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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.25 no.42 Belo Horizonte July/Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752009000200013 

ARTIGOS

 

Da utilidade e desvantagem da história para Hayden White

 

On the usefulness and disadvantages of history for Hayden White*

 

 

Ricardo Marques de Mello

Doutorando em História na Universidade de Brasília, Bolsista do CNPq, Pós-Graduação em História, ICC Norte A, 648/1., Subsolo., Universidade de Brasília. Cep: 70910-900 Brasília - DF, ricardo.mm@hotmail.com

 

 


RESUMO

Neste artigo apresenta-se a perspectiva do historiador e teórico da história, e a da literatura de Hayden White a respeito das utilidades e desvantagens que a história pode ter, por meio da historiografia, ao mundo contemporâneo, a partir de uma análise predominantemente interna de suas obras. Observa-se que a idéia norteadora do autor de Metahistory consiste em argumentar a favor da limitação epistêmica na construção do significado do discurso produzido pelos historiadores, o que possibilitaria o uso da história para auxiliar os homens do presente na resolução de determinados problemas.

Palavras-chave: historiografia, Hayden White, teoria da história.


ABSTRACT

This article investigated the perspective of the historian and literary theorist and historiographic Hayden White about the utilities and disadvantages that history can have the contemporary world through the historiography - from a predominantly internal analysis of his works. It was observed that the guiding idea of the author of Metahistory is to argue in favour of limiting epistemic of the speech produced by historians, which would allow the use of history to help the men of this in the resolution of certain problems.

Key words: historiography, Hayden White, theory of history.


 

 

Somente na medida em que a história serve à vida queremos servi-laFriedrich Nietzsche

Hayden White nasceu em 1928, nos EUATornou-se bacharel em História pela Wayne State University, em 1951; Máster e PhD em História pela University of Michigan, em 1956, e pela Universidade de Roma, 1953-1955; doutor Honoris Causa em Letras pela University of Michigan; professor Emeritus em History of Consciousness, na University of California, Santa Cruz. É especialista em História Cultural da Europa Moderna, Filosofia da História, Teoria Literária, Teoria Social e História da LiteraturaAtualmente é professor de Comparative Literature na Stanford University1 Sua carreira acadêmica inclui várias participações como professor visitante em universidades européias, sobretudo na Itália, Polônia e França. É autor de uma vasta produção intelectual, que inclui, por exemplo, trabalhos sobre GVico,2 B. Croce,3 N. Frye,4 M. Foucault;5 sobre historiografia e teoria literária;6 e um número considerável de textos referentes ao estatuto do conhecimento histórico. White teve, portanto, um percurso intelectual marcado pelo trânsito em mais de um domínio específicoPode-se considerar que grande parte de seus estudos concentram-se em três áreas: história (com ênfase em teoria e história intelectual), literatura (com destaque para teoria literária) e filosofia (com ênfase em filosofia da história). Em suas teses imiscuem-se proposições teóricas de matriz literária, historiográfica e filosóficaE parece ser precisamente no modo como ele estabeleceu relações entre esses três campos do saber que provieram grande parte das críticas destinadas às suas idéiasSem dúvida, White pode ser considerado um dos teóricos mais controversos dos últimos trinta anos.

Autores como Frank Ankersmit,7 Chris Lorenz,8 Keith Jenkins,9 Paul Ricoeur,10 Roger Chartier,11 Dominick La Capra,12 Arnaldo Momigliano,13 Carlo Ginzburg,14 David Harlan,15 Lloyd Kramer,16 entre outros, travaram um ativo diálogo, seja a favor de alguns aspectos da teoria do discurso historiográfico de Hayden White e sua conseqüência ética para o conhecimento histórico, seja contrário a elaDuas das mais importantes revistas de teoria da história no cenário mundial – History and Theory17 e Storia della Storiografia18 – já dedicaram edições inteiras a artigos cujos temas estavam relacionados às proposições de White.

Embora suas obras tenham sido comentadas sob ângulos muito diversos entre si, há alguns aspectos que receberam maior atenção do que outros e motivaram um número significativo de intelectuais a se sentirem incomodados ou estimulados a se manifestarem. Em linhas gerais, pode-se organizar as objeções direcionadas a White em três grandes frentes. A primeira diz respeito à relação que ele estabelece entre historiografia e literatura, mais especificamente, entre os discursos historiográficos e os textos ficcionais.19Ao ressaltar as semelhanças entre relato histórico e ficcional, White afirma que há, em ambos, um mesmo movimento de estruturação do discurso. Tal operação realiza-se ao se organizar os dados dispersos em uma forma de narrativa reconhecida entre autor e leitor. Nesse caso, pouco importa se os dados mediante os quais o texto é estruturado são reais ou imaginados: a forma de dar-lhes sentido é a mesma. Os dois valem-se de modelos de organização que, de certo modo, direcionam a construção do significado no relato. Hayden White, como formalista, enfatiza a estrutura por meio da qual o discurso é composto. A segunda frente refere-se à relação entre historiografia e filosofia da história. A diferenciação tradicional entre elas argüia que a primeira consistia em uma modalidade científica, preocupada em investigar o passado mediante regras metodológicas passíveis de comprovação empírica, ao passo que a segunda buscaria estabelecer o sentido da história no seu acontecer, de modo pré-conceitual, elaborando seu discurso em busca das "leis" que governariam a história da humanidade como um todo de maneira meta-física. A tese de White, entretanto, minimiza as diferenças entre as duas modalidades de conhecimento sobre a história e afirma que a distinção entre o que faz o historiador e o filósofo da história não é de tipo, mas de grau. Em outros termos, ambos se valem de "estruturas pré-concebidas" em seus relatos, mas enquanto o filósofo da história enfatiza e expõe manifestadamente sua filiação a alguma "teoria geral", facilmente identificável na superfície de seu texto, o historiador desloca o elemento meta-físico/meta-histórico para o interior de sua narrativa. A terceira e última frente diz respeito à concepção de ciência presente nos escritos de Hayden White. A estratégia utilizada, nesse caso, foi diversa: se o autor de Metahistory aproximou relato histórico do ficcional, por um lado, e historiografia e filosofia da história, por outro, com respeito à relação entre historiografia e ciência, White buscou as diferenças entre elas, ao ponto de excluir o ofício dos historiadores do rol das disciplinas acadêmicas tidas por científicas. Os argumentos mediante os quais ele procurou sustentar sua tese foram estruturados a partir de duas ausências no discurso historiográfico: uma linguagem técnica e um método convencionalmente aceito como apropriado entre seus praticantes.

De modo geral, Hayden White interpreta o discurso historiográfico como uma modalidade verbal em prosa cujo objetivo é transformar as fontes dispersas e desorganizadas do passado em uma narrativa com começo, meio e fim, com coesão e coerência e dotada de certo significado a um leitor do presente: transformar o não-familiar em familiar. Todavia, de acordo com ele, as fontes do passado não trazem inscritas em si o modo por meio do qual o historiador deve organizá-las, relacioná-las e, por conseguinte, caracterizar e explicar o evento com o qual ele se ocupa: elas têm valor neutro, são amorfas. Além disso, não há um método consensualmente aceito como o mais adequado entre os praticantes do ofício, tampouco uma linguagem técnica na qual o esforço da pesquisa possa ser transparentemente concretizado. Por isso, a historiografia está sujeita a interferências extra-epistêmicas na elaboração e apresentação de seus resultados e, sobretudo, à figuração discursiva, elemento característico dos discursos que se valem da linguagem natural ou ordinária. Sendo assim, o significado de um objeto investigado é antes uma construção do que uma descoberta.

