SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue36"Doesn't hurt to think you're not alone": style, cultural production, and feminism among the riot grrrls in São PauloWill my children die or the fruit from the bush dry up if I don't sing or use my amulet every night? Toba women and anglican missionaries in mid-western Chaco (Argentina) in the 1930's and 1940's author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Cadernos Pagu

Print version ISSN 0104-8333

Cad. Pagu  no.36 Campinas Jan./June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332011000100007 

DOSSIÊ: FEMINISMOS JOVENS

 

"Manifeste-se, faça um zine!": uma etnografia sobre "zines de papel" feministas produzidos por minas do rock (São Paulo, 1996-2007)*

 

"Show yourself up, make a zine!": an ethnography about feminist "paperzines" created by "minas do rock" (São Paulo, 1996-2007)

 

 

Michelle Alcântara Camargo

Mestre em Antropologia Social pela UNICAMP, Ingressou no movimento feminista a partir da cena riot grrrl, foi zineira, sócia-fundadora da ONG Feminista Espaço Lente Lilás (Maringa-PR, 2004) e participou do Coletivo Feminista da Unicamp, Atualmente é colaboradora da UIPA-Uniao Internacional de Proteção Animal, E-mail: michelleacamargo@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Neste artigo, resultado de pesquisa realizada sobre a cena das minas do rock entre 2007 e 2010, procuro apresentar uma etnografia sobre as publicações de papel feitas por mulheres envolvidas na cena, conhecidas como fanzines ou zines. Com a análise de tais publicações apresento uma reflexão sobre os modos de expressão de jovens mulheres e suas práticas feministas e como eles encontram uma linguagem particular nos zines. Ao mesmo tempo, espero contribuir para a produção de conhecimento acerca do modo como discursos e práticas feministas são reapropriados por jovens mulheres a partir dos contextos em que se inserem. O conjunto de zines analisados compreende o período de 1996 a 2007 e foram produzidos por coletivos e mulheres posicionadas de maneira bastante diversa na cena, dando conta também da diversidade que marca esse movimento político e cultural relacionado à juventude.

Palavras-chave: Gênero, Geração, Feminismo, Juventude, Fanzine.


ABSTRACT

In this article, resulting from research about "cena das minas do rock" between 2007 and 2010, my intention was to present an ethnography about the paper publications by women involved in the "cena", known as fanzines or zines. Analyzing such publications I present a reflection on young women's expression manners and feminist practices, and how they find a particular language at zines. Meantime, I hope to contribute to the production of knowledge concerned with the way speeches and feminist practices are re-appropriated by young women from the contexts where they were set. The bunch of analyzed zines comprehends 1996 to 2007 period and were produced by groups and women placed at quite diverse sites at the "cena", also giving accounts of the diversity that marks this political and cultural movement related to youth.

Key Words: Gender, Generation, Feminism, Youth, Fanzine.


 

 

Este artigo trata de um recorte do feminismo no Brasil num momento específico – aquele bastante recente em que emergem atrizes sociais demandando o reconhecimento de identificações e das demandas de jovens feministas. O recorte escolhido privilegia, no entanto, outras jovens, aquelas que se afirmam feministas a partir de uma cena cultural juvenil: as minas do rock.

A cena1 do rock de mina surge enquanto oposição ao sexismo presente no rock e no punk, influenciada pelo movimento riot grrrl norte-americano, a partir de práticas como a elaboração de fanzines e letras de música feministas e, ainda que se construa em comunicação com outros movimentos culturais e políticos como o punk e o feminista, carrega traços singulares.

Neste artigo, procuro colaborar para a produção de conhecimento sobre práticas feministas e jovens mulheres no Brasil contemporâneo. O faço por meio da análise de materiais impressos – os "fanzines" – produzidos e veiculados na cena das minas do rock na grande São Paulo entre os anos de 1996 e 2007. Embora os zines de papel permitam acesso também a transformações verificadas no interior da cena – que tem registrado nos últimos anos um aumento significativo de atividades no Nordeste, em sentido inverso ao que acontece no Sudeste do país, onde se verifica uma diminuição e maior espaçamento entre atividades2, tais aspectos extrapolam o escopo deste trabalho, menos dedicado à trajetória de uma cena cultural do que à compreensão de como esta cena produz articulações com o feminismo. Desse modo, procuro compreender aqui o feminismo construído a partir da cena das minas do rock, focalizando especialmente: o modo como se apresenta/dá-se a ver por meio dos fanzines e como se relaciona com outras práticas e discursos feministas contemporâneos.

 

Riot grrrls, fanzines e grrrlzines: uma aproximação

De acordo com a literatura existente sobre o tema, o surgimento do Riot Grrrl teria se dado na década de 90, nos Estados Unidos, em Washington e Olympia, num encontro onde as jovens resolvem iniciar uma girl riot (Schilt, 2003), constituindo-se em um movimento político e cultural radical na resistência contra feminilidades tradicionais, centrado no encorajamento de garotas e mulheres para subverter a dominação masculina do underground e criar sua própria "cena", música, arte e escrita (Dowes, 2007). Essa definição vai ao encontro do que as minas do rock entrevistadas consideram ser o riot grrrl: um movimento intimamente ligado a música, principalmente ao rock, como meio de encorajamento de outras garotas na recusa a feminilidades tradicionais:

O riot veio do punk e o punk é muito musical e muito fácil de executar e por isso que tá enraizado no riot e a música ela é muito... eu acho que a experiência que ela traz, ela cai como uma luva pro riot, porque é uma coisa que você sobe no palco e fala no microfone, é uma coisa direta e com participação das pessoas e é uma coisa que transpira, é uma possibilidade de qualquer pessoa pegar no instrumento e fazer. Fora que também tem a questão do empoderamento: como é uma coisa tipicamente masculina, quando as minas fazem isso, elas tocam guitarra, tal, isso traz uma sensação de liberdade para as meninas que normalmente são criadas para ter baixa auto-estima. Então, eu acho que tem a ver com liberdade e com a transgressão, a quebra de valores e tem a ver com a direção da mensagem, é muito rápida, assim. Tem a ver com diversão, porque música é bom, é pra dançar e eu acho que tem a ver com essa coisa da mensagem política num veículo emocional (Entrevista Emilia, 2008).

O feminismo proposto pela minas do rock combina música e militância feminista, atrelando-se principalmente ao rock como linguagem para discussão do feminismo e para o fortalecimento de jovens mulheres. Esse tipo de feminismo se torna acessível a jovens mulheres que se sentem excluídas das discussões feministas institucionais, oferecendo-lhes possibilidade de reflexão sobre seus próprios valores e preocupações. Produzido na interface com a construção de uma cena cultural e de seu estilo, esse feminismo pode ser encontrado também nos grrrlzines, os fanzines feitos por garotas e para garotas. Marcados pela ideia de elaboração e difusão de uma mensagem política por meio de compartilhamento de experiências pessoais, neles podemos encontrar: a criação de agência em situações de violência sexual, física e simbólica do cotidiano; a recusa a heteronormatividade, principalmente na cena dyke; a busca de um espaço onde possam falar de suas experiências e a rejeição a padrões estéticos dominantes.

