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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.24 no.39 Belo Horizonte Jan./June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752008000100014 

ARTIGOS

 

Uma revolução racial em perspectiva – relatos de testemunhas oculares da Insurreição do Haiti*

 

Facing Racial Revolution – eyewitness accounts of the Haitian Insurrection**

 

 

Jeremy D. Popkin

Dept. of History. University of Kentucky, Lexington KY, 40506. USA. popkin@email.uky.edu

 

 


RESUMO 

O objetivo desse artigo é analisar as reações dos brancos que testemunharam pessoalmente a Revolução do Haiti, de 1791 a 1804, e escreveram acerca de suas experiências. Este é um pequeno e geralmente negligenciado capítulo dessa história. Estas testemunhas da Revolução do Haiti foram os primeiros homens brancos que viveram segundo uma verdadeira revolução racial, na qual pessoas que anteriormente eram definidas, pelo mundo europeu, como inferiores, obtiveram êxito em subverter a hierarquia racial. Embora suas memórias não tivessem sido muito lidas, em sua época, os brancos que estavam presentes nesse evento nos oferecem uma visão única do impacto de se viver segundo este tipo de inversão das relações raciais de poder. Os relatos acerca da Revolução do Haiti também demonstram quão profundamente incômoda se tornou a literatura memorialista para a noção de identidade branca da Europa.

Palavras-chave: Haiti, Insurreição do Haiti, conflitos raciais


ABSTRACT 

My purpose in this article is to examine just one small and neglected chapter of it, namely, the reactions of whites who personally witnessed the Haitian Revolution of 1791 to 1804 and then wrote about their experiences. The witnesses of the Haitian Revolution were the first whites to live through a true racial revolution, one in which people who the European world had defined as inferior succeeded in overturning the racial hierarchy. Although their memoirs were not widely read at the time, the whites who had been at this extraordinary event give us a unique window into the impact of living through this kind of inversion of racial power relations. These witness accounts from the Haitian Revolution thus demonstrated the deeply troubling implications of personal memoir literature for white Europeans' sense of self.

Key words: Haiti, Haiti Insurrection, racial conflicts


 

 

Em novembro de 1803, as últimas forças militares francesas, que permaneciam na colônia de São Domingos, capitularam. Um mês depois, Jean-Jacques Dessalines, o líder do exército negro que havia derrotado os franceses, proclamou a criação da República Independente do Haiti. De uma certa maneira, o impacto causado, na época, por este evento revolucionário pode ser comparado ao choque provocado pelos ataques terroristas do 11 de setembro de 2001. O êxito da luta pela independência do Haiti desafiou a mais fundamental das asserções, sob as quais se construíra a identidade dos franceses e, mais além, de todos os europeus: a convicção de que as sociedades criadas pelas populações brancas, de origem européia, estariam a salvo da destruição por pessoas de cor.

Para ser exato, as narrativas produzidas por brancos que foram aprisionados por corsários bárbaros, ou por soberanos indígenas que se defendiam da expansão inglesa já haviam mostrado que os europeus não eram todopoderosos.1 São Domingos, por sua vez, não era apenas a exótica terra natal de uma população não-européia, na qual os europeus entraram por sua conta e risco. São Domingos era, ao contrário, o culminar de três séculos de inovações no Mundo Atlântico, uma fronteira tecnológica onde senhores de terra brancos (numericamente superados por seus escravos, na proporção de 12 por 1) demonstravam, com uma eficiência e brutalidade inigualáveis, sua habilidade para explorar o trabalho dos escravos. Origem de aproximadamente metade do açúcar e do café produzidos no mundo, em 1789, São Domingos chegou a parecer indispensável para a manutenção da civilização européia, e da economia atlântica. Seu surpreendente colapso, nas mãos de trabalhadores escravos que os próprios brancos haviam trazido da África, representou um enorme desafio para a preservação da identidade branca.

Dentre todas as formas de identidade grupal que figuraram na História Moderna ocidental, certamente nenhuma foi mais significante que a dos homens brancos. A convicção de que os habitantes de pele clara da Europa constituíam um único ramo da humanidade, mais avançado que os demais povos, alcançou dimensões históricas imensas, estendendo-se das viagens de descoberta e do início da escravidão no Mundo Atlântico, no século XV, até o mundo pós-colonial dos nossos dias.

A história total do desenvolvimento das idéias modernas sobre raça, e suas conexões com a saga da expansão européia no mundo, é uma história longa e extremamente complexa. Meu propósito aqui é o de examinar apenas um pequeno, e negligenciado, de seus capítulos, a saber, o das reações dos brancos que testemunharam pessoalmente a Revolução do Haiti, de 1791 a 1804, e escreveram acerca de suas experiências.

Os autores destes obscuros documentos estiveram entre os primeiros brancos que se defrontaram com a possibilidade de que a hierarquia racial, segundo a qual todo o Mundo Atlântico de sua época foi construído, pudesse ser subvertida. À medida que transformavam as suas experiências em São Domingos em narrativa, estes autores conduziram, em pequena escala, experimentos mentais que prefigurariam o comprometimento em larga escala de tais questões; questões que os brancos europeus – e americanos – ainda hoje mantêm.

Estudos recentes têm nos revelado a multiplicidade da literatura de brancos, escrita na primeira pessoa, que foi uma das maiores transformações culturais da era revolucionária. Tendo-se em vista a importância com que estas narrativas de brancos, escritas na primeira pessoa, tal como os relatos e testemunhos de sobreviventes do Holocausto, vieram a ter na definição das identidades de grupo contemporâneas, a emergência desta forma literária, durante a era revolucionária, constitui, por si só, um fenômeno importante. Este aumento da literatura branca na primeira pessoa coincidiu com o desenvolvimento do gênero moderno de auto-biografia – palavra esta que só entrou no vocabulário de várias das línguas européias em torno de 1790 –;2 e com a criação de uma noção moderna e secularizada de mudança histórica.3

Porém, a literatura branca não caracterizou-se apenas pela forma auto-biográfica. Rousseau, Gibbon, Franklin e Goethe interessavam-se pelo retrato e pela análise do eu. Seus trabalhos refletiam o crescimento do individualismo na cultura européia; e, nas explorações que fizeram de suas próprias personalidades e experiências, eles demonstraram um interesse relativamente pequeno por outras tendências mais amplas que surgiam a seu redor. Por outro lado, os autores dos relatos brancos raramente se entregavam a grandes introspecções: em suas narrativas, o "Eu" literário era importante, em primeiro lugar, por que conferia a estes autores a autoridade necessária para relatar experiências compartilhadas, que interessavam não apenas a eles, mas também a grupos mais extensos, aos quais pertenciam.

