cit., e WILLIAMS, S. J. e BENDELOW, G. The lived body... Op. cit.
113 Suspeito de que Grosz entende isso, mas escolheu o mal definido ponto de partida de um “impulso” (fome, sede, etc.) porque precisava começar sua análise em algum lugar. De fato, menciona Elisabeth Wilson, cuja obra fornece parte da base teórica necessária para dissecar a noção mesma do impulso.
114 Quando discuto a teoria desenvolvimentista sistêmica “junto” muitos autores. Descobri novas formas de pensar sobre o desenvolvimento dos organismos (inclusive humanos) entre pensadores que trabalham em muitas disciplinas diferentes. Nem sempre leram uns aos outros, mas percebo fios comuns que os unem. Correndo o risco de cometer alguma injustiça com alguns eles, referir-me-ei a eles como teóricos do desenvolvimento dos sistemas. As disciplinas de que suas obras provêm incluem: Filosofia: DUPRÉ, J. The disorder of things... Op. cit.; HACKING, I. World making by kind making... Op. cit; Rewriting the soul... Op. cit.; OYAMA, S. The ontogeny of information. Cambridge, Cambridge University Press, 1985;         [ Links ] Ontogeny and the central dogma: Do we need the concept of genetic programming in order to have an evolutionary perspective? In: GUNNAR, M. R. e THELEN, E. (orgs.) Systems and development. Hillsdale, Lawrence Erlbaum, 1989;         [ Links ] Ontogeny and phylogeny: A case of metarecapitulation? In: GRIFFITHS, P. (org.) Trees of life. Dordstadt, Kluwer, 1992;         [ Links ] Transmission and construction: Levels and the problem of heredity. In: TOBACH, E. e GREENBERG, G. (orgs.) Levels of social behavior:Evolutionary and genetic aspects. Wichita, T. C. Schnierla Research Fund, 1992;         [ Links ] How shall I name thee? The construction of natural selves. Frontiers of Developmental Theory and Psychology 3, 1993;         [ Links ] PLUMWOOD, V. Feminism and the mastery of nature. Op. cit.; Biologia: HO, M.-W. et alii. Evolutionary processes... Op. cit.; Ether-induced segmentation disturbances in Drosophila melanogaster. Roux’s Archives for Developmental Biology 196, 1987;         [ Links ] HO, M.-W. e FOX, S. W. Processes and metaphors... Op. cit.; ROSE, S. Lifelines: Biology beyond determinism. Oxford, Oxford University Press, 1998;         [ Links ] HABIB, M. et alii. Effects of handedness and sex on the morphology or the corpus callosum: A study with brain magnetic resonance imaging. Brain and Cognition 16, 1991;         [ Links ] GRAY, R. Death of the gene: Developmental systems strike back. In: GRIFFITHS, P.(org.) Trees of life. Op. cit.         [ Links ]; GRIFFITHS, P. E. e GRAY, R. D. Developmental systems and evolutionary explanation. Journal of Philosophy 91 (6), 1994;         [ Links ] Replicators and vehicles? Or developmental systems? Behavioral and Brain Sciences 17 (4), 1994;         [ Links ] GRAY, R. In the belly of the monster: Feminism, developmental systems and evolutionary explanations. In: GOWATY, P. A. (org.) Feminism and evolutionary biology. Op. cit.         [ Links ]; GOODWIN, B. e SAUNDERS, P. (orgs.) Theoretical biology: Epigenetic and evolutionary order from complex systems. Baltimore, Johns Hopkins University Press, 1989;         [ Links ] HELD, L. I. Models for embryonic periodicity. Basiléia, Karger, 1994;         [ Links ] LEWONTIN, R. e LEVINS, R. The dialectical biologist. Cambridge, Harvard University Press, 1985;         [ Links ] LEWONTIN, R. et alii. Not in our genes. Nova Iorque, Pantheon, 1984;         [ Links ] LEWONTIN, R. Biology as ideology. Nova Iorque, HarperCollins, 1992;         [ Links ] KELLER, E. F. e AHOUSE, J. Writing and reading about Dolly. BioEssays 19 (8), 1997;         [ Links ] INGBER, D. E. The architecture of life. Scientific American, janeiro de 1998;         [ Links ] JOHNSTON, T. D. e GOTTLIEB, G. Neophenogenesis: A developmental theory of phenotypic evolution. Journal of Theoretical Biology 147, 1990;         [ Links ] e COHEN, J. e STEWART, I. Our genes aren’t us. Discover, abril 1994.         [ Links ] Teoria Feminista: BUTLER, J. Bodies that matter... Op. cit.;GROSZ, E. Volatile bodies... Op. cit.; WILSON, E. Neural geographies... Op. cit. e HARAWAY, D. Modest_witness@second... Op. cit.; Psicologia e Sociologia: FOGEL, A. e THELEN, E. Development of early expressive and communicative action: Reinterpreting the evidence from a dynamic systems perspective. Developmental Psychology 236, 1987;         [ Links ] FOGEL et alii. Communication of smiling and laughter in mother-infant play: Research on emotion from a dynamic systems perspective. New Directions in Child Development 77, 1997;         [ Links ] LORBER, J. Believing is seeing... Op. cit.; Paradoxes of Gender. New Haven, Yale University Press, 1994; THORNE, B. Gender play:Girls and boys in school. New Brunswick, Rutgers University Press, 1993;         [ Links ] GARCIA-COLL, C. T. et alii.Beyond social categories:‘Race’, ethnicity, social class, gender and developmental research. Washington, Society for Research on Child Development, 1997;         [ Links ] JOHNSTON, T. D. 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Living with nature: Environmental politics as cultural discourse. Oxford, Oxford University Press, 1999 e BARAD,         [ Links ] K. Meeting the universe halfway: Realism and social constructivism without contradiction. In: NELSON, L. H. e NELSON, J.(orgs.) Feminism, science... Op. cit.         [ Links ]
115 Muitos cientistas sociais e alguns geneticistas concebem os organismos como produtos da adição de genes e ambiente. Estudam os organismos observando sua variabilidade e perguntam que proporção da variabilidade pode ser atribuída aos genes e que proporção ao ambiente. Um terceiro termo, que designam como interação gene-ambiente, pode ser adicionado à equação com as somas simples se as causas genéticas e ambientais não derem conta de explicar toda a variância. Essa abordagem foi sobejamente criticada em mais de uma ocasião. Às vezes, esses cientistas se auto-denominam interacionistas, por aceitarem que tanto genes como ambiente estão envolvidos. Seus críticos observam que essa abordagem à análise de variância considera genes e ambiente como entidades mensuráveis em separado. Alguns desses críticos também se auto-denominam interacionistas por considerarem impossível separar o genético do ambiental. Prefiro usar a idéia de um sistema em desenvolvimento por causa dessa confusão terminológica e porque a idéia de sistema envolve o conceito de interdependência mútua das partes. Para críticas da partição da variância, ver LEWONTIN, R. C. The analysis of variance and the analysis of causes. American Journal of Human Genetics 26, 1974;         [ Links ] ROUBERTROUX, P. e CARLIER, M. Intelligence: Différences individuelles, facteurs génétiques, facteurs d’environnement et interaction entre genotype et environement. Annales Biologie Clinique 36, 1978 e WAHLSTEN,         [ Links ] D. Insensitivity of the analysis of variance to heredity-environment interaction. Behavior and Brain Sciences 13, 1990;         [ Links ] The intelligence of heritability. Canadian Psychology 35, 1994.         [ Links ]
116 OYAMA, S. The ontogeny of information. Op. cit., p.9. A edição revista e ampliada do livro de Oyama está prevista para 2000 (Duke University Press).
117 TAYLOR, P. J. Natural selection... Op. cit., p.24.
118 Para referências sobre esse ponto, ver ALBERCH, P. The logic of monsters: Evidence for internal constraint in development and evolution. Geobios 12, (memoire special) 1989, p.44.         [ Links ] Como outro exemplo, um embrião precisa se mover no útero para integrar o desenvolvimento dos nervos, músculos e esqueleto. Patinhos mallard ainda no ovo precisam ouvir a si mesmos para responder aos chamados maternos. (Patos de outras espécies precisam ouvir os irmãos para desenvolver a capacidade de reconhecer a mãe.) GOTTLIEB, G. Synthesizing nature-nurture: Prenatal roots of instinctive behavior. Mahwah, Lawrence Erlbaum, 1997.         [ Links ]
119 HO, M.-W. A structuralism process: Towards a post-Darwinian rational morphology. In: GOODWIN, B.; SIBATANI, A. e WEBSTER, G. (eds.) Dynamic Structures in Biology. Edinburg, Edinburg University Press, 1989, p.34.         [ Links ] Alberch diz algo semelhante: “é impossível afirmar que a forma determina a função ou vice versa, uma vez que se interconectam no nível do processo gerador”. ALBERCH, P. The logic of monsters... Op. cit., p.44.
