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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775On-line version ISSN 1982-4343

Varia hist. vol.24 no.40 Belo Horizonte July/Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752008000200022 

ARTIGOS

 

O Jequitinhonha dos viajantes, séculos XIX e XX. Olhares diversos sobre as relações sociedade - natureza no nordeste mineiro

 

The voyagers' Jequitinhonha, Nineteenth and Twentieth centuries. Different views over the society - nature relations in northeast Minas Gerais

 

 

Marcos Lobato Martins

Doutor em História Econômica pela USP. Professor das Faculdades Pedro Leopoldo (FPL). Rua Teófilo Calazans de Barros - Santo Antônio da Barra, Pedro Leopoldo, MG. CEP: 33.600-000. lobatohistoria@hotmail.com

 

 


RESUMO

Este trabalho analisa as mudanças ambientais no Médio Jequitinhonha entre o início do século XIX e o início do XX, através da releitura de relatos de viajantes e textos de memorialistas. São indicadas as principais formas de degradação ambiental presentes na região e avaliados os seus impactos sobre as caatingas e as matas virgens. Conclui-se que: a) houve aumento expressivo da velocidade de alteração das paisagens regionais na primeira metade do século XX e; b) essa alteração fortaleceu a tendência de pecuarização na economia do Médio Jequitinhonha.

Palavras-chave: Médio Jequitinhonha, mudanças ambientais, relatos de viajantes e memorialistas.


ABSTRACT

This paper analyzes the environmental changes in the Middle Jequitinhonha between the nineteenth and twentieth centuries beginnings, through the reading of the memoirialists and voyagers reports. The major environmental degradating actions that take place in the region are indicated and its impacts over the caatingas and forests are evaluated. It concludes: a) an expressive increase in the velocity of the regional landscapes change in the first half of twentieth century; b) and this change annealed the tendency of cattle's predominance in Middle Jequitinhonha economy.

Keywords: Middle Jequitinhonha, environmental changes, memoirialists and voyagers reports.


 

 

Entre os anos de 1780 e 1781, José Joaquim da Rocha escreveu sua Geografia Histórica da Capitania de Minas Gerais, na qual se refere ao Rio Jequitinhonha nos seguintes termos: "O Rio Jequitinhonha, que tem o seu nascimento ao norte das serras de Santo Antônio e Itambé da Vila do Príncipe, é o tesouro mais precioso destas Minas; não só o Jequitinhonha, mas todos os mais rios e ribeiros que nele se metem, desde o seu nascimento"1. O competente cartógrafo referia-se, é claro, aos depósitos de ouro, diamantes e pedras preciosas explorados no Jequitinhonha, Araçuaí, Piauí e Itacambiruçu, que motivaram a ocupação inicial do nordeste das Minas Gerais e garantiram, pelos séculos posteriores, o lugar destacado do rio Jequitinhonha no cenário provincial e estadual. As riquezas e as grandes belezas naturais do rio atraíram, desde o Oitocentos, ampla curiosidade sobre o território por ele banhado. Por isso, em diferentes épocas do período compreendido entre as primeiras décadas do século XIX e as décadas iniciais do século XX, viajantes estrangeiros e brasileiros percorreram trechos mais ou menos extensos do Rio Jequitinhonha. Dessas viagens resultaram narrativas que abordam diversos aspectos do quadro regional - econômico, social e ambiental - encontrado por esses homens. Entre os que estiveram nas margens do Médio Jequitinhonha na primeira metade do século XIX, contam-se Auguste de Saint-Hilaire, Spix & Martius, Johann Emanuel Pohl e John Mawe. Praticamente um século depois, viajaram pelo mesmo trecho do rio cronistas como Leopoldo Pereira, J. Duarte, Eduardo Santos Maia e Frei Samuel Tetteroo.

Este trabalho pretende reler, a partir de uma mesma "chave de leitura", as narrativas elaboradas pelos dois grupos de viajantes citados, cruzando as informações assim obtidas para gerar um quadro comparativo da situação ambiental no Médio Jequitinhonha no início do XIX e do XX. O objetivo é identificar e analisar, numa perspectiva qualitativa, as continuidades e mudanças no que se refere a dimensões como: 1) a condição das águas do rio; 2) os usos da terra e dos recursos naturais nas áreas ribeirinhas; 3) as formas de degradação ambiental que operavam no espaço regional. Trata-se, portanto, de produzir inferências sobre direções e intensidades das mudanças nas paisagens ribeirinhas da porção média do Jequitinhonha no decurso do seu processo de conquista e integração ao espaço político-econômico do Sudeste brasileiro.

Antes de passar aos assuntos propostos, com a finalidade de evitar mal-entendidos, convém precisar dois termos que serão bastante empregados no trabalho. O primeiro deles é "paisagem". Por paisagem entende-se determinado domínio terrestre que comporta dimensões de homogeneidade e diferenciação, resultante de interações específicas entre atributos naturais e dinâmicas histórico-culturais. Para ficar com o conceito de Georges Bertrand, paisagem é "numa determinada porção do espaço, o resultado da combinação dinâmica, portanto instável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente uns sobre os outros, fazem da paisagem um conjunto único e indissociável, em perpétua evolução"2. O outro termo que requer explicação é "Médio Jequitinhonha". Neste trabalho, a expressão Médio Jequitinhonha designa a parte do curso do rio - e as terras mais próximas de ambas as margens - compreendida entre a foz do Rio Araçuaí (situada nas proximidades da antiga Boa Vista do Calhau, hoje cidade de Araçuaí) e a cachoeira de Salto Grande (encoberta por represa construída bem a jusante da cidade de Salto da Divisa).

 

Os viajantes, os memorialistas e as paisagens regionais

A literatura de viagens e os textos produzidos por memorialistas são importantes para a construção da história ambiental de Minas Gerais, particularmente da Bacia do Jequitinhonha. Essas obras provavelmente fornecem o mais completo conjunto de informações sobre variáveis geofísicas, fauna e flora, paisagens naturais, técnicas agrícolas e minerarias de que se dispõe referentes aos séculos XIX e XX. Delas também podem ser extraídos elementos informativos sobre as condições dos rios, a distribuição das chuvas, as características dos solos, os hábitos e costumes alimentares dos mineiros, suas técnicas e cultura material. Por terem esquadrinhado o território da Capitania e da Província, as narrativas dos viajantes possibilitam, ademais, análises comparativas envolvendo as distintas formas de relação das sociedades regionais com os variados ambientes presentes no âmbito das fronteiras mineiras. Com acuidade, o pesquisador encontra, ainda, certo repertório de dados sobre as percepções - tanto dos viajantes e memorialistas, quanto das populações "nativas" - do espaço, existentes na época de elaboração das narrativas.

Dessa forma, os relatos de viagens e as memórias são fundamentais para a escrita da história ambiental regional, a despeito das críticas que lhes costumam ser dirigidas. É verdade que faltam às narrativas dos viajantes e aos textos dos memorialistas maior sistematicidade e preocupação com a reunião de dados numéricos capazes de gerar séries estatísticas. Todavia, cabe perguntar se a administração pública produziu documentos com essas características em grande volume e se eles remanescem. Outra objeção comumente lançada contra esses tipos de fontes insinua que há, neles, muitas impressões decorrentes da subjetividade do observador. Ora, isso é verdade. Mas também vale para qualquer outro documento que os historiadores utilizam nas suas pesquisas. No caso dos viajantes estrangeiros, cabe a cautela de pensá-los como "outros", que se aproximaram de sociedades cujos processos sócio-culturais eram-lhes estranhos e, não raro, observados com preconceito. Porém, o mesmo poder ser dito de autoridades brasileiras quando se referem às comunidades rústicas do interior do país.

