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Cadernos Pagu

versão impressa ISSN 0104-8333versão On-line ISSN 1809-4449

Cad. Pagu  n.23 Campinas jul./dez. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332004000200001 

Apresentação

 

 

A despeito de sua natureza quase fictícia, diz Ella Shohat, os tropos raciais exercem influência real no mundo. Seu artigo apresenta uma série de questões que vão ser retomadas e aprofundadas em outras áreas culturais, a respeito da importância mais do que alegórica da cara, da cor, do corpo. Laura Moutinho, comparando o escritor sul-africano John Coetzee e o brasileiro Nelson Rodrigues, sugere que o exemplo brasileiro de exclusão do negro se funda numa incorporação dele, por contraste com o exemplo sul-africano no qual, até a época recente do pós-apartheid (1996), o modelo era o enquistamento dos negros. E deixa no ar uma questão intrigante: o processo que se desenrola hoje na África do Sul é semelhante ao processo histórico brasileiro, com os sinais de gênero invertidos? Isto é, são os negros e as brancas que vão produzir uma descendência mulata no país? Já Osmundo de Araújo Pinho, tratando do coração da tradição brasileira — o contexto baiano — se pergunta sobre o "mestiço ontologizado": Em nome da clareza e da justiça seria desejável vê-lo deposto? Sua tentativa de resposta passa pela análise de dois tipos novos no panteão das figuras étnicas carimbadas da história baiana: o "Brau" e a "Beleza Negra". As formas tradicionais de resistência africana na cidade poderiam então, a exemplo do que ocorre na África do Sul, produzir um efeito do sexo negativo para as mulheres ou para a feminilidade? Pode ser, diz Osmundo, mas o artigo de Tiago de Melo Gomes mostra também que o consumo da cultura negra é bem mais antigo e esteve bem estabelecido no Rio de Janeiro: o "efeito do sexo" nas ruas cariocas era também percebido como um "efeito de raça" — como se não fosse possível dissociar um do outro. Essa associação vai ser mostrada também no artigo de Luiz Gustavo Freitas Rossi sobre Jorge Amado. Ângela Figueiredo vai tentar é uma disjunção: os analistas sociais repetiram durante tanto tempo que negros e pobreza estão associados no país que o surgimento de uma classe média negra os tomou de surpresa. Pioneira na análise dessa classe, Ângela mostra as ambivalências enfrentadas pelos seus integrantes nas relações cotidianas com brancos que ainda os vêem com espanto.

Do outro lado do Atlântico, brancos ou negros, os brasileiros e as brasileiras sofrem todos um efeito de raça e de sexo, conforme se pode ler nos artigos de Luciana Pontes e Igor Renó Machado, sendo feminizados e etnicizados por seus hospedeiros portugueses.

Entre nós, a preeminência de "raça negra" nos "estudos raciais" é tão grande que, ao mesmo tempo que a inclui implicitamente, paradoxalmente exclui da cena textual outras conotações da palavra "raça". Os judeus vistos enquanto "raça" estão assim, curiosamente, quase ausentes das nossas análises sobre o discurso racista: os textos de Ethel Kosminsky e de Sander Gilman sugerem modos de reincorporá-los.

Na seção de resenhas, começamos neste número a incluir também a crítica de filmes; na seção Entrevista, trazemos Aída Hassón-Voloch, e na seção Documentos uma tese nunca apresentada de Heloisa Alberto Torres. A tese foi escrita para o concurso, afinal não realizado, à vaga de Arthur Ramos na Faculdade Nacional de Filosofia e nela, a pretexto de analisar alguns "tipos culturais femininos" — fixando-se na descrição da crioula baiana — Heloisa faz também uma interessante vinheta sobre a importância dos tecelões na manutenção e inovação das tradições africanas na Bahia. A sua é uma esmerada e pioneira descrição do significado do vestuário da baiana urbana, em quem ela já via um desejo de ascensão social, e cujo melhor retrato foi feito no Rio de Janeiro, por Cecília Meireles, numa série de belas gravuras de sua autoria.1 Gostaria, por fim, de informar aos leitores que, a partir deste número, e durante um ano, servirei os cadernos pagu como sua editora, função recentemente criada pelo nosso Conselho Editorial.

 

Mariza Corrêa

 

 

1 Meireles, Cecília. Batuque, samba e macumba: estudos de gesto e rimo. Rio de Janeiro, Funarte/Instituto Nacional do Folclore, 1983 [1935].

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