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Cadernos Pagu

versão impressa ISSN 0104-8333

Cad. Pagu  no.37 Campinas jul./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332011000200019 

RESENHAS

 

Trabalho e relações sociais de sexo: uma aventura coletiva com Danièle Kergoat*

 

 

Naira Pinheiro dos Santos

Doutora em Ciências da Religião/UMESP; membro do grupo de pesquisa em gênero e religião Mandrágora/Netmal, E-mail: nairapinheiro@gmail.com

 

 

A obra consagrada à trajetória e produção de Danièle Kergoat, socióloga que desenvolveu importantes pesquisas e conceitos no campo do trabalho e das relações sociais de sexo, mas que é também militante, professora e editora, conta com a colaboração de 29 articulistas, "membros de seu laboratório de pesquisa, ex-doutorandos/as, colegas e amigos/as de outros laboratórios e disciplinas, na França e no resto do mundo" (13). A diversidade de lugares a partir dos quais eles/as exprimem a sua homenagem já é, em si, um indicador da extensão e influência da obra de Danièle Kergoat, que não se limita ao considerável volume de publicações elencadas no último capítulo da coletânea. Sua influência, como nos permitem apreender os diversos depoimentos, é também o resultado de uma atitude metodológica, tanto quanto de uma disposição militante e de abertura teórica.

O respeito e o interesse pelo outro, implícitos na noção da "inseparabilidade do objeto e do sujeito na relação que o sujeito nutre com o seu 'objeto'" (88), o rigor na análise e no questionamento dos dados, a insistência com a qual procura "fazer emergir as contradições, os paradoxos, os vazios" (65), assim como a capacidade de acolher e debater suas perspectivas teóricas com colegas e orientandos/as dos mais diversos campos profissionais e de estudos, lhe permitiram não apenas ultrapassar fronteiras disciplinares e avançar na produção de recursos teórico-metodológicos, como também estender sua influência para além de certas fronteiras geográficas e sociais. É esse processo de desbravamento teórico que vai se descortinando aos nossos olhos ao longo da obra, inclusive através dos depoimentos dos/as articulistas sobre as dificuldades e desafios que eles/as mesmos/as enfrentaram e/ou enfrentam na articulação e integração das proposições teóricas de Danièle Kergoat com os seus próprios percursos e campos de pesquisa. Fica evidente também a capacidade de transmitir o seu rigor metodológico, os seus questionamentos, de estimular e desafiar os/as colegas e orientandos/as tal qual a si própria, envolvendo-os/as na "aventura coletiva que, na França e em muitos outros países, fez das relações sociais de sexo um paradigma vivo, dinâmico e promissor" (14).

Por todos esses aspectos, a contribuição de Danièle Kergoat é ampla e diversificada e a presente obra procura apreendê-la a partir de sete eixos temáticos: Relações sociais de sexo, Divisão sexual do trabalho, Trabalho e subjetividade, Cruzar as disciplinas, Para além das fronteiras, Movimentos sociais e resistência, Transmitir, além de uma homenagem em forma de poema de Jacques Jenny – À guisa de epílogo – na qual apreendemos um pouco da trajetória e da história de Danièle Kergoat, e do já mencionado levantamento bibliográfico, efetuado por Françoise Pujol. Na introdução, os/as organizadores/as apresentam brevemente a trajetória de Danièle Kergoat como pesquisadora, destacando a sua atuação na universidade – sobretudo seu papel na estruturação de grupos de pesquisa voltados à problemática de gênero ou das relações sociais de sexo e da divisão sexual do trabalho –, bem como no campo de pesquisa propriamente dito. Destacam-se também aí alguns elementos centrais do seu trabalho de concepção teórica e que constituem objeto de debate ao longo de toda a obra.