Segundo Magalhães (1993), o termo fanzine, numa forma contraída das palavras inglesas fanatic e magazine, foi cunhado por Russ Chauvenet em 1941. Esse tipo de publicação impressa tem suas primeiras aparições na década de 1930, nos Estados Unidos, inicialmente como um tipo de publicação de histórias de ficção científica, para posteriormente ampliar seus temas em histórias de quadrinhos, terror, literatura policial, bem como música e militância política. Não há definições muito precisas sobre o que venha a ser um fanzine, que é, muitas vezes, confundido com revista "alternativa", tanto por sua forma de produção quanto pelos modos como é distribuído (pessoalmente ou por via postal) e por sua apresentação (Magalhães, 1993).

Fanzines são veículos amplamente livres de censura, em que não há preocupações com grandes tiragens ou lucratividade e seus editores são os únicos encarregados de todo o processo de produção, incluindo escrita, edição e distribuição. Isso torna sua confecção dependente apenas da disponibilidade, do orçamento e do interesse de cada editor (Magalhães, 1993). Todos esses elementos são cruciais para que o fanzine tenha se tornado um dos principais meios de expressão das ideias e da música dos punks. Mesmo com seu declínio no final da década de 1980, os punkzines foram responsáveis pela popularização dos fanzines, que passam a ser suporte para usos tão diversos quanto publicações informativas de fã–clubes ou de movimentos de "minorias" (Magalhães, 1993).

A escrita intimidadora dos punkzines, com suas palavras secas, seus erros de digitação e ortografia (Hebdige, 2004), constitui uma escrita estridente, encontrada também nos fanzines produzidos pelas minas do rock3 em São Paulo. Ao mesmo tempo, estes últimos também apresentam características semelhantes aos grrrlzines norte-americanos, referência para a cena de minas do rock no Brasil.

Os grrrlzines, fanzines de papel4 produzidos por riot grrrls, se constituem como uma categoria específica de punkzine. Surgiram na década de 1990 dentro do movimento punk feminista e se constituíram num tipo de produção escrita por/para e sobre mulheres jovens interessadas no underground, bem como num feminismo alternativo aliado a políticas punks. Segundo Harris (2003), os grrrlzines constituíram uma rede de comunicação entre jovens mulheres, visando a discussão sobre o significado da adolescência para as garotas na "modernidade tardia", bem como sobre o lugar das mulheres nas sociedades industrializadas, iniciando um tipo de debate na esfera pública da qual as adolescentes estiveram excluídas.

Segundo Chidgey (2007), os fanzines produzidos por riot grrrls se tornaram a primeira geração de mídia feminista produzida em seus próprios termos, pois guiadas completamente pelo do it yourself as garotas se permitiram escrever, desenhar, imprimir e distribuir seu próprio trabalho, o que fez dos fanzines um meio crucial de expressão e ativismo da "terceira onda" do feminismo. Segundo Phonix, "os zines [grrrlzines] criaram e documentaram uma cultura: raiva de garotas, resistência e amor" (Phonix,1994 apud Chidgey, 2007 – tradução livre).

No contexto brasileiro, os zines produzidos por/para e sobre garotas estiveram em sua maioria associados a integrantes da cena das minas do rock. Esta cena tem seu início em São Paulo, no ano de 1995, com o surgimento da banda Dominatrix. Para as integrantes mais antigas da cena, os zines têm o sentido de expressão de ideias, de articular e movimentar a cena e de documentar a produção cultural: "O fanzine movimenta uma cena, né? E você precisa movimentar, para que ela exista" (Emília – entrevista, 2008). Outra entrevistada remete ao sentido de livre expressão de ideias e situa os fanzines como uma ferramenta importante num momento em que ainda não havia internet: "É você mostrar suas ideias através do papel, por que sei lá.... na época não tinha internet" (Camila - entrevista, 2008).

Entre as seis garotas entrevistadas para esta pesquisa, quatro produziram fanzines, sendo que duas o fizeram ainda nos anos 1990 e outras duas, na primeira metade dos anos 2000. Entretanto, mesmo as entrevistadas que não chegaram a ser zineiras5 manifestam seu reconhecimento de que produzir zines é algo importante, dizendo que perderam essa oportunidade. O reconhecimento da importância dos zines faz com que eventos importantes e recentes na cena tenham sua programação divulgada no formato fanzine, que é usado não apenas na sua divulgação impressa, mas também na divulgação virtual e nos materiais distribuídos em oficinas do evento.

Por se tratar de um processo lento, que demanda trabalho intelectual e manual, para posteriormente ser impresso, fotocopiado e distribuído, a elaboração de um zine é limitada basicamente por dois fatores: tempo e custo financeiro.6 Durante a pesquisa, tais fatores foram citados como motivos para o abandono da elaboração de zines por parte de jovens garotas envolvidas com atividades de estudo ou com a entrada no mercado de trabalho, e parecem ter contribuído para que, com o passar do tempo, houvesse uma redução significativa na produção dos zines de papel, num processo inversamente proporcional ao crescimento de e-zines e fotologs. No entanto, se a internet oferece vantagens como a ausência de custos com impressões e fotocópias e uma maior divulgação, o fato de não termos nos dedicado à análise de e-zines7, blogs e fotologs8 limita a possibilidade de afirmar que há um processo de gradativa substituição. O que os depoimentos das entrevistadas permitem afirmar é que o número de zines de papel diminuiu consideravelmente com a popularização da internet.

Entre os fanzines analisados neste artigo9, a totalidade dos produzidos antes dos anos 2000 não possuía data. Alguns puderam ser identificados por detalhes, como atividades divulgadas, autoria ou formação das bandas citadas. Por outro lado, a maior parte dos fanzines que pudemos coletar, ou mesmo ter notícias, foi produzida nesse período. Apesar dessa dificuldade, há vários dados acerca da forma e do conteúdo dessas publicações que nos permitem acesso à produção do feminismo na cena do rock de mina anteriormente ao período de maior difusão da internet e da expansão da visibilidade da cena.

Desse modo, podemos situar os fanzines produzidos por/para e sobre as minas do rock como uma ferramenta de expressão, articulação e registro dessa cena, que teve seu ápice na segunda metade dos anos 1990, entrando em declínio durante a primeira metade dos anos 2000 e se tornando uma forma de comunicação esporádica na segunda metade dessa década. Os fanzines mais recentes que acessamos são usados como forma de comunicação complementar, distribuídos em shows e festivais como formas de divulgar ideias, mas também os contatos virtuais de email e blogs.