120 Os resultados de Le Vay ainda estão à espera de confirmação e, nesse meio tempo, foram submetidos a intenso escrutínio. LE VAY, S. A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men. Science 253, 1991;         [ Links ] ver também FAUSTO-STERLING, A. Why do we know so little about human sex? Op. cit.; Myths of gender: Biological theories about women and men. Nova Iorque, Basic Books, 1992;         [ Links ] BYNE, W. e PARSONS, B. Human sexual orientation: The biologic theories reappraised. Archives of General Psychiatry 50, 1993;         [ Links ] BYNE, W. Science and belief: Psychological research on sexual orientation. Journal of Homsexuality 28 (3-4), 1995.         [ Links ] Não vejo na falta de confirmação desses resultados nada além da dificuldade intrínseca do estudo por causa da relativa escassez de material de autópsia de indivíduos com uma história sexual conhecida. Uma confirmação de seus resultados não nos ajudará a entender muito sobre o desenvolvimento ou permanência da homossexualidade a menos que coloquemos a informação num sistema em desenvolvimento. Isoladas, suas descobertas não podem provar nem natureza nem criação.
121 Fiquei horrorizada quando comecei a receber correspondência e telefonemas de organizações cristãs de direita que supunham que minha discussão pública com Le Vay significava que eu era simpática à sua agenda homofóbica.
122 BAILEY, J. M. e PILLARD, R. C. A genetic study... Op. cit.; BAILEY, J. M. et alii. Heritable factors influence sexual... Op. cit.; HAMER, D. et alii. Linkage between DNA... Op. cit.
123 Numa análise detalhada e brilhante dos problemas postos pelas dicotomias
natureza/criação, essencial/construído, biologia/ambiente, a advogada Janet Halley defende o desenvolvimento de um campo comum a partir do qual lutar pela igualdade pessoal, política e social. HALLEY, J. E. Sexual orientation... Op.cit.
124 OYAMA, S., The ontogeny of information. Op. cit.,
125 LE VAY, S. Queer science: The use and abuse of research on homosexuality.Cambridge, MIT Press, 1996.         [ Links ]
126 Notável porque não é comum usar um relatório estritamente científico para discutir as implicações sociais potenciais de nosso trabalho. HAMER, D. et alii.Linkage between DNA... Op. cit., p.326.
127 Wilson está mais interessada na natureza filosófica dos ataques à obra de Le Vay do que nas críticas técnicas. De boa vontade concede a validade de muitas delas, como faz o próprio Le Vay (ver LE VAY, S. Queer science... Op. cit.). Para as críticas técnicas ver FAUSTO-STERLING, A. Why do we know so little about human sex? Op. cit.; Myths of gender: Biological theories... Op. cit.; BYNE, W. e PARSONS, B. Human sexual orientation... Op. cit.
128 Wilson me inclui na lista das feministas que tiveram uma reação antibiológica extrema à obra de Le Vay. Embora eu acredite que jamais pensei a sexualidade em termos que descartassem o corpo, é verdade que fiquei em dúvida sobre por no papel essas idéias, porque estava presa no dilema do dualismo essencialismo/não essencialismo. A história da ideologia essencialista na opressão das mulheres, dos homossexuais e das pessoas de cor tem funcionado como contra-peso em meu pensamento. Só agora que percebo que a teoria sistêmica oferece uma saída do dilema estou disposta a comprometer-me com a discussão desses problemas pela via impressa.
129 WILSON, E. Neural geographies... Op. cit., p.203.
130 Discuto aqui alguns dos conexionistas que aplicam suas idéias à função do cérebro ou que modelam a função do cérebro, usando modelos computacionais de redes neurais.
131 A psicóloga Esther Thelen escreve: “Uma visão atual é que a informação multi-modal está envolvida freqüentemente e em muitos lugares ao longo das linhas de processamento e que não há uma área localizada do cérebro onde acontece essa reunião das percepções”. THELEN, E. Motor development: A new synthesis. American Psychologist 50 (2), 1995, p.89.         [ Links ] Os conexionistas postulam elementos processadores chamados de nódulos ou unidades (que podem ser, por exemplo, células nervosas). Os nódulos têm muitas conexões que lhes permitem tanto receber como enviar sinais a outros nódulos. Conexões diferentes têm pesos e forças diferentes. Alguns nódulos recebem sinais e outros os emitem. Entre esses dois tipos de nódulos há uma ou mais camadas que transformam os sinais à medida que são enviados. As transformações acontecem segundo regras básicas. Um tipo é a transmissão 1:1 (isto é, linear), outro é um limiar (isto é,acima um certo nível, uma nova resposta é ativada). As respostas não lineares dos modelos de redes neurais são as que mais se parecem com o comportamento humano real e as que mais excitaram a imaginação dos psicólogos cognitivos.