Estas testemunhas da Revolução do Haiti foram os primeiros homens brancos que viveram segundo uma verdadeira revolução racial, na qual pessoas que anteriormente eram definidas, pelo mundo europeu, como inferiores, obtiveram êxito em subverter a hierarquia racial. Embora suas memórias não tivessem sido muito lidas, em sua época, os brancos que estavam presentes no Marco Zero4 deste extraordinário evento nos oferecem uma visão única do impacto de se viver segundo este tipo de inversão das relações raciais de poder.

Recentemente, a filósofa e teórica social, Susan Buck-Morss, erigiu uma poderosa argumentação para interpretar a famosa passagem acerca da relação mestre-escravo, contida na Fenomenologia, de Hegel. Para ela, a ênfase dada por Hegel ao modo como a consciência de ambos grupos, dominadores e subalternos, se molda pela luta que travam entre si, foi uma reação à Revolução Haitiana, que havia sido extensamente coberta por alguns dos novos periódicos que ele lia regularmente.5 Os autores dos textos que discutirei aqui viveram dentro do processo imaginado por Hegel, e tentaram expor suas experiências sob uma forma comunicável.

Até muito recentemente, a história da Insurreição Haitiana havia sido tão marginalizada pela memória oficial do mundo ocidental, que pareceu ter caído numa categoria de eventos literalmente "impensáveis", como a considerou Michel-Rolph Trouillot.6 Porém, se a história da insurreição de São Domingos caiu no reino do silêncio, isso não se deve ao fato de que ninguém, em sua época, ter falado sobre ela. Na verdade, estes eventos incitaram a composição de um vasto corpus literário. Ao longo deste período, os porta-vozes dos colonizadores brancos submergiram o público francês numa propaganda favorável aos seus interesses, recontando incessantemente a "história dos desastres" que haviam recaído sobre eles, e insistindo na urgência de pôr fim à revolta.7

Os documentos oficiais e as propagandas que foram publicados, na época dos eventos, são materiais indispensáveis para os historiadores, apesar de nos oferecerem apenas uma visão parcial da Revolução do Haiti. A volumosa publicidade produzida pelos colonizadores brancos recicla uma interminável litania, que generaliza os atos de violência dos negros. Os panfletos publicados pelos partidários da igualdade racial, na França, idealizavam as virtudes dos "novos cidadãos", emancipados pelos decretos revolucionários; mas pouco dizem acerca dos eventos reais, ocorridos na ilha. Nada, nesta literatura, nos ajuda a entender com o que se parecia ter que viver sob os transtornos causados pelo tremor de terra que, entre 1791 e 1804, toda a população da ilha vivenciou.

As limitações das demais fontes concernentes à Revolução do Haiti explicam o interesse especial suscitado pelos textos de indivíduos que registraram suas experiências pessoais dos eventos. Os brancos letrados que vivenciaram a insurreição de São Domingos – até momento, não veio à tona nenhum texto semelhante a estes, de autoria de negros ou mestiços –8 estavam convencidos de que haviam testemunhado algo de extraordinária importância. No entanto, naquela época, poucos destes textos chegaram a ser publicados. Nos dois séculos que se seguiram à independência do Haiti, somente alguns poucos textos gotejaram nas tipografias, aparecendo publicados em francês e, por vezes, traduzidos para o inglês. Enquanto isso, os demais permaneceriam inéditos, ocultos em arquivos e bibliotecas. Por isso, somente um pequeno número de textos foi, repetias vezes, citado como fonte histórica. Até o momento, não há como se obter um panorama geral desta literatura branca, e o surgimento destes textos não tem sido analisado como um fenômeno próprio.

Todos os relatos que discutirei aqui compartilham de um traço essencial: eles se apresentam como testemunhos retrospectivos, criados por autores que participaram direta e pessoalmente das cenas descritas, e que escrevem sobre elas na primeira pessoa. Por isso, tais relatos se centram nas experiências pessoais de seus autores e, raramente, narram episódios que os historiadores hoje consideram centrais para o entendimento da Revolução do Haiti. Nenhum destes autores esteve presente na eclosão do levante, ocorrida na noite de 22 para 23 de agosto de 1791, e nenhum deles reivindica qualquer tipo de conhecimento acerca do encontro, ou dos encontros, nos quais, supostamente, os insurretos teriam formulado seus planos. Nenhum deles esteve entre os brancos que tomaram decisões na busca de controlar o levante e nenhum estava ligado às autoridades republicanas, que tomaram a drástica decisão de libertar os escravos, em 1793. Estes são, portanto, relatos escritos por homens (e, em pouquíssimos casos, mulheres) comuns. Vários de seus autores se encontraram com Toussaint Louverture (e um deles nos dá a mais antiga descrição de Toussaint como ator político), mas nenhum esteve entre os brancos que se tornaram próximos a ele, à medida que ele subia ao poder. Moldadas pelos acontecimentos relacionados ao destino pessoal de cada um de seus autores, estas são histórias que falam das margens dos eventos.

A despeito da perspectiva indireta com que apresentam a história que relatam, estes relatos são de grande interesse para o entendimento da Revolução do Haiti, e do cataclismo por ela ocasionado, no sistema de hierarquia racial do mundo ocidental. Os autores destas histórias pessoais nos oferecem versões micro-históricas deste processo, através das quais podemos ver como esse acontecimento afetou indivíduos específicos. Embora todas as narrativas aqui analisadas pertençam ao lado branco da divisão racial, elas fazem mais que simplesmente dar uma visão "branca" da revolução: uma vez que contam a história dos encontros cara-a-cara entre determinados indivíduos, elas dão vida a alguns dos participantes negros e mestiços destes eventos, fazendo com que sejam vistos como seres humanos reais, e não apenas exemplares das categorias raciais. Ocasionalmente, pode-se até escutar algumas palavras destes atores históricos não-brancos, citadas em crioulo.9

Estes textos também colocam em questão a idéia da existência de uma única reação branca, para o levante de São Domingos. Ao passo que os panfletos políticos publicados pelas autoridades brancas invariavelmente retratam o levante como uma explosão cega de violência destrutiva, os relatos em primeira pessoa mostram que os insurgentes estavam construindo uma contra-sociedade, na qual os brancos seriam instrumentalizados para servir aos propósitos dos membros da outra raça. Processo exatamente igual ao que os próprios brancos haviam estabelecido, ao construir uma ordem racial de exploração dos demais grupos. O simples fato da sobrevivência destes autores, muitos dos quais foram feitos prisioneiros por ao menos um breve período de tempo, demonstra que os insurgentes não matavam automaticamente todos os brancos que capturavam.