Contra a ideia dominante de uma classe trabalhadora homogênea, Danièle Kergoat aponta para a sua heterogeneidade, destacando, por exemplo, a condição de trabalhadores imigrantes, a importância do tempo fora do trabalho e o fato de que a classe operária tem dois sexos. Com relação a este último aspecto, a contribuição de Danièle Kergoat ganha particular importância no tratamento da problemática do engajamento de mulheres operárias em sindicatos ou em ações coletivas: ela demonstra que o desejo de evitar os estereótipos sexistas em vigor, "as conduz a negar sua pertença ao sexo (social) feminino" (16). Na terceira parte do livro – Trabalho e subjetividade – questões como essa do "silogismo do sujeito sexuado feminino" – retomada por Pascale Molinier e, mais adiante por Christophe Dejours –, a das implicações psico-afetivas da divisão desigual do trabalho doméstico, assim como o debate em torno do consentimento, indicam a relevância de levar em conta a subjetividade a fim de "compreender o trabalho em toda a sua extensão" (100), como destaca Helena Hirata.

Nesse bloco, tanto quanto na segunda parte do livro – Divisão sexual do trabalho – os/as articulistas dão conta do fato de que, para Danièle Kergoat, o (re)pensar a divisão sexual do trabalho implicou não apenas tratar da questão da constituição de esferas de trabalho separadas e da atribuição prioritária das atividades domésticas às mulheres, mas também em reconhecer a interpenetração entre trabalho doméstico e remunerado, inclusive no âmbito psico-afetivo, e apreender todas as implicações materiais e simbólicas de tal fato. E mais, implica na necessidade de levar igualmente em conta as relações de classe e étnico/raciais. Ela explicita aí as ideias de coextensividade – as relações sociais "interagem umas sobre as outras" (18), se reproduzem e se co-produzem mutuamente; e de consubstancialidade – as relações de dominação, exploração e opressão se entrecruzam, "estruturam juntas a totalidade do campo social" (18) –, que estão na base do conceito de relações sociais de sexo (rapports sociaux de sexe) desenvolvido por Danièle Kergoat, tema da primeira parte do livro. Vale a pena destacar que em francês existem as expressões relations sociales e rapports sociaux – ambas traduzidas por relações sociais em português. Para Danièle Kergoat, elas possuem significado distinto atribuindo ao primeiro termo um sentido de relação entre indivíduos, e ao segundo o de relação entre grupos sociais em posições antagônicas, concepções problematizadas por Philippe Zarifian no primeiro bloco temático.

Em todos os blocos, mas especialmente em "Cruzar as disciplinas", "Para além das fronteiras" e "Movimentos sociais e resistência" é possível constatar a amplitude da contribuição de Danièle Kergoat. Ela ultrapassa as fronteiras da sociologia – conforme indicam os depoimentos e aportes de articulistas provenientes de outros horizontes disciplinares tão diversos quanto o da sociolinguística, da psicossomática, da ergonomia ou da psicopatologia do trabalho; como também geográficas – do que dão evidência as articulistas que tratam da influência de sua obra no México, no Canadá, no Brasil e na Bulgária; e sociais, uma vez que sua atuação não permanece restrita aos círculos acadêmicos, mas se conjuga à militância, estendendo sua contribuição aos movimentos sociais, de mulheres e sindicais. Em "Transmitir" trata-se do seu aporte como professora, orientadora, editora e mãe.

Revelando-nos o processo e o esforço de construção e de aprendizado mútuo de perspectivas téoricas que, sem dúvida, ganharam um certo nível de evidência nos dias atuais, mas também os questionamentos e conflitos que perduram, mesmo que sob outra roupagem, a leitura dessa obra nos convida e nos estimula – a todos/as os/as "interessados/as em avançar na problemática das relações sociais de sexo, integrando o político, os movimentos sociais, as mobilizações e a resistência" (101) – a nos engajarmos nessa aventura coletiva, plena de descobertas e de desafios.

 

 

*  Resenha de Dunezat, Xavier, Heinen, Jacqueline, Hirata, Helena, Pfefferkorn, Roland. (orgs.) Travail et rapports sociaux de sexe: Rencontres autour de Danièle Kergoat. Paris, L'Harmattan, coleção Logiques Sociales, 2010.  Recebida para publicação em 19 de maio de 2011, aceita em 24 de agosto de 2011.