Além da atenção aos vieses presentes nas narrativas compulsadas durante a elaboração deste trabalho, outro cuidado tomado foi o de procurar eliminar as informações eventuais e arbitrárias, por meio do sistemático cotejamento dos dados coligidos na leitura do maior número possível de viajantes e memorialistas. A eleição de grande variedade de relatos de viagens e memórias é ponto central da metodologia adotada, o que significa que este trabalho representa, apenas, resultado parcial de uma pesquisa que se prolongará por mais tempo. Para cada narrativa, fez-se a análise do conteúdo do discurso - seja do viajante, seja do memorialista - e a subseqüente sistematização da perspectiva de seu olhar.

O quadro abaixo indica os relatos de viagens e memórias referentes ao Médio Jequitinhonha empregados neste trabalho:

 

 

As visões da natureza: vastidões quentes cortadas pelo grande rio

Saint-Hilaire assinalou a diversidade das paisagens naturais no Médio Jequitinhonha. A variabilidade dos tipos de vegetação, das formas de relevo, dos solos, dos regimes dos rios e dos climas notava-se à medida que o viajante avançava poucas léguas, ultrapassava a crista de uma serra ou contornava uma curva do Jequitinhonha. A região configurava, na visão do naturalista francês, mosaico rico, capaz de extasiar cientistas. Na mesma linha registraram-se as observações de Pohl, atento à sucessão e à mistura de quadros fisiográficos no antigo Termo de Minas Novas.

Descrição sucinta e bastante acurada da região do Nordeste da Capitania foi elaborada por Pohl, assim que avistou o Rio Jequitinhonha e alcançou a Vila do Fanado, em agosto de 1819. O renomado cientista da Missão Austríaca escreveu:

Toda a região é montanhosa, especialmente ao norte; e os cumes das serras, em sua maioria, formam extensas chapadas ou tabuleiros. Os vales são geralmente cobertos de matas e freqüentemente atravessados por rios e riachos, que tornam o solo limítrofe muito fértil e especialmente adequado à cultura do algodão. Cria-se gado em amplas áreas. O gado e os produtos agrícolas alimentam atualmente os habitantes, que, desde que diminuiu notavelmente a produção de ouro, que aqui ocorria tão abundantemente nos rios, estão inteiramente empobrecidos. Antigamente este Termo era muito rico também em pedras preciosas. (...) Em todo o Termo, os povoados estão situados nas margens dos rios e riachos e só raramente nesta região montanhosa um solo cultivável permite maior afastamento dos cursos de água. A leste, as grandes e extensas matas são habitadas quase exclusivamente por tribos selvagens, que na sua maioria ainda se encontram em estado primitivo (...) A população do Termo de Minas Novas deve elevar-se a 30.000 almas ou pouco mais. (...) Conquanto, em relação às regiões setentrionais percorridas, seja aqui mais numerosa a raça branca, ainda são os mulatos que constituem a população dominante3.

Ao redor da Vila do Fanado (Minas Novas), o binômio chapada - grota dominava o cenário. A partir do fundo dos vales estreitos dos regatos, subiam morros mais elevados e, no topo deles, ficavam chapadas extensas. Nos regatos, grandes pedras e alguns bancos de areia freqüentemente interrompiam o curso da água. Por isso mesmo, os rios e córregos abrigavam pequenas cachoeiras. Nas suas margens, matas úmidas e fechadas, chamadas capões, com árvores altas, produziam sombras e temperaturas amenas. Os morros e as chapadas, porém, eram cobertos por carrasqueiros, espécies de florestas anãs. Sobre os solos vermelhos e pedregosos, a vegetação compunha-se de arbustos entremeados por capinzais. No tempo da seca, o solo ficava esturricado, os capinzais secos e as folhas dos arbustos caíam quase completamente. Pohl salientou que, nos tabuleiros, era difícil encontrar lugares que oferecessem água potável. Saint-Hilaire insistiu que, ao atravessar essa área do Termo de Minas Novas em maio de 1817, viu poucas flores, aves e mesmo insetos, em razão da seca.

A partir da povoação de Santa Cruz da Chapada (Chapada do Norte), os morros, cujas altitudes decrescem gradativamente, recebem as matas de caatinga. Esse tipo de vegetação predominava à medida que se avançava para as partes mais baixas do Termo de Minas Novas. Os solos onde crescia essa vegetação eram leves, acinzentados e arenosos, muito favoráveis ao plantio do algodoeiro, emergindo neles, em muitos lugares, rochedos largos e enegrecidos. Matagal, arbustos finos de cerca de três metros e plantas trepadeiras formavam a caatinga, que também era o espaço próprio dos cactus, das bromeliáceas, das velosiáceas (canela-de-ema), das figueiras-do-inferno, das árvores barrigudas e imburanas. Sobre os troncos e galhos das árvores da caatinga, era comum encontrar bossas de terra arredondadas, ovóides, que abrigavam térmitas ou formigas brancas - os cupins. Na seca, a cor da caatinga era de um cinza que brilhava à luz do sol. O viajante deveria ter muito cuidado com seus burros, pois a caatinga fervilhava de plantas venenosas - era preciso saber escolher adequadamente os lugares de pasto, geralmente nas pequenas lagoas secas que se formavam em terrenos baixos desnudos, anteriormente ocupados pelas águas na época das chuvas. Em pontos isolados, a caatinga apresentava terra mais escura, onde cresciam palmeiras - a guariroba. Entre Sucuriú (atual cidade de Francisco Badaró) e a Fazenda Bom Jardim (situada quatro léguas a montante de São Miguel, atual Jequitinhonha), estendia-se o domínio das caatingas, tanto na bacia do Araçuaí quanto nas margens do Jequitinhonha. Nesse trecho de terreno, Pohl assinalou a existência de numerosos riachos e córregos que secavam completamente ou ficavam estancados no inverno. Segundo Saint-Hilaire, depois da referida fazenda, entrava-se no domínio das florestas virgens. E na zona das planícies e colinas suaves. Para Pohl, as caatingas estendiam-se um pouco mais: seu domínio ia até a altura de São Miguel.

Nas proximidades de São Miguel, as florestas cresciam sobre solos nem tão leves, nem tão arenosos como os da caatinga. As árvores, altas e de troncos muito retos, formavam abóbadas de verdura impenetráveis aos raios de sol, cobrindo desde as margens do Rio Jequitinhonha até as colinas e montanhas que limitavam o vale fluvial. Nessas matas, repletas de cipós e plantas trepadeiras, as sapucaias e os cocos, cuja maturação ocorria na seca, alimentavam indígenas e colonos. As árvores mais destacadas, conforme J. Duarte, eram cedro, umburana, vinhático, jacarandá, peroba e ipê4. O domínio das florestas virgens estendia-se desde São Miguel até o Oceano, na época das viagens de Saint-Hilaire e de Pohl. A jusante da povoação de Vigia (atual cidade de Almenara), ambos registraram a diminuição sensível das altitudes nas margens do rio, que corria então através de vasta planície coberta de matas, e que seria própria para todos os gêneros de cultura. Aí, os naturalistas encontraram grande variedade de insetos, notadamente borboletas e besouros.

