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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.22 no.35 Belo Horizonte Jan/June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752006000100001 

Apresentação

 

 

Fotografia e Cultura(s) Urbana(s) é o tema central do dossiê que compõe este número de Varia História.

Fruto da cultura urbana de fins da primeira metade do século XIX, a fotografia é um dos poucos artefatos a marcar, desde então, a variedade de práticas sociais criadas e vivenciadas nos espaços, público e privado, da vida citadina. Com mais de século e meio de existência, a fotografia conta hoje com uma história que tanto permite a análise das transforma ções operadas em seu perfil técnico e estético, quanto de seus usos e suas funções sociais.

Se a dimensão analógica da fotografia faz com que muitos a vinculem ao mundo do reconhecível, ou seja, a um mundo atado a seu referente; a diversidade de estudos acerca de sua visualidade indica que ela pertence ao universo da cultura do olhar. Em outras palavras, tais análises mostram como os fotógrafos . informados por razões estéticas, comerciais, políticas e culturais, dentre outras . metamorfoseiam o real, recriam seus espaços e seus tempos sociais. Assim concebida, a fotografia deixa de ser vista como simulacro do real; torna-se um espaço cultural e intelectual afinado com os sistemas de percepção e representa ção concebidos e produzidos histórica e culturalmente. Mais, ainda, tem papel social ativo, podendo, pois, anular, criar e/ou reinventar mem órias e identidades sociais.

É importante sublinhar, uma vez mais: embora o poder de penetração da fotografia não se restrinja às áreas urbanas, é exatamente aí que esta imagem, híbrida por natureza, encontrou e continua a encontrar território propício para o debate que mais interessa a este dossiê: compreender de que maneiras e por que as diferentes dimensões da fotografia têm participado tanto do processo de construção e mudança dos modos de vida urbanos, quanto de suas formas e seus campos de conhecimento.

Os seis artigos que compõem este dossiê, três estrangeiros e três nacionais, não apenas apresentam uma variedade de questões analíticas, como também indicam diferentes possibilidades para se pensar as relações entre Fotografia e Cultura(s) Urbana(s).

O artigo de Fernando Aguayo Hernádez, professor e pesquisador do Instituto Mora/México, Los arrebatos del corazón, nos brinda com uma primorosa análise assentada em dois pontos distintos, porém correlatos. Ancorado numa reflexão de longa duração, o autor mostra como a Plaza Mayor - "o coração da cidade" do México - tem sido um espaço de produção de identidades e disputas sociais e político-culturais. Para viabilizar a construção de seu objeto, o pesquisador descortina as conexões existentes entre a produção fotográfica sobre a praça e os usos e as funções político-sociais a ela atribuídas por diferentes segmentos da sociedade mexicana. Em meio à reflexões sobre o urbano e a fotografia, o artigo ainda reserva espaço para outra ordem de preocupação inerente ao ofício de historiador: conduz o leitor até os territórios metodológicos acerca da pesquisa com imagens visuais, sobretudo fotográficas.

Em El retrato fotográfico en la Buenos Aires decimonómica: la burguesia se representa a si misma, Andréa Cuarterolo - historiadora e pesquisadora do Centro de Investigación y Nuevos Estudios sobre Cine/ Buenos Aires - mostra o papel da fotografia na constituição de uma cultura urbana burguesa, comprometida com os ideais de progresso saídos da era industrial. Por estas e outras razões, os leitores encontrarão, nas páginas deste artigo, uma das características mais marcantes da história da fotografia, sobretudo do retrato, dos anos oitocentos e das primeiras décadas do século XX. Referimo-nos, em particular, à combinação entre a universalização da visualidade fotográfica, de um lado, e a busca de individualização dos sujeitos retratados, de outro. Ao combinar fontes visuais e textuais, a pesquisa desenvolvida pela autora ainda permite avaliar a atmosfera de deslumbramento, dos atores de ontem, diante de uma imagem então considerada duplicação fiel do real.

Enquanto os dois primeiros artigos enfatizam as representações de um mundo figurativo e dão ênfase aos sujeitos fotografados, o ensaio do fotógrafo e professor da Universitat Pompeu Fabra/Barcelona, Joan Fontcuberta, prioriza as relações entre os signos fotográfico e textual. Interessando em enfatizar o papel crucial exercido pela cultura do olhar na interpretação da realidade, o autor de Arqueologias del Futuro põe em questão a noção objetiva de paisagem, veiculada por aqueles que acreditaram e acreditam no estatuto de verdade documental e/ou testemunhal da fotografia. Com este objetivo, sustenta a tese de que a escrita fotográfica, trabalhada plasticamente mediante o uso de fotogramas, por exemplo, pode criar realidades imaginadas tão convincentes quanto aquelas presentes no texto de John Stathatos: El Libro de las ciudades perdidas ou no Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino. Esta questão coloca o leitor diante da natureza representativa da fotografia.

O artigo de Maria Inez Turazzi - historiadora, doutora em arquitetura e urbanismo e pesquisadora do Museu Imperial -, Paisagem construída:fotografia e memória dos "melhoramentos urbanos" na cidade do Rio de Janeiro, insere-se, como os dois primeiros trabalhos deste dossiê, no campo da fotografia documental e/ou histórica. Dentre as particularidades da análise da autora brasileira acham-se as estreitas relações entre poder, ciência, fotografia profissional, publicidade e a noção de progresso urbano vigente entre fins do século XIX e primeiras décadas do século XX. Para destrinchar as tramas de tais vinculações, Maria Inez Turazzi parte de um aspecto pouco trabalhado pelos analistas da história da fotografia e tamb ém da história urbana do período. A partir de um cenário específico: a vida na capital federal do Brasil, a autora transporta o leitor para o mundo da fotografia de obras públicas. Mostra, com riqueza documental e apuro analítico, como as lentes de fotógrafos, estrangeiros e nacionais, participaram ativamente da construção de memórias urbanas, coletivas e individuais, acerca das grandes obras de engenharias que, em poucos anos, alteraram a paisagem do centro do Rio de Janeiro, cidade-vitrine de um país que se queria moderno.

É de autoria de Maria Beatriz R. de V. Coelho - fotógrafa, socióloga e professora do Departamento de Sociologia e Antropologia/UFMG - o artigo: O campo da fotografia profissional no Brasil. Ao privilegiar a fotografia criada pelas câmeras de profissionais, estrangeiros e nacionais, no Brasil da segunda metade do século XX em diante, a autora historiciza as combinações entre variáveis internas e externas à fotografia, para mostrar a constituição e as mudanças no campo da fotografia e na formação dos fotógrafos. Em meio às tantas novidades, este artigo, vivo e dinâmico, ainda analisa a participação da fotografia (da fotorreportagem, principalmente) nos órgãos de imprensa, públicos e privados, interessados na produção de imagens e imaginários sobre a(s) identidade(s) brasileira(s). A presença da fotografia nos museus, nas bienais e no mercado editorial brasileiro também são temas contemplados neste artigo.

Mauro Guilherme Pinheiro Koury - doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Glasgow, professor e pesquisador do Departamento de Ciências Sociais/ UFPB - é o autor de O Imaginário Urbano sobre Fotografia e Morte em Belo Horizonte, MG, nos Anos Finais do Século XX. Seu artigo traz contribuições originais à temática por ele trabalhada em outro momento: os usos e sentidos da fotografia mortuária de cunho privado no Brasil. Neste trabalho, especificamente, o autor revela as particularidades do caso mineiro, na atualidade belorizontina. Para além da importância do tema pesquisado, Mauro Guilherme Pinheiro Koury lança mão da combinação, importante e pouco usual, de metodologias quantitativas e qualitativas, para dar forma às suas reflexões sócio-antropológicas e históricas acerca das re-significações hoje atribuídas a este tipo de imagem. É preciso mencionar: a conjugação dos dados analisados também instiga o leitor a pensar sobre as culturas da morte, do morrer e da solidão na contemporaneidade urbana.

Espera-se que a pertinência acadêmica dos seis artigos - três de autores estrangeiros e três de autores nacionais - que compõem este dossiê ofereça, aos leitores de Varia História, motivações e pistas interessantes para a continuidade das reflexões e pesquisas que têm a fotografia e a(s) cultura(s) urbana(s) como objeto privilegiado de análise.

Belo Horizonte, 2006

Maria Eliza Linhares Borges
(organizadora)
Dep. História/UFMG
liliza@uai.com.br