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Cadernos Pagu

versão impressa ISSN 0104-8333

Cad. Pagu  no.37 Campinas jul./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332011000200010 

DOSSIÊ: VIOLÊNCIA: OUTROS OLHARES

 

Prefácio à Emma Goldman. Tráfico de Mulheres*

 

 

Margareth Rago

Professora do Departamento de História do IFCH, Unicamp, E-mail: marga_rago@uol.com.br

 

 

Conhecida com uma das mais combativas militantes do movimento anarquista internacional, Emma Goldman, nascida em Kovno, na Rússia, em 1869, imigrada para os Estados Unidos na juventude, continua a nos surpreender pela ousadia das suas ideias e práticas. Intensidade na vida, calor e empenho dramático nas experiências vividas, Goldman renova e radicaliza as posições libertárias e feministas de sua época, destacando-se, segundo suas biógrafas, pela maneira como articula eros e política, em sua própria existência e em suas narrativas políticas ou autobiográficas (Ferguson, 2011; Falk, 1984). Em diferentes frentes de ataque à exploração capitalista, ao imperialismo e à opressão de gênero, ousa discutir assuntos até então pouco enunciados por mulheres, mesmo entre as feministas. O tráfico das "escravas brancas", a prostituição, o casamento e o amor livre compõem um conjunto desses.

No texto aqui apresentado, "O Tráfico de Mulheres", de 1910, o foco se volta para o que Goldman considera mais um uso político dos problemas sociais de sua época do que um real enfrentamento da questão: o tráfico de mulheres da Europa Oriental e Ocidental para a América, por gangues especializadas, destinadas à prostituição. Questionando os reformadores sociais norte-americanos, Goldman nem sequer considera que haja de fato um contingente expressivo de prostitutas estrangeiras nos Estados Unidos, ao menos trazidas pelo tráfico das "escravas brancas". Segundo seus argumentos, a maioria das prostitutas em Chicago era estrangeira porque haviam vindo sozinhas ou com suas famílias, com a forte imigração européia iniciada na década de 1880, assim como ela mesma que, ainda jovem, imigrara com sua irmã para tentar a sorte na América, e acabara trabalhando nas fábricas têxteis. Segundo ela, o discurso contra o "tráfico das brancas" estaria sendo utilizado muito mais como uma forma de deslocar o foco das deploráveis condições sociais vigentes no país, que forçavam as moças pobres a lançarem-se na prostituição. Dizia ela, "é um absurdo apontar para a Europa como o pântano de onde provêm todas as doenças sociais da América" (Goldman, 1909:13).

Contudo, desde que o tema do tráfico sexual voltou à baila entre as décadas de 1970 e 1980, estudos históricos respeitados avaliam que houve um intenso trânsito de mulheres oriundas de regiões empobrecidas da Rússia, Polônia, Romênia e Ucrânia, ou mesmo da França, Espanha e Portugal, destinadas ao mercado sexual nas capitais do Novo Mundo, entre Nova York, Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo, nos inícios do século 20 (cf. Bristow, 1982). É possível encontrar inúmeros relatórios oficiais, cartas e outros tipos de documentos trocados, no período, entre as autoridades inglesas da National Vigilance Association, fundada em 1885 e da Jewish Association for the Protection of Girls and Women, ambas instaladas em Londres, ou ainda da Association pour la Repression de la Traite des Blanches et la Preservation de la Jeune Fille, criada em Paris, em 1901, e as suas filiais estabelecidas nos países de destino das jovens, em que se discutem com muitos dados as possíveis formas de controle ao tráfico das brancas e de vigilância nos portos (Rago, 1999:306-; 2008).

Todas as autoridades concordavam com que, ao contrário do que imaginavam, as jovens vinham com conhecimento da situação futura, apostando em enriquecer com a comercialização sexual do próprio corpo, e não ignorando o que as esperava na nova terra, ao menos em termos gerais (id.ib.:290-). As autoridades policiais do período, os reformadores sociais e as filantropas que, por vezes, aguardavam-nas nas estações ferroviárias ou nos portos, procurando "salvá-las" das garras das gangues de cafetões surpreendiam-se ao darem-se conta de que a maioria delas não era mera vítima de gigolôs desalmados, algumas já sendo prostitutas em suas terras natais, e que muitas haviam aceitado participar desses deslocamentos migratórios em busca de melhores condições de vida.