Com isso, White desloca o valor comumente atribuído às fontes no discurso historiográfico, transferindo-o à escolha do formato figurativo ou trópico mediante o qual a organização verbal e a explicação da narração será efetuada: não é o corpus de análise do historiador que determina a estruturação de seu discurso e seu significado, mas, antes, a presença de elementos extra-epistêmicos, sobretudo éticos e estéticos.20 Diferentemente das disciplinas tidas por científicas, em que há possibilidades de dirimir eventuais litígios cognitivos por meio de uma apreciação da linguagem técnica usada e da aplicação de um método, a historiografia estaria cativa da linguagem natural, a qual efetua, necessariamente, um movimento figurativo na organização dos dados dispersos em um relato inteligível, e da imiscuidade de elementos extra-epistêmicos na aplicação de um método. Embora aceite que uma narrativa historiográfica possa conter afirmações verdadeiras, bastando comparar os enunciados do texto com o material empírico que lhe viabilizou, White nega a possibilidade de verdade no significado da narrativa compreendida como um todoA presença ou não de enunciados verdadeiros estaria relacionada à verificabilidade; o significado, no entanto, não estaria sujeito a nenhum mecanismo objetivo de referenciação: as mesmas fontes possibilitariam discursos muito diferentes entre si, senão opostos.

Menos pesquisada, porém, tão relevante quanto às três frentes nas quais giraram os debates a respeito das proposições whiteanas, é a questão relacionada às utilidades21 e desvantagens do conhecimento produzido pelos historiadoresNela perpassa uma idéia presente de modo difuso e descentralizado nas obras do estadunidense: a de que a historiografia pode exercer tal ou qual utilidade porque sua condição cognitiva possui tais e quais característicasOu, especificamente: dada a limitação epistêmica de seu ofício, o historiador deve adotar uma postura que auxilie os homens do presente na resolução de seus problemas por intermédio da história: é o passado em função do presenteTal questão, portanto, parece cristalizar, por assim dizer, a posição ética, epistêmica e estética do autor de Metahistory em relação ao que fazem (ou deveriam fazer) os historiadores quando fazem historiografia.

 

O caráter construtivista da arte e ciência contemporâneas

A fim de acompanhar a emergência e formação das proposições de White acerca das utilidades e desvantagens do conhecimento histórico, parece pertinente ter como ponto de partida o polêmico ensaio The Burden of History,22 publicado em 1966, no qual ele acusa os historiadores hodiernos de valerem-se de uma "tática fabiana" para resguardar a historiografia em uma posição intermediária, entre arte e ciênciaTal tática consistiria em situar o conhecimento histórico entre arte e ciência e na medida em que fosse questionado pelos cientistas sociais dada a "amenidade do método", ou pela "rudeza do sistema de metáforas empregado", o historiador poderia defender-se argumentando que a historiografia não é uma "ciência pura", que ela depende "tanto de métodos intuitivos quanto analíticos". Ao ser, por outro lado, questionado, por literatos, quanto à capacidade de usar "modos contemporâneos de representação artística", o historiador se defenderia ao afirmar, por exemplo, que as narrativas nas quais ele materializa seu trabalho são exigências da "natureza da própria matéria histórica", isto é, de suas fontes, e não uma escolha do próprio historiadorAssim sendo, a historiografia estaria localiza entre arte e ciência, compartilharia certas características de ambas, faria o diálogo entre as duas, mas não poderia ser enquadrada em nenhuma delas.

Essa estratégia de defesa teria sido útil em um dado momento: o século XIX. No século XX, porém, ela deveria ser questionada, sobretudo por que a ciência e a arte cuja historiografia seria mediadora diziam respeito ao positivismo científico e ao realismo literário oitocentistas.

Esse plano médio supostamente neutro entre arte e ciência que muitos historiadores do século XIX ocuparam com tanta autoconfiança e orgulho de posse foi dissolvido com a descoberta do caráter construtivista comum tanto das afirmações artísticas quanto das científicas. A maioria dos pensadores contemporâneos não concorda com a suposição do historiador convencional de que arte e ciência são maneiras essencialmente distintas de compreender o mundo.23

Destarte, em vez de espelhar/refletir certa realidade, artistas e cientistas contemporâneos teriam reconhecido que em certa medida eles a constroem, a criamEmbora os historiadores continuassem a situar o conhecimento produzido por eles entre arte e ciência, de acordo com White, fazem-no tendo em mente conceitos há muito abandonados, fundados antes nas diferenças entre arte e ciência do que nas semelhançasUma compreensão mais recente das operações pelas quais "o artista expressa sua visão de mundo e o cientista exprime suas hipóteses"24 demonstraria a presença do elemento construtivista em qualquer tentativa de apreensão da realidade, incluindo o conhecimento historiográfico. A crítica deferida por White à cultura historiográfica contemporânea – a qual resiste em aceitar as proposições atuais a respeito da natureza das operações artísticas e científicas – parece residir, precisamente, não na posição ocupada pelo conhecimento histórico, entre duas formas de compreender o mundo, mas por situarem a historiografia em uma posição mediadora, desconsiderando o elemento que as une, o caráter construtivista.

 

O estudo do passado como um fim em si

Juntamente com a relutância em assumir a presença construtivista no resultado de suas pesquisas e, portanto, ancorar-se em uma pretensa busca por aquilo que realmente ocorreu, White compreende que parte dos historiadores atuais procuram afastar de seu ofício possíveis influências do tempo presenteTêm como princípio ético estudar o passado pelo passado, de modo desinteressado pelas questões atuais para evitar, assim, o risco de incorrer em anacronismos ou ideologizaçõesEssa consciência histórica aproxima-se, sugere White, do aspecto negativo do antiquário de Nietzsche: "em excesso, essa atitude (...) atribui valor especial a tudo o que é velho, justamente por ser velho, e inspira um sentimento de desconfiança por tudo o que é novo ou se afasta do convencional"25 Por meio do modo antiquário, o respeito é orientado ao passado e se "opõe à necessidade ou ao desejo presente". Essa consciência histórica renega as necessidades do presente do historiador e gera um tipo de conhecimento descomprometido, cuja valorização do passado ocorre em prejuízo do presente, e para o qual, como escreveu Nietzsche, "a ampliação do conhecimento é a própria meta".26 A historiografia que pratica um tipo de produção desinteressada pelo presente, com a justificativa de que se não for assim o passado será traído, é severamente combatida por Nietzsche e desencorajada por White,

para alguém que é sensível à diferença radical do nosso presente a todas as situações passadas, o estudo do passado 'como um fim em si' só pode parecer uma forma de obstrucionismo insensato, uma oposição intencional à tentativa de entrar em contato com o mundo atual em toda a sua estranheza e mistérioNo mundo em que vivemos diariamente, alguém que estuda o passado como um fim em si deve parecer ou um antiquário, que foge dos problemas do presente a um passado puramente pessoal, ou uma espécie de necrófilo cultural, isto é, alguém que encontra nos mortos e moribundos um valor que jamais poderá encontrar nos vivos.27

Tanto a resistência em aceitar o caráter construtivista presente na historiografia quanto à consciência histórica que investiga o passado pelo passado, com um fim em si, têm como base o mesmo pressuposto: a necessidade de verdade. A crença na qual o historiador deve descobrir a verdade dos eventos pretéritos e ater-se à honestidade intelectual, eximindo-se, simultaneamente, de qualquer intervenção criadora, construtora, sob pena de ser infiel ao que realmente aconteceu, e da intromissão de motivações presentes em pesquisas focadas em eventos do passado, sob pena de tornar-se um ideólogo. A necessidade de verdade é o pressuposto comum a ambas as posturas, presentes em produções historiográficas contemporâneasEmbora Hayden White tenha reconhecido, em textos mais recentes, que a historiografia aceita, de certo modo, o caráter construtivista do seu relato e, simultaneamente, admite a influência de interesses do presente na elaboração de pesquisas cujo foco é o passado, ele pretende aprofundar a relação presente/passado e especificar o caráter construtivo da narrativa a partir de uma reconsideração da presença da verdade no discurso produzido pelos historiadores.

