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Cadernos Pagu

versión impresa ISSN 0104-8333versión On-line ISSN 1809-4449

Cad. Pagu  n.29 Campinas jul./dic. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332007000200016 

ARTIGOS

 

"A vida como ela é...": imagens do casamento e do amor em Nelson Rodrigues*

 

A vida como ela é...: images of marriage and love in Nelson Rodrigues’s stories

 

 

Beatriz Polidori Zechlinski
Mestre em História pela Universidade Federal do Paraná, Curitiba-PR. beatrizpz@uol.com.br

 

 


RESUMO

Este artigo discute as relações de gênero na década de cinqüenta, através de um diálogo entre os apontamentos dos estudos historiográficos e as representações de gênero em cinco contos do escritor Nelson Rodrigues, publicados na coluna "A vida como ela é..." (1951-1961). Ao relacionar as imagens de homem, de mulher, do casamento e do amor existentes nos discursos presentes na sociedade e no imaginário social e as imagens produzidas pela ficção, busco entender o caráter e o papel das histórias de Nelson Rodrigues diante dos conflitos que envolviam as relações amorosas naquele período.

Palavras-chave: Relações de Gênero, Modelos Sociais, Discurso Ficcional.


ABSTRACT

This paper discusses gender relations in the fifties, through a dialogue between the notes of studies of history and gender representations in Nelson Rodrigues’s five stories, published in the column A vida como ela é... [Life as it is…] (1951-1961). It intended to relate man’s and woman’s images, as well as that of marriage and of love present in the discourses in society and in the social imaginary and images produced by fiction, aiming at understanding their character and their role in the conflicts that involved love relationships.

Key Words: Gender Relationships, Social Models, Fiction Speech.


 

 

Este artigo analisa cinco contos do escritor Nelson Rodrigues, publicados no jornal Última Hora1, do Rio de Janeiro, na sua coluna diária "A vida como ela é...", que teve duração de dez anos, de 1951 a 1961. A partir da análise dos contos – "A humilhada", "A dama do lotação", "O decote", "Casal de três", "Uma senhora honesta" – busco compreender as imagens do feminino, do masculino, do casamento e do amor produzidas pela narrativa, considerando as condições de produção dessa coluna jornalística de ficção e sua relação com o contexto social e ideológico das relações amorosas desse período. Esses contos versam sobre casamentos e sua principal característica é a recorrência da infidelidade feminina ou o desejo das esposas por outros homens que não são seus maridos.

Justamente porque a infidelidade feminina pertencia, nesse período, à esfera da vergonha, do tabu e da polêmica, as histórias de "A vida como ela é...", que davam publicidade ao assunto, apresentam muitos elementos que nos permitem analisar os significados atribuídos ao feminino, ao masculino e às relações amorosas naquela época.

Alguns fatores demonstram porque essas histórias são um meio privilegiado para pensarmos sobre o imaginário social a respeito das relações amorosas e sobre os discursos de gênero circundantes na década de cinqüenta.2 Em primeiro lugar, o fato das publicações dessas histórias serem diárias (exceto aos domingos) evidencia a ligação dos temas tratados com o cotidiano dos leitores. Esse aspecto se confirma também pelo fato de o Última Hora ter sido um dos jornais de maior circulação do período (Sodré, 1999:399) – sua tiragem variou entre 80 e 130 mil exemplares diários na década de cinqüenta. A primeira edição era rodada às onze horas e circulava ao meio-dia (Castro, 1992:237).

Além disso, a coluna teve uma duração de dez anos (entre 1951 e 1961) com pouquíssimas interrupções nesse intervalo.3 Assim, vemos que durante uma década inteira esse tema estimulou o hábito de leitura das pessoas e fez de Nelson Rodrigues uma personalidade popular.

Dessa forma, além de mostrar a relação entre a popularidade da coluna e de seu autor, este artigo contempla a relação entre o tema da infidelidade feminina e as tensões sociais ocasionadas por uma série de mudanças, que ocorreram naquele período, relativas às relações de gênero e à definição de papéis de homens e de mulheres na sociedade.

Entendo o ato de criação desses contos como uma forma de criar representações sociais4, elaboradas através de um discurso sobre as relações de gênero. O interesse do público leitor por essas histórias insere esse discurso e essas representações no meio social a partir da divulgação de valores, ideais e normas de conduta.

As histórias escritas por Nelson Rodrigues estão inseridas num determinado contexto social e cumprem um papel nesse contexto. Elas são produzidas a partir de condições externas que permitem sua enunciação o que, segundo Michel Foucault (2001:53), seria o princípio da exterioridade de um discurso. Porém, de acordo com Foucault, apesar dessas condições externas, todo o discurso também carrega características específicas e, nesse sentido, os contos de "A vida como ela é..." têm sua especificidade e seus próprios significados dentro daquilo que o público leitor pode e quer ler.

De acordo com Michel Foucault, um discurso é um "acontecimento", no sentido de que é único e pontual e, como acontecimento, é uma prática em si mesmo. Nesse sentido, as práticas estão relacionadas ao ato de criação e ao ato de ler histórias, que oferecem sentido às imagens que as pessoas fazem de si mesmas e dos outros num determinado contexto de uma sociedade (Id.ib.:56).

Dessa forma, a análise aqui proposta leva em consideração que as imagens do feminino, do masculino, do casamento e do amor nos contos de Nelson Rodrigues não se reduzem à mera expressão de significados sociais, como se fossem espelho da sociedade, mas acontecem como uma prática e devem ser entendidos no exercício específico da sua leitura, demandando enunciados que os precedem, mas que também os seguem, que são conseqüências por eles ocasionadas.

Enfatizo que as questões aqui abordadas relativas aos valores, representações e normas comportamentais encontram referência principalmente na classe média, que é a retratada pelo autor, e podem variar de acordo com a classe social. Da mesma forma, como essas histórias circulavam no Rio de Janeiro, a reflexão proposta por este artigo se relaciona com as mudanças sociais que estão acontecendo naquele período nas grandes cidades, principalmente nas capitais. Assim, essa reflexão não deve ser estendida para as pequenas cidades, onde a urbanização e a industrialização não causavam ainda um grande impacto nas relações sociais.