Goldman tem uma abordagem muito especial e ousada da questão, como se poderá ler em seu texto. Mais do que dissertar profundamente sobre os males e as causas da prostituição e do tráfico de mulheres, usa o tema para lançar a sua crítica social e política ao sistema capitalista, à dominação patriarcal, ao conservadorismo moral, em sua própria atualidade. Assim é que, logo de início, estranha a repentina atenção dada ao chamado "tráfico de escravas brancas" pelas autoridades públicas, questionando que se tratasse de um fenômeno totalmente novo e restrito às "brancas". Ela, então, acrescenta as "amarelas" e as "negras", excluídas já na nomeação do fenômeno. Em seguida, numa aproximação maior, Goldman, conhecida também por seu lado irreverente e boêmio, supõe uma intenção moralista, uma manipulação ideológica em desviar a atenção da opinião pública de algo importante para se iniciar uma "cruzada moral contra a indecência", contra a prostituição, os jogos e os bares. Na verdade, afirma, o que se nota com maior clareza é a indiferença das autoridades em relação às prostitutas e à situação de inferioridade social e moral das mulheres, e não algum tipo de preocupação e cuidado. Num texto absolutamente crítico, não perdoa os de cima, entre governantes e reformadores, mas também não deixa escapar a metáfora do "bebê" para qualificar um povo que se deixa facilmente seduzir por brinquedos novos, dados por gordos políticos parasitários que precisam ocupar-se com alguma coisa: o grito contra o tráfico de mulheres é um desses jogos, diz ela. Assim, Goldman desmistifica e relativiza o tema desde as primeiras linhas de seu texto.

É bem verdade que essa atitude não a impede de enfrentar o assunto direta e criticamente, revelando ainda informação histórica e conhecimento atualizados dos debates sobre a sexualidade e a moral sexual que se travam no período. Nos parágrafos seguintes, as questões vão sendo lançadas, a começar pela exploração capitalista do trabalho que mantém mulheres e meninas em situação de assustadora miséria econômica, aspecto que, segundo ela, os reformadores sociais nunca mencionam, mas que pode ser comprovada por alguns estudos a que ela, militante intelectualizada, recorre. Como exemplo, cita a pesquisa realizada pelo jornalista Reginald Wright Kauffman, autor de The House of Bondage, publicada em 1910, a do médico alemão Alfred Blaschko, autor de Prostitution in the Nineteenth Century, e o trabalho do médico e sexólogo inglês Havellock Ellis, Sex in relation to Society, também daquele ano.

Contudo, se a causa da prostituição radica, em sua explicação, na inferioridade social e econômica da mulher, cujos salários são absolutamente inferiores aos dos homens nas fábricas norte-americanas, a questão não se limita a esse âmbito. Avançando para além das dimensões econômicas, a anarcofeminista explora o lado moral do problema, denunciando a hipocrisia e a misoginia da sociedade moderna, em que as mulheres nunca são vistas pelo mérito de seu trabalho, mas como objetos sexuais. Portanto, diz ela, elas devem pagar pelo direito de existir e esse pagamento é sexual, dentro ou fora do casamento.

Vale lembrar que, nesse momento, ainda se está longe dos debates contemporâneos que se, de um lado, repõem perspectivas tradicionais como as que visam à abolição da prostituição mesmo se considerada um "mal necessário", acenam, de outro, com a proposta da legalização da profissão das "trabalhadoras do sexo", desde as décadas de 1970 e 1980. Naquele momento histórico, porém, as políticas da prostituição se resumiam ao regulamentarismo e ao abolicionismo, criados na Europa pelas elites dominantes, nos inícios do século XIX. O sistema regulamentarista propunha o controle dos territórios desejantes pelo Estado, responsável por definir os lugares da existência das casas de tolerância e dos bordéis nas cidades, os horários de circulação das mulheres, a inspeção médica, entre outros aspectos, enquanto os abolicionistas criticavam aquela proposta como a que faria do Estado não só um invasor da esfera da vida privada e da intimidade individual, mas também um cafetão ele próprio (Corbin, 1978). Chamavam a atenção para a ineficácia de um sistema que humilhava a mulher, fazendo recair apenas sobre ela o peso de uma relação sexual condenável, e que acabava por institucionalizar uma profissão que poderia ser vivida apenas temporariamente. Como dizia, no Brasil, o Dr. Alberto Seabra, em 1902, refletindo a posição de toda uma tendência no interior da medicina:

Médicos visitam periodicamente estes estabelecimentos (os bordéis, N.A.), procedem ao exame nas mercadorias humanas, seqüestram as que estão infeccionadas, garantindo assim o sexo forte. (...) Agentes plenipotenciários, mas não diplomáticos, efetuam a caça paternal às prostitutas rebeles, e constrangem-nas aos regulamentos. E eis, sumariamente como o estado se faz caften (Seabra apud Rago, 1999:129).

Se Goldman repete o argumento tradicional que faz da prostituição um "mal necessário" visando à satisfação do desejo masculino e a preservação do casamento monogâmico a todo custo, ele mesmo um outro tipo de prostituição; se recorre ao argumento econômico como explicação principal para a existência do fenômeno, é de se notar que, adepta do amor livre e em luta pela autonomia das mulheres, abre seu discurso, com o anarquismo, para novos espaços. Um destes concerne à sexualidade e ao desejo femininos, inibidos e castrados pela dupla moral sexual que, diz ela, permite tudo aos homens e nega até o prazer às mulheres. Posição absolutamente arrojada a dessa mulher que ousa enunciar e defender o desejo feminino, especialmente em meios operários, onde os estigmas morais pesavam muito mais fortemente do que nas classes mais abastadas. Como se sabe, Goldman nunca frequentou uma universidade e forma-se culturalmente em contato com militantes de esquerda, com artistas e intelectuais ligados ao mundo do trabalho. Entre seus escritores preferidos, figuram Henrik Ibsen, Fyodor Dostoievski, Leon Tolstoi e Maximo Gorki.

Por outro lado, suas inúmeras biógrafas mostram que ela própria nunca se restringiu aos seus discursos, lançando-se em várias experiências de amor livre ao longo de sua vida e recusando as solicitações de casamento de seus amantes, como Alexander Berkman e Benjamin Reitman, com quem manteve vínculos amorosos e de amizade profundos. Como militante absolutamente dedicada à causa revolucionária e também em função dos constantes deslocamentos a que as perseguições políticas a obrigavam, Goldman não teve filhos, nem um vida propriamente familiar. Seu casamento, assim que chega aos Estados Unidos, torna-se insuportável e rompe-se rapidamente. Logo mais, aderindo ao anarquismo e assumindo posições feministas, passa a denunciar o matrimônio como uma convenção social, um aprisionamento das mulheres, uma castração sexual, ou como uma outra forma de prostituição. Como afirma na palestra "Casamento e Amor", também publicada em Anarchism and Other Essays (1910), "casamento e amor não tem nada em comum (...) e, de fato, são antagônicos um ao outro".1

Aliás, para Goldman, a emancipação feminina está estreitamente vinculada à liberação sexual, ao direito de experimentar o desejo e praticar o amor livre, como defendiam os anarquistas desde o século XIX. Nessa direção, é interessante encontrar nas páginas que seguem uma defesa do direito ao prazer sexual para as mulheres, tema raramente abordado publicamente pelas próprias mulheres, mesmo as feministas, nessa época.

A sociedade considera as experiências sexuais de um homem como atributos de seu desenvolvimento geral, ao passo que experiências similares na vida de uma mulher são vistas como uma terrível calamidade, a perda da honra e de tudo o que é nobre e bom num ser humano [indignava-se ela].

Denunciando a excitação sexual produzida pelo ambiente saturado das fábricas, onde ela mesma trabalhara, a militante explica a predisposição dos sentidos em que acabaria se encontrando a jovem trabalhadora, ao final do expediente, ao mesmo tempo ignorante dos próprios processos corporais e desejantes, facilitando a entrega sexual inadvertida.