No Médio Jequitinhonha, as chuvas duravam cinco meses, no máximo seis. Começavam em outubro e terminavam em fevereiro. No tempo da seca, as temperaturas diminuíam até julho; todavia, os dias continuavam acalorados por causa do sol. Pohl registrou temperaturas diurnas, à sombra, na casa dos 30 graus, nos meses de agosto e setembro, antes da entrada do período chuvoso5. A partir da chegada das chuvas, dias e noites adquiriam temperaturas cada vez mais altas, e a vegetação retomava suas galas. Durante a seca, as aves refugiavam-se nas margens das águas e nas proximidades das habitações. Compreensivelmente, tanto Saint-Hilaire quanto Pohl retrataram as áreas dominadas pela caatinga com indisfarçável mau humor. Elas lhe pareceram tristes e monótonas, tediosamente extensas por causa da terra ressecada e do calor insuportável. O desabafo de Saint-Hilaire é eloqüente: "A jornada do dia seguinte foi de cinco léguas. O calor era excessivo; a terra ressecada estava coberta de folhas mortas, e não avistei nem uma flor, nenhum pássaro, nem mesmo um único inseto. Desde que estava em viagem, jamais experimentara tamanho tédio"6. Por outro lado, ambos prognosticaram que a viagem pelo Médio Jequitinhonha na estação chuvosa deveria ser magnífica, brindando o viajante com numerosos matizes de verde, grandes caudais de águas e variadas algazarras de animais de toda espécie. Monotonia no inverno. Êxtase no verão. Por que, então, os naturalistas escolheram visitar a região justamente na época da seca? Ambos sabiam que, uma vez começadas as chuvas, os caminhos terrestres tornavam-se impraticáveis e a navegação contra a corrente, tanto no Jequitinhonha quanto no Araçuaí, bastante penosa e lenta.

Nos rios e riachos perenes do Médio Jequitinhonha, o espetáculo que se oferecia aos olhos do viajante era distinto conforme fosse tempo de chuva ou de seca. Nas chuvas, fortes correntezas e leitos mais largos, que escondiam as massas de granitos sob as águas e transformavam a maioria das cachoeiras em simples corredeiras, fáceis de transpor com canoas pequenas. Na seca, os riachos viravam filetes de água correndo entre as rochas de granito; no Araçuaí e no Jequitinhonha, muitas cachoeiras se mostravam e as águas ficavam rasas. Porém, os peixes não desapareciam. Nos rios Fanado, Sucuriú, Água Suja, Capivari, Araçuaí, Gravatá, Setúbal, Jequitinhonha, dentre outros, havia traíras, lambaris, piamparas, piabanhas, curimatãs, tamburés, roncadores, bagres, surubis, piaus, perpitingas e dourados. No Rio São Miguel, existia uma variedade de crustáceo muito saboroso, um camarão de grande tamanho e cor alaranjada-pardacenta raiada de negro. Nas águas e nas margens do Jequitinhonha, especialmente nas zonas de florestas virgens, perambulavam manadas de veados, diversas variedades de macacos (chamados monos), capivaras, antas, aves aquáticas - dentre as quais as anhingas, maiores do que gansos e que tinham chifre na cabeça e dois esporões córneos em cada uma das asas -, porcos-do-mato, tartarugas, lontras, araras, papagaios, tucanos e mutuns. Muito temidas eram as variedades de onças, destacando-se a preta e a pintada. Pohl ficou impressionado pela notícia da existência de um pequeno mamífero, chamado jaritacaca, que exalava odor mefítico ante a aproximação de algum homem ou animal, capaz de deixar a vítima atordoada por horas seguidas. Dentre as serpentes, os viajantes citados referiram-se à sucuri, surucucu (muito perigosa e que soltava um assobio agudo) e cascavel.

Os insetos citados nas narrativas dos viajantes estrangeiros do início do Oitocentos eram aqueles que causaram incômodos contínuos durante suas jornadas pelo Médio Jequitinhonha. Saint-Hilaire pareceu mais acostumado aos ataques desses bichos. Mas Pohl queixou-se amargamente dos sofrimentos produzidos pelos carrapatos (na zona da caatinga), enxames de mosquitos e bichos-de-pé (nas margens florestadas do rio). Nas primeiras décadas do século XX, as margens do Jequitinhonha, já bastante desmatadas, ainda abrigavam enxames de jatiuns, cujas "ferroadas palúdidas" transmitiam terríveis sezões7.

Os colonos e os indígenas, especialmente os chamados botocudos, caçavam e pescavam comumente. Os principais alvos dos caçadores eram as capivaras, os veados, os tatus e porcos-do-mato. Conforme Saint-Hilaire, os caçadores das caatingas construíam nas árvores, na beira dos trilhos que levavam aos regatos, palanques de onde espreitavam os veados que iam matar a sede, alvejando-os. A ave de caça preferida era o mutum, por causa de sua carne mais saborosa do que a da galinha. Os zabelês, perdizes e macucos também eram caçados, notadamente pelos indígenas. Os grandes monos - que andavam em bandos e eram notados pelos rugidos que emitiam - dificilmente ficavam ao alcance de tiro, porque fugiam rapidamente pelas matas cerradas ante a aproximação dos homens. A pesca era elemento importante da alimentação dos ribeirinhos: praticamente toda fazenda no Jequitinhonha possuía um pesqueiro. Era comum o emprego do pari, uma armadilha feita de varetas trançadas, na forma de cesto, colocada nas pequenas quedas de água. A respeito desse modo de pescar, Saint-Hilaire não aprovou os efeitos futuros para a ictiofauna do rio, como se verá adiante.

Em todo o Médio Jequitinhonha, havia uma variedade de abelhas pretas grandes que faziam suas colméias nos troncos das árvores das matas. O mel por elas produzido era amargo, castanho-escuro, irritante. A cera era preta e mole, usada em archotes e emplastros.

Os habitantes da região também empregavam muitas plantas medicinais. Algumas delas estavam relacionadas com a tradição indígena; outras, os colonos, por analogia e semelhança com plantas conhecidas em Portugal e na Europa, transformavam em remédios. Dentre as chamadas plantas usuais, Saint-Hilaire anotou: gonu (usada nas febres e como purgativo), ipecacuanha, sambaíba, caapiá, cansanção, barbasco, centaurea, padre-salema e ana-pinta. O naturalista francês, além de considerar muito empirista e imperfeita a "matéria médica" brasileira, sugeriu que o governo do país faria obra de grande utilidade se, em cada província, mandasse examinar minuciosamente as plantas que os colonos usavam para aliviar seus males8.

O quadro natural diversificado do Médio Jequitinhonha, descrito com argúcia pelos naturalistas citados, encantou também autores como Leopoldo Pereira, J. Duarte e Eduardo Santos Maia, na virada do século XIX para o século XX. As paisagens, plantas e bichos que surgem na corografia de Leopoldo Pereira sobre o município de Araçuaí guardam forte continuidade com o passado. Não poderia ser diferente. Entretanto, Pereira assinala com tristeza o processo de diminuição dos bichos e a perda de muitos tipos de plantas. A caça aumentara significativamente, alcançando níveis além do necessário para a sobrevivência dos camponeses. Conforme J. Duarte, as caçadas viraram parte do trabalho dos lavradores, de modo que ficaram comuns as "batidas aos catitus" que estragavam mandiocais. Da mesma forma, os fazendeiros tiveram que sair decididos à caça das onças que atacavam o gado, pressionadas pela redução da área da mata. Ademais, matar onça pintada era, para o homem do Médio Jequitinhonha, fator de prestígio e de ganho econômico pela venda do couro do animal9. E o desmatamento tornara-se uma praga, por causa da expansão da pecuária na região. Assim, lontras, capivaras, antas, onças, macacos, diversas espécies de pássaros e cobras já rareavam nas margens dos rios Jequitinhonha e Araçuaí10.

