SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.24 issue39Biological elements in the River Doce's territory configurationMoxos Jesuitic mission's Barroc art style author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.24 no.39 Belo Horizonte Jan./June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752008000100010 

ARTIGOS

 

Naufrágio, cativeiro, e relações ibéricas – a História trágico-marítima num contexto comparativo*

 

Shipwreck, captivity, and Iberian relations – the História trágico-marítima in a comparative context**

 

 

Lisa Voigt

The University of Chicago. 1126 E. 59th St., Chicago, IL 60637. USA. lvoigt@uchicago.edu

 

 


RESUMO 

Esse artigo compara as narrativas portuguesas de naufrágios dos séculos dezesseis e dezessete, muitas das quais foram publicadas no livro História trágico-marítima, de Bernardo Gomes de Brito (1735-1736), com os relatos coevos de naufrágio e cativeiro hispânicos. Ao examinar não só as estratégias e as estruturas das narrativas de naufrágio e cativeiro, mas também suas conexões intertextuais, pretende-se iluminar o contexto ideológico e literário compartilhado pelos impérios ibéricos na modernidade. A comparação permite desnudar ainda a capacidade destas narrativas de divertir os autores e os leitores modernos como também o seu caráter didático e dessa forma questionar as interpretações contemporâneas que ou priorizam a perspectiva nacionalista ou focam-se exclusivamente no aspecto contra-hegemônico contidos nesses textos.

Palavras-chave: narrativas de naufrágios, narrativas de cativeiro, estudos comparativos luso-hispânicos


ABSTRACT 

This essay compares sixteenth – and early seventeenth-century Portuguese shipwreck narratives, many of which were collected and published in Bernardo Gomes de Brito's História trágico-marítima (1735-1736), with early modern Spanish accounts of shipwreck and captivity. By examining not only the common strategies and structures of shipwreck and captivity narratives, but also direct intertextual connections, it illuminates the shared literary and ideological context of the early modern Iberian empires. The comparison highlights the pleasurable as well as the didactic dimensions of these narratives for early modern writers and readers, thus challenging both nationalist interpretations and those that focus exclusively on their counter-hegemonic potential.

Key words: shipwreck narratives, captivity narratives, comparative Luso- Hispanic studies


 

 

No sé qual es el que apetece hazer volumen de tragedias.
Todas lo son quantas me ofrece aquel inmenso señorío;
ninguna cosa de ambas Indias, ni aun de sus mares más
remotos, preservó airada la fortuna, por todas partes quiso
el cielo nos afligiessen sus rigores, tumultos, pérdidas,
naufragios, cautiverios infelices.

Gonzalo de Céspedes y Meneses,
Primera parte de la historia de Felipe IV

 

Investigar a relação entre as representações do naufrágio e do cativeiro – reconhecidos por Gonzalo de Céspedes y Meneses como duas "tragédias" resultantes da expansão ibérica em "ambas as Índias" – é, em parte, o alvo do presente artigo. A obra deste escritor espanhol também nos pode indicar outra dimensão das "relações ibéricas" do meu título. Céspedes y Meneses foi exilado em Lisboa na segunda década do século XVII, onde vários dos seus textos foram dados à estampa: o seu romance Poema trágico del español Gerardo, y desengaño del amor lascivo, "nuevamente corregido y emendado en esta última impressión", e a sua história de Felipe IV,1 na qual inclui, como uma das tragédias que não pôde deixar de relatar, o naufrágio das naus portuguesas que vinham da Índia em 1627. O seu tratamento deste evento não agradou de todo a um sobrevivente, o autor português Dom Francisco Manuel de Melo, que ofereceu sua própria relação do naufrágio na Epanáfora trágica, a segunda das Epanáforas de vária história portuguesa, publicadas em 1660.2 Ao referir-se às outras representações do evento, Melo lamenta a brevidade da versão de Céspedes y Meneses, ao mesmo tempo que elogia a relação estreita do espanhol com a nação portuguesa:

suposto lhe não faltárão boas informações, que muitos lhe comunicârão, e eu lhe dei particularmente, por ser o Cespedes pessoa de minha amisade e vesinhança: escritor de nossos tempos e cousas; menos desafeiçoado aos Portuguezes, que outros de sua nação Castelhana: justo agradecimento à boa hospedage que achou em Lisboa; donde muitos annos viveo, depois de perseguido e desterrado da patria; que com semelhantes provas de desprezo, parece que faz a legitimação dos filhos benemeritos.3

A "amisade e vesinhança" dos dois autores não ocultam a tensão sugerida nesta citação entre as nações ibéricas, apesar da união política que havia existido entre as duas. Por outro lado, a escrita do naufrágio assinala uma ligação que supera os limites nacionais, uma relação de mútua influência mas também de revisão: Céspedes registra a informação que lhe foi dada por Melo, enquanto Melo emenda e reescreve a versão de Céspedes.

Neste ensaio investigarei alguns aspectos da relação entre as narrativas espanholas e portuguesas de naufrágio e cativeiro dos séculos XVI e XVII. Se esta conexão é tão íntima e complexa como a que vislumbramos entre os textos de Melo e de Céspedes, também o é a relação entre estas narrativas de "tragédia" e o discurso triunfalista da expansão imperial. Com efeito, uma aproximação mais comparativa e menos nacionalista das relações portuguesas de naufrágio pode lançar luz sobre a questão que tem preocupado muitos críticos que se debruçaram sobre elas: até que ponto estas narrativas "acomodam, ou incomodam, a perspectiva imperialista", como a formula Maria Alzira Seixo.4 Não se trata dum estudo comparativo no sentido clássico da análise de textos de tradições nacionais distintas e separadas. Apesar de que diferentes "tragédias" parecem ter cativado os públicos espanhóis e portugueses – cativeiro para os primeiros, e naufrágio para os últimos –, este ensaio sustentará a dificuldade de uma distinção fácil, baseada em critérios genéricos ou nacionais, entre as relações de naufrágio portuguesas e as narrativas de cativeiro espanholas.

Quanto às relações de naufrágio, refiro-me, obviamente, aos textos publicados majoritariamente como "literatura de cordel" na segunda metade do século XVI e a primeira metade do século XVII, doze dos quais foram recompiladas e revisadas por Bernardo Gomes de Brito nos dois volumes da sua História trágico-marítima (1735-1736).5 Na mesma época, mais seis relações originalmente publicadas no século XVII foram reeditadas em panfletos "contrafeitos," o conjunto dos quais é considerado o "terceiro volume" da HTM.6 Quanto às relações de cativeiro, aludo às histórias de cativos cristãos entre mouros e turcos que infiltram uma grande variedade de obras espanholas dos "séculos de ouro", como: poesia (os romances de cativos de Góngora); teatro (Los tratos de Argel e Los baños de Argel, do cativo espanhol mais famoso, Miguel de Cervantes); narrativa de viagem (Viaje de Turquía, terminado em 1557 por um autor anónimo, às vezes identificado como Cristóbal de Villalón); novela morisca (El Abencerraje, publicado também por autor anónimo em 1561); autobiografia (Vida y trabajos de Diego Galán, escrita entre 1589 e 1600); romance (a História do Cativo da primeira parte do Don Quijote [1605], também como Los trabajos de Persiles y Sigismunda [1617] de Cervantes); e historiografia (Topographia e historia general de Argel [1612], atribuído a Diego de Haedo).7 Para mostrar as relações entre as representações do cativeiro e as do naufrágio nos impérios ibéricos, primeiro concentrar-me-ei nas preocupações autorais e ideológicas que modulam a produção e recepção das narrativas. Neste sentido irei comparar tropos específicos da representação, tanto os propósitos declarados pelos autores, quanto os efeitos afirmados pelos leitores. Depois indicarei algumas conexões intertextuais específicas, que sugerirão que a relação próxima e de mútua influência entre os textos de Céspedes y Meneses e de Melo não é um caso único.

 

Relações cativantes

A ligação temática entre o naufrágio e o cativeiro não deveria surpreender, já que, como demostram várias relações da História trágico-marítima, o naufrágio em costas estrangeiras facilmente conduzia à captura dos sobreviventes desamparados. Se "cativos," segundo a definição de Alfonso X no século XIII, são "aquellos que caen en prisión de homes de otra creencia",8 então uma vez que as naus ibéricas portadoras da fé cristã naufragassem em terras pagãs, o cativeiro era uma consequência provável para os náufragos que se encontravam a mercê dos infiéis. Assim, "[s]aídos [dos] trabalhos do mar, começaram a experimentar os da terra",9 lemos da pena dos sobreviventes do naufrágio da nau Santiago na costa sudeste de África em 1585; estes "trabalhos" são rapidamente – e talvez, segundo o narrador, erroneamente – associados com o cativeiro. Se os africanos "os tinham dentro de um pequeno circuito entre umas figueiras, como presos",10 mais tarde o narrador afirma que quando finalmente os portugueses são trocados por "três corjas de roupa", "não foi isto com título de resgate, porque nunca os negros consentiram esta linguagem nem os tiveram em conta de cativos, dizendo que portugueses em toda a parte ficavam em sua liberdade".11 O incômodo linguístico é, talvez, mais do narrador do que dos africanos, e não nega a presença duma narrativa de cativeiro (captura-prisão-resgate) dentro duma relação de naufrágio. A sequência da captura, aliás, forma parte do modelo narrativo da relação de naufrágio frequentemente citado de Giulia Lanciani, se bem como variante alternativa.12

A ocorrência dos temas também ocorre ao revés. A Relación (1542) de Álvar Núñez Cabeza de Vaca, uma narrativa da expedição desastrosa à Florida de Pánfilo de Narváez, em 1527, e das peregrinações subsequentes dos quatro sobreviventes até 1535,13 é mais conhecida como Naufragios desde que o historiador Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés se referiu a ela como tal.14 Os críticos Rolena Adorno e Patrick Charles Pautz afirmam que o título seria melhor traduzido como infortúnios ou calamidades, já que as naus da expedição foram inicialmente abandonadas, não arruinadas, na costa onde começaram as suas desventuras.15 Cabeza de Vaca se refere mais frequentemente à sua experiência como um "triste y miserable cautiverio", 16 mesmo além do período em que foi escravo dos índios. A crítica anglo-americana tem privilegiado esta dimensão, referindo-se ao texto de Cabeza de Vaca como precursor ou primeiro exemplo norte-americano de um gênero popularíssimo nas colônias britânicas: a narrativa de cativeiro entre índios.17 Mas a Relación de Cabeza de Vaca também apresenta características da relação de naufrágio – tempestades marítimas, jangadas improvisadas com velas feitas a partir de camisas, capitães irresponsáveis – as quais eram capazes de cativar a atenção dos leitores, tanto quanto as peregrinações na terra. Para Oviedo, a história dos "innumerables naufragios e peligros",18 padecidos por Cabeza de Vaca e seus companheiros seguramente mostrava muita semelhança com os múltiplos casos de tragédia marítima contados no Libro último de los naufragios, parte da sua Historia general y natural de las Indias (1535). Em termos que encontrarão eco dois séculos mais tarde nas licenças da HTM, Oviedo explica porque decidiu incluir na sua história das conquistas espanholas estes "casos de infortunios e naufragios e cosas acaescidas en la mar": "son cosas para oír y notar-se, como porque los hombres sepan con cuántos peligros andan acompañados los que navegan".19