 

A verdade na escrita da história

Hayden White visualiza o discurso historiográfico em dois níveis indissociáveis: as partes (sentenças, enunciados) e o todo. As partes compõem o todo, evidentemente, mas este não é, para ele, a simples soma daquelas. Ele não nega que as sentenças possam conter afirmações verdadeiras. Para isso, pode-se recorrer à confrontação entre sentenças e as fontes que as possibilitaram. Afirmações do tipo: "Napoleão Bonaparte morreu exilado na ilha de Santa Helena"; ou "a oferta de café na década de trinta no Brasil foi maior que a demanda", enfim, essas afirmações trazem evidências que podem ser comprovadas mediante uma simples análise das fontes materiais. Contudo, o discurso historiográfico não é apenas um conjunto de fontes e fatos dispostos cronologicamente. Essas mesmas fontes são agrupadas em uma forma de apresentação, cuja seqüência lógica exige um começo, meio e fim, identificáveis enquanto tal, consubstanciados, geralmente, em uma narrativa. E é na sua construção que a questão da verdade em historiografia ganha em complexidade e impulsiona um debate que coloca na ordem do dia o alcance cognitivo da historiografia.

De acordo com White, o historiador, ao transformar os resquícios do passado em uma narrativa inteligível, opera uma ordenação/disposição dos fatos, isto é, conta a história de uma determinada maneira, que bem poderia ser outra, sem incorrer em violação do registro factual. Em outros termos: o historiador tem acesso a um conjunto amorfo de fontes, apenas dispostas cronologicamente; a partir delas ele constrói seu discurso, reorganizando os fatos, classificando-os, ressaltando ou minimizando sua importância dentro da narrativa, estabelecendo função motívica ou efeitual, determinando o que será incluído (e qual papel ele desempenhará) e o que será excluído, enfim, um conjunto de manobras as quais dotam de sentido o que antes parecia apenas ser, e para White o era, um conjunto de fontes sem forma em si. O historiador, por meio da narrativa, então, faz mais que uma organização do que vem antes e depois. Ele decide a imagem a qual o leitor deve ter do que aconteceu ao urdir o enredo de uma determinada maneira e não de outra, transformando o antes não-familiar em familiar.

Concretamente, para White, a narrativa historiográfica ganha sentido ao ser vazada em uma das formas culturalmente conhecidas entre autor e leitor. Tais formas de enredo são as que o cânone literário consagrou: tragédia, comédia, romance e sátira. Para o autor de Metahistory, um mesmo conjunto de dados, permite a composição da narrativa em um desses arquétipos.

Nenhum evento histórico é intrinsecamente trágico (...) considerados como elementos potenciais de uma estória (story), os acontecimentos históricos são de valor neutro (...) eles são convertidos em estória (story) pela supressão ou subordinação de alguns deles e pelo realce de outros, por caracterização, repetição do motivo, variação do tom e do ponto de vista, estratégias descritivas alternativas e assim por diante.28

E Hayden White parece ir além: um tipo de urdidura de enredo não é apenas uma questão de seleção da forma, mas tem implicações relevantes quanto ao significado cuja narrativa de tal ou qual conjunto de eventos passará a assinalar - forma e conteúdo são inseparáveis:

Um tipo específico de enredo pode simultaneamente determinar os tipos de eventos a serem caracterizados em qualquer estória possível de ser contada sobre eles e fornecer um padrão para a designação de papéis que possam ser representados por agentes e agências ocupantes do cenário assim constituído29

Destarte, se os eventos em si não trazem inscrito o modo por meio do qual devem ser postos em uma narrativa, não há possibilidade de um dado discurso historiográfico arrogar a si o modo verdadeiro ou correto de narrar o que aconteceu. Na narrativa não há modo mais verdadeiro que outro; todos são passíveis de serem adotados com o mesmo grau de legitimidade. A verdade, portanto, pode até ser encontrada nas afirmações factuais, nos enunciados, enfim, nas partes do discurso, já que se torna possível a verificação desta por meio da análise das fontes. Contudo, quando se trata da narrativa do discurso historiográfico, não há elemento que identifique ou estabeleça critério para se dizer qual é e qual não é o modo verdadeiro e correto de se organizar narrativamente uma dada massa de informações.

A partir disso, um número considerável de críticas foram dirigidas a Hayden White, resultando em um amplo embate intelectual o qual recebeu sua carga depreciativa máxima ao se aplicar as proposições whiteanas a eventos históricos concretos, cujo principal, para o debate, refere-se ao Holocausto e à "solução final". O próprio White sintetizou a interrogação a ele colocada: "A questão que nasce com respeito à 'elaboração de enredo histórico' no estudo do nazismo e da solução final é esta: existe algum limite sobre o tipo de estória que pode ser contada de maneira responsável sobre esses fenômenos?".30

Ao se dispor a responder tal questão sem contradizer o que ele mesmo havia escrito sobre a natureza do discurso historiográfico, Hayden White usa, digamos, uma "tática fabiana". Afirma que epistemicamente não há nem pode haver critérios os quais exijam que a escrita, ou melhor, a narrativa de eventos, seja empreendida de uma maneira e não de outra. Acontecimentos como o Holocausto e a "solução final", para ele, podem ser vazados no modo trágico ou cômico sem prejuízo epistêmico em suas representações. Entretanto, embora não haja possibilidade de controle epistêmico de enredo, tampouco na construção do significado de um dado fato, há mecanismos com os quais se pode submeter à representação narrativa a determinadas modalidades e conter, assim, a liberdade irrestrita na elaboração de enredo de eventos como o Holocausto e a "solução final". Tais mecanismos, segundo White, são de ordem ética e moral. O que impediria, por exemplo, o nazismo e seus efeitos serem postos em um modo cômico, portanto, não seriam incorreções epistêmicas advindas da escolha e das características formais da comédia mesma. Mas, antes, das necessidades e valorações sociais, culturalmente disseminadas, de modos aceitáveis de discursos historiográficos em um determinado tempo, espaço e a respeito de certos fatos.

Tais formas aceitáveis não estariam ligadas apenas às maneiras pelas quais uma sociedade de modo amplo e a comunidade de historiadores especificamente discorrem acerca de dados eventos, ou seja, como agentes do tempo presente tratam ações passadas. Mas estaria relacionada também com a maior ou menor proximidade do evento ao historiador que dele se ocupa. Acontecimentos históricos de tempos longínquos, como as guerras da antiguidade clássica ou as revoluções modernas – o exemplo de White é a Revolução Francesa31 –podem ser urdidas em enredos variados sem que haja uma contestação enfática como aquela direcionada às possibilidades de escrita referentes ao Holocausto. Os eventos continuam os mesmos, mas a relação estabelecida entre eles depende, também, da maior ou menor proximidade do tempo presente. Por ser um passado intensamente presente nos nossos dias, com o qual se mantém um sentimento de pertencimento, a Segunda Grande Guerra Mundial e suas conseqüências, sobretudo as que se ligam aos milhões de vítimas, não permitem narrações em qualquer tipo de enredo, mas apenas naqueles os quais a sociedade considera ética e moralmente aceitáveis. Mas tal limitação, lembra White, não tem vinculação direta com a verdade da narrativa. Não é ela que atribui o tipo de enredo epistemicamente correto e verdadeiro, porque é aceitável socialmente.