Os viajantes e memorialistas das primeiras décadas do século XX fizeram relatos sobre o Médio Jequitinhonha nos quais se destaca a expansão da pecuária extensiva. Na zona dominada pelas chapadas e caatingas, na margem esquerda do rio, abrangendo localidades como Santo Antônio das Salinas (atual cidade de Salinas), Comercinho do Bruno (atual cidade de Comercinho) e Santa Rita (atual Medina), os criadores aproveitaram os barreiros salitrados e os pastos dilatados. Os rebanhos cresceram rapidamente, e deles se aproveitavam a carne e o couro11. Nas planícies cobertas de matas do extremo leste da região, grandes derrubadas, seguidas por queimadas, abriram pastos no entorno de Fortaleza (atual cidade de Pedra Azul), Salto Grande, Jacinto e Palestina (atual cidade de Jordânia), onde foram introduzidos, por iniciativa de fazendeiros locais, rebanhos de gado zebu na década de 1920. Essa onda de "colonização baiana", de 1890 a 1930, alcançou as matas do Pampã e do Rio São Mateus (no Espírito Santo), voltando-se para a fronteira com o Vale do Mucuri.

Conforme J. Duarte, a porção leste do Médio Jequitinhonha encheu-se de jagunços e tiroteios, de tropas que transitavam para a Bahia, de exploração feita pelos coronéis "da força e coragem dos ignorantes"12, de gente usando alpercatas e chapéus de couro, "de dias de morte e correrias, de tocaias e traições" (op. cit., p.200). Ao longo do curso do rio, os donos de boiadas faziam compras fiadas de Calhau até a Barra, enquanto surgiam arraiais, como o de Jacinto, em 1920, em parte decorrente das "lutas baianas", da chegada de "valentões escorraçados pela polícia do Estado vizinho" (op. cit., 174).

Acompanhando a expansão dos bois, vieram diversos tipos de capins exóticos, que ocuparam áreas imensas no Médio Jequitinhonha. Primeiro o capim-gordura, depois o tipo colonião - que entrou pela Bahia, no início do século XX, onde era conhecido como capim Guiné13 - e, mais recentemente, outros tipos como o braquiária. O gado e o capim contribuíram, portanto, para diminuir a diversidade de ervas, gramíneas, insetos, pássaros e pequenos mamíferos que caracterizava a região.

 

As serventias das águas: córregos e rios

No dia 7 de agosto de 1819, nas imediações do Ribeirão Tabatinga, do topo de uma serra cujo caminho de subida continha abundantes seixos de quartzo, Pohl avistou pela primeira vez o Rio Jequitinhonha. Então, escreveu:

Era o panorama do majestoso Rio Jequitinhonha, que vinha do sul e nos apresentava sua confluência com o Ribeirão Tabatinga. Era como um belo e pitoresco quadro o que aqui se estendia diante de nós. O grande rio, no meio do vale, com os seus inúmeros meandros, acompanhado de uma cordilheira de considerável altitude, que devia ficar afastada umas três léguas de nosso ponto de observação, oferecia um aspecto verdadeiramente imponente14.

O viajante austríaco, aproximando-se do rio, verificou que ele tinha, naquela oasião e lugar, a largura de uns 140 passos e profundidade de cerca de 70 centímetros. Porém, julgou que as margens cobertas até longe de areia e a ocorrência de seixos rolados de quartzo significavam que, na época das chuvas, o volume e a força do Jequitinhonha deveriam ser enormes. Dois anos antes, Saint-Hilaire teve as mesmas impressões e escreveu sobre o rio, poucas léguas a jusante da foz do Araçuaí, o seguinte:

Julgue-se do prazer que experimentei quando, fatigado de tanta monotonia, avistei um belo rio, o Jequitinhonha, cujas águas límpidas correm com lentidão e majestade. Suas margens, cobertas da mais fresca vegetação, contrastavam com as matas vizinhas despojadas de folhagem, e o que talvez não tivesse acontecido em nenhuma outra parte do mundo, tinha ao mesmo tempo sob os olhos a imagem do inverno e a dos dias mais deliciosos da primavera15.

O Jequitinhonha, nas proximidades da Vila do Fanado, corria um pouco mais apertado entre serras relativamente elevadas. Após receber o Rio Calhau, entretanto, seu leito largo avançava por planícies consideráveis, limitadas por colinas suaves e, mais distantes, montanhas que exibiam maciços de rochas negras. Na seca, o rio corria com lentidão e sem vagas. De vez em quando, rochedos de granito mostravam-se acima de suas águas, formando corredeiras. Essas corredeiras não chegavam a impedir a navegação de pequenas canoas.

O comércio no rio alcançara, já na época das viagens de Saint-Hilaire e Pohl, certa dimensão. De Belmonte, situada na foz oceânica do Jequitinhonha, subiam sal, vinho do porto e outros produtos nobres. Desciam o rio algodão e carne-seca. A navegação era possível até a altura de Tocoiós (atual cidade de Coronel Murta). De Tocoiós até São Miguel, percurso de 34 léguas, as canoas venciam as corredeiras sem a necessidade de serem descarregadas; de São Miguel até o mar havia três cachoeiras que obrigavam levar as cargas pelas margens - cachoeira do Inferno, de Salto Grande e Cachoeirinha. Na cachoeira de Salto Grande, cuja queda era de 200 palmos16 ou 17 metros17, as canoas também deviam seguir por terra. O trecho de São Miguel até Belmonte totalizava cerca de 76 léguas. Gastavam-se oito dias para ir de São Miguel a Belmonte, e dezoito a vinte dias para retornar de Belmonte a São Miguel. O Rio Araçuaí, por sua vez, podia ser alcançado por canoas, embora com dificuldades, até a altura da povoação de Água Suja (atual cidade de Berilo).

Os viajantes reconheceram a importância que a navegação no Rio Jequitinhonha representaria para o desenvolvimento do antigo Termo de Minas Novas, porque artigos europeus e sal, transportados pelo rio, poderiam chegar a São Miguel a preços bem mais baixos do que em Vila Rica. Por outro lado, a navegação no Jequitinhonha não poderia deixar de exercer o mais feliz dos influxos sobre a região, pois que facilitaria as comunicações com a Bahia, escoando para lá o algodão e a carne-seca produzidos pelos habitantes das povoações ribeirinhas.

As canoas grandes carregavam 50 alqueires de mercadoria e uma tripulação de três pessoas - um piloto e dois proeiros. As canoas mediam cerca de 5 metros de comprimento, 1 metro de largura e 70 centímetros de profundidade. Algumas possuíam pequenas cobertas, outras não. As fabricadas com tronco de ipê duravam muitos anos, o que não acontecia com aquelas feitas com o tronco da sapucaia, que prestavam apenas três ou quatro anos18. As canoas eram movidas por remos e grandes varas, que eram apoiadas nas pedras e no fundo do leito pelos canoeiros para empurrar a embarcação. Por isso, os canoeiros tinham no peito um grande calo, causado pelo apoio do pé da vara para calcar sobre ela. Nesse forcejar sempre constante e penoso, os canoeiros eram pagos à razão de 126.000 réis, no trecho São Miguel a Belmonte19.