132 Fiz a colagem desta apresentação meio primitiva de um campo complexo a partir de três fontes: WILSON, E. Neural geographies... Op. cit.; PINKER, S. How the mind works. Nova Iorque, Norton, 1997 e ELMAN,         [ Links ] J. L. et alii.Rethinking innateness: A connectionist perspective on development. Cambridge, MIT Press, 1996.         [ Links ]
133 Isso foi recentemente mostrado para estudos do comportamento de ratos.Três grupos de pesquisadores em diferentes partes do continente norteamericano tomaram linhagens geneticamente idênticas de ratos e tentaram levalos a exibir o mesmo comportamento. Para isso, padronizaram os experimentos de todas as maneiras que puderam imaginar – mesma hora do dia, mesmo aparato, mesmo protocolo de teste, etc. – mas obtiveram resultados marcadamente diferentes. Havia claros efeitos ambientais, específicos do laboratório, sobre o comportamento desses ratos, mas os experimentadores não conseguem descobrir quais das pistas ambientais são importantes. Aconselham prudência e muitos testes antes de concluir que um defeito genético afeta um comportamento. CRABBE, J. C. et alii. Genetics of mouse behavior: Interactions with laboratory environment. Science 284, 1999.         [ Links ]
134 Quando pesquisadores pedem que gêmeos idênticos resolvam enigmas, os gêmeos produzem respostas mais semelhantes do que estranhos em duplas. Mas, quando monitorados com sondas PET enquanto trabalham nos enigmas, os cérebros dos gêmeos não mostram função idêntica. “Os gêmeos idênticos com seus genes idênticos nunca têm cérebros idênticos. Todas as medidas diferem”.Esse resultado é compreensível com uma explicação do comportamento em termos de sistemas em desenvolvimento, e menos com uma explicação que sugira que os genes “programam” o comportamento. SAPOLSKY, R. A gene for nothing. Discover 18 (10), 1997, p.42.         [ Links ]
135 ELMAN, J. L. et alii. Rethinking innateness... Op. cit., p.359. Ver também FISCHER, R. Why the mind is not in the head but in the society’s connectionist network. Diogenes 151, outono de 1990.         [ Links ]
136 Joan Fujimura escreve: “Só porque algo é construído não quer dizer que não seja real” (FUJIMURA, J. Canons and purity control in science: The howl of the Boeotians. 119º Encontro Anual da American Ethnological Society, Seattle, Washington, 1997, p.4);         [ Links ] Haraway escreve: “Os corpos são perfeitamente ‘reais’.Nada em relação à corporalização é ‘mera ficção’. Mas a corporalização é tropica e historicamente específica em todas as camadas de seus tecidos”. (HARAWAY, D.Modest_witness@second... Op. cit., p.142).
137 Haraway concebe objetos como o corpus callosum como nódulos a partir dos quais crescem “fios viscosos” que “levam a todas as reentrâncias e saliências do mundo” (ver os dois últimos capítulos deste livro para exemplos concretos).Biólogos, médicos, psicólogos e sociólogos empregam um “nó de práticas produtoras de conhecimento”, incluindo “comércio, cultura popular, lutas sociais... histórias corporais... narrativas herdadas, novas estórias”, neurobiologia,genética e a teoria da evolução para construir crenças sobre a sexualidade humana (HARAWAY, D. Modest_witness@second... Op. cit., p.129). Ela se refere ao processo de construção como prática material-semiótica e aos próprios objetos como objetos material-semióticos. E utiliza essa complexa expressão muito especificamente para superar a divisão real/construído. Os corpos humanos são reais (isto é, materiais), mas interagem apenas através da linguagem – o uso dos sinais (verbais ou não). Donde a palavra semiótica
138 Este é um bom exemplo do argumento de Dupré de que não há maneira fixa de dividir a natureza e do apelo de Latour para examinar a ciência em ação.DUPRÉ, J. The disorder of things... Op. cit.; LATOUR, B. Science in action. Op. cit.

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