O caso do Holocausto e da "solução final" são limites, é certo. No entanto, a mesma linha de raciocínio aplica-se a outros eventos históricos. Daí a necessidade de se desvencilhar a verdade do discurso historiográfico tomado como um todo. Se pode existir verdade em historiografia, e para White pode, esta se localiza nas afirmações individuais, passíveis de comprovação documental e verificabilidade:

A narrativa configura o corpo de acontecimentos que servem como seu referente primário e transforma estes acontecimentos em sugestões de pautas de significado que nunca poderiam ser produzidas por uma representação literal daqueles enquanto fatos. Isto não quer dizer que um discurso histórico não se avalie adequadamente quanto ao valor de verdade de suas declarações factuais (enunciados singulares) tomados individualmente e da conjunção lógica de todo o conjunto dessas declarações tomadas distributivamente.32

Assim, ao constituir algo mais complexo e significativo do que um aglomerado de fatos, datas e nomes, o historiador opera em outro nível: o do sentido e o do significado33 Hayden White, portanto, não nega a possibilidade da verdade nos textos historiográficos; apenas a restringe ao nível das sentençasNo nível do significado, entretanto, não concebe a possibilidade de se estabelecer critérios objetivos capazes de dirimir eventuais conflitos historiográficos. A decisão a favor de tal ou qual significado estaria a cargo de critérios extra-epistemológicos.

Essa reflexão abre caminho às proposições whiteanas acerca da utilidade que a história pode ter, por meio da historiografia, no mundo contemporâneo. O ponto de partida seria reconhecer a presença restrita da verdade nas narrativas e, por conseqüência, a limitação epistêmica da historiografia em "conhecer tal como aconteceu", atribuindo-lhe o seu significado. A assunção desse pressuposto facilitaria a superação e a destituição de duas perspectivas em historiografia: 1) o estudo do passado como um fim em si mesmo, o qual gera um tipo de conhecimento descomprometido com o presente; 2) a desconfiança dos historiadores em aceitarem o caráter construtivista de suas pesquisas, assumindo, deste modo, que o significado de suas narrativas é antes construído a partir das fontes do que descoberto nestas. Aceitar, portanto, o caráter construtivista nas pesquisas históricas e na apresentação dos resultados, por um lado, e abandonar o estudo do passado como um fim em si mesmo, por outro, são dois pilares constitutivos da proposta presentista de Hayden White ao conhecimento histórico. A partir disso o historiador poderia construir um dado significado a fim de atingir certo objetivo. Os mecanismos para a criação do significado localizam-se na elaboração da narrativa. Mais especificamente a partir da organização dos dados em certo sentido. A perspectiva de White pode ser exemplarmente contrastada com certa visão da constituição de sentido na narrativa por meio de um excerto de uma obra conhecida entre os historiadores brasileiros.

 

Do sentido e do significado

Em Formação do Brasil Contemporâneo, publicado em 1942, Caio Prado Júnior, no primeiro capítulo, intitulado Sentido da Colonização, inicia o parágrafo da seguinte maneira:

Todo povo tem na sua evolução, vista à distância, um certo ‘sentido’. Este se percebe não nos pormenores de sua história, mas no conjunto dos fatos e acontecimentos essenciais que a constituem em um largo período de tempo. Quem observa aquele conjunto, desbastando-o do cipoal de incidentes secundários que o acompanham sempre e o fazem muitas vezes confuso e incompreensível, não deixará de perceber que ele se forma de uma linha mestra e ininterrupta de acontecimentos que se sucedem em ordem rigorosa, e dirigida sempre numa determinada orientação. É isto que se deve, antes de mais nada, procurar quando se aborda a análise da história de um povo, seja aliás qual for o momento ou o aspecto dela que interessa, porque todos os momentos e aspectos não são senão partes, por si só incompletas, de um todo que deve ser sempre o objetivo último do historiador, por mais particularista que seja.34

Embora o livro de Caio Prado Jr., de onde se extraiu o trecho supracitado, seja comumente tido por um ensaio de síntese da história do Brasil colônia, ou seja, um texto que procura dar conta de mais de três séculos em pouco mais de trezentas páginas, há nele, segundo o seu autor, um elemento que dá o tom de sua composição, tornando compreensível a história de um período apesar da infindável miríade factual. Esse elemento está, para White, presente em qualquer narrativa historiográfica, seja ela uma obra de síntese ou um trabalho acadêmico com recorte temporal mais modesto: trata-se do sentido.

Toda narrativa historiográfica tem o rearranjo dos fatos e dados em uma ordem, em uma disposição, em uma direção que contemple um início, meio e fim delimitados. Mas, para além disso, que integre as partes ao todo com coesão e coerência, indicando o papel a ser desempenhado por cada ator na peça, o que deverá conter o cenário, a relação entre os atores e a resolução final para a qual irá se encaminhar a trama. Dar sentido, portanto, é encaminhar a narrativa em uma direção e não em outra.

Com efeito, a perspectiva de White contrapõe-se à de Caio Prado na medida em que o historiador brasileiro acredita que com o estudo do "conjunto dos fatos e acontecimentos essenciais" constitutivos do passado de uma sociedade, ou como ele preferiu usar, "de um povo", pode-se apreender o sentido pelo qual percorreu esta mesma sociedade, em um certo tempo e espaço. Hayden White, porém, não consideraria válida a asserção que sustenta a existência de um sentido nos próprios fatos. Os fatos e as fontes, para ele, são neutros, não têm sentido inscritos em si mesmos; eles não indicam ao historiador o modo como devem ser dispostos em uma narrativa, tampouco o tipo de relação que se deve estabelecer entre eles. Mas é, ao contrário, o historiador que inscreve neles um sentido, uma direção, organizando-os de uma dada maneira e não de outra, e utilizando para isso estratégias no processo de construção discursiva. Os mesmos fatos podem, para o autor de Metahistory, prestar-se a enredos com sentidos muito distintos entre si. Por conseguinte, não é o sentido, "antes de mais nada", que deve procurar o historiador: na ausência dele, este deve, antes de mais nada, dar-lhe um. Em outros termos, assumir simultaneamente a inexistência de um sentido intrínseco nos fatos e, por isso mesmo, construí-lo conscientemente.

Por conseguinte, a construção de um sentido, mediante a elaboração de enredo, encaminha a organização, disposição e relação entre os fatos de modo a direcionar a narrativa como um todo a um significado determinado. O significado é o nível profundo do discurso historiográfico; ele perpassa a narrativa, e é apreendido na inteireza do relato. A construção textual é encaminhada dando subsídios ao leitor para que este, ao fim da leitura, possa responder a si mesmo: o que tudo isso quer dizer. Prover a narrativa de sentido em um ou outro caminho é, destarte, direcionar o discurso historiográfico a um dado significado. Ter em mente tal pressuposto possibilitaria ao historiador alcançar certo efeito desejado quando da leitura de seu texto. E é por que as fontes não trazem imanentemente o modo pelo qual devem ser urdidas em enredo, tampouco como sua organização em uma narrativa deve encaminhar o discurso historiográfico a um dado significado e, sobretudo, por que a consciência na construção do significado pode levar a certo efeito desejado, é justamente por tudo isso, que Hayden White refuta a historiografia a qual despreza o caráter construtivista partícipe na confecção das suas narrativas em prol de um suposto comprometimento com a verdade não apenas dos fatos, mas principalmente na maneira de relacioná-los.