O jornal Última Hora – nacionalista, populista e sensacionalista – foi criado em 1951 por Samuel Wainer com o objetivo de defender o governo Vargas. Além da política, os destaques eram direcionados ao futebol e às notícias policiais. O Última Hora foi um jornal importante na imprensa brasileira porque desenvolveu técnicas editoriais e inovou na linguagem jornalística (Hohlfeldt e Buckup, 2002:10).

Contratado por Samuel Wainer, Nelson Rodrigues voltou para a seção policial na qual havia trabalhado durante oito anos no início da sua carreira (de 1927 a 1935). A idéia inicial de Wainer para a coluna "A vida como ela é..." era que Nelson escrevesse sobre um acontecimento trágico, verídico, ocorrido no dia anterior. No princípio, a coluna saía junto à seção de crimes, trazendo o nome e a foto dos envolvidos, mas em pouco tempo as histórias perderam esse caráter de verdade, dando maior liberdade ao escritor, que passou a inventá-las.

A coluna foi lançada em outubro de 1951 com o título "Atirem a primeira pedra" e, em 16 de novembro de 1951, mudou para "A vida como ela é..... De acordo com Ruy Castro, esse novo título foi elaborado pelo próprio Nelson, que o considerava mais sugestivo, pois dava um toque de fatalidade, de "ninguém-foge-ao-seu-destino" (Castro, 1992:236). Mais provocativo do que o título anterior, sugeria que ninguém estava livre dos males apontados pelas histórias.

Entre outras modificações na coluna com o passar do tempo, as histórias perderam a excessiva morbidez inicial – em quase todos os contos os adultérios terminavam em morte –tornando-se mais irônicas e cômicas, embora ainda houvesse finais trágicos vez por outra. Apesar da repetição do tema, o letreiro "tragédia, drama, farsa e comédia", no cabeçalho da coluna, indicava a diversidade das histórias. A coluna acabou mudando de página no jornal, passando para a segunda seção, onde eram publicadas as variedades, como palavras cruzadas.

 

As relações de gênero na década de cinqüenta

O período posterior à Segunda Guerra Mundial é um momento de intensas transformações culturais e sociais. Durante a guerra, como mostra Marly Rodrigues (1992), inovações científicas e tecnológicas, novas matérias-primas e os ramos da medicina, biologia e química se desenvolveram largamente. Principalmente nos EUA, esse processo deu início à sociedade de consumo e o ideal de vida norte-americano passou a ser exportado para grande parte do mundo através dos veículos de comunicação, como os periódicos (Garcia, 2004).

No Brasil, durante a Era Vargas e no pós-guerra, houve uma intensa industrialização e um grande crescimento dos centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, de cujos cenários começaram a fazer parte carros, rádio, televisão, grande circulação dos jornais, outdoors, cinemas, bares e cafés. A ascensão da classe média nesse período trouxe para o mundo do trabalho as atividades urbanas dos profissionais liberais, empresas e repartições públicas.

A vida nas grandes cidades começou a mudar comportamentos e valores, modificando as formas de sociabilidades, na medida em que a cidade proporcionava mais locais de lazer, propiciando os encontros e dificultando a vigilância, como destaca Cláudia Quaquarelli (1999:47):

Rapazes e moças, estranhos uns aos outros, tinham oportunidades de conhecerem-se, construir relações de amizade, flerte e namoro, seja nos locais de lazer ou em espaços destinados a atividades rotineiras como as relativas ao trabalho, a freqüência em estabelecimentos comerciais, religiosos, ou ainda, no simples "ir e vir" pelas ruas e praças da cidade.

De acordo com a autora, estes encontros tornaram-se mais fáceis devido à presença feminina na esfera pública. Além de circular pelos espaços comerciais e de lazer citadinos, algumas mulheres da classe média começaram a trabalhar fora de casa, especialmente nas chamadas "atividades femininas", que permitiam conciliar o trabalho ao cuidado do lar, principalmente nos setores administrativo, financeiro e educacional (Martins, 2002:30).

Segundo Ana Paula Martins, essa mudança propiciou uma maior escolaridade feminina, principalmente no nível elementar e médio, e algumas mulheres já se aventuravam a traçar um projeto profissional, buscando o ensino superior. Assim, a imagem da mulher na sociedade começou a sofrer algumas modificações, delineando a "mulher moderna", conforme a autora:

À imagem da mulher trabalhadora vêm associar-se outras imagens que povoavam o universo feminino daquela época, como as atrizes de cinema, as primeiras-damas, as cantoras do rádio e as misses. Entre o tradicional e o moderno formava-se uma nova mulher consciente de que poderia assumir novos papéis além de esposa e mãe (Id. ib.:31).

No entanto, o trabalho da mulher era cercado de preconceitos e visto como subsidiário ao do homem, o "chefe da casa", e muitos pensavam que a maior escolarização feminina servia para qualificar o papel principal e natural que ela exercia dentro do lar, cuidando da casa, do marido e dos filhos (Id. ib.:35). De fato, as novas oportunidades que começavam a surgir não se fizeram acompanhar de profundas alterações na organização da vida íntima e familiar.

Dessa forma, as mulheres continuavam sendo criadas para serem boas esposas e mães. Segundo Carla Bassanezi (2000:609),

ser mãe, esposa e dona-de-casa era considerado o destino natural das mulheres. Na ideologia dos Anos Dourados, maternidade, casamento e dedicação ao lar faziam parte da essência feminina.

Como afirma a autora, nas famílias modelos dessa época os homens tinham autoridade e poder sobre as mulheres e eram responsáveis pelo sustento da esposa e dos filhos.

A mulher ideal era definida a partir dos papéis femininos tradicionais – ocupações domésticas e cuidado dos filhos e do marido – e das características consideradas próprias da feminilidade, como instinto materno, pureza, resignação, doçura e castidade. Por outro lado, as marcas que caracterizavam o ideal de masculinidade eram a iniciativa, o trabalho, a força, a agressividade e o espírito de aventura. Embora nem todas as pessoas correspondessem aos modelos, eles serviam de base para avaliar os comportamentos, delineando o que era adequado para o homem e para a mulher (Martins, 2002).

 

Os contos de "A vida como ela é..."