Tal como nas licenças da HTM, Oviedo não só assinala as dimensões didáticas das relações de naufrágio como motivo para as ler e escrever, como também aponta um aspecto que associa as relações de naufrágio e de cativeiro com o outro termo da díade horaciana de docere/delectare. Este aspecto – frequentemente subvalorizado no estudo das Relações de naufrágio e cativeiro – nos permite apreciar a proximidade entre os dois temas para os autores e públicos ibéricos. Referindo-se ao naufrágio de Alonso Zuazo, Oviedo escreve:

Ni aun en las novelas de los fabulosos griegos no está escripta semejante cosa, ni todas las metáforas del Ovidio en sus Metamorfoseos no son igual comparación, sabida la verdad de la historia o alegoría con que él quiso dar a entender, debajo de velamen lo que, hablando a la llana, no hobiera de qué se pudiera algún cuerdo o prudente maravillar, como se maravillaría cuantos oyeren aquesto que aquí se puede ver escripto.20

Se os pontos de comparação explícitos são as fábulas de Ovídio, e talvez as de Esopo e Hesiodo, a referência às "novelas de los fabulosos griegos" também faz lembrar os romances gregos como a Historia Aethipioca, de Heliodoro, a qual foi popularizada em toda a Europa depois da sua primeira publicação, em 1534, e de suas subsequentes traduções em várias línguas.21 Caracterizados pelas peregrinações e aventuras amorosas dos protagonistas – entre outras peripécias, destacam-se o naufrágio e o cativeiro que alternadamente separam e unem os amantes – os romances gregos e os seus imitadores renascentistas eram elogiados, sobretudo, pelo deleite que ofereciam aos leitores, pelo aspecto maravilhoso que ainda se conformava às regras de verosimilhança. Como afirma Margaret Anne Doody na sua história do romance, "Renaissance editors and commentators stress the importance of pleasure in reading literature – and they are emphatic in their own professions of pleasure".22 A verdade é que as afirmações sobre o prazer dos autores, editores e leitores pelas relações de naufrágio e de cativeiro são mais frequentes que a dúvida expressada por Céspedes y Meneses, "no sé qual es el que apetece hazer volumen de tragedias".23

Como justificativa deste prazer, os narradores de infortúnios como o naufrágio e o cativeiro recorrem ao topos do gosto de contar tragédias passadas. Assim, no Prólogo do Naufrágio de Jorge d'Albuquerque Coelho (1601), de Afonso Luiz Piloto, lemos que "assim como a memoria dos dias alegres, & felices, conforme a openião de alguns Philosophos, causa tristeza, & dór em outros estados diferentes, assim a memoria dos males, & dos trabalhos, fora delles, causa deleytação, & contentamento".24 João Carvalho Mascarenhas, o autor da Memorável Relaçam da Perda da Nao Conceiçam (1627), oferece uma explicação parecida do seu interesse em escrever sobre o cativeiro que ele mesmo padeceu em Argel (como discutirei mais tarde, esta é uma relação mais de cativeiro que de naufrágio, apesar do título): "pôsto que o contentamento de contar trabalhos passados me pode ficar por prémio, o ser bem aceita o terei por tam grande, quanto é o gôsto com que a ofereço".25 Henrique Dias, o autor da relação do naufrágio da nau São Paulo, oferece a formulação negativa desta idéia citando Cícero: "‘em todas as fortunas e males muito mais miserável cousa é o vê-los e passá-los que ouvi-los ou contá-los'".26 E o autor anónimo de Viaje de Turquía vincula explicitamente o naufrágio e o cativeiro através deste tópico, sugerindo a inseparabilidade dos temas para os escritores e os leitores:

Como los marineros, después de los tempestuosos trabajos, razonan de buena gana entre sí de los peligros pasados, quién el escapar de Scila, quién el salvarse en una tabla, quién el dar al través y naufragio de las sirtes, otros de las ballenas y antropófagos que se tragan los hombres, otros el huir de los corsarios, que todo lo roban, ansí a mí me ayudará tornar a la memoria la cautividad peor que la de Babilonia, la servidumbre llena de crueldad y tormento, las duras prisiones y peligrosos casos de mi huída.27

A "deleytação", o "contentamento" e a "boa vontade" não só pertencem aos autores ou narradores, como também se estendem aos leitores das histórias de infortúnios. Quando Cabeza de Vaca publica a segunda edição da sua Relación, juntamente com a narrativa da sua posterior expedição ao Rio de la Plata na América do Sul, intitulada os Comentarios (1555), dedica a obra dupla ao Infante don Carlos, explicando que,

[los Comentarios] van juntos con mis primero sucesos, porque la variedad de las cosas que en la una parte y en la otra se tractan y la de mis acontecimientos detenga a Vuestra Merced con algún gusto en esta lección. Que cierto no hay cosa que más deleite a los lectores que las variedades de las cosas y tiempos y las vueltas de la fortuna, las cuales, aunque al tiempo que se experimentan no son gustosas, cuando las traemos a la memoria y leemos son agradables.28

Tal elogio do gosto provocado pela variedade poderia ser tomado das páginas de teóricos renascentistas como Tasso e López Pinciano, os quais louvavam precisamente este aspecto dos romances gregos como a Aethiopica. 29 Na Relação da viagem e sucesso que teve a Nao S. Francisco (1596), o Padre Gaspar Afonso apresenta uma comparação com outro antecedente épico grego, ao explicar o gosto experimentado por um ouvinte da narração das suas peregrinações, o qual lhe instigou a escrever:

O desejo e sede com que isto me pediu quem por muitas vias me podia mandar (...) e o gosto com que me ouvia e fazia referir algumas das muitas coisas que por nós passaram, ou nós por elas, estes anos que andamos errando tantos mares e terras, quantas nunca Ulisses imaginou que podia haver para se navegar e errar, me obrigou a lho pôr por escrito e dar conta, para sua consolação e dos mais que a lerem (...).30

Encontramos a mesma comparação superlativa na aprovação do Padre Francisco Xavier do segundo volume da HTM: depois de comparar as relações de naufrágio desse volume com viagens, tanto reais (del Cano, Cavendish, Drake), como fictícias (Ulisses, Éneas), conclui, tal como Oviedo e Gaspar Afonso, que "he certo, que todas eftas viagens taõ longas, taõ perigosas, e por mares nunca dantes amançados, naõ tem, nem pòdem ter comparaçaõ com as que fe contaõ neftas funeftas e melancolicas Relaçoens". 31 A expressão mais concreta do prazer que os leitores encontram nestas "funestas e melancólicas" relações é articulada, curiosamente, numa das licenças inquisitórias do primeiro tomo da HTM, a de Julio Francisco:

Sendo taõ lastimòsos, e infelices os successos, de que se compoem, com tudo a variedade dos mesmos successos, e o desejo, que o animo concebe logo ao principio de qualquer delles, de ver o [fim em] que ultimamente veyo a parar, fazem a liçaõ deste livro taõ suave, e taõ agradavel, que naõ permitte a menor interrupçaõ: pelo menos o breve tempo, em que eu o li, ainda me pareceo mais breve pela suavidade da liçaõ.32.

"Nelle naõ achey couza alguma contra a nossa Santa Fè, ou bons coftumes," acrescenta o inquisidor.33 De fato, como indica a licença, o deleite oferecido pelas narrações de infortúnios não impede mas contribui para a "lição" da obra, no sentido de leitura (da origem latina lectio) também como ensinamento. Faz falta examinar, agora, em que consiste esta "lição" didática e exemplar, porque oferece outra maneira de aproximar as relações de naufrágio e cativeiro, e também permite explorar a relação das duas com o contexto ideológico da expansão ibérica e cristã.

 

Relações imperiais

A "lição" das relações de infortúnios ocorridos ao serviço da expansão imperial é tanto mundana quanto religiosa. Se Álvar Núñez Cabeza de Vaca apresenta a sua relação de naufrágio e cativeiro como um "aviso, a mi parescer, no liviano, para los que en su nombre fueren a conquistar aquellas tierras y juntamente traerlos a conoscimiento de la verdadera fee y verdadero señor y servicio de Vuestra Magestad",34 a licença de José Troyano para o segundo tomo da História trágico-marítima expande a noção de "aviso" para incluir o sentido espiritual: "são avisos da Divina misericordia, para escaparmos dos rigores da sua ira. A sua material he naõ sómente pia, que move a lagrimas, e agradecimento a Deos Senhor Nosso pelas misericordias recibidas; mas tambem utilissima aos que navegaõ as partes da India, e continuamente cursaõ aquella Carreira, para que no perigo alheyo aprendaõ a evitar o proprio".35 Como Cabeza de Vaca, e tantos outros autores de relações de naufrágio, Troyano também destaca as informações que esses textos podem fornecer a serviço de um império d'além-mar. Para este fim, o segundo tomo de HTM conclui com um resumo Da causa e desastres por que se perderam muitas naus da Índia, a mais conhecida sendo a "cobiça insaciável" que resulta no sobrecarregamento das naus com as riquezas da Índia.36 Quase todas as narrativas apresentam tais avisos – cumprindo assim a sua função de "ilustre escola de cautelas", segundo Manoel de Sá na sua licença do primeiro tomo da HTM – juntamente com as informações náuticas e geográficas para viajantes futuros.