As muitas ilhas do Jequitinhonha, utilizadas pelos canoeiros como pontos de parada e descanso, impressionaram os viajantes. Ilha da Laranja, do Pão, da Sapucaia, das Imburanas, Vigia, Panela, Derrubadas, Sucuriú, Raposo e do Poço. As praias, de extensas areias muito finas, também chamaram a atenção dos viajantes pela beleza. Praias Grande, Triângulo e Coroa da Melancia. Os estreitos, como o de Teixeira e São Simão, eram locais nos quais o Jequitinhonha rompia as serras, estreitando-se consideravelmente e, por conseguinte, adquirindo maior profundidade. Nos estreitos, as montanhas, cobertas de árvores cerradas, adiantavam-se quase até as margens do rio. Pohl descreveu o Estreito, na Serra do Teixeira, a jusante da desembocadura do Rio São João:

Jazem em confusão no leito do rio grandes blocos graníticos despedaçados, que formam estranhos grupos de rochedos, entre os quais a água serpeia espumando e murmurando. Não obstante o seu tamanho, de nove metros ou mais, são arredondados de todos os lados, prova da espantosa elevação das águas20.

Os rios e riachos serviam como fonte de água para os habitantes, suas lavouras e criações. Nos grotões, para irrigar as plantações e as hortas, os fazendeiros costumavam abrir pequenos sulcos na terra, que recolhiam água dos regatos por gravidade. Em Santa Cruz de Chapada, os moradores desciam até o Capivari, cerca de 560 passos, para apanhar água. Em seguida, tinham que subir pelo caminho íngreme até suas casas. Algo semelhante ocorria em Água Suja e na Vila do Fanado. As lavagens de ouro provocavam turbidez nas águas do Araçuaí, Capivari, Água Suja e Fanado, prejudicando ainda mais o abastecimento de água dos moradores na época da seca.

Na zona da caatinga, os alagadiços eram úteis para os tropeiros e viajantes. Nesses locais, se encontrava, mesmo nos meses de inverno, a água de que se necessita e uma erva mais ou menos fresca. Nesses alagadiços também se refugiavam aves aquáticas durante a estação seca. À medida que os meses corriam, essas águas paradas ficavam putrefatas por falta de movimento e renovação, gerando, conforme Pohl, febres intermitentes nos habitantes da região. As lagoas favoreciam ainda a criação de suínos. Segundo Pohl, os porcos eram deixados livres na lama dessas águas estagnadas, cresciam e se multiplicavam. À medida de suas necessidades, os proprietários apanhavam os porcos, engordavam os animais e abatiam-nos.

Muitas décadas depois das viagens de Saint-Hilaire e Pohl pelo Rio Jequitinhonha, mais precisamente no ano de 1905, Leopoldo Pereira, ex-Agente Executivo do vasto município de Araçuaí, assinalou o avanço do gado na região do Médio Jequitinhonha. Os rebanhos bovinos então passaram a usar crescentemente os regatos para dessedentação e substituíram os porcos nos alagadiços da caatinga, bem como nas pequenas lagoas formadas a pouca distância das margens do Jequitinhonha durante as chuvas. O referido autor também registrou a intensificação da navegação no Jequitinhonha e no Araçuaí, de modo que a antiga Calhau havia se tornado importante centro de distribuição de mercadorias que chegavam do litoral baiano, com a baldeação de cargas de canoas para tropas e vice-versa21.

O pior é que, já no início do século XX, a escassez de água no Médio Jequitinhonha tomara proporções assustadoras. O próprio Leopoldo Pereira tratou de fazer a denúncia. Segundo o autor, era fato:

que de 40 anos, e mais acentuadamente, de 20 anos a esta parte [1905], as águas do Norte de Minas têm diminuído de mais da metade. É convicção dos velhos residentes neste município que os próprios rios grandes e navegáveis, Jequitinhonha e Araçuaí, já não são volumosos como antigamente22.

Leopoldo Pereira discutiu longamente as mudanças nos regimes das chuvas, enfatizando sua diminuição a partir de 1870, e arrolou um número impressionante de córregos e mananciais que secaram na região do Médio Jequitinhonha. Saint-Hilaire previra que o uso constante do pari provocaria perda notável de peixes no Jequitinhonha e seus afluentes, uma vez que os espécimes eram capturados no momento em que subiam as correntezas para desovar, de maneira que "este gênero de armadilha (...) certamente seria proibido em um país em que fosse possível exercer alguma fiscalização"23. A propósito desse vaticínio do naturalista francês, J. Duarte observou, na década de 1920, que a situação já era, de fato, desastrosa para os grandes peixes típicos do Rio Jequitinhonha. Segundo o memorialista:

Na pesca, o crime [de destruição da natureza] ainda foi maior, a imprevidência mais revoltante: matando surubins na desova, deixando mais da metade da pescaria desumana aos urubus - por falta de sal, como se desculpavam - os pescadores do Jequitinhonha conseguiram, em quarenta anos, extinguir a espécie, revelando-se mais bárbaros, imprevidentes e muito mais perniciosos aos vindouros do que os selvagens que limitam suas pescarias às próprias necessidades24.

Se a piscosidade do grande rio diminuíra rapidamente no decorrer da primeira metade do século XX, ele permaneceu meio destacado de transporte e comunicação. Conforme Eduardo Frieiro, os pobres ainda viajavam de canoa pelo rio até a década de 1960. Segundo este autor, o passageiro recebia alimentação fornecida pelo canoeiro (feijoada tradicional, arroz, peixe pescado à noite) e dormia nas praias de areia, ao relento25. Porém, na altura da década de 1970, os surubins do Jequitinhonha haviam desaparecido por completo, a julgar pelo testemunho oferecido por J. Duarte (idem, p.30). Por outro lado, no correr do século passado, a turbidez das águas e o assoreamento do Rio Jequitinhonha aumentaram bastante, graças à mecanização do garimpo e às operações de empresas mineradoras nacionais e estrangeiras nos rios e córregos do Alto Jequitinhonha, no entorno de Diamantina26. As águas limpas, majestosas e calmas do rio, que à luz da lua enlevaram poetas como Eduardo Santos Maia, exibiram sinais crescentes de degradação.

 

A ocupação das terras e a exploração da natureza: ações do fogo, machado e enxada

Tanto Auguste de Saint-Hilaire quanto Johann Emanuel Pohl percorreram o Médio Jequitinhonha nos momentos iniciais de sua ocupação colonial. Tratava-se de área de fronteira, cuja abertura dependia da instalação de quartéis da 7.ª Divisão, comandados pelo Alferes Julião Fernandes Leão. Atrás das pequenas guarnições, que abriram estradas e fundaram quartéis e postos de registro e passagem sobre os rios, seguiram pouco a pouco colonos e escravos. A maioria dos moradores pioneiros era pobre e habitava, anteriormente, povoações do Termo de Minas Novas. Segundo Saint-Hilaire, em locais como São Miguel passaram a residir "indolentes artesãos, a quem ninguém queria confiar trabalho, e mulheres de má vida, que vivem com os militares do posto"27.

