SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue29Mulheres em movimento: histórias do feminismo pela fotografiaAs maravilhas do sexo que ri de si mesmo author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Cadernos Pagu

On-line version ISSN 1809-4449

Cad. Pagu  no.29 Campinas July/Dec. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332007000200020 

RESENHAS

 

Matando a escrava que vive em nós*

 

 

Marília Novais da Mata Machado

Doutora pela Universidade Paris Norte; professora da Faculdade Novos Horizontes, Belo Horizonte, MG. marilianmm@terra.com.br

 

 

Preconceito contra a "mulher" é livro tão complexo, sério e denso quanto a questão da qual se ocupa. Resenhá-lo é, assim, um risco, é criar outro discurso, calcado no primeiro, ao qual se deseja ser fiel, mas é, também, um desvio, uma interpretação, uma fala feita de outro lugar, também feminino, também sem pretensão à verdade, intencionalmente, tão pouco unívoco quanto o que o gerou.

O livro de Sandra Azerêdo é aberto, poético, desafiante, e convida à aventura, a trilhar e desbravar caminhos ainda desconhecidos, a redesenhar fronteiras, a re-significar cotidianos, sem garantia e sem intento de chegar a certezas. Pequenos sinais e sugestões já apontam para questões importantes, construções e desconstruções em ato. Assim, as aspas no título sinalizam uma fronteira nova que deixa de fora a busca da mulher como essência e se abre à polissemia do feminino. A menção à diferença, também no título, aponta para "um dos poucos caminhos para a igualdade" (35), frase que sugere que há, contudo, outros caminhos: a poesia, a arte, a coragem, a escrita, o desafio, a visualização de limites a serem ultrapassados.

Três temas organizam o livro: (1) o tratamento do preconceito como um conceito construído histórica e discursivamente e a importância da afirmação da diferença como instrumento/arma para desmontar essa construção; (2) os meandros da fabricação dos conceitos de mulher e de diferença sexual em fragmentos da filosofia ocidental; (3) a teoria feminista e o conceito de mulher.

Tratando o primeiro tema, Sandra Azerêdo acentua o papel da linguagem na constituição das coisas. Muito cedo na vida, em cada lugar e em cada época, a linguagem ensina e naturaliza certa diferença sexual, em cada caso puramente imaginária. Junto à diferença, a linguagem cria também uma certa mulher, um certo homem e, embora não necessariamente, o preconceito. Entre nós, cria um lugar privado para a primeira (as fronteiras da casa, a proteção da família), público para o segundo (a rua, a experiência da liberdade), uma posição de domínio, independência e autonomia para ele, a sujeição, dependência, alienação e submissão para ela. Cria dicotomias: a mulher de verdade (esposa abnegada que vive para o marido e o lar) / a outra (a consumista, a puta); o macho com a prerrogativa do intelecto / a fêmea enclausurada no próprio corpo que é o que a define.

Sobre dicotomias como as citadas, o preconceito se instala. Um protótipo pode ser representado pelo triângulo pai provedor, mãe dona-de-casa, a puta da outra. Esse triângulo é parte do imaginário de cada um, de forma que poucas coisas são mais ultrajantes, para uma mãe/mulher de verdade, que ser chamada de puta pelo pai provedor. Para os três, o triângulo representa lugares naturais e identidades compactas, graníticas, como a do macho insaciável, da mulher honesta e daquela que não presta. Reinando, o homem; quanto a elas, sujeitas à consciência hospedeira do opressor, para utilizar a expressão criada por Paulo Freire.

São justamente essas identidades compactas que a autora pretende quebrar, re-esculpir, desnaturalizar, produzindo um outro saber (crítico e responsável), outro imaginário radical (instituinte), questionando, buscando ser capaz de, cada vez mais, fazer perguntas pertinentes, numa linguagem agora libertadora, apontando a polissemia das palavras, tecendo novas conexões.

Ora, se a linguagem é capaz de construir discursivamente diferenças sexuais que são estereótipos e identidades graníticas vinculadas, na vida real, a preconceitos que no limite são violências contra a mulher – estupros, assassinatos, abusos, espancamentos, insultos, ameaças e desrespeitos a direitos, isso tudo em um contexto de grande dominação (capitalista, falocêntrica), ela é capaz também de construir o discurso libertador, no qual as diferenças, agora afirmadas, apontam para a multiplicidade de gêneros, raças e classes, para a polissemia do conceito de mulher, para a alteridade a ser reconhecida e não isolada e dominada.