 

Técnicas contemporâneas da arte e ciência

Se, portanto, cabe ao historiador valer-se da não-inerência de sentido e significado nas fontes para alcançar um dado objetivo, e assim produzir um conhecimento histórico útil, pode-se questionar pelo modo como ele deve operar essa construção: como pode o historiador desenvolver mecanismos que contribuam à criação textual? Nesse momento White retoma a concepção a qual situa a historiografia entre arte e ciência. Não mais para apontar uma situação controversa, afinal, sabe-se que as críticas do autor de Metahistory aos historiadores os quais posicionam o conhecimento produzido por eles entre arte e ciência decorre do fato de terem em conta conceitos ultrapassados desses dois campos e não à posição mediadora da historiografia. Mas a retoma para repensar as possibilidades contemporâneas de diálogo da historiografia com a arte e a ciência. Seu ponto de partida é manter a historiografia entre arte e ciência – como um campo cognitivo capaz de promover a intersecção entre ambas –, considerando as mais recentes técnicas desenvolvidas nessas duas áreas de compreensão do mundo. A mensagem sugerida pelo estadunidense parece ser: caso se queira posicionar a historiografia entre arte e ciência deve-se igualmente atentar-se para o arsenal de procedimentos que ambas colocaram à disposição nos tempos atuais.

A preocupação de White é em atualizar a posição mediadora da historiografia. Ao mencionar, por exemplo, a apropriação das técnicas contemporâneas da arte e da ciência em historiografia, ele identifica alguns avanços em relação ao uso de procedimentos científicos.

Muitos historiadores atualmente mostram interesse pelos mais recentes avanços técnicos e metodológicos desenvolvidos nas ciências sociais. Alguns deles tentam usar a econometria, a teoria dos jogos, a teoria da solução de conflitos, a análise funcional e outros, sempre que sentem que podem servir aos seus objetivos historiográficos convencionais.35

Porém, quando se trata do uso de técnicas contemporâneas advindas da arte, os historiadores hesitam ao aplicarem-nas em suas narrativas.

Não houve nenhuma tentativa significativa na historiografia surrealista, expressionista ou existencialista neste século (exceto pelos próprios romancistas e poetas), em que pese ao tão alardeado 'talento artístico' dos historiadores dos tempos modernosÉ quase como se os historiadores acreditassem que a única forma possível de narração histórica era aquela usada no romance inglês tal como se desenvolveu no final do século XIX. E o resultado disso foi o progressivo envelhecimento da 'arte' da própria historiografia.36

Por isso, para White, "a reivindicação do historiador de ser um artista parece patética, quando não meramente ridícula".37 A resistência em se lançar às técnicas artísticas de composição seria efeito da confiança indissolúvel de se encontrar uma verdade no passado, e, mais precisamente, que tal verdade poderia ser apresentada de uma única forma possível.

Se aplicado à escrita da história, o cosmopolitismo metodológico e estilístico (...) forçaria os historiadores a abandonar a tentativa de retratar 'uma parcela particular da vida, do ângulo correto e na perspectiva verdadeira', como colocou um famoso historiador anos atrás, e a reconhecer que não há essa coisa de visão única correta de algum objeto em exame, mas sim muitas visões corretas, cada uma requerendo o seu próprio estilo de representação.38

A partir, portanto, da assunção do caráter construtivista e do uso de técnicas artísticas e científicas contemporâneas, a explicação de um relato histórico poderia, por exemplo, "ser julgada exclusivamente em função da riqueza das metáforas39 que gerenciam a sua seqüência de articulação"40 Desta forma,

a metáfora que rege um relato histórico poderia ser tratada como uma norma heurística que elimina autoconscientemente certos tipos de dados tidos como evidência (...). Ela permitiria pilhar a psicanálise, a cibernética, a teoria os jogos entre outros, sem forçar o historiador a tratar as metáforas assim confiscadas como inerentes aos dados em análise, tal como é forçado a fazer quando trabalha sob a necessidade de buscar uma objetividade impossivelmente compreensiva41

Tudo isso, segundo White, não acarretaria em um relativismo radical, tampouco no uso da história como propaganda militanteAo propor a utilização consciente da metáfora como "norma heurística", ele sugere que esta seria um dos critérios pelos quais uma obra historiográfica poderia ser apreciada, e que, em último caso, teria na comunidade intelectual dos historiadores sua avaliação final

Quando observamos a obra de um artista – ou, no caso, de um cientista – não indagamos se ele vê o que veríamos no mesmo campo de fenômenos gerais, mas se introduziu ou não em sua representação alguma coisa que poderia ser considerada como informação falsa por alguém que é capaz de entender o sistema de notação utilizado42

Hayden White, portanto, procura situar a historiografia entre arte e ciência, tal como fora feito desde o século XIXAgora, entretanto, considerando aquilo que as caracterizam contemporaneamente e atribuindo ao conhecimento histórico a função de diálogo entre ambas, fundado mais na percepção das semelhanças, cujo elemento evidente é a assunção do caráter construtivista, do que na das diferenças.

 

Epifania

Mas mesmo que se considere as proposições whiteanas relativas à natureza construtivista do conhecimento histórico aplicáveis e se aceite como válido o emprego de técnicas contemporâneas da arte e da ciência na narrativa historiográfica, ainda assim, parece pertinente questionar o objetivo ou os objetivos que tais procedimentos visariam alcançar.

De acordo com White, a historiografia, ao converter as fontes em narrativa, efetua um movimento que transforma o caos do mundo em forma estabilizada; o devir em ser; o não-familiar em familiar. Ao empreender tal movimento, o historiador incorre em uma perspectiva que retira da história o absurdo próprio do mundo; a sua falta de sentido intrínseco. Ao tentar compreender o passado em seus próprios termos o historiador é levado a acreditar na existência de algo como "seus próprios termos". E isso faz com que ele trate os fatos com certa naturalidade, sem "espanto", pois tudo teria uma explicação. Trate-os, sobretudo, com alto grau de compreensão, porque eles estariam sob certas condições que os tornam constatáveis por que foram daquela maneira e não de outra: torna o passado óbvio e espontâneo, posicionando-o em uma lógica explicativa cujas relações humanas, sociais e institucionais são naturalizadas.

Contrariamente a esse tipo de produção discursiva, White sugere ao historiador fazer "distorções criativas", nas quais ele disporia os fatos rearranjando-os de forma tal que alcançassem um efeito desejado. Ao citar uma obra a qual se vale de material histórico, mas, ao mesmo tempo, seria "anti-historiográfica" – pois não se atém às regras do cânone acadêmico –, White afirma que Brown, em Life Against Death, fez "uma série de justaposições; involuções, reduções e distorções brilhantes e surpreendentes (shocking), as quais forçam o leitor a ver sob nova luz elementos que ele esqueceu mediante uma associação constante, ou que reprimiu em resposta a imperativos sociais". 43 À maneira de Nietzsche, "o verdadeiro historiador precisa ter a força para converter o que é conhecido por todos em algo inaudito".44

Assim, o uso de técnicas artísticas contemporâneas, como no caso de Life Against Death, pode levar o leitor "ver sob nova luz" o que até então era tido por natural – seja "mediante uma associação constante", seja "em virtude de imperativos sociais". Desta forma, a sugestão à historiografia a qual se pretende útil é, em vez de sempre transformar o não-familiar em familiar, que ela desfamiliarize o familiar; causando um estranhamento no leitor – no que concerne à matéria sobre a qual versa – e impulsione novas interpretações a perspectivas há muito cristalizadas, e traga, a quem lê seu texto, um momento de surpresa, de epifania.