Nas margens do Jequitinhonha, o povoamento foi promovido por meio da chamada roça grande, que Pohl descreveu nos seguintes termos:

(...) O Governo isentou de impostos [por dez anos] esta extensa faixa de terra e permitiu a importação de produtos, pelo rio, com liberação de direitos. Cada colono recebeu meia milha quadrada ou meia légua de terra bem à margem do rio, e a autorização de ampliar à vontade a sua propriedade para o interior e cultivá-la28.

Surgiram, assim, muitas fazendas até Vigia, nas quais havia cultivos de milho, arroz, feijão, fumo, mamona, cana-de-açúcar e batata. O algodão era, entretanto, a atividade mais lucrativa, enquanto o gado praticamente não aparecia na zona das matas. Conforme Saint-Hilaire29, nessa área o milho rendia duzentos por um, a cana se desenvolvia admiravelmente bem e começava-se a plantar café. O algodão também rendia bastante: o espaço que se semeava com um alqueire de milho, rendia cento e vinte arrobas de algodão, sendo que três e meia arrobas desse algodão bruto davam uma arroba de algodão limpo (descaroçado).

Para plantar, os colonos derrubavam as matas e colocavam fogo no terreno. À medida que, pela ação do tempo, a fertilidade do solo decaía, o proprietário nada fazia para recuperar a terra. Simplesmente abandonava a pequena casa que edificara e se mudava para outro trecho do rio. Assim, as roças grandes se moviam, engolindo terras virgens. Tanto nas grandes propriedades quanto nas unidades camponesas, desmate e fogo iniciavam as lavouras e os pastos, técnica que era regionalmente conhecida como roça de toco. Ano após ano, os terrenos eram queimados antes do replantio, o que provocava a diminuição contínua da força da terra. Quando, finalmente, eram abandonados, esses terrenos calcinados, ressequidos e endurecidos terminavam cobertos de ervas daninhas e capins não aceitos pelo gado: "melão de São Caetano", "mata-pasto", "amargoso", "pião roxo" e "rabo de raposa"30.

Na zona das caatingas, em torno de Chapada, Calhau e São Domingos (atual cidade de Virgem da Lapa), área de ocupação mais antiga, realizada por colonos oriundos da porção oriental do Termo de Minas Novas, a principal atividade era a cultura de algodão e a fabricação de panos grossos, ambos os produtos exportados para o Rio de Janeiro. Aí, um alqueire de terra rendia, anualmente, 200 arrobas de algodão em caroço, que produziam cerca de 54 arrobas de algodão limpo (31.000 réis eram, então, o preço da arroba de algodão limpo)31. O algodão dava boas safras por seis anos completos. Após esse tempo, as ervas suplantavam o algodão, obrigando o colono a fazer nova plantação. Também eram plantados o milho e o feijão, e, na margem dos regatos, podia-se plantar arroz32. Porém, as estiagens prolongadas, muito freqüentes, prejudicavam bastante as colheitas desses produtos. O algodão sofria menos. A caatinga, portanto, estava sendo derrubada em longos trechos para o cultivo de algodoeiros.

Na caatinga e na mata, os algodoeiros eram plantados sem a menor ordem. Restavam arbustos e grandes ervas entre eles, abafando a lavoura e dificultando a colheita. Muitas vezes, o algodão era consorciado com o milho. A semeadura ocorria a partir de outubro. A plantação de algodão sofria uma limpa anual, com o uso da foice; a colheita iniciava-se em maio, e durava até três meses. Havia muitas perdas na colheita, porque muitos capulhos caíam no chão, ficando imprestáveis. Saint-Hilaire criticou a falta de técnica dos cultivadores de algodão no Médio Jequitinhonha.

A produção de mantimentos, que ocorria nas grotas, provocava a destruição das matas vizinhas aos cursos de água. Saint-Hilaire observou que o desmatamento também era motivado por simples capricho dos colonos. Uma vez derrubadas, as matas primitivas cediam espaço para capoeiras. E, como não se fazia uso de qualquer adubo, a terra acabava por se fatigar. Perto de Chapada, o naturalista francês visitou a roça do cura do povoado, descrevendo-a como segue:

Em um valão geralmente muito estreito, em que corre um regato, escolhera um local em que as montanhas, menos aproximadas, deixam entre si um espaço perfeitamente plano e de forma mais ou menos oval. Em torno desse espaço, o proprietário plantara laranjeiras e bananeiras; um fosso, donde anteriormente se extraía ouro, tornara-se um viveiro; o terreno estava coberto de arroz e legumes cultivados cuidadosamente (...); o córrego, enfim, fornecia água para regar os legumes, e servia para defender as plantas tenras dos estragos das grandes formigas. Arbustos semelhantes aos dos nossos bosques cultivados cobriam os morros que rodeavam esse horto; em seus flancos pastavam vacas, que davam excelente leite; na base dos morros havia uma humilde choupana33.

A descrição retrata as pequenas propriedades camponesas que ainda hoje existem na região de Minas Novas e Araçuaí, cuja economia combina a agricultura nas grotas e a pecuária à larga nas chapadas34.

No decurso do século XIX e início do século XX, o Médio Jequitinhonha experimentou muitos surtos breves de progresso, graças a atividades econômicas diversas. A mineração de pedras preciosas irrigou de dinheiro áreas ao sul (vales dos rios Araçuaí, Piauí e Setúbal) e ao leste (Fortaleza). A extração de poaia e madeira também produziu fortunas, nas porções orientais do Vale do Jequitinhonha. O café também gerou espasmos de alta, penetrando no entorno de Gravatá (atual cidade de Novo Cruzeiro), a partir de Filadélfia (atual Teófilo Otoni). Por sua vez, muitas povoações, descritas pelos naturalistas estrangeiros como vilas pobres e pioneiras, cresceram. Tornaram-se cidades com mais de 5 mil habitantes, nos fins do Oitocentos e começos do XX. Cidades que viviam para si e mantinham sólidas relações de trocas miúdas com imenso entorno rural, vendendo manufaturas e ofertando ofícios artesanais.

A colonização "baiana" das porções orientais do Médio Jequitinhonha, a julgar pelos relatos de J. Duarte, preservou intacto o sistema de rodízio analisado por Saint-Hilaire. Segundo Duarte, "as roças primitivas, abertas a machado e a fogo, destinadas aos catitus e a sobra aos donos fatalistas por preguiça" ocuparam crescentemente as imediações dos rios, ao mesmo tempo em que avançava "faina destruidora de derrubar mato e plantar capim"35. A expansão da "lavoura de toco" e da produção continuou errante e extrativista, impondo migrações para as zonas férteis e o sistema de único herdeiro das terras36. A pecuária, como já ressaltado anteriormente, possuía imensa fome de terras virgens no Médio Jequitinhonha37.

Quase noventa anos depois de Saint-Hilaire ter criticado os métodos dos fazendeiros do Jequitinhonha, Leopoldo Pereira identificou na prática continuada do sistema de rodízio, pelo qual as matas primitivas eram queimadas para dar origem a terrenos de lavoura ou a pastagens, a causa principal das mudanças na paisagem do médio curso do rio. O trabalho combinado do fogo e do machado levou esse autor a escrever - após constatar que as matas virgens na região, em 1905, estavam reduzidas a menos de um décimo do que eram em 1850 - que "o machado do lavrador e o fogo das queimadas estão esterilizando o Norte de Minas"38. Ele apontou, ainda, as conseqüências dessas mudanças ambientais para as próprias populações da região. A erosão e o ressecamento do solo, bem como as alterações na distribuição das chuvas, provocavam perdas expressivas de lavouras, falta de pasto para o gado, carestias freqüentes dos gêneros alimentícios e emigração da população. Esses fenômenos atingiram tons dramáticos nas grandes secas das décadas de 1890 e de 1900. Tanto Pereira como J. Duarte referiram-se ao ano de 1890 como tempo em que as pessoas morreram de fome por falta de mantimentos, de dinheiro e lugar para buscar alimentação39.