Que alguns leitores valorizassem as relações precisamente por estes avisos e informações é evidente na frequência com que os náufragos mesmos se referem a desastres prévios numa tentativa de guiar as suas ações.37 Nem sempre, claro, todos estariam de acordo sobre a correta interpretação da experiência precedente. Por exemplo, no Naufrágio da nau Nossa Senhora de Belém (...) no ano de 1635, o aparecimento da relação do naufrágio do São João – a primeira e mais conhecida de todas, que data de 1552 – "que traziam de rancho em rancho",38 leva os sobreviventes a caminhar por terra em vez de construir embarcações para navegar até Angola. Esta segunda opção é sustentada pelo capitão e narrador José de Cabreira, que lê a "miserável perdição" de Manoel de Sousa Sepúlveda e a de sua família como um aviso contra o caminho por terra.39 Cabreira deixa à consideração dos leitores quem é que escolheu a melhor via de salvação: "fiz por que tudo se atropelasse, por que se nos desse depois maiores louvores, vencendo os trabalho que não venceu a nau S. João, que deixou de fazer embarcações por recear que as não pudesse botar ao mar, em razão dos muitos baixos e grandes ressacas, e se expôs às grandes misérias de caminhar por terras de alarves, que os curiosos poderão ver no seu naufrágio e julgar quão foi melhor discurso".40

Com efeito, o "melhor discurso" – tanto o caminho tomado quanto o texto escrito – de José de Cabreira serve aos potenciais náufragos leitores, dando-lhes "acertos para saber naufragar",41 como afirma no Prólogo. Também contribui para o retrato do bom capitão construído na relação. Tratase de um discurso de auto-elogio que é dirigido a outro leitor, o real: "ao menos fio dêle [este Roteiro] que publique o zêlo com que os vassalos de Sua Majestade o sabem servir em tôda a parte e os riscos a que se expõem em tam bárbaros climas, com tam poucas esperanças de vida".42 Outras narrativas autobiográficas de infortúnios chegam a apresentar o serviço imperial não como a causa das desventuras, senão como seu resultado. Aproveitando o gênero legal da relação de serviços – para o fim de alcançar outra nomeação imperial, como de fato conseguiu como governador do Rio de la Plata – Cabeza de Vaca apresenta a sua informação obtida como náufrago e cativo como um serviço equivalente ao da conquista, colonização e aquisição de riquezas:

no me quedó lugar para hazer más servicio deste, que es traer a Vuestra Magestad relación de lo que en nueve años por muchas y muy estrañas tierras que anduve perdido y en cueros, pudiesse saber y ver, ansí en el sitio de las tierras y provincias y distancias dellas, como en los mantenimientos y animales que en ellas se crían, y las diversas costumbres de muchas y muy bárbaras naçiones con quien conversé y viví, y todas las otras particularidades que pude alcançar y conoscer que dello en alguna manera Vuestra Magestad será servido.43

Por meio dos avisos e da informação contida nas relações de naufrágio e de cativeiro, os narradores – sobretudo quando são autodiegéticos – tentam recuperar uma experiência do fracasso da expansão imperial, tornando-a útil para futuras expedições.

Neste sentido, as relações de naufrágio e de cativeiro se enquadram bem com a ideologia imperial e católica: em vez de simplesmente mostrarem os perigos da viagem, incentivam a religiosidade e o comportamento exemplar tanto dos que ficam, como dos que se lançam à experiência ultramarina. Muitos críticos têm reconhecido este aspecto das relações de naufrágio portuguesas. Giulia Lanciani afirma que "[a] ideologia subjacente a estes relatos é, pois, a bem conhecida ideologia da missão civilizadora e evangelizadora confiada pela providência aos portugueses";44 enquanto Maria Alzira Seixo assevera que os naufrágios podem ser "imperfeições que sublinham o carácter grandioso de epopeias humanas (...): e o canto da morte é tão necessário à glorificação do empreendimento como a sintonização do seu sucesso".45 No entanto, estas mesmas críticas também assinalam a dimensão "anti-épica" das relações de naufrágio, classificando- as como o "reverso integral do idílio das narrativas de descobertas"46 e "o reverso da medalha das exaltantes crónicas oficiais, feitas de vitórias, de conquistas, de triunfos em terras longínquas e entre gentes exóticas".47 Mais recentemente, o livro de Josiah Blackmore, Manifest perdition: shipwreck narrative and the disruption of empire, salienta, como indica o título, a maneira como as narrativas de naufrágio perturbam o projeto imperial: "The shipwreck text, one of breakage, rupture, and disjunction, precludes the possibility of a redemptive reading, and in this messy openness present the greatest blow to the predetermined success of national expansion and its textual analogue".48 Não obstante, em vários momentos, Blackmore oferece uma leitura mais sensível às dimensões contraditórias e ambíguas de tais narrativas, reconhecendo a presença da afirmação ideológica da expansão e a possibilidade de interpretação redentora no discurso do fatalismo cristão, apesar de que, segundo ele, estes elementos são negados pela evidência narrativa.49

As narrativas de cativeiro têm sofrido o mesmo vaivém interpretivo nos vários contextos onde têm aparecido: muitos críticos têm examinado o seu papel de justificar a expansão imperial e de defender a superioridade do europeu através da demonstração da incivilidade e barbarismo dos captores, sejam ameríndios, turcos, ou piratas de países e religiões inimigas.50 Outros críticos salientam as dimensões subversivas ou ao menos problemáticas das narrativas de cativeiro para com a história oficial da expansão imperial: com o europeu no papel de cativo, não são mais "relações de conquista" que as de naufrágio.51 O que uma perspectiva comparativa pode iluminar sobre a relação complexa e contraditória destas narrativas com o discurso imperial? Se a dimensão "perturbante" dos dois tipos de relações é a que tem chamado mais atenção nos últimos anos, os comentários a seguir são dirigidos com o objetivo de recuperar o significado e a função das narrativas para os autores e leitores da época, e mostrar como a comparação pode ajudar neste objetivo. Apesar do interesse no deleite e o gosto de as ler e escrever, analisado na seção anterior, as narrativas não podem ser dissociadas do contexto imperial. Tampouco representam uma simples "inversão" da ideologia expansionista, apesar da atração desta possibilidade para as nossas sensibilidades pós-coloniais.

Em primeiro lugar, as dimensões ideológicas das narrativas de cativeiro são talvez mais claras do que as das relações de naufrágio por causa do enfoque num inimigo externo. Na maioria das representações espanholas do cativeiro, o "outro" religioso, temido e odiado, é identificado como o captor cruel e bárbaro, em oposição ao cativo cristão civilizado. Assim, por exemplo, a Topographia e historia general de Argel (1612) – publicada por Diego de Haedo mas recentemente atribuída ao doutor português "Antonio de Sosa", o qual figura como interlocutor principal nos diálogos da obra, e que foi companheiro de Cervantes no cativeiro argelino – oferece múltiplos exemplos do tratamento inumano dos cativos, para mostrar como "realmente la crueldad desta gente y el gusto con que matan los cristianos, y las invenciones y muertes y martirios que para eso inventaron son de manera que no parecen de hombres, mas de bestias y demonios infernales".52 A Topographia provavelmente foi escrita pouco depois da derrota portuguesa em Alcaçer-Quibir, depois da qual Portugal quase abandonou o esforço de conquistar mais territórios no norte da África. Mas meio século antes, o autor anónimo de Viaje a Turquía ainda podia usar os sofrimentos dos cativos cristãos para incentivar Felipe II à conquista do império otomano, como explica no Prólogo: "Plegue a Dios omnipotente, César invictísimo, que con el poder de Vuestra Majestad aquel monstruo turquesco, vituperio de la natura humana, sea destruído y aniquilado de tal manera que torne en libertad los tristes cristianos de grave tiranía".53

A construção de oposições culturais e religiosas evidentes nestas passagens é menos comum nas relações de naufrágio, em que os viajantes normalmente encontram maior antagonismo nas forças naturais. Às vezes, a representação de encontros hostis em terra – com "inimigos tão cruéis como estes cafres são", na Relação do Naufrágio da Nau Santiago no ano de 158554 – ou com piratas protestantes no mar – "gente inumana carecente de fé e caridade cristã," no Tratado das Batalhas do Galeão Santiago e da Nau Chagas55 – articula o mesmo esquema oposicional e hierárquico entre civilizações e religiões. Mais frequente é a representação de um "inimigo interno" que serve a um propósito comparável ao captor bárbaro. Isto é, tanto o naufrágio como o cativeiro podem servir como provas da virtude cristã e cavalheiresca, e desta forma constróem uma imagem da identidade portuguesa ou espanhola exemplar. Por exemplo, no confronto com piratas franceses, holandeses e ingleses, as relações de naufrágio de Santiago e Santiago/Chagas apresentam cenas de batalha que distinguem não só os inimigos religiosos, mas também distinguem os "verdadeiros" portugueses que lutaram até a morte dos que preferiram ceder ao inimigo. Assim, no Naufrágio que passou Jorge de Albuquerque Coelho, o protagonista é o valoroso e virtuoso capitão cuja derrota às mãos de corsários franceses ocorre só porque a tripulação rende-se sem a sua permissão.56 No Tratado das Batalhas, quando a gente do Santiago implora ao capitão-mor para entregar-se aos holandeses, ele responde que "lembrassem que era portugueses, a quem em semelhantes sucessos o temor da morte não fizera nunca perder o ponto da honra e obrigação de cavaleiros".57

A oposição nas relações de naufrágio entre "bons" e "maus" portugueses é às vezes estendida às mesmas forças do bem e do mal. Assim, os desejos pouco portugueses e cristãos da tripulação faminta de Jorge de Albuquerque Coelho – de canibalizar os companheiros mortos, ou de condenar-se ao suicídio coletivo fazendo afundar a nau – são atribuídos aos esforços do "perverso inimigo": Satã em pessoa.58 Talvez tenha sido esta atribuição que levou Almeida Garrett a identificar esta relação como a origem do romance popular A Nau Catrineta, em que o naufrágio serve como cenário para as tentações do demônio. No romance, o capitão também resiste à tentação, finalmente chegando a salvo à terra pátria como prêmio por preservar a sua fidelidade a Deus.59 Tal como o cativeiro, também o naufrágio pode representar uma prova dos limites da identidade religiosa e nacional. A resistência a inimigos internos e externos, espirituais e terrestres, fornece um modelo não só para o comportamento pessoal mas também para a conduta imperial. O naufrágio castiga os motivos equivocados da expansão imperial: a cobiça, a ambição pessoal; e lembra aos leitores as razões corretas: a evangelização, a aquisição de conhecimento, o serviço a Deus e ao Rei.

Em segundo lugar, as relações de cativeiro registram um movimento circular – desde a casa, a pátria e a civilização, até o cativeiro numa terra estranha e bárbara, de onde finalmente se regressa –, uma viagem recursiva que é menos evidente, mas ainda importante, nas narrativas de naufrágio. Até os relatos de mártires cativos ou de náufragos mortos representam um "regresso", porque são escritos desde e para a pátria dos falecidos. A história é narrada por um sobrevivente, testemunha, ou alguém que consegue a história através destas fontes, e a narração – que ocorre "em casa" por assim dizer – arremata a viagem circular. "A tudo isto fui testemunha de vista, por isso o contei", afirma o narrador do Naufrágio de Jorge de Albuquerque Coelho,60 invocando assim o sentido da palavra mártir no étimo grego (testemunha). Jorge de Albuquerque Coelho anima a sua tripulação desesperada com esta possibilidade de regresso, uma promessa que é realizada no ato da leitura:

Eu, certo como o visse, espero que ele [Deus] nos há-de levar à terra, para que a gente saiba este milagre que conosco usa, porque não fique isto sem ser sabido, e a gente a cuja notícia vier este nosso naufrágio dê sempre louvores a Nosso Senhor (...); e mais, que nos não há-de levar a qualquer terra senão à cidade de Lisboa, aonde possamos contar cousas tão novas como estas.61

Com efeito, neste caso, até a nau chega de volta, e como "coisa tão nova" é apresentada ao público português, para assim servir a mesma função que a narrativa: "se pôs a dita nau defronte da Igreja de São Paulo (...) e por espaço de um mês ou mais que ali esteve ia tanta gente vê-la que era cousa espantosa, e todos ficavam admirados vendo seu destroço, e davam muitas graças e louvores a Nosso Senhor por livrar os que nela vinham de tantos perigos como passaram".62 Aqui vemos de novo, diga-se de passagem, a dimensão maravilhosa das relações de naufrágio, pela admiração popular com que foram recebidas. Tal admiração é igualmente evidente na popularidade do romance anteriormente citado, cujo aspecto cativante é já anunciado nos primeiros versos: "Lá vem a nau Catrineta/ Que tem muito que contar!/ Ouvide, agora, senhores,/ Uma história de pasmar".