Assim como os grrrlzines norte-americanos, os zines10 aqui estudados abrem um espaço de expressão para mulheres jovens num momento em que o feminismo, tanto em suas expressões mais teóricas quanto ativistas, ainda não abordava questões ligadas às mulheres jovens. A escolha dos fanzines de papel para esta análise se justifica pelo fato de que, apesar de em decréscimo, tais publicações ainda estavam presentes no período em que estive em campo e se constituíam em fontes documentais que permitiam entrever questões que têm permeado o estilo das minas do rock e sua prática feminista, como veremos adiante. Dado o fato de que os fanzines sejam importantes na cena não só por seu conteúdo como por sua forma, a análise realizada a seguir se inicia pelas bordas, pelo formato e estrutura, para finalmente, adentrar o seu conteúdo.

 

O formato dos zines das minas do rock

Os fanzines das minas do rock têm, em sua maioria, como suporte uma ou mais folhas de papel no formato sulfite dobrada(s) ao meio, como um tipo de pequeno caderno, numa formatação semelhante à encontrada por Oliveira (2006) nos punkzines brasileiros. Porém, em alguns zines, o formato é semelhante a uma revista, em que as folhas são usadas em sua totalidade, não são divididas ao meio, como é o caso dos fanzines Dear Jessie nº3, Kaostica Zine e Volkano. O formato revista parece ter estado mais presente no período de maior produção de zines na cena – na segunda metade dos anos 1990.

Antes de abrir um fanzine, o que nos chama a atenção é a capa. Na grande maioria dos zines analisados nesta pesquisa, os temas das capas fazem referência ao universo dessas garotas: desenhos de meninas tocando instrumentos, ilustrando a relação entre música, principalmente o rock, e feminismo, em uma colagem composta por fotos ou desenhos de jovens mulheres com instrumentos musicais, como forma de identificação com o rock e com o emprego deste como forma de empoderamento de jovens mulheres.

Em outras capas, como a do Girl's unity, encontram-se garotas de mãos dadas, o que remete à solidariedade entre jovens mulheres. Esse foi um fator enfatizado pelas entrevistadas desta pesquisa, assim como as de Erica Melo: "a união entre garotas funciona como uma ferramenta para seu 'empoderamento feminista'" (Melo, 2008:98).

Outra figura que se repete tanto nas capas quanto no interior dos zines é o símbolo do feminino acompanhado de um punho fechado, seja este punho desenhado no interior do próprio símbolo (como nos zines Hysterocracya e Um Outro Olhar), ou atrelado a ele (como no caso do zine MútuoAção). O símbolo do feminino com um punho fechado em seu interior remete a uma posição de enfrentamento11 e à afirmação do feminismo. Em muitos dos fanzines em que esses símbolos estão presentes, a palavra feminismo também aparece na capa, o que não quer dizer que não apareça nas capas daqueles que não utilizam tais símbolos.

Outra imagem recorrente nas capas dos zines (Dear Jessie, Kaostica zine, Contexto zine, Hysteriocracia zine, Um outro olhar, MutuoAção) é a representação de corpos ou rostos de mulheres. As mulheres retratadas são geralmente jovens, aparecem dançando ou tocando instrumentos e vestidas em estilo punk, pin-up ou andrógino. Essas imagens aparecem tanto na forma de fotos quanto de desenhos. Há também figuras estilizadas de meninas em situações lúdicas ou de personagens de desenhos animados ou quadrinhos associados à meninice ou adolescência, como é o caso da personagem Hello Kitty. Há ainda imagens de mulheres que ocupam o lugar de ícones intelectuais ou artísticos, como Frida Khalo e Virginia Woolf.

Ao abrirmos um fanzine, geralmente encontramos um tipo de editorial relatando os temas que serão abordados em seu interior, bem como eventualmente o enfoque ou perspectiva sob o qual serão tratados. Encontramos também agradecimentos às pessoas que auxiliaram na sua composição , pois, na maioria das vezes, os zines contêm textos, entrevistas e/ou desenhos de duas ou mais autoras, geralmente integrantes de uma mesma rede social.

Após o editorial, que se constitui geralmente em um ou dois parágrafos, iniciam-se os textos acompanhados de símbolos, desenhos e recortes de palavras retirados de jornais e revistas, de modo a compor uma outra combinação de palavras. Os textos são diagramados com parágrafos recortados e colocados em uma ordem não convencional, de modo que é possível classificar a forma desses zines em dois tipos: um com uma diagramação aparentemente caótica, com abuso de imagens, símbolos e frases escritas a mão, numa diagramação semelhante aos punkzines, e outro mais semelhante a revistas, escritos em máquinas de escrever ou digitados em computador com poucos símbolos e fotos.

 

 

 

Geralmente, os textos são de autoria do coletivo ou conjunto de amigas/os que assinam o zine. As imagens dividem-se entre as que são colagens com composições organizadas pelos autores e desenhos de autoria dos responsáveis pelo zine. No entanto, também é comum encontrar alguns textos retirados de revistas, jornais ou de páginas da internet como complementação de seu conteúdo.

Logo após os textos, com seus símbolos e figuras, o zine é finalizado com uma contracapa. Este espaço na maioria das vezes é utilizado para a manutenção de redes sociais entre as zineiras, ou seja, na contracapa, as editoras do zines identificam seus respectivos endereços para correspondência. Nos zines datados antes de 2000, eram usados como endereço para correspondência o próprio endereço de uma das editoras ou uma caixa postal. Depois disso, com a difusão da internet, endereços eletrônicos e, posteriormente, endereços de blogs, serviços de apoio a mulheres vítimas de violência, de organizações feministas ou myspaces de bandas passam a ser divulgados. Há também na contracapa endereços de caixas postais e/ou e-mails de outros fanzines, bem como letras de músicas de bandas feministas, e/ou poemas, acompanhados de imagens relacionáveis a resistência, violência ou à união de meninas.

 

Forma e conteúdo: gerações no rock de mina paulistano

Ao cotejar as imagens utilizadas nas capas com o conteúdo dos zines, pude perceber que há algumas correspondências entre determinados tipos de imagens utilizadas nas capas e o conteúdo presente no interior do zine e que diferentes combinações de forma e de conteúdo poderiam e, em geral, estavam relacionadas a pertencimentos ideológicos ou a determinados estilos que conviviam na cena. Pude perceber, ainda, que há diferentes ênfases em diferentes períodos.

Assim, por exemplo, as imagens relacionadas à meninice e a personagens infanto-juvenis (Cantinhos das Felinas, Girl's unity, Volkano) estão presentes em fanzines cujo conteúdo sugere que as responsáveis tinham relação com a cena straight edge.12 Geralmente criticam o especismo13, divulgam o vegetarianismo e receitas veganas, criticam o uso de drogas, têm os nomes das colaboradoras grafados com "x" no início e final dos nomes ou possuem a inscrição "S x E" (que significa straight edge) em suas páginas. Esses zines nem sempre possuem data, mas o conteúdo indica que foram produzidos na segunda metade dos anos 1990. O conteúdo feminista ou relacionado à produção cultural da cena não é muito intenso. Um dos zines prioriza o vegetarianismo e os outros são marcados pela solidariedade entre meninas e pelo empoderamento, tratados entre outros temas relacionados à música ou a outras causas sociais. Há também tentativas de promover um diálogo entre a crítica ao especismo e questões relacionadas ao universo de mulheres adolescentes e jovens: o zine Cantinho das Felinas (1995), por exemplo, traz dicas de maquiagem, como nas revistas para adolescentes, chamando atenção para os cosméticos livres de crueldade, ou seja, aqueles que não são testados em animais. Mesmo o nome do zine sugere uma ligação entre mulheres e animais, ao denominar as autoras e seu público como felinas. Outro número ironiza as representações estereotipadas de feminilidade na sessão "Som na caixa", que resenha uma série de bandas de rock feministas e femininas sob a seguinte chamada: "música felina para ouvidos delicados e peludinhos...".