Caracterizados pelo ambiente urbano das grandes cidades, os contos de "A vida como ela é..." narram encontros furtivos no meio da rua, nos bares, cafés e sorveterias, nos ônibus e bondes, nos escritórios e repartições públicas. Outra característica importante é a utilização de uma linguagem cotidiana que, através de expressões como "batata", "carambolas", "não amola", "ora pílulas", criavam esse universo urbano das personagens. Da mesma forma, os diálogos curtos imitavam as falas cotidianas e as conversas entre amigos ou parentes. O sucesso dessa fórmula levou Nelson Rodrigues a introduzir também no seu teatro a linguagem coloquial, iniciando, a partir de A falecida, de 1954, uma nova fase na sua dramaturgia – a das tragédias cariocas.5

As histórias são narradas em terceira pessoa, sendo o narrador um observador.6 Em grande parte do texto, ele utiliza o discurso indireto livre, mediando a história através de expressões típicas das personagens e reproduzindo seus diálogos em discurso direto.

Os protagonistas eram jovens desempregados, funcionários de repartições públicas e de pequenas empresas, donas-de-casa e algumas mulheres que trabalhavam por necessidade. Eles moravam na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro e iam ao centro para trabalhar. Assim, na descrição das ruas, dos bares e cafés, dos ônibus e bondes, dos escritórios e repartições públicas, a narração e os diálogos imitavam a linguagem cotidiana e promoviam o realismo das histórias.7 Não é intenção desta análise promover uma comparação entre uma realidade descrita nos contos e a realidade vivida pelos leitores, tampouco afirmar que o autor expressava uma realidade tal e qual ela era vivida. O que se pretende é compreender a estrondosa popularidade da coluna relacionada ao jogo de sentidos que o autor empreendia para falar publicamente da infidelidade feminina.

Essas histórias suscitavam o interesse de um público leitor extenso. Para além da descrição realista, o que permite refletir sobre as relações de gênero a partir de "A vida como ela é..." é o nexo entre a forma como o tema da coluna era abordado, o interesse dos leitores e as possíveis apropriações8 de ideais, valores e normas de conduta.

O grande fio de atração de leitores por essas histórias era, principalmente, a forma como o autor abordava as tensões que envolviam a presença das mulheres no espaço público. Difícil de ser controlado no cotidiano das grandes cidades, o comportamento das mulheres tornara-se uma questão de confiança na honradez e no autocontrole. Na década de 1950, a tensão que existia sobre controle da sexualidade feminina estava associada ao incipiente trabalho fora de casa (no meio urbano) das mulheres da classe média, a seu progressivo avanço educacional, aos modernos namoros longe dos pais e às possibilidades de encontros furtivos que as cidades proporcionavam.

No imaginário social, existiam as mulheres "sérias", que se comportavam de acordo com as normas, isto é, mantinham-se virgens até o casamento e fiéis aos maridos após o casamento; e aquelas que não eram sérias, as "levianas" e as adúlteras – mulheres que transgrediam as normas e enganavam os homens. Os comportamentos desviantes colocavam em dúvida o poder e a dominação masculina, de forma que as mulheres transgressoras precisavam arcar com a recriminação e a estereotipagem social. Na teoria, a divisão era simples, mas na prática, como saber se uma mulher era "séria" ou não? Daí a tensão que havia a respeito da confiabilidade de uma mulher.

Em trecho de suas memórias, o autor expõe justamente essa relação. Notemos que, na observação de Nelson Rodrigues sobre seu próprio texto, ficam claras as expectativas dos leitores, as quais o autor procurava responder:

(...) Se as novas gerações me perguntassem o que era A Vida Como Ela É..., diria: "Era sempre a história de uma infiel".
Apenas isso. E o leitor era um fascinado. Comprava a Última Hora para conhecer a adúltera do dia. Claro que, na minha coluna, também os homens traíam. Mas o que o público exigia era mesmo a infidelidade feminina.
(...)
Quando saí da Última Hora, e acabei A Vida Como Ela É..., o telefone não parava. Homens e mulheres queriam saber se não ia sair mais e por quê. Dir-se-ia que o problema do brasileiro é um só: – ser ou não ser traído (Rodrigues, 1967:98).

Podemos concluir, então, que era justamente a dúvida colocada pelos contos sobre a virtude ou não das mulheres (casadas, noivas ou namoradas) que impulsionava o sucesso de "A vida como ela é...". O autor recorria a um tema que palpitava naquela época; a modernização e as mudanças de comportamento decorrentes da vida urbana incitavam a uma desconfiança permanente sobre as mulheres. A fidelidade feminina estava diretamente relacionada à honra da família e, assim, à masculinidade do marido. Nesse sentido, a dúvida sobre a fidelidade ou não das esposas era uma preocupação constante. Nesse período, a infidelidade masculina não era condenada, recomendando-se às esposas que compreendessem esse instinto natural, essencialmente masculino, que levava à poligamia (Bassanezi, 1996:236). A infidelidade feminina, por sua vez, era inaceitável.

Se no discurso hegemônico da Igreja e do Estado as mulheres deveriam ser mantidas sob controle para a não degeneração da sociedade, a preocupação das pessoas era com a sua própria honra e com sua imagem perante os outros. Dessa forma, a relação das histórias de "A vida como ela é..." com a realidade não se baseava no fato da traição ou não das mulheres, mas na possibilidade dessas traições, que povoava a imaginação das pessoas, suscitando a leitura da coluna diária do jornal Última Hora.

O que deve ser enfatizado é a circulação das idéias a respeito das relações amorosas, o discurso implícito nesse conta e reconta de histórias, cujo mote central era o adultério feminino. Isso está diretamente implicado nas representações sociais das mulheres e dos homens, nos papéis sociais que deveriam cumprir e nas regras que regiam o comportamento sexual de ambos.

As histórias tornavam público o pensamento das pessoas, daí o fascínio por esse tipo de leitura. Ao mesmo tempo, esses contos eram associados ao proibido e ao imoral, justamente porque relatavam comportamentos femininos desviantes. Segundo Mário Guidarini (1990:185), que estudou o teatro de Nelson Rodrigues, o dramaturgo perseguia uma comunicação com o público baseada no seu "fluxo de consciência", isto é, jogava com o interesse pelo que era socialmente condenado, gerando uma "atração-repulsa" nos espectadores. Para compreendermos melhor essas questões, vejamos o resumo das histórias analisadas.9

Em "Casal de três", Filadelfo queixou-se ao seu sogro que sua mulher, Jupira, tinha um gênio terrível. O sogro, Dr. Magarão, no entanto, o consolou com a seguinte teoria: toda mulher honesta era assim. Os maridos deviam desconfiar das esposas amáveis e gentis, pois estas eram as mais infiéis. Filadelfo foi para casa consternado, pois sua vida era melancólica – a mulher não se arrumava, nem se pintava, até cheirava mal.