Noutros termos, as ações do homem agravaram os efeitos do ciclo de secas no Norte de Minas, e particularmente no Vale do Jequitinhonha. Para se ter idéia disso, pode-se recorrer aos jornais e memorialistas de Diamantina, cidade do Alto Jequitinhonha que recebia grande número de flagelados. Conforme Ciro Arno, no início do ano de 1890, houve no Norte de Minas extraordinária carestia de víveres, produzida por longa estiagem. "O Governo Provisório, diante da escassez de alimentos, providenciou remessa de víveres para as zonas flageladas e mandou estabelecer cozinhas públicas nas cidades, que forneciam comida aos necessitados"40. Diamantina foi uma das cidades que concentrou esse esforço de ajuda humanitária. A respeito desse episódio, Helena Morley, no dia 21 de junho de 1893, escreveu em seu famoso diário:

Nunca nada me impressionou tanto como a fome daquele ano. Lembro-me até hoje das velas que mamãe acendia no oratório, pedindo a Deus que mandasse chuva. Não havia nada na cidade [de Diamantina] para se comprar. Os negociantes punham gente nas estradas para cercar os tropeiros para comprar o pouco que eles traziam e vender pelo dobro ou triplo. Quem tinha pouco dinheiro passava fome. Cada dia tudo subia mais. Chegavam todo o dia notícias de gente morta na redondeza41.

Em maio de 1906, o jornal diamantinense A Idéa Nova publicou longo artigo sobre a desertificação do norte-nordeste mineiro, denunciando sua aceleração pelo desmatamento e pelas queimadas. Para enfrentar o problema, os redatores do periódico enfatizaram a educação técnica, para melhor utilização do solo:

O necessário, o inadiável é, portanto, o estabelecimento de pequenas escolas agrícolas naqueles municípios, pelo menos, mais ao alcance das secas, ficando o ensino a cargo de professores ambulantes, alheios à política quanto à nomeação e ao exercício, funcionários de imediata confiança do governo, encarregados de instruir experimentalmente o lavrador sobre a constituição do solo (A Idea Nova, 06/05/1906. Biblioteca Antônio Torres. IPHAN-Diamantina)42.

O poeta baiano Eduardo Santos Maia, habitante de Belmonte, ao visitar Vigia e São Miguel, no ano de 1918, observou com perspicácia que os distritos e cidades da região dependiam do campo para o abastecimento, que era mediado por relações de parentesco, compadrio e amizade. Porém, qualquer desequilíbrio na relação com a natureza poderia significar crises de fome43.

Não resta dúvida de que a marcha da ocupação e da exploração econômica do Médio Jequitinhonha trouxe consigo formas agudas de degradação ambiental. Porém, a velocidade dessa degradação não foi uniforme durante o período em tela. Ela aumentou muito no decorrer do século XX, de maneira que, nos anos 1950 e 1960, a situação ambiental da região já se mostrava crítica. Até os anos 1920, áreas consideráveis do Vale do Jequitinhonha permaneciam florestadas e dotadas de águas limpas e abundantes, como revela o relatório escrito pelo Delegado Geral do Recenseamento de 1920, no Estado de Minas Gerais, Dr. Mário Augusto Teixeira de Freitas44. Segundo ele, as maiores dificuldades enfrentadas pela campanha censitária surgiram nos vales dos rios Doce, Jequitinhonha e Mucuri, porque, nessas áreas, "os surtos de sezões (...) e a ação do feroz banditismo sertanejo" prejudicaram os trabalhos de campo, bem como as estações chuvosas tornaram "invadeáveis os rios" e a presença de tribos indígenas limitaram a mobilidade dos recenseadores. Assim, conforme o Dr. Mário Teixeira de Freitas, a "confirmação dolorosa da verdadeira epopéia de civismo que foi a conduta dos recenseadores" estava na contagem "em Minas [de] não poucas cruzes marcando humildes sepulturas de mártires da causa censitária"45. Restava, em partes do Médio Jequitinhonha, a matava virgem de folhagens espessas, enfeitada de paus d'arco e sapucaias, repleta de perigos - feras, serpentes, insetos transmissores de febres e índios bravos - que havia sido descrita pelos naturalistas do início do século XIX. A Natureza estava em recuo, mas a Civilização não havia ainda subjugado todo espaço no Nordeste mineiro.

Todavia, as mudanças estruturais dos mercados nacional e internacional de alimentos, particularmente da carne, que tiveram na Primeira Guerra Mundial marco evidente, aceleraram a expansão da pecuária na região. Até os anos 1920, os fazendeiros do Médio Jequitinhonha viviam acomodados na criação de bois crioulos ou pés-duros, oriundos das velhas raças portuguesas (Barrosa, Mirandeza, Arouqueza e Turina), rebanhos deixados à larga, rústicos e resistentes, mas sem qualidades de peso, rendimento e precosidade. Vendiam esse gado para a zona cacaueira baiana, em transações sem dinheiro à vista, rotineiras, de pouca monta e prazos longos. Tanto que, antes da Guerra, o boi gordo era vendido na região por preço ínfimo: 80 a 85 mil réis por cabeça. Mas tudo mudou depressa após a Guerra. O mercado de carne adquiriu dinamismo, os preços aumentaram bastante, estimulando os fazendeiros da região a melhorar seus rebanhos e produtividade, bem como expandir as áreas de pastos. Assim, a partir da década de 1920, criadores de Fortaleza, Jequitinhonha, Vigia e Salto Grande introduziram o colonião nos novos pastos e raças indianas nas fazendas (Gir, Nelore e Indubrasil). As vastidões de capim, expandidas na base do fogo, machado e foice, consumiram proporções enormes das matas que ainda restavam na região. O Médio Jequitinhonha cobriu-se, então, anualmente, de cada vez mais densa bruma seca46.

 

Considerações finais

A leitura atenta dos viajantes naturalistas do século XIX e dos memorialistas e viajantes brasileiros dos séculos XIX e XX fornece informações preciosas sobre o ambiente, e os processos de degradação ambiental, na região do Médio Jequitinhonha. O que salta à vista, em primeiro lugar, é a diversidade das paisagens regionais, a elevada biodiversidade e a riqueza dos recursos naturais. De John Mawe a Eduardo Santos Maia, todos os viajantes ficaram muito impressionados com o ambiente regional.

Entretanto, todos os viajantes e memorialistas observaram a contínua agressão ao ambiente regional promovida, primeiro, pelos colonos oriundos das povoações da parte ocidental do antigo Termo de Minas Novas. E, depois, pelas levas de "baianos" que conquistaram as matas do Pampã e do São Mateus. A mineração assoreou riachos e rios, aumentando a turbidez das águas. A agricultura, que utilizava a técnica do chamado "sistema de rodízio" - na qual desmate e fogo eram decisivos - agrediu fortemente a caatinga e as matas densas. A pecuária também prejudicou os solos e diminuiu a biodiversidade, na medida em que queimou e derrubou caatingas e matas, bem como introduziu pastos imensos cobertos por capins exóticos.