Os zines que trazem imagens de garotas punks (Kaostica zine, Contexto zine) estão relacionados ao início da cena do rock de mina e estabelecem relação com a cena riot grrrl internacional, trazendo letras de músicas, resenhas de fitas demo (gravações independentes ou caseiras de bandas) e de CDs, além de entrevistas com bandas da cena. Remetem a um contexto em que estão incluídas bandas nacionais, mas há forte referência a bandas internacionais. Há, ainda, evidente esforço em definir o que é riot grrrl para as zineiras e trazem textos que advogam contra a homofobia e contra os efeitos do sexismo, alguns deles traduzidos ou fazendo referência a acontecimentos internacionais. Desses zines, tivemos acesso aos que foram produzidos entre 1995 e 1996.

Entre os zines que possuem o símbolo do feminino e punhos na capa (Hysterocracia zine, MutuoAção, Um outro Olhar), um traço comum é trazerem menos conteúdo sobre bandas e música e mais sobre feminismo. Todos eles foram produzidos entre 2004 e 2007, mesma época em que foram realizados os festivais Lady Fest em São Paulo. Trata-se do que uma das entrevistadas desta pesquisa e responsável por um desses zines denomina de "segunda geração de minas do rock", marcada pelo crescimento da visibilidade da cena. Esses zines têm como marca continuar tratando de temas relacionados ao que se poderia chamar de demandas de mulheres jovens, como aborto, violência contra as mulheres (inclusive no transporte público), pressões relacionadas à estética, prostituição. Outros traços em comum são: a ênfase no faça-você-mesma e na autonomia, sendo que alguns são declaradamente anarcofeministas; nenhum deles advoga uma perspectiva feminista separatista; em geral referem-se à opressão das mulheres como sexismo e reconhecem que homens e mulheres podem ser sexistas. Uma parte deles traz conteúdo anti-homofóbico e outra parte traz várias referências de organizações feministas, como a Sempreviva Organização Feminista, a Marcha de Mulheres e a União de Mulheres.14

O acompanhamento dos temas tratados nos zines também dá mostras da passagem de uma cena feminista em que algumas garotas das bandas eram reconhecidamente homossexuais para um contexto em que a categoria dyke passa a ser quase sinônimo de mina do rock e tem seu significado alargado, de modo a incorporar qualquer garota que compartilhe uma dada estética e o gosto por convivência com outras mulheres e bagunça feminina (Facchini, 2008). Os conteúdos dos zines apontam para esse processo de mudança: os zines da "primeira geração", datados a partir da segunda metade dos anos 90, priorizavam temas como aborto, violência contra a mulher e o faça-você-mesmo, e os zines da "segunda geração" trazem com força temas como sexualidade e combate à homofobia.

Outros dois fanzines publicados em 2006, ainda que não tenham o símbolo do feminino ou punhos na capa, também parecem ser herdeiros dessa mesma perspectiva, embora se voltem muito mais para questões pessoais, como o compartilhamento de experiências (Cansei disso tudo) e para temas menos estridentes (Contexto zine), como é o caso de abordar o sexismo a partir da ditadura da beleza e não de temas como abuso sexual e aborto. Um terceiro zine, que não está datado (As cuzonas), mas remete a atividades ocorridas entre 2005 e 2006, enfatiza mais as manifestações culturais da cena do que o feminismo. Traz na capa a foto de integrantes da banda Dominatrix e em seu interior uma entrevista com a responsável pelo projeto Santa Claus.15 O conteúdo feminista fica por conta da tradução de letras de música, do conteúdo da entrevista e da resenha de filme. Outro traço marcante desse zine é a crítica à homofobia.

Dear Jessie é o nome de uma outra publicação numa perspectiva semelhante a das que trazem garotas punks na capa e a seus "seguidores", embora trate exclusivamente de feminismo e não se refira a rock. O fanzine foi publicado em 2000, trata-se de uma versão revista e ampliada do mesmo zine. Possui como imagem de capa uma foto de mulher andrógina. Trata-se de zine editado em formato revista, escrito em primeira pessoa, dialoga com a leitora, critica teorias biológicas sobre as supostas passividade e fragilidade femininas, defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo e aborda a violência contra mulheres e o abuso sexual na infância e/ou adolescência e critica a educação sexista. Esse pode ter sido um dos fanzines que influenciou o que nossa entrevistada citada anteriormente chama de "segunda geração". Não é comum haver referências teóricas feministas nesses zines, mas, quando há – tanto neste último quanto nos da "segunda geração" que privilegia temáticas feministas –, são citadas Simone de Beauvoir16 e, entre as anarco-feministas, também Emma Goldman.17

Um último zine é o Ovulando Revolução, que, embora não tenha data, teve duas edições distribuídas em 2007 e difere dos demais no formato e no conteúdo. Não obedece ao formato de revista, nem o dos punkzines: trata-se de folha sulfite impressa em frente e verso e dividida em três colunas, com poucas imagens e letras pequenas e uniformes. Esse zine não tem capa com imagem, nem contracapa e não traz contatos de outros coletivos ou zines, divulgando apenas o contato de email do coletivo responsável e de seu blog. Assim como o anteriormente descrito, não se refere à produção cultural da cena do rock de mina, embora seja distribuído em eventos dessa cena. No que diz respeito ao conteúdo, difere por defender o feminismo radical e o separatismo, situa a opressão feminina como efeito do patriarcado e os homens como algozes, advogando a lesbianidade como a forma plena do feminismo e criticando a atuação mista em prol do combate à homofobia, os coletivos queer e a ausência do uso de rótulos. Aborda temas como o consumo de álcool, erotismo, prostituição, pornografia e BDSM de modo a relacioná-los à violência, e especialmente à violência patriarcal. Nesse zine são citadas autoras que ficaram conhecidas como "feministas radicais anti-sexo", como é o caso de Andrea Dworkin.