Um mês depois, porém, aconteceu uma mudança incrível. Ao chegar em casa o marido foi recebido com beijos de namorada pela mulher – arrumada, perfumada e sensual como nunca. A partir de então sua vida conjugal transformou-se numa verdadeira lua-de-mel. Filadelfo começou a desconfiar da mulher e, mais tarde, recebeu uma carta anônima: "Tua mulher e o Cunha..." (29). Chegou à conclusão: "sua felicidade conjugal, na última fase, é feita à base do Cunha" (29), seu amigo íntimo. Com o passar do tempo, o Cunha ficou noivo e Jupira entrou em desespero. O marido, então, pegou seu revólver, foi até o Cunha e o obrigou a desmanchar o noivado. Além disso, sentenciou: o Cunha ia agora jantar com eles todas as noites.

Em "O decote", Clara e Aderbal eram casados há dezesseis anos. Um dia, a mãe dele, d. Margarida, foi tirar satisfações do filho, pois a nora, segundo ela, andava fazendo "os piores papéis" (58). Ela era infiel e, portanto, eles deviam separar-se. Clara e Aderbal haviam se casado numa paixão recíproca, mas após quinze dias, Clara desiludiu-se totalmente, pois o marido já ia para o bar com os amigos e voltava tarde para casa. Após o nascimento da filha, logo depois, Aderbal tornou-se o mais sentimental dos pais. Esquecia-se, porém, da esposa. Esta se tornou uma mãe negligente e passou a freqüentar festas, onde exibia vestidos decotados. Aderbal sabia do comportamento de Clara, tendo recebido, inclusive, uma carta anônima. Porém, não tinha forças para argumentar com ela.

Naquele dia, sua mãe lhe exigiu que tomasse uma atitude, porém, ele disse que jamais se separaria, em função de sua filha, que adorava acima de tudo. Dias depois, em uma discussão, Clara lhe relatou todas as traições, ao todo dezessete, inclusive com amigos de Aderbal. Este, transtornado, disse: "Só não te mato agora mesmo porque minha filha gosta de ti!" (61). A filha, ao ouvir toda a discussão, foi até o pai e disse: "Eu não gosto mais de minha mãe. Deixei de gostar de minha mãe" (61). Aderbal, ao tentar compreender o sentido daquelas palavras, apanhou seu revólver, foi até a mulher e disparou dois tiros no meio do decote.

No conto "Uma senhora honesta", Luci orgulhava-se de ser uma esposa virtuosíssima, extremamente fiel ao marido, Márcio Valverde. Ela vivia vigiando colegas e vizinhas, principalmente as casadas, e esbravejava ao saber de alguma prevaricação. Valverde, que sofria de asma e era um homem fraco, não podia com a mulher, que, ao contrário, tinha um corpo robusto e o "tratava mal, muito mal mesmo" (113).

Luci era funcionária pública, pois o marido ganhava pouco. Na repartição, andava sempre de cara amarrada, o que "era uma de suas normas de mulher séria" (113). Certo dia, ao ser galanteada no telefone da vizinha, disse coisas terríveis para o "admirador", supondo que fosse seu vizinho, Adriano, um jovem de braços fortes que era sustentado por uma senhora rica. Ele lançava para Luci olhares insinuantes no seu trajeto para o trabalho. Ela, muito honesta, ficava furiosa com a situação. Um dia, porém, depois do marido sair de casa, ela recebeu orquídeas, sem indicação de remetente. Luci tremeu, já começava a pensar que o sentimento do vizinho por ela podia ser um grande amor. Com o pensamento cheio de orquídeas, estava eufórica.

Quando Valverde chegou, radiante de alegria por ter ganhado no bicho, ele revelou que havia lhe mandado as orquídeas. Furiosa, ela gritou:

Onde já se viu marido mandar flores! (...) Seu idiota! Seu cretino! Espirro de gente! [Valverde, sem compreender, pensou na esposa de um colega] que era infiel e, ao mesmo tempo, tão cordial com o marido (117).

No conto "A humilhada", a personagem Regina, recém-casada, tinha a ilusão do casamento perfeito. Aos poucos, o marido, Guilherme, foi se mostrando desatencioso, farrista e rude. Regina acabou se desiludindo, porém, continuava acreditando na fidelidade dele, que considerava essencial para a manutenção do casamento e, de certa forma, o aspecto principal da vida a dois: "Enquanto ele não me passar pra trás, não me trair, vai tudo num mar de rosas" (160).

Com o passar dos anos, Regina acabou descobrindo, através de cartas e telefonemas anônimos, que, de fato, ele a traía "de todas as maneiras possíveis e imagináveis" (162). Sua primeira reação foi pensar em traí-lo também, mas pensava nos significados que seus atos teriam para sua filha. Aos treze anos, esta já percebia as aventuras do pai e, ao ver sua mãe apanhando dele, que estava bêbado, tomou-se de ódio, agarrou sua mãe e disse para ela ir embora de casa. Regina compreendeu que "certas esposas precisam trair para não apodrecer" (163).

Em "A dama do lotação" a personagem Solange era a melhor das esposas, todos a adoravam, inclusive o sogro. No entanto, seu marido, Carlinhos, começou a desconfiar da fidelidade da mulher, porque durante um jantar viu, por acaso, os pés dela roçando os pés de um amigo do casal, Assunção. Mais tarde, ele a pegou em uma mentira e ela foi forçada a confessar as traições, temendo que o marido matasse o Assunção. Todo dia ela pegava um lotação, sentava ao lado de um homem diferente, descia com ele e consumava a traição. Carlinhos se sentiu atordoado por tantas traições e, sem poder limpar sua honra matando o amante (pois eram muitos), resolveu fingir que estava morto, deitando-se, imóvel, em sua cama.

 

Sogros, vizinhas e cartas anônimas

Na época em que foram escritos esses contos, a honra familiar carregada pelas mulheres se traduzia na manutenção de um corpo casto, livre de desejos. Conforme Pierre Bourdieu (2002:18), "o mundo social constrói o corpo como realidade sexuada e como depositário de princípios de visão e de divisão sexualizantes". Na década de 1950, o corpo feminino carregava os valores da moral sexual. Dessa forma, a infidelidade feminina significava a quebra da hierarquia de gênero, pois o corpo feminino deixava de pertencer ao marido, revelando a intensidade da sexualidade feminina, além de uma possibilidade de livre arbítrio da mulher. O adultério feminino era uma violação dos valores atribuídos ao corpo feminino, gerador da prole, isto é, o meio de continuidade da família.