Embora a propaganda pró-colonial, muitas vezes, temperasse suas denúncias da violência negra com anedotas sentimentais sobre escravos que permaneceram leais a seus mestres, inclusive acompanhando-os no exílio, os relatos dos indivíduos que sobreviveram descreviam, em geral, as pessoas de ascendência africana que intervieram para salvar a vida de brancos a quem não conheciam, lembrando-nos que a bondade moral era capaz de transcender as categorias raciais.

É um sintoma do modo pelo qual, mesmo os relatos em primeira pessoa sobre os eventos de São Domingos, escritos por autores brancos, desapareceram, caindo num buraco negro da memória coletiva, o fato de que somos incapazes de dizer muito acerca das condições sob as quais estes textos foram produzidos ou mesmo, em muitos casos, quem foram seus autores. Sabemos que algumas das testemunhas brancas começaram a registrar suas experiências pessoais tão logo eclodiu a insurreição escrava, em agosto de 1791. Outras testemunhas empunharam suas canetas somente após terem sido conduzidas ao exílio. Muitos dos textos publicados em francês, durante o período revolucionário, foram claramente projetados para oferecer uma oposição aos argumentos abolicionistas.10

O notável manuscrito anônimo, Mon Odyssée, provavelmente escrito na América do Norte, na década de 1790, e publicado em uma tradução parcial para o inglês, em 1959, foi supostamente endereçado apenas à mãe de seu autor, muito embora seja difícil imaginar que uma tão elaborada produção – a mais original obra literária neste corpus, em grande parte escrita em versos – tenha sido escrita para apenas um leitor.11 Como todos os relatos escritos antes de 1804, Mon Odissée foi composto antes que o desfecho final do levante se tornasse claro; muitos dos autores que escreveram neste período inicial continuavam pensando que o domínio colonial branco poderia ser, ao final, restaurado.

Durante a Restauração francesa,12 as esperanças renovadas de que a França pudesse recuperar São Domingos inspiraram, em 1816, um dos memorialistas a deixar por escrito as suas lembranças pessoais, acompanhadas de uma recomendação para a reconstrução das fazendas, destruídas durante o levante.13 Dois dos sobreviventes, que se estabeleceram nos Estados Unidos, redigiram suas memórias, na década de 1830, para se opor à crescente onda de propaganda abolicionista, que lá surgira.14 Aquele que é, provavelmente, o último dos relatos de testemunhas oculares a ser escrito – a narrativa de percepção infantil, de Elie Brun-Lavainne, sobre a expedição Leclerc – foi composto nos primórdios da década de 1850, como um prefácio para uma narrativa inspirada pela segunda experiência do autor com o colapso de um mundo estável: a revolução de 1848.15

Meu livro, Facing Racial Revolution, discute e fornece excertos de mais que uma dúzia de relatos de testemunhas oculares dos eventos de São Domingos; e está claro que há muito mais relatos a serem descobertos.16 A maioria dos textos que localizei foram redigidos por antigos proprietários ou administradores de fazendas, ou seja, por membros da elite branca da colônia pré-revolucionária. Eles são mais numerosos para as duas fases mais violentas da luta pelo controle da ilha – o período que vai do início da insurreição escrava, em agosto de 1791, até o incêndio da maior cidade da colônia, Cap François, em junho de 1793; e a guerra entre as tropas enviadas por Napoleão e a população negra, em 1802-1803 –, e não para o calmo intervalo de 1794 a 1801, quando foram tomados alguns passos em direção ao estabelecimento do poderia ter sido uma sociedade genuinamente multi-racial.

Ainda que nossas atuais preocupações façam parecer sedutora a interpretação destes testemunhos como expressão de uma oposição binária entre brancos e negros, eles, na realidade, refletem a natureza triangular do conflito racial de São Domingos. Os homens pardos livres, em São Domingos, constituíam uma população maior e mais importante que em qualquer outra colônia européia, formando um grupo distinto dos grupos de brancos e de negros. Os membros deste grupo eram, muitas vezes, educados e possuíam propriedades, incluindo escravos. Eles constituíam, também, a maior parte das milícias que, antes de 1791, mantinham a ordem da colônia. As relações entre os brancos e aqueles a quem eles estigmatizavam como "mulatos" eram complicadas. Apesar dos esforços realizados pelas autoridades coloniais para fortalecer as barreiras raciais, depois de 1763, muitos homens brancos continuaram a procurar concubinas negras ou mestiças, e, freqüentemente, deixavam propriedades para seus filhos mestiços. Coletivamente, no entanto, os brancos insistiam na noção de que as pessoas de ancestralidade parcialmente africana tinham que aceitar seu status inferior, de modo que os escravos negros não tomassem para si a perigosa idéia de que, algum dia, também lhes seria possível obter igualdade perante os brancos.

A eclosão da Revolução Francesa, em 1789, fortaleceu as divisões raciais, à medida que os membros mais articulados dos grupos mestiços, com o respaldo dos revolucionários metropolitanos, tomaram para si as declarações revolucionárias acerca dos direitos naturais, reclamando igualdade; enquanto os colonos brancos insistiam, mais enfaticamente que nunca, na necessidade de se manter as linhagens de cor. Foi este debate, mais que o levante escravo de 1791, que levou um colono a publicar o primeiro panfleto francês, que pode ser inequivocamente classificado como racista (na acepção moderna do termo), alegando que "os negros, pertencendo, deste modo, a uma espécie diferente, tanto física, quanto moralmente, da raça branca, e cujas faculdades são, por assim dizer, não existentes, não devem ter papel ativo na sociedade, onde só podem causar danos".17 Este autor propunha, ainda, medidas para impossibilitar que os mestiços adquirissem propriedades.

Os memorialistas brancos, que escreveram após a eclosão do levante de 1791, no entanto, não podiam deixar de perceber que a atitude da população parda livre seria capaz de determinar o resultado da disputa. Os brancos entendiam que as pessoas de ancestralidade mista tinham mais influência junto aos negros, que os brancos. Era-lhes possível, mais facilmente ainda, conceber uma situação na qual o grupo mestiço, com a ajuda daqueles que os apoiavam na França, poderia efetivamente desalojá-los do posto de dirigentes da colônia; ou seja, aos brancos se tornara possível conceber uma sociedade dominada pelos antigos escravos negros.