A análise comparada entre as imagens das capas dos zines e de seu conteúdo ajuda a refletir sobre a iconografia que apresentam, recheada de imagens de mulheres e símbolos relacionados ao feminismo e à solidariedade feminina, por vezes descrita como união de garotas tanto pelas zineiras, quanto pelas entrevistadas (que em sua maioria também eram zineiras). Tais imagens sugerem uma relação entre o que se mostra nesses zines e as ideias de uma condição compartilhada entre as mulheres e a solidariedade feminina propagada pelas feministas radicais dos anos sessenta e setenta, como sintetiza Chinchilla (1982:223): "apoyo a otras mujeres – todas las otras mujeres, por exemplo, 'la hermandad'– debe tener prioridad sobre las lealtades a outras categorias de personas". No entanto, não se pode depreender daí a adesão a determinada corrente ideológica: trata-se, antes, do uso estratégico de determinados elementos do discurso feminista, que se combinam com outros numa composição bastante livre, gerando um bricolage de elementos, que incluem referências da reflexão teórica feminista de forma não necessariamente coesa e nem mesmo sempre coerente.

 

O feminismo dos zines

Nos zines analisados é possível perceber diferentes temas abordados, que vão desde dicas de cosméticos não testados em animais e receitas veganas até entrevistas com integrantes de bandas de rock e resenhas de filmes ou CDs. Porém o tema que se repete em todos eles é o feminismo, um tipo de feminismo peculiar. Esse feminismo procura se diferenciar em relação ao que chamam de feminismo "institucional", visto que rejeita o conhecimento acumulado e valoriza a autonomia. Esse feminismo aparece, em alguns zines e entrevistas, referido como "feminismo riot grrrl" (Entrevista Emilia, 2008).

Entre os zines a que tive acesso, aqueles publicados até o final dos anos 1990 seguem uma forma de diagramação mais limpa, digitados em computador, sem muitas colagens, num estilo revista. Já os produzidos na primeira metade dos anos 2000, variam entre o modelo revista e o punkzine. O que chama atenção é que alguns dos zines de conteúdo mais marcadamente feminista escritos entre 2004 e 2007 (Hysteriocracya, Um Outro Olhar, Mega Femme e Ovulando a Revolução) têm um formato mais próximo ao punkzine. Há, assim, uma transformação perceptível, conforme a cena das minas do rock vai se afirmando no Brasil, no sentido de buscar linguagens mais soltas e despojadas, próximas dos punkzines, na apresentação de pautas feministas.

Isso nos remete a duas hipóteses, no que diz respeito ao contexto em que foram produzidos. Uma delas diz respeito ao fato de esse ter sido o período em que ocorreram os LadyFest em São Paulo e poderia haver uma estratégia no sentido de dialogar com o público atraído pelo festival acerca de feminismo. Mas, por outro lado, como nos relata Emília, em entrevista realizada em 2008, houve uma tentativa de aproximação com as organizações feministas, que gerou tensões tanto do ponto de vista das minas do rock, que as consideravam teóricas demais e criticavam o grau de institucionalização das organizações, quanto do ponto de vista das organizações feministas que tendiam a considerá-las baderneiras. Essa mesma tensão é registrada na etnografia de Facchini (2008), que enfocou o período de realização dos Lady Fest em São Paulo. Desse modo, é possível argumentar que a mudança de estilo nos zines nesse período pode tanto procurar atrair as jovens acessadas pelo festival para o debate feminista, quanto mostrar para as feministas de organizações que é possível ser punk e feminista.

Um exemplo disso é o número 1 do zine Um outro Olhar, publicado em outubro de 2004, cerca de seis meses após o primeiro Lady Fest. As editoras são duas garotas na faixa dos 22-24 anos. Na capa, marcada por várias colagens e pela imagem do rosto de uma jovem em atitude reflexiva, temos, além do título e da data de publicação, duas inscrições que ladeiam a imagem de capa: "GAROTAS PENSANTES" e "Ousadia, Atitude e Consciência para a resistência feminista". Na contracapa do zine, há vários pequenos textos colados com muitas imagens e recortes de inscrições em diferentes tipos de letras: "No more repression"; "Women, Art"; "Quebre as correntes".

Se compararmos a pauta de reivindicações feministas apresentadas nesse zine à elaborada por jovens feministas atuantes em diversas redes nacionais, reunidas por ocasião de uma pesquisa (Abramo; Facchini, 2008), é possível notar que boa parte dos pontos citados é convergente. No entanto, no zine, essa pauta está exposta em meio a uma série de outros elementos visuais e temas – bem como num formato – que provavelmente não seriam encontrados numa publicação divulgando a pauta produzida num congresso feminista. Esse modo de exposição é deliberado: implica falar de modo curto e direto, expondo experiências pessoais ou muito comuns de modo concreto, demonstrando o vínculo entre a vida de cada uma e o que está sendo dito e utilizando uma linguagem – visual e escrita – que vincule o zine e seu conteúdo ao cotidiano da cena e de suas integrantes. Isso resulta, sem dúvidas, num modo próprio de compor essas publicações, que difere tanto das publicações feministas quanto dos punkzines feitos fora da cena. Trata-se de uma composição intencional de um conjunto de elementos retirados de seu contexto original, compondo um bricolage que dialoga (de modo a se identificar ou diferenciar) com outros grupos, pessoas ou com instituições.

Essa abordagem diferenciada em relação às linguagens possíveis pelas quais se apresenta o feminismo também se expressa na mescla de feminismo e produção cultural (música, filmes, entrevistas) que observamos nessas publicações, embora falar dessa produção na maior parte das vezes implique falar em feminismo. De acordo com Melo (2008), o feminismo riot grrrl "não rejeita a diversão, contrariando o formato sério, muito concentrado em palavras, faladas ou escritas. O riot grrrl é feito de palavras, mas também de som e cores" (Melo, 2008:84).

Nos zines analisados nesta pesquisa são ainda traços mais gerais a necessidade de posicionamento como uma negação do status de vítimas pelo qual essas jovens mulheres são representadas, bem como a criação de um ambiente pessoal e o diálogo com as leitoras por meio do relato de experiências e de uma linguagem simples e direta.

Segundo Melo (2008:84), além da valorização do lazer, o feminismo riot grrrl seria composto por uma série de elementos como: a valorização do cotidiano, o "tom biográfico", uma linguagem "espontânea" e que não se identifica com o feminismo acadêmico, a presença de "elementos masculinistas do punk", o "empoderamento através da música", a recusa à heteronormatividade, a busca por espaço exclusivo para que possam debater seus problemas, a rejeição aos padrões dominantes de beleza, o questionamento da educação diferenciada entre meninos e meninas e a recusa da naturalização do gênero.

A denúncia da violência contra as mulheres, tanto na esfera pública quanto na privada, seja através de dados estatísticos, palavras de ordem, textos ou imagens, bem como a defesa da legalização do aborto e sua relação com o "pro-choice" norte-americano foram temas encontrados em todos zines analisados. A ocorrência de outros temas, como a crítica à educação sexista, à homofobia ou heteronormatividade, à naturalização das diferenças entre homens e mulheres, ao casamento, a padrões de beleza socialmente impostos e às várias formas de opressão, é variada.

