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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.26 no.43 Belo Horizonte June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752010000100002 

a02

Velhas e novas relações entre os medievalistas e suas fontes*

 

Old and new relations between medievalists and their sources

 

 

Dulce Oliveira Amarante dos Santos

Doutora em História social pela USP Professora de História Medieval da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás. Caixa Postal 131, 74001-970 - Goiânia, GO, Brasil doas52@hotmail.com

 

 


RESUMO

O enfoque desse artigo é a maneira como os medievalistas hoje se relacionam com seus documentos na prática cotidiana do seu ofício e, mais particularmente, os desafios e as dificuldades enfrentadas, em particular, por aqueles interessados em temáticas interdisciplinares relacionadas à história social da medicina do período. Assim, propõe a reflexão sobre os procedimentos metodológicos, a partir do alargamento da noção de campo documental, incorporando todos os vestígios e testemunhos disponíveis das experiências sociais humanas em diversos tempos e espaços. Discute ainda os acervos e os grandes projetos de digitalização de documentos medievais e de obras de referências e o impacto sobre o trabalho dos medievalistas deste lado do Atlântico. No interior dessa prática aparece o paralelo refinamento das questões e dos métodos da crítica documental.

Palavras-chave fontes históricas, métodos, Idade Média


ABSTRACT

The focus of this paper is the way medievalists have relations to the documents in the daily practice of their métier and, particularly, the challenges and the difficulties faced, especially, by those interested in interdisciplinary researches related to the social history of medicine of the period. Thus, this paper proposes the thinking concerning the methodological procedures, upon extension of the notion of documentary field, incorporating all available evidences and traces of human social experiences at different times and spaces. It also discusses the collections and the large digitization projects of medieval documents and reference works and the impact on the work of medievalists from this side of the Atlantic. Within this practice appears the parallel refinement of the issues and methods of documental criticism.

Keywords historical sources, methods, Midlle Ages


 

 

A diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita.
Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica,
tudo o que toca pode e deve informar sobre ele.

Marc Bloch

 

A partir da obra de Marc Bloch,1 o mestre de todos nós, a reflexão constante sobre a metodologia da investigação histórica tornou-se o grande desafio e o mérito dos medievalistas europeus. Assim, desde as primeiras décadas do século XX, as pesquisas históricas centradas na Europa medieval constituem-se em um campo privilegiado tanto de experiências inovadoras quanto de ponderações sobre os limites e as possibilidades na prática do ofício do historiador.

Dentre as inovações propostas, defendidas e realizadas pelos medievalistas franceses da Nova História, destaca-se, em primeiro lugar, a ampliação do campo temático passível de investigação sobre o período, não mais exclusivamente focado no universo das instituições políticas e religiosas. Assim torna-se possível ao historiador, não apenas aos medievalistas, pesquisar e problematizar qualquer tema relacionado às experiências humanas em qualquer tempo e lugar, do passado mais remoto ao mais próximo. Sem esquecer as contribuições pioneiras relativas ao debate contínuo entre as relações entre os dois planos das experiências humanas, o da vida concreta e o mental, o qual convergiu para a criação e reflexão sobre as noções de mentalidade(s) e imaginário(s).2 Em segundo lugar, o alargamento da noção de campo documental, incorporando todos os vestígios e testemunhos disponíveis dessas experiências e vencendo a primeira batalha contra a primazia dos documentos escritos. Além disso, é necessário ressaltar as reflexões e o paralelo refinamento dos métodos da crítica documental diante das velhas e novas opções na formação dos corpora de fontes. Em terceiro lugar, o incentivo ao diálogo e as trocas com as outras ciências humanas, especialmente a Sociologia, a Antropologia, a Demografia, dentre outras e mais recentemente o estímulo à formação e o desenvolvimento de redes de pesquisas interdisciplinares, terreno ainda movediço para os historiadores devido à tradição arraigada, sobretudo no Brasil, da pesquisa individual.

Diante dessas constatações, o enfoque desse artigo é a maneira como os medievalistas ontem e hoje se relacionam com seus documentos na prática cotidiana do seu ofício e, mais particularmente, os desafios e as dificuldades enfrentadas, em particular, por aqueles interessados em temáticas interdisciplinares relacionadas à história social da medicina do período.