 

Da ruptura

E é justamente esse momento de epifania, de surpresa, que levaria o leitor de história a: 1) ter consciência de sua condição temporal; 2) interpretar o mundo como produto de um constante esforço em dar-lhe sentido: o efeito de escolhas humanas; 3) responsabilizar-se de sua participação na construção de seu próprio presente e 4) encorajar-se a romper com valores os quais permanecem presentes apenas pela sua condição de antigos, de "tradicionais", porém, mostram-se um empecilho à vida na sociedade contemporânea.

Fazer com que o leitor tome consciência de sua condição temporal possibilitá-lo-ia perceber a presença do passado no seu mundo atual; exporia o passado no presente, não, necessariamente, em uma linha contínua, mas entre permanências, atualizações e criações, como uma coexistência múltipla de ações, costumes, valores, idéias e práticas advindas do passado ao presente, re-significadas por conta de uma nova configuração social e criados em decorrência de necessidades atuais, marcando, destarte, as diferenças e semelhanças entre passado e presente. Fá-lo-ia compreender o quanto se é fruto de idéias, valores, instituições que o antecederam e formaram, em grande medida, os seus próprios valores e idéias. Além disso, ter consciência de sua condição temporal permiti-lo-ia dar-se conta de que o hoje foi, em algum momento, pensado e projetado como futuro nas ações de sociedades pretéritas.

Desta maneira, ao aperceber-se como resultado de condições passadas e, além disso, de escolhas tomadas em tempos decorridos, que bem poderiam ser outras – o que, por sua vez, acarretaria em um outro presente –, o leitor é levado a constatar a "força" das decisões tomadas em certo passado no seu próprio mundo e, a partir disso, poderá observar o quanto as idéias, valores, ações não têm independência do tempo, isto é, não são imorredouras e naturais, tampouco impostas por uma força inescapável ou sobre-humana, mas, antes, uma construção condicionada social e historicamente. A historiografia, assim, assumiria a função de desnaturar as relações petrificadas entre os homens, culturas, instituições: seria "desconstrutivista" por princípio, mas não destrutiva, pelo menos, não a priori. Explicitar o mundo como um constante esforço humano por dar-lhe sentido não equivale a dizer que o sentido a ele atribuído socialmente seja ilegítimo, falso ou impróprio ao seu tempo, pois fazer afirmações de tal natureza exigiria, em contrapartida, critérios delimitadores do que é legítimo, verdadeiro e próprio, anulando, desta forma, a premissa na qual se afirma que o mundo antes recebe sentido do que contém um em si mesmo.

A historiografia, dessa perspectiva, poderia, por exemplo, interpretar uma idéia hoje incontestada como a prevalência desta idéia entre outras da mesma natureza, que em algum tempo coexistiram. Ou, ainda, expor a condição historicamente humana de valores há muito introjetados e, por conseguinte, insuspeitos de serem produtos de relações de força; ou que há, em palavras corriqueiramente enunciadas, mais que uma necessidade simples de se comunicar: termos como progresso, democracia, nação, salvação, bem-comum, entre tantos outros, poderiam ser narrativizados como fortes instrumentos relacionados a disputas de poder, seja em âmbito macro ou micro social.

Tudo isso a fim de fazer o leitor compreender não apenas o mundo passado como fruto de opções humanas, que, aliás, ainda reverberam, mas, sobretudo, o seu próprio tempo também como o resultado de escolhas presentes, no qual ele, leitor, tem certo grau de responsabilidade. Construir uma narrativa apresentando o mundo, antes de mais, como uma construção humana, feita de opções circunstanciadas, seja no passado, seja no presente, objetiva, fundamentalmente, responsabilizar o homem sobre seu próprio presente. Convoca-o a assumir a iniciativa da resolução dos problemas de seu tempo. Com isso, nada impediria que um costume, idéia, valor, instituição fosse alterada em função das novas exigências do mundo contemporâneo. É exatamente nessa medida que a historiografia poderia cumprir sua função, pois encorajaria o homem do presente a romper, caso avalie necessário, com a permanência incômoda de tal ou qual valor, instituição ou idéia criada no passado.

A partir disso, White afirma: "precisamos de uma história que nos eduque para a descontinuidade mais do que nunca; pois a descontinuidade, a ruptura e o caos são o nosso destino".45 A historiografia pensada dessa maneira seria, portanto, o campo acadêmico, por excelência, no qual se cria as condições para que haja o rompimento do mundo presente com os valores, idéias, instituições e costumes do passado, cuja permanência se dá antes pela sua anterioridade que utilidade – mesmo sendo um estorvo ao presente e às novas necessidades dele advindasPor isso a afirmação de White:

Em minha opinião, a resposta mais sugestiva a esta questão qual a função da historiografia foi fornecida pelos pensadores que floresceram durante a época áurea da história – o período entre 1800 e 1850Os pensadores dessa época reconheciam que a função da história, tal como ela se distinguiu da arte e também da ciência daquele tempo, era fornecer uma dimensão temporal inerente à consciência que o homem tem de si mesmo (...) eles consideravam a imaginação histórica uma faculdade que (...) desembocava numa trágica reafirmação do fato fundamental da mudança e do processo, fornecendo assim uma base para a celebração da responsabilidade do homem por seu próprio destino.46

Três autores da "época áurea da história" são nomeados: Hegel, Balzac e Tocqueville. White classifica-os como "expoentes do historicismo realista". No que se refere à função ou utilidade do conhecimento histórico, os três "concordavam que a tarefa do historiador era menos lembrar aos homens suas obrigações para com o passado que impor-lhes uma consciência da maneira como o passado poderia ser utilizado para efetuar uma transição eticamente responsável do presente para o futuro"47 Além disso, eles

não viam o historiador como prescrevendo um sistema ético específico, válido para todos os tempos e lugares, mas viam nele alguém incumbido da tarefa especial de induzir nos homens a consciência de que a sua condição presente sempre foi em parte um produto de escolhas especificamente humanas, que poderiam, portanto, serem mudadas ou alteradas pela ação humana exatamente nesse grau. A história, assim, sensibilizava os homens para os elementos dinâmicos contidos no presente, ensinava a inevitabilidade da mudança e desse modo contribuía a libertar esse presente do passado sem revolta nem ressentimento.48

 

Do epistêmico ao ético

Por fim, alcançar a utilidade no conhecimento produzido pelos historiadores deve a) ter como ponto de partida a assunção das limitações epistêmicas na produção de seu saber; b) ter como meio o uso de técnicas contemporâneas da arte e da ciência a fim de conduzir o leitor a uma tomada de consciência a respeito do assunto com o qual se ocupa no intuito de despertar a consciência de sua condição temporal e percepção do mundo como construção humana efetivada por meio de escolhas historicamente condicionadas para, enfim, responsabilizá-lo pelo seu próprio destino, seja na manutenção de valores e idéias pretéritas ou no rompimento com estas; c) ter como ponto de chegada a construção de um presente eticamente responsável. O esforço em estudar o passado, destarte, justifica-se menos em função do conhecimento pelo conhecimento, que dele pode advir, do que da contribuição à resolução dos problemas atuais, que dele se pode esperar.