Tendo este panorama em mente, discutirei as interpretações de raça que se encontram em duas destas narrativas, no An Historick Recital, of the Different Occurrences in the Camps of Grande-Reviere [sic.], Dondon, Sainte-Suzanne, and others, from the 26th of October, 1791, to the 24th of December, of the same year By M. Gros, attorney syndic of Valiere, taken Prisoner by Johnny, do cafeicultor Jerome Gros, e nos Historical Sketches of the Revolution and the Foreign and Civil Wars in the Island of St. Domingo, do proprietário de fazenda e comerciante, Peter Chazotte. A história de Gros foi, provavelmente, o primeiro relato publicado que teria sido escrito por um homem branco que foi capturado pelos insurgentes, ao passo que Chazotte foi um dos poucos sobreviventes brancos dos massacres ordenados por Dessalines, após a derrocada final dos franceses. Por conseguinte, o relato de Gros mostra o choque experimentado pelos brancos, durante início da insurreição, enquanto a estória de Chazotte registra o igualmente inesperado resultado final do movimento.

O Historick Recital, de Gros, foi, de longe, entre os relatos de testemunhas do levante de São Domingos publicados na época, o que circulou de forma mais ampla. Ele apareceu em 1793, ao mesmo tempo em São Domingos, na França e nos Estados Unidos, onde foi impresso tanto em francês, quanto em inglês. Graças à sua ampla distribuição, ao seu status como o único grande relato de primeira mão acerca dos primeiros meses de insurreição, ao fato de ter sido feito por um observador que se encontrava dentro do acampamento negro, e pelo agudo poder de observação de seu autor, o relato de Gros continua a influenciar as descrições da Revolução, até os dias de hoje.

Sabemos muito pouco sobre Gros, além do que apreendemos em sua narrativa. Nela, ele afirma que organizara a força de auto-defesa local, quando da eclosão da insurreição escrava, e, por toda a história, Gros se apresenta como um exemplo do homem branco soberano, decidido a controlar seu próprio destino, mesmo sob as mais atemorizantes circunstâncias.

Como muitos brancos que escreveram narrativas testemunhais nos primeiros estágios da insurreição, Gros se mostrava convencido de que os escravos negros nunca poderiam ter iniciado uma insurreição por si próprios e culpa o partidário do Rei, que fora nomeado governador, e os comandantes militares profissionais, responsáveis pela defesa da colônia, pelos primeiros êxitos da insurreição. Como muitos dos outros "patriotas" brancos da ilha, ele acusou estes homens de sabotá-la, para punir os revolucionários da França pelo tratamento dispensado ao rei.

O tom da narrativa de Gros muda, porém, quando ele próprio é capturado pelas forças negras. Gros sabia que era uma sorte estar vivo: apenas quatorze dos trinta e cinco homens de sua unidade haviam sobrevivido à batalha, na qual ele havia sido capturado, e muitos dos outros prisioneiros foram, posteriormente, torturados até a morte, por Johnny (Jeannot), o violento líder negro em cujas mãos haviam caído. Como muitos protagonistas de outras narrativas de sobreviventes, escritas antes e a partir deste momento, Gros descreve-se como estando cercado pela morte, e exposto a humilhações, que ressaltam o seu total desamparo: surras, confinamentos em condições degradantes, e "as injuriosas ameaças que eles incessantemente proferiam contra nós". O poder da história de Gros é ampliado pelo tom sóbrio e realista de sua escrita. Ele não recorre a uma retórica emocional, nem cede à tentação de exagerar nos detalhes excruciantes.

Ainda que descreva vividamente o horror e o desamparo dos primeiros dias que se seguiram à sua captura, a narrativa de Gros é, em sua maior parte, dedicada a explicar como ele havia sobrevivido, para contar sua história. Sua narrativa deixa claro que o status racial havia se tornado indispensável para a determinação dos destinos pessoais, tanto o seu, quanto dos demais brancos. Aqueles que sobreviveram somente o fizeram porque muitos dos insurgentes negros e mestiços os trataram com humanidade; e, efetivamente, porque a Gros foi dada, por vezes, uma proteção especial, por parte de alguns membros daqueles grupos, que o conheciam pessoalmente.

A vida de todo o grupo de prisioneiros com que Gros havia sido preso foi salva quando um outro líder negro, Jean-François, deteve e executou Jeannot. O preço da sobrevivência, para Gros e para os demais prisioneiros, no entanto, foi o de uma certa adaptação à nova situação. E, é a descrição deste processo, no qual Gros passou de prisioneiro a um parceiro virtual do general Jean-François, que constitui o tema central de sua narrativa.

Pouco depois de terem sido salvos por Jean-François, os brancos foram informados de que deveriam servir ao exército insurgente, manejando o canhão que eles haviam capturado e fabricando cartuchos de balas. E, Gros reconhecia as fronteiras que eles estavam sendo levados a cruzar: "Que choque deve ter sido, para a sensibilidade dos bem colocados cidadãos e pais de família, serem constrangidos a voltar suas armas contra seus iguais, seus amigos, seus pais", escreveu ele.18

Não obstante, o próprio Gros decidiu ir além. Ao invés de simplesmente se submeter às ordens de seus captores, decidiu galgar uma posição em que fosse capaz de influenciar as ações destes. Seu plano foi "o de solicitar o cargo de secretário de John Francis [Jean François, o principal líder negro], uma vez que era mais adequado à minha educação (...). Mas, como conseguir isto, era essa a dificuldade".19

Ao invés de tentar superar este obstáculo por si próprio, Gros expôs sua idéia para um dos hommes de couleur livres, ou, como ele diz, mulatos que participavam da insurreição. Os líderes negros eram, quando muito, semi-alfabetizados, e estavam bastante cônscios da necessidade de se ter alguém que pudesse escrever em bom francês. Assim, a proposta de Gros, retranstimida por um intermediário, foi aceita.