Pelo Código Civil de 1916 (que vigorou até 2002), a mulher era um ser tutelado, como os menores, e o adultério feminino poderia ser punido se houvesse suspeita ou prova da relação íntima com um homem que não fosse o marido, mesmo que esporádica, enquanto o adultério masculino somente seria punido se comprovada a manutenção de uma concubina por um longo tempo (Bassanezi, 1996:364). Assim, se a punição do adultério para as mulheres estava relacionada com seu contato físico com outros homens, para os homens tinha relação com a sua função social de provedor do lar, ou seja, sua relação física com outras mulheres pouco significava perante a lei, mas a manutenção de uma concubina poderia significar a transgressão do seu papel de chefe de uma única família.

Além disso, muitos criminosos passionais acabavam favorecidos pela justiça quando agrediam ou matavam as esposas adúlteras ou seus amantes, evocando a "legítima defesa da honra" que, embora não constituída legalmente (pois não era tipificada pelo Código Penal de 1940), era uma figura jurídica muito utilizada (Corrêa, 1981:26).

Nesse sentido, segundo Mary Del Priore (2005:265), enquanto a infidelidade masculina era considerada um problema de foro íntimo, não manchando a reputação das esposas traídas, a infidelidade feminina significava escândalo social e estava associada ao crime. Nota-se, assim, que no caso do adultério feminino, a dicotomia usual entre o privado e o público é relativisada, pois, mesmo a mulher e a família estando associadas ao espaço privado, a (in)fidelidade feminina era uma questão social e pública, não fazia parte somente do foro privado.10

Tomado como questão social e não somente íntima, as infidelidades femininas poderiam manchar a imagem dos maridos e das famílias. Analisando essa questão à luz de Bourdieu (2002:64), a contrapartida da exaltação dos valores masculinos, como a virilidade e a honra, eram os medos e as angústias que a feminilidade suscitava, pois a fraqueza feminina também deixava, no plano simbólico, a virtude feminina vulnerável.

Enquanto as prescrições de comportamento para as mulheres consideradas "de família" ou "sérias" as afastavam de qualquer tipo de manifestação da sexualidade (Bassanezi, 2000:620), os contos de Nelson Rodrigues jogavam com o conceito de "mulheres de família" e sua pressuposta "seriedade", insinuando que todas as mulheres seriam vulneráveis e poderiam sentir desejos por outros homens. Apesar da aparente contradição entre esses dois pressupostos, eles refletem a mesma preocupação com o controle da sexualidade feminina.

O controle social perante o comportamento das moças nas cidades, onde havia mais possibilidades de enganar os maridos, era um dos elementos centrais nos contos analisados de "A vida como ela é...". Os vizinhos, parentes, amigos e amigas contribuíam na vigilância para defender a moral da boa família. As personagens secundárias cobram comportamentos, opinam e participam constantemente da vida conjugal das personagens principais e, dessa forma, representam o papel de vigilantes do casamento, do status de uma vida feliz a dois e da honra e da moral perdidas em decorrência de possíveis traições femininas.

As personagens secundárias são membros da família ou pessoas muito próximas – pais e mães, sogros e sogras, filhas, vizinhas e amigos íntimos do casal. Os pais do casal têm importância crucial na vida conjugal das personagens principais: a mãe telefona para Regina para saber "como é que vai o negócio" (H:160); Carlinhos, ao desconfiar da mulher, corre imediatamente para a casa do pai (DL); em O decote, a mãe tem uma atuação decisiva: "você é cego ou perdeu a vergonha? (...) Sua mulher anda fazendo os piores papéis. Ou você ignora? (...) Você é ou não é homem?" (D:58).11

Através dessas personagens secundárias, o autor dá voz ao discurso de delimitação de papéis sexuais e de identidades de gênero, principalmente aos pais do casal, que vigiam os comportamentos. Esse discurso controla a adequação aos modelos sociais das personagens principais.

As frases, acima, da mãe de Aderbal para o filho, remetem à cobrança de um comportamento masculino que interessava para a manutenção da honra de toda a família, não somente a dele. A vergonha da família perante a sociedade era gerada pela transgressão do papel social feminino devido ao comportamento inadequado da mulher.

As vizinhas também cumprem esse papel controlador: "Uma vizinha fez o veneno: ‘Mas olha que não há homem fiel. O homem fiel nasceu morto’" (H:160); Luci "vigiava as colegas, as vizinhas, sobretudo as casadas" (SH:112). Em "Uma senhora honesta" e "Casal de três", o fato dos maridos serem desacatados na frente das visitas aparece como sendo muito mais grave do que nos momentos de intimidade.

Com a formação das cidades, os vizinhos passam a ser um elemento da vida urbana, das classes média e baixa, que participa do cotidiano das pessoas, criando um novo vínculo de sociabilidades. Eles também são elementos que vigiam o cumprimento dos papéis de gênero, ainda mais numa época em que grande parte das mulheres ficava em casa e agora numa distância muito pequena entre as casas.

As cartas anônimas, presentes em três dos cinco contos, demonstram que a sociedade estava atenta à vida íntima de um casal e que as traições diziam respeito a toda uma rede de amigos e de sociabilidades. Esses elementos demonstram a eficácia do sistema de controle que se formava no meio urbano, onde de certa forma a vigilância era mais difícil e exigia olhos atentos e dispostos à denúncia.

Em "A dama do lotação" torna-se evidente a preocupação em torno do status social perdido pelo marido em decorrência da traição da esposa. No momento em que Solange confessa suas traições, a principal preocupação de Carlinhos não era com as aventuras da sua mulher com os mais diversos homens do lotação, mas com seus conhecidos: "Mas esses anônimos, que passaram sem deixar vestígios, amarguravam menos o marido. Ele se enfurecia, na cadeira, com os conhecidos" (DL:222). A reação de Carlinhos é extrema: como não pode limpar sua honra perante a sociedade, pois não há um amante para matar, ele resolve "morrer para o mundo" (DL:223). Ao se "fingir de morto", morre sua identidade, sua masculinidade e sua dignidade.