Desta maneira, ao retirar da historiografia o poder de contar o que realmente aconteceu, dando a última palavra a respeito do significado de um dado conjunto de eventos, White desloca a importância da produção historiográfica do epistêmico para o ético. Isto é, se não é possível contar exatamente o que houve da forma que ocorreu, cabe ao historiador escolher o modo como seu discurso será composto a fim de auxiliar os homens do presente na resolução dos problemas contemporâneos. Mas isso não significaria fazer do passado tábula rasa.49 Tampouco vale dizer que qualquer história pode ser vazada em qualquer modo narrativoHá sempre acoplado à escrita limitações éticas, social e historicamente construídas, as quais permitem a elaboração da narrativa em um sentido, ou em alguns, e não em outros, dependendo da relação que essa sociedade contemporânea mantém com o evento ao qual se pesquisa.

Assim, é possível, e, além do mais, permissível epistemicamente, construir um significado, por meio de uma narrativa, a partir de um conjunto de fatos ou eventos, no intuito de auxiliar o homem do presente na resolução dos problemas de seu próprio tempo. Uma mesma história do Brasil, por exemplo, pode ser contada em livros didáticos de formas tão distintas entre si que, por si só, poderiam ser consideradas histórias de países diferentes por um observador externo, sem que haja infração factual, sobreposição ao material empírico ou incorreção metodológica. A maior ou menor ênfase nas permanências, ressignificações ou rupturas; na participação popular na construção do país enquanto nação; nas influências externas – européias, americanas e africanas; a maior ou menor atribuição de responsabilidade do Estado pelo próprio presente e futuro; o modo como se trabalha noções como vocação, destino, moderno, obsoleto; a ênfase concedida às semelhanças ou diferenças; a forma por meio da qual se focalizam as relações entre os indivíduos do mesmo gênero e de gêneros diferentes; o grau de otimismo ou pessimismo com o qual o passado é tratado; a forma como se lida com as relações entre indivíduos que estão em status quo distintos; a maneira como se interpreta as desigualdades internas e em relação a outros países; a maneira de interpretar as atribuições da religião, cultura, economia, política; como se estabelecem as relações de poder; enfim, tudo isso e mais um sem número de elementos que, dependendo do modo como são arranjados dentro da narrativa, apontam para uma interpretação possível sobre o que significou e significa e, ainda, pode significar o passado e o presente do Brasil.50 Por isso, para White, a narrativa historiográfica não é apenas a forma que recebe o conteúdo e o expõe sem interferir nele próprioForma e conteúdo são indissociáveis.

***

Por conseguinte, a opção de White é por uma historiografia preocupada em primeira instância com o presente, com a mudança, com uma história na qual os valores são demonstrados enquanto produto de relações de força, de escolhas humanas e, conseqüentemente, com a auto-responsabilização do homem pelo seu próprio destino. As desvantagens adviriam de uma produção historiográfica focada no passado pelo passado, comprometida com a permanência e com uma história na qual os valores são tomados como naturais e independentes do tempo.

Não se deve perder de vista que o discurso historiográfico pensado desta maneira, juntamente com o pressuposto da limitação do conhecimento da historiografia, desloca a relevância anteriormente atribuída aos aspectos epistêmicos para os fatores relacionados aos éticos, à resolução de problemas do presente com o auxílio do estudo do passado, embora White não defina a qual ética se refere, exatamente. De modo resumido pode-se esquematizar o percurso a ser trilhado por uma historiografia útil ao mundo contemporâneo. Ele pressupõe:

• como ponto de partida a assunção das limitações epistêmicas em conhecer o significado de eventos pretéritos tal como aconteceram, enfocando o discurso historiográfico como um todo, e não os enunciados tomados separadamente;

• passa, por isso, pela construção consciente da narrativa no intuito de se atingir um dado sentido com vistas a um certo significado, valendo-se do que Hayden White denominou de "distorções criativas";

• com isso, desfamiliariza o familiar, criando um momento de tomada de consciência pelo leitor; o que, por sua vez, o faz perceber o mundo como construção humana e provisória, e não uma "manifestação de processos naturais ou mentais hipostatizados";51

• simultaneamente, torna-o consciente de sua condição histórica, destituindo aquela autoridade especiosa e irrestrita que o passado parecia lhe impor apenas por ser antigo;

• por ser o mundo uma construção humana, feita de escolhas tomadas em circunstâncias variadas, o leitor apercebe-se da responsabilidade que ele próprio tem na construção do seu mundo presente;

• além disso, o mundo enquanto construto histórico e social não tem obrigação em ser contínuo ao que foi criado no passado, apenas por ser passadoEm outros termos: cabe ao homem do presente decidir se tal ou qual costume deve ou não ter vivência mantida. Alguma idéia ou valor criado no passado não têm precedência sobre as necessidades do presente: ser antigo não lhe assegura ser eterno;

• encorajando, assim, o leitor de história a romper com idéias, valores, instituições, crenças etcque se mostram problemáticas ao presente, ou que sejam um fardo da história.

A originalidade da proposta de Hayden White parece residir precisamente no tipo de relação estabelecida entre possibilidades cognitivas da historiografia, de um lado, e funções que esta deve desempenhar, do outro. Para ele, é a limitação epistêmica da historiografia, sobretudo no nível da narrativa tomada como um todo, em seu significado, que permite ao historiador lançar mão de técnicas contemporâneas, tanto da arte quanto da ciência, no intuito de construir um significado determinado ao seu discurso. Não se trata de infringir os fatos, pois a veracidade destes pode ou não ser comprovada mediante uma confrontação entre enunciado e fontes. Como não há, para o autor de Metahistory, inscrita nos próprios eventos pretéritos a forma por meio da qual a narrativa deva ser composta, tampouco método e linguagem consensualmente aceitos para caracterizar e explicar o que realmente ocorreu no passado, cabe ao historiador assumir a restrição epistêmica de seu ofício e adotar uma postura ética que auxilie os homens do presente na resolução de seus problemas por intermédio da história.

Tudo isso, porém, tem sérias implicações sociais e acadêmicas à historiografia. Um número relevante de textos foi escrito a respeito das proposições teóricas de Hayden White e suas possíveis conseqüências. De Carlo Ginzburg, que insinua a vinculação entre White e uma postura fascista;52 passando, por exemplo, pelo professor Luiz Sérgio Dda Silva, que o considera um autor de "interesse crítico, de vertente marxista", que "é dirigido por valores que se opõem à sociedade capitalista e à cultura burguesa";53 a Keith Jenkins, que o concebe como autor de sugestões a serem seguidas pelos jovens historiadores,54 há escalas variadas.

Por isso mesmo, parece apropriado ao historiador contemporâneo indagar-se acerca da relevância e atualidade das críticas e proposições do autor de Metahistory, redirecionando, em certo sentido, a preocupação deste texto: se até aqui se investigou a utilidade e desvantagem da história para Hayden White, parece pertinente questionar, a partir de então, sobre a utilidade e desvantagem de White para a historiografiaIndependente da conclusão, contrária ou favorável às idéias do estadunidense, propostas como as apresentadas por ele põe em pauta questões capciosas as quais incitam o profissional de história, hoje, a formular e direcionar melhor a sua posição em relação ao seu ofício com um grau maior de consciência no que produz, como produz e por que o fazComo lembrou Karl Löwith, "a consciência histórica não pode deixar de começar por si mesma".55

 

 

Artigo recebido em 18/03/2009.
Aprovado em 10/11/2009
.