Os leitores brancos do relato público de Gros devem ter se surpreendido com o tom pelo qual ele descreve os acontecimento que se seguiram, após sua libertação: "vejo-me, agora, instalado no exercício de meu ofício, um verdadeiro secretário de John Francis, investido de toda sua confiança".20 Seguramente, nunca, na história das colônias escravocratas do Novo Mundo, outro homem branco instruído havia se gabado publicamente de seu sucesso como servidor de um negro – e, também, rebelde – em um cargo que exigia a sua identificação, ao menos em certo grau, com os objetivos de um movimento liderado por negros. É certo que a estratégia de Gros, tal como ele a apresenta em suas memórias, era a de incitar os líderes negros a negociar com as autoridades brancas, e, conseqüentemente, salvar a sua vida e a dos demais prisioneiros. Seu plano era o de jogar com o mais sincero dos medos dos líderes negros, o temor da força militar que a França eventualmente pudesse enviar contra eles, aconselhando-os a diminuir suas exigências. Uma vez que os líderes decidiram negociar apenas a sua liberdade pessoal, e a de alguns de seus partidários, e não lutar em prol de uma mudança geral no sistema escravista, eles, seus assistentes brancos e mestiços livres, vieram, de fato, a partilhar de um interesse comum, contrário ao da massa de insurgentes. Assim, Gros foi, ao menos em parte, o responsável pela criação do primeiro momento em que se abriu uma fenda, separando a pequena elite de líderes negros privilegiados do resto da população negra; divisão esta que persiste, desde então, na história do Haiti.

Assim, na narrativa de Gros, os negros que foram tratados de forma favorável são aqueles que aceitaram a política por ele recomendada. Mas, ele foi, de fato, generoso em seu louvor a eles. Gros aplaudiu a Jean-François, por haver mostrado "um grau de bom senso, um fundo de humanidade, e um raio de genialidade, muito superiores a qualquer sentimento que poderia ter sido esperado por alguém de sua casta". Embora os brancos, por diversas vezes, tivessem ridicularizado o gosto dos generais negros por roupas extravagantes, Gros comenta que "este comandante-em-chefe do exército africano estava sempre bem vestido".21 E, além de Jean-François, Gros também tinha coisas favoráveis a dizer acerca de inúmeros outros líderes negros, particularmente do futuro Toussaint Louverture, que era, oficialmente, na época da captura de Gros, somente um aide de camp de outro comandante negro, Biassou.

Os comentários de Gros acerca de Toussaint, que constituem os mais antigos testemunhos acerca de seu papel na Revolução do Haiti, são breves, mas já descrevem-no como o hábil político que, como ele, se mostraria um perito em negociar com negros e brancos. De acordo com Gros, foi Toussaint quem persuadiu Biassou a aceitar uma redução no número de emancipações exigidas pelos insurgentes.22 E, quando as negociações entraram em colapso, por causa da total intransigência dos colonos brancos, foi Toussaint quem sagazmente improvisou uma estratégia para salvar a vida dos prisioneiros brancos da cólera de Biassou. "Toussaint, ou Breda, o auxiliar de campo de Biassou, desafiando todo perigo, esforçou-se por nos salvar, embora pudesse ele mesmo ter se transformado numa vítima da fúria deste monstro. Ele mostrou a Biassou que nós não poderíamos, e não deveríamos, ser sacrificados deste modo, sem sermos encarcerados e chamados à Corte Marcial".23 Até mesmo nestas duas frases, pode-se ver o esboço das notáveis qualidades de Toussaint, e da forma perspicaz que Gros as reconheceu. Toussaint já pensava na necessidade de se estabelecer uma ordem legal normal e queria impedir o desnecessário agravamento do abismo entre as raças. Para tanto, encontrou um bem sucedido meio de vender sua estratégia a Biassou, ao invocar seu desejo de não parecer indiferente às normas da sociedade civilizada.

Evidentemente, os comentários positivos de Gros, sobre os líderes negros, foi entremeado com observações, bem menos favoráveis, acerca da massa da população negra. Na sua opinião, "é um raro incidente (...) encontrar quatro em uma centena, que tenham uma inclinação boa. Completamente inverso era o temperamento de sua mente: sua única intenção era a completa aniquilação dos brancos". Após uma multidão de negros haver tentado impedir a libertação dos prisioneiros brancos, Gros concluiu que "os negros nunca voltarão às suas obrigações, a menos que por coação, ou pela sua parcial destruição". Entretanto, Gros compreendeu perfeitamente que esta conduta não refletia uma barbárie negra, mas, ao contrário, a raiva dos soldados rasos insurgentes contra seus líderes, que estavam a ponto de aceitar um acordo que poderia deixar a maior parte dos negros na escravidão.

Neste meio-tempo, Gros veio a perceber que sua própria sobrevivência dependia dos líderes negros. Quando Gros, em serviço dos líderes negros, escreveu para o comandante militar branco da região, recebeu uma resposta tão ofensiva, que ele e os outros membros da equipe de negociação a destruíram, ao invés de mostrá-la a Jean-François. Notavelmente, a copia pertencente ao remetente desta carta ainda existe. Nela, Gros foi arrogantemente informado de que "o bem-estar geral é a maior das leis e, por mais bárbaro que isto possa lhe parecer, não se pode levar em consideração alguns poucos indivíduos, em comparação com o destino de todas as Antilhas, que foi colocado em risco por esta revolta".24 Em outras palavras, Gros foi informado de que as autoridades brancas estavam prontas para sacrificar a ele e aos outros prisioneiros, ao invés de fazer quaisquer concessões aos insurgentes.

Graças à intervenção dos comissários, enviados pela França para tentar terminar com a rebelião escrava, Gros e os demais prisioneiros brancos foram finalmente libertos, ainda que as negociações pelo fim da insurreição houvessem falhado. Ele conseguiu publicar sua narrativa em São Domingos, no final de 1792. Mas, suas acusações contra as lideranças coloniais brancas causaram tanta controvérsia que ele foi obrigado a fugir da ilha, para Baltimore, levando consigo a sua história. Enquanto isso, um de seus amigos acompanhava a sua publicação, em Paris.

Não há dúvidas de que, em 1793, os leitores apreendessem esta narrativa, inicialmente, como uma denúncia dos horrores da insurreição. Contudo, podemos ver que ela transmitia mensagens ainda mais perturbadoras. Que aqueles negros fossem capazes de cometer atos brutais de violência, poucos brancos, mesmo entre os que advogavam a favor da abolição ou de reformas no sistema escravista, jamais duvidaram. Que os antigos escravos estivessem aptos a organizar operações militares, melhores que as dos soldados brancos, e estabelecessem procedimentos legais era algo ainda mais inquietante. Que um homem branco, inteligente e articulado, determinado a dar sentido às suas ações, pudesse ter se colocado à disposição de um escravo negro rebelde e, assim, dado ao levante negro o beneficio de sua capacidade de escrever e de seu conhecimento legal, era um fato ainda mais perturbador.