De acordo com Facchini (2008), em sua análise sobre a cena no período (2004-2007) em que foram realizados os Lady Fest em São Paulo:

a versão de feminismo presente entre as minas do rock mistura elementos de uma certa 'fraternidade feminina', que se estende a comportamentos homoeróticos entre as dykes, com muita ênfase no empoderamento e no fortalecimento do protagonismo e capacidade de expressão das mulheres. [...] Embora haja toda uma ênfase na polarização entre homens e mulheres e no confronto a atitudes cerceadoras e violentas praticadas por homens contra mulheres - enfrentando inclusive questões difíceis e pouco tocadas como a violência/abuso sexual contra garotas no núcleo familiar -, o tema da violência no âmbito das relações afetivo-sexuais é abordado de modo inovador. [...] Boa parte das iniciativas na cena riot grrrl nos remete aos princípios do 'faça-você-mesmo' e/ou da 'ação direta', caras ao punk e a posicionamentos políticos anarquistas. [...] Esse campo um tanto difuso de referências compartilhadas parece fundamental para entender melhor as relações que se estabelecem entre as riot grrrls e o movimento feminista mais amplo. [...] O foco nas transgressões estéticas é bastante significativo na cena e, olhar mais atentamente para essas transgressões, permite entrever um feminismo que, longe de ser unitário, seria melhor descrito como polifônico, revelando um conjunto diversificado de vozes e subjetividades (Facchini, 2008:162-165).

Todos os elementos que constituem o "feminismo riot grrrl" analisado por Melo (2008), bem como os traços identificados por Facchini (2008) foram encontrados na análise dos zines realizada nesta pesquisa. Ao longo deste artigo, foram assinalados elementos como: a valorização de posicionamento político em situações cotidianas juntamente com a rejeição do status de vítimas; a conscientização sobre a violência contra a mulher tanto na esfera pública quanto privada; a recusa aos padrões dominantes de beleza e à heteronormatividade; o questionamento da educação diferenciada entre garotos e garotas; a busca de uma linguagem pessoal, simples e direta para falar sobre o feminismo; a defesa da autonomia para a ação; e, assim como nos fanzines punks (Hebdige, 2004), há uma recusa ao conhecimento acumulado.18

No entanto, concordo com Facchini (2008) quanto ao feminismo da cena do rock de mina não ser unitário, mas polifônico. Longe de haver uma identidade riot grrrl e um feminismo compartilhado, como sugere Melo (2008), a análise das referências ao feminismo nos zines da cena fez perceber que não se trata de uma perspectiva coesa e que as perspectivas variam muitas vezes no interior de um mesmo zine.

Vejamos o manifesto publicado no Hysterocracya zine, de março de 2007:

Manifesto de Reivindicação de um Novo e Verdadeiro Feminismo

  • A luta do Feminismo é a luta contra o Patriarcado;
  • Feminismo é a destruição dos papéis sexuais e das categorias de gênero;
  • Feminismo é AUTONOMIA: anti-partidário e anti-oportunismo;
  • Contra o Feminismo de cabresto aparelhado pelo estado fazendo obedientemente seu papel de 2º sexo de ONGS, Partidos, Sindicatos e Governos;
  • Feminismo não deve ser confundido com patriarcas travestidos como Condolezza Rice que conquistam o cargo de dominação de seus carrascos;
  • Contra o Feminismo que negocia com os opressores;
  • Contra o Feminismo bem comportado que dá satisfações ao machismo e teme a ousadia;
  • Feminismo é solidariedade feminina, mulheres unidas são a força feminista;
  • Feminismo é a construção de uma identidade autêntica para nós mesmas, emancipação que negue aquilo que o sistema quer que sejamos;
  • Contra o androcentrismo que coloca o 'Homem' como protagonista do sexo e representante da humanidade, e que infecta as ciências, a linguagem, nossas mentes, corpos, ações e invisibiliza a mulher e a sua luta;
  • Contra a falácia da natureza biológica determinante de sujeitos sexuados: SEXO É CONSTRUÇÃO SOCIAL carregada de ideologia que nos domestique à submissão;
  • Compreensão que o Patriarcado é o sistema basilar e histórico que constitui a sociedade, anterior ao capital (embora se manifeste por meio deste), um princípio econômico, político, ideológico e estrutural de dominação;
  • O feminismo não trata de uma opressão 'específica' pois o que combate – o Patriarcado – é o que produz sintomas como racismo, o sexismo, especismo, classismo, etnocentrismo, heterosexismo, todos de base originária comum;
  • Contra o generismo academicista pós-moderno que volta o movimento à imanência teórica sem prática;
  • Feminismo é ação: por uma práxis atuante e combativa: Por um conhecimento que transforme o pensamento em arma de revolução;
  • O Patriarcado é o regime de destruição do planeta: Feminismo é Ecologia e defesa da mãe-Terra;
  • Contra o sistema da violência do macho que se traduz através do Estado, exército, religião, leis, monopólio, escravidão;

Uma revolução pela humanidade e todas as formas de vida!!

No manifesto acima, podemos notar a presença de elementos como anarcofeminismo, feminismo radical e ecofeminismo. O patriarcado – noção cara ao feminismo da "segunda onda" – é citado como a fonte de todas as opressões sociais e machos e mulheres são referidos, respectivamente, como expressões do mal e do bem. No entanto, ao mesmo tempo se advoga: Contra a falácia da natureza biológica determinante de sujeitos sexuados: SEXO É CONSTRUÇÃO SOCIAL.

No Hysterocracya zine, acima citado, produzido em 2007, temos exemplos de abordagens anarcofeministas, ecofeministas e do feminismo radical. No Ovulando a revolução, também distribuído em 2007, temos uma concepção semelhante. Não há nenhuma referência a música ou ao riot grrrl. O patriarcado é visto como a fonte de todas as formas de opressão e estabelece-se uma relação entre especismo e patriarcado, considerando que este último representa a dominação de uns sobre outros. O homem é visto como o algoz de todas as formas de violência e a lesbianidade é apresentada como a forma plena do feminismo, sendo o separatismo reivindicado como um direito inalienável das mulheres.

No zine Ovulando Revolução, várias modalidades de erotismo, como BDSM, sexo ao telefone, pornografia e a noção de consentimento são criticados:

Ok. foda-se o 'consenso' em estar no pornô. elas consentem em ser prostitutas, [...], elas consentem em sexo ao telefone, [...], elas consentem em encenar serem bissexuais e fazê-lo com outras garotas na frente homens para seu prazer.

Enquanto o zine Ovulando a Revolução critica a noção e a possibilidade de consentimento, algumas das editoras de outros zines publicados cerca de 10 anos antes promovem oficinas de "consenso sexual para jovens lésbicas", como forma de tematizar a violência nas relações afetivo-sexuais entre mulheres. Num desses fanzines, o Kaostica, publicado em 1997, temos um texto dedicado a definir o que é o riot grrrl:

Riot Grrrl é definição de movimento feminista formado para combater o domínio no movimento punk, e, por extensão, no resto do mundo. [...]

  • Promover respeito/amor fraterno entre meninas;
  • Expor e combater a brutalidade masculina;
  • Desafiar o público a rejeitar modelos tradicionais em favor da identidade individual e livre.