Não obstante, as narrativas de cativeiro muitas vezes mostram como o regresso não é uma volta pura ao estado original; a experiência extrema do cativeiro e do naufrágio inevitavelmente transforma os sobreviventes, não só espiritual mas também fisicamente. Os corpos dos náufragos às vezes são tão irreconhecíveis como o corpo da nau Santo António, tal como indica a conclusão desta narrativa numa anedota cômica: Uma vez que sabe da chegada, o primo de Jorge de Albuquerque vai buscá-lo, mas é incapaz de reconhecer o seu parente mesmo quando fala com ele. Só mostrando certos "sinais na pessoa" pode o capitão convencer o primo da sua verdadeira identidade.63 Blackmore interpreta esta cena como emblema da subversão do discurso imperial na HTM: "If empire is on one level the enactment of a national self-identity abroad, then Coelho's experience suggests that this identity has suffered shipwreck and has been left in pieces".64 De fato, em várias narrativas a transformação externa dos náufragos problematiza a oposição hierárquica entre o civilizado português e o "outro" bárbaro.65 Mas também podemos ler a transformação física de Jorge de Albuquerque como evidência da manutenção de sua identidade nacional mesmo no além-mar e sob circunstâncias extremas. O seu comportamento exemplar, tão insistentemente apresentado na narrativa, é assim ainda mais digno de elogio.

De toda maneira, o episódio apresenta claras possibilidades comparativas, porque lembra a representação do regresso de cativos como Álvar Núñez Cabeza de Vaca, Jerónimo de Aguilar (o tradutor de Cortés), e Juan Ortiz em várias crónicas do Novo Mundo, ou o regresso do "capitão cativo" Ruy Pérez de Viedma à Espanha, na História do Cativo, de Don Quijote.66 Em todos estes casos, o não reconhecimento baseado na aparência física é superado por palavras ou gestos que revelam a identidade nacional e cristã do ex-cativo. Por exemplo, na Relação verdadeira dos trabalhos que o governador D. Fernando de Souto e certos fidalgos portugueses passaram no descobrimento da Província da Flórida (1557), o Fidalgo d'Elvas descreve o encontro do sevilhano Juan Ortiz com a expedição de Hernando de Soto, depois de onze anos de cativeiro: "Baltazar de Gallegos, duas léguas do povo, saindo ao campo chão, viu dez ou onze índios, entre os quais vinha um cristão, despido como andava, queimado do sol, e trazia os braços lavrados a uso dos índios, e nenhuma cousa diferia deles".67 Quando um em um cavalo lhe ameaça, Ortiz "começou a bradar: cristão sou, senhores, não me mateis, nem mateis estes índios, que êles me hão dado a vida".68 Se nestes casos é a indumentária (ou falta de indumentária) ameríndia ou moura que provocam o não reconhecimento do cativo espanhol, para Jorge de Albuquerque, como todo o náufrago, são as marcas dos sofrimentos corporais que dificultam o seu reconhecimento: "era cousa lastimosa e de grandíssima compaixão ver o estado em que esta mísera gente estava, de trabalhos e necessidades, e tão disformes e magros que nos íamos já desconhecendo uns aos outros".69 O episódio do regresso de Jorge de Albuquerque também nos pode recordar o contexto literário das relações de naufrágio, examinado na seção anterior, porque recorda as cenas de anagnórisis nos romances gregos, em que o uso de marcas de nascença para confirmar a identidade é um topos conhecido. A volta de Jorge de Albuquerque, tão parecida aos regressos de cativos, nos encaminha à última seção deste ensaio, que foca duas Relações de cativeiro e as relações entre elas.

 

Relações ibéricas

Identificar cenas, personagens e tropos comparáveis entre narrativas de naufrágio e de cativeiro é uma tarefa seguramente menos difícil e arriscada de que fazer afirmações sobre fontes e influências verdadeiras, um argumento que depende normalmente de perguntas incontestáveis sobre as possíveis leituras dum autor. Mas para continuar a investigação sobre as Relações ibéricas, a análise intertextual torna-se inevitável no caso da relação de João Carvalho Mascarenhas, cujo título completo é Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam que os turcos queymáraõ a vista da barra de Lisboa, & varios fucceffos das peffoas, que nella cativaraõ. Com a nova descripção da Cidade de Argel, de seu governo, & cousas muy notaveis acontecidas nestes ultimos annos de 1621 ate o de 1626.70 Como as relações do século XVI, seu relato foi publicado como panfleto pouco depois dos incidentes descritos (1627). Faz parte do que é conhecido como o "terceiro volume" anônimo da História trágico-marítima. Comprovando sua popularidade continuada, a Memorável Relação foi reproduzida em várias edições contrafeitas no século XVIII e outra no século XIX,71 aparecendo também em coleções como a Viagens e naufrágios célebres, editada por Damião Peres, em 1937.

Como indica o título completo, a Memorável Relação compõe-se de três partes: a Relação da perda da nau Conceição, que narra a navegação da Nossa Senhora da Conceição de Goa até Lisboa, e o ataque que sofre de dezessete naus turcas, já quase chegando a Portugal; a Nova descripção da cidade de Argel, da qual voltarei a falar em breve; e os Sucessos que tiveram os cativos, que inclui treze capítulos relatando o martírio, a conversão, e a fuga de vários cativos cristãos de Argel e outro lugares do Mediterrâneo. Mascarenhas, um soldado bem viajado de quem sabemos pouco além do que ele nos conta na sua narrativa, afirma que uma das suas motivações para escrever o texto

foi ver que, sendo a Cidade de Argel perseguição contínua da cristandade, (...) e donde há, sòmente dêste nosso reino, mais cativos que de outro algum, e que, havendo nêle tantos soldados, tantos letrados, tantas pessoas graves e doutas, não houvesse quem escrevesse dela algum tratado moderno em nossa língua, ocupando por ventura a sutileza de seus engenhos em livros de menor importância.72

Mascarenhas sublinha a falta de textos portugueses dedicados ao cativeiro argelino, mas ele não precisaria procurá-los para além dos seus vizinhos ibéricos – que nesse momento compartilhavam o mesmo soberano – para encontrar outra obra em que basear a sua Memorável Relação.73

Charles R. Boxer afirma que esta é a sua relação de naufrágio favorita, evocando na sua explicação o critério do deleite que tratamos antes: "I find Carvalho Mascarenhas' description of his captivity at Algiers more convincing and enthralling than Cervantes' treatment of this theme in El Trato de Argel, Los Baños de Argel, and chapters XXXIX and XL of Don Quijotede la Mancha".74 O que Boxer não parece saber é que tanto Mascarenhas quanto Cervantes provavelmente estavam familiarizados com a mesma obra sobre o cativeiro argelino, protagonizada e talvez escrita por outro português, o doutor Antonio de Sosa (segundo aparece no texto espanhol). Sosa conhecia e comunicava-se com Cervantes sobre assuntos literários durante o seu cativeiro de 1577-1581, e comprovava o bom caráter e comportamento cristão de Cervantes na Información recolhida por este quando foi resgatado.75 Seguindo um estudo realizado por George Camamis nos anos setenta, vários críticos têm proposto Antonio de Sosa como autor da Topographia e historia general de Argel. Este texto foi publicado em 1612 por Frei Diego de Haedo, o qual afirma no prefácio ter polido e editado o texto "composto" pelo seu tio, o Arcebispo de Palermo do mesmo nome. Segundo estes críticos, o cativo Antonio de Sosa, que é nomeado como interlocutor nos três diálogos do volume, é o autor mais provável do texto do que estes religiosos que nunca tinham estado em Argel.76 Se eles têm razão, Mascarenhas não seria o primeiro português a escrever e publicar sobre o cativeiro argelino, embora possa ter sido um dos primeiros a fazê-lo na língua portuguesa, como afirma no Prólogo ao leitor

A dívida de Mascarenhas para com a Topographia é mais óbvia na seção intitulada Nova descrição da cidade de Argel. Esta seção é tudo menos nova, sendo principalmente retirada da primeira parte da obra de Haedo/ Sosa, Topographia o descripción de Argel y sus habitadores y costumbres.77 Mascarenhas às vezes parece traduzir quase palavra-por-palavra trechos da Topographia e, apesar da diferente organização e distribuição dos capítulos, as informações básicas nos treze capítulos desta seção assemelham-se a diferentes passagens da Topographia, que é bastante mais extensa (41 capítulos). As concordâncias entre as descrições de Argel poderiam corresponder a coinidência de informações factuais que os dois autores poderiam ter adquirido através de outras fontes ou da sua própria observação; afinal descrevem a mesma cidade. Mas a frequência destas coincidências – como valores numéricos, incluído salários, que presumivelmente teriam subido durante os quarenta anos entre a residência de Sosa e a de Mascarenhas em Argel – e as mesmas locuções utilizadas para apresentar a informação sugerem que Mascarenhas teve acesso à Topographia quando escrevia a sua relação, embora provavelmente sem conhecimento da sua autoria portuguesa.78 A seguinte justaposição pode servir de exemplo:

no hay nación de cristianos en el mundo de la cual no haya renegado y renegados en Argel. Y comenzando de las remotas provincias de Europa, hallan en Argel renegados Moscovitas, Roxos, Rojalanos, Valacos, Búlgaros, Polacos, Úngaros, Bohemios, Alemanes, de Dinamarca y Noruega, Escoseses, Ingleses, Irlandeses, Flamencos, Borgoñones, Franceses, Navarros, Vizcaínos, Castellanos, Gallegos, Portugueses, Andaluces, Valencianos, Aragoneses, Catalanes, Mallorquines, Sardos, Corzos, Sicilianos, Calabreses, Napolitanos, Romanos, Toscanos, Ginoveses, Savoyanos, Piamonteses, Lombardos, Venecianos, Esclavones, Albaneses, Boznos, Arnautes, Griegos, Candiotas, Cipriotas, Surianos y de Egypto, y aun Abexinos de Prestejuán y Indios de las Indias de Portugal, del Brasil y de Nueva España.79

Haverá cativos cristãos em Argel, sòmente da Igreja Romana, oito mil (...). De outras nações haverá outros tantos, e mais, como são framengos, ingleses, de Dinamarca, escoceses, alemães, irlandeses, polacos, moscovitas, boémios, húngaros, da Noruega, borgonhões, venezianos, piemonteses, esclavónios, surianos, de Egito, chinas, japões, brazis, de Nova Espanha, e do Prestes João; e destas mesmas partes há também renegados, e de outras muitas em grande quantitade.80

O exemplo mostra bem a relação intertextual: Mascarenhas oferece uma versão abreviada da mesma informação (oferece uma lista parcial da de Haedo), mas trocando a ordem e marcando a perspectiva portuguesa (em vez de "Indias de Portugal," especifica China e Japão).