Gros finalizou sua narrativa reimprimindo um documento, a saber, o que "formula os Passes, de que é necessário estar provido, para ser autorizado a passar, sem ser molestado, e empreender seus negócios, na Hispaniola", assinado pelos generais negros Jean-François e Biassou.25 Antes do levante, qualquer branco podia desafiar um negro a mostrar os documentos que o autorizavam a se afastar da fazenda; agora, eram os brancos que precisavam de tais documentos. Embora a história de Gros seja, em certo sentido, a história de um homem branco que utiliza sua inteligência para escapar do cativeiro, ela é, em outro sentido, uma profunda e perturbadora demonstração da fragilidade da identidade branca, definida em termos de superioridade sobre outras raças.

A ameaça ao domínio branco, mostrada pela narrativa de Gros, se torna ainda mais explícita na narrativa de Peter Stephen Chazotte, um proprietário de terras branco, que escapou de São Domingos, no início da década de 1790, mas que retornou, em 1800, durante um período de relativa tranqüilidade, para tentar reaver sua propriedade. O relato de Gros refletia as incertezas da primeira fase da insurreição do Haiti; já a história de Chazotte se deu em circunstâncias muito diferentes.

Em 1800, ninguém duvidava que, na verdade, o poder sobre a ilha recaía nas mãos de Toussaint Louverture. Sendo nominalmente apenas um general do exército francês, ele era, na verdade, um ditador virtual. Em 1801, antevendo os esforços de Napoleão para restabelecer o controle sobre a colônia, Toussaint promulgou, unilateralmente, uma constituição para a ilha, declarando-se dirigente vitalício. Oficialmente, a política de Toussaint era a de encorajar os donos de propriedades brancos a retornarem para São Domingos; Toussaint considerava que a restauração da economia dependia da sua perícia na administração das plantações. Mas, como Chazotte rapidamente constatou, Toussaint somente toleraria os brancos se estes compreendessem que eram totalmente dependentes dele. Assim, a narrativa de Chazotte enumera as várias humilhações infligidas sobre si, nos primeiros meses após sua chegada de Charleston, quando, por repetidas vezes, foi convocado para ver o general, e, nessas ocasiões, era deixado esperando por horas, para logo ser mandado de volta, sem obter uma entrevista. Histórias semelhantes são narradas em outros testemunhos deste período. "Nesta época, os negros governavam, como soberanos, os destinos da população branca e de cor; por isso, todos deviam obedecer aos mandos do mais insignificante sargentos negros, que foram colocados como comandantes de inúmeros distritos", escreveu Chazotte.26

Obtendo, finalmente, uma autorização para retornar à sua fazenda, na remota porção sul do país, Chazotte conspirou com outros oponentes de Toussaint, a fim de acolher as tropas francesas da expedição de Leclerc, que alcançaram a ilha em fevereiro de 1802.27 Porém, Chazotte rapidamente descobriu que mesmo o poderio de Napoleão não seria suficiente para restaurar a ordem racial em São Domingos. Embora os brancos, nessa região remota, tivessem obtido sucesso ao impor o que Chazotte chamou de "um perfeito estado de tranqüilidade", as derrotas que sofreram em outras partes levaram o comandante francês, General Rochambeau, a retirar suas tropas da porção sul da ilha, de forma a concentrá-las na defesa das posições que lhes restaram. Os insurgentes negros colocaram fogo em plantações, por toda a região, e obrigaram os brancos que permaneceram a se refugiarem no pequeno porto de Jérémie. "Assim, em menos de cinco dias, foi totalmente destruída (...), em São Domingos, a única parte das possessões francesas, que, durante todo o curso de treze anos de guerra civil e revoluções, havia se mantido constantemente íntegra e preservado sua paz e riquezas", concluiu tristemente Chazotte.28

As provações pessoais de Chazotte estavam apenas começando. Fiando-se na proteção oferecida pela cidadania americana, que havia adquirido em seus anos como refugiado, Chazotte permaneceu em Jérémie, mesmo após a partida da última tropa francesa, que deixou São Domingos em novembro de 1803. Ele tinha vários amigos entre os oficiais militares mestiços que ali se posicionaram, e presumiu que eles o protegeriam. Em 8 de março de 1804, porém, o General Dessalines, e suas forças, chegaram a Jérémie, e ordenaram a prisão de todos os homens brancos que ali haviam permanecido.

Chazotte foi salvo por um de seus amigos mestiços, o General Jeffrard, que atestou seu status de cidadão americano, e o colocou, sob guarda, em uma casa, de onde ele pôde observar as ações que ocorriam na praça. A última coisa que Chazotte viu do remanescente dos homens brancos foi uma coluna, que ele estimou ser composta por quatrocentos homens, "despojados de todas as suas roupas, com os braços presos para trás, e amarrados, dois a dois, por cordas",29 marchando para fora da cidade, conduzidos por soldados negros armados com mosquetes e machados.

Não foram apenas as vítimas que Chazotte descreveu que haviam sido reduzidas às mesmas condições que os escravos negros anteriormente estavam submetidos e que os europeus, durante tantos séculos, haviam forçado a embarcar em seus navios. As testemunhas que registraram seus destinos eram, igualmente, impotentes: os brancos de Jérémie estavam sem defesa, pois o mais potente poderio militar europeu da época – o francês - havia sido incapaz de vencer os negros. Contudo, é importante notar que, como o próprio Chazotte reconheceu, o que se estava testemunhando não era uma simples eclosão de uma brutalidade irracional. A prisão e o massacre das vitimas foram cuidadosamente organizados, com vistas a capturar as riquezas das vítimas e, então, matá-las. A operação foi uma lição brutal de pedagogia racial, visando a convencer a população do Haiti que o domínio branco havia acabado para sempre, e que, então, os negros se encontravam firmes no poder. Por essa razão, Dessalines obrigou os jovens de ancestralidade mista a participar da morte de seus parentes brancos e ordenou que os cadáveres dos brancos fossem empilhados ao longo da estrada principal, onde pudessem ser vistos pela população negra local.

