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Cadernos Pagu

Print version ISSN 0104-8333

Cad. Pagu  no.33 Campinas July/Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332009000200013 

O sexo sem lei, o poder sem rei: sexualidade, gênero e identidade no cotidiano travesti

 

Sex without law, power without a king: sexuality, gender and identity in the travestite's daily life

 

 

Luciene JimenezI; Rubens C. F. AdornoII

IPsicóloga, doutora em Saúde Pública Universidade de São Paulo, pesquisadora colaboradora do LIESP - Laboratório Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas Sociais em Saúde Pública. lujimenez@usp.br
IIProfessor Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, membro permanente do LIESP - Laboratório Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas Sociais em Saúde Pública. radorno@usp.br

 

 


RESUMO

Neste trabalho propomos questionar como são construídos e validados os discursos acerca de sexualidade, gênero e identidade sexual, a partir da história de vida de três irmãos homossexuais nascidos no interior do nordeste brasileiro. Ainda jovens, migraram para a cidade de Diadema - São Paulo, onde se tornaram, no decorrer de alguns anos, travestis e profissionais do sexo. A percepção da homossexualidade foi relatada como parte da infância, e sentida como uma força natural. Já, as transformações realizadas sobre o corpo decorrentes da travestilidade, a decisão pela prostituição, a orientação sexual (por homem ou por mulher), e a construção de uma identidade sexual (gay ou travesti), apareceram como instâncias dissociadas entre si e relacionadas à busca da valorização pessoal e social diante do estigma atribuído ao gay afeminado, pobre e migrante. A religiosidade afro-brasileira e a gramática yorubá assumiram relevância para a constituição desta possibilidade identitária.

Palavras-chave: Travestismo/Travestilidade, Gênero, Sexualidade, Identidade Sexual.


ABSTRACT

In this work we propose to question how the speeches on sexuality, gender and sexual identity are built and validated, emerging from the life story of three homosexual brothers who were born in the inland areas of the Brazilian northeast. When they were still young, they migrated to Diadema, in São Paulo, where in the course of time, they became transvestites and sex professionals. The perception of homosexuality was reported as part of childhood and sensed as a natural force. Now, the modifications made in the body due to "travestilidade", the decision on prostitution, the sex orientation (to men or to women) and the building of a sexual identity (gay or transvestite), came to view as fields dissociated from each other and related to the search of individual and social valorization before the stigma attached to the effeminate, poor and migrant gay. The Afro-Brazilian religiosity and the Yoruba grammar assumed relevance to the constitution of this possibility of identity.

Key Words: Transvestism/Travestilidade, Gender, Sexuality, Sexual Identity.


 

 

A Rua Professora Vitalina Caiafa Esquível, localizada no centro comercial e histórico da cidade de Diadema/SP, é conhecida como Rua da Câmara, pelo fato de ali se localizar a Câmara dos Vereadores. O formato oval do quarteirão onde se insere esta passagem e as suas inúmeras artérias de conexão com vias, avenidas e estrada (Rodovia dos Imigrantes) permite um intenso fluxo de meios de transporte: carros, motos, táxis, ônibus e caminhões.

Devido à facilidade e rapidez do fluxo viário, esta rua possibilita ao transeunte passar repetidas vezes por ela, caso assim o deseje, podendo também deslocar-se rapidamente para cidades vizinhas relativamente distantes, como a cidade de Santos, além de ser um espaço peculiar que une a deserção noturna típica dos bairros centrais das cidades grandes, com o trânsito intenso. Nesta rua tem se concentrado a prostituição de travestis1.

Dois irmãos travestis, Solange, 38 anos, e Maíra, 32 anos, mostraram-se relevantes na organização do sexo comercial na cidade, participando ativamente do espaço da rua, cobrando taxas pelo ponto2 e abrigando jovens travestis em suas casas.

Maíra costumava caminhar pela rua, geralmente com o torso nu e os seios à mostra, se comunicando com os outros travestis por meio de gritos e gírias3, incompreensíveis para mim, demonstrando assim o seu domínio e poder sobre esse espaço e sua pouca disponibilidade para qualquer tipo de aproximação com os técnicos, ou pelo menos comigo.

Já Solange mostrava-se receptiva e não poupava esforços para agregar os outros travestis na promoção das ações de saúde preventiva ou curativa, explicando ou traduzindo inúmeras expressões e palavras do mundo travesti, promovendo uma integração entre os técnicos e os travestis.

Em uma noite na Rua da Câmara, no decorrer do desenvolvimento dos trabalhos técnicos - distribuição de preservativos, folders, orientações sobre DST/HIV e uso abusivo de drogas, etc. -, convidei Solange para dar uma entrevista sobre a sua vida, para fins de estudo.

Solange foi receptiva e rapidamente escolheu o local (sua casa), a data (três dias depois) e a hora (durante o tempo em que estaria preparando o almoço, por volta das 14:00 horas, "porque travesti não acorda cedo"), e garantiu que faria o possível para que Maíra estivesse presente. Eu disse que seria interessante a presença dela, porém, não imprescindível, já que, minha expectativa era de que Maíra se conduzisse na situação da entrevista do mesmo modo como agia em relação às ações técnicas: não participasse com interesse, ou mesmo, assumisse uma postura de confronto e de desafio.