 

Velhas relações

Ontem e hoje, a busca dos documentos constitui-se em um dos pontos de partida de quaisquer pesquisas históricas, pois eles são a matéria prima do nosso ofício, como dizia o historiador do cristianismo, Henri Irinée Marrou.3 Embora tecendo reflexões acerca da história do imaginário, Evelyne Patlagean4 indicou sabiamente dois caminhos mais comuns e possíveis no início de uma pesquisa histórica. Primeiro, escolher um campo documental e inventariar seus temas, segundo, selecionar um tema e inventariá-lo em toda a documentação do período. Assim, não importa a ordem selecionada, reunir um corpus documental é uma das primeiras tarefas do historiador. Esse agrupamento implica a transformação, por meio da procura, seleção e análise criteriosa, dos vestígios e testemunhos variados, em um corpus de fontes para sua investigação sobre velhos e novos objetos e problemas. Não importa, às vezes, por qual via acidental ou planejada esses testemunhos chegaram até nós, o historiador ao reunir e efetuar escolhas realiza essa mutação dos documentos em fontes. Esse ato fundador da prática e da reflexão passou incólume da história positivista para a Nova História, pelo menos entre os medievalistas, e permanece como a base de qualquer investigação da área. Mas, continua sendo orientado pelas conexões com as ansiedades do tempo presente do historiador na configuração do seu objeto de pesquisa e da problematização pertinente.

Hoje, inclusive, esse procedimento de mutação de documentos diversos em fontes para a pesquisa e seu uso posterior metódico configura a principal diferenciação entre a produção historiográfica e a produção ficcional em suas formas míticas, literárias e metafóricas. Aliás, ambas disputam com a memória o controle das representações do passado,5 mesmo que ocorram trocas e o compartilhamento do uso da retórica e da narrativa. Em conseqüência dessa necessidade de delimitação dos campos de atuação, as fontes são denominadas evidencias para os ingleses e provas para os italianos, pois, dessa forma, elas se convertem em marca distintiva do ofício de historiador.6 Nos textos historiográficos, as provas se materializam em três dispositivos técnicos, a saber, a nota, a referência e a citação.7 São eles que estabelecem a vinculação com o corpus de fontes selecionado. De maneira alguma, essa permanência das fontes significa a volta à composição de uma história positivista, que defendia a autonomia da fala dos documentos, após a comprovação de sua autenticidade pela paleografia e diplomática. Nessa perspectiva, eram considerados os fundamentos dos fatos históricos e sua existência por si mesma já era uma prova histórica.8 Cabia ao historiador apenas extrair as informações dos documentos sem nada acrescentar. Entretanto, não houve o rompimento com a crítica documental iniciada por Mabillon e sistematizada no século XIX, pois se assistiu, no decorrer do século XX, ao aparecimento de outras experiências no trato das fontes.

Como se configurou essa vitalidade do campo de estudos medievais e as inquietações acerca das relações entre os historiadores e suas fontes?

Nesse sentido, o primeiro movimento originou-se da constituição de monumentais acervos de documentos escritos do período. A partir do século XVII, a Igreja católica romana preocupada com a preservação de sua trajetória histórica, iniciou o movimento de montagem de grandes coleções de seus textos escritos em latim e grego, incluindo, entre outros, os patrísticos e os hagiográficos. No século XIX, o interesse pela Idade Média adquiriu outro sentido, na busca das origens dos Estados nacionais da Europa. As conseqüências políticas foram fundações dos Arquivos e Bibliotecas Nacionais por todo o continente para sediarem a memória das nações e o financiamento pelo poder estatal de publicações de monumentais coleções de documentos político-administrativos da época. Nessa linha, os documentos tornaram-se monumentos, isto é, testemunhos de uma imagem de si projetada para o futuro.9 De um lado, esse esforço editorial resultou na hegemonia dos documentos escritos sobre outros testemunhos no fazer cotidiano do medievalista. No decorrer do século XX, continuaram os esforços individuais de investigadores eruditos, no interior das universidades, para a realização de edições críticas de textos medievais e posterior publicação impressa, financiada pelas agências governamentais. Um dos exemplos da continuidade desses trabalhos, no século XXI, é a tese de doutorado de Antonio Manuel Ribeiro Rebelo, defendida na Universidade de Coimbra e publicada, em 2007, pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação para Ciência e a Tecnologia. Trata-se da edição crítica da Gesta latina de D. Fernando, o infante santo, martirizado na África, no século XV.10

Por outro lado, a existência desses corpora e da constante publicação de edições críticas de novos fundos incentivou os estudos históricos sobre temas relacionados à História política e eclesiástica dos períodos da Alta e da Baixa Idade Média.

Essa luta pela preservação da memória textual oficial e eclesiástica repercutiu na produção historiográfica com iniciativas similares do outro lado do Atlântico, embora com outros propósitos. Na primeira metade do século XX, dois pesquisadores norteamericanos, Lynn Thorndike e Pear Kibre, promoveram o levantamento e mapeamento de todos os textos científicos em latim produzidos na Europa medieval,11 financiados pela Medieval Academy of America. A seguir, o primeiro compôs a obra monumental em oito volumes, A History of magic and experimental science,12 o estudo sistemático de todos os autores da Antiguidade a contemporaneidade. Essa sistematização de bases documentais possibilitou o surgimento de uma área interdisciplinar de pesquisa em história das ciências e depois, história da medicina, primeiramente praticada por químicos, físicos, médicos, farmacêuticos e agora também por historiadores de formação. Favoreceu igualmente a resignificação da produção do conhecimento científico na Idade Média, teórico e experimental, em seus diversos domínios: astrologia/astronomia, alquimia, botânica, física (medicina), zoologia etc.