De acordo com Chazotte, Dessalines ficara furioso por que os negros das áreas rurais haviam tentado evitar o espetáculo, fazendo um desvio ao redor deste local: "Este comandante sanguinário expressou seu desagrado pelo amor que os negros de Jérémie ainda mantinham por seus senhores brancos".30 A intenção de Dessalines, segundo percebeu Chazotte e, mais tarde, escreveu Thomas Madiou, historiador do Haiti, era o de tornar toda a população cúmplice dos massacres, e, desse modo, forçar sua lealdade para com o novo regime de dominação negra.

O relato de Chazotte, como os de outros sobreviventes desta última fase do conflito racial em São Domingos, enfatiza o horror que grande parte da população negra sentia pelos massacres operados Dessalines e preserva a memória de vários negros e outras pessoas de cor que intervieram para salvá-lo, como o Coronel Gaston, um oficial mestiço que preferiu cometer suicídio a participar da matança dos brancos.31 Ainda assim, não persiste nenhum otimismo redentor nesta narrativa, que se encerra com a feroz asserção racista de que "os homens negros formam uma espécie inferior que só prosperará sob a influencia direta dos brancos".32 Mas, como se chegara a tal situação? A única resposta dada por Chazotte à questão é uma censura aos demais brancos, particularmente os britânicos, que, segundo ele, haviam organizado a destruição de São Domingos, na década de 1790, e estavam, agora, na década de 1830, quando ele preparava a publicação de sua história, conspirando para fazer o mesmo com os Estados Unidos, ao encorajar o movimento abolicionista.33 Inadvertidamente, no entanto, sua aterrorizante história serviu à perpetuação da lição pedagógica de Dessalines, ao enfatizar a capacidade dos negros de virar a mesa sobre seus antigos opressores. Este foi um espetáculo para o qual o mundo branco preferiu fechar os olhos.

Assim, Gros, Chazotte e outros autores de relatos acerca da Revolução do Haiti demonstram quão profundamente incômoda se tornou a literatura memorialista para a noção de identidade branca da Europa. Os brancos, na França, toleravam breves referências à Revolução do Haiti, como a exclamação de Chateaubriand: "Quem se atreveria a interceder pela causa dos negros, depois dos crimes que eles cometeram?".34 Mas não aceitavam representações mais concretas da impotência dos brancos e da capacidade de ação dos negros, como as que se encerravam nos detalhados relatos em primeira pessoa. Os sucessos de Gros, transformado em porta-voz de Jean-François, e de Chazotte, confinado no seu balcão, demonstraram que mesmo homens brancos, inteligentes e determinados não necessariamente manteriam o sentido de suas ações e o controle sobre aqueles a quem eles viam como seus inferiores.

Em um ensaio sobre narrativas escritas por norte-americanos que haviam sido capturados por piratas bárbaros, Paul Baepler alegou que a habilidade para escrever suas próprias histórias permitiu aos autores que estes reafirmassem a superioridade de sua civilização: "a capacidade de ‘decodificar e recodificar' uma situação continua sob o controle do narrador branco".35 Mas este não foi o caso das testemunhas brancas da Revolução do Haiti: aqueles que publicaram suas estórias foram, em geral, ignorados, e muitas destas historias nunca chegaram a ser impressas. Suas narrativas eram inassimiláveis, no mundo do século XIX, mesmo que as crenças racistas e a convicção da superioridade européia estivessem crescendo e se tornando ainda mais fortes.

Não é impossível que as narrativas feitas por testemunhas de catástrofes auxiliem na construção de noções positivas de identidade grupal, como o papel desempenhado pela literatura produzida pelos sobreviventes do Holocausto, ao definir a identidade judaica contemporânea. Mas, os relatos em primeira pessoa sobre a derrota dos brancos, no Haiti, não conseguiram exercer esta função. Sobre eles pesaram, é claro, a memória da escravidão: um refugiado de São Domingos se queixou de que quando ele chegou na França, com sua história de aflições, até mesmo seus parentes teriam lhe dito, "você certamente mereceu isso".36 Ironicamente, o racismo alcançou seu ápice, em todo o mundo ocidental, somente após o final da escravidão legalizada, quando emotivos contos, como A Cabana do Pai Tomás, não poderiam mais ser utilizados de forma a endossar asserções pseudo-científicas da inferioridade negra.

Mas, as histórias destas testemunhas também foram rejeitadas porque mostravam que a idéia da superioridade inata dos brancos dependia, antes de mais nada, de uma disparidade de poder. Quando perderam esta vantagem, os brancos se viram tão impotentes, quanto seus antigos escravos. Quando a expansão francesa passou a ser justificada em nome de uma missão civilizadora, histórias como as de Gros e Chazotte tornaram-se claramente inassimiláveis.

A redescoberta das narrativas de brancos, escritas na primeira pessoa, acerca da Revolução do Haiti, nos recorda que a civilização européia, mesmo em seu mais triunfante período, carregou consigo, sepultadas nos arquivos e bibliotecas, as evidências da fragilidade de suas pretensões. Estes textos, há muito esquecidos, podem nos ajudar a entender as origens das noções de identidade branca, próprias dos séculos XIX e XX, e, assim, possibilitar que sejam traçadas as origens dos problemas contemporâneos relativos à raça. Servem também como advertências acerca das possíveis conseqüências de não se solucionar tais conflitos.

 

 