Durante 2005 e parte de 2006, as duas irmãs moravam em um tipo de cortiço com várias casinhas espalhadas no mesmo quintal. A maioria dos travestis que faziam ponto na Rua da Câmara residia na casa de Maíra, e um número reduzido - de dois a quatro - com Solange. Entre dez a vinte e cinco travestis, vários adolescentes, conviviam cotidianamente, relatando histórias de vida em que a entrada na prostituição era apenas parte de um universo permeado pelo sentimento de exclusão dos espaços socialmente reconhecidos e valorizados.

Os travestis recebidos na casa deviam pagar um valor diário pelas despesas de moradia, alimentação, luz, água e eletricidade. Em 2006, esse valor estava estipulado entre R$ 10,00 e R$ 20,00 por dia, declarado como uma ajuda, sem muita objetividade, nem rigidez quanto às formas de cobrança e pagamento. O dinheiro obtido por meio da prostituição muitas vezes era insuficiente para atender os gastos pessoais, que incluíam os custos com roupa, sapatos, maquiagem, peruca, aplicações de silicone e todos os apetrechos necessários para a montagem4; às vezes, os gastos incluíam também a dependência do álcool ou outras drogas. Os conflitos devido ao endividamento e ao não pagamento das diárias eram freqüentes.

Quando cheguei, Solange já estava me aguardando e foi acordar Maíra na casinha ao lado. A situação da entrevista era algo raro, além de estar sozinha, eu estava no lugar de quem não sabe, de quem está para aprender e perguntar, e não para responder, orientar, encaminhar e distribuir insumos.

O dilema ético colocado na situação em que o técnico é também pesquisador de suas próprias ações remete à pergunta sobre qual é o lugar atribuído ao fazer técnico, e o que é esperado do saber acadêmico.

Segundo Guerriero (2006:102) "o que diferencia assistência e pesquisa é a intenção do profissional". Na pesquisa, a intenção é produzir conhecimentos que promovam a comunidade humana e podem ou não trazer benefícios diretos aos envolvidos; na assistência, a intenção é beneficiar diretamente aqueles indivíduos, sem o objetivo de produzir conhecimento, ainda que isso possa acontecer.

A princípio, pesquisa e assistência não são ações contraditórias ou excludentes. No entanto, a cisão histórica que separou as diversas expressões de saber (científico, popular, etc.) e delegou distintos lugares a quem pensa e a quem realiza, colocando aquele que faz no lugar de quem não deve pensar, tem o efeito de promover um bloqueio na percepção da complexidade das situações e um achatamento da realidade.

Até o dia desta entrevista, meu olhar como técnica em relação aos comportamentos de Maíra era de cautela e distanciamento. Ao vê-la chegar rapidamente para a entrevista, com expressão de sono e de cara limpa5 (conforme informação da irmã), percebi que existia certo frisson no ar. A realização de uma entrevista com gravação para fins de estudo conferia à situação uma importância inusitada, deslocando os lugares de saber e desestabilizando as tradicionais relações de poder.

Iniciamos os procedimentos: esclarecimentos, termos de consentimento e gravação com um roteiro aberto e apenas duas perguntas:

- Como foi que se perceberam homossexuais?

- Como foi que descobriram que eram travestis, ou, como se tornaram travestis?

Solange gostou do tema e passou a contar a sua história de forma animada. Enquanto falava, preparava o almoço e, entusiasmada com as lembranças, instigava Maíra a falar, perguntando se ela concordava com o que estava sendo dito, ou como havia percebido determinada situação. Foram recorrentes e saudosas as lembranças envolvendo a irmã mais velha, também travesti, falecida há seis anos, aos 44 anos, em decorrência de complicações devido à Aids. Adriana, 22 anos, companheira de Maíra e gestante no 4º mês, esteve presente em alguns momentos, de modo geral calada, mas atenta aos relatos sobre a vida de Maíra.

Eu havia pautado como foco preliminar a história de vida de Solange, e não estava preparada para o envolvimento com que Maíra relatou sua história durante aproximadamente duas horas, nem para o protagonismo que sua vida assumiria para este trabalho.

O deslocamento do eixo do saber promovido pelo fato de a profissional técnica ter transitado do lugar de quem sabe, de quem orienta, responde e encaminha, para assumir o lugar de quem não sabe, de quem pergunta e quer entender, talvez tenha possibilitado à Maíra ocupar o seu lugar de saber. Saber este legitimado pela sua história e pelo cotidiano da vida travesti, de outro modo inacessível a mim, seja como técnica ou como pesquisadora.

 

De Tuntum à Diadema

No interior do Maranhão, a cidade de Tuntum abriga quase 37 mil habitantes distribuídos em 3.871 km2, pouco mais de oito habitantes por km2. Há quase 15 anos, a pequena cidade foi impactada pelo romance entre Pedro, um adolescente de 14 anos, e um dos professores da escola local. Ao explicitar seus desejos sexuais por pessoas do mesmo sexo, o jovem promoveu a indignação da comunidade e provocou a ira paterna. Espancado e expulso de casa pelo pai, iniciou seu caminho em direção à cidade grande, onde já moravam dois irmãos mais velhos: João e Joel.

[Pedro/Maíra] - Eu, com 14 anos, meu pai não me aceitou mais em casa por eu ser homossexual.

• E como ele soube que você era homossexual?