Vale notar, ainda, como a libertária Goldman inaugura posições diferenciadas em relação à moralidade social, por exemplo, em sua atitude aberta diante da prostituição. Assim é quando recorre à História para afirmar que, no passado, a prostituição era considerada uma atividade sagrada, que se dava nos templos, e que, no entanto, foi maculada pela Igreja e corrompida pelo capitalismo; ou quando desculpa as prostitutas ao defini-las como vítimas de uma sociedade irresponsável: "A sociedade cria as vítimas das quais depois se esforça em vão por se livrar", acusa ela.

Nesse sentido, não é à toa que Goldman será a madrinha do Mujeres Libres, organização anarcofeminista que, durante a Revolução Espanhola, entre os anos de 1936 e 1939, propõe, entre inúmeras atividades, como a criação de cursos de alfabetização e profissionalização para as mulheres pobres, a criação dos "liberatórios de la prostitución", voltados para auxiliar as prostitutas, ao contrário de outros grupos feministas e socialistas, absolutamente fechados ao contato e diálogo com esse universo considerado imoral e abjeto (Ackeslberg,1991; Rago e Biajoli, 2008). Finalmente, nem mesmo os gigolôs são execrados pela anarcofeminista, que também os vê como produtos de um mundo violento, corrompido e sem perspectivas de justiça social, muito embora também não negue a exploração sexual que exercem sobre as prostitutas pobres.

Nos dias de hoje, o debate sobre o tráfico sexual de mulheres toma novos rumos, desde o geográfico, – já que esses fluxos migratórios partem principalmente da América Latina para a Europa –, até o social, pois vem associado ao envolvimento de crianças e ao turismo sexual. Certamente as discussões em torno do tema cresceram, assumiram direções muito mais complexas e têm envolvido tanto autoridades públicas como feministas, elas mesmas evidenciando posições e interpretações bastante diferenciadas. Ainda assim, e a despeito da distância e da brevidade do texto de Emma Goldman, este se torna uma importante referência pelas posições avançadas que apresenta na crítica à moral sexual conservadora e misógina de sua época.

Às possíveis leitoras e leitores, fica o convite a um contato mais próximo com as reflexões dessa respeitada ativista política, tantas vezes perseguida e expulsa, mas também, repetidas vezes, bem vinda e homenageada pelos grupos políticos de esquerda, entre anarquistas, socialistas e feministas, de sua época e de nosso presente.

 

Referências bibliográficas

Ackeslberg, Martha. Free Women in Spain. Anarchism and the Struggle for the Emancipation of Women. Indianopolis, Indiana University Press, 1991.         [ Links ]

Blaschko, A. Prostitution in the Nineteenth Century, s/r.         [ Links ]

Bristow, Edward. Prejudice and Prostitution. The Jewish Fight against White Slavery, 1870-1939. Oxford University Press, 1982.         [ Links ]

Corbin, Alain. Les Filles de Noce. Misére sexuelle et Prostitution à Paris au XIXe. siècle. Paris, Flammarion, 1978.         [ Links ]

Falk, Candice. Love, Anarchy, and Emma Goldman. New York, Holt, Rinehart, and Winston, 1984         [ Links ]

Ferguson, Kathy E. Gender and Genre in Emma Goldman. Signs, vol. 36, nº 3, spring 2011, pp.733-757.         [ Links ]

Goldman, Emma. Anarchism and Other Essays. 1917 [1911] [http://womenshistory.about.com/library/etext/bl_eg_anb_marriage_ love.htm]         [ Links ].

Havellock Ellis, H. Sex in relation to Society. Studies in the Psychology of Sex, vol. 6, Kessinger Publishing, LLC, 2007 [1910]         [ Links ].

Kauffman, R. W. The House of Bondage. New York, Moffat, Yard, 1910.         [ Links ]

Rago, Margareth, Biajoli, Maria Clara Pivato. (orgs.) Mujeres Libres da Espanhola: Documentos da Revolução Espanhola. Rio de Janeiro, Achiamé, 2008.         [ Links ]

Rago, Margareth. Os Prazeres da Noite. Prostituição e Códigos da Sexualidade Feminina em São Paulo, 1890-1930. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2008 [1999]         [ Links ].

 

 

*  Recebido para publicação em 27 de julho de 2011, aceito em 16 de setembro de 2011.
1 No original, "Marriage and love have nothing in common; they are as far apart as the poles; are, in fact, antagonistic to each other".