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Cadernos Pagu

Print version ISSN 0104-8333

Cad. Pagu  no.38 Campinas Jan./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332012000100001 

Apresentação

 

 

Falar de pornografia implica entrar em um território nebuloso. São diversas as definições que têm sido elaboradas sobre essa manifestação e práticas, a partir de diversas posições discursivas e pontos de poder. Ela tem sido analisada desde a crítica do mercado e da produção de imagens no interior da chamada "cultura de massas", com base nas teorias da estética da representação, seguindo diferentes vertentes da crítica feminista, ou da ótica de reformistas e religiosos, além das abordagens sobre as suas implicações legais e jurídicas. Várias dessas definições são perpassadas por juízos e avaliações de ordem moral, procedimento que fica visível no uso recorrente de termos como vulgar, obsceno, baixo, desvio e transtorno, bem como na diferenciação que tem sido estabelecida pela crítica cultural entre o erótico e o pornográfico.

Como aposta teórica, em nossas pesquisas e neste dossiê nós partimos do fato de que não faz sentido estabelecer uma distinção entre erotismo e pornografia. Os historiadores da pornografia moderna não fazem essa distinção (ver Hunt, A invenção da pornografia), preferindo intercambiar os dois termos de modo a alertar sobre as limitações da determinação formal dessa separação. Nessa mesma trilha incide o trabalho de Eliane Robert Moraes baseado na crítica literária e a discussão iniciada nos artigos de Maria Filomena Gregori e de Jorge Leite, neste dossiê.

Na organização da proposta, nós tivemos a preocupação de abarcar um amplo leque de questões levantadas pelas variadas representações da pornografia e pelas redes em que ela se movimenta. Daí a escolha do título Pornôs para destacar a proliferação de segmentos nessa indústria, o conjunto de produtos e imagens circulantes no mercado erótico, as suas possibilidades de colocar em cena múltiplos corpos, prazeres e práticas sexuais, mas principalmente, diversos discursos sobre gênero, raça e outros marcadores sociais da diferença, com todos seus enunciados e efeitos políticos.

Pornôs reúne estudos que analisam noções e práticas pornográficas que desafiam os esquemas de gênero e sexualidade contidos no pornô mainstream. Assim, as nominações alternativo, bizarro, trany, gay, feminista, fat, fetiche, transexual, inter-racial, zoo, pornoterrorista - analisadas nos vários artigos - chamam a atenção para uma plêiade de convenções eróticas desde onde é possível fazer leituras sobre aquilo que Perlongher, em O Negócio do Michê, chamou de tensores libidinais, sobre diferença e transgressão. Entenda-se transgressão não como a mera violação das normas, mas como expressões perturbadoras enquanto prazeres dissidentes ou perigosos que possibilitam aos agentes novos tipos de relações, parafraseando Foucault, "intensas e satisfatórias". Entretanto, longe de se constituir como expressões desregradas, essas relações recriam novos valores, hierarquias, normatividades e desigualdades. A pornografia em geral é um terreno fértil para se pensar como a transgressão ou a dissidência de normas de caráter sexual e de gênero convive mútua e contingencialmente com a obediência e a reiteração das mesmas.

Em seus estudos, Maria Filomena Gregori encontrou uma convenção no rol dos debates feministas que ilustra bastante bem as possibilidades e paradoxos do que chama de prazeres perigosos: o erotismo olhado da perspectiva de gênero constitui prazer e perigo (ver o livro Pleasures and Danger, de Carol Vance). Perigo na medida em que é importante ter em mente aspectos como o estupro, o abuso e o espancamento, na medida em que são fenômenos relacionados ao exercício da sexualidade. Prazer porque há na busca de novas alternativas eróticas uma promessa de transgredir as restrições impostas à sexualidade quando tomada apenas como exercício da reprodução. Essa zona tensa e relacional entre prazer e perigo é o que a autora chama de "limites da sexualidade", limites que serão analisados de diversas formas nos artigos que compõem o dossiê.