Os viajantes e memorialistas que escreveram sobre o Médio Jequitinhonha nos séculos XIX e XX ajudam a compreender os estreitos limites ambientais da sociedade que se formou no Nordeste de Minas Gerais. Uma sociedade cujo sistema produtivo era insustentável, predador e extrativista, capaz de se reproduzir somente enquanto houvesse fronteira agrícola aberta. Secas ligeiramente mais fortes ou chuvas mais intensas e continuadas colocavam em risco a produção de mantimentos. Invasão de animais na lavoura ou erros de cálculo do plantador poderiam lançar os moradores na precisão. O principal era o fato de que, sem terras virgens, de grande fertilidade, que pudessem ser incorporadas quando as terras lavradas mostrassem sinais de esgotamento, os sítios, as fazendas, os povoados e as cidades do Médio Jequitinhonha dificilmente sobreviveriam.

Tanto os viajantes estrangeiros quanto os memorialistas brasileiros, ao insistirem nas críticas sobre o modo de fazer agricultura e pecuária dos habitantes do Médio Jequitinhonha, qualificando-os de imprevidentes, destruidores e preguiçosos, mostraram-se incapazes de compreender que o "sistema de rodízio" e o extrativismo constituíram bases da sociedade regional, na medida em que eram o repertório técnico possível naquelas condições de fronteira aberta, existência de matas e relativa falta de capitais47.

É possível que as transformações ambientais, observadas quando são confrontados os textos dos viajantes do início do século XIX com os daqueles que percorreram a região no começo do século XX, tenham gerado a tendência para a pecuarização da economia do Médio Vale do Jequitinhonha. Isso porque as mudanças no regime das chuvas e a progressiva redução das áreas cultiváveis em razão do manejo inadequado do solo e das matas tornaram muito limitada a produtividade agrícola. Dessa forma, talvez se possa falar que a economia do Vale do Jequitinhonha foi (e ainda é) cada vez mais regida pelo seu perfil ambiental, forjado no século XIX.

 

 

Artigo recebido em: junho/2008.

 

 

1 ROCHA, José Joaquim da. Geografia histórica da Capitania de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1995. p.132.         [ Links ]
2 BERTRAND, Georges. Paisagem e geografia física global: esboço metodológico. Cadernos de Ciências da Terra, Instituto de Geografia da USP, n. 13, 1971. p.2.         [ Links ]
3 POHL, Johann Emanuel. Viagem no interior do Brasil. Trad. De Milton Amado e Eugênio Amado. BeloHorizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976. p.331-332.         [ Links ]
4 J. DUARTE. O fogo e o boi. Belo Horizonte: Comunicação, 1976. p.18.         [ Links ]
5 Conforme POHL, op. cit., na zona das chapadas da porção oriental do Termo de Minas Novas, as temperaturas durante o dia chegavam a alcançar 30 graus e, na madrugada, costumavam cair para 3 ou 4 graus, na estação seca. Ver p.325 e ss.
6 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Trad. Vivaldi Moreira. Belo Horizonte: Itatiaia, 2000. p.239-240.         [ Links ]
7 J. DUARTE. Vultos sem história. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1972. p.254.         [ Links ]
8 SAINT-HILAIRE, op. cit., p.228.
9 J. DUARTE. Vultos sem história, p.181.
10 PEREIRA, Leopoldo. O Município de Araçuaí. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1969.         [ Links ]
11 Ver PEREIRA, op. cit. e J. DUARTE, 1972.
12 J. DUARTE. Vultos sem história, p.173.
13 J. DUARTE, O fogo e o boi, p.55.
14 POHL, op. cit., p.327.
15 SAINT-HILAIRE, op. cit., p.240.
16 SAINT-HILAIRE, op. cit., p.260.
17 POHL, op. cit., p.350-351.
18 J. DUARTE. Vultos sem história, p.254.
19 Conforme PEREIRA, op. cit.: SAINT-HILAIRE, op. cit.
20 POHL, op. cit., p.340.
21 Ver PEREIRA, op. cit.
22 PEREIRA, op. cit., p.42.
23 SAINT-HILAIRE, op. cit., p.297.
24 J. DUARTE. O fogo e o boi, p.48.
25 FRIEIRO, Eduardo. Feijão, angu e couve: ensaio sobre a comida dos mineiros. Belo Horizonte: Centro de Estudos Mineiros/UFMG, 1966.         [ Links ]
26 MARTINS, Marcos Lobato. Identidades sociais e ação coletiva: o caso dos garimpeiros da microrregião de Diamantina. Belo Horizonte: FAFICH/UFMG, 1997. (Dissertação de mestrado)         [ Links ]
27 SAINT-HILAIRE, op. cit., p.249.
28 POHL, op. cit., p.335.
29 SAINT-HILAIRE, op. cit., p.262.
30 J. DUARTE. O fogo e o boi, p.33 e 67.
31 Os preços são indicados por Pohl. Para se ter idéia da rentabilidade monetária do algodão, Pohl informou que um escravo custava, na região, cerca de 720 g de ouro, enquanto a arroba de algodão em caroço valia aproximadamente 1,8 g de ouro. Logo, um alqueire de terra planatado com algodão rendia 362 g de ouro (POHL, op. cit., p.335).
32 SAINT-HILAIRE, op. cit., afirmava que os grãos na caatinga eram menores, o mesmo ocorrendo com o rendimento das plantas (p.242-243).
33 SAINT-HILAIRE, op. cit., p.226.
34 Ver RIBEIRO, Eduardo Magalhães. Lembranças da terra: histórias do Mucuri e Jequitinhonha. Belo Horizonte: Segrac, 1996.         [ Links ]
35 J. DUARTE. Vultos sem história, p.230.
36 Devido à impossibilidade de parcelar terrenos e encurtar pousios, ocorria a exclusão sistemática, cultural, de parte dos herdeiros de uma propriedade. O sistema não necessariamente beneficiava apenas o primogênito e não valeu somente para camponeses, pois existiu também nas fazendas.
37 Ver PEREIRA, op. cit.; J. DUARTE, op. cit.
38 PEREIRA, op. cit., p.56.
39 Outra seca terrível que assolou a região ocorreu em 1930. Na zona da caatinga, lavouras foram inteiramente liquidadas e os habitantes passaram cerca de quatro meses comendo apenas milho com sal. Cf RIBEIRO, op. cit.
40 ARNO, Ciro. Memórias de um estudante. 2. ed. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpia, 1949. p.20.         [ Links ]
41 MORLEY, 1988:43.
42 Agradeço ao colega James William Goodwin Jr., do CEFET-MG, pela indicação dessa referência.
43 Ver MAIA, 1936.
44 IBGE. Conselho Nacional de Estatística. Serviço Nacional de Recenseamento. O Recenseamento de 1920 em Minas Gerais. Documentos Censitários. Série B. N. 2. Rio de Janeiro, 1951.         [ Links ]
45 Agradeço ao colega Marcos Antônio Nunes, do IGA-MG, pela lembrança desse documento.
46 Nome regional dado à fumaça dos incêndios ateados nas matas, caatingas e campos de pastagens. A descrição dos incêndios e da bruma seca no Vale do Jequitinhonha está em J. DUARTE. O fogo e o boi, p.47-72.
47 Interessante anotar que colonos europeus, diante do mesmo ambiente e situação no Vale do Mucuri, usaram os mesmos métodos extrativos de exploração que o roceiro do Jequitinhonha, e chegaram aos mesmos resultados.

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