* Artigo recebido em: 19/11/2007. Artigo aprovado em: 20/02/2008.
** Tradução de René Lommez Gomes.
1 Estas narrativas de cativeiro têm sido estudadas, no caso do Império Britânico, por COLLEY, Linda. captives: Britain, empire, and the world, 1600-1850. New York: Anchor Books, 2002.         [ Links ]
2 Acerca dos primeiros usos dados a este termo, ver: FOLKENFLIK, Robert. Introduction. In: FOLKENFLIK, Robert. (org.) The culture of autobiography: constructions of self-representation. Stanford: Stanford University Press, 1993, p.1-4.         [ Links ]
3 Para uma análise clássica do significado deste período para o desenvolvimento da auto-biografia, ver: WEINTRAUB, Karl J. The value of the individual: self and circumstance in autobiography. Chicago: University of Chicago Press, 1978.         [ Links ]
4 N.T: O autor aqui faz uma referência indireta ao Ground Zero, o qual se refere tanto ao espaço anteriormente ocupado pelas Torres gêmeas, em Nova York, como também ao momento impactante do 11 de setembro para a cultura ocidental contemporânea.
5 BUCK-MORSS, Susan. Hegel and Haiti. Critical Inquiry, n.26, p.821-65, 2000;         [ Links ] ver, também, FISCHER. Modernity Disavowed. p.25-32.         [ Links ]
6 TROUILLOT, Michel-Rolph. An unthinkable history: the Haitian Revolution as a non-event. In: Silencing the past: power and the production of History. Boston: Beacon Press, 1995, p.70-107.         [ Links ]
7 Dois autores diferentes publicaram relatos utilizando o título Histoire des désastres de Saint-Domingue, na década posterior a 1790: SA. Histoire des désastres de Saint-Domingue, précédée d'un tableau et des progrès de cette colonie, depuis sa foundation, jusqu'à l'époque de la Révolution française. Paris: Garnery, An III [1795]; e CARTEAUX, F. Histoire des désastres de Saint-Domingue, Ouvrage où l'on expose les causes de ces événemens, les moyens employés pour renverser cette Colonie; les repoches faits à ses Habitans, et les Calomnies don't on les a couverts; enfin des faits et des vérités, qui justifiant ces Colons, sont encore propres à fixer le Gouvernement sur les moyens de fair refleurir la culture dans cette isle infortunée. Bordeaux: Pellier-Lawalle, An X [1802]         [ Links ].
8 Pesquisas recentes, desenvolvidas por meu colega na University of Kentucky, Daniel Desormeaux, têm mostrado que o texto publicado, em meados do século XIX, como Mémoires du général Toussaint-Louverture, cuja autenticidade é há muito contestada, é, de fato, uma tradução do manuscrito autêntico, escrito em crioulo, por este líder negro. Estas memórias, entretanto, são um exemplo clássico de apologia política e estão circunscritas ao relato das ações políticas e militares de Toussaint Louverture, durante os quatro meses que seguiram à chegada da expedição francesa, de 1802.
9 NT: crioulo aqui refere-se ao idioma falado na região.

10 ANÔNIMO. Extrait d'une letter, sur les malheurs de Saint-Domingue en general, et principalement sur l'incendie de la ville du Cap Français. Paris: Pain, An. II [1793]         [ Links ]; CARTEAUX, F. Soirées bermudiennes. Bordeaux, 1802.         [ Links ]
11 ANÔNIMO. My Odyssee: experiences of a young refugee from two revolutions. Edição e tradução de Althéa de Puech Parham. Baton Rouge/La.: Louisiana State University Press, 1959.         [ Links ] O manuscrito original desta obra, que contém diferenças significativas em relação à tradução de 1959, está, hoje, depositada numa biblioteca privada, a Historic New Orleans Collection.
12 N>T: o autor refere-se aqui ao período pós-napolêonico na França.
13 ANÔNIMO. Manuscrit d'un Voyage de France à Saint-Domingue, à la Havanne et aux Unis états [sic] d'Amérique. Contenant le séjour de la personne, qui écrit, avec une description générale, de toutes les cultures de St. Domingue. Un rapport des evénems, de la révolution de ce pays, qui ont eu lieu, depuis 1789, jusqu'en 1804. Diverses observations politiques, & autres détails, divisés en deux parties. 1816, première partie, p.193, deuxième partie, p.76. [Acervo da John Carter Brown Library, Providence RI].
14 PERKINS, Samuel G. Sketches of St. Domingo from January, 1785, to December, 1794. Proceedings of the Massachusetts Historical Society, 2nd series, n.2, p.305-90, 1886;         [ Links ] CHAZOTTE, Peter S. Historical sketches of the Revolution and the foreign and Civil Wars in the island of St. Domingo. New York: Wm. Applegate, 1840.         [ Links ]
15 BRUN-LAVAINNE, Elie-Benjamin-Joseph. Mes souvenirs. Lille: Lefebvre-Ducrocq, 1855.         [ Links ]
16 POPKIN, Jeremy D. Facing racial revolution: eyewitness accounts of the Haitian Insurrection. Chicago: University of Chicago Press, 2008.         [ Links ]
17 BEAUVOIS, Baron de. Idées sommaires sur quelques règlements à faier par l'Assemblée coloniale; par M. le baron de Beauvois, conseiller au Conseil-supérieur du Cap, correspondant de l'Académie Royale des Sciences, ci-devant associé de la Société Royale des Sciences & Arts de Saint-Domingue. Cap-Français: Batilliot, 1790, p.37.         [ Links ]
18 GROS, Jerome. An historick recital, of the different occurrences in the camps of Grande-Reviere [sic.], Dondon, Sainte-Suzanne, and others, from the 26th of October, 1791, to the 24th of December, of the same year, by M. Gros, attorney syndic of Valiere, taken Prisoner by Johnny, p.35.         [ Links ]
19 GROS, Jerome. An historick recital, p.36-37.         [ Links ]
20 GROS, Jerome. An historick recital, p.40.         [ Links ]
21 GROS, Jerome. An historick recital, p.63.         [ Links ]
22 GROS, Jerome. An historick recital, p.57.         [ Links ]
23 GROS, Jerome. An historick recital, p.62.         [ Links ]
24 Hagley Library. TOUSARD, Lieutenant-Colonel. Journal de ma Campagne commencée dans la partie de l'Est, le 15 novembre 1791. Ms. Acc. 874, p.56, letter of 13 Dec. 1791. O diário de campanha de Tousard corrobora muitos dos detalhes apresentados no relato de Gros.         [ Links ]
25 GROS, Jerome. An historick recital, p.67-68.         [ Links ]
26 CHAZOTTE, Peter S. Historical sketches, p.24.         [ Links ]
27 CHAZOTTE, Peter S. Historical sketches, p.25.         [ Links ]
28 CHAZOTTE, Peter S. Historical sketches, p.34.         [ Links ]
29 CHAZOTTE, Peter S. Historical sketches, p.47.         [ Links ]
30 CHAZOTTE, Peter S. Historical sketches, p.52.         [ Links ]
31 CHAZOTTE, Peter S. Historical sketches, p.49.         [ Links ]
32 CHAZOTTE, Peter S. Historical sketches, p.71.         [ Links ]
33 CHAZOTTE, Peter S. Historical sketches, p.4.         [ Links ]
34 Citado em BENOT, Yves. La démence coloniale sous Napoléon. Paris: La Découverte, 1992, p.193.         [ Links ]
35 BAEPLER, Paul. Introduction. In: BAEPLER, Paul. (org.) White slaves, African masters: an anthology of American barbary captivity narratives. Chicago: University of Chicago Press, 1999, p.28.         [ Links ]
36 CARTEAUX, F. Histoire des désastres de Saint-Domingue. Bordeaux: Pellier-Lawalle, 1802, p.XXIII.
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