Não obstante, Mascarenhas não seria o primeiro a peneirar as páginas da Topographia para dali retirar informações sobre Argel. Camamis explica como escritores tão diversos, como Lope de Vega (em La mayor desgracia de Carlos V y hechicerías de Argel) e o ex-cativo Diego Galán (em Cautiverio e trabajos de Diego Galán), modelaram suas descrições de Argel nas passagens da Topographia.81 O crítico dedica especial atenção à "imensa dívida" para com este texto de Gonzalo de Céspedes y Meneses, no seu Poema trágico del español Gerardo y desengaño del amor lascivo.82 Apesar do título, esta obra não é um poema mas uma narrativa inspirada nos romance gregos, com as típicas viagens, aventuras e infortúnios sofridos pelos protagonistas, incluindo um episódio de cativeiro em Argel. Camamis mostra como não só a descrição de Argel, mas também várias anedotas, são quase inteiramente copiadas da Topographia. Como no princípio deste ensaio, Céspedes y Meneses serve mais uma vez de um possível ponto de ligação, oferecendo uma pista sobre o conhecimento de Mascarenhas do texto de Haedo/Sosa. Como já indiquei, o autor espanhol foi exilado em Lisboa na década de 1620 e, em 1625, a imprensa de António Álvares publicou a terceira edição do Poema trágico del español Gerardo. Só dois anos depois, o mesmo editor traria à luz a Memorável Relação, de Mascarenhas, que parece copiar as mesmas passagens da Topographia que o romance de Céspedes y Meneses.

Camamis encontra o plágio mais flagrante de Céspedes y Meneses da Topographia na história interpolada do cativeiro e martírio de Fernando Palomeque.83 Como efetivamente demostra Camamis, o episódio no romance de Céspedes é baseado em várias histórias incluídas no segundo diálogo da Topographia. O Diálogo de los mártires apresenta casos de cativos cristãos horrivelmente martirizados pelos seus captores mouros e turcos.84 Será que Mascarenhas encontrou a mesma inspiração para a terceira seção da sua Memorável Relação, intitulada Dos sucessos que tiveram os cativos? Os primeiros capítulos desta seção seguem de perto a estrutura do Diálogo de los mártires, com três casos de martírios de cativos virtuosos apresentados cronologicamente.85 Na conclusão de outros episódios, a relação de Mascarenhas se assemelha ao mesmo diálogo ao resumir o aspecto físico e a idade dos protagonistas, tal como faz Haedo/Sosa com os mártires: "É o patrão Segui de idade de trinta e cinco anos, muito pequeno do corpo, o rosto curto e moreno".86 O êxito deste personagem em escapar duas vezes e de levar outros cristãos para a liberdade lembra as tentativas de Miguel de Cervantes de organizar a fuga de muitos cativos referidas no Diálogo de los mártires, sobre as quais o autor afirma que "[d]e las cosas que en aquella cueva sucedieron en el discurso de los siete meses que estos cristianos estuvieron en ella y del cautiverio y hazañas de Miguel de Cervantes se pudiera hacer una particular historia".87 Para Mascarenhas, estas "façanhas" não seriam comparáveis às do patrão Segui: "Foi tam valente êste homem em todos os feitos e cousas que cometeu, que não vi nem ouvi que em nossos tempos houvesse outro semelhante".88

As aventuras do patrão Segui são complementadas nesta seção da Memorável Relação por episódios ainda mais intrigantes: renegados arrependidos, aventureiros picarescas, amores entre cativos ou entre mouras e cristãos, planos de vingança, e finalmente, a reunião milagrosa de uma velha cativa siciliana com o filho "que ia buscar, o qual tinha escapado das galés de Barcelona, onde andava forçado, ficando ambos em huma hora livres, por tam diferente caminho e tam nunca imaginado meio, dando-lhe Deus o que ia a pedir a El-Rei".89 Estes sucessos variados seguramente contribuem para o "espírito e curiosidade" que o autor afirma não faltar no seu texto, apesar de que a sua relação "é fundada sôbre uma matéria de pouca estima e baixo sujeito, por serem sucessos acontecidos entre escravos e cativos".90 Mascarenhas assim não deixa de invocar todas as motivações autorais que já vimos noutras relações de cativeiro e de naufrágio: de instruir e informar ("o que tem notícia de coisas semelhantes já sabe como se há-de haver nelas"),91 de comprovar os seus serviços ao rei ("apresento também a V. M. meus trabalhos (...) todos em serviço de sua Majestade, que por esta razão ficam sendo de mais qualidade e merecimento");92 de assegurar a verdade da sua história ("Meu intento foi contar verdades [que em tudo o que escrevo como testemunha de vista poderei jurar]");93 de deleitar os leitores ("pôste que o contentamento de contar trabalhos passados me pode ficar por prémio, o ser bem aceita o terei por tam grande, quanto é o gôsto com que a ofereço").94 Se para este último fim rejeita o "adôrno de palavras" e a "linguagem floreada",95 os episódios cômicos e trágicos da terceira parte indicam que a Memorável Relação não está tão afastada do âmbito literário como parece afirmar. A ressonância literária destes episódios e personagens, tão comuns nos gêneros de ficção coevos – sobretudo, a chamada "novela bizantina", inspirada nos romances gregos de aventuras e viagens –, sugere que a proximidade entre o romance (espanhol) de Céspedes y Meneses e a relação (portuguesa) de Mascarenhas se situa não apenas na utilização de uma fonte comum: um tratado histórico sobre o cativeiro argelino (escrito em espanhol, mas talvez por um português). Como discuti na primeira secção deste ensaio, as relações de naufrágio e de cativeiro partilham, com a narrativa de ficção renascentista, o emprego da variedade e de acontecimentos extraordinários e maravilhosos, para o fim de não só instruir mas de também deleitar os leitores. Se as licenças da História trágico-marítima e a continuada reedição das relações de naufrágio e de cativeiro até os nossos dias são indicativos, este efeito não pertence somente à época em que foram publicadas pela primeira vez.

A modo de conclusão, ofereço uma comparação entre a Topographia e a Nova descrição da cidade de Argel que indica o que há de "novo" na segunda, mas que também assinala, mais uma vez, o contexto da expansão imperial ibérica, ainda relevante em 1627. O capítulo de Mascarenhas dedicado as "hortas e quintas que estão ao redor da cidade"96 inicialmente parece seguir o capítulo da Topographia que trata do mesmo tema.97 Os dois pintam um espaço edênico de "infinitos jardines, huertas, viñas",98 "os melhores e mais viçosos, frescos, e abundantes de frutas e de fontes e ribeiras de água, que eu vi".99 Mas enquanto o autor da Topographia invoca referências clássicas e familiares para construir o locus amoenus ("realmente no se pueden imaginar más tempero de Tesalia ni huerto alcinocos que los jardines de Argel"),100 Mascarenhas confia na evidência do testemunho ocular, adquirido nas suas extensas excursões pelo mundo, propiciado pelas viagens de expansão portuguesa:

de maneira que eu, tendo visto alguma parte do mundo, até esta idade de trinta e oito anos de que sou – como foi: no Brasil, indo por terra do Rio Grande até a Paraíba e Pernambuco, e daí à Baía, estando em todos os lugares, aldeias, engenhos, que há em tôda esta costa, de uma parte até a outra; fui de Moçambique às mais das ilhas que há até Mombaça e até à mesma Mourima; e de Mombaça, em embarcações daquela costa corri tôda a costa de Melinde, estando em Pate, Ampaza, Elamo, e outras muitas cidades de mouros, até o cabo de Guardafui e entrada do mar Roxo; na Índia estive em tôdas as cidades nossas e de mouros, que há da ponta de Diu até o cabo de Comori; o estreito de Ormuz corri todo, sendo por quatro vezes capitão de navios, sem haver nêle pequeno lugar que não visse, estando em Mascate, Barem, Catifa, e outras muitas fortalezas e lugares, e entrar pela Caldeia; fui à Pérsia com cartas de Sua Majestade, que dei ao Rei dela na sua própria mão (...).101

Só cito a metade deste extraordinário itinerário. Começando pelo Brasil, talvez o espaço mais remoto na consciência portuguesa – essa colônia portuguesa atrairia mais a atenção da metrópole somente depois da descoberta de ouro ao final do século XVII –, o narrador percorre vastas porções da África, Ásia e do Mediterrâneo, antes de regressar finalmente aos espaços mais perto de casa ("o condado de Catalunha, o reino de Aragão e de Castela e êste de Portugal").

Todo este compêndio geográfico serve para assegurar a autoridade e a veracidade do seu retrato de Argel, que supera toda a comparação: "até agora não vi terra mais fresca de jardins, mais abundantes de frutas, mais barata de mantimentos, mais copiosa de fontes, nem de clima mais temperado, nem mais rica de dinheiro (porque de todo o mundo entra aqui, e para nenhuma parte sai), do que é a cidade de Argel, que permita o Ceu seja ainda desta corôa".102 Junto com os insistentes verbos de ação na primeira pessoa ("vi", "passei", "estive", "fui", "vim", etc.) e o abuso dos superlativos hiperbólicos na descrição, o apelo à conquista – numa altura em que Portugal e Espanha já tinham abandonado os seus sonhos de estender a reconquista a todo o norte de África – sugere uma retórica de expansão imperial herdada das crônicas de exploração e conquista dos séculos XV e XVI.103 À diferença do autor da Topographia, Mascarenhas afirma o seu conhecimento direto não só de Argel, mas também de vastas áreas da expansão portuguesa imperial e comercial, e usa esta experiência para apoiar a autenticidade da sua relação – ou talvez, para marcar a sua diferença da fonte textual utilizada. Mas também a usa, indiretamente, para defender a superioridade do império ibérico cristão em oposição ao otomano (e também às outras nações européias aliadas aos turcos),104 um discurso que é ainda mais evidente na sua conclusão:

Sòmente El-Rei, nosso Senhor, continua a guerra sempre com êles, com que se faz poderoso e estimado, tanto, que dizem os turcos que no mundo não há mais que dous monarcas: entre os mouros, o Gran-turco, e entre os cristãos El-Rei de Espanha, que viva largos, felizes e prósperos anos, para bem de seus vassalos, aumento de nossa santa fé e ruína dêstes bárbaros".105

O fato deste rei, Felipe IV (III de Portugal), não continuar muitos anos mais como soberano de Portugal não deve ocultar o contexto partilhado pelos autores e leitores ibéricos da época. A rede intertextual e internacional revelada pela relação entre a Topographia e historia general de Argel, de Diego de Haedo ou Antonio de Sosa, e a Memorável Relação, de João Carvalho Mascarenhas, ou entre as relações de naufrágio de Céspedes e Meneses e Francisco Manuel de Melo pode ajudar a responder a pergunta básica que motiva este ensaio: o que é que podemos aprender ao ler as relações de naufrágio da História trágico-marítima num "contexto comparativo"? Ao menos, pode mostrar como estas relações já foram escritas e lidas num contexto mais amplo do que o que normalmente concebemos, um contexto que atravessa as fronteiras nacionais, linguísticas e genéricas que tantas vezes limitam os nossos campos de estudo hoje em dia.

