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Cadernos Pagu

Print version ISSN 0104-8333

Cad. Pagu  no.38 Campinas Jan./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-83332012000100008 

DOSSIÊ: PORNÔS

 

Pornô*

 

Porn

 

 

Don Kulick

Professor de Antropologia no Department of Comparative Human Development, Universidade de Chicago. dkulick@uchicago.edu

 

 


RESUMO

Este artigo analisa os enunciados sobre corpos e sexualidade presentes em uma ampla linha de produções pornô com mulheres obesas. Nessa filmografia, o foco não recai em genitais e nádegas (os quais geralmente nem chegam a ser expostos), mas nos estômagos das atrizes. A representação pornográfica consiste no ato de mostrar mulheres gordas comendo alimentos ricos em gordura. A penetração do pênis ou de outro objeto na vagina, típica do pornô mainstream, é substituída pela imagem da penetração de comida na boca dessas mulheres. O autor discute: são essas cenas realmente pornográficas? O que estaria por trás dessas cenas, conclui, seria uma outra forma de representar o prazer feminino para além da submissão a uma potência fálica. O artigo examina também os motivos pelos quais esse tipo de pornografia não inclui mulheres negras, a controvérsia ao redor da relação entre feeder/feedees, assim como os diversos tipos de transgressões levantadas pelo fat porn, uma delas seria uma transgressão que inverte os valores colocados nos corpos magros e seus prazeres.

Palavras-chave: Corpo, Sexualidade, Mulheres Obesas.


ABSTRACT

This paper analyzes statements on bodies and sexuality in a line of porn productions with obese women. In that filmography, the focus is not on genitals and buttocks (generally not exposed), but in the stomachs of the women. The pornographic representation consists in showing fat women eating fat food. Penis or any other object penetration in the vagina, typical in mainstream pornography, is substituted by the penetration of food in these women's mouths. The author asks: are these scenes really pornographic? What lies behind them? And concludes that it would be another form of presenting feminine pleasure besides submission to phallic Power. The paper also examines the reasons why this kind of pornography does not include black women, the controversial relations of feeders to feedees, as well as many kinds of transgressions presented in fat porn: one would be the inversion the values attributed to slim bodies and their pleasures.

Key words: Body, Sexuality, Obese Women.


 

 

Numa noite recente e solitária, no desgastado motel Estrela de Chelsea, meu amigo de infância Eli decidiu verificar os preços de alguns serviços de acompanhantes com números selecionados a partir da contracapa de certo conhecido semanário de Nova York. Percebendo que sua sonhada noite resultaria apenas em uma noite de sonhos, saiu para a escuridão úmida em busca de um meio menos caro de satisfazer seu apetite. Voltou com um hamburguer de queijo e uma cópia de Big Butts [Bundas Grandes]. Nunca soubera que Eli - a pessoa com quem, na sétima série, vi minha primeira pornografia - gostava de mulheres grandes... Mas ele gosta. Assim como, imagino, alguns de vocês.

Essa breve citação é a abertura de uma resenha sobre filmes de pornô hard core (explícito/pesado) na coluna bi-semanal do Village Voice, escrita por alguém que se assina Johnny Maldoro (2002). A resenha avalia vídeos como Chunky Cheerleaders: Obesity U [Animadoras de Torcida Gordas: Obesidade U], Chunky Chicks 19 [Meninas Gordas 19] e Scale Bustin' bimbos 5 [Minas que Estouram as Medidas]. Faz uma série de piadas capengas sobre gordura e conclui na mesma nota, com o sussurro auto congratulatório de que "sweet dreams are made of this" [é disso que são feitos os doces sonhos].

Nos vídeos que Johnny Maldoro resenha, as mulheres mostradas, em sua maioria, estão envolvidas em sexo genital. O sexo pode ser um tanto fora do comum - em Chunky Cheerleaders, por exemplo, duas mulheres inserem mutuamente uma na outra um grosso dildo nas partes pudendas, mas a câmera focaliza como elas comem a parte central de dois biscoitos recheados. Não é exatamente um pornô hard core tradicional. De qualquer maneira, alguma forma de contato genital é mostrada.

Além desse tipo de pornografia, que difere dos tipos mais convencionais apenas por mostrar mulheres gordas, há outro tipo de pornografia de gordas dirigida a um público mais especializado. É uma pornografia que muitos de nós já encontramos, em geral sem ter consciência em shopping centers. Ela é exposta em prateleiras de cartões de saudação, nas seções reservadas para cartões para aniversários gays, cartões de flatulências e cartões exibindo velhas desdentadas. Misturadas nesse tipo de seção, você encontrará com frequência um conjunto de cartões de Senhoras Gordas. Eles sempre exibirão fotos de corpo inteiro de mulheres extremamente obesas nuas ou em lingerie transparente, sorrindo sedutoramente e soprando beijos, com legendas do tipo "É seu aniversário, deixe tudo cair", ou "As melhores coisas vêm em grandes pacotes". Da próxima vez em que vir um cartão como esses, gaste um momento para considerar que muitas das modelos nesses cartões são famosas no mundo da pornografia das gordas, onde são vistas como deusas.

A pornografia de gordura que apresenta mulheres como essas é uma pornografia especializada em mulheres que pesam bem mais de 200 quilos. Algumas das maiores estrelas equilibram a balança acima dos 300 quilos. À parte do puro tamanho das modelos, a coisa que mais chama a atenção sobre esse tipo de pornografia é que as mulheres exibidas não se envolvem em sexo genital. Em lugar disso, posam vestidas de lingerie em seus quartos, de biquínis em seus sofás, nuas em suas cozinhas. Embora mostrem seus seios e traseiros, a maior atenção é focalizada em seus estômagos.

Os genitais em geral não são exibidos, talvez em parte porque parece simplesmente impossível, quando uma mulher passa da marca dos 250 quilos, ver seus genitais sem ajuda de equipamento especial. Em lugar do sexo genital, essas mulheres se engajam comumente em comer. A representação pornográfica aqui consiste no ato de mulheres gordas consumindo comida gorda: pode ser pizza, sorvete, spaghetti ou chantilly. Podem estar limpas, ou meladas, sozinhas ou com amigas.

 

 

Em todos os casos, o ato pornográfico não é a exibição de um pênis ou algum outro objeto entrando na vagina de uma mulher. Aqui, o ato pornográfico é a exibição de comida entrando na boca de uma mulher. Veja as promessas picantes feitas em um sítio da web que anuncia vídeos para esse particular mercado erótico:

"Sandie - o vídeo do boudoir" é uma espiada privada no boudoir e banheiro de uma mulher gorda... Esse vídeo mostra Sandie em uma lingerie reveladora, movendo-se, dançando e sorrindo sedutoramente. Há uma cena de comida extremamente provocativa, para não mencionar sua divertida experiência com um grande pote de creme chantilly, para aqueles que curtem fantasias de comer. E, finalmente, vemos Sandie inteira em sua exuberância nua de quase 200 quilos, divertindo-se numa banheira Jacuzzi cheia de espuma.

(Nudez de bom gosto) 55 minutos, com música (Sítio de Produções Russo)

"Nudez de bom gosto", de fato - a divertida experiência com o grande pote de creme eletriza a expressão, abrindo uma nova gama de possibilidades e significados. Aqui, outra provocação, dessa vez do sítio da diva da pornografia gorda Supersize Betsy:1

Meu novo vídeo inclui: eu comendo um lauto desjejum nua na cama... andando nua... amarrada e recebendo um litro e meio de creme por um tubo grosso (mais grosso que no vídeo anterior - de modo que entra em mim muito rápido! Minha barriga também "senta" na cama lindamente nessa cena)...

Pode-se perguntar, o que está acontecendo aqui? Primeiro, cenas do ato de comer como estas são realmente pornográficas? São sim, dizem os fãs. O primeiro número da hoje extinta revista lésbica Fat Girl (Menina Gorda) ("Uma revista para Sapatas Gordas e para as Mulheres que as Querem") continha nada menos que dezoito fotos de mulheres grandes, a maioria delas inteiramente vestidas, alimentando outras com uvas, creme, sorvete e outras comidas (Fat Girl, 1994). O número 2 publicou a seguinte carta de um leitor:

Acho que minha parte favorita do primeiro número... foram as fotos das mulheres se alimentando mutuamente. Tão pornográficas!!! Não creio que tenha jamais visto fotos de mulheres grandes comendo, alegremente comendo, muito menos alimentando uma a outra com tanta alegria. Essas fotos me mandaram uma corrente elétrica (Fat Girl, nº 2:2).

Outros que claramente acham eróticos esses retratos são indivíduos que se identificam como "alimentadores" (feeders) e "alimentados" (feedees). Um alimentador é uma pessoa que tem prazer em encorajar e ajudar outra pessoa a ganhar peso. Um alimentado é alguém que tem prazer em ganhar peso, especialmente com assistência de um alimentador num contexto de relação sensual ou sexual. O maior sinal de compromisso em uma relação entre alimentador e alimentada ocorre quando a alimentada permite ser "levada à imobilidade" pelo alimentador. Isto é, quando ela ganha tanto peso que fica incapaz de andar. Mulheres como a Supersize Betsy, que é uma das alimentadas mais conhecidas, falam sobre isso em termos românticos. Próxima dos 250 quilos, ela acredita que pode aumentar outros 30 antes de chegar à imobilidade. Mas "não gostaria de fazê-lo casualmente", explica. "Estou me guardando para o homem certo" (Gates, 2000:199).

Relações entre alimentador e alimentada são controvertidas, mesmo entre admiradores da gordura. É notável que a maioria das alimentadas pareça ser de mulheres heterossexuais. Lésbicas gordas, que discutiram o fenômeno em um número de Fat Girl, ficaram impressionadas pelas implicações patriarcais de um homem engordando uma mulher a ponto de torná-la totalmente dependente dele. Mas, como observa a própria Supersize Betsy, poucos alimentadores estão de fato dispostos a levar suas alimentadas à imobilidade:

... há outros problemas que vêm com o tamanho, como escaras nas dobras da pele. Você tem de estar com alguém disposto a cuidar de você por vinte e quatro horas por dia. E essas pessoas realmente não existem. Tenho procurado por seis anos e não encontrei nenhum homem que realmente quisesse me levar à imobilidade. Eles podem fantasiar sobre isso, mas não querem realmente fazê-lo (id.ib.:199).

É para esse domínio da fantasia que os provedores da pornografia gorda apontam. E embora as fantasias sejam sempre experiências intensamente privadas, uma coisa que sabemos sobre elas é que não acontecem aleatoriamente. Ao contrário, elas são distribuídas socialmente. De modo que uma questão sociológica que pode ser posta sobre as fantasias gordas é: quem as têm?

Se começarmos com gênero e sexualidade, podemos notar, talvez de maneira não surpreendente, que não existem sítios na internet ou revistas nas quais homens de 200 quilos exibam seu amplo físico para mulheres. Tampouco encontrei evidência de pornografia sobre gordura de lésbicas. A revista Fat Girl, que já mencionei, foi publicada durante dois anos em meados dos anos 90, mas apareceram apenas seis números, e ela parou de ser publicada em 1996. As imagens exibidas em Fat Girl, e as imagens de comida, eram semelhantes às que mostrei aqui. Mas havia mais sexo - o primeiro número tinha um pôster central que mostrava um mulher gorda vestida de couro sendo penetrada por um punho na vagina. Essa era uma imagem típica. Sempre que sexo sobre gordura era exibido em Fat Girl, tendia a ser mostrado como servidão ou sexo sadomasoquista. A ligação entre gordura e S/M é interessante e vou voltar a ela em seguida.

Há sítios na internet e revistas para homens gay grandes, como uma revista chamada Bulge (Inchado), e um sítio chamado Big Bellies (Barrigas Grandes). Eles exibem algumas das convenções de representação mostradas pelas revistas das mulheres - isto é, há um foco no estômago, e às vezes há fotos sobre comida. Mas uma nítida diferença é que as formas extremas de obesidade que caracterizam muitos dos sítios e vídeos das Big Beatiful Women estão ausentes. Não existem estrelas pornográficas masculinas gays de 200 quilos. Ao invés disso, a admiração gay pela gordura parece focalizada sobre uma enorme, e frequentemente cabeluda, barriga, mas não sobre uma obesidade incapacitadora. Não encontrei nenhuma indicação de que existam gays gordos desejando serem levados à imobilidade por outros homens.

A raça é uma dimensão muito interessante da pornografia sobre a gordura, já que esta é consistentemente marcada como branca. Existem, é claro, centenas de vídeos piratas, revistas e sítios na internet, nas quais mulheres negras e latinas exibem seus traseiros. Mas o tipo de pornografia sobre a gordura que estou discutindo aqui consiste, majoritariamente, de mulheres brancas e parece dirigida, tanto quanto se pode dizer, para homens brancos. Não é particularmente óbvio porque isso deveria ser assim, especialmente quando se considera que uma das imagens mais conhecidas e duradouras de mulheres gordas na cultura norte americana é a da grande mamãe gorda (big black Mammy).

E, de fato, a imagem da mamãe foi lembrada durante uma discussão em uma mesa redonda sobre gordura e raça publicada no terceiro número de Fat Girl. Durante a conversa, uma mulher afro-americana chamada Wolfie observou que sempre tinha achado que é mais aceitável para as mulheres negras serem gordas

"porque somos as 'Mães da Terra', e estamos em contato com nossas 'sensações naturais'..."

"Ou (vocês são) mães", disse um dos seus interlocutores.

Sim, concordou Wolfie. "E isso quer dizer, não, vocês não vão obter automaticamente conforto das minhas tetas"

(Fat Girl, 3:43).

Esse tipo de associação entre mulheres negras, 'sensações naturais' e completa boas vindas de tetas que 'automaticamente' oferecem conforto, é, é claro, fruto de uma longa e degradante história racista. Porque, então, ela não está circulando como pornografia da gordura? É surpreendente que não esteja, já que embora a pornografia tenha várias qualidades positivas, é provavelmente o último lugar no qual procuraríamos mensagens socialmente progressistas. Ao contrário, a pornografia é o lugar para onde os politicamente incorretos se retiram quando não há mais para onde ir. A pornografia dá as boas vindas ao proibido. Apóia o vulgar. Trafica com o ofensivo. Assim, o fato de que a pornografia não tenha (ainda?) explorado imagens racistas de mulheres negras obesas é intrigante.

Talvez devamos procurar uma explicação para esse hiato nas atitudes sociais a respeito da obesidade. Na medida em que as experiências de Wolfie possam ser generalizadas, parece (pelo menos nos Estados Unidos) que a gordura em mulheres não brancas talvez não suscite a mesma condenação que suscita em mulheres brancas. Esse é certamente o caso em muitas comunidades não brancas, sobre as quais sabemos que a gordura não tem as mesmas fortes associações repulsivas que tem entre os brancos. Estudos empíricos por pesquisadores como Mimi Nichter (2000) concluem que, por exemplo, nas comunidades afro-americanas há uma imagem mais flexível da beleza feminina, que dá mais ênfase ao estilo pessoal do que a uma aproximação de um ideal padronizado. Antecipando meu argumento sobre a pornografia sobre a gordura de modo geral, podemos dizer que a razão pela qual a pornografia sobre a gordura é predominantemente um gênero branco seja esta: já que a gordura em relação às mulheres negras não é reprimida como é em relação às mulheres brancas, a gordura negra não se presta facilmente a representações pornográficas.

 

Então, do que trata a comida?

Tendo esboçado as principais convenções da representação e as características sociológicas da pornografia da gordura, agora chegamos ao âmago do assunto: porque a pornografia sobre a gordura existe afinal? Do que se 'trata'?

Como toda pornografia, a pornografia da gordura trabalha com transgressões. E a forma simbólica que essas transgressões assumem aqui é a da inversão. Obviamente, o que está sendo invertido é o valor alocado em corpos magros e nos prazeres. Todos sabemos quão central é esse valor na cultura ocidental contemporânea, especialmente no que diz respeito às mulheres. Fat Girl perguntou aos leitores como eles achavam que as mulheres gordas eram representadas na mídia. Uma resposta típica foi essa:

De maneira odiosa. Você quase nunca vê representações positivas de mulheres gordas na tevê. Se uma mulher é gorda, ela deve ser: relaxada, feia, engraçada - mas com uma graça auto-depreciativa, assexuada, confinada à sua casa ou escritório, sentada em frente da tevê, comendo bombons, fazendo dieta, em uma máquina de exercício, doente porque tem pressão alta ou porque é gorda (não porque ela está doente com a dieta, com a expiação e os altos e baixos para atingir alguma norma impossível), esperando pelo Senhor Certo que a ame a despeito de seu 'problema de peso' (Fat Girl, 1:12).

Os exemplos inversos são inúmeros. Os elogios que celebridades como Elizabeth Hurley e Catherine Zeta Jones recebem quando conseguem perder o peso que ganharam durante a gravidez são tão extasiados como os reservados para os campões olímpicos. Muitos pareciam acreditar que a atriz René Zwelliger merecia o Oscar de 2003 simplesmente porque se transformou da gorda que representava no Diário de Bridget Jones na esbelta bomba sexual que representou em Chicago. As 'batalhas' sem fim de Oprah Winfrey com seu peso (na geração anterior eram as de Elizabeth Taylor) continuam a galvanizar a nação. A ex-Spice Girl Geri Halliwell torna-se cada vez mais magra e mais loira, e continua a construir uma segunda carreira como especialista em dietas. A segunda parte de sua autobiografia a mostra satisfeita enroscada em uma fita métrica.

Em sociedades como a sociedade ocidental contemporânea, nas quais a gordura foi sem cessar declarada não atraente, não saudável, não desejável, é tanto cultural quanto psicanaliticamente previsível que deveria haver um 'retorno do oprimido', na forma de grupos de pessoas para quem silhuetas gordas são o foco da fantasia erótica e da satisfação.

A questão intrigante não é tanto porque isso deveria ser assim. Há muito tempo atrás, Freud explicou que uma maneira certa de assegurar que alguma coisa se torne desejável é proibi-la e declará-la má. Vemos evidência disso continuamente na nossa vida cotidiana. Quais são as palavras que as crianças pequenas se deliciam em repetir? As palavras proibidas, 'más'. O que fazemos para celebrar alguma vitória ou um evento feliz? Comemos doces, bebemos álcool, fumamos charutos - todos comportamentos que são amplamente classificados como 'maus' e que são proibidos na vida cotidiana de muitas pessoas, tornando-os assim atraentes e desejáveis.

Porque o proibido incita o desejo porque é proibido, perguntar-se porque a pornografia sobre gordura existe é perguntar-se sobre o óbvio, pelo menos se você acredita em Freud. Ele nos diria que ela existe não apesar do fato de que causa repulsa a muitas pessoas, mas exatamente porque causa repulsa a muitas pessoas. E, portanto, atrai.

Mas o que é mais intrigante considerar é exatamente o que estamos vendo quando vemos pornografia sobre gordura. Se, como observa a crítica cultural Laura Kipnis (1999) "Gordura é aquilo para o qual a nossa sociedade não quer olhar. Em resposta, a pornografia a torna visível" - se isso é assim, então exatamente o que se torna visível? O que estamos sendo chamados a olhar quando olhamos para os 300 quilos de Supersize Betsy, timidamente posando com seu estômago apoiado na pia do banheiro, ou quando vemos a sorridente atriz Teighlor exibir seu corpo de 200 quilos, ou quando vemos aquela foto feliz da atriz lésbica na capa de Fat Girl?

Um dos primeiros trabalhos acadêmicos sobre filmes pornográficos hard core foi escrito por Linda Williams, professora de Estudos de Cinema na Universidade de Califórnia, Berkeley. Seu livro Hard Core, foi publicado em 1989. Hoje é visto como um clássico. Hard Core faz uma série de observações agudas sobre a representação pornográfica. Argumenta, por exemplo, que os filmes de pornografia pesada são muito parecidos com musicais, com os números sexuais em lugar dos números musicais. O livro de Williams também é famoso por sua análise crítica da história e do significado do assim chamado 'money shot' na pornografia - a cena de orgasmo no final de um encontro sexual na qual um homem ejacula sobre o rosto ou o corpo de uma mulher.

Mas a proposta central do livro de Linda Williams é que a pornografia tem problemas "em representar o 'conhecimento' visual do prazer feminino". O que isso quer dizer? Quer dizer o seguinte: O problema que a pornografia se coloca é como mostrar a verdade sobre o prazer sexual. O prazer masculino é facilmente evidenciado. É difícil, para não dizer impossível, para um homem fingir uma ejaculação, especialmente tendo em vista os pequenos orçamentos e a capacidade limitada de edição da maioria dos filmes pornográficos. Assim, um 'money shot' diz tudo, que é a sua razão para existir em primeiro lugar. Em outras palavras o coitus interruptus que vemos nos filmes pornográficos não é um gesto magnânimo da indústria para prevenir uma gravidez não desejada nas atrizes pornôs. Ele está lá para mostrar que o sexo apresentado é verdadeiro, quente e orgásmico. Para o homem.

É muito mais difícil exprimir de modo convincente o prazer sexual das mulheres. 'Está vindo, está vindo'. Mas como se sabe, com certeza, que ela realmente teve um orgasmo, que ela não está simplesmente posando ou fingindo? Onde está a evidência? Em Hard Core, Williams examina esta questão traçando a história da pornografia no cinema, desde filmes homossexuais, indiferentes aos orgasmos femininos, até o que ela chama de "modelo clássico do pornô heterossexual, como Garganta Profunda" que supunha que o prazer invisível de uma mulher poderia ser medido pela ejaculação visível de um homem (Williams, 1999:310).

A ideia de que o prazer sexual das mulheres se torna visível na pornografia pelo detonar da ejaculação do pênis de um homem talvez não seja, à primeira vista, imediatamente aparente. Assim, deixem-me explicar brevemente, usando o filme Garganta Profunda, de 1972, como exemplo.

O enredo do filme, para os que não o assistiram, é que a personagem principal, Linda Lovelace tem muito sexo, mas pouco prazer. Finalmente, ao procurar um médico para ajuda com o problema, descobre-se que ela não tem clitóris. Seu clitóris, de fato, está bem no fundo de sua garganta. De modo a verificar se sexo oral profundo vai estimular seu clitóris e lhe proporcionar o orgasmo que ela nunca teve, o médico que descobriu sua anomalia anatômica generosamente se oferece para testar o caso e ela testa a 'garganta profunda' com ele, recebendo seu pênis no fundo de sua garganta. No final dessa sequência, Linda Lovelace finalmente tem seu tão antecipado orgasmo. O orgasmo é visualmente expresso através de sinos tocando, fogos de artifício explodindo, um foguete sendo lançado e - esse é o ponto da outra Linda, Linda Williams - o pênis do médico ejaculando no seu rosto. O rosto do médico não é visto nessa sequência orgásmica: todos os signos visuais representam o prazer de Linda Lovelace. E a climática representação visual final desse prazer é o 'money shot', o pênis ejaculando.

Linda Williams observa que, desde Garganta Profunda, a pornografia tentou encontrar outras maneiras de mostrar o prazer feminino. Alguns filmes ocasionalmente omitem os 'money shots', exibindo jogos prévios, ou jogos pós relação, e filmam os atos sexuais com os personagens vistos no seu conjunto, ao invés de focarem apenas os genitais. Mas apesar dessas inovações, a expressão visual do prazer sexual feminino continua a ser um espectro que ronda a pornografia como um gênero de representação. Como o prazer feminino pode ser representado como algo que não seja desejo ou submissão a um pênis que significa poder e potência fálica?

É neste ponto que a pornografia sobre a gordura de repente se torna muito interessante. Em sua maneira modesta, a pornografia da gordura pode ter descoberto uma maneira poderosa de mostrar esse outro tipo de representação.

Um pouco antes de morrer, em 1984, o filósofo francês Michel Foucault deu uma entrevista na qual ele falava liricamente do sexo sadomasoquista. Foucault descobrira o S/M alguns anos antes, e ficou cativado, parcialmente pela energia sexual que ele lhe dava, mas também porque o filósofo nele percebeu o S/M como fazendo alguma coisa realmente radical.

Foucault tinha passado boa parte de sua vida de pesquisa documentando o crescimento da sexualidade na vida ocidental. Ele mostrara que o que consideramos como 'sexualidade' não é um fenômeno natural ou atribuído por Deus, mas, ao invés disso, uma maneira cultural e historicamente específica de vincular arbitrariamente partes específicas do corpo, atividades específicas, sensações e saberes. Na visão do senso comum contemporâneo, por exemplo, pensa-se no sexo como uma atividade de duração limitada que ocorre quando as assim chamadas zonas erógenas de uma pessoa (bicos dos seios, boca, genitais) são estimulados, idealmente para chegar ao orgasmo, frequentemente pelo contato com as zonas erógenas de outra pessoa. Esta atividade supostamente é prazerosa e produz prazer e suas formas socialmente aprovadas ocorrem entre pessoas de status e classe social mais ou menos equivalentes.

O sexo sadomasoquista ignora muitas dessas vinculações e as re-arranja. No sexo S/M, objetos e partes do corpo que não são usualmente imaginados como sexuais (prendedores de roupa, coleiras de cachorro, urina, punhos) se tornam altamente erotizados. O sexo S/M com frequência não resulta em orgasmo para nenhum dos envolvidos. Ainda que seja prazeroso, chega ao prazer pela dor, vinculando assim duas sensações que a 'sexualidade' nos diz para manter separadas. Ele exagera e erotiza o poder em situações nas quais a 'sexualidade' nos exorta a minimizá-las ou equalizá-las. Foucault ficou fascinado com o S/M porque viu nele a possibilidade de romper com o regime que a 'sexualidade 'tinha imposto aos nossos corpos, nossas relações, e nossas percepções de prazer. Se a 'sexualidade' é uma das maneiras pelas quais chegamos a conhecer a nós mesmos como indivíduos na sociedade contemporânea, então o sexo S/M, com sua desagregação de corpos, prazeres e saberes, oferecia maneiras subversivas e novas de nos conhecermos de maneiras diferentes, de maneira que, quem sabe, poderiam levar a potenciais e realizações diferentes.

Se Foucault tivesse vivido o suficiente para navegar na Internet e descobrir algumas das páginas das Big Beautiful Women, creio que ele teria gostado da pornografia da gordura. Como o sexo sadomasoquista, a pornografia da gordura desloca o prazer erótico dos genitais, resignificando assim o corpo prazeroso. É neste sentido que a equação feita em Fat Girl entre mulheres gordas e S/M é uma equação lógica.

Outro rompimento que a pornografia sobre a gordura efetua é com a temporalidade limitada que a 'sexualidade' demanda. Nossa compreensão da sexualidade determina que não devemos fazer sexo o tempo todo. O sexo deve acontecer em privado, longe das vistas do público, e por períodos limitados de tempo (vinte minutos, duas horas, uma tarde inteira... Mas não todo o tempo). A pornografia da gordura zomba desta convenção.

Ela não se restringe a retratar atos particulares, temporalmente contidos: de fato, no sentido de que comer é sexy e até pornográfico, as mulheres como Supersize Betsy e Teighlor claramente tem corpos marcados por uma longa história de prazer - prazer que excede em muito a duração limitada de qualquer ato limitado de sexo. O sexo aqui não é um ato ou uma série de atos, mas antes um modo criado deliberado de ser estilizado, um ser insistentemente sexualizado que não fica atrás de portas fechadas, mas que sem pedir desculpas exibe seu prazer em sua vasta superfície, em todos os momentos de cada dia.

Por último, a despeito do fato de que a maior parte dele parece ser destinado ao consumo masculino, há um componente não fálico definitivo nas representações pornográficas da gordura do prazer feminino. De fato, se quiséssemos poderíamos continuar com uma argumentação francesa e considerar que a pornografia da gordura é uma representação do que o psicanalista Jacques Lacan, em uma linguagem caracteristicamente críptica, chamou de jouissance da Mulher. Jouissance é a palavra lacaniana para prazer ou orgasmo. E ele incorporou o da para indicar que não existe algo como 'A Mulher' - ainda que um dos passatempos psicanalíticos favoritos sempre tenha sido generalizar sobre 'A Mulher' e nos ensinar sobre o que 'Ela' quer. No final de sua longa vida, Lacan finalmente concluiu que a psicanálise não tinha compreendido as mulheres. O prazer feminino, decidiu, não depende, do falo ou sequer o deseja. Ao contrário, o que caracteriza o prazer feminino e o torna diferente do prazer masculino é precisamente que ele excede e supera o fato, assim minando seu papel como o último outorgante do arrebatamento.

A pornografia da gordura mostra exatamente isso. Não há qualquer indicação nas imagens que circulam sobre a pornografia da gordura de que o que vai salvar o dia dessas mulheres é o pênis de um homem, ou qualquer outro tipo de sexo genital. Não há qualquer indicação de que elas estejam fantasiando a respeito de chupadas quando comem seu spaguetti, ou que queiram ser fodidas quando consomem seu café da manhã. A posição do falo é aqui usurpada pela comida.

Há outra psicanalista francesa - essa uma feminista que foi expulsa do instituto de Lacan justamente por essa razão (isso foi antes que Lacan envelhecesse e acabasse se tornando ele mesmo uma espécie de feminista). Luce Irigaray deu ênfase em seus textos ao poder que os 'dois lábios' podem ter sobre o parler femmme (falar mulher) e assim deslocar o falo de seu trono freudiano como a fonte suposta de todo prazer erótico. Os 'dois lábios' que Irigaray refere são os lábios vaginais. Mas talvez devêssemos, ao invés disso, considerar esses outros dois lábios e o que eles podem fazer. E talvez esses intensos prazeres labiais de lamber, chupar e mastigar que vemos na pornografia da gordura sejam alguma versão de parler femme - uma linguagem de prazer, poder e supremo desinteresse em tudo o que o falo tem a oferecer.

 

Referências bibliográficas

GATES, Katharine. Deviant Desires: Incredibly Strange Sex. New York, Juno Books and RE/Search, 2000.         [ Links ]

KIPNIS, Laura. Bound and Gagged: Pornography and the Politics of Fantasy in America. Durham, Duke University Press, 1999.         [ Links ]

MALDORO, Johnny. Where the fat women at! Village Voice , 2-8 October, 2002.         [ Links ]

NICHTER, Mimi. Fat Talk: What Girls and Their Parents Say A bout Dieting. London, Harvard University Press, 2000.         [ Links ]

WILLIAMS, Linda. Hard Core: Power, Pleasure, and the "Frenzy of the Visible". Berkeley and Los Angeles, University of California Press, 1999.         [ Links ]

 

Outras fontes consultadas:

Fat Girl, San Francisco, Fat Girl Publishing, 1994.         [ Links ]

 

 

* KULICK, Don. Porn. In: KULICK, Don e MENELEY, Anne. (eds.) Fat: The anthropology of an obsession. New York, Jeremy P. Tarcher/Penguin. 2005. [Tradução: Plínio Dentzien]. O comitê editorial do cadernos pagu agradece as autorizações do autor e da editora para publicar este capítulo do livro.
1 <www.supersizebbw.com>