[Pedro/Maíra] - Eu aparentava ser bem, bem feminina, e aquela coisa e..., e na escola, o comentário da escola também.

• Mas você se vestia como menina?

[Pedro/Maíra] - Desde os 8, 9 anos, eu já sabia que me interessava por homem, só nunca tinha, só nunca tinha acontecido nada, mas eu sabia que gostava. Eu gostava das roupas das minhas irmãs, usava sapato da minha mãe, brincava com bonecas, nunca quis carrinho, nunca quis bola.

Ao relembrar da infância, Maíra e Solange fazem coincidir a direção do desejo sexual (por homens) com o prazer decorrente do desempenho dos papéis de gênero feminino. Pedro/Maíra relaciona o interesse sexual por pessoas do mesmo sexo ao prazer decorrente do desempenho dos papéis de gênero feminino e também da aversão, desde a infância, aos símbolos associados ao masculino. Quando Pedro/Maíra diz: "Nunca quis carrinho, nunca quis bola" fala como alguém que conhece a norma dos papéis de masculinidade e acredita que essa aversão pode ser uma comprovação da direção do seu desejo sexual.

Esses discursos naturalizam o sexo ao superpor a direção do desejo e os papéis de gênero. Os comportamentos sociais femininos são percebidos como reveladores da direção do desejo sexual - por homens - e, este desejo, por sua vez, seria determinante para os comportamentos femininos, criando uma circularidade entre causa e efeito e revelando um esforço para manter o paradigma naturalista que estabelece uma continuidade causal lógica entre gênero e desejo sexual, onde "um eu verdadeiro é simultânea e sucessivamente revelado no sexo, no gênero e no desejo" (Butler, 2004:45).

No entanto, essa superposição discursiva, ainda que atenda parcialmente a regra da heteronormatividade, foi considerada pela família como um desvio em relação às normas.

[João/Solange] Ele foi expulso de casa porque não teve coragem de disfarçar, se assumiu mesmo, e se assumiu e não tava nem aí, e quando alguém perguntava, ele falava que gostava de homem mesmo! Eu também percebi que era gay na mesma faixa de idade [8-9 anos], porque começa muita cobrança dentro de casa, porque você é totalmente diferente, você quer brincar com mulher.

[Pedro/Maíra] Você quer andar muito com mulher.

[João/Solange] Com mulher. Depois que você toma entendimento, entre sete, oito anos sua relação de amizade já é mais pro lado feminino. Então, a minha mãe como já tinha passado a experiência com o meu irmão [refere-se ao irmão mais velho, Joel/Zaza], então ela já percebeu na hora. Ela começou com um tipo de proteção, e de cobrança também. Cobrava o jeito de andar, o jeito de sentar, porque dependendo de mim, eu sentava de pernas cruzadas com oito anos, eu falava gesticulando com a mão! Então ela cobrava muito, chamava no cantinho e dizia: Olha filho, você não precisa sacudir a mão pra falar! Não precisa sentar com a perna cruzada!

As tentativas maternas de disciplinar, solicitando a contenção das expressões corporais consideradas femininas, preconizam o jeito normal de ser, uma norma, e informam que essa norma não está sendo contemplada e como se deve agir para estar à altura dela. "Talvez la acción de la norma se encuentra no solo en el ideal que postula, sino también en el sentido de aberración y anormalidad que transmite" (Butler, 2004:106). Ou seja, nas palavras de João/Solange: "Eu percebi que era gay porque começa muita cobrança dentro de casa".

A disciplinarização dos corpos, o exercício ortopédico que busca domesticar o corpo a partir das normas foi acionado, e o prazer decorrente dos desejos sexuais em consonância com o exercício dos papéis de gênero passou a ser fortemente ameaçado frente à noção de desvio.

Para o reconhecimento de uma identidade homossexual, as entrevistadas relatam percorrer um movimento sentido como natural, que as encaminha para tudo aquilo que é reconhecido sensorial e/ou socialmente como feminino e, ao mesmo tempo, são contidos por meio das restrições impostas pela norma que atestam justamente o contrário: aquele modo de agir é a comprovação do rompimento com a normalidade/ naturalidade.

 

"Firma não dá camisa pra viado, não!"

Apesar dos esforços maternos para normatizar os filhos, depois de adultos, os três irmãos viveram como rapazes gays, nas palavras de Solange: "A gente era gay, mas a gente era bem feminino mesmo, nos jeitos de andar e de falar".

Maíra e Solange relembram esses tempos como momentos de extrema privação material. Os três irmãos trabalhavam com empenho, porém, os ganhos eram insuficientes para a manutenção de todos e da casa, além disso, eram freqüentes as humilhações por parte dos companheiros de trabalho devido à maneira afeminada de se comportarem.

[João/Solange] Até então [até se decidir pela prostituição], eu fazia assim, né: eu, eu trabalhava em fábrica, buscando, eu queria sempre, buscando um curso no SENAI e tal, buscando mais trabalhar como profissional mesmo, sem, sem... é, sem trabalhar com sexo. Eu nunca tive realização, eu nunca achava um emprego bom, um emprego digno, né? Eu tinha 2º grau, eu fiz curso de desenho, sabe? Computação... Sempre ralando, ralando pra ter alguma coisa e nunca conseguia, não dava!