Abordando o segundo tema, Sandra Azerêdo seleciona no pensamento filosófico ocidental herdado por nós exemplos de construção do conceito de mulher. Em Espinosa, encontra a mulher naturalizada, compactada, enquadrada, inferior ao homem, governada por ele no mundo todo e, só assim, para o filósofo, vivendo harmoniosamente (a autora disseca essa tese, apontando, entre muitos outros vieses, a sujeição da mulher nela implicada). Em Freud encontra a mulher invejosa do pênis, falando sempre de si a partir da referência masculina, mas – um avanço – figura enigmática que demonstra que existe um limite no saber psicanalítico. Em Nietzsche, claramente, a mulher é um conceito criado, construído, e esse pensamento é pertinente para uma teoria feminista. O importante insight de Beauvoir – "Não se nasce mulher, torna-se mulher" – abre-se também para uma teoria feminista; mas a reflexão desta filósofa, quando esmiuçada e desconstruída, mostra temores de avançar no sentido da liberdade, um acrítico querer assimilar-se ao homem, além de propostas implícitas de vanguardismo que, ao colocar mulheres intelectuais na linha de frente, aliena todas as outras. Já Foucault adota um pensamento múltiplo, filia-se metodologicamente à genealogia nietzschiana, dá ênfase à história e ao corpo e acusa a construção assimétrica, separando homem e mulher no que diz respeito à reflexão moral sobre o comportamento sexual.

O pensamento de Foucault, Deleuze, Guattari, Rolnik, Rancière, Haraway completa a própria reflexão da autora, colaborando na construção de uma teoria feminista em que a diferença sexual, de raça e de classe é afirmada, não em defesa de uma essência de mulher – alguém mais sensível, mais intuitiva, menos agressiva – mas para desconstruir essa suposta essência. Pois a busca de origens e essências constitui uma posição escorregadia, talvez mentirosa, discurso fundado na fala masculina, formador de identidades estereotipadas e, portanto, presas fáceis da opressão e do preconceito. Não há uma essência de mulher maciça, homogênea, mas mulheres singulares, múltiplas, capazes de exercer sua autonomia.

A teoria feminista é desenvolvida como terceiro tema. Sandra Azerêdo aponta para a singularidade das mulheres no mundo capitalista, falocêntrico e racista, assinala a necessidade de ousar teoricamente, afirmando a diferença, abrindo-se para a poesia, a literatura, a arte, usando a linguagem da construção/ desconstrução. A autora chama a atenção para a importância da contribuição das mulheres não brancas, muitas delas lésbicas, que foram capazes de criticar o racismo, a homofobia e o colonialismo nos escritos das mulheres intelectuais e brancas do Primeiro Mundo. Para tanto, essas mulheres usaram uma linguagem de resistência, inovadora, pouco canônica, polêmica, às vezes, à custa de serem isoladas nas suas universidades. Mas foi justamente esse tipo de produção – da qual são exemplos Anzaldúa e Irigaray – que permitiu desconstruir conceitos fundamentais à manutenção do preconceito. Quatro desses conceitos são tratados, no livro, com detalhes: gênero, identidade, diferença, experiência.

À medida que desenvolve seus argumentos, Sandra Azerêdo lança mão da poesia, da análise de romances e filmes e, especialmente, de informações de primeira mão, obtidas com sua pesquisa com mulheres vítimas de violência. Pouco a pouco fica claro que essas mulheres constroem suas subjetividades a partir da violência, fechando-se a re-significações do que vivem e a tudo que ameaça a hegemonia masculina. Para lidar com essas situações de total absorção do discurso dominante e enfrentar o preconceito contra a mulher e a violência que o acompanha, Sandra Azerêdo lança mão da noção de "amizade como modo de vida", proposta por Foucault, e realiza essa amizade em ato no grupo das faladeiras, constituído em uma delegacia de mulheres de Belo Horizonte. Cria, assim, uma metodologia de combate ao preconceito contra a mulher.

Resenhas (como a aqui apresentada) cobrem muito pouco da riqueza de uma obra. Assim, é bom insistir, Preconceito contra a "mulher" é leitura indispensável para todos aqueles que quiserem filiar-se ao movimento de combate a preconceitos e, sobretudo, para todas as que quiserem, parafraseando Mia Couto, matar a escrava que vive dentro de nós.

 

 

Recebida para publicação em agosto de 2007, aceita em setembro de 2007.

 

 

* AZERÊDO, Sandra. Preconceito contra a "mulher": Diferença, poemas e corpos. São Paulo,Cortez, 2007, 120p.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License