 

 

* Artigo recebido em 03/10/2007. Aprovado em: 29/01/2008.
** Este ensaio foi escrito com o apoio de uma bolsa atribuida pelo National Endowment for the Humanities, na Newberry Library. Quaisquer opiniões, afirmações, conclusões ou recomendações expresas neste ensaio não representam necessariamente as do National Endowment for the Humanities. Quero agradecer o convite de Diogo Ramada Curto para participar no simposio Literatura e Império, realizado no Instituto Universitário Europeu em Florença, em 2002, o qual constituiu o germe deste trabalho. Quero também agradecer o auxílio de Isabel Ferreira-Gould na revisão do texto.
1 CÉSPEDES Y MENESES, Gonzalo de. Poema trágico del español Gerardo, y desengaño del amor lascivo. Madrid: Iofeph Fernandez de Buendia, 1666;         [ Links ] CÉSPEDES Y MENESES, Gonzalo de. Primera parte de la historia de Felipe III. Lisboa: Pedro Craesbeeck, 1631.         [ Links ]
2 MELO, Francisco Manuel de. Epanáforas de vária História portuguesa. 3a.ed. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1931.         [ Links ]
3 MELO, Francisco Manuel de. Epanáforas de vária História portuguesa, p.123.         [ Links ]
4 SEIXO, Maria Alzira. O Abismo sob o mar que se ergue. In: A História trágico-marítima: análises e perspectivas. Lisboa: Edições Cosmos, 1996, p.183.         [ Links ]
5 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima. Lisboa: Na Officina da Congregão do Oratorio, 1735, t.1;         [ Links ] BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima. Lisboa: Na Officina da Congregaçaõ do Oratorio, 1736, t.2.         [ Links ] Para uma edição recente ver: BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima. Ed. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Lacerda Editores/Contraponto, 1998.         [ Links ]
6 Cf. BOXER, Charles R. An introduction to the História trágico-marítima. In: Miscelânea de estudos em honra do prof. Hernâni Cidade. Lisboa: Publicações da Faculdade de Letras, 1957, p.48-99;         [ Links ] BOXER, Charles R. An introduction to the História trágico-marítima: some corrections and clarifications. Quaderni portoghesi, v.5, p.99-112, 1979;         [ Links ] DUFFY, James. Shipwreck & empire: being an account of Portuguese disasters in a century of decline. Cambridge, MA: Harvard UP, 1955, p.26-43 oferece resumos das 18 narrativas,         [ Links ] mas algumas das suas observações sobre os panfletos "contrafeitos" são postas em questão por BOXER, Charles R. An introduction to the História trágicomarítima, p.75.         [ Links ]
7 CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Información de Miguel de Cervantes de lo que ha servido á S. M. y lo que ha hecho estando captivo en Argel, y por la certificación que aquí presenta del Duque de Sesa se verá como cuando le captivaron se le perdieron otras muchas informaciones, fees y recados que tenía de lo que había servido a S. M. (Documentos). Ed. Pedro Torres Lanzas. Madrid: José Esteban, 1981;         [ Links ] VILLALÓN, Cristóbal de. Viaje de Turquía. Ed. Antonio G. Solalinde. Madrid: Calpe, 1919;         [ Links ] CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Don Quijote de la Mancha. Ed. Luis Andrés Murillo. Madrid: Castalia, 1978, v.1;         [ Links ] HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel. Madrid: Sociedad de Bibliófilos Españoles, 1929, 3v.         [ Links ]
8 ALFONSO X. Las siete partidas del Rey Don Alfonso el Sabio. Madrid: Imprenta Real, 1807, t.2, p.327.         [ Links ]
9 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.317.         [ Links ]
10 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.318.         [ Links ]
11 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.325-326.         [ Links ]
12 LANCIANI, Giulia. Sucessos e naufrágios das naus portuguesas. Lisboa: Caminho, 1997, p.81-82.         [ Links ] Lanciani apresenta o modelo narrativo das relações de naufrágio assim: "(Antecedentes) - Partida - (Tempestade) - Naufrágio/Ataque corsário - Arribada/Captura - Peregrinação/Impiedade dos inimigos - Retorno". LANCIANI, Giulia. Sucessos e naufrágios das naus portuguesas, p.82.         [ Links ] (As unidades prescindíveis vão entre parêntesis, e as variantes alternativas são separadas por traço obliquo.)
13 NÚÑEZ CABEZA de VACA, Álvar. Naufragios y comentarios. Ed. Roberto Ferrando. Madrid: Historia 16, 1984.         [ Links ]
14 ADORNO, Rolena e PAUTZ, Patrick Charles. Álvar Núñez Cabeza de Vaca: his account, his life, and the expedition of Pánfilo de Narváez. Lincoln: University of Nebraska Press, 1999, v.3, p.42.         [ Links ]
15 ADORNO, Rolena e PAUTZ, Patrick Charles. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, v.3, p.42.         [ Links ] Explicam os autores: "the meaning was not the literal one of ‘shipwrecks,' for there was no shipwreck, unless one considers as such the destruction of the two moored vessels in a hurricane on the coast of Cuba in November 1527, the loss of a ship on the west coast of the Florida Peninsula in the spring of 1528, or the men's being thrown up on the Texas shore from the rafts in November of that year" (ADORNO, Rolena e PAUTZ, Patrick Charles. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, v.3, p.42). Não parece extravagante referir-se a estes três episódios como naufrágios literais, apesar do facto de que as naus foram abandonadas voluntariamente pela capitão Narváez para explorar a costa da pé. ADORNO, Rolena e PAUTZ, Patrick Charles. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, v.3, p.42.
16 ADORNO, Rolena e PAUTZ, Patrick Charles. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, v.3, p.129.         [ Links ]
17 Richard Slotkin afirma que Cabeza de Vaca "anticipates by more than a century the most important genre of Puritan writings about the New World". SLOTKIN, Richard. Regeneration through violence: the mythology of the American frontier, 1600-1860. Middleton, CT: Wesleyan University Press, 1973, p.35.         [ Links ] A bibliografia de R.W.G. Vail (VAIL, R. W. G. The voice of the old frontier. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1949, p.90) e a introdução da colecção de narrativas de cativeiro de Richard VanDerBeets (VANDERBEETS,         [ Links ] Richard. (ed.) Held captive by indians: selected narratives 1642-1836. Knoxville: University of Tennessee Press, 1972, p.XX) também se referem à narrativa de Cabeza de Vaca neste sentido.         [ Links ]
18 OVIEDO Y VALDÉS, Gonzalo Fernández de. Historia general y natural de las Indias. Ed. Juan Pérez de Tudela Bueso. Madrid: Ediciones Atlas, 1959, v.4, p.287.         [ Links ]
19 ADORNO, Rolena e PAUTZ, Patrick Charles. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, , v.5, p.305.         [ Links ] Cf. a licença de Manoel de Sá para o primeiro volume da HTM: "Dos tragicos fuceffos, que fe lem nas Relaçoens deftes infortunios (. . .) abriraõ huma iluftre efcola de cautelas, em que aprendeffem experiencias horrorofas". SÁ, Manoel. Licença. In: BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, v.1, p.IV.         [ Links ]
20 OVIEDO Y VALDÉS, Gonzalo Fernández de. Historia general y natural de las Indias, v.5, p.322.         [ Links ] (grifo meu) A comparação recorda a confusão entre as crónicas das Índias e um género da ficção mais contemporâneo, os livros de cavalaria, lamentada por Sebastián de Covarrubias na definição de fábula no Tesoro de la lengua castellana o española (1611): "Los que avéys leydo las Corónicas de las Indias, cosa que passó ayer, tan cierta y tan sabida, mirad quántas cosas ay en su descubrimiento y en su conquista, que exceden a quanto han imaginado las plumas de los vanos mentirosos que han escrito libros de cavallerías, pues éstas vendrá tiempo que las llamen fábulas y aun las tengan por tales los que fueren poco aficionados a la nación Española". COVARRUBIAS, Sebastián de. Tesoro de la lengua castellana o española. Ed. Martín de Riquer. Barcelona: S.A. Horta, 1943, p.580.         [ Links ] Anteriormente na definição, Covarrubias tinha explicado a fábula em termos parecidos a Oviedo: "Llamamos fábulas ciertos cuentos, cuya corteza es un entretenimiento de cosas ridículas (...) y debaxo della ay una dotrina moral (...). Tales son las fábulas que andan en nombre de Isopo, aviendo sido primero el inventor dellas Hesíodo". COVARRUBIAS, Sebastián de. Tesoro de la lengua castellana o española, p.579.         [ Links ]
21 Sobre a circulação do texto de Heliodoro na Idade Média e as edições renascentistas, ver: DOODY, Margaret Anne. The true story of the novel. New Brunswick, New Jersey: Rutgers University Press, 1996, p.233-246.         [ Links ] A edição espanhola é de 1554.
22 DOODY, Margaret Anne. The true story of the novel, p.236 (grifo do autor).         [ Links ] Estas expressões de prazer são evidentes nas descrições do "poema heroico" - o género ao qual às vezes se atribuía a Aethipioca, apesar de tratar de "amores" e ser em prosa - nos tratadistas renascentistas. Torquato Tasso, por exemplo, afirma que o poema heroico "[has] as its end to profit by delighting, that is, delight is the cause why no one fails to obtain benefit, because delight induces him to read the more gladly (...). The epic, however, ought to produce its special kind of delight with its own special method of working, and this perhaps is to move the reader to wonder". GILBERT, Allan H. Literary Criticism: Plato to Dryden. New York: American Book Company, 1940, p.470.         [ Links ] López Pinciano freqüentemente escreve com admiração do deleite da obra de Heliodoro: "no ay duda que sea poeta, y de los más finos épicos que han hasta agora escripto; a lo menos, ninguno tiene más deleyte trágico y ninguno en el mundo añuda y suelta mejor que él". LÓPEZ PINCIANO, Alonso. Philosophia antigua poética. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 1953, v.3, p.167;         [ Links ] mais tarde fala da "traça y deleyte de su ficción". LÓPEZ PINCIANO, Alonso. Philosophia antigua poética, 1953, v.3, p.224.         [ Links ] Sobre a definição do género das obras inspiradas em Heliodoro, ver: MUHANA, Adma. A epopéia em prosa seiscentista: uma definição do gênero. São Paulo: Editora UNESP, 1997, p.29,         [ Links ] que segue a denominação proposta pelo preceptista português Manuel Pires de Almeida.
23 CÉSPEDES Y MENESES, Gonzalo de. Primera parte de la historia de Felipe III, p.414.         [ Links ]
24 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.49.         [ Links ] Este prólogo foi sustituido na HTM - presumivelmente para esconder a autoria de Afonso Luis e promulgar a de Bento Teixeira Pinto - por outro que ofereçe a seguinte re-interpretação do motivo: "E quem diz que a lembrança dos trabalhos passados dá gosto, não se viu nunca nestes nem em outros semelhantes porque o gosto que se recebe na memória deles nasce do descanso em que se vê quem os passou e não do lembrar-se de ver tão particularmente a morte ao olho, como dizem". (BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.263-264).         [ Links ]