 

As personagens principais

Na caracterização das personagens percebemos vínculos entre as condutas consideradas transgressoras e as descrições físicas e morais. Em alguns contos aparece o modelo de mulher do período: meiga, delicada, educada, boa esposa e boa mãe:

e, com efeito, fina, educada, escrupulosa, Regina conseguira eliminar de seus hábitos e modos tudo o que ela própria achava deselegante (H:159).
dela mesma, se dizia, em toda parte, que era ‘um amor’; os mais entusiastas e taxativos afirmavam ‘é um doce-de-coco’. Sugeria nos gestos e mesmo na figura fina e frágil qualquer coisa de extraterreno. O velho e diabético general poderia pôr a mão no fogo pela nora. Qualquer um faria o mesmo (DL:220).

Outras personagens, no entanto, aparecem como esposas grosseiras, mal educadas e nada amorosas. Luci, mulher de corpo robusto, muito mais forte que o marido, "o tratava mal, muito mal mesmo; desacatava-o, inclusive na frente de visitas" (SH:113). Jupira tinha um gênio terrível, humilhava o marido, além disso, era uma mulher desleixada, não se enfeitava, não se arrumava, até cheirava mal. O marido "sofria as mais graves desconsiderações" (CT:27). Clara, de "O decote", mulher muito bela, havia se desiludido de tal forma com o casamento, que passou a levar uma vida frívola. Mãe displicente, vivia em festas, exibindo seus belos ombros nus e seus decotes.

Os maridos, por sua vez, mostram-se fracos moral e fisicamente, demonstrando sua fragilidade através das doenças recorrentes, além de serem dominados pelas mulheres. Valverde, marido de Luci, é um homem que parece ter medo da mulher: "Valverde, metido num pijama listrado, tremia diante dessa virtude agressiva e esbravejante" (SH:112). Ficava imaginando que poderia apanhar da esposa, pois numa luta corporal ela levaria "vantagem esmagadora" (SH:113). Além de ganhar pouco, sofria de asma e tinha um físico fraco:

Valverde sofria de asma. Bastava o tempo esfriar um pouquinho; a umidade era um veneno para ele. E, então, passava mal, tudo quanto era brônquio chiava e o acometia o pavor da asfixia iminente. Sendo tímido, talvez a timidez decorresse de sua condição melancólica de asmático. Mirrado, com peito de criança, uns bracinhos finos e longos de Olívia Palito – o pobre-diabo não tinha a base física da coragem (SH:113).

Conforme Bourdieu (2002:20), a virilidade, que é o "princípio da conservação ou do aumento da honra, mantém-se indissociável, pelo menos tacitamente, da virilidade física". Dessa forma, podemos concluir que na descrição de Valverde está implícita a visão do ideal masculino que associa a força física à coragem e ao poder. Assim, o marido que não conseguia dominar a mulher, não apresentava as características físicas tidas como essencialmente masculinas, como a força. No caso de Valverde (SH), além de ser fraco, também não era um provedor ideal, pois ganhava pouco.

De forma semelhante, Filadelfo (CT), marido de Jupira, queixa-se da mulher, vive amargurado com as grosserias e humilhações que fazem parte do seu dia a dia. No entanto, é incapaz de tomar qualquer atitude, obedece sempre a esposa e demonstra certo receio de sua agressividade: "Qualquer dia apanho na cara!" (CT:26).

Aderbal, por sua vez, marido de Clara, ao tentar conversar com a mulher, para persuadi-la a mudar de comportamento, recebe como resposta um desaforo: "Vê se não dá palpite, sim? Sou dona do meu nariz!" (D:59). No início do conto, ao presenciar uma briga entre sua mãe e sua esposa, ele já demonstra fraqueza, pois apenas exclama: "Mulher é um caso sério!" (D:57). Quando nasce sua filha, ele torna-se o mais sentimental os homens; durante o parto, enquanto sua mulher gemia, ele teve uma terrível dor de dente, que desapareceu logo após o nascimento da criança.

Nesse conto, o drama acontece pelos fatores que envolvem as mulheres. Primeiro, a mãe precisa cobrar uma atitude de Aderbal, que se sente coagido a reagir. Segundo, ele é desacatado pela esposa, que relata todas as suas traições. Posteriormente, ele necessita da "permissão" da filha, que acaba induzindo o pai ao assassinato. É a atuação das três mulheres que culmina com o assassinato. O marido atua de acordo com os comandos da sua mãe e da sua filha, evidenciando ainda mais sua fraqueza.

Na constituição do ideal de masculinidade, segundo Martins (2002:85), a coragem e a força física são elementos essenciais, que garantem a virilidade do homem, além de outras características como a iniciativa e a ousadia. Nesse sentido, as histórias ridicularizavam os maridos, ironizando seu papel social, o que se acentuava ainda mais pelos nomes das personagens: Carlinhos, um nome no diminutivo que infantiliza a personagem, e Aderbal, Valverde e Filadelfo, nomes que não fazem nenhuma associação com força ou virilidade.

Os amantes, ou pretendentes, ao contrário, são descritos como belos, fortes e com boa saúde. Cunha é um homem "simpático, quase bonito e tem bons dentes" (CT:29). Adriano, além de ter nome de vinho e de fogos de São João (segundo o narrador), o que caracteriza sensualidade, é jovem e tem braços fortes e bonitos, ao contrário do marido de Luci:

De noite, chegou Valverde, eufórico. Ao vê-lo, Luci teve um choque como se o visse pela primeira vez: que figurinha lamentável! E não pôde deixar de estabelecer o contraste entre os bracinhos do marido e os do "outro" (SH:116).

A figura do amante representa o ideal masculino, de força e de virilidade, e a importância dessas características se confirma pela atração que ele exerce sobre a mulher. Assim, esta imagem positiva de homem, associada ao amante, é contraposta à imagem negativa do marido criada nos contos.

Nesse sentido, o que determinava o comportamento transgressor das mulheres não eram, de fato, suas características pessoais, mas sim as de seus maridos – falta de força e de virilidade, em decorrência, falta de poder sobre elas. A ridicularização das personagens masculinas se dá através da ponte entre a incapacidade de dominação masculina e a decorrente infidelidade feminina.

