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Cadernos Pagu

On-line version ISSN 1809-4449

Cad. Pagu  no.47 Campinas  2016  Epub Aug 15, 2016

https://doi.org/10.1590/18094449201600470011 

INTERSECÇÃO DE DIFERENÇAS NAS MÍDIAS CONTEMPORÂNEAS

Estranhos no paraíso: notas sobre os usos de aplicativos de busca de parceiros sexuais em San Francisco *

Richard Miskolci** 

**Professor do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia – Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), São Carlos, SP, Brasil. ufscar7@gmail.com


Resumo

A partir de uma etnografia desenvolvida em San Francisco, entre janeiro e agosto de 2013, este artigo explora o uso que homens gays adultos fazem de aplicativos para busca de parceiros amorosos e sexuais. A cidade passou da contracultura à gentrificação em um processo que também transformou as formas de sociabilidade. No que se refere à busca de parceiros, passou-se do cruising ao hookup , ou seja, o uso de aplicativos reitera uma progressiva seleção de parceiros a partir de critérios morais.

Palavras-Chave: Aplicativos de Busca de Parceiros; Gentrificação; Cruising; Sexo Sem Compromisso; Aids; Serosorting

Abstract

Based on an ethnography conducted in San Francisco between January and August 2013, this paper explores how adult gay men use dating apps to find sexual and romantic partners. The city passed from being a center of the counterculture to a gentrified haven for hipsters and techies in a process that has also transformed its sociability. The search for gay partners has shifted from cruising to hookups, as the use of apps reinforces a progressive selection of partners based on moral criteria.

Key words: Gay Dating Apps; Gentrification; Cruising; Hookup; Aids; Serosorting

Em San Francisco, em uma de minhas primeiras entrevistas com usuários de aplicativos de busca de parceiros me deparei com uma crítica à tecnologia como supostamente facilitadora de sexo rápido e arriscado, observação que ecoaria em outras interações. Dan 1 , um jovem profissional da área tecnológica e que vive em um bairro de classe-média alta da cidade, afirmou que usa o aplicativo apenas para conversar e conhecer pessoas. Segundo ele:

Como eu te disse, hookups 2 não são seguros para mim. O Grindr simplesmente amplia a mentalidade do sexo sem compromisso. Então eu decidi não o usar desse jeito.

Isso devia ser parte da sua pesquisa. Eu quero dizer, é por isso que as saunas tornaram-se ilegais nessa cidade – não é seguro transar tanto. Mas as pessoas têm usado as mídias digitais para impor uma sauna digital, tão insegura quanto as originais, e por toda a cidade.

Paradoxalmente, o mesmo usuário que criticava a prática do hookup , termo local para sexo sem compromisso, confidenciou que apenas fazia sexo sem camisinha. Ao observar que não fazia sentido o julgamento negativo dele sobre o aplicativo e seus usuários e que o risco era o sexo sem camisinha, ele tentou explicar:

Os caras no Grindr me deixarão transar com eles sem camisinha. E esses caras têm alto risco de serem HIV positivo, enquanto eu sou HIV negativo e quero permanecer assim. Então é uma mistura ruim. De fato, caras em todo lugar deixam você foder com eles sem camisinha. Então eu evito fazer sexo sem compromisso. Não é seguro. Mas o Grindr é menos seguro porque nele sexo é tão fácil. Por isso só entro aqui para conversar.

A longa entrevista que fiz pelo aplicativo rodando em meu tablet traz elementos para compreender o uso dos aplicativos em San Francisco. Evidente é a associação entre o uso deles e o sexo sem compromisso, atualmente chamado – no contexto norte-americano – de hookup, mas que no julgamento moral negativo desse usuário o associa à antiga prática do cruising , a busca de parceiros sexuais em espaços públicos como parques, banheiros ou saunas. 3 Neste artigo, buscarei trazer elementos históricos e sociológicos que corroborarão os aplicativos como mecanismos facilitadores do hookup , mas que problematizarão o paralelo com o cruising.

Iniciarei apresentando o ambiente urbano desse centro irradiador da nova economia centrada no uso de tecnologias. Meu objetivo é evidenciar mudanças profundas na esfera da economia e da estrutura urbana, sem as quais não é possível compreender como e porque se dão os usos contemporâneos das mídias digitais, em especial as móveis. A progressiva centralidade das novas ocupações associadas à tecnologia têm gentrificado San Francisco, a qual já foi um paraíso para outsiders no imaginário norte-americano, mas tem se transformado em um centro dos hipsters . 4

Em seguida, mostro como entrei em campo etnograficamente, entre janeiro e agosto de 2013, para compreender como gays estão lidando com essas mudanças. Por meio do convívio com vários colaboradores, de leituras e observação, ensaio algumas reflexões sobre como as mídias digitais móveis se associam e potencializam a prática do hookup. Também traço algumas considerações sobre a realidade de San Francisco que aponta para a configuração de uma nova economia do desejo, na qual não apenas os contatos sexuais e amorosos passam a ser mediados digitalmente, mas os critérios de busca e seleção de parceiros foram higienizados em relação ao passado. De forma que, por fim, retomo criticamente as reflexões desse primeiro usuário que julga os aplicativos e o hookup como moralmente condenáveis.

A passagem da contracultura à gentrificação

Historicamente, San Francisco atraiu grupos alternativos diversos, especialmente após a II Guerra Mundial, a começar pelos soldados, aeronautas e marinheiros que foram expulsos das Forças Armadas por serem homossexuais ( Bérubé, 2010 ) e, posteriormente, por ter se tornado um refúgio de intelectuais como a geração beat e um dos centros irradiadores da contracultura. Durante as décadas de 1940 e 1980, a aura dissidente da cidade atraía perfis alternativos de moradores e mantinha afastados aqueles interessados em viver o que então se compreendia como o American Dream , intrinsecamente ligado à vida nos subúrbios, em torno das famílias nucleares seguramente afastadas de pobres, imigrantes, minorias raciais e dissidentes comportamentais que permaneciam concentrados no que definiam como o “decadente” centro urbano.

Essa história criou a imagem ainda muito disseminada de que San Francisco é uma espécie de paraíso norte-americano para dissidentes políticos, culturais ou comportamentais. Em The Fabulous Sylvester (2005), a sociobiografia de um astro musical dos anos 1970, o sociólogo queer Joshua Gamson oferece uma reconstituição histórica do cenário contracultural da cidade. Segundo ele, o circuito alternativo se espalhava pelos bairros mais próximos do centro, em especial na região de North Beach, mas já se dirigiam ao outro lado da Market Street: “Por volta de 1965, negócios de ou dirigidos a homossexuais apareceram pela Polk Street e o primeiro centro comunitário gay apareceu no bairro South of Market em 1966” ( Gamson, 2005: 48).

Fonte: Site da University of Delaware.

Mapa da cidade de San Francisco com seus principais bairros. 

Aos poucos, gays e outr@s queers começaram a morar em Haight-Ashbury até que, na década seguinte, o centro da Revolução Sexual havia se tornado o bairro vizinho do Castro, cuja aura de liberação se projetava na cidade como um todo. A relação entre a cultura hippie e a ascensão do movimento homossexual é até mesmo geográfica, dada a proximidade entre o antigo bairro hippie e o Castro. Também é visualmente constatável na forma como a transposição do arco-íris foi feita para criar uma bandeira alternativa, inspirada na norte-americana e que, posteriormente, se tornou internacionalmente conhecida como a bandeira do orgulho gay.

Nas palavras de Gamson (2005: 108, tradução minha):

Por volta de 1975, San Francisco era para homens gays e lésbicas o que Israel foi para judeus, apenas com menos guerras e mais festas. A cidade era conhecida como o local para socialização dos exilados, a terra do leite e do mel para eles. Isso foi a era quando as várias correntes do movimento gay – os que queriam ser aceitos, os que queriam fazer barulho, os que gritavam “Gay Power” e os que calmamente afirmavam “nós somos como vocês” – todos tinham ao menos uma coisa em comum: todos advogavam sair do armário. Não causa surpresa o fato de que muita gente simplesmente fez isso; ao menos a liberação parecia prometer menos vergonha, mais amor e sexo melhor. Mas, claro, também significava ser repentinamente recusado por praticamente todo mundo que pensava que você era hetero.

Data também desse período o aumento da população de rua de San Francisco, a qual excede visivelmente a média em comparação com outras grandes cidades norte-americanas. As razões apontadas pelos locais são diversas, dentre as quais destacam o clima ameno (para os padrões americanos), a grande quantidade de turistas que oferece esmolas e políticas estaduais e municipais que remontam à década de 1980. Estados vizinhos e mesmo o antigo governador Ronald Reagan chegaram a pagar passagens para que moradores de rua fossem para San Francisco, cidade então considerada refúgio de outsiders , “excessivamente” liberal nos costumes e politicamente democrata.

Desde a década de 1990, no entanto, San Francisco passou por um profundo processo de transformação vinculado à emergência da nova economia baseada em tecnologia, inovação e empreendedorismo. Os profissionais da área começaram a se mudar das cidades do Vale do Silício para San Francisco assim como um terço do venture capital norte-americano se transferiu para a região. Segundo o geógrafo urbano Neil Smith (cf. Bernstein, 2010: 34), as transformações se explicam pela inflexão no modelo de urbanização que prevaleceu nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, aquele marcado pela expansão da classe-média para os subúrbios que relegou os centros das cidades aos pobres e despossuídos. A mudança da economia para serviços, recreação e consumo tornou novamente atraente esses espaços centrais tanto para o comércio como para a moradia dos jovens vinculados à nova economia. Emergiu, portanto, uma nova geografia da centralidade e da marginalidade em que a classe-média branca volta à cidade e o proletariado urbano, muito menor que no passado, é empurrado para a periferia.

Os filhos dos subúrbios afluentes – muitos em profissões vinculadas à área tecnológica – têm feito o caminho inverso de seus pais e avós e retornado à cidade. Esse retorno tem sido marcado por uma renovação do espaço urbano, um processo chamado de gentrificação, termo criado pela socióloga britânica Ruth Glass e que designa um conjunto articulado de transformações em áreas que passam a ser objeto do interesse de incorporadoras e autoridades municipais, as quais tendem a tomar medidas que reformam o aparelho urbano encarecendo a área. Isso tende a expulsar os moradores antigos abrindo espaço para empreendimentos imobiliários que atraem classes afluentes ( Solnit; Schwarzenber, 2000 ).

A gentrificação se associa, também, a intervenções que buscam eliminar as manifestações visíveis de desvio e pobreza nos espaços urbanos, em especial nas áreas recentemente ocupadas pelo comércio e os serviços, os quais requerem locais “seguros” e “limpos” para atrair consumidores. Assim como em outras partes do mundo, o policiamento passou a ser uma estratégia para expulsar membros das classes populares das áreas que voltaram a ser de interesse imobiliário. Apesar da gentrificação visível e acelerada, a incrível quantidade de moradores de rua permanece. Salta aos olhos de qualquer visitante o fato de que apesar dos negros serem parte bem pequena da população da Bay Area , em geral concentrados em cidades do outro lado da baía como Oakland e em Richmond, eles formam parte considerável dos moradores de rua.

Fonte: Silicon Valley Blog.

Mapa da Bay Area, a região metropolitana de San Francisco. 

Em síntese, San Francisco passou da contracultura para a gentrificação e, no presente, os espaços que já foram dissidentes têm se tornado crescentemente mainstream. Se, no passado, a cidade chegou a ser vista como lar de outsiders atualmente seus habitantes mais reconhecidos são hipsters , termo que alude ironicamente às culturas urbanas do passado para se referir a pessoas de classe-média ou alta que migraram para áreas anteriormente consideradas degradadas e baratas tornando-as caras e parte de um sofisticado circuito de consumo e lazer.

O típico hipster tenta parecer despretensioso, aberto, capaz de conviver com diferenças étnicas, raciais, de sexualidade, mas – como alguns críticos têm apontado – sua “abertura” se assenta em um privilégio de classe garantido, a partir do qual constrói um olhar supostamente multicultural, mas consumista e politicamente conformista. Em San Francisco, uma parte deles tem se instalado na fronteira entre o Mission e o Castro, portanto entre o tradicional bairro latino e o gay. David M. Halperin reflete sobre como hipsters têm incorporado aspectos da cultura queer e avalia:

Ao invés de apropriar e “queerificar” objetos culturais mainstream , o hipsterismo heterossexual se delicia em reapropriar formas culturais minoritárias cortando delas “símbolos e ícones” autenticamente queer ou dissidentes e os usando para consolidar sua própria identidade, enquanto se eximindo – por meio de seu privilégio heterossexual e seu conhecimento de “vanguarda” [hip] – das desqualificações sociais que deram origem inicialmente àquelas forças contraculturais (2012:395, tradução minha).

Os hipsters são os descendentes das classes favorecidas que abandonaram as cidades pelos subúrbios em meados do século XX e que, cerca de meio século depois, retornam encontrando os resquícios da contracultura e assimilando-o de forma despolitizada. A despeito de seu caráter conformista, sua existência prova que uma geração emergente dos americanos não vive mais em torno dos valores e do estilo de vida de uma sociedade de massas em que o consumo estandardizado era a palavra-chave, um modelo econômico estreitamente vinculado a outra ética social e política que se baseava mais em valores familistas e nacionais inflexíveis. 5

Hipsters e similares têm novos desejos e aspirações e mesmo que a heterossexualidade não seja uma característica de todos eles, ela tende a ser predominante. Em termos de estilo de vida, diferentemente de seus pais e avós, são mais afeitos ao lazer, à boemia e ao consumo. Não mais o de massas, antes o altamente sofisticado e segmentado que um centro urbano como San Francisco proporciona. Hipsters , portanto, parecem ser moralmente mais flexíveis e menos preconceituosos que seus antepassados já que vivem em contextos que exigem – em maior ou menor grau – conviver com pessoas de diferentes origens étnico-raciais e sexualidades não normativas.

No entanto, o novo contexto urbano criado pela gentrificação não é tão democrático quanto parece porque, entre outras razões, se assenta em formas renovadas de desigualdade social que envolvem a emergência e a disseminação das mídias digitais móveis. Em termos de sociabilidade, elas facilitam a formação de redes relacionais seletivas. Assim, mesmo no perímetro urbano mais acessível e democrático, é possível conviver com diferenças mantendo-se alheio a elas.

Atualmente, San Francisco e sua região metropolitana (que inclui a região chamada de Vale do Silício, famosa pela produção tecnológica) constituem um exemplo acabado do que Scott McQuire chama de media city , uma cidade daquelas em que o “espaço relacional” criado pelas mídias digitais ganha massa e centralidade na vida social. Em seus termos:

A cidade mídia alcança massa crítica quando o espaço relacional começa a emergir como dominante culturalmente. Já que o espaço relacional não pode ser definido por atributos essenciais ou qualidades inerentes e estáveis, ele assume significância basicamente por meio das interconexões estabelecidas entre diferentes núcleos e setores. Tais interconexões são caracterizadas, sobretudo, por sua variabilidade e impermanência. Como Lash afirma, os antigos laços sociais organizados a partir da proximidade espacial estão sendo substituídos pelos laços comunicacionais que são “a distância” – quer seja comunicação a distância ou pessoas vindo de longe para se encontrar face a face (2008:23, tradução minha).

A centralidade dos laços comunicacionais a distância é evidente na forma como as mídias digitais tornaram a cidade um “novo lar”, pois passaram a permitir, por exemplo, o trabalho a distância, por meio do uso de equipamentos portáteis como laptops e smartphones . Isso para não mencionar as relações interpessoais cotidianas em uma cidade em que os serviços de celular e internet custam muito barato e são de uso quase universal.

É em meio à transição de San Francisco do refúgio de outsiders para a de um dos centros de uma nova vida social mainstream e mediada por mídias digitais que meus colaboradores na pesquisa se mudaram para lá encarando um cenário cultural cambiante e contraditório. A despeito das avaliações positivas sobre a cidade e seus moradores predominarem, eles reconhecem que entre a imagem de uma espécie de paraíso reforçada pelos interesses turísticos e a realidade cotidiana de quem nela vive emergem dúvidas, tensões e incertezas sobre o futuro.

Provavelmente, a maioria dos que conheci não permanecerá em San Francisco por dificuldades econômicas, assim como acompanhei alguns de meus entrevistados em processo de mudança para cidades vizinhas. Também conheci muitos em tentativas – na maior parte das vezes frustradas – de se mudarem para lá. Entrevistei vários homens gays que vieram para a cidade na temporada de contratações pelas empresas de tecnologia do Vale do Silício. Dentre eles, um americano de Boston (formado pelo MIT, o Massachusetts Institute of Technology), um indiano, um brasileiro e um israelense.

Profissional com alta qualificação em Israel e que já trabalhou também na Dinamarca, Ori me ajudou a conhecer um pouco a onda migratória desse tipo de profissionais para a região da Bay Area . Onda na qual apenas formação, talento e competência não são as únicas qualificações que abrem as portas das grandes empresas. Na mesma época em que acompanhava seu estresse nas maratonas de seleção que mais pareciam testes de resistência física e psicológica, conheci e entrevistei um funcionário da Apple de origem mexicana. Em meio a uma de nossas entrevistas, descobri suas conexões com famílias ricas e politicamente poderosas em seu país e como um amigo conseguiu o contato que o trouxe à poderosa empresa com sede em Cupertino.

Ori terminou recusado em todas as empresas e retornou a Israel. O brasileiro nem mesmo conseguiu participar de várias seleções e terminou aproveitando seu período final no país para fazer turismo. O americano de Boston e o indiano foram contratados, o primeiro como parte de um projeto de inovação em uma Startup e o segundo por uma empresa de software em San José. Se para esses jovens profissionais da área tecnológica é difícil conseguir um emprego e se estabelecer, tudo é ainda pior para os que não têm o mesmo nível educacional ou profissional.

Paul, um homem de Seattle que imigrou há alguns anos para San Francisco e trabalhava como vendedor em uma loja de roupas de uma marca de alto nível, me contou como, aos poucos, decidiu retomar os estudos universitários, cujo financiamento alto exige que reduza seus custos e se mude para uma cidade vizinha. Também conta como boa parte de seu círculo de amigos na cidade, a grande maioria gay e vinda de outras partes da Costa Oeste norte-americana, já fez esse movimento ou tenta apenas adiar a inexorável saída dos entornos do Castro.

Pessoas que antes seriam o perfil predominante na cidade começam a se tornar estranhos ali. Dentre meus entrevistados, apenas o que tem uma função elevada em um banco e o que trabalha na Apple têm condições financeiras de financiar seu próprio apartamento no futuro próximo. Os outros conseguem, com maior ou menor dificuldade, se manter na cidade vendo muitos amigos mudarem-se devido ao alto custo de vida que tornou San Francisco similar a centros como Nova York, pontos nodais da nova economia que atrai, mas também expulsa moradores com regularidade. Os que ficam, é visível, são os com o perfil socioeconômico mais alto e, não por acaso, principalmente os vinculados às áreas tecnológicas, chamados localmente de techies .

Entrando em campo

Em meio à consolidação da gentrificação de San Francisco, instalei-me no Mission District e comecei meu campo criando contatos por meios digitais. Conheci pelos aplicativos para celular mais de uma centena de homens e entrevistei ao menos uma vez 23 deles, em profundidade. Considero aqui entrevistas em profundidade aquelas conduzidas por cerca de três horas, as quais, em três casos, se repetiram e resultaram em um contato contínuo com os entrevistados, que se tornaram “colaboradores” na pesquisa porque me permitiram acompanhar parte de suas vidas e, inclusive, de suas saídas pelo Castro e outras partes da cidade.

Ao contrário de meus interlocutores brasileiros, 6 quase todos os meus entrevistados americanos eram “assumidos” (em seus termos: out of the closet ou, como dizemos no Brasil, fora do armário), ou seja, viviam suas vidas sexuais e afetivas com outros homens de forma mais aberta e visível socialmente, o que – somado à segurança da cidade – colaborou para que fossem mais receptivos e abertos ao contato do que meus colaboradores paulistanos. 7 De forma geral, a incursão etnográfica passou a articular a observação mediada com a face a face em uma dinâmica que considero ser melhor definida – usando os termos da antropóloga María Elvira Díaz-Benítez (2010) – como “observação acompanhante”, dado o fato de que não “participei”, antes acompanhei a vida de meus colaboradores de pesquisa durante um período de alguns meses.

Em termos éticos, busquei me apresentar desde o princípio como pesquisador e mantive perfis que explicitavam minha condição de sociólogo brasileiro desenvolvendo investigação sobre o uso de mídias digitais móveis em San Francisco. Mantive perfis em quatro aplicativos para celular e tablets (Grindr, Scruff, Jack’ed e Hornet) 8 e em dois sites que se vinculam a usos articulados com aplicativos (Adam4Adam e Manhunt) contabilizando, portanto, seis plataformas móveis e duas de internet (que exigem um navegador para acessá-las). A maioria dos contatos foi iniciada pelos outros usuários, mas também procurei criar contatos de forma a ampliar o espectro e a diversidade de meus colaboradores na pesquisa em termos etários, “étnico/raciais”, de classe social, local de moradia, tipos físicos, segmentação erótica, autoidentificação (gays, “masculinos”, queers, trans, bears , otters , etc).

Consegui um conjunto diverso e expressivo de interlocutores, ainda que meu corpo e minha corporalidade também tenham impedido ou dificultado conseguir proximidade com alguns perfis como os de pessoas trans e homens com uma vida social heterossexual, mas que buscam parceiros do mesmo sexo em segredo (a prática chamada de DL, ou on the down low, algo paralelo ao que, no Brasil, chamam de “na encolha”, em segredo).

Percebi desde os primeiros contatos que meu tipo físico tinha mais aceitação no contexto de San Francisco do que no paulistano, no qual sou frequentemente avaliado como “estrangeiro”. Preliminarmente, o que reconheci foi o fato de eu ser branco, loiro-arruivado (no Brasil a maioria das pessoas me considera loiro enquanto nos Estados Unidos a maioria me classifica como ruivo), parecer mais jovem do que sou e ter um domínio do inglês que me permitia uma boa comunicação.

Depois, aos poucos, consegui perceber que minha branquitude é reconhecida como mais “próxima” em termos de classe nos EUA, assim como – de certa forma – minha corporalidade mais masculina lá do que no Brasil. Fato que constatei em situações cotidianas ao ser chamado por outros homens de dude ou brow (irmão, mano, brother ), experiência que jamais aconteceu comigo em nosso país, onde minha branquitude e minha corporalidade criam um recorte de classe/gênero que me distancia da média dos homens brasileiros. Além disso, constatei que a nacionalidade reforçava minha masculinidade assim como, às vezes, me atribuía um sex appeal vinculado ao imaginário erótico americano sobre os brasileiros.

Busquei encontrar face a face todos os que se disponibilizaram a dar entrevistas encontrando-os sempre em local público e de acordo com o espaço que tinham em suas agendas. As melhores e mais longas entrevistas ocorreram depois do trabalho deles ou em algum dia que tinham livre, o que possibilitou também partir da entrevista para acompanhá-los em alguma atividade cotidiana como fazer compras ou a laundry (americanos costuma lavar suas roupas em lavanderias automáticas fora de seus apartamentos).

Dos meus 23 entrevistados pessoalmente, tive contato mais próximo e prolongado com três deles, os quais apresento de forma a refletir sobre suas vidas na cidade, o uso que fazem das mídias digitais móveis em sua sociabilidade e suas experiências diversas nas relações amorosas e sexuais com outros homens. Meu objetivo é articular, a partir de experiências situadas, os fenômenos econômicos, culturais e tecnológicos apresentados previamente e que encontrei também ao fazer contato com eles por meio de aplicativos: Parker pelo Jack’ed, Juan pelo Adam4Adam e Joe pelo Grindr. O primeiro mora em Noe Valley, o segundo em Hayes Valley e o terceiro no Castro, três bairros distintos, mas não muito distantes e com perfil gentrificado.

Parker tem 24 anos, é negro, nasceu em uma base da aeronáutica do centro dos EUA, e cresceu em Sacramento, capital da Califórnia, segundo ele uma cidade espalhada com cerca de um milhão de habitantes e estilo de vida bem conservador. Sua mãe se separou do pai muito cedo e ele foi criado apenas pelo pai militar em uma família batista, religião da qual se distanciou na adolescência, mesma época em que afirma ter se descoberto gay. Formado em Contabilidade, assumiu-se gay para o pai, o que o distanciou dele profundamente. Em seguida, mudou-se para o Vale do Silício, em San José, onde dividia um apartamento com amigos e começou sua vida profissional. Atualmente mora na cidade de San Francisco, trabalha em uma Startup no SOMA e busca parceiros mais velhos para um relacionamento sério e monogâmico.

Juan, por sua vez, é um homem de 29 anos que vem de uma cidade litorânea do Sul da Califórnia, segundo ele monótona, mas não exatamente conservadora. Diferentemente de Parker, Juan não procura dates e afirma estar feliz apenas tendo fuck buddies e que San Francisco provê isso em abundância. Filho de mãe negra e pai mexicano-branco tem um status racial difícil de classificar até pelos norte-americanos. Seus pais se separaram e ele foi criado pela mãe, mas mantendo relações próximas com os avós mexicanos. Explica que a família materna se distanciou de sua mãe por ela não ter se casado com um negro, além de ter se aproximado do catolicismo. Formado em administração e trabalhando no Vale do Silício para uma companhia multinacional, considera a Bay Area um local ideal para o estilo de vida que escolheu, mas afirma ser difícil se manter na cidade devido ao alto custo de vida.

Joe, um descendente de italianos de 33 anos, nasceu em Nova Jersey e decidiu mudar para San Francisco unindo a oportunidade profissional que encontrou na cidade com seu ambiente mais aberto e liberal, afirma ser orientado para relações duradouras e que a cultura do hookup o tem deprimido a ponto de ter procurado a ajuda de um psicólogo. Atualmente une a terapia com o uso de antidepressivos e procura se recuperar ampliando sua sociabilidade. Segundo conta, em relação a seus amigos, tem dificuldade em encontrar parceiros amorosos por ser mais caseiro e gostar de atividades mais intelectuais como ir ao teatro e à opera.

Em comum, meus colaboradores mais próximos foram jovens profissionais com nível universitário, vindos de outras cidades em busca de oportunidades de trabalho e também de melhores condições para suas vidas amorosas e sexuais. O fato de serem de outros locais é o que eles dizem ser o mais comum ali e eu mesmo constatei ao conhecer dezenas de pessoas que, em sua esmagadora maioria tinha se mudado para a Bay Area . San Francisco é uma cidade que – como Nova York – atrai muitos moradores por seu dinamismo econômico, cultural e educacional. Há pessoas do mundo todo, mas inegavelmente, pessoas de outras partes da Califórnia e de estados vizinhos da região oeste dos Estados Unidos predominam. Uma coisa é certa, se antes o sonho era se mudar para San Francisco, hoje em dia ele parece estar se transformando no de conseguir ficar ali.

Parker diz ser assumido para a família e amigos, mas não mostra seu rosto nos perfis nos aplicativos. Curiosamente, parecia gostar mais do Jack’d, o que muitos me disseram ser um aplicativo “mais branco” (ao menos em San Francisco e na época da pesquisa). De certa maneira, algo coerente, já que Parker me contou nunca ter tido um relacionamento como gostaria, mas que busca encontrá-lo com homens brancos com mais de 30 anos, em geral com vidas pessoais e econômicas mais estáveis. Seu relacionamento mais recente fora com um homem branco que morava nos suburbs , recentemente separado de uma mulher, segundo as fotos que me mostrou de boa aparência, atlético, do estilo que chamam de all American guy, rapazes de classe-média, claramente dedicados aos esportes, provavelmente populares no ensino médio e atletas ( jocks ) durante a universidade. Trata-se de um protótipo do bem ajustado e aceito socialmente.

Na época de nosso contato, Parker e ele estavam em um momento turbulento, em especial porque o parceiro era, segundo sua definição, “paranoico” e se sentia exposto ao sair em público com Parker porque vivia em uma região muito branca e não tinha nenhum amigo negro. Coerente com o observado em outras etnografias recentes, como a de Michael Kimmel (2008) , Parker assim como outros de meus entrevistados não brancos costumava definir suas buscas recusando o hookup e dizendo se guiar por LTR (long term relationship ), relações estáveis e de longo prazo. Mas percebi também que o intuito acionado racionalmente e verbalizado para mim como definindo a busca se modificava com os contatos assim como a partir do resultado da relação. Um dia, enquanto andávamos pela Valencia Street , ele viu um homem que passava na calçada ao lado e o apontou me dizendo: “Aquele cara era um dos meus ‘pegas’ ( hookups ) quando eu morava em San José”. Sorri e perguntei: “Mas você não diz que não fica [ hookup ]?”. Ele riu sem nada dizer. Desconfio que casos que não se tornam relacionamento retrospectivamente podem ser vistos como hookups , uma forma de, inclusive, minorar sua importância.

Juan, por sua vez, reclamava de atrair college guys , bem mais novos que ele. Em seus perfis nos aplicativos mostra apenas parcialmente o rosto e mais seu peito definido. Afirma buscar caras com até 33 anos para sexo, diversão e amizade com especial predileção por “ hipsters barbudos”. Mora na cidade há alguns anos e demonstra estar integrado à vida gay local sem aderir demais ao circuito do Castro. Seu perfil de racially mixed parece erotizá-lo assim como seu estilo esportista do Sul da Califórnia. Como Parker, parece buscar parceiros mais brancos do que ele próprio, só que sem expectativas de criar uma relação monogâmica. Em parte, como descobri depois de alguns meses de convivência, porque chegou a ter um parceiro fixo por alguns anos, mas o traía seguidamente pelos aplicativos, o que descobriu quando planejavam viver juntos

Juan tinha uma especial inclinação para conversas sobre diferenças culturais e além do inglês, falava bem espanhol, um pouco de alemão e árabe. Gostava de viajar e dizia adorar a Espanha e a Itália, mas tinha especial admiração pelo Japão. Dizia não gostar da China assim como era perceptível não ter o menor interesse em chineses americanos, o que fazia questão de comentar toda vez que interagia com eles. Contou-me que já tivera um caso com um médico brasileiro, segundo ele de tipo “verdadeiramente brasileiro”: moreno, cabelos escuros e olhos verdes. O “verdadeiramente brasileiro” reiterou para mim como meu status era distinto aos seus olhos. A nacionalidade aderia mais ao meu tipo físico como um elemento cultural positivo, mas sem o erotismo que poderia se associar a ele já que – segundo Juan, Parker e Joe – eu “passo por americano”.

O “passar por americano” no entanto tinha suas limitações. Brasilidade era um atributo mutante que ora aderia, ora não a mim resultando em um status peculiar aos olhos de meus colaboradores. Minha nacionalidade brasileira era trazida ao discurso quase sempre em uma necessidade de contrastar minha proximidade deles ou da americanidade branca com a de outros brasileiros. O fato de eu ser brasileiro me aproximava deles apesar da minha branquitude. Ao mesmo tempo, minha brasilidade era deserotizada em comparação com outros brasileiros, frequentemente vistos como mais morenos, com sotaque mais forte, e eroticamente lembrados como (potenciais) parceiros.

Parker e Juan diziam se sentir à vontade comigo apesar de eu ser branco, pois mesmo sendo ruivo de olhos verdes eu seria um branco diferente, mais próximo da negritude e/ou latinidade de cada um deles. Joe, por sua vez, como ítalo-americano, me considerava até “mais branco do que ele”, cujo tipo físico às vezes era confundido com judeu. Em comum, ainda que jamais verbalizado, considero que minha condição de estrangeiro que parecia local me tornava um contato interessante e seguro, já que desvinculado de redes de relações locais que poderiam se cruzar com as deles. O fato de eu ser um visiting scholar e desvinculado de suas redes relacionais cotidianas tinha um efeito similar ao que observei em meu campo paulistano, o de me tornar um contato “seguro”, uma espécie de confidente, alguém confiável e informado cujas opiniões tendiam a ser ouvidas e incorporadas.

Parker em especial, talvez por ser mais jovem e estar em uma relação conturbada, era o que mais parecia esperar descobrir algo sobre si mesmo em nossas conversas e entrevistas. Juan, por sua vez, parecia mais curioso sobre o Brasil e a língua portuguesa do que na possibilidade de compreender a si mesmo em nosso contato. Um pouco mais velho, mas sobretudo bem mais seguro sobre sua vida e sua sexualidade do que Parker, tinha mais interesse em expandir horizontes culturais em suas amizades. Joe, devido à recente depressão e ao tratamento psicológico, era claramente afeito a conversas autorreflexivas em que – não por acaso – levava-o a associar muito do que discutíamos com o que levava à terapia.

Parker e Juan, no contexto norte-americano, pertencem a grupos sociais que foram, historicamente, racializados, o que se reflete, inclusive, no alto investimento que ambos faziam em seus corpos por meio da frequência à academia de quatro a sete dias por semana. Parker é alto, musculoso, veste-se com apuro e dirige um BMW. Juan, aproximando-se dos 30 anos, comentou comigo que temia perder o apelo nos espaços de socialização gays o que buscava contrabalancear com exercícios e dietas. Seu físico definido, estilo de vida esportivo e jeito californiano de alguém que cresceu no litoral me parecia explicar claramente porque atraía os jocks ainda na faculdade ou recém-formados. Joe, por sua vez, dizia ter dificuldades em seguir dietas, tampouco se considerava tão disciplinado para exercícios como a maioria de seus amigos do Castro. Sem ser exatamente chubby (gordinho), Joe tem um tipo corporal normal, o que, segundo ele, no contexto em que vive, torna-o pouco atraente.

Em San Francisco, segundo meus colaboradores, um ponto convergente do regime erótico local é o fato de que o homem branco, jovem e malhado parece ocupar seu centro desde ao menos o auge do Falcon Studios , uma produtora cinematográfica de pornografia gay que ajudou a disseminar esse modelo. O fato é que San Francisco é uma cidade com cerca de dois terços de não brancos, especialmente asiáticos (40% da população), o que faz dos homens brancos uma minoria disputada ali. No presente, a indústria pornográfica parece ter perdido terreno para a troca de pornografia amadora pela internet e até pelos celulares. De qualquer forma, várias vezes me mostraram um rapaz brasileiro que circulava pelo Castro como um dos protagonistas pornôs mais conhecidos entre os gays. Tive oportunidade de teclar com ele algumas vezes por aplicativos e descobri que se trata de um paulistano branco, então com 23 anos, e que vivia há quatro na cidade.

The Internet killed the gay bar – ou a higienização do cruising

As transformações sociais recentes em San Francisco costumam ser sintetizadas em uma frase incessantemente repetida por muitos entrevistados durante os sete meses que passei na Bay Area: the Internet killed the gay bar (a internet matou o bar gay). Segundo David M. Halperin (2012: 440), houve uma queda de 113 bares gays, em 1973, para apenas 33, em 2012, na cidade, algo que considero associado não apenas às novas mídias, mas também ao higienismo que tomou conta dessa esfera de sociabilidade com a perseguição ao fumo, ao álcool e a ascensão do gym (academia de ginástica) como o novo centro da vida gay.

As novas mídias digitais apenas reforçam esse novo cenário em que há uma progressiva “desterritorialização” da sociabilidade anterior. Assim, o Castro mesmo perde sua importância e, para alguns dos mais jovens, torna-se um bairro old fashioned. Acompanhando meus interlocutores locais pude compreender como suas vidas se conectam pelas mídias digitais, em especial por meio dos aplicativos para smartphones e tablets criando redes relacionais e sociabilidades que se “descolam” da territorialidade que marcou as gerações anteriores que encontravam no Castro seu centro geográfico e no bar gay seu ponto de encontro privilegiado.

Talvez seja melhor refletir sobre essa “desterritorialização” como algo relativo, na verdade uma tendência a desvincular socialização e locais geográficos fixos, o que leva à priorização do que McQuire (2008) chama de “espaço relacional”. Nesse contexto, o que mais conta é a mobilidade, algo muito acessível na sociedade americana, na qual há décadas a vida social gira em torno da cultura do automóvel. No caso de San Francisco, soma-se a isso o bom transporte público que permite chegar aos principais pontos de socialização para possíveis encontros face a face.

O contraste entre o estilo de vida de gays com mais de 40 anos e o atual é reconhecível nas falas de muitos dos homens que conheci em San Francisco e que não se sentem ligados à cena gay do Castro. Para eles, trata-se de algo ultrapassado ou estereotipado. Richard, um psicólogo de Los Angeles, de 37 anos, radicado na cidade há sete e morador do South of the Market, define o Castro como um bairro de “gym bunnies” , termo local similar ao desqualificador “Barbies” no Brasil, forma como se denominam homens gays musculosos que vivem no circuito academia, shopping centers e bares.

A divisão entre os gays do Castro e os de bairros como SOMA (South of Market) parece apontar para uma divisão de experiência com forte base etária/geracional. Constatei que muitos usuários de meios digitais chegam a considerar a paquera face a face rude e a associam a homens mais velhos, os quais não saberiam “quebrar o gelo” antes por meio de uma mensagem em um dos aplicativos. Mesmo em um café, um bar ou uma boate, hoje em dia, a maioria empunha seus smartphones para ver quais usuários estão próximos e online. O que atrai as novas gerações e já foi até mesmo incorporado cria estranheza e dificuldades relacionais para os mais velhos.

Diante de uma escalada de suicídios entre gays de meia idade ou idosos, a comunidade gay local chegou a criar uma comissão para discutir o que se passava em meados de 2013, o que gerou uma reportagem na primeira página do mais antigo e popular jornal LGBT local, o Bay Area Reporter . Segundo a reportagem, muitos representantes da comunidade reclamam do isolamento e da dificuldade de se socializar nos bares, onde “jovens ficam olhando para seus celulares”. Paradoxalmente, uma das soluções aventadas para diminuir o isolamento dos mais velhos foi o incentivo a usar redes sociais online. 9

A partir de entrevistas que fiz com homens entre 40 e 67 anos, acrescentaria que a experiência dos gays mais velhos de San Francisco não sofre apenas com essa clivagem tecnológico-geracional, mas também com o fato de que os homens com mais de 50 anos foram os que tiveram suas redes de apoio mais atingidas pelo drama da epidemia de aids. O mesmo que os fez perder amigos ou companheiros também criou um senso de “comunidade” diante da emergência de saúde pública, engajamento político e identificações que começam a se tornar distantes e estranhos às novas gerações, em especial às dos com menos de 40 anos.

Homens que chegaram à vida adulta na época da invenção do coquetel antirretroviral, da disseminação do acesso à internet e da chamada ascensão do Pink Market têm uma vivência muito distinta da homossexualidade em relação às gerações anteriores. Esse novo cenário levou à construção de uma nova imagem da homossexualidade, progressivamente mais associada a demandas de assimilação ao mercado, à cidadania igualitária e a uma visibilidade mais palatável à sociedade americana em geral ( Puar, 2007 ; Eng, 2010 ). As mídias digitais fazem parte desse processo mais amplo que gerou vivências das homossexualidades mais individualizadas e mainstream.

Os mais velhos comentam com nostalgia sobre a decadência da cultura dos bares e do cruising, ou seja, de uma cultura mais afeita à experimentação sexual. Segundo os relatos que colhi de gays mais velhos, no antigo cruising predominavam a incerteza e o acaso. Cruising denota essa deriva, um circular sem caminho ou destino definido em busca de um possível parceiro sexual. Quando algum surgia havia uma análise de custo-benefício baseada na escassez de parceiros que tendia a tornar atraente o contato com pessoas de diferente classe, idade ou origem étnico-racial.

Desde o final do século XX, a consolidação do que muitos chamam de hookup culture é apontada como tendo origem nos campus universitários norte-americanos como uma prática comum tanto entre heterossexuais quanto homossexuais. Segundo Michael Kimmel (2008: 201), em contextos heterossexuais, a prática do hookup tem sido uma tática de adiamento de relações mais duradouras em benefício de maior dedicação aos estudos e à carreira profissional. É possível aventar a hipótese de que a chegada dos techies e hipsters a San Francisco tenha contribuído para sua popularização também entre gays, os quais atualmente usam muito mais a expressão to hook up do que cruising.

Qualquer que seja a origem da forma contemporânea do hookup, desde o lançamento do primeiro aplicativo de busca de parceiros, o Grindr, em 2009, sua prática foi potencializada. Uma das principais características do uso dos aplicativos – e que o afasta do antigo cruising – é a possibilidade de seleção de parceiros. As novas gerações encontram nos aplicativos uma economia de abundância que induz à escolha do mais “bonito” ou “interessante”, mesmo para um encontro sexual fortuito, de forma que a geolocalização apenas adiciona o critério da proximidade na seleção. Os aplicativos se revelam descendentes diretos de outras plataformas de socialização online, em especial os sites de busca de parceiros e os já quase abandonados bate-papos. Nessa espécie de linha evolutiva das plataformas se mantém a possibilidade de seleção como o grande atrativo.

A origem desse desejo de seleção, ao menos nos contextos homossexuais, se relaciona diretamente com o pânico sexual causado pela epidemia de aids. Durante o período em que a síndrome era vista como mortal e sem tratamento adequado tornou-se prática comum buscar parceiros “fora do meio”, pois se acreditava que homens que não frequentassem os locais de socialização abertamente gays teriam menor chance de serem contaminados com o HIV (Miskolci, 2013a). O surgimento da internet comercial em meados da década de 1990 tornou possível essa busca, a começar pelo uso dos bate-papos, experiência quase “pedagógica” que se transferiu para as plataformas seguintes até chegarmos aos aplicativos para dispositivos móveis.

Assim, é possível aventar a origem do hookup entre gays no processo de higienização da busca de parceiros provida pelos meios digitais. Higienização que vai ao encontro do processo de gentrificação avançado em San Francisco, o qual torna o espaço público cada vez mais controlado e afeito às sociabilidades heterossexuais hegemônicas. Nesse contexto, cada vez mais, a sociabilidade homossexual tende a migrar para o espaço relacional online.

Não é difícil associar esse novo cenário com as reclamações constantes dos gays com mais de 50 anos, muitas delas expressando a sensação de uma perda irremediável de espaço e reconhecimento coletivo. A maioria deles conquistara o espaço do Castro e associava à sociabilidade off-line a maioria de suas vitórias políticas e experiências felizes de socialização, mas agora vê o bairro se descaracterizar e seu círculo de relações encolher diante da incontestável hegemonia de um outro estilo de vida. Dentre as perdas, destacam-se as nada desprezíveis do domínio dos códigos de socialização e conquista amorosa.

Aos olhos dessa geração, o universo da paquera online pode parecer árido, até hostil. No universo dos aplicativos, a aparente abundância de parceiros é contrabalanceada pelo contexto de mercado amoroso e sexual, no qual vigora uma competição generalizada pelos perfis considerados mais desejáveis enquanto a maioria encontra várias formas de discriminação, rejeição e frustração. Ao mesmo tempo que essas plataformas ampliam o número de parceiros em potencial, elas também obrigam o usuário a se apresentar e, especialmente, se constituir como desejável. Trata-se de um exercício difícil que envolve outras tecnologias que não apenas comunicacionais, mas também corporais como a prática de musculação, consumo de suplementos alimentares e prática de dietas.

O uso de mídias digitais em busca de parceiros amorosos insere o usuário em um mercado regido por valores e ideais comercialmente moldados, mas não é apenas uma lógica comercial intrínseca a eles que rege esses contatos e buscas. É necessário recordar o contexto em mutação em San Francisco e como nele há menor espaço e menos reconhecimento para a constituição de estilos de vida e relações dissidentes como as do passado. No presente, a maioria dos gays com os quais convivi parece ter suas buscas amorosas – e até as sexuais – guiadas por padrões que envolvem o estilo de vida e até a estética das classes ascendentes na cidade.

Parker procura por um all American guy , Juan por um hipster – o qual associa a profissionais de tecnologia que outros chamariam de techie – assim como Joe mira em um possível parceiro amoroso compatível com seu nível educacional e econômico. As dificuldades que encontram envolvem a negociação de suas características não hegemônicas ou desejadas, como a não branquitude em Parker e Juan ou o corpo um pouco acima do peso de Joe. Tratam-se, sem dúvidas, de características corporificadas e que sublinham a centralidade do corpo nos aplicativos, mesmo porque a imagem é a forma principal de expressão ali. Personalidade, humor e simpatia dificilmente encontram veículo apropriado nessas plataformas e costumam ser melhor reconhecidos em interações face a face.

A partir do exposto, é possível definir as mídias digitais como meios que permitem criar redes relacionais seletivas dentro de uma espécie de mercado amoroso e sexual, o qual ascendeu a partir da chamada Revolução Sexual e agora passou a ser visualizável apenas por meio de sites e aplicativos. Na esfera da paquera mediada, o corpo tem um peso significativo, muitas vezes francamente determinante nos contatos. Como demonstraram Juan e Parker, um corpo muito malhado ou modelar pode até flexibilizar fronteiras raciais na esfera das paqueras. Ou, no caso de Joe, um corpo acima do peso pode dificultar o encontro de parceiros em potencial.

Não foram os aplicativos que impuseram esses modelos corporais ou critérios de seleção de parceiros. Eles apenas tornaram mais perceptível a existência deles para seus usuários, os quais encontram formas distintas de lidar com eles: alguns aderindo a aplicativos segmentados para sua faixa etária, tipo corporal ou erotismo; outros tentando negociar suas diferenças ou ainda adotando práticas corporais afeitas ao regime erótico dominante. Parker optou por usar um aplicativo em que encontraria parceiros com o perfil que lhe atrai; Joe busca negociar suas características em um com perfil mainstream, enquanto Juan decidiu se dedicar fortemente à musculação para garantir sua desejabilidade online .

Em meio a tantas transformações, algo parece permanecer: o maior número de obstáculos para gays se socializarem e encontrarem parceiros amorosos em comparação com os heterossexuais. As razões mais evocadas pelos próprios sujeitos na pesquisa apontam para supostas características próprias dos homens homossexuais tais como o fato de – como todo homem – serem educados para a predação sexual. Mas cabe relativizar essas suposições trazendo à visão as barreiras sociais ao envolvimento amoroso e, sobretudo, à paquera homossexual. Dentre elas, foco aqui em apenas duas: a vulnerabilidade socioeconômica e os temores morais e de saúde relacionados à aids.

Mesmo com os avanços e conquistas políticas, a homossexualidade ainda tende a ser um atributo negativo ou subalternizante no mercado de trabalho, o que tende a ser agravado em contextos de crise econômica como o vivenciado desde 2007 nos Estados Unidos. A geração que vivenciou o Gay Liberation viveu em um período economicamente melhor e criou ou colheu os frutos da hoje chamada Revolução Sexual. Sua palavra de ordem era out , sair do armário, assumir-se como homossexual para a família e construir uma vida independente e alternativa em San Francisco. A geração atual, em sua maioria, saiu do armário mais cedo e de forma menos traumática, mas busca se inserir em um contexto hegemônico negociando sua visibilidade com mais temor de perder sua independência.

A sensação de vulnerabilidade precisa ser levada em consideração para entender a ênfase do uso dos aplicativos para relações sem compromisso. Ao menos entre meus interlocutores na pesquisa em San Francisco, a prática do hookup envolve o uso estratégico de relações efêmeras para se manter independente e flexível para as adversidades. O trabalho – e não um companheiro amoroso – é a companhia mais constante em suas vidas.

Colhi evidências de que o trabalho é considerado mais fundamental para eles do que para heterossexuais, já que a maioria associa sua independência econômica com a liberdade para viver sua homossexualidade. Além disso, a maioria me confidenciou não poder contar com o apoio familiar, nem mesmo de forma eventual. Assumir-se, para eles, foi tanto uma conquista como um fardo, pois envolveu uma espécie de compromisso de – a partir de então – tornar-se plenamente responsável por sua própria sobrevivência. Na cultura norte-americana, perdê-la equivaleria a tornar-se um perdedor ( loser ) e necessitar de auxílio familiar é encarado como uma forma do fracasso.

Ainda que, relativamente, San Francisco seja mais liberal e aberta às homossexualidades do que outras cidades americanas, na esfera profissional, a maioria de meus colaboradores relata sentir-se mais vulnerável às instabilidades econômicas e mesmo às possíveis discriminações. Mesmo quando não escondem sua sexualidade relatam buscar serem discretos. Discrição mais fácil de ser atingida sem um par amoroso ou em uma relação com feições de casamento. A condição de solteiro em busca de parceiros evoca imagens estigmatizantes com relação à paquera homossexual. Os aplicativos geolocalizados fazem da proximidade/praticidade um elemento tensionador nas buscas evocando fantasmas daquela prática como os de marginalidade e contaminação pelo HIV.

O medo da aids pode ter perdido a intensidade do auge de mortalidade pela epidemia, mas permanece em uma espécie de relacionamento negociado e constante com o perigo de positivar. Muitos de meus colaboradores afirmam que o número de soropositivos na cidade chega a dois em cada cinco gays, o que os faz pensar que se tornar soropositivo morando em San Francisco é apenas uma questão de tempo. As interações nos aplicativos – diferentemente de um contexto como o paulistano – são entremeadas por perguntas sobre status sorológico, prática de sexo com camisinha e data da última testagem, o que configura uma prática que Kane Race (2007) denomina de serosorting: a escolha de parceiros segundo seu status sorológico.

Os soropositivos usam o símbolo [+] ou variações no perfil como o recentemente popular “ poz undetectable ”. Percebi que a afirmação sobre a positividade é menos valorizada apenas do que essa de ser “indetectável”, o que mostra que o usuário está em tratamento e que, bem sucedido, o vírus não chega a ser encontrado em sua corrente sanguínea. Os soronegativos tendem a usar termos como “ neg and DDF ” (negativo e livre de doenças e drogas) frequentemente somados a expressões que indicam buscar pelo mesmo. Também surgiram perfis com expressões “ negative and on PrEP ”, o que significa que a pessoa é soronegativa e desenvolve Pre-Exposure Prophylaxis (profilaxia pré-exposição ao vírus HIV) tomando uma pílula diária que supostamente diminui o risco de vir a contaminar-se. Os que revelam maior recusa a soropositivos dizem procurar “ clean people ”, associando explicitamente os soropositivos à impureza.

Enfim, a prática do hookup facilitada pelos aplicativos de busca de parceiros se insere em uma nova economia do desejo, moldada pela gentrificação do espaço urbano, transformações econômicas e o advento das novas mídias digitais. Os resultados preliminares da etnografia em San Francisco corroboram muito parcialmente as observações de Dan reproduzidas no início deste artigo. Ao invés de um impulsionador de relações arriscadas, os aplicativos tendem a criar filtros e seleções que tendem a higienizar a busca sexual. A geolocalização apenas introduz mais um fator a considerar na seleção, a proximidade, evocando em mentes mais impressionáveis o fantasma do cruising durante o pânico sexual da aids na década de 1980. Um espectro cuja permanência mostra a continuidade do temor e da recusa do sexo homossexual como vetor de risco e contaminação, apenas redimido pela transmutação em “amor”.

O paradoxo das afirmações desse meu interlocutor de que o hookup seria arriscado associado ao fato de que ele pratica sexo sem camisinha só é desvelado quando se compreende que ele se baseia na mesma lógica que permeia as relações heterossexuais. A possibilidade da reprodução e o amplo e irrestrito reconhecimento social dessas relações faz com que homens e mulheres heterossexuais raramente associem sexo desprotegido com risco e contaminação.

Na perspectiva de Dan, não seria o sexo sem camisinha que o ameaçaria, antes o sexo sem compromisso, supostamente “sujo” e, portanto, moralmente repreensível. Sua “proteção” seria a busca de relacionamento sério, compromisso duradouro, em suma, o tipo de relação em que seria moralmente mais aceitável fazer sexo sem camisinha ainda que, em termos epidemiológicos, seja justamente nesse tipo de relação que se potencializa a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis. Diferentemente do que afirmou, o hookup não é intrinsecamente arriscado enquanto o reconhecimento e a normalização de um tipo de relação – no caso a do compromisso duradouro e suas variações como o namoro e o casamento – é que podem ser.

Avaliações negativas com relação aos aplicativos – ou à prática do hookup em geral – podem se associar a práticas sexuais controversas e arriscadas, mas, sobretudo demonstram a tendência moralizante que tem marcado a história recente de San Francisco e transformado progressivamente seus antigos moradores, particularmente gays, em estranhos no paraíso techie e hipster .

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1 Troquei os nomes de meus colaboradores para manter seu anonimato.

2Hookup tem como similar – no contexto paulistano – a expressão fast foda.

3 C ruising denota uma prática de busca de sexo sem compromisso mais conhecida no Brasil como “pegação”.

4Hipster é um termo que se popularizou nos últimos anos para designar jovens das classes-médias que – frequentemente nascidos nos subúrbios afluentes – mudaram para o perímetro urbano de grandes cidades norte-americanas conduzindo sua gentrificação, o que tem expulsado a população anterior devido ao aumento dos preços dos imóveis e dos alugueis.

5 Sobre esse tema, consulte meu artigo “San Francisco e a Nova Economia do Desejo” ( Miskolci, 2014a ).

6 Refiro-me aqui à pesquisa “Desejos em Rede” desenvolvida em São Paulo desde fins de 2007 e financiada pelo CNPq. Para uma síntese de seus resultados, consulte Miskolci, 2013a.

7 Viver “fora do armário” engloba formas muito diversas de negociar a visibilidade da homossexualidade, o que exploro no artigo “Negociando Visibilidades” (2014).

8 Todos são voltados a um público gay masculino. O Grindr é o mais antigo dos aplicativos de busca de parceiros – lançado em 2009 – e voltado a um público jovem e em forma assim como seu concorrente mais próximo, o Hornet . O Scruff é segmentado para homens com barba e pelos corporais e tende a atrair um público um pouco mais velho do que o do Grindr e menos adepto de técnicas corporais como musculação. Jack’ed – ao menos em San Francisco – atraía um público jovem e adulto predominantemente branco, uma forma de segmentação em uma cidade com vasta maioria de asiáticos e latinos.

*Este artigo apresenta resultados preliminares de pesquisa desenvolvida entre janeiro e agosto de 2013, em San Francisco. Processo número 2012/17.206-8 Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). “As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP”.

Recebido: 24 de Fevereiro de 2016; Aceito: 06 de Maio de 2016

Translated by Jeffrey Hoff.

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