25 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.27-28.         [ Links ]
26 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.229-230.         [ Links ]
27 VILLALÓN, Cristóbal de. Viaje de Turquía, p.11.         [ Links ]
28 NÚÑEZ CABEZA de VACA, Álvar. Naufragios y comentarios, p.147.         [ Links ]
29 Sobre a avaliação neo-Aristotélica de Heliodoro, ver: FORCIONE, Alban K. Cervantes's Christian romance: a study of Persiles y Sigismunda. Princeton: Princeton University Press, 1972, p.8-10; 17-19.         [ Links ] López Pinciano, que elogia o "deleyte" da ficção heliodoriana (LÓPEZ PINCIANO, Alonso. Philosophia antigua poética, 1953, v.3, p.224),         [ Links ] afirma que "la naturaleza se goza con la variedad de las cosas, y (..) este animal fábula será tanto más deleytoso, quanta más variedad de pinturas y colores en él se vieren". LÓPEZ PINCIANO, Alonso. Philosophia antigua poética, 1953, v.2, p. 53.         [ Links ]
30 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.427.         [ Links ] O autor continua relacionando o "dobrado interesse" que motiva a sua escritura com o gosto seu e o dos leitores: "O primeiro, meu, assim por ser cousa tão natural, como diz Sêneca, folgar cada um com o fim de seus males, como pelo que Macróbio diz que sentem aqueles que andaram por mares e terras quando são perguntados de quem os não sabe, pelos sítios dessas terras, portos e enseadas dos mares, respondendo com tanta vontade e pintando todos esses lugares (...) e então lhes dá maior gosto quem lho pergunta, quando por esses mares e terras se viu em maiores afrontas e perigos e escapou deles. O segundo, e mais principal, seu, de quem para isso me está convidando, como outro Anfitrião a Teseu, que o não privasse do doce fruto de meus trabalhos, os quais mais duros foram de sofrer mais docemente lembram, e por isso lhe contasse os horrendos casos por que passara". BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.427.         [ Links ] (grifo meu).
31 In: BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.IX.         [ Links ]
32 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.VII-VIII.         [ Links ]
33 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.VIII.         [ Links ]
34 ADORNO, Rolena e PAUTZ, Patrick Charles. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, v.1, p.18-20.         [ Links ]
35 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.II-III.         [ Links ]
36 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.538-539.         [ Links ]
37 Ver, por exemplo, a relação da nau São Bento (Relação summaria da viagem que fez Fernaõ d'Alvares Cabral), em que os sobreviventes se referem repetidas vezes ao naufrágio de Manoel de Sousa Sepúlveda no galeão São João, ocorrido dois anos antes. BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.35, 43, 49, 52, 64, 78; 81.         [ Links ] Muitos anos mais tarde, a relação de João Baptista Lavanha da nau São Alberto (1597) ainda se refere aos naufrágios do São João (do qual os náufragos encontram um sobrevivente) e da São Bento, bem como o mais recente da nau São Tomé (1589), "cujos sucessos [o capitão] lera em Goa escritos por Gaspar Ferreira, sota-piloto dela". BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.385, 418-421.         [ Links ]
38 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.41.         [ Links ]
39 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.41.
40 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.46.         [ Links ] (grifo meu)
41 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.11.         [ Links ]
42 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.12.         [ Links ]
43 ADORNO, Rolena e PAUTZ, Patrick Charles. Álvar Núñez Cabeza de Vaca, v.1, p.18-20.         [ Links ]
44 LANCIANI, Giulia. Sucessos e naufrágios das naus portuguesas, p.67         [ Links ]
45 Noutro lugar, Seixo explica que "onde alguns investigadores vêem uma censura à cobiça e à empresa das descobertas, considerando a História trágico-marítima uma espécie de reverso punitivo da gesta dos Descobrimentos, eu entendo que é possível ver, pelo contrário, a imagem negativa que o protocolo literário e mítico sempre atribui ao esforço heróico, feito de desmesura e de ímpeto sobre-humano, de desafio aos deuses e, portanto, susceptível de uma marca e de um efeito parcial de desastre que no entanto mais não faz que sublinhar a grandeza e o êxito do percurso efectuado e dos resultados grandiosos alcançados". SEIXO, Maria Alzira. Lugar e tempo na História trágico-marítima. In: Poéticas da viagem na literatura. Lisboa: Edições Cosmos, 1998, p.74.         [ Links ]
46 SEIXO, Maria Alzira. O idílio e o treno. Modos narrativos e enunciativos na literatura portuguesa de viagens. In: Poéticas da viagem na literatura, p.50.         [ Links ]
47 LANCIANI, Giulia. Sucessos e naufrágios das naus portuguesas, p.154.         [ Links ]
48 BLACKMORE, Josiah. Manifest perdition: shipwreck narrative and the disruption of empire. University of Minnesota Press, 2002, p.XXI.         [ Links ]
49 BLACKMORE, Josiah. Manifest perdition, p.41-42, 45.         [ Links ]
50 Os seguintes críticos oferecem esta leitura, em linhas gerais, das representações do cativeiro nos contextos indicados: SLOTKIN, Richard. Regeneration through violence: the mythology of the American frontier, 1600-1860. Middleton, CT: Wesleyan University Press, 1973;         [ Links ] e PEARCE, Roy Harvey. The significances of the captivity narrative. American Literature, v.19, n.1, p.1-20, março 1947 (América anglosaxã,         [ Links ] séculos XVII-XIX); ROTKER, Susana. Cautivas: olvidos y memoria en la Argentina. Buenos Aires: Ariel, 1999;         [ Links ] e HABERLY, David T. Captives and infidels: the figure of the cautiva in Argentine literature. The American Hispanist, v.4, n.29, p.7-16, out.1978 (Argentina,         [ Links ] séc. XIX); FRIEDMAN, Ellen G. Spanish captives in North Africa in the Early Modern Age (Espanha e o cativeiro argelino, séc. XVI-XVII);         [ Links ] OPERÉ, Fernando. Historias de la frontera: el cautiverio en la América hispánica. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2001 (Hispanoamérica,         [ Links ] séc. XVI-XX).
51 Para esta leitura, ver CONCHA, Jaime. Requiem por el ‘buen cautivo'. Hispamérica: Revista de Literatura, v.15, n.45, p.3-15, dez.1986(sobre as Índias espanholas);         [ Links ] COLLEY, Linda. Captives. New York: Pantheon Books, 2002 (sobre o império britânico);         [ Links ] e ROMERO, Rolando J. Texts, pre-texts, con-texts: Gonzalo Guerrero in the Chronicles of Indies. Revista de Estudios Hispánicos, v.26, n.3, p.345-367, out.1992 (sobre o caso específico de Gonzalo Guerrero no Yucatán,         [ Links ] cuja história chama "contra-modelo da conquista", ver: ROMERO, Rolando J. Texts, pre-texts, con-texts: Gonzalo Guerrero in the Chronicles of Indies, p.363).         [ Links ]
52 HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.3, p.122-123.         [ Links ] Sobre a autoría de Antonio da Sosa da Topographia, ver: CAMAMIS, George. Estudios sobre el cautiverio en el Siglo de Oro. Madrid: Editorial Gredos, 1977;         [ Links ] e SOLA, Emilio. Antonio de Sosa: un clásico inédito amigo de Cervantes (Historia y literatura). In: Actas del primer coloquio internacional de la Asociación de Cervantistas. Alcalá de Henares: Anthropos, 1990, v.1, p.409-412.         [ Links ] A oposição entre civilização cristã européia e o"outro" mundo enfrentado pelo cativo é especialmente evidente na seguinte paisagem: "Porque acá halla otro Dios, otra ley, otros templos, otros sacerdotes, otras cerimonias, otras costumbres, otro hablar, otro escribir al revés, otro comer en el suelo, otro sentarse en cuquillas, otro talle, otro vestido y otro trato y aun otro vivir, en todo muy diferentes. Acá no hay justicia, sino fuerza; no dar, sino robar; no templanza alguna, sino todo crápula y lujuria; no fortaleza, sino temeridad; no verdad sino mentira; no amistad, sino cada uno para sí; no lealtad, sino engañarse unos a otros". HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.2, p.25.         [ Links ]
53 VILLALÓN, Cristóbal de. Viaje de Turquía, p.14.         [ Links ] A historiadora Ellen Friedman assevera que o tratamento de cativos espanhois por mouros e turcos não excedeu as normas da época, devido ao elevado lucro com os resgates. Friedman propõe que uma das razões para o apoio da coroa para a atividade redentora, apesar dos gastos implicados, "may have been the desire on its part to maintain the public impression of a continuing religious war with Islam in order to direct popular attention to a foreign enemy and divert it from the very real problems facing Spain at the time". FRIEDMAN, Ellen G. Spanish captives in North Africa in the Early Modern Age. Madison: University of Wisconsin Press, 1983, p.128.         [ Links ] Os muçulmanes e turcos serviam a este propósito melhor que os inimigos europeus de Espanha, por causa das diferenças de religião e cultura: "they were totally alien and therefore to be feared and hated. Here was an enemy that could be brought into focus, and the continuation of redemptionist activity served to sharpen that focus". FRIEDMAN, Ellen G. Spanish captives in North Africa in the Early Modern Age, p.128.         [ Links ]
54 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.317.         [ Links ]
55 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.515.         [ Links ]
56 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.269.         [ Links ]
57 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.509.         [ Links ]
58 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.285-286.         [ Links ]
59 Teófilo Braga nega a influência direta proposta por Garrett: "A lenda da Náo Catherineta não tem uma determinada origem historica; é a generalidade tetrica de todos os naufragios", - mas também reconhece que na relação, "a fome e a ancia de se devorarem e a resistencia do capitão reflectem muito as côres sinistras da lenda". BRAGA, Teófilo. (comp.) Romanceiro geral portuguez. Lisboa: M. Gomes, 1906-1909, v.3, p.32.         [ Links ] Diferentemente de Garrett, que "admira-se de que um povo de argonautas não exercesse o seu genio creador no romance maritimo", Teófilo afirma que "O poema cyclo do mar tivemol-o nós; basta lêr as relações das viagens, dos naufragios, das fomes, das tormentas". BRAGA, Teófilo. (comp.) Romanceiro geral portuguez, v.3, p.322.         [ Links ]
60 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.291.         [ Links ]
61 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.283.         [ Links ]
62 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.289.         [ Links ]
63 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.291.         [ Links ]
64 BLACKMORE, Josiah. Manifest perdition, p.39.         [ Links ]