 

Desejos femininos

Nesses contos, mesmo quando a infidelidade feminina não acontece, como em "A humilhada" e "Uma senhora honesta", a trama se desenvolve em função de uma possível traição. O importante, porém, não são as traições (consumadas ou não), mas os desejos, em especial os desejos femininos, tão silenciados e tão temidos. As conseqüências desses desejos culminam com os finais ora trágicos, que tendem a associar a transgressão do comportamento da esposa com o seu papel materno, ora cômicos.

Em "O decote", a figura da esposa é independente e erotizada, contrastando com o papel materno que ela deveria exercer. No ideal feminino do período, a categoria "mãe", segundo Aragão, assumiu um caráter central. Para o autor, na família moderna houve uma sacralização da mulher, simbolizada pela figura materna. Associada ao espaço doméstico, envolvido pela idéia de pureza, e definida socialmente através da família, a "mãe" tornou-se praticamente uma santa (Aragão, 1983:109-145).

Nesse conto, o papel sacralizado da mãe remete à incompatibilidade entre a figura da mãe e a sexualidade feminina, chegando ao extremo, quando há uma espécie de pacto entre pai e filha para assassinar a mãe, que não se comportava de acordo com as regras.

A filha é uma personagem central, pois representa o limite entre o sentimento e os valores morais da época. D. Margarida, mãe de Aderbal, marca a figura de mãe, pois sua moral contrasta com a da esposa. Clara morre com dois tiros no peito (lugar do coração materno que não cumpriu sua missão) e no meio do decote (símbolo de uma sensualidade desregrada).

A morte dessa personagem era sua punição pelo não cumprimento do seu papel materno e pela busca do prazer pessoal. Paulini, ao estudar a relação entre o amor e a morte no teatro de Nelson Rodrigues, argumenta que na dramaturgia rodrigueana "é como se o corpo, por ser o lugar do sexo e do prazer, devesse amargar uma culpa por isso, sendo também o lugar da morte" (apud Alves Filho, 2002). Dessa forma, em alguns contos de "A vida como ela é...", como "O decote", também vemos a relação entre pecado e morte.

Em "A humilhada", embora não haja morte, o final também é dramático, enfatizando o papel materno. Regina, a protagonista, passa todo o conto reprimindo seu desejo pelo primo, justamente por causa da filha, que, no final, resolve rebelar-se perante a situação de humilhação da mãe. Só então Regina arrepende-se de não ter traído. Mas a história reforça a idéia da responsabilidade da mãe pela ordem familiar e da necessidade de aprovação de sua conduta pela filha.

Em outros contos há uma tendência para o humor e a ironia. Conforme Carla Bassanezi (1996:449), que analisou as piadas publicadas pelas revistas femininas nesse período, muitas vezes, o que torna as piadas engraçadas é o reforço (pela caricatura ou exagero) ou a reversão de idéias preconcebidas. Assim, o cômico pode atuar como forma de controle, aprovação ou desaprovação de determinadas atitudes ou situações.

Na década de 1950, algumas piadas publicadas nas revistas femininas reforçavam a ordem e a manutenção da hierarquia dominante do masculino em relação ao feminino, ridicularizando a inversão de papéis de gênero e da autoridade na família (Id. ib.). Nos contos aqui analisados, onde não aparecem filhos e mortes, a inversão dos valores tradicionais de gênero e de casamento é justamente o que os torna cômicos.

É o que vemos na trama de "A dama do lotação", pois Solange se mantém a mais perfeita das mulheres justamente porque, desde o primeiro mês de casamento, traía o marido todos os dias com um homem diferente. Mesmo na situação desesperadora da descoberta de suas traições, ela continuava "linda, intacta, imaculada" (DL:222).

Quando o marido resolveu "fingir-se de morto", ela continuou perfeita, fez a encenação do velório como a melhor das viúvas, mas não deixou de pegar o lotação. A sexualidade exagerada da personagem, contrastada com sua pureza e doçura e a situação ridícula do marido "morto vivo" tornam a história cômica. O mesmo ocorre em "Uma senhora honesta", onde o cômico está na indignação da esposa ao perceber que recebeu flores do próprio marido.

Em "Casal de três", Jupira se torna a "mais amável das esposas" a partir do momento em que começa a trair o marido. A ironia aqui é que o marido, para sua própria felicidade conjugal, resolve conviver com a mulher e o amante. Mais uma vez a exposição de uma sexualidade feminina exagerada é associada a um desfecho ridículo, tornado a história risível.

Nessas histórias, que apontam muitos conflitos do casamento, a centralidade da ironia e da provocação perante os maus casamentos se sobrepõe à crítica da instituição do casamento. Segundo Carla Bassanezi (Ib.:400), nos contos publicados pelas revistas femininas, os problemas conjugais eram apresentados como explicações para a infidelidade feminina (que aparecia pouco). Na maioria desses contos, porém, ou as mulheres apenas pensavam em trair, mas não traíam de fato, porque percebiam a importância do casamento e da família, ou eram punidas com a morte. Nessas histórias, estava implícito um alerta aos perigos do casamento infeliz, mas a instituição era valorizada, isto é, os conflitos deveriam ser resolvidos e as mulheres deveriam resistir às tentações para a manutenção da família.

A importância da instituição da família era também enfatizada nas histórias de Nelson Rodrigues, dado o lugar que os filhos ocupam em alguns contos. Nas revistas femininas, segundo Bassanezi (Ib.:419), as pregações mais comuns contra o divórcio apelavam justamente para a idéia de que os filhos deveriam ser colocados acima dos possíveis desentendimentos entre o casal. Nos contos de Nelson Rodrigues, que narram a existência de filhos – "O decote" e "A humilhada" –, a traição feminina é mais dramatizada do que em outros, cuja tendência é humorística ("Uma senhora honesta", "A dama do lotação" e "Casal de três").

 

Conclusão

As imagens de homem, de mulher, do casamento e do amor apresentadas nesses contos remetem às mudanças pelas quais a sociedade estava passando, em especial, a vida de muitas mulheres da classe média, que começaram a trabalhar, que namoravam nas ruas, que se inspiravam nas musas do cinema. Era a tensão entre o modelo de comportamento vigente e as mudanças geradas pelas grandes cidades.

As histórias irônicas faziam graça com as situações que seriam consideradas ridículas, reiterando modelos sociais estabelecidos. As situações criadas tornavam-se engraçadas ou, no mínimo, atraentes para os leitores, porque existia um reconhecimento da inversão da sociedade retratada, como considerou Aristóteles (1987:23), na comédia rimos daquilo que consideramos o feio. Já nas histórias com finais trágicos, as esposas pagavam com a morte pela transgressão do seu "verdadeiro" papel social.