Tratar sobre a pornografia permite investigar misturas e articulações feitas a partir das diferenciações sociais, operação realizada quase sempre nos moldes da paródia. Por exemplo: a raça é um marcador social da diferença que atravessa o texto de Jorge Leite sobre as pessoas que transitam entre os gêneros e como esses corpos são divulgados no mercado pornô em relação a imaginários de cor e de nacionalidade. O artigo de Don Kulick também se debruça sobre a questão da ausência de mulheres negras no fat porn. O pornô alternativo produzido no Brasil se destaca pela inclusão de pessoas que passam por processos de body modification (tatuagens e piercings) e de corporalidades distintas se comparadas aos tipos do pornô heterossexual convencional. Contudo, trata-se de corpos predominantemente brancos. O artigo de Maria Elvira Díaz-Benítez analisa os tipos de humanos que são incluídos no pornô com animais e revela que se trata de mulheres e de travestis. Esse estudo revela que a forma como esse segmento da pornografia, dita bizarra, é promovida no mercado internacional levanta ideias em que raça aparece por momentos como sinônimo de nação e de pobreza. Osmundo Pinho discute diretamente raça no segmento da pornografia gay que fornece um inventário com fetiches que salientam desejos sexuais racializados.

Mas, por que estudar convenções de erotismos e sexualidades no marco do mercado e não apenas em relação a universos institucionais e suas maquinarias de produção de saberes, projeto inaugurado por Foucault? Porque além da constatação empírica de que para as novas alternativas eróticas esse universo é significativo, o mercado constitui atualmente uma das figuras mais paradoxais. Nesse cenário, reúnem-se experiências que alternam, de modo intrincado, esforços de normatização e também de ressignificação e mudança de convenções sobre sexualidade e gênero.

No Brasil vêm sendo desenvolvidas diversas pesquisas nessa direção, isto é, sobre convenções de erotismo que se configuram dentro e a partir do mercado, o que permite perceber a consolidação de um novo campo de estudos.1 O artigo de Maria Filomena Gregori pretende, através de uma etnografia de sexshops em São Paulo, aprofundar a discussão sobre mercado erótico, suas conexões mais gerais com o mercado, bem como a criação de novos nichos relacionados aos produtos eróticos que revelam novas posições de gênero e de sexualidade.

A relação do feminismo e da pornografia é outra preocupação dos autores e autoras deste dossiê. Em seu livro Hard Core, Linda Williams estabelece uma análise sobre o desenvolvimento do pornô feminista e a relação de algumas atrizes do pornô mainstream com a militância política feminista. O seu artigo publicado neste dossiê apresenta um rico depoimento pessoal sobre a revolução sexual dos anos 60, descortinando aspectos bastante singulares sobre as trajetórias e experiências sexuais dos jovens norte-americanos. Carol Parreiras discute o pornô alternativo e suas relações com novas posições dos prazeres e das sexualidades femininas. Don Kulick em seu artigo faz referência às críticas que um setor do feminismo tem levantado em relação a esse tipo de pornografia no qual homens engordam mulheres com o fim, explicam elas, de submetê-las. A filósofa Nancy Prada em seu artigo recria um debate que teve seu momento de destaque nos Estados Unidos entre dois polos feministas,2 que como crítica não é uniforme e que tem se desenvolvido para além do plano acadêmico (também no território artístico) destacadamente na Espanha. Pensadoras e militantes, algumas das quais atuam paralelamente como performers pornô-feministas, chamam a atenção aos novos enunciados políticos sobre desejos e prazeres contidos nas manifestações pós-pornográficas, pornoterroristas. María Elvira Díaz-Benítez no artigo deste dossiê se pergunta que tipo de sensibilidade é despertada pelos filmes que o pornô vende como zoofilia, produzidos no Brasil, quando estes utilizam uma fórmula em que sempre são mulheres os corpos destacados para fazer sexo com animais. Este segmento da pornografia interessa em particular a uma reflexão - que merece ainda ser mais explorada - sobre os limites do consentimento nas práticas sexuais. Como se sabe, as novas formas de erotismo assinalam, com poucas exceções, que o consentimento dos envolvidos é a base legítima para a sua realização. Muito do que se entende sobre direitos sexuais parte desse pressuposto. A questão que intriga é a de como pensar sobre o consentimento quando se trata de relações com seres que não são constituídos como sujeitos. Antes, são postos não apenas legalmente, mas, sobretudo, ordinariamente como objetos de tutela senão dos sujeitos humanos, do Estado.

Enfim, esse conjunto de textos apresenta análises contemporâneas nos estudos sócio-antropológicos sobre pornografia e traz ao leitor a oportunidade não apenas de conhecer um campo bastante novo e rico de investigações, mas também de fornecer elementos para aprofundar e renovar a agenda de discussão sobre sexualidade, erotismos, prazeres e seus variados efeitos e implicações.

 

Maria Filomena Gregori
Maria Elvira Díaz-Benítez

 

 

1. Cabe citar O Negócio do Michê de Néstor Perlongher como inaugurador dessa vertente, os diversos trabalhos de Adriana Piscitelli sobre turismo sexual e mercado do sexo, a pesquisa sobre sex shops e mercado contemporâneo de bens eróticos de Maria Filomena Gregori. Também pesquisas realizadas no seio do Núcleo de Estudos de Gênero PAGU: as já mencionadas de Piscitelli e Gregori, somadas a de Julio Simões - dentro do projeto temático Fapesp 2005-2009 - e alguns de seus alunos: Isadora França (Consumindo lugares, consumindo nos lugares), Regina Facchini (Entre umas e outras: Mulheres (homo)sexualidades e diferença na cidade de São Paulo.), Camilo Braz (À meia luz. Uma etnografia imprópria sobre clubes de sexo em São Paulo). O recente livro Prazeres Dissidentes, organizado por Maria Elvira Díaz-Benítez e Carlos Fígari reúne artigos que também apontam nitidamente para a consolidação desse campo (ver Pelúcio, L. Oliveira, Arent, Pasini, Teixeira, Sousa, Leite Jr), a pesquisa sobre prostituição de Ana Paula da Silva e Thaddeus Blanchette também merece destaque.
2. Um primeiro, cujo argumento insiste em que o corpo feminino vendido no pornô é basicamente um objeto configurado a partir de um desejo dominante e masculino. Esta visão atribuiu à pornografia as causas da violência contra as mulheres, os crimes de misoginia, a discriminação sexual e a propagação das desigualdades hierárquicas de gênero (ver Catharine Mackinnon e Andrea Dworkin). E um segundo polo que teve como marco o livro Pleasures and Danger, de Carol Vance, e que desassociou a ideia da dominação e da coerção como modelo único relativo à sexualidade, criticando os posicionamentos estanques de gênero contidos nessa relação, e as restrições ao comportamento sexual das mulheres colocadas nos posicionamentos das feministas radicais. Desde essa perspectiva, corpo, pornografia e sexo são lugares de ressignificação política para mulheres e outras minorias sexuais, e o prazer transforma-se em objeto de reflexão, assim como as maneiras alternativas e as escolhas sexuais que levam até ele. Essa postura alimentou grande parte das reflexões teóricas do feminismo contemporâneo e da teoria queer, ao mesmo tempo em que aplainou o caminho para as diversas análises que têm sido feitas, nas últimas duas décadas, sobre pornografia relacionada a práticas sadomasoquistas, fetichistas, transgênero e estudos gay/lésbicos - entre os mais relevantes, os estudos de Gayle Rubin (The Catacombs: A Temple of the Butthole), e Pat Califia (Public Sex, the culture of radical sex) - nutrindo, ainda, a chamada pós-pornografia.