[Pedro/Maíra] ...Aí eu falei pra eles [para os dois irmãos]: firma não dá camisa pra viado, não! A gente trabalhava os três, e comia carcaça de frango, quando tinha!

O valor monetário real auferido no mercado de trabalho formal mostrou-se insuficiente para garantir uma sobrevivência sentida como minimamente digna, além de não compensar o rechaço social e a discriminação a que ficavam expostos.

[Pedro/Maíra] O gay escuta muito, apanha muito, quando arrumava emprego em firma era só aguentando o povo tirar com você. Sabe, jamais alguém vai pôr a mão num travesti... e a coragem? Eles acham que o travesti já não tem mais nada a perder, então acho que talvez até por medo, mas o travesti é respeitado.

Para Pedro/Maíra e João/Solange, a travestilidade6 foi uma resposta possível para sair do lugar delegado ao homossexual afeminado e pobre naquele contexto em que viviam.

Pedro/Maíra, apesar de ser o caçula e ainda menor de idade, era o único que tinha experiência na prostituição, já que, por meio dela, aos 14 anos, conseguiu atravessar o longo percurso de quase três mil quilômetros que separam a pequena Tuntum, no Maranhão, de Diadema, na grande São Paulo. Foi ele também quem primeiro buscou a mudança do padrão econômico por meio da prática do sexo comercial, para descontentamento dos irmãos que discordavam dessa modalidade de ganhar dinheiro e ainda tinham medo de que alguém pudesse fazer alguma maldade com ele.

[Pedro/Maíra] Eu já era homossexual, já estava na prostituição, aí comecei a tomar hormônio, sendo travesti ganhava mais e tinha uma vida bem melhor.

A presença da ingesta hormonal marca, para a entrevistada, a passagem para a travestilidade. A primeira colocação de silicone, que aconteceu às escondidas, foi seguida de sintomas de depressão: inapetência, tristeza e medo de sair de casa. Mesmo diante destes sinais de mal-estar, e a contragosto dos irmãos, Pedro deu seqüência ao processo de montagem e, a cada dia, Maíra se apresentava com maior ênfase: peruca, maquiagem, nome feminino e... dinheiro. João/Solange relembra como foi este momento na vida do irmão:

[João/Solange] Aí tá, então ela decidiu, todo mundo [os dois irmãos] foi contra, ela colocou silicone escondida, aí ela começou a usar peruca, começou a deixar o cabelo crescer, mesmo trabalhando em firma, quando chegava nos finais de semana ela assumia, tá? E, e... começou o retorno dela, né? Ela começou a se produzir e já no início ela começou a trazer dinheiro! Pronto, eu fui logo junto no embalo, mesmo como rapazinho comecei a fazer programa também, aí já era! No dia seguinte já fui de batom e quando voltamos pagamos todas as contas. Aí, meu outro irmão disse: Eu também vou! Chega de ficar trabalhando em firma! (....) aí eu resolvi por silicone, foi em 1997 isso, aí viramos travesti de uma vez, as três!

Na época, Maíra tinha 17 anos, Solange 24 anos, e Zazá, a última a ceder ao processo de travestir-se e ao exercício da prostituição, 34 anos.

Para os irmãos, a travestilidade adveio da constatação de serem portadores de um conjunto de traços socialmente reconhecidos e rechaçados: gay afeminado, nordestino (migrante) e pobre, que, somados, embora não apareçam explicitamente relacionadas entre si, se conjugaram para compor uma possibilidade de uma experiência identitária. Pelúcio (2006:525) refere que a pergunta "qual é o gênero das travestis?" é capciosa, porque a idéia de gênero não pode ser pensada independentemente das de sexo, classe social, etnia.

Os traços, características ou os adjetivos atribuídos às pessoas não servem apenas para a construção de uma suposta identidade. Para Goffman (1978:12), a discrepância entre a identidade social virtual (aquilo que se espera) e a identidade social real (como a pessoa age) dá origem ao estigma que, apesar de ser uma característica qualquer, coloca a pessoa que a possui em descrédito. Se um indivíduo que poderia ser facilmente recebido no meio social apresenta alguma característica considerada negativa - por exemplo, os trejeitos afeminados, que não correspondem às exigências da identidade social para aquela determinada pessoa -, essa marca se impõe, impedindo a percepção de outros atributos, inviabilizando o convívio e restringindo as possibilidades de movimento nas redes sociais.

 

Um corpo investido de poder

Silva e Florentino (2006:107) reconhecem que

o travesti hoje no Brasil tem uma inscrição popular e social como ator reconhecido e com o qual os circunstantes mantêm relações cotidianas, absorvendo inclusive, seus valores e linguagens.

Para Solange e Maíra, a travestilidade foi descrita com glamour, um verdadeiro processo de ascensão ao poder que possibilitou deixar para trás a malfadada e estigmatizada homossexualidade, com suas carcaças de frango e o medo de apanhar na rua.

[Solange] Eu nunca tinha me imaginado vestida de mulher, mas você vai na rua e vê as travestis e aqueles homens lindos em volta delas, entendeu? Em volta, em volta implorando um carinho, né? Já o gay não, o gay se subir num ônibus e encarar alguém, ele é gay, corre até o risco de apanhar, ser humilhado. A travesti é mais respeitada, tanto pelos homens como pela sociedade.