Nesse sentido, as histórias de "A vida como ela é..." insinuavam como a vida não deveria ser. O nome da coluna, elaborado pelo próprio Nelson Rodrigues, era uma ironia, uma provocação ao leitor, pois as histórias mostravam justamente o contrário do que era socialmente aceito e valorizado. Nos contos perpassados pelo humor, as situações criadas não são levadas a sério, são cômicas ou ridículas, assim, era a norma que acabava sendo valorizada, como comenta Nelson Rodrigues sobre a recepção do filme A dama do lotação, baseado no conto:

Para muitas pessoas, o cinema é uma maneira de se purificar. Uma vez, numa reunião de alta sociedade, uma maravilhosa senhora, sem qualquer sombra de pudor, me disse: "Eu era uma verdadeira Dama do Lotação. Fazia psicanálise e nada de resolver o meu problema. Quando saiu o filme, fui vê-lo. Me identifiquei tanto com a heroína que, ao final, estava de alma lavada, inteiramente purificada". Repito sempre que se não existisse o lado podre em cada um de nós, não existiria, também, a indústria cinematográfica (...). Hollywood criou as mais lindas fantasias sobre a lama inconfessa e encantada que repousa no fundo de cada pessoa. (...) Todas as vezes que o cinema colocar o homem diante de suas próprias abjeções, cada um de nós sentirá o eterno que existe em suas profundezas e, aliás, verá a própria sombra de Deus. Pois, sem Ele, todos nós não passamos de uns canalhas.12

Assim, para o autor, suas histórias relatavam o "lado podre", as "abjeções" humanas. Seria, portanto, uma forma de leitores e leitoras se purificarem, reconhecendo o errado, o feio, o desprezível. Dessa forma, esses contos estavam de acordo com a norma e em seu cerne havia uma visão conservadora das relações de gênero.

No entanto, vimos que essas histórias não deram ao autor a reputação de moralista, mas a de "tarado" ou "pervertido" e a coluna era acusada de degradar a imagem da família brasileira, de ser pornográfica e imprópria para as mulheres. Nesse sentido, as histórias têm um caráter ambíguo, pois a ênfase na sexualidade feminina evidenciava o silêncio que pautava o discurso hegemônico sobre o tema. Esse elemento ajuda a entender o sucesso dessa publicação diária. A popularidade da coluna se acentuava pela genialidade da escrita de Nelson, inclusive pelas suas frases de efeito.

"A vida como ela é..." acompanhou toda a década de cinqüenta, antecedendo a revolução sexual13 das décadas de 1960 e 1970, portanto, era uma literatura própria de um período de contradições geradas pela tensão entre o velho e o novo. Essas histórias contribuíram para chamar a atenção para uma sexualidade feminina que o discurso hegemônico tentava abafar. Este aspecto da obra de Nelson Rodrigues é reconhecido também pelos críticos de seu teatro, como Maria Luiza Ramos Boff (1991:237), que enfatiza o fato do autor conseguir, através de suas personagens femininas, chamar a atenção para as diferenças individuais e a frustração das mulheres, "valorizando-as ao fazê-las protagonistas ou personagens de destaque em toda a sua dramaturgia".

Dessa forma, a genialidade do autor estava em trazer a público a inquietação frente aos novos papéis que, gradativamente, as mulheres começavam a assumir, causando polêmica. Apesar da suposta ambigüidade das histórias e das suas possíveis interpretações, a análise das histórias e das declarações do autor levou-me a compreender que os contos de "A vida como ela é..." faziam parte da reação contrária às mudanças, de forma a manter a mulher no seu papel de mãe e dona-de-casa, assim como preservar a autoridade masculina na família.

 

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Recebido para publicação em abril de 2005, aceito em maio de 2007.

 

 

* Este artigo é parte de minha dissertação de mestrado – Imagens do casamento e do amor em Nelson Rodrigues: um estudo das representações de gênero na literatura publicada em jornal entre 1944 e 1961 – que inclui outras colunas jornalísticas do escritor que versam sobre relações amorosas. A dissertação está disponível na Biblioteca de Ciências Humanas e Educação da Universidade Federal do Paraná.
1 O jornal Última Hora do Rio de Janeiro encontra-se no Arquivo do Estado de São Paulo e na Biblioteca Nacional. Esses contos também estão publicados em Rodrigues, 1992.
2 A categoria "gênero" é utilizada neste artigo como um meio de possibilitar a compreensão das relações sociais entre os sexos (ver Scott, 1995).
3 Mesmo nos três meses que Nelson Rodrigues esteve doente, em 1957, o jornal Última Hora publicou contos antigos para que a coluna não deixasse de sair (Castro, 1992:247).
4 Sobre o conceito de representação, ver Chartier (2002:61-79).
5 Sobre a utilização da linguagem coloquial no teatro de Nelson Rodrigues, ver Guidarini (1990:55-65).
6 O narrador é considerado uma categoria específica de personagem, cf. Franco (2003:39).
7 Sobre as características da narrativa realista, ver Barthes (1984:87-97).
8 Sobre o sentido de "apropriações", ver Chartier (2002).
9 Os resumos aqui apresentados têm como objetivo apenas permitir o conhecimento das tramas dos contos selecionados, para que seja possível a compreensão da análise posterior. Assim, aos interessados indica-se a leitura dos contos originais (Rodrigues, 1992).
10 Muito já foi discutido nas ciências humanas sobre a relatividade dessa divisão entre o público e o privado. Sobre a questão, ver Brito (1992:129-140).
11 Para facilitar a referência das personagens e a indicação das citações, utilizei siglas para cada conto: "Uma senhora honesta" (SH); "O decote" (D); "A dama do lotação" (DL); "A humilhada" (H), "Casal de Três" (CT).
12 Entrevista de Nelson Rodrigues à Jussara Martins (Revista Manchete, 21/12/1985).
13 Entende-se por "revolução sexual" as mudanças de comportamento, principalmente dos jovens, ocorridas entre as décadas de 1960 e 1970. Dentre as principais mudanças enfatiza-se a flexibilização da moral sexual, com maior liberdade sexual para as mulheres (com a popularização da pílula) e menor estigmatização dos casais separados ou não casados.

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