    É IMPORTANTÍSSIMO SABER QUE O RIOT GRRRL NÃO É CONTRA HOMEM.

    [...] "FEMINISMO NÃO É SEXISMO REVERSO"

Em 2004, o número 1 do zine Um outro Olhar há um texto intitulado "Rebeldes sem causa?", produzido por garotas que participam de bandas e citam o riot grrrl no zine, diz:

Não aceitamos o preconceito aos negros e/ou homossexuais, e muito menos piadinhas e insultos fúteis cometidos por pessoas machistas, racistas e homofóbicas. [...] Não queremos ter que assistir uma garota se maquiando, se matando na academia [...] Mulheres e homens em luta por um feminismo revolucionário!

Nesses dois últimos zinesKaostica e Um outro olhar –, a opressão contra as mulheres aparece tratada como sexismo, que seria uma opressão diferente do racismo e da homofobia. Homens e mulheres são vistos potencialmente como sexistas e coniventes com a violência. Embora existam textos que criticam a homofobia no interior desses dois fanzines, a heterossexualidade, assim como qualquer outra modalidade erótica consensual, não é criticada. Eles são escritos para garotas que se considerem hetero, homo ou bissexuais. Em nenhum deles foi encontrada nenhum incentivo ao separatismo, e, ao contrário dos zines Ovulando a revolução e Hysterocracya, fazem questão de ressaltar que feminismo não é contra homens e não procura promover um sexismo reverso.

Numa linha mais semelhante ao Kaostica e ao Um outro olhar, o zine MútuaAção #4, de 2006, vai um pouco mais longe no que diz respeito à relação entre homens e feminismo, trazendo um texto sobre "homens feministas ou riot boys: o "Riot Boy" pode ser entendido como garotos tentando se inserir em discussões que dizem respeito a quebra de uma estrutura patriarcal que prevalece sobre um todo".

A análise acima reforça o argumento esboçado no item sobre as capas dos zines. Mais do que a adesão a uma dada tendência no pensamento feminista, é possível argumentar que os zines, assim como todo estilo das minas do rock, é composto por meio de uma combinação de elementos, inclusive derivados da reflexão teórica feminista, que tem por objetivo expressar tensões. Nas últimas páginas, podem ser notadas tensões, como aquelas que se estabelecem entre: riot grrrls e feminismo acadêmico ou institucional; feministas separatistas e feministas que defendem o feminismo como uma luta que pode e deve incluir homens e mulheres; feministas que entendem o patriarcado como a origem de todas as opressões e feministas que percebem machismo, racismo e homofobia como diferentes opressões que devem estar na pauta feminista; feministas que pensam a violência como algo que se dirige dos homens para as mulheres, e feministas que se esforçam por pensar a violência entre mulheres, inclusive no interior de relações afetivo-sexuais.

É sintomático que os únicos zines de papel que pudemos acessar no período em que a pesquisa esteve em campo foram o Hysterocracya zine e o Ovulando revolução, ambos de 2007, que eram distribuídos em atividades da cena de forma complementar à existência de blogs em que se divulga o mesmo conteúdo. Esses zines eram distribuídos como forma de divulgar ideias que contestam outras concepções que eram debatidas na cena naquele momento. Basta lembrar que o fanzine MútuaAção #4, de 2006, trazia um texto sobre Riot Boys e que, em 2006 e 2007, várias bandas da cena do rock de mina participaram do Queer Fest19, festival da cena punk voltado para a discussão da diversidade sexual e que, além de reunir bandas queercore e dykecore, trazia em sua programação vídeos e oficinas que faziam referência à pornografia.

 

Zines: um espaço de agência de jovens mulheres entre o público e o privado

Foi comum encontrar na maioria dos zines produzidos pelas minas do rock em São Paulo relatos ou confidências de suas experiências que se mesclam a análises mais amplas sobre modalidades de violência ou opressão compartilhadas por jovens mulheres e o estímulo para uma tomada individual ou coletiva de atitude. Embora o uso desse recurso varie bastante entre os zines analisados, a maioria deles se comunica de modo a criar um ambiente pessoal, seja por lançar mão de informações musicais cujo gosto é compartilhado pelas interlocutoras ou por partilhar conhecimentos sobre feminismo ou sobre a situação das mulheres na sociedade sempre a partir da exposição de situações pessoais. A ideia parece ser semelhante àquela operacionalizada pelos grupos de reflexão feministas da década de 1970 e pelas próprias oficinas realizadas no LadyFest: o compartilhamento de experiências leva à identificação e à construção de vínculos, de uma identidade compartilhada e de um coletivo de atuação.

 

 

Assim como os escritos autobiográficos têm a capacidade de alcançar as experiências fluidas e dispersas de sujeitos locados nas margens das narrativas culturais dominantes (Costa, 1995:143), os zines das minas do rock, ao relatarem as vivências cotidianas das zineiras, expressam em linguagem própria as experiências e a perspectiva de uma cena composta por garotas que se percebem como situadas em lugares menos privilegiados em relação às narrativas culturais dominantes. Através de relatos que questionam lugares de passividade, fragilidade ou inferioridade a partir dos quais essas jovens mulheres são representadas e que convidam para a tomada de posição e a ação, as zineiras colocam-se no espaço público, num jogo que justapõe e alterna referências íntimas e pessoais às públicas e políticas, retomando, de certo modo, o famoso slogan feminista: "o pessoal é político".

Produzido nos interstícios entre o público e o privado, uma vez que a pauta e os custos de produção são de responsabilidade das editoras, o zine possibilita dar-se a ver de um modo relativamente autônomo. Dessa maneira, as vozes de jovens mulheres podem (des)aparecer de acordo com sua própria vontade e suas manifestações podem ser direcionadas a outras mulheres, como um tipo de confidência ou de manifesto. Muitos zines são marcadamente autobiográficos, elaborando e compartilhando experiências num tom de confidência e por meio de uma linguagem inspirada pelo feminismo. No espírito do faça-você-mesma, tais publicações acabam também por se configurar como cenário de agência de jovens mulheres que circulam pela cena das minas do rock: basta buscar ideias, textos, imagens e referências e organizá-los no suporte de papel.

 

Referências bibliográficas

Abramo, Helena W. Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. São Paulo, Scritta, 1994.         [ Links ]

Abramo, Helena W.; Facchini, Regina. Relatório Juventude e integração sul-americana: diálogos para construir uma democracia regional. Informe dos grupos focais no Brasil. São Paulo, Pólis, 2008. Disponível em: http://www.juventudesulamericanas.org.br/index.php/biblioteca/doc_download/44-juventude-e-integracao-sulamericanadialogos-para-construir-uma-democracia-regional-brasil [acesso em 25/03/2011]         [ Links ].