Para Denizart (1997:9):

Um jovem gay chegado do Nordeste é execrado por ser pobre, homossexual e do interior: três crimes intoleráveis. Como expandir este horizonte tão limitado? Fazendo carreira como travesti, porque ali ele garante ser desejado, obtendo um valor que "nenhuma mulher normal tem... Os homens, ao contrário do que meu pai disse, pagam para ficar comigo, homens lindos..." A complexidade da escolha de ser travesti ultrapassa, portanto, questões de ordem econômica.

Porém, o poder usufruído na rua, a partir do exercício da prostituição, não se mostrou extensivo às demais redes sociais.

[Solange] - Aí foi bom!! Eu recebi indenização do meu serviço, a Zazá também recebeu indenização, ela [Maíra] também recebeu indenização... [silêncio]. E compramos a casa, lá no Inamar, só que era viela, né, casa barata, favela, lá naquela favela atrás do sacolão, moramos um ano, né, mas muito, muito ruim. Lá você além da discriminação, eraaaaaaa muito longe para a gente tá pegando carona, pra num tá chegando de táxi, né, o pessoal, sabe como é pessoal de vila, né?

O "pessoal de vila" a que se refere a entrevistada são pessoas que vivem em favelas urbanizadas onde uma população extremamente pauperizada convive com atividades como o tráfico de drogas.

Neste mesmo bairro, onde as entrevistadas compraram a pequena casa logo após se demitirem dos seus respectivos empregos, e de onde tiveram que se mudar, existe uma situação bastante ímpar ocorrida no mesmo período, envolvendo um funcionário que trabalhava como inspetor de alunos de uma Escola Estadual local.

Este jovem nasceu e morou no bairro, assumiu-se desde cedo como homossexual, embora não chegasse a travestir-se, pois não usava hormônios, nem silicone, usava apetrechos bastante femininos: pulseiras e anéis, unhas compridas e pintadas de vermelho, sobrancelhas delineadas, calças justas, tamancos, etc. Seu modo de vestir, andar e falar o tornava uma pessoa de aparência extravagante e extremamente afeminada, porém, além de ter nascido naquela comunidade, como inspetor de alunos ele tinha atitudes que extrapolavam o desempenho das suas funções e que eram valoradas positivamente pela comunidade, por exemplo, buscar adolescentes em bares, ou em mocós7 para levá-los de volta à sala de aula; fazer visitas às famílias depois do horário de trabalho para alertar os pais sobre a baixa freqüência dos filhos à escola, etc.

Assim, este homossexual, apesar de bastante afeminado, conquistou o carinho e o respeito da comunidade, tornando-se bem-vindo nas diversas situações sociais e festas familiares do bairro. Em uma madrugada de 1998 seu corpo foi encontrado na principal Avenida, fato que causou profunda indignação e comoção em toda a comunidade e promoveu uma organização para reivindicar junto à Secretaria de Educação do Estado que a escola onde trabalhava recebesse o seu nome. Após um longo processo, muitas listas de abaixo-assinados, em 2002 a homenagem finalmente se concretizou e a escola recebeu oficialmente o nome do seu ex-funcionário.

A comunidade onde os irmãos travestis viviam no final da década de 1990 podia aceitar e, até mesmo, entronar um homossexual afeminado, no entanto, a mesma comunidade, por diversas razões, não podia conviver e aceitar o trânsito cotidiano em horários tardios.

[Solange] - O pessoal implicava porque a gente chegava de madrugada de táxi. Começou a pensar que a gente tinha muito dinheiro porque chegava de táxi. Aí a gente se mudou pro Centro.

A mudança de território reflete a transição sexual e ocupacional, a passagem da vida de gay trabalhador para a vida de travesti e profissional do sexo. A partir deste momento, a travestilidade, até então reservada mais para os tempos e os espaços da prostituição, passou a ser incorporada cotidianamente.

[Solange] A sociedade aceitando ou não, minha família aceitando ou não, eu vou pôr silicone, batom, peruca, eu vou para a rua, para o ponto de ônibus, vou entrar num mercado, porque eu sou isso. Eu me sinto muito bem como travesti, muito bem mesmo, minha vida mudou muito e pra melhor!

[Maíra] Bem melhor!

[Solange] Um travesti não é uma mulher, eu não me sinto uma mulher, eu me sinto um travesti, um homem, eu me sinto, eu me sinto... um homem afeminado, né? O quê que é um homem afeminado? Um homem que busquei as formas da mulher, você entende? Mas eu continuo homem. Eu jamais, já-mais [fala enfaticamente] trocaria o meu sexo, entendeu? Eu não quero fazer uma buceta, não quero tirar meu pênis, mas também não quero ser homem, então eu sou um travesti!

"Buscar as formas da mulher", ou seja, construir uma imagem corporal que se assemelhe ao ideal postulado para as mulheres, não tem nenhuma relação, para os entrevistados, com o desejo de ter um corpo genital feminino. Esta operação promove um rompimento entre a representação social de gênero e as representações atribuídas aos órgãos genitais: pênis = masculino; vagina = feminino.