 

 

* Neste texto apresenta-se parte dos resultados da dissertação de mestrado, de título homônimo, defendida na Universidade de Brasília no início de 2008, sob orientação da professora Tereza Cristina Kirschner. Agradeço aos esclarecimentos do professor Estevão de Rezende Martins e à leitura e aos comentários atenciosos dos pesquisadores Carlos Oiti Berbert Júnior, Daniel Barbosa Andrade de Faria e Tereza C. Kirschner. Sou grato também à CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - que me proveu uma bolsa de estudos. Deve-se mencionar que o título é uma alusão à Segunda Consideração Intempestiva de Friedrich Nietzsche publicada em 1874 (NIETZSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vida. Trad. Marco Antonio Casanova.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003. Título original: Unzeitgemässe Betrachtungen - Zweites Stük: Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben).         [ Links ] Nela o pensador alemão contrapõe-se à cultura histórica hegemônica de então e apresenta dois modos distintos de consciência histórica, uma "negadora da vida" outra "afirmadora". De maneira semelhante Hayden White defere críticas à dada cultura histórica, materializada, contemporaneamente, em certas produções historiográficas. O autor de Metahistory, no entanto, não se limitou a re-enunciar as proposições nietzschianas em termos atuais e historiográficos, mas vinculou, de modo original, consciência histórica, natureza do discurso produzido pelos historiadores e possíveis desvantagens e utilidades que tal campo de cognição pode exercer no mundo contemporâneo.
1 Dados dos sites http://communications.uwo.ca/western_news/story.html?listing_id=12924 (acesso em dezembro de 2006);         [ Links ] http://www.staff.amu.edu.pl/~ewa/Hayden_White_Bibliography.htm (acesso em janeiro de 2008);         [ Links ] MEDEIROS, Pedro Araújo. Pós-modernidade e historiografia: um estudo sobre Hayden White. 2006. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006, p.45-46. (Dissertação, mestrado em História).         [ Links ]
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3 WHITE, Hayden. The abiding relevance of Croce's idea of history. The Journal of Modern History, v.XXXV, n.2, p.109-124, June 1963.         [ Links ]
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18 Storia della Storiografia - Hayden White's metahistory twenty years after, part. I: interpreting tropology, n.24, 1993;         [ Links ] Storia della Storiografia - part. II: metahistory and the practice of history, n.25, 1994.         [ Links ]
19 Hayden White não faz uma diferenciação conceitual entre literatura e relatos ficcionais. Parece tratá-los como termos equivalentes.
20 Ver: WHITE, Hayden. Introduction. The poetics of history. In: Metahistory. The historical imagination in nineteenth-century Europe. Baltimore/London: Johns Hopkins University Press, 1973;         [ Links ] WHITE, Hayden. Introduction: Tropology, Discourse, and the modes of human consciousnessIn: Tropics of discourse;         [ Links ] WHITE, Hayden. Historicism, history, and the figurative imaginationIn: Tropics of Discourse;         [ Links ] MELLO, Ricardo Marques deTeoria do discurso historiográfico de Hayden White: uma introdução. OPSIS, UFG/Campus Catalão/GO, v.8, n.11, 2008.         [ Links ]
21 O termo utilidade pode remeter a autores e teorias específicas, em que essa palavra assume o caráter de conceito advindo da filosofia utilitaristaNeste texto, porém, tal termo não é tomado como conceito, tampouco se filia a qualquer autor ou teoria, sobretudo porque é a tradução da palavra alemã Nutzen, que pode significar tanto utilidade quanto vantagemUtilidade, aqui, significa apenas o que os dicionários de língua portuguesa comumente lhe atribuem: a capacidade de algo em desempenhar certa serventia ou em satisfazer dadas necessidades ou desejos humanos.
22 WHITE, Hayden. The burden of history. In: Tropics of discourse, p.27-50.         [ Links ]
23 WHITE, Hayden. The burden of history, p.27.         [ Links ]
24 WHITE, Hayden. The burden of history, p.41.         [ Links ]
25 WHITE, H. Nietzsche: The poetic defense of history in the metaphorical mode. In: Metahistory, p.350.         [ Links ]
26 NIETZSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempestiva: da utilidade e desvantagem da história para a vidaTrad. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003, p.31.         [ Links ]
27 WHITE, Hayden. The burden of history, p.41.         [ Links ]
28 WHITE, Hayden. The historical text as literary artifact. In: Tropics of Discourse, p.84.         [ Links ] Hayden White chega a mencionar a possibilidade de se traduzir um discurso estruturado em um tropo a outro, justamente por não haver indicados os caminhos pelos quais deve trilhar o historiador na elaboração de sua narrativa.
29 WHITE, H. Enredo e verdade na escrita da história. In: MALERBA, Jurandir(org) A história escrita: teoria e história da historiografia, p.197.         [ Links ]
30 WHITE, H. Enredo e verdade na escrita da história, p.193.         [ Links ]
31 WHITE, Hayden. The politics of historical interpretation: discipline and de-sublimationIn: the content of the form: narrative discourse and historical representation. Baltimore/London: The Johns Hopkins University Press, 1987 1982.         [ Links ]
32 WHITE, Hayden. The question of narrative in contemporary historical theory. In: The content of the form: narrative discourse and historical representation, p.45.         [ Links ]
33 Ver: WHITE, Hayden. Interpretation in history. In: Tropics of Discourse.         [ Links ]
34 PRADO JR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. São Paulo: Brasiliense, 1996, p.19.         [ Links ]
35 WHITE, Hayden. The burden of history, p.45.         [ Links ]
36 WHITE, Hayden. The burden of history, p.43-44.         [ Links ]
37 WHITE, Hayden. The burden of history, p.43.         [ Links ]
38 WHITE, Hayden. The burden of history, p.47.         [ Links ]
39 Aqui o termo metáfora deve ser compreendido como uma "metáfora de longo alcance", ou seja, como a presença da figuração em todo discurso historiográfico.
40 WHITE, Hayden. The burden of history, p.46.         [ Links ]
41 WHITE, Hayden. The burden of history, p.46-47.         [ Links ]
42 WHITE, Hayden. The burden of history, p.47.         [ Links ]
43 WHITE, Hayden. The burden of history, p.45.         [ Links ]
44 NIETZSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempestiva, p.56.         [ Links ]
45 WHITE, Hayden. The burden of history, p.45.         [ Links ]
WHITE, Hayden. The burden of history, p.50.         [ Links ]
46 WHITE, Hayden. The burden of history, p.48.         [ Links ]
47 WHITE, Hayden. The burden of history, p.61.         [ Links ]
48 WHITE, Hayden. The burden of history, p.49-50.         [ Links ]
49 CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábula rasa do passado? Sobre a história e os historiadores. São Paulo: Ática, 1995.         [ Links ]
50 Embora os exemplos tenham como ponto de partida os livros didáticos de história, que já seriam representativos, ao menos pelo grau quantitativo que lhes concerne, eles poderiam ser estendidos, de modo mais restrito, a qualquer narrativa historiográfica acadêmica, por mais específico que seja seu objeto.
51 WHITE, Hayden. The burden of history, p.48.         [ Links ]
52 GINZBURG, Carlo. O extermínio dos judeus e o princípio da realidade. In: MALERBA, Jurandir (org). A História escrita, p.220.         [ Links ]
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