Chidgey, Red. Riot grrrl writting. In: Monem, Nadine. (ed.) Riot Grrrl: revolution girl style now!. Londres, Black dog, 2007, pp.100-141.         [ Links ]

Chinchilla, Norma Syoltz. Ideologías del feminismo: liberal, radical y marxista. In: Leon, Magdalena. Sociedad, subordinación y feminismo. Debate sobre la mujer en América Latina y el Caribe: discusión acerca de la unidad producción-reproducción. Bogotá, Acep, 1982, pp.215-239.         [ Links ]

Costa, Claudia de Lima. Situando o sujeito do feminismo: o lugar da teoria, as margens e a teoria do Lugar. Travessia: revista de literatura (1), Florianópolis, 1980, pp. 59-90.         [ Links ]

Downes, Julia. Riot Grrrl: the legacy and contemporary landscape of DYU Feminist cultural activism. In: Monem, Nadine. (ed.) Riot Grrrl: revolution girl style now!. Londres, Black dog, 2007, pp.12-49.         [ Links ]

Facchini, Regina. Entre umas e outras: mulheres, (homo)sexualidades e diferenças na cidade de São Paulo. Tese de Doutorado em Ciências Sociais, Unicamp, 2008.         [ Links ]

Harris, Anita. gURL scenes and grrrlzines: the regulation and resistance of girl in late modernity. Feminist Review (75), Palgrave, 2003, pp.38-56.         [ Links ]

Hebdige, Dick. Subcultura: el significado del estilo. Barcelona, Ediciones Paidós Ibérica, 2004.         [ Links ]

Magalhães, Henrique. O que é fanzine. São Paulo, Brasiliense, 1993.         [ Links ]

Melo, Érica. Cultura Juvenil Feminista Riot Grrrl em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Sociologia, Unicamp, 2008.         [ Links ]

Singer, Peter. Libertação animal. Porto Alegre/São Paulo, Lugano, 2004.         [ Links ]

Souza, Bruna Mantese. Os straight edges e suas relações com a alteridade em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social, USP, 2006.         [ Links ]

 

 

*   Recebido para publicação em fevereiro de 2011, aceito em abril de 2011. Este artigo apresenta os resultados da pesquisa desenvolvida para minha dissertação de mestrado, realizada com o apoio financeiro do CNPq.
1  Cena é uma categoria êmica e se refere ao universo que envolve práticas, como a produção e difusão de músicas, bandas e outras manifestações culturais por meio de shows, trocas de fanzines e sociabilidades.
2  Recentemente, uma das precursoras da cena na capital paulistana postou em seu Facebook uma crítica às feministas da cena local ao compará-las com a cena que tem se articulado no nordeste. Nessa crítica, fazia referência a estar cansada de "lidar com a 'bunda molice' da cena musical feminista de São Paulo, onde todo mundo resolveu parar de ser feminista pra usar drogas e ser DJ". Essa tensão entre feminismo e diversão é abordada já no Zine MegaFemme #1, de 2006: "tamanho tem sido o "sucesso" do movimento que seu real sentido parece, de certa forma, ter sido banalizado e encoberto por baladas alternativas".
3  Convencionou-se nesta etnografia denominar as informantes de minas do rock, pois, apesar de não usarem esta ou outras categorias para se classificarem em situações como entrevistas, era esta a denominação pela qual se referiam ao conjunto mais amplo das garotas que participavam da cena.
4  Zine de papel é uma categoria êmica empregada para denominar os fanzines que são impressos em papel como contraposição aos zines virtuais.
5  Zinera é uma categoria êmica e pode ser definida como pessoas que produzem ou produziram zines.
6  Diferentemente da perspectiva de Hebdige (2004:154), segundo a qual o fanzine produzido pelos punks causava uma sensação de ter sido produzido a uma velocidade máxima, o processo de elaboração de um zine é lento, iniciado com a construção de textos, que são impressos, recortados e colados juntamente com imagens selecionadas para posteriormente ser fotocopiados e distribuídos, ou seja, todo esse processo artesanal de criar um zine leva tempo, e desconstrói a afirmação de que o zine é um tipo de periódico produzido a velocidade máxima.
7  E-zine é um fanzine produzido por meios eletrônicos e veiculado na internet.
8  Apesar dos fotologs não se constituírem como foco desta pesquisa, no trabalho de campo foi possível observar que eles são empregados pelas minas do rock para promoção de shows das bandas dessas garotas ou para descrever um show que aconteceu anteriormente.
9  Dear Jessie fanzine#3 (2000); Zine Mega Femme#1(2006); Um outro olhar (2004); Zine MutuoAção (2005 e 2006); Contexto Zine (2006); Hysteriocracia Zine (2007); Cansei disso Tudo! (2006); Cantinho das felinas (1995); Girls Unity #1 (1996), Kaostica Zine#2 (1996 e 1997), Volkano #2 (aproximadamente 1996), Ovulando Revolução(2007), As cuzonas (2006).
10 Forma contraída da palavra fanzine, termo mais empregado pelas informantes.
11 Punhos levantados e cerrados são símbolos geralmente associados à resistência. Assim, em passeatas de trabalhadores, as palavras de ordem são ditas com um dos punhos fechado e movimentado para o alto no ritmo do que é dito. O movimento Black Power também adotou um punho cerrado e levantado como seu símbolo.
12 De acordo com Bruna Mantese Souza, os straight edges são descendentes diretos do punk, mais especificamente do hardcore americano. Os preceitos e as práticas relacionadas ao straight edge se estruturam a partir da música (rock, punk, hardcore). Para eles, homens e animais são iguais num determinado plano, assim, não se pode aceitar que os primeiros sirvam-se dos segundos num sistema que privilegia os interesses dos humanos em detrimento do bem-estar dos animais (Souza, 2006). Os straight edges, além de não consumirem produtos de origem animal, também não consomem álcool, drogas e cosméticos de origem animal e/ou testados em animais.
13 "Especismo (...) é o preconceito ou atitude tendenciosa de algum a favor dos interesses de membros de sua própria espécie e contra os de outra" (Singer, 2004:08).
14 Organizações/grupos feministas presentes na cidade de São Paulo, com diferentes formas de atuação e de diferentes linhagens políticas.
15 O projeto Santa Claus é composto por apenas uma garota que toca guitarra com o auxilio de uma bateria eletrônica.
16 O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir é citado como um dos livros consultados para a elaboração do fanzine Dear Jessie (2000). No zine Mútuo Ação #3(2005) como indicação de leitura está A mulher desiludida, de Simone de Beauvoir, com uma breve resenha sobre o livro.
17 A citação de Emma Goldman no zine Girls Unity (1996) não aparece com referência completa, há apenas o trecho escrito a mão.
18 Em alguns fanzines é explicito o desprezo pelo conhecimento acumulado. No fanzine Kaostica há até a sugestão de brincadeiras utilizando-se réguas, borrachas, papeis e arremessos de coisas no ventilador, refletindo a visão que possuem sobre a escola, vista como uma instituição falida que nada ensina: "a escola você sabe é uma bosta. Muita gente só vai para ver os amigos, outros para dormir, outros, só para xavecar e outros só vão para não olhar a cara feia do pai"(Kaostica zine)
19 A participação de bandas dykes da cena nesse festival é citada por Facchini (2008).

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License