Kulick (2008:220) caracteriza as travestis como essencialistas construtivas. Essencialistas porque consideram que o que é já nasce feito: Homem é homem, mulher é mulher, ninguém pode mudar o sexo com o qual nasceu. A dimensão construtivista reside no fato de que, sem mudar concretamente os genitais, elas podem explorar as diferentes possibilidades de gênero. "Ao invés de elogio, a expressão 'se sentindo mulher' é uma das críticas mais mordazes que as travestis podem fazer umas às outras". Prieur (1996) constatou que a maioria das travestis da cidade do México se recusa a abandonar alguns traços de masculinidade, como fazer-se respeitar fisicamente por meio da força e o desempenho sexual ativo.

Para os entrevistados, a mudança na imagem corporal de gênero não precisa e não deve ser acompanhada por qualquer mudança no sexo genital, ou mesmo, no desejo sexual.

  • Alguma vez vocês pensaram em operar?8

    [Maíra] Nunca! [enfaticamente]

    [Solange] Bom, eu gozo, sabe, pelo pênis, então não é só pelo fato de trabalhar, mas pelo meu prazer. E outra, eu já fui aceita como travesti, então, se eu fizer buceta não vai mudar nada, se eu operar não vai mudar nada, eu continuo travesti, minha família já aceitou, meu sobrinho já aceitou. Se eu operar, eu vou perder o lugar que eu sinto prazer!

Diferente das transexuais que, de modo geral, desejam ter um corpo que se aproxime o máximo possível ao corpo biológico e idealizado de uma mulher, as travestis entrevistadas contradizem a suposta essência feminina enfatizada no início da entrevista, revelando a convivência entre o desejo sexual por homens e a emergência de uma virilidade - "Se eu operar, eu vou perder o lugar que eu sinto prazer!" - somada à sustentação da masculinidade por meio do uso do pronome masculino - "o travesti".

  • E com relação ao nome, vocês preferem ser tratadas pelo nome de homem ou o de mulher?

    [Solange] Minha mãe só me chama de João, eu me sinto tão bem quando ela liga aqui e diz: Quero falar com o João. Aí alguém (um dos travestis moradores da casa) atende e diz: Ah! A Solange! Ela fala: NÃO! Com o João [risos].

    [Maíra] Eu também gosto. Esses dias, fiquei com uma vergonha! Uma sobrinha minha, ela deve estar com... vai fazer onze anos, ela falou: Mãe, porque eu tenho que chamar ele de tio, se o "coiso" (seios) dele é maior que o seu [risos].

Ambas preferem que o tratamento dado pela família seja feito por meio dos nomes verdadeiros. Já nos ambientes institucionais - escola, posto de saúde, etc. - dizem ser indiferente, referem que, caso sejam tratadas como homens, aproveitam a oportunidade para paquerar alguém. Para as entrevistadas, os nomes femininos são reservados para os espaços da travestilidade e não representam necessariamente a passagem para o mundo do feminino.

Pedro/Maíra, que enfrentou o pai e atravessou três mil quilômetros aos 14 anos pelo fato de assumir seus desejos por homens, defrontou-se, aos 30 anos, com o envolvimento afetivo e sexual com uma mulher.

[Maíra] Eu nunca imaginei pra mim me envolver com uma mulher! [risos] Foi por causa de marido ruim. Eu vivi com um homem 10 anos, e ele foi muito ruim pra mim, ele me batia, me trancava dentro de casa, não me deixava sair. Então eu entrei em um tipo de depressão que eu não tinha mais coragem de ir na padaria. Eu fiquei trancada dentro de casa, ele me espancava, chegou a me dar tiro, facada, aí eu peguei trauma de homem, trauma, e, tipo um ódio. Um homem não põe a mão em mim nunca mais! Tomei ódio de homem. Aí conheci uma menina que... sei lá, me completou, me deu um carinho que acho que era o que eu tava precisando. Terminei ficando com ela, estamos juntas há quatro anos, estamos levando a vida, agora vamos ter o segundo filho.

[Maíra] [dirigindo-se à companheira] Se nóis se separar, cê vai arrumar outro travesti? Hein?

[Adriana] Vou não, vou não, cê sabe que eu te amo muito.

Maíra jamais havia se imaginado apaixonada por uma mulher. Solange nunca tinha se imaginado vestida de mulher. Os desejos podem ser punidos, renegados, transformados, mas a travestilidade persiste no seu lugar de singularidade.

A rígida e dual divisão dos seres humanos em dois gêneros (feminino e masculino), superpostos a dois genitais (pênis e vagina), perde o seu colorido de fato natural e verdade universal. A direção do desejo sexual (por homens ou mulheres) independe do corpo genital, mas independe ainda mais de qualquer representação social de gênero ou construção de imagem corporal.

Para Bento (2006), os processos de subjetivação, ou seja, a constituição e transformação permanente por meio de procedimentos e técnicas disponíveis nos contextos sociais que levam o indivíduo a ampliar a percepção de si, podem ser utilizados como recurso para melhor elaborar as relações e contradições entre estas instâncias. O momento atual dos estudos de gênero é marcado pela

problematização da vinculação entre gênero, sexualidade e subjetividade perpassados por uma leitura do corpo como significante em permanente processo de construção e com significados múltiplos (Bento, 2006:80).