65 Ver, por exemplo, as relações do São João (BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.20);         [ Links ] o regresso dos sobreviventes do naufrágio da São Thomé, os quais chegam "quase feitos selvagens" (BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.369);         [ Links ] ou esta descrição da recepção dos náufragos do São Bento pelos africanos: "bem se enxergavam en nossas figuras e disposições os refrescos e abastanças que pelo caminho tivéramos, porque não trazendo cada um mais que a pele enfermada sobre os ossos, representava a imagem da morte muito mais propriamente que cousa viva; e porque esta magreza, junta com o pouco ornamento de nossos esfarrapados atavios e imundície, de que o trabalho e míngua nos faziam vir cobertos, causava tamanho nojo na gente da terra, que ali onde estávamos nos vinham perseguir ocm mil maneiras e escárnios" (BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.80).         [ Links ]
66 Ver: NÚÑEZ CABEZA de VACA, Álvar. Naufragios y comentarios, p.130;         [ Links ] DIAZ DEL CASTILLO, Bernal. Historia verdadera de la conquista de la Nueva España. Ed. Miguel León-Portilla. Madrid: Historia 16, 1984, v.1, p.135;         [ Links ] LOBO LASSO DE LA VEGA, Gabriel. Mexicana (1594). Ed. José Amor y Vázquez. Madrid: BAE, 1970, p.28;         [ Links ] CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Don Quijote de la Mancha, p.511.         [ Links ]
67 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.29.         [ Links ] (grifo meu).
68 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.29.         [ Links ] Ver: GARCILASO DE LA VEGA, El Inca. La Florida del Inca. Ed. Sylvia L. Hilton. Madrid: Historia 16, 1986, p.128-129,         [ Links ] para outra versão deste episódio. Segundo Garcilaso, o ex-cativo não é capaz de identificar-se duma maneira tão eloquente como o faz na versão do português: consegue apenas bradar "Xivilla, Xivilla, por decir Sevilla, Sevilla" (GARCILASO DE LA VEGA, El Inca. La Florida del Inca, p.129),         [ Links ] tendo esquecido quase por completo a língua materna.
69 BRITO, Bernardo Gomes de. História trágico-marítima, p.284.         [ Links ] Tal como a nau Santo António, os corpos dos náufragos podem provocar a admiração do público. No relato de Pedro Serrano, incluído no primeiro tomo dos Comentarios reales de los Incas, do Inca Garcilaso, o corpo hirsuto do espanhol, prova do seu naufrágio de sete anos numa ilha caribenha, ganha não só a atenção mas também prêmios: "Pedro Serrano llegó acá y pasó a Alemania, donde el Emperador estaba entonces: llevó su pelaje como lo traía, para que fuese prueba de su naufragio y de lo que en él había pasado. Por todos los pueblos que pasaba a la ida (si quisiera mostrarse) ganara muchos dineros. Algunos señores y caballeros principales, que gustaron de ver su figura, le dieron ayudas de costa para el camino, y la Majestad Imperial, habiéndolo visto y oído, le hizo merced de cuatro mil pesos de renta". GARCILASO DE LA VEGA, El Inca. Comentarios reales de los Incas. Ed. Aurelio Miró Quesada. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1976, v.1, p.26.         [ Links ]
70 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam que os turcos queymáraõ a vista da barra de Lisboa, & varios fucceffos das peffoas, que nella cativaraõ. Com a nova difcripçaõ da Cidade de Argel, de feu governo, & coufas muy notaveis acontecidas neftes ultimos annos de 1621 ate o de 626. Lisboa: Antonio Alvares, 1627.         [ Links ]
71 BOXER, Charles R. An introduction to the História trágico-marítima, p.76-77.         [ Links ]
72 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam..., p.27-28.         [ Links ]
73 Há antecedentes portugueses da relação de cativeiro na norte de África. Ver ÁLVARES, Frei João. Trautado da Vida e Feitos do Muito Vertuoso S.or Ifante D. Fernando. In: Obras. Ed. Adelino de Almeida Calado. Coimbra: Por Ordem da Universidade, 1960, v.1,         [ Links ] que narra o cativeiro em Fez do filho de D. João I, entre 1437 e a sua morte em 1443. Escrito no século XV, foi publicado pela primeira vez um século antes da Memorável Relação de Mascarenhas (1527). Foi reeditado em 1577 e 1730, ÁLVARES, Frei João. Trautado da Vida e Feitos do Muito Vertuoso S.or Ifante D. Fernando, p.XIX-XXI. Mascarenhas refere-se implicitamente ao cativeiro do Infante d. Fernando na sua Carta dedicatória, lembrando como os trabalhos que ele passou em Argel também têm passado "nas partes de Berberia e África, condes, marqueses e duques, e até as mesmas pessoas reais, principalmente neste nosso reino de Portugal". MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam..., p.25.         [ Links ]
74 BOXER, Charles R. An introduction to the História trágico-marítima, p.92.         [ Links ]
75 Este Sousa não é o mesmo que Manuel de Sousa Coutinho, ou Frei Luis de Sousa, que Cervantes também conheceu no cativeiro e a quem incorporou como personagem no seu romance Los trabajos de Persiles e Sigismunda. Ver GARCÉS, María Antonia. Cervantes in Algiers: a captive's tale. Nashville: Vanderbilt University Press, 2002, p.77-81.         [ Links ] A declaração de Sosa é incluída em Cervantes. CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Información de Miguel de Cervantes de lo que ha servido á S. M..., p.155-166.         [ Links ]
76 Ver CAMAMIS, George. Estudios sobre el cautiverio en el Siglo de Oro;         [ Links ] SOLA, Emilio. Antonio de Sosa: un clásico inédito amigo de Cervantes;         [ Links ] e GARCÉS, María Antonia. Cervantes in Algiers, p.32-34, 67-80.         [ Links ] Daniel Eisenberg, no entanto, assevera que o mesmo Cervantes é o autor da Topographia, afirmando que é "questionável" que "un portugués escribiera un castellano tan bello y puro como el de los textos publicados por Haedo". EISENBERG, Daniel. Cervantes, autor de la T opografía e historia general de Argel publicada por Diego de Haedo. Cervantes: Bulletin of the Cervantes Society of America, v.16, n.1, p.44, 1996;         [ Links ] um argumento estranho e equivocado para o contexto dos séculos XVI e XVII (basta pensar nos textos em castelhano de Gil Vicente, Jorge de Montemor e Camões).
77 A tradução em francês de Paul Teyssier reconhece, mas não examina, esta relação, afirmando só que a Topographia é uma obra que "Mascarenhas connaissait certainement, car on en trouve des reminiscences dans sa description d'Alger". MASCARENHAS, João Carvalho. Esclave à Alger: récit de captivité de João Mascarenhas (1621-1626). Trad. e ed. Paul Teyssier. Paris: Ed. Chandeigne, 1993, p.10.         [ Links ]
78 Compare também, por exemplo, as seguintes passagens: "Aunque en toda la muralla cuanta es en torno hay muchas torres y torreones o caballeros, pero como todos sean a la antigua, y muy flacos, solamente de siete se puede hacer caso". HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.1, p.34;         [ Links ] ‘"Em toda a muralha há muitas tôrres, ameias e seteiras e cavaleiros, mas sòmente de sete se pode fazer menção porque são terraplenados e com alguma artelharia mas tudo fraco e muito antigo". MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.79;         [ Links ] "la vuela del arco que rodea la ciudad en torno, tiene 1.800 pasos, y dela cuerda que se estiende por la marina es de 1.600 pasos, de manera que hace todo el c ircuito 3.400 pasos". HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.1, p.30;         [ Links ] "Terá esta cidade em redondo, pela parte da terra, mil e oitocentos passos, e pelo mar, que é duma ponta da vela de gávea da parte de baixo, até a outra, mil e seis centos passos, que tuvo vem a fazer três mil e quatrocentos passos". MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.67.         [ Links ] Neste útlimo caso, Mascarenhas substitui a metáfora de Sosa do "arco de ballesta" por uma mais apropriada a uma "relação de naufrágio", a "vela de gávea". A descrição da aduana, o governo de soldados janízeros em Argel coincidem até ao ponto do valor dos salarios auferidos em cada posição. HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.1, p.63-67;         [ Links ] MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.91-92.         [ Links ]
79 HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.1, p.52-53.         [ Links ]
80 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.72.         [ Links ]
81 CAMAMIS, George. Estudios sobre el cautiverio en el Siglo de Oro, p.151-155, 214-215.         [ Links ]
82 CAMAMIS, George. Estudios sobre el cautiverio en el Siglo de Oro, p.155-170.         [ Links ]
83 CAMAMIS, George. Estudios sobre el cautiverio en el Siglo de Oro, p.173-180.         [ Links ]
84 CAMAMIS, George. Estudios sobre el cautiverio en el Siglo de Oro, p.163-170.         [ Links ]
85 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.99-109.         [ Links ]
86 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.118.         [ Links ] Ver por exemplo: "Era el bendito Nicolao, por cuanto parecía, de edad de cincuenta y cinco años; tenía ya muchas canas en la cabeza y barbar; de más de mediana estatura y no muchas carnes, más moreno que no blanco". HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.3, p.129.         [ Links ]
87 CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Don Quijote de la Mancha, v.3, p.165.         [ Links ]
88 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.118.         [ Links ]
89 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.137.         [ Links ]
90 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.25.         [ Links ]
91 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.25.
92 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.26.         [ Links ]
93 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.27.         [ Links ]
94 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.28.         [ Links ]
95 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.27.
96 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.84.         [ Links ]
97 HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.1, p.199-203.         [ Links ]
98 HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.1, p.200.         [ Links ]
99 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.84.         [ Links ]
100 HAEDO, Fray Diego de. Topografía e historia general de Argel, v.1, p.200.         [ Links ]
101 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.84-85.         [ Links ]
102 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.85-86.         [ Links ] (grifo meu)
103 A passagen evoca o que Anthony Pagden chama a "imaginação autóptica" das crônicas do Novo Mundo do século XVI, o apelo à autoridade singular do testemunho ocular. PAGDEN, Anthony. European encounters with the New World: from Renaissance to Romanticism. New Haven: Yale University Press, 1993, p.51-56.         [ Links ]
104 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.142.         [ Links ]
105 MASCARENHAS, João Tavares [Carvalho]. Memoravel Relaçam da perda da nao Conceiçam.., p.142.