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Cadernos Pagu

versão impressa ISSN 0104-8333

Cad. Pagu  no.37 Campinas jul./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332011000200001 

Apresentação

 

 

A violência conjugal tem ocupado quase todo o espaço da discussão sobre violência contra a mulher nas nossas pesquisas, desde as Delegacias da Mulher até a lei Maria da Penha – no entanto, há vários outros tipos de violência, quase estruturais, às quais faríamos bem em prestar atenção. E é essa mudança de perspectiva que estamos querendo acompanhar aqui – como outros olhares sobre essa violência mostram outras faces. Os textos deste dossiê evocam, então, algumas dessas facetas – violações no Peru, mutilação genital entre um grupo de indígenas da Colômbia, estupros na Bósnia, vítimas da violência policial no Rio de Janeiro ou nas penitenciárias paulistanas – além de uma discussão bem informada sobre femicídio, noção agora em voga em alguns países da América Latina que merece atenção, mesmo que seja um termo que ainda não entrou no nosso vocabulário. São atos de violência de certo modo mais fáceis de documentar – os mais sutis ainda aguardam cronistas que não sejam os literatos.

Mas Veena Das, que escreveu sobre a violência da Partição – a divisão entre Índia e Paquistão, depois da Segunda Guerra, em 1947, o que levou a uma onda de ataques mútuos, sequestros e violações a mulheres dos dois lados da nova fronteira – trata aqui de uma violência mais sutil: como essa violência brutal marcou as relações familiares no dia a dia após esse evento traumático. Seu texto, de certa forma, costura essas crônicas da violência de uma forma nada banal, ao mostrar como ela pode ser parte do cotidiano que acompanha as mulheres em distintos contextos há muito, muito tempo.

A tradução do texto de Emma Goldman, um clássico da literatura feminista, com alguns comentários que ajudam a nova geração a situá-lo, por sua ácida crítica aos poderes constituídos, mostra como é antiga a percepção de que essas violências cotidianas não são ocasionais, nem que devemos nos habituar a elas como se fossem. A violência contra as mulheres toma muitas formas – sutis ou agressivas – e nem sempre temos documentação sobre elas. Mas é bom documentar a reação específica da sociedade em alguns momentos a respeito dela.

Muitas lembram das queimas de sutiãs nos anos 60 – uma manifestação que hoje parece pueril, mas que talvez tenha sido simbolicamente importante. Temos também uma bela foto, nunca mais rastreada, de uma operária de uma fábrica famosa de lingerie no Brasil, nos anos 70, dando voltas a uma calcinha em sua mão, no ar, depois, de as operárias terem feito uma revolta contra a revista que elas sofriam ao sair da fábrica. A foto ficou famosa ao ser utilizada na campanha de um deputado – em cujos cartazes a calcinha foi devidamente eliminada, parecendo que a moça estava só fazendo um protesto qualquer.

E, mais recentemente, com a chamada "marcha das vadias" em quase toda parte, de novo as roupas íntimas apareceram em primeiro plano. Numa das belas fotos da marcha na Alemanha, moças de sutiã escreviam no seu peito algo como "isto não é uma permissão" e outras, quase peladas, empunhavam cartazes que diziam "não se trata da roupa, se trata de estupro". Isso sinaliza o quanto é mal entendido o código de vestimentas entre os sexos – desde muito tempo, meninas com o umbigo à mostra tem sido alvo de atenção sexual por parte de agressores – e, a começar pela retórica jurídica nos tribunais, têm sido culpabilizadas pelos ataques que sofrem.

Cláudio Tozzi merece um agradecimento especial por ter permitido a reprodução de um de seus trabalhos da década de 60, que evocava, ao mesmo tempo, a banalidade e a centralidade do sutiã como símbolo das lutas feministas de então e que, mais de quarenta anos depois, é retomada com outros matizes e significados, mas ainda como protesto.

 

Mariza Corrêa
Iara Beleli