A constituição de uma subjetividade travesti no Brasil pode remontar à presença histórica de uma situação que se assemelha à travestilidade e a associa aos cultos religiosos africanos. Mott (1988:82) reconhece a possibilidade de o travestismo existente no Brasil ter sua raiz em um passado africano distante e cita o livro História Geral das Guerras Angolanas, do Capitão da Armada Lusa e comerciante de escravos Antonio de Oliveira, onde se pode ler:

Há também entre o gentio de Angola muita sodomia, tendo uns com outros suas imundícies e sujidades, vestindo como mulheres. E lhes chamam pelo nome da terra quimbandas, os quais nos distrito ou terras onde os há, têm comunicação uns com outros. E alguns deles são finos feiticeiros, para terem tudo mau. E todo o mais gentio os respeita e os não ofendem em cousa alguma (...). Andam sempre de barba raspada, que parecem capões, vestindo como mulheres.

Diversos pesquisadores que etnografaram travestis em diferentes cidades brasileiras, como Silva (1993), no bairro da Lapa, Rio de Janeiro; Benedetti (2005), na cidade de Porto Alegre; Pelúcio (2007) em São Paulo; Kulick (2008) em Salvador-Bahia registraram o intrigante fato de os travestis falarem uma espécie de dialeto oriundo do yorubá-nagô, conhecido como bate-bate ou pajubá.

A antropóloga nigeriana Oyeronke Oyewumi (Fausto-Sterling, 2001-2) ressalta que os pronomes yorubás não indicam gênero, mas sim, quem é mais velho, ou mais jovem. Para Oyewumi, na cultura yorubá a idade relativa é um organizador mais importante do que gênero, e a imposição de um sistema de gênero é fruto do colonialismo seguido do imperialismo acadêmico, e corre o risco de borrar diferenças étnicas e raciais importantes.

A gramática yorubá parece permitir a coexistência de corpos híbridos e de sexos instáveis. A esta gramática bastante flexível desde o ponto de vista da dualidade sexo/gênero se aliou à religiosidade afro-brasileira, em que alguns deuses e deusas podem possuir corpos e sexualidades muito diferentes daquilo que foi destinado aos santos e às santas cristãs.

Logun-Edé e Oxumaré são "transexuais" ou "hermafroditas sociais", incorporando ao longo do ano, os dois sexos. O próprio Oxalá também participa desta dualidade, pois segundo alguns mitos yorubás, reúne em si o lado masculino e feminino - aliás, como muitos outros deuses antigos. Iansã é mulher-macho, veste calça e tem cavanhaque, além de ser forte e poderosa "como um homem" (Mott, 2009: s/página).

Para Beth Maison, um dos travestis mais antigos de Diadema, a relação entre o yorubá e a travestilidade remonta ao fato de que, durante as décadas de 1960/70, os espaços de sociabilidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) eram restritos, praticamente não existiam boates, bares, cinemas voltados para este público, além disso, a perseguição policial e a repressão política eram intensas. Os terreiros de Candomblé constavam entre os raros espaços possíveis de pertencimento e acolhimento, fato que teria levado muitos travestis a fazerem o Santo9, e isto teria incorporado o yorubá, ou uma corruptela deste, à travestilidade.

O recurso lingüístico-gramatical propiciado pelo idioma yorubá, somado à cultura religiosa em que gênero não aparece como um organizador central, configuraram um contexto a partir do qual a travestilidade pôde ter sua existência reconhecida e legitimada, fato que seria improvável nas línguas latinas e nas religiões cristãs.

Atualmente, os travestis mais jovens, ou aqueles que viveram em países da Europa, estão perdendo, ou até mesmo coibindo, a prática do yorubá (Pelúcio, 2007), bem como a religiosidade afro-brasileira já não se mostra tão premente no mundo travesti. Ao mesmo tempo, muitas expressões yorubás, antes restritas à cultura afro-brasileira, estão se popularizando, sendo utilizadas inclusive em programas de TV.

Apesar disso, o yorubá e as práticas religiosas afro-brasileiras parecem ter constituído o berço onde a gramática se uniu à experiência mística, possibilitando a existência discursiva do travesti como alguém que, além de desfrutar do status de naturalidade, tem um lugar garantido no referencial de identificação simbólica com alguns deuses e deusas.

 

Considerações

Neste trabalho procurei mostrar o percurso de vida de três irmãos (um deles falecido) que se tornaram travestis. Os dois irmãos entrevistados haviam se identificado, desde a infância (8-9 anos), como homossexuais, porém, o mais velho, João/Solange, nunca tinha se imaginado vestido/a de mulher, e o fato de tornar-se travesti aos 24 anos foi algo ao qual resistiu e que lhe causou grande surpresa, apesar de, ao final, ter sido bom. Quanto a Pedro/Maíra, o caçula, que desde a infância gostava de usar e de portar objetos femininos, a travestilidade aos 17 anos não lhe causou estranheza, a surpresa veio aos 30 anos, quando se viu envolvido/a amorosamente com uma mulher.

As articulações entre os sistemas de gênero, as sexualidades, as diferentes compreensões de corpo e as construções de identidade coletiva são temas complexos, com vasta produção teórica e sem expressivas concordâncias. Não há consenso na comunidade científica sobre o lugar ocupado pelo corpo, pelos desejos e pela sexualidade; a existência ou não de uma base biológica concreta e o possível alcance dos seus determinantes.

Para os/as entrevistadas, as transformações realizadas sobre o corpo (utilização de hormônios ou silicone), a decisão pela prostituição, a opção sexual (por um homem, ou por uma mulher) voltada para um relacionamento amoroso, ou mesmo, a construção de uma identidade sexual (gay ou travesti). Em suma, todo o esforço para conquistar a autonomia sobre o corpo, os afetos e a sexualidade apareceram como instâncias mais relacionadas à valorização pessoal e social e como reação às situações de violência (inclusive doméstica), ao estigma atribuído ao gay afeminado, migrante e pobre, à afetividade e à religiosidade, do que ao ato sexual propriamente dito.

A religiosidade afro-brasileira, em particular o candomblé, e o idioma yorubá parecem ter sido de fundamental importância para a constituição da subjetividade do travesti brasileiro, o solo a partir do qual encontrou não apenas reconhecimento, como possibilidade de identificação com deidades. A perda ou o distanciamento deste eixo deve ser mais bem pesquisado e problematizado.

As propostas explicativas aplicadas aos termos gênero, sexualidade, identidade e corpo devem ser compreendidas e tratadas enquanto dimensões distintas e, principalmente, analisadas à luz de outras categorias, como religião, migração, classe social, raça/etnia, geração, cuja intersecção, menos visível, de modo algum é menos importante.

A travestilidade é a expressão da fluidez dos desejos e, por conseguinte, dos corpos e dos sexos, revelando a incongruência dos sistemas que buscam relacionar sexo/ sexualidade/gênero/identidade sexual. Mais importante do que compreender do que é feito o corpo ou a sexualidade, talvez seja observar como os saberes sobre estas instâncias vêm sendo construídos, aplicados e distribuídos. Como estão sendo construídos e por quem estão sendo validados os discursos pretensamente investidos de verdade sobre os sexos e as sexualidades?

Ajuda-me
a desapertar
os botões.
O meu corpo é
o único vestuário
que poderei talvez usar.
(Helph me whit the buttons, Siv Cedering)

 

Referências bibliográficas

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Recebido para publicação março de 2008, aceito em junho de 2009.

 

 

1 Os meus contatos com os travestis, a permanência na rua onde trabalham e, posteriormente, a entrada na casa onde viviam se deram a partir de 2004 devido aos trabalhos de prevenção organizados pelo CR/DST-Aids do município, os quais eu participava como coordenadora e técnica das ações de redução de danos no uso de álcool e outras drogas. A partir de 2005, este campo de trabalho técnico passou a constituir também um dos campos de pesquisa de doutoramento.
Neste trabalho optou-se pelo tratamento masculino: o travesti, em respeito à maneira como eles se referiram a si mesmos.
2 Ponto é uma expressão êmica para fazer referência a um determinado local aberto onde se oferta o trabalho sexual, geralmente ruas e esquinas.
3 As gírias faladas pelos travestis incluem expressões em português cujos significados não correspondem ao que representam - por exemplo, "mandar um doce", quer dizer fazer algo ruim - e expressões oriundas do yorubá-nagô que deram origem a um tipo de dialeto conhecido entre eles como pajubá, bate-bate ou bate, cuja relação com a travestilidade será discutida em tópico posterior.
4 "A montagem ou montação resulta do ato de vestir-se com roupas de mulher e implica em um processo de manipulação e construção de uma apresentação que seja suficientemente convincente, sob o ponto de vista das travestis, de sua qualidade feminina" (Benedetti, 2005:67).
5 Cara limpa é uma expressão popular para fazer referência à ausência do uso de álcool ou outras drogas.
6 O travestismo é considerado uma patologia no Código Internacional de Doenças como CID 10: F-65-1: Vestir roupas do sexo oposto, principalmente com o objetivo de obter excitação sexual e de criar a aparência de pessoa do sexo oposto. Neste artigo, assim como sugerido por Peres (2005) e Pelúcio (2007), o termo travestilidade será utilizado em substituição a travestismo para marcar a heterogeneidade de possibilidades identitárias das e dos travestis, como também para substituir o sufixo ismo, que remete a doenças e patologias.
7 Mocó é um termo êmico que faz referência aos locais - praças, bares, casas abandonadas, terrenos baldios, etc. - destinados ao uso de drogas, principalmente o crack. Geralmente são lugares de difícil acesso e restrito aos usuários.
8 A cirurgia de mudança de sexo foi aprovada no Brasil desde 1997 em caráter de estudo científico (Resolução no. 1482/97 do Conselho Federal de Medicina), entendendo-se que: "(...) uma pessoa transexual possui a genitália de determinado sexo (masculino ou feminino), porém sua psique é oposta a ele. (...). É importante enfatizar que a transexualidade ou transexualismo, diferentemente da orientação sexual, é uma patologia que necessita ser tratada como qualquer outra. Esse tratamento deverá ser terapêutico, chegando ao cirúrgico na maioria dos casos, quando existir essa possibilidade no contexto local" (Ministério da Saúde, 2002:47-8). No Código Internacional de Doenças, o transexualismo, assim como o travestismo é descrito como patologia: CID 10: F-64-0: "disforia de gênero" ou desconforto com relação ao sexo biológico, acompanhado da manifestação explícita, contínua e intensa do desejo de modificar o próprio sexo genital.
9 Fazer o Santo é uma expressão popular para fazer referência a alguém que cumpriu os ritos iniciáticos das religiões afro-descendentes brasileiras.

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