Essa inquietação acerca das relações do historiador com as fontes encontra-se já presente nos artigos do célebre periódico, Annales d´Histoire Économique et Sociale, criado em 1929 por Marc Bloch e Lucien Febvre, que dispensa aprofundamento dada a grande quantidade de estudos sobre sua importância na composição de uma História-problema e dos futuros desdobramentos da Nova História francesa. No entanto, há outra contribuição relevante, nem sempre lembrada, concernente às fontes nos títulos da coleção Nouvelle Clio, L´Histoire et ses problèmes, publicados pela PUF (Presses Universitaires de France).13 Essa coleção, criada e dirigida, nos anos 50, por dois medievalistas, Paul Lemerle e Robert Boutruche, apresenta uma diversidade de obras, resultantes de pesquisas históricas realizadas por especialistas em temáticas, cujo recorte temporal varia da Pré-História à contemporaneidade, com muitos títulos sobre a Idade Média. Além de evidenciar a vitalidade da produção historiográfica francesa, a estrutura padronizada adotada em todos os títulos revela a preocupação com os procedimentos metodológicos. Há uma primeira parte, Instrumentos de pesquisa e documentação, na qual se lista uma tipologia extensa de fontes impressas disponíveis, exibe o levantamento de toda a produção bibliográfica recente sobre o tema e mostra um quadro cronológico. A segunda parte, Nossos conhecimentos, apresenta o tema proposto e por último, Problemas pendentes e as linhas de pesquisa, levanta questões pertinentes e propõe novas orientações. Encerra a obra o índice remissivo de nomes de locais, fontes citadas e termos latinos ou gregos, esse rico instrumento para o investigador, que tanta falta faz nas publicações brasileiras da área. Essa coleção continua a ser publicada até hoje, sob a direção de Jean Delumeau e ainda mantém formato semelhante ao da proposta inicial.

 

Novas relações

A ampliação do campo temático da pesquisa histórica trouxe como principais conseqüências o similar aumento da tipologia de fontes, o abalo da hegemonia das escritas e outras possibilidades de relações na crítica. Aparece inicialmente sistematizada na coletânea, em três volumes, organizada por Jacques Le Goff e Pierre Nora, Faire l´Histoire,14 considerada o primeiro manifesto da Nova História francesa. O primeiro volume trata dos novos problemas, o segundo, das novas abordagens e o último, dos novos objetos.

Esse aumento no universo temático e na tipologia das fontes provocou o repensar das velhas primazias. No caso da História da Medicina, estabeleceu-se uma hierarquia nos textos, privilegiando as obras científicas medievais em detrimento de outros. Aliás, aquelas não perderam sua importância e permanecem centrais para o estudo do pensamento médico. Por muito tempo, os comentários médicos em latim foram considerados como literatura menor, como pura retórica, sem importância para a pesquisa histórica. São textos elaborados pelos mestres para a lectio, a leitura e a interpretação dos textos das autoridades greco-romanas e medievais, reunidos no compêndio Ars Medicinae Articella, criado pela Escola de Medicina de Salerno (Itália), no século XII e depois utilizado na escolástica das Faculdades de Medicina de Paris e Montpellier, no século seguinte. Mais recentemente, assiste-se à valorização desses textos e edições críticas passaram a ser realizadas, que se constituem em área nova recém explorada.

Além dessa desconstrução das hierarquias, houve a incorporação de outros materiais até então impensáveis para o uso como fontes pelos medievalistas, como os textos literários e as manifestações artísticas. A riqueza da literatura e da arte medievais passou a ser cultivada por aqueles interessados em desvendar as representações imaginárias e suas relações com a concretude da vida quotidiana. Portanto, para a análise desses novos materiais, foi necessária a criação de outros métodos de análise, porque até então, esses objetos de estudos das Letras e da Arte, se transformaram em testemunhos para a escrita da História cultural do social.

Mas por outro lado, o refinamento dos procedimentos metodológicos entre os medievalistas nas últimas décadas apontam inovações importantes que merecem ser pontuadas.

Essa ampliação colaborou na abertura do caminho para outras tendências historiográficas, como por exemplo, os estudos sobre as experiências sociais das mulheres medievais, num primeiro momento, e depois a história da relação entre os gêneros, que resultou em novos debates sobre os documentos. A opção por essa linha de pesquisa histórica defrontou-se com duas questões de método: buscar os documