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Varia Historia

versión impresa ISSN 0104-8775

Varia hist. v.23 n.37 Belo Horizonte ene./jun. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752007000100001 

Apresentação

 

 

O estudo da cartografia não pode ser desvinculado de uma dimensão histórica e simbólica, pois não existe uma linguagem cartográfica única, universal e imutável. Todo mapa é um conjunto de signos, símbolos, que só podem ser compreendidos e decodificados a partir dos elementos da própria cultura na qual ele foi formulado. Por isto, Cartografia e História estão indissociavelmente ligadas, pois só a segunda nos permite decodificar os signos que a primeira se utilizou. Um mapa é sempre representação do real e mantém uma íntima relação com o espaço que ele que delimita, mas não é o próprio real. Se perdem esta característica de representação, os mapas deixam de ter sua função reconhecida e se tornam ininteligíveis. Um mapa é, pois, uma expressão simbólica de uma área e, ainda que nos dias atuais as imagens de satélite sejam ferramentas essenciais para a arte cartográfica, essas imagens não deixam de ser também uma forma de representação do espaço.

Cartografar um território não é pois uma operação neutra, cuja objetividade estaria assegurada pelo uso das técnicas mais aperfeiçoadas. Um mapa é sempre uma expressão de um território, o que implica que vários filtros separam o real da coisa representada. Os mapas miniaturizam o mundo, imprimindo-lhe uma dimensão gráfica que permite, pois, inúmeras leituras.  Ao longo do tempo, as técnicas de desenho, impressão e gravação variaram e seu estudo fornece inúmeras informações sobre as formas de produção, reprodução e distribuição destes documentos. Outro aspecto que o estudo da cartografia permite é a análise da formação e consolidação de um território, como ele foi compreendido e ocupado ao longo do tempo, o que só pode se desvelar ao estudioso de posse de outras ferramentas de análise pertencentes a outras ciências como a História.

Todo documento humano faz parte de um sistema de comunicação e desvendar este sistema nos ajuda a compreender como estes mapas eram lidos e compreendidos na época em que foram produzidos. Os mapas contêm uma linguagem, que é necessariamente simbólica e que deve ser decodificada para que se possa melhor compreendê-la. Porém, não existe uma linguagem cartográfica única, universal e imutável. Os mapas são, pois, como um texto e têm cada um e em seu tempo uma linguagem própria. O estudo da Cartografia Histórica engendra uma série de outros elementos, tais quais o entendimento das técnicas de medição do espaço, das noções de forma e de área que expressam, dos espaços que o mapa cobre e dos que deixa em branco ou preenche com um desenho ou uma iluminura. Tudo isto compõe a forma como o homem entende e representa o mundo e exige do historiador da cartografia um esforço interdisciplinar.

Todo mapa é um conjunto de signos ou símbolos historicamente construídos. Podemos compreender os mapas produzidos no passado, como fazemos da mesma forma com os documentos outrora escritos, a partir do conhecimento dos elementos que compunham a cultura na qual eles foram formulados, ainda que não tenhamos vivido na mesma época. É aí que reside o trabalho do historiador e é aí que a Cartografia e a História se tornam indissociavelmente ligadas, pois é a partir da História que podemos mergulhar na aventura de decodificar os signos que o cartógrafo utilizou no passado, alguns intencionalmente, outros nem tanto.

Da importância da História para o estudo da Cartografia nasce o título do dossiê publicado nesse volume que, parodiando o grande historiador da cartografia do Brasil Jaime Cortesão,1 se denomina A História nos velhos mapas. Os cinco artigos aqui reunidos se enquadram nos estudos da História da Cartografia e assim devem ser entendidos. Mary Sponberg Pedley, em O comércio de mapas na França e na Grã Bretanha durante o século XVIII, desvela o processo de produção cartográfica na transição para o Iluminismo, distinguindo as particularidades de cada um desses dois países. Entre tantos assuntos, analisa o ambiente intelectual no qual se inseria a produção de mapas, o papel dos cartógrafos, das casas de edição, o estímulo oficial e o gosto dos consumidores. Em A história da publicação do Mapa da América do Norte de John Mitchell de 1755, Mathew Edney traz a luz o contexto de edição e re-edição desse famoso mapa, comumente utilizado pelos historiadores do período colonial norte-americano, chamando atenção para o fato de que um mapa pode nos informar muito mais sobre o universo cultural do seu autor e de seu público consumidor do que sobre a área representada. Mário Clemente Ferreira, em O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid: a cartografia a serviço da diplomacia discute o processo de construção do Mapa das Cortes, a principal base cartográfica utilizada pelos portugueses durante as negociações do Tratado de Madrid, em 1750. A partir da desconstrução de seus elementos e identificação das fontes usadas pelo cartógrafo, o autor aponta para a intencionalidade dos erros desse mapa, viciado nas longitudes de forma a não evidenciar a extensão da colonização portuguesa em território espanhol. Jordana Dyn discute particularmente a importância dos mapas nos relatos de viagens desde o século XVI até os dias de hoje. Íris Kantor, em Usos diplomáticos da ilha Brasil: polêmicas cartográficas e historiográficas, analisa a formação do mito da ilha Brasil e suas representações na cartografia dos séculos XVI e XVII, além das formas de apropriação e reapropriação posterior desse mito com fins diplomáticos. Em "Mais calculado para enganar do que para informar": os viajantes e o mapeamento da América Central (1821-1945) aponta para os diferentes papéis que os mapas desempenharam ao longo do tempo em relação às narrativas de viagem e apela para a necessidade de autonomia do estudo desses elementos cartográficos.

Belo Horizonte, 2007

Júnia Ferreira Furtado
(Organizadora)
Dep. História/UFMG
juniaf@fafich.ufmg.br

 

 

1 CORTESÃO, Jaime. História do Brasil nos velhos mapas. Rio de Janeiro: Instituto Rio Branco, 1965/1971. 2 v.