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Cadernos Pagu

versão On-line ISSN 1809-4449

Cad. Pagu  no.50 Campinas  2017  Epub 18-Dez-2017

https://doi.org/10.1590/18094449201700500020 

DOSSIÊ CONSERVADORISMO, DIREITOS, MORALIDADES E VIOLÊNCIA

De médico e de monstro: disputas em torno das categorias de violência sexual no caso Abdelmassih

Heloisa Buarque de Almeida** 

Laís Ambiel Marachini*** 

** Professora de Antropologia da Universidade de São Paulo. hbuarque@usp.br

*** Graduanda em Ciências Sociais na USP, foi bolsista PIBIC/CNPq. lais.marachini@usp.br


Resumo

Este artigo explora o caso envolvendo Roger Abdelmassih em sua divulgação na mídia, buscando entender as construções simbólicas em jogo no período entre 2009, quando as denúncias contra o médico são divulgadas na Folha de São Paulo, e 2016. A exposição pública da denúncia e seu desdobramento jurídico-policial na mídia comercial promoveram uma leitura social do caso, produzindo uma narrativa moral acerca do tipo de violência, do agressor e de suas vítimas.

Palavras-Chave: Violência Sexual; Mídia; Gênero; Sexualidade

Abstract

This article explores the case involving Roger Abdelmassih and its media coverage, in order to understand the symbolic constructions at stake in the period between 2009, when the complaints against the doctor were disclosed by the newspaper Folha de São Paulo, and 2016. The public exposition of the complaints and its legal-police deployments in the commercial media promoted a social reading of the case, producing a moral narrative about the type of violence, the aggressor and his victims.

Key words: Sexual Violence; Media; Gender; Sexuality

Neste artigo, retomamos alguns elementos de um evento de repercussão na mídia para refletir sobre as disputas em torno de categorias de violência sexual. O recorte empírico refere-se à denúncia de uma série de abusos cometidos por uma celebridade do meio médico na área da Reprodução Assistida, Roger Abdelmassih, que eclode na mídia nacional em 2009.1

Busca-se entender como esse caso apareceu na mídia hegemônica brasileira antes e particularmente ao longo dos anos de 2009 a 2016, e como foram construídas na imprensa as categorias de violência sexual, vítima e agressor. Alguns dos termos em foco – assédio, estupro, abuso – nem sempre constituem tipos penais, não são categorias jurídicas, mas aparecem com intensidade em torno do caso na sua narrativa pública e midiática.2

Essa denúncia ganha certo destaque na mídia exatamente no mesmo ano em que a definição legal de estupro foi modificada. Inicialmente acusado por suas ex-pacientes e uma funcionária de sua clínica de “assédio”, o médico foi efetivamente condenado em 2010 a 278 anos por dois estupros e 52 atentados violentos ao pudor. Sua condenação baseia-se assim na tipificação penal anterior a 2009, da época dos crimes. Entretanto, o que ganha espaço na imprensa após a denúncia e a prisão preventiva é o termo “estupro”.

O foco deste artigo é a forma como foram construídas na mídia as vítimas (mulheres desejosas pela maternidade), a imagem do médico – de grande especialista a estuprador/“vilão” –, e os fatos pelos quais ele foi condenado. O trabalho de Landini (2003, 2006) pensa a transformação de modos narrativos acerca da violência sexual contra crianças ao longo tempo, e, de modo similar, enfatizo aqui a visibilidade e as categorias em disputa em um caso que, pela forma como foi apresentado em diversos meios, acaba por constituir uma narrativa moral. Analisando a visibilização dos casos de estupro na imprensa escrita nos anos 1990, Landini (2006) demonstra como os jornais passam a tratar o crime de estupro como escândalo jornalístico, enfatizando cenas de brutalidade (vítimas muito machucadas e ou mortas de modos perversos), nos quais os estupradores muitas vezes são retratados como “maníacos” ou alguém cuja sanidade mental é questionada.3

O pressuposto teórico é analisar a mídia como parte da construção da realidade social e cultural – mídia como parte de uma esfera pública na qual estão em debate algumas noções sobre violência, uma das esferas de poder e de construção simbólica (através de bens culturais) que atua na arena pública. Neste artigo, analisamos a produção e a circulação dos sentidos no jornalismo4, considerando as notícias como resultantes de uma estrutura comercial de mídia – jornais impressos, revistas, programas de televisão aberta, portais de notícias –, ou seja, influenciadas e constrangidas também por um modo de produzir e vender os fatos.

A mídia, ao promover certa repetição de cânones e formas narrativas, promove a reiteração de certos sentidos associados à violência sexual e à caracterização do agressor e das vítimas. Sobretudo nos noticiários da televisão aberta, as reportagens foram permeadas de músicas tensas, climas de suspense, narrações em off, particularmente nos momentos de condenação judicial, fuga e recaptura e prisão. Tais recursos como iluminação e música de fundo auxiliaram na construção do drama e do sofrimento expresso pelas vítimas.

A mídia escolhida é aquela de estrutura comercial, incluindo empresas hegemônicas, como a Globo, editora Abril, Folha de São Paulo, que têm muita penetração na construção do debate público. O caso em tela permite discutir a produção de jornalismo e como ele repercute atuando nas redefinições do que constitui o estupro. O ponto aqui é entender como se dão certas demandas por reconhecimento e justiça na esfera pública através da mídia.

O “pioneiro da fertilização in vitro

Antes da denúncia, Abdelmassih se tornara uma celebridade numa onda de repercussão das Novas Tecnologias Reprodutivas e sua visibilização na mídia nos anos 1990. Trata-se da mídia de estrutura comercial, parte de uma sociedade de consumo, que propagava o tratamento como método sofisticado e altamente tecnológico de garantir a “produção” de filhos biológicos.5 Os anos 1990 assistiram à formação de um mercado sofisticado de produção médico-tecnológica de embriões, como explorado no trabalho de Martha Ramírez-Gálvez (2003; 2009; 2011). Inspirada no trabalho de Strathern (1992; 1995), que mostra a lógica do empreendimento familiar e do consumo, do filho como uma mercadoria e uma promessa de felicidade, Ramírez analisou o material das clínicas de reprodução no Brasil, dentre as quais a clínica de Abdelmassih se sobressaía.

Promovidas formalmente como “cura” da infertilidade, as tecnologias também foram promovidas pela imprensa como uma mágica e tecnológica “produção de filhos”. Essa ideia é explicitada na noção de que a clínica de Abdelmassih era uma “fábrica de bebês”, como divulgado no seu site, quando ele parecia ser o especialista de maior projeção no país.

Formado em urologia pela UNICAMP em 1968, nos anos 1990, o médico aparecia como andrologista, presente como fonte autorizada para explicar os procedimentos de reprodução assistida em colunas sociais ou programas de TV, nos quais promovia sua clínica ao lado das celebridades que passaram por lá. O fato de ter “feito” os filhos de “gente famosa”, como Pelé em seu último casamento, servia de chamariz da imprensa divulgando o uso de técnicas complexas que teriam impulsionado sua clínica a uma taxa de sucesso acima do padrão do mercado. Abdelmassih foi durante os anos 1990 figura presente em programas femininos e revistas como Caras. Amigo da apresentadora Hebe Camargo, teria sido apelidado por ela de “Dr. Vida”. Nos programas ressaltava a grande produtividade e o sucesso de sua clínica, mostrando como valia a pena fazer “Tudo por um bebê” (título do livro autopromocional publicado em 1999 pela editora Globo).6 O médico sempre ressaltava seu amor à sua esposa e à sua família, mostrava-se um católico fervoroso e agradecia a Deus pela produtividade de sua clínica e por poder fazer tantos casais felizes. Eram as amizades com as estrelas, o discurso religioso e a exaltação da família (dele próprio e aquelas que produzia em sua clínica) que se sobressaíam.

Essa exposição era construída como uma técnica de publicidade, com o depoimento de pessoas famosas (para dar credibilidade ao produto veiculado), assim como pessoas “comuns” (não celebridades) também presentes nos eventos, que atestavam publicamente e na mídia a felicidade do filho concebido na clínica e a completude da família como ideal. Depoimentos de pessoas comuns levariam o público consumidor a se identificar e a querer consumir o mesmo produto (como já informavam os manuais de publicidade7). A promoção do ideal da família completa e dos filhos como a necessária complementação do casal era reforçada nas matérias e nos livros produzidos por Abdemassih.8

Em algumas matérias mais técnicas, ele demonstrava a sofisticação tecnológica de sua clínica: como os 30 anos de Louise Brown, “a primeira bebê de proveta”, numa matéria do Fantástico da Rede Globo, em 2007, na qual o médico explica a técnica que ele mais usava em sua clínica de fertilização in vitro.9 Uma entrevista no então prestigioso programa de entrevistas da TV Cultura Roda Viva,10 em 12 de abril de 1999, demonstra que o médico ganhava visibilidade em bens culturais legitimados. No Roda Viva, foi apresentado como um “pioneiro” na área de reprodução assistida no país, e a entrevista lhe permite destacar os impressionantes números de sua clínica e explicar as principais tecnologias em uso. Confrontado por alguns jornalistas e louvado por outros entrevistadores, o programa inclusive debate acerca de várias polêmicas – tais como reprodução assistida para casais homossexuais, o descarte de embriões, a falta de marcos legais, as questões éticas.

Nessa fase, há elementos recorrentes nas notícias analisadas: o uso de números para demonstrar a grande quantidade de bebês “fabricados” na clínica; o retrato do tratamento de fertilização in vitro e técnicas cada vez mais inovadoras enquanto solução para o “problema da infertilidade”. Além disso, as imagens reafirmam a normatividade de gênero em torno da família heteronormativa, reforçando o desejo de filiação genética como motor legítimo para busca do (dispendioso) tratamento tecnológico.

Nesse período, não se publicavam ainda as denúncias contra o andrologista junto ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP)11 – denúncias que nunca haviam levado a uma sindicância e pareciam não abalar o prestígio dele junto ao órgão, já que permanecia como parecerista técnico de outros processos –, nem mesmo aquelas de estupro que já tinham sido feitas (mas nunca investigadas) em delegacias antes de 2009.

Vicente Vilardaga (2016), em seu livro-reportagem que aprofunda denúncias quanto ao que chama de “corporativismo médico”, menciona os almoços para políticos e empresários na clínica, além da amizade com Ruy Mesquita Filho (da família de O Estado de São Paulo) como garantia de proteção e prestígio de Abdelmassih. Ademais, alguns relatos de vítimas – tanto na mídia como no processo – revelam que ao contar o que lhes ocorrera a outros médicos, muitos não se surpreendiam e conheciam a fama do andrologista como assediador. Por fim, no contexto da reprodução assistida, havia outras suspeitas dadas as taxas de sucesso da clínica que indicavam o uso de tecnologias ainda não suficientemente testadas, ou mesmo aquelas consideradas antiéticas.

A denúncia

A manchete “Médico é investigado por supostos crimes sexuais” traz uma foto da clínica de Abdelmassih no alto da página (C5) do caderno Cotidiano na Folha de São Paulo, de 9 de janeiro de 2009, mencionando o médico como um “pioneiro na fertilização in vitro no Brasil”. A reportagem revela a investigação pela 1a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e o Ministério Público por crime sexual, com o depoimento de uma ex-funcionária e oito ex-pacientes. Exceto a antiga funcionária da clínica que iniciou esse movimento de denúncia, as pacientes não têm seus nomes ou rostos revelados e acusariam o médico, segundo a matéria, de “tentar molestá-las”. O termo “molestar” foi recorrente apenas no início dessa exposição.

A matéria indica que não haveria prova material do crime investigado, que seria “atentado violento ao pudor (ato libidinoso diferente de estupro)”. Informa que há outros seis relatos cujas vítimas não quiseram denunciar formalmente, sendo que a dificuldade de formalizar mais denúncias seria um problema para a promotoria. Essa frase certamente parece ter incentivado outras denúncias posteriores. Na mesma página, Abdelmassih se defende dizendo tratar-se de uma “campanha sórdida” de seus concorrentes; afirma que é inocente e levará um “caminhão de testemunhas” para depor a seu favor. Sua luxuosa clínica na Avenida Brasil é apresentada como tendo “feito um terço dos bebês de proveta” do país.

A partir dessa matéria, e sua divulgação, outras antigas pacientes começaram a buscar a 1a DDM em São Paulo para depor no mesmo inquérito policial, muitas delas vindas de outras cidades e estados do país, acompanhadas por suas eventuais testemunhas.

A denúncia oferecida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo referente a esse inquérito agregou casos de abuso de 39 mulheres que foram pacientes de Abdelmassih e a maior parte delas procurou a DDM de São Paulo depois da matéria na Folha.12 No dia seguinte, 10 de janeiro, o caderno Cotidiano traz mais notícias: que o Conselho Regional de Medicina faria uma sindicância sobre a conduta de Abdelmassih; que mais 4 vítimas teriam procurado a 1a DDM; uma carta de resposta do médico afirmando sua inocência; e comentários de ex-pacientes que defendiam o médico.

Em 17 de janeiro, a mesma Folha traz uma foto e o depoimento de uma vítima, e afirma que já são 35 vítimas que depuseram no Ministério Público, mas nenhuma outra, além da ex-funcionária, quis revelar seu nome publicamente. O médico e seu advogado destacam os números da clínica para se defender: 20 anos e mais de 20 mil casais atendidos.

Por essas matérias, o leitor é informado que a investigação começara meses antes, em abril de 2008, no Ministério Público, a partir da denúncia de uma ex-funcionária da clínica que tinha sido beijada à força. O Ministério Público ofereceu denúncia no mesmo ano, em setembro. A juíza rejeita a denúncia do MP, encaminhando para que a investigação fosse feita pela polícia; o inquérito desaparece por meses no Fórum da Barra Funda, é encontrado num banheiro e é reiniciado na 1a Delegacia de Defesa da Mulher.

A partir de janeiro de 2009, até o final de 2016, o médico será foco de 165 matérias, em sua maioria do jornal impresso Folha de São Paulo, mas também matérias nos programas e jornais de televisão (particularmente Jornal da Band, Fantástico, e Domingo Espetacular), revistas de notícias (Veja, Época e Istoé) e os portais online do G1, IG, UOL, entre outras mídias. Um movimento crescente de reportagens sobre o caso foi gerado a partir de novas denúncias, e muitas matérias são semelhantes mesmo em diferentes jornais, revistas, portais e programas de televisão. Alguns dados e modos narrativos são repetitivos, e a partir da prisão do médico vê-se mais especificamente o jornalismo espetáculo (Bergamo, 2006).13

Enquanto as vítimas vão aos poucos dando depoimentos à mídia (inicialmente, anônimos), Abdelmassih e sua defesa alegam que essas histórias são “fantasiosas”.14 Para O Estado de São Paulo, afirma que o remédio anestésico (propofol) utilizado no momento de implantação dos embriões, pode provocar alucinações sexuais, e mais uma vez demonstra a produtividade de sua clínica citando números.15 O médico se demonstra garantido pela sua posição social – posiciona-se como alguém acima da lei por ser famoso e pioneiro – e arrisca que tudo não passa de ação de seus concorrentes no mercado.

As primeiras matérias afirmam que há uma “acusação”, mas ainda são “suspeitas”. Depois da prisão preventiva, em 17 de agosto de 2009, o médico passa a ser chamado pelo termo “acusado”. Dessa maneira, o assunto sobre o caso volta com força, desencadeando uma nova onda de notícias, com muitas recorrências, que passam então a construir a imagem do médico como um vilão de classe alta, um estuprador que abusou de mulheres que apenas desejavam a maternidade e a família, tendo ganhado muito dinheiro às custas dos casais e maridos humilhados pelo abuso. O vilão será construído por oposição ao desejo de família heteronormativa.

Desde as primeiras matérias, as vítimas são aos poucos construídas na imprensa como mulheres desejosas de maternidade, e são quase sempre retratadas positivamente, mesmo quando são anônimas. A revista Veja publica sobre o caso em 21 de janeiro, com um depoimento anônimo e uma foto da vítima de costas ao lado de uma escultura que simboliza a maternidade.

Fonte: Veja, 21 de janeiro de 2009, “Trinta e três denúncias” [http://origin.veja.abril.com.br/210109/p_074.shtml – acesso em 14 de set. 2016]. 

Chama a atenção o relato mais longo de uma das vítimas – que teve sequelas ocasionadas por uma infecção generalizada que seria resultado de estupro anal, seguido de estupro vaginal. Publicado posteriormente em livro (Tognolli; Magalhães, 2015), seu relato afirma ter ido à delegacia imediatamente após ter sido violentada na clínica nos anos 1990, mas o delegado questionara como ela podia acusar o “médico das estrelas” (Tognolli; Magalhães, 2015:60), mesmo diante da gravidade de seu caso (entre os mais dramáticos daqueles encontrados na imprensa). Essa denúncia não foi investigada à época, nem aquela feita ao Conselho Regional de Medicina no mesmo ano, mas ganhara destaque depois de 2009 pela brutalidade do caso. Outras vítimas, posteriormente à prisão e à condenação, também afirmariam que haviam sido questionadas por policiais, parentes e advogados, o que as deixara inseguras para denunciar. Tanto na delegacia, como no CREMESP, funcionários afirmavam que elas não teriam provas e que seria a palavra de uma mulher contra aquela do médico de renome, desestimulando qualquer denúncia ou exposição pública dos fatos.

Prisão preventiva e condenação

Em 17 de agosto de 2009, é decretada a prisão preventiva de Abdelmassih, sob a alegação de que ele continuava clinicando e poderia atacar outras pacientes. Nesse mês, mais uma série de matérias sobre o caso é veiculada. Uma reportagem de 23 de agosto de 2009 na revista Veja afirma que seriam “65 denúncias de estupro”, ao passo que o Jornal Nacional de 25 de agosto afirma que ele seria acusado de ter estuprado 56 mulheres (algumas delas mais de uma vez). Novamente, os números superlativos ligados a esse médico se destacam, mas já não lhes são favoráveis.

Cabe uma nota aqui: no mesmo mês de agosto de 2009, a definição de estupro sofre uma transformação. Antes, em termos legais, estupro restringia-se a “conjunção carnal”, ou seja, penetração vaginal. Na parte dos “crimes contra costumes”, como “crime contra a liberdade sexual”, o artigo 213 definia o estupro como “Constranger mulher a conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça”, com pena de 3 a 8 anos, e nomeia atentado violento ao pudor (art. 214) o ato de “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal”, com pena de 2 a 7 anos. A Lei n° 12.015, de 7 de agosto de 2009, une os dois tipos penais acima sob a mesma categoria de estupro, mas então classificado como “crime contra a dignidade sexual”:

Art. 213 – Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. (pena reclusão de 6 a 10 anos)

Essa nova definição não limita mais a categoria criminal de estupro apenas à penetração vaginal (“conjunção carnal”) e baseia a tipificação na noção de constrangimento. A ideia de que não houve consentimento não é facilmente comprovável em processos judiciais, nos quais seria necessário ter provas do delito, especialmente quando o acusado teria se aproveitado da fragilidade ou incapacidade de reagir da vítima por conta de ela estar sedada.16

A sentença final da juíza refere-se ao fato de que os atos ocorreram sob a vigência da lei anterior e, portanto, devem ser julgados por ela.17 No entanto, especialmente após a condenação, a imprensa divulgará muitas vezes que o médico foi “acusado de estupro”. Outros termos aparecem além dos legais “crimes sexuais” e “atentado violento ao pudor”. As palavras “assédio” ou “abuso sexual” tornam-se mais recorrentes. Os termos mais repetidos na imprensa são “abuso sexual” e “estupro”, sendo que o segundo é usado na acepção mais recente do tipo penal. Evidentemente, a mídia não se atém aos termos legais (Landini, 2003; 2006), e produz e faz circular diversos modos de nomear a violência.

O caso se torna uma epopeia jurídico-policial nas páginas da imprensa: em agosto de 2009, o médico foi preso preventivamente, depois transferido para o presídio de Tremembé, e seu registro médico é finalmente suspenso (e meses depois cancelado) pelo Conselho Regional de Medicina; recorreu quatro vezes até conseguir em 23 de dezembro do mesmo ano um habeas corpus pelas mãos do ministro Gilmar Mendes no STF; foi condenado. em 2010 a 278 anos por dois estupros consumados e 52 atentados violentos ao pudor; recorre ainda em liberdade, mas em janeiro de 2011 tenta renovar seu passaporte e tem nova prisão decretada, quando foge do país. As irregularidades na clínica, como denúncias de troca de embriões, manipulação genética, sexagem, e sonegação fiscal, constituem mais um elemento, além da prisão, para a caracterização de Abdelmassih como um criminoso.

Depois da prisão preventiva em 2009, as matérias apresentam um tom mais alarmante. As reportagens nesse período buscam retratar a narrativa das vítimas, propiciando a personalização de seus rostos – como na matéria na Istoé, que revela o nome e a foto de uma empresária, cujo relato é muito parecido com os de outras vítimas.18 Sua descrição revela as duas formas de abordagem do médico descritas em muitas matérias: uma na sala de atendimento, quando as pacientes estavam sem os maridos, em que muitas vezes o médico tentou ou efetivamente beijou à força algumas delas, e noutro momento, durante a sedação das pacientes no momento de retirada de óvulos. Os fatos descritos nesta segunda situação de constrangimento variam: beijos lascivos, carícias pelo corpo, seios, e genitália, “ele estava em cima de mim”, médico colocando o pênis na mão da paciente ou próximo ao seu rosto, e em alguns casos penetração anal ou vaginal. Muitas afirmam sentir dores – tanto depois da coleta de óvulos como no momento de implantação de embriões, e não sabem se houve efetivamente penetração quando estavam desacordadas.

Enquanto me consolava, ele [Abdelmassih] dizia: “Você é uma paciente, está em um momento delicado da vida”. Ele me abraçou e, enquanto eu chorava, tentou me beijar. Como eu estava com batom vermelho, virei o rosto e manchei o jaleco dele. Saí da sala e fui embora sozinha. Meu marido estava viajando, na época. Parei em um posto de gasolina e fui ao banheiro. O cheiro do dr. não saía de mim, aquele cheiro de éter. Como já tinha pago o pacote de fertilizações, havia feito uma operação para a retirada da trompa, optei por iniciar o tratamento. Voltei à clínica quase dois meses depois. Lá, fui sedada e meus óvulos foram retirados para serem fecundados. Encaminhada para uma sala de recuperação, acordei com o dr. Roger apalpando os meus seios. Meio sonolenta, pensei: “Acho que estou sonhando, não é real, é coisa da minha cabeça”. Meu marido estava me aguardando na clínica e fomos embora, numa boa. Mas fiquei com aquilo na cabeça, com medo de falar para qualquer um. Achava que eu tinha ficado com trauma por ele já ter tentado me beijar. Não engravidei nessa primeira tentativa de fertilização. Como tinha mais duas [pois o médico vendia logo na primeira consulta um “pacote” de três tentativas], retornei à clínica 50 dias depois. E fui molestada no mesmo processo. Acordando da sedação, ainda grogue, vi que eu estava com o pênis dele na mão. Ele viu que eu havia despertado, tentei me levantar, cheguei a sentar na maca. Aí, o dr. Roger abaixou o jaleco, disse “calma, calma, calma”, e saiu da sala. Saí na sequência, e não o vi mais ali na clínica. Fui chorando ao encontro do meu marido, que estava na recepção. Ele me perguntou o que tinha acontecido e eu disse: “Tá doendo”. (...) Mas eu teria de voltar na clínica para fazer a transferência (quando o embrião fecundado é implantado no útero da mulher), para pegar meu filho, claro. Bom, fui e fiz a transferência. Voltei para casa e aguardei dez dias para ver se dava certo. Não deu. Aí, eu fiquei mal. Estava irritada, muito gorda de tanto hormônio, com colesterol alto. Foi quando, em casa, disse ao meu marido que não queria mais ser mãe, que a experiência que tive com o dr. Roger estava acabando com meu físico e emocional. E contei para ele o abuso.19

É sempre na busca pelo filho – a ex-paciente afirma que teria que voltar para “pegar meu filho” – e numa situação de aflição e dúvida que as narrativas revelam abusos mais graves durante a sedação. Há matérias em que as vítimas dão depoimentos anônimos, mas crescem aquelas em que passam a mostrar o seu rosto e nome, como acima. Aqui, está presente a ideia utilizada por Butler (2011) de “rosto”, desenvolvida por Emmanuel Levinas, como expressão de mandamento que direciona reivindicações morais. Exemplo disso está na matéria da revista Época de 2009, “Eu não sou uma vítima sem rosto”20, sobre o depoimento de uma ex-paciente que toma a frente publicamente da representação das vítimas de Abdelmassih, principalmente depois de criar um grupo na rede social Facebook, assim como blogs, para protestar diante do habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes, em 23 de dezembro de 2009. Vana Lopes será um nome recorrente e além de aparecer em várias notícias e conseguir arregimentar mais vítimas para que mostrem o rosto, publicará o livro em 2015. Ela também afirma à Veja, após a prisão do médico no Paraguai: “Mostrar o rosto dá força e credibilidade a uma denúncia. Quando ela se esconde, deixa o agressor mais forte. Somos vítimas e não coitadas”.21Essa matéria destaca a atuação das vítimas na investigação que buscava encontrar o paradeiro do médico então foragido, o que culminou com a prisão dele no mês seguinte.

Apesar da condenação em 2010, Abdelmassih permaneceu com o habeas corpus e tentou renovar seu passaporte, o que denotou intenção de fuga para o Ministério Público e uma nova prisão foi decretada. Ele não conseguiu renovar seu passaporte, mas ainda assim fugiu do país em janeiro de 2011, o que gerou uma nova onda de notícias sobre o caso.

Depois da fuga, as matérias passam a ter uma entonação de busca de justiça, gradualmente se constituindo numa saga policial, elemento que tem seu auge na última onda de matérias, quando o médico é preso no Paraguai em 2014. No período da condenação e fuga, novos crimes do ex-médico são divulgados, como manipulação genética, sexagem, estimulação ovariana, venda de óvulos, assim como o discurso público dos filhos do médico, que passam a reforçar a ideia de um pai ausente, rígido e manipulador.22 O aparecimento desses elementos novos serve para reforçar a figura de vilão, que tem seu auge na fase da recaptura. Assim, a fuga e a busca policial geraram matérias que apresentaram um clima de suspense.

Nas notícias da imprensa após a condenação, os relatos enfatizam o desejo por filhos e o fato de já terem pago “um pacote de três tentativas” como o motor que fez algumas das pacientes insistirem no tratamento mesmo após alguma situação que definiram como assédio: um beijo na boca forçado, ou alguma outra aproximação considerada pela paciente como abusiva. A posição de mulheres de família que desejavam a maternidade, de acordo com os padrões normativos de gênero, torna o relato de muitas delas mais comovente e produtor de efeitos sentimentais nas matérias, sobretudo nas cenas de programas jornalísticos de televisão, em que a produção as expõem com músicas dramáticas ao fundo em cenas que expressam a dor. Elas aparecem como “vítimas de verdade”23, porque teriam sido abusadas num contexto de desejo de maternidade, de constituir família, e assim surgem nas imagens da mídia, como vítimas marcadas pelo sofrimento, e por isso, legítimas. São na sua maioria mulheres brancas de classes média e alta, e muitas destacam o sacrifício que o casal havia feito para pagar o tratamento. O livro posterior de Vana Lopes (Tognolli et al., 2015) será minucioso em relatar os sofrimentos – físicos e psíquicos – e o trauma vivido por uma das vítimas mais ativas na mobilização coletiva contra o médico, especialmente depois da fuga.

O que podemos notar aqui é a necessidade de construir vítimas convincentes e fragilizadas, como modo de sensibilizar os sistemas policial e judiciário da gravidade dos fatos. Muito já se explorou na bibliografia brasileira como a polícia e o judiciário tendem a não classificar como estupro uma denúncia se não houver violência física marcada no corpo, e nos processos judiciais o argumento da defesa costuma reiterar a ideia de que teria sido apenas sexo. O trabalho pioneiro de Mariza Corrêa (1983), assim como as pesquisas posteriores de Ardaillon e Debert, (1987), Pimentel, Schritzmeyer e Pandjarjian (1998), e Vieira (2011), demonstram como uma avaliação moral da vida pregressa das mulheres vitimadas costuma ser usada para defender o acusado em vários tipos de violência contra mulheres. Nota-se que, especialmente após a prisão preventiva e de modo ainda mais destacado depois da condenação e fuga, o sofrimento dessas vítimas é destacado. Mais ainda, é necessária a produção de vítimas convincentes e fragilizadas para que se consiga efetivamente demandar direitos (Sarti, 2011; 2014; Fassin; Rechtman, 2009) – e aqui, no caso, demandar a condenação. O contexto de mulheres que buscavam a maternidade – efetivamente dentro das normas de gênero – facilita na construção da vítima, assim como na produção crescente do médico como vilão.

A matéria que revela a operação policial no Paraguai, no programa televisivo Domingo Espetacular, da Rede Record, exibido em 24 de agosto 2014, com duração de pouco mais de 50 minutos,24 representa a vitória da saga policial, em especial do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) que realizou a busca do foragido, mas também das vítimas que participaram ativamente da investigação. A matéria narra todo o percurso realizado durante a “caçada” a Abdelmassih, desde as suspeitas de que estaria no Líbano até a descoberta de seu paradeiro e posterior apreensão policial em Assunção, no Paraguai, na qual o repórter da Rede Record surge como um herói.

A reportagem é um exemplo sofisticado de jornalismo espetáculo (Bergamo, 2006) e é a partir de sua exclusividade na cobertura da operação que as demais redes televisivas também apresentam o caso, como o programa Fantástico. Isso caracteriza a “mentalidade-índice-de-audiência”, definida por Bourdieu (1997) como juízo final do jornalismo, em que há concorrência pela clientela, logo, pela prioridade, ou seja, pelo furo da notícia. Essa lógica cria a homogeneização da produção coletiva dos jornais, desencadeando uma circulação repetitiva da informação.

Dessa maneira, a captura de Abdelmassih aparece nos discursos midiáticos como uma “jogada de mestre” e envolve todo um processo de investigação, com a colaboração entre polícia, jornalistas e vítimas. É o auge do horror e do personagem do vilão: ameaçador, poderoso, rico e enganador. Nesse sentido, a produção do médico como vilão pode ser comparada à descrita por Lowenkron (2013, 2015) quanto à figura do pedófilo como monstro contemporâneo, na medida em que é produzida por um espetáculo midiático – no caso da pedofilia, a partir de um evento político (CPI) e policial, e no caso de Abdelmassih, a partir de uma investigação policial que acaba se tornando um espetáculo, com tons dramáticos no jornalismo, especialmente nos programas de televisão. Observa-se uma narrativa que opõe o vilão às vítimas – mulheres que aparecem de modo inocente, dado o contexto do atendimento médico, a busca pela maternidade e principalmente o fato de o médico ter se aproveitado delas quando sob efeito de anestésicos.

No período da prisão, as notícias impressas, eletrônicas, mas especialmente as televisivas, demonstram claramente como a imprensa constrói a figura do vilão (quase tão monstro quanto o pedófilo), em cenas quase sempre semelhantes.25 Há a personificação da vítima e do algoz, as matérias enfatizam a condenável vida de luxo que Abdelmassih levava, principalmente no período em que estava foragido, a partir da descrição de sua casa em Assunção, a quantidade de quartos e empregados, além da escola bilíngue de seus filhos gêmeos e do carro utilizado pela família. O ex-médico, um homem de classe alta, é retratado como um pai ausente, péssimo esposo e médico antiético, frio e perigoso.

Em contrapartida, as vítimas que aparecem nas narrativas midiáticas são, em sua maioria, de classe média-alta, mulheres brancas e aparentemente bem-sucedidas, embora fragilizadas pelo estupro e pela impossibilidade e pelo desejo por filhos. Elas aparecem como se tivessem feito “tudo por um bebê” e houvessem sido abusadas no instante de fragilidade e mesmo desespero, seguido de uma posterior impossibilidade de denunciar (seja por medo da reação do marido, ou temor de acusar na delegacia o médico das estrelas). Além de vítimas da violência sexual, são vítimas do próprio corpo, pois sua procura pelo médico se dá quando não conseguem tornar-se “completas”, tendo em vista que buscam atingir o lugar social de mães. A coleção de matérias forma assim, na arena pública, um drama moral.26

A comoção das vítimas ganha força nas imagens. O encontro entre elas se deu em canais on line: o bate-papo do UOL, antes da denúncia, também blogs e grupos no Facebook, nomeados como “Vítimas de Roger Abdelmassih”. Esses canais se fortalecem com a notícia de fuga do ex-médico e elas se unem com a finalidade de investigar o seu paradeiro. Depois de terem rompido o silêncio com a denúncia – e aquelas que deram o rosto à imprensa aparecem inclusive “gritando” diante do médico (na sua recaptura, no aeroporto de Congonhas) –, elas buscam aparecer como ativas na investigação que culmina com a prisão no Paraguai.

De certa maneira, dor e política articuladas aqui estão em paralelo com o caso trazido por Vianna e Farias (2011) quanto às mães que lutam por justiça ao perderem seus filhos, mortos pela polícia militar no Rio de Janeiro, pois o compartilhamento público da dor une essas vítimas. Mais do que isso, depois da fuga do médico é a dor que faz com que elas se unam e – posteriormente à sua prisão – passem a ser retratadas também como “heroínas”, que atuaram junto com as investigações policial e jornalística.

Por testemunharem a violência sexual, produzem o “conhecimento venenoso” (Das, 1999; 2011), ou seja, o conhecimento pelo sofrimento, mas aqui, diversamente do exemplo de Veena Das, ele é publicizado e assim produz reações nas mulheres que se identificam. Isso explica a avalanche de denúncias que se seguiu à exposição inicial de algumas delas na mídia, quando outras mulheres parecem viver um processo de reconhecimento moral enquanto vítimas ao se depararem com outros relatos semelhantes aos fatos que vivenciaram. Tal percepção é marcante depois da primeira matéria publicada em âmbito nacional sobre a suspeita de prática de crimes sexuais na Folha de São Paulo.

À luz de Veena Das (2011), pode-se pensar que o ato de testemunhar a violência sexual do mesmo estuprador e em situação vulnerável, torna essas mulheres sujeitos de uma ação. No entanto, aqui algumas buscaram, de modo diverso ao trabalho de Das, dar visibilidade e expor crescentemente o caso. Assim, as vozes dessas vítimas surgem na “luta por justiça” – semelhante aos casos citados por Farias e Vianna (2011), mas na outra ponta da escala social. Elas buscam a punição do ex-médico e em muitos casos, o ressarcimento moral e financeiro do tratamento mal sucedido ou não finalizado, e mesmo encontrar seus embriões que teriam ficado na clínica, revelando o desespero na busca pelos filhos genéticos (os embriões) perdidos e, de algum modo, “roubados”. O auge do horror do personagem “vilão” e o ápice da comoção moral das vítimas marcam o ano de 2014. Além de estuprador, o que fez com os embriões e com óvulos e sêmen usados na clínica? – essa passa a ser a nova pergunta e fonte de angústia e sofrimento que aparece em relatos de vítimas após a recaptura.

Logo depois de sua recaptura, as gravações feitas pela polícia que permitiram localizar Abdelmassih foram divulgadas no Fantástico, da Rede Globo, e no Domingo Espetacular, na Record, em 24 de agosto de 2014. Algumas frases ganharam destaque em inúmeras matérias. Em conversa por telefone com seu terapeuta, Abdelmassih chama as mulheres que o denunciaram de “loucas”, “doentes mentais” e “vagabundas”. É só então que aparece na mídia – primeiro nessas gravações – a explicação do agressor de que teria sido sexo e não estupro. Esse costuma ser o embate mais comum nos processos sobre estupro (Vieira, 2011; Pimentel et al., 1998) – e mesmo homens já condenados por estupro mantêm essa linha de argumentação (Zanotta, 1988).27 A fala divulgada pela televisão retoma, como é muito comum em acusações de estupro, a confusa fronteira entre o sexo e a violência, dando a entender que as pacientes o seduziam:

(...) eu tenho que entender que Deus quis quebrar o prepotente, etc., o grande metido a isso, aquilo... o comedor, não é? que passava mulher pra trás constantemente. O grande comedor que provavelmente achava que estava tudo disponível. A mulher jogava o milho e eu ia comer, e aí eu levei o ferro. Você sabe que mulher é um bicho desgraçado mesmo.28

Após a condenação, e mais especificamente depois da fuga, a imprensa trata Abdelmassih como culpado por inúmeros estupros. Foi isso que o ex-médico ressaltou em sua entrevista para a revista Piauí, sentindo-se injustiçado. A capa da revista mostra um lobo com dentes ameaçadores e salivante, vestindo camisa e gravata, e a chamada: “Na cadeia com Abdelmassih”:

Como inúmeras matérias da imprensa haviam divulgado que o médico foi preso por uma série de estupros de pacientes, ele aceita dar a entrevista para se defender do que sente ser uma imensa injustiça. Afirma ser inocente, condenado por um “exagero” na denúncia do Ministério Público, pela “obsessão” da juíza em prendê-lo e pela exploração da mídia do caso.

“Cantada”, “passada de mão”, “namorador”, “paquerador” são os termos que lhe permitiriam explicar que não teria sido estupro. Afirma que foi mal-compreendido pelo seu jeito, e que está ali porque “Deus quis me dar uma lição, foi quebrar toda aquela prepotência que eu tinha e que causava inveja nos meus concorrentes” (Na cadeia..., 2015:19). Em sua explicação, o que houve apenas foi um mal-entendido, ou atos consentidos:

“Eu sempre fui de “minha querida”, “meu amor”, de dar beijinho. Esse era o meu jeito (...) Às vezes, eu achava até que elas queriam sentir um bem querer do médico”. Pedi que explicasse melhor. “Receber mais atenção, perceber que as valorizava... Daí a dizer que eu ataquei, forcei, fiz alguma coisa é absurdo.” A mulher dele ouviu o relato com a expressão de que sabia a história de cor. “Eu não vou mentir para você, continuou. “Tive pacientes que eram mulheres lindas, mulheres mais receptivas.” E o que seria “mais receptivas”? “É estar aberta...”, disse sem concluir a frase. Abertas a que? A uma cantada? “Sim, a cantadas”, respondeu. (...) “Não nego, tive muitos casos extraconjugais. Muitos, inclusive com pacientes. Mas foram todos consensuais. Todos. (...) Fui namorador, metido a conquistador, prepotente. Eu queria, se fosse o caso, dar uma namorada. Mas nunca ataquei nenhuma mulher. (...) eu não precisava disso, entende?” (Na cadeia..., 2015:22).

Ele seria apenas um paquerador mal entendido, em sua versão. Quando a repórter insiste e o questiona dizendo que ele foi condenado por crime sexual, Abdelmassih se altera, baixa a cabeça, e afirma: “Eu não fiz isso! Tô te falando. Eu não fiz isso! Eu-não-fiz-isso” (Na cadeia..., 2015:26).

Considerações finais

A fronteira entre sexo e violência no âmbito dos processos judiciários é problematizada no título do livro Estupro: crime ou cortesia? (Pimentel et al, 1998), que analisa 50 processos jurídicos e 100 acórdãos judiciais entre 1985-94 em todo o país. O trabalho demonstra que a maior parte dos casos de estupro se dá entre pessoas que se conhecem, e nem sempre há uso de espancamento e brutalidade física, sendo muitas vezes casos de violência psicológica e de outras formas de constrangimento. Um caso chama a atenção no estudo: um juiz que considera que o ato teria sido uma “cortesia”, um elogio à mulher que sofreu violência, e por isso, o título do trabalho. Ou seja, o juiz trata o caso como se fosse “apenas sexo” e não violência.

Do ponto de vista das vítimas e do movimento feminista, trata-se de casos de estupro que não são reconhecidos pelo sistema judiciário e nem pela polícia. A pesquisa de Miriam Steffen Vieira (2011) demonstra bem o argumento: mesmo numa delegacia de mulheres, os casos denunciados de estupro entre pessoas que se conhecem sem ser marcado por grande violência física são encarados como relação sexual, e não como estupro. A pesquisa revela que nem os agentes policiais e nem o sistema judiciário em geral consideram que aquele fato, quando vivido entre pessoas conhecidas, pode ter sido violento e menos ainda crime– supõe-se que foi apenas sexo. As exceções são as denúncias em que a fragilidade da vítima é exacerbada, como no caso em que a vítima é uma criança (ou menor de 14 anos), e nos quais há lesões corporais mais graves que reforçam o imaginário de brutalidade no crime sexual.

Em todos esses trabalhos, é interessante notar que os policiais e os profissionais do sistema judiciário demonstram horror ao estupro em si, ao crime. Mas imaginam apenas como estupro aquele fato de intensa violência física, com uma mulher honesta sendo coagida brutalmente, e minimizam as denúncias mais comuns. Landini (2006) explora como a imprensa dos anos 1990 promove a construção do estupro como um crime de horror, mas de modo recorrente associando o termo estupro a formas brutais de violência física. Normalmente, o termo estupro refere-se na imprensa e no senso comum à figura de um agressor (especialmente se ele for de classe alta) que é de algum modo doente, insano, desviante.

Desde a análise de Ardaillon e Debert (1987, inspiradas no trabalho de Corrêa, 1983), tem-se notado que tanto os policiais como profissionais do sistema judiciário tendem a julgar o comportamento moral da vítima tanto nos casos de estupro, como noutros atos de violência contra mulher. Essas análises revelam os dilemas de construções de gênero, os padrões hegemônicos e os conflitos sociais referentes a comportamentos adequados para homens e mulheres, ou à normatividade de gênero (Butler, 2003; 2004).

O caso mais recente do aluno medicina da Faculdade de Medicina da USP acusado de estupro, e que confessa na sindicância interna à universidade ter dopado as colegas (e algumas vezes tendo fotografado a colega desacordada ao seu lado), pode demonstrar que o padrão geral da justiça não mudou. Se as vítimas, ao invés de serem mulheres desejosas de filhos, são colegas de faculdade que frequentam as festas e tomam bebidas alcoólicas, o processo leva à absolvição do acusado, que inclusive garantiu assim sua formatura e seu registro médico (em outro estado). Mesmo sendo um caso que inclusive estampou a capa do jornal O Estado de São Paulo29 e teve muita visibilidade na mídia à época da chamada CPI do trote na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, e ainda que as vítimas tivessem sido jovens de camadas médias e altas, a posição das denunciantes não pôde produzir a mesma legitimidade como “vítima verdadeira”. Como no padrão mais comum na justiça revelado pelas pesquisas, a alegação aqui foi de que teria sido apenas sexo, e não estupro. Ademais, exceto durante os depoimentos da comissão parlamentar, as vítimas foram retratadas anonimamente na mídia mais geral.

O caso de Abdelmassih pode reforçar o argumento da bibliografia, dado que a condenação foi construída publicamente a partir da inocência das vítimas e da sua busca em fazer família. Isso não significa que o médico tenha sido condenado apenas por essa atuação na forma de exposição da mídia, há inúmeros outros fatores que não posso explorar aqui ainda a ser analisados, inclusive internamente ao processo. Certamente o fato de o processo ter sido encaminhado a uma juíza, Dra. Kenarik Boujikian, que se declara defensora dos direitos humanos permitiu que o caso fosse encarado de modo diverso daqueles reiterados na bibliografia acima. Outrossim, o fato de haver tantas vítimas que relatavam os procedimentos muito semelhantes do médico em suas abordagens e abusos, revelando um padrão de conduta, teve uma relevância inegável, tanto no desdobramento do processo como na exposição na mídia. O médico só foi efetivamente tratado como suspeito a partir do número crescente de mulheres que depôs após a primeira exibição do caso em 2009.

Cabe destacar como foi relevante a atuação da mídia: por vezes a mesma revista que o promoveu o grande especialista foi também produtora e disseminadora de sua imagem posterior como vilão. É evidente que sua fuga do país, naquele momento já com o diploma cassado pelo Conselho de Medicina, também reforçou sua culpa.

Foi o padrão de ação de Abdelmassih descrito pelas vítimas que pesou na denúncia e permitiu também que a imprensa o mostrasse como algum tipo de “maníaco”. As recorrências e o número de vítimas teriam produzido as evidências no processo. Com sua condenação, de modo mais explícito, a mídia passou a retratar a antiga celebridade como um vilão perigoso, ardiloso e incontrolável, ao passo que as vítimas eram vistas como mulheres que buscavam algo legítimo e “sagrado”: a maternidade.

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1 Esta pesquisa conta com os apoios do CNPq – Bolsa PIBIC de Laís Marachini, e bolsa Produtividade em Pesquisa-CNPq e Auxílio à Pesquisa da Fapesp.

2 Para este trabalho, foram coletadas e sistematizadas 183 reportagens/artigos de jornais, revistas, programas de televisão, e portais de notícias. Recorro também a dois livros publicados sobre o caso – Vilardaga (2016) e Tognolli e Magalhães, 2015.

3 A fronteira entre o uso dos termos estupro e pedófilo, como analisada pela autora, é a presença de outras formas de violência física, o estupro sendo associado a marcas deixadas no corpo e mesmo à morte da vítima.

4 Mantenho aqui a perspectiva de antropologia da mídia, tal como no debate da coletânea Media Worlds (Ginsburg; Abu-Lughod; Larkin, 2002). Considero que há um diálogo profícuo também com uma vertente atenta às desigualdades sociais nos estudos culturais (tais como Williams, 1977; 1992; Hall, 2006), que também se refere a como essa desigualdade se articula com a produção da mídia e seus sentidos. Por fim, certamente há uma inspiração importante na forma como a mídia é analisada como uma esfera pública, que atua de modo poderoso nas sociedades contemporâneas nas disputas por reconhecimento (Fraser, 1990; 1996).

5 Sobre essa estrutura da mídia e a promoção de bens de consumo e de serviços na televisão, veja os trabalhos de Almeida, (2002;2003; 2007; 2013).

6 Sobre como o programa da Hebe, num formato de programa de auditório, promovia o consumo e certos ideais e estilos de vida de classe média, em torno de um ambiente feminilizado de sala de estar, cf. Miceli (2005).

7 Cf. Ogilvy, David: Confessions of an Advertising Man, New York, Atheneun, 1963

8Tudo por um bebê (1999) e Guia da Fertilidade – Tudo o que você precisa saber sobre reprodução (2008).

9 Fantástico, 11 de novembro de 2007. “Roger Abdelmassih - Fantástico”, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=3MCdavA1DvY&feature=youtu.be - acesso em: 28 nov. 2016].

11 Segundo matéria da Istoé (21 jan. 2009), “No órgão [CREMESP], até 2007, havia 14 processos contra o médico por abuso sexual e manipulação gênica, a maioria arquivada por falta de provas”.

12 Há outros processos judiciais envolvendo a clínica.

13 O uso do termo “jornalismo espetáculo” para caracterizar os programas televisivos se deve à subdivisão do jornalismo, um dos campos de legitimidade da televisão, em jornalismo nacional e internacional, o “alto jornalismo”, e o jornalismo espetáculo, o “baixo jornalismo”, aquele que “(...) tem o crime como tema principal” (Bergamo, 2006:323). O conceito de espetáculo utilizado por Bergamo é emprestado de Hamburger (2007:125), que pontua: “a noção de espetáculo vem carregada de tom de denúncia”. Para a autora, o termo se aplica em fenômenos midiáticos que repercutem na arena pública, por exemplo, o caso de Abdelmassih.

14 Matéria impressa de meia página do cotidiano da Folha de São Paulo, intitulada “Fotógrafa é primeira a fazer acusação pública a médico”. A defesa de Roger está presente na seção ao lado da matéria principal, “Outro lado: Advogado de médico questiona acusação ser feita 9 anos depois”, do dia 17/01/2009 [http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1701200911.htm – acesso em 20 de ago. 2016].

15 “Médico afirma que sedativo pode provocar “comportamento amoroso””, do dia 25/01/2009, p.23 [http://vida-estilo.estadao.com.br/noticias/geral,medico-afirma-que-sedativo-pode-provocar-comportamento-amoroso,312577 – acesso em 08 de set. 2016]

16 Nesse sentido, a lei nova parece mais afeita às demandas por direitos sexuais, cf. Carrara (2015).

18 Há 52 matérias em que vítimas com nome e fotos/rosto estão presentes, e 17 em que depõem de forma anônima.

19Istoé, 21 de janeiro de 2009 [http://istoe.com.br/5433_A+OUTRA+FACE+DO+MEDICO+DAS+ESTRELAS/ – acesso em: 29 out. 2016]. Escolhi esse (o relato das pacientes que sofreram penetração vaginal e anal é bem mais dramático em termos de descrição da violência e da dor) porque me parece um dos relatos muito semelhante à maior parte daqueles tanto na imprensa como nos depoimentos constantes no próprio processo.

20 Matéria impressa [http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI89283-15228,00-EU+NAO+SOU+UMA+VITIMA+SEM+ROSTO.html – acesso em 20 de jan. 2017]. Publicada na seção sociedade, no dia 22/08/2009.

23 Sobre vítimas suficientemente convincentes para o sistema policial e de justiça, cf. Lins (2014), e Vieira (2011); e sobre a necessidade de construção da vítima para demandas sociais e por direitos, cf. Sarti (2011 e 2014), e Fassin e Rechtman (2009).

25 Sobre o uso do horror em imagens que buscam visibilizar a violência e demandar direitos, cf. Efrem Filho, 2016.

26 Já estudei a construção do drama moral na teledramaturgia (cf Almeida, 2003, 2012, , 2012, 2014a, 2014b, 2015), o ponto aqui é que também o jornalismo usa de uma matriz melodramática para narrar o caso.

27 Lia Zanotta Machado (1998) explora como um mesmo ato pode ser nomeado por “sexo” ou estupro, ao discutir as formas como os condenados por estupro definiam o crime que haviam cometido. Para eles, tratava-se apenas de “sexo” aquilo que foi vivido pela vítima como “violência sexual”. O que Machado chama de “transformismo” de sentidos de uma categoria é um ponto central nesta discussão, e nesse caso só aparece depois da recaptura do médico.

28 Gravação exibida no programa de variedades da Rede Record Domingo Espetacular de 24 de agosto de 2014.

29 Cf. Estudantes denunciam abusos na USP. O Estado de São Paulo, 12 de novembro de 2014.

Fontes

Adbelmassih, Roger. Tudo por um bebê. Editora Globo, 1999.

Adbelmassih, Roger. Guia da Fertilidade – Tudo o que você precisa saber sobre reprodução. São Paulo, Editora Spring, 2008.

Tognolli, Claudio; Magalhães, Malu. Bem-vindo ao Inferno – A História de Vana Lopes, a vítima que caçou o médico estuprador Roger Abdelmassih. São Paulo, Urbana, 2015.

Vilardaga, Vicente. A clínica - a farsa e os crimes de Roger Abdelmassih. São Paulo, Ed. Record, 2016.

Abdelmassih tem 65 denúncias de estupro, segundo delegada, Revista Veja, 23 de agosto de 2009 [http://veja.abril.com.br/brasil/abdelmassih-tem-65-denuncias-de-estupro-segundo-delegada/ – acesso em: 14 set. 2016].

A outra face do médico das estrelas – Roger Abdelmassih é acusado por 40 pacientes de molestá-las em sua clínica, Revista Istoé, 21 de janeiro de 2009 [http://istoe.com.br/5433_A+OUTRA+FACE+DO+MEDICO+DAS+E – acesso em: 29 out. 2016].

Associação de vítimas caça Roger Abdelmassih pelo mundo, Revista Veja, 20 de julho de 2014 [http://veja.abril.com.br/brasil/associacao-de-vitimas-caca-roger-abdelmassih-pelo-mundo/ – acesso em: 15 out. 2016].

CRM investigará médico suspeito de abusos, Jornal Folha de São Paulo, Cotidiano, 10 de janeiro de 2009 [http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1001200915.htm – acesso em: 21 ago. 2016].

Estudantes denunciam abusos na USP, Jornal O Estado de São Paulo, Metrópole, 12 de novembro de 2014 [http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/20141112-44220-nac-1-pri-a1-not acesso em: 20 jan. 2017].

“Eu era o melhor” – Roger A. fala da vida na prisão, dá sua versão sobre as acusações de estupro e se diz vítima da inveja dos concorrentes, Revista Piauí, n 107, matéria da capa, 09 de agosto de 2015.

“Eu não sou uma vítima sem rosto”, Revista Época, Sociedade, 22 de agosto de 2009 [http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI89283-15228,00-EU+NAO+SOU+UMA+VITIMA+SEM+ROSTO.html – acesso em: 08 dez. 2016].

Ex-dono de hospital é suspeito de enviar dinheiro a Abdelmassih, Rede Globo, Programa Fantástico, 24 de agosto de 2014 – [http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/08/ex-dono-de-hospital-e-suspeito-de-enviar-dinheiro-abdelmassih.html – acesso em: 19 jan. 2017]

Fotógrafa é primeira a fazer acusação pública a médico, Folha de São Paulo, Cotidiano, 17 de janeiro de 2009 [http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1701200911.htm – acesso em: 20 ago. 2016].

Médico afirma que sedativo pode provocar “comportamento amoroso”, O Estado de São Paulo, Vida e Estilo – Entrevista, 25 de janeiro de 2009, p.23 [http://vida-estilo.estadao.com.br/noticias/geral,medico-afirma-que-sedativo-pode-provocar-comportamento-amoroso,312577 – acesso em: 08 set. 2016].

Médico é investigado por supostos crimes sexuais, Folha de São Paulo, Cotidiano, 09 de janeiro de 2009 [http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0901200925.htm – acesso em: 19 ago. 2016].

Memória Roda Viva - Roger Abdelmassih, TV Cultura, Programa Roda Viva, 12 de abril de 1999 [http://www.rodaviva.fapesp.br/materia/580/entrevistados/roger_abdelmassih_1999.htm – acesso em: 1 dez. 2016].

Operação secreta descobre último refúgio do médico Roger Abdelmassih, Rede Record, programa Domingo Espetacular, 24 de agosto 2014 [http://noticias.r7.com/domingo-espetacular/videos/operacao-secreta-descobre-ultimo-refugio-do-medico-roger-abdelmassih-17102015 – acesso em: 18 jan. 2017].

Roger Abdelmassih é transferido para o interior de São Paulo, Rede Globo, Programa Jornal Nacional, 25 de agosto de 2009 [https://www.youtube.com/watch?v=ovw5z7X5NwM&feature=youtu.be – acesso em: 15 set. 2016].

Roger Abdelmassih - Fantástico, Rede Globo, Programa Fantástico, 11 de novembro de 2007 [https://www.youtube.com/watch?v=3MCdavA1DvY&feature=youtu.be – acesso em: 28 nov. 2016].

Soraya e Vicente Abdelmassih: “Só entendi meu pai depois de ler ‘Mentes perigosas’”, Revista Época, 18 de agosto de 2012 [http://revistaepoca.globo.com/tempo/noticia/2012/08/soraya-e-vicente-abdelmassih-so-entendi-meu-pai-depois-de-ler-mentes-perigosas.html – acesso em: 05 nov. 2016].

Trinta e três denúncias, Revista Veja, 21 de janeiro de 2009 [http://origin.veja.abril.com.br/210109/p_074.shtml – acesso em: 14 set. 2016].

Recebido: 7 de Janeiro de 2017; Aceito: 9 de Outubro de 2017

Este artigo foi escrito por Heloisa Buarque de Almeida a partir dos dados coletados e sistematizados por sua orientanda Laís Marachini em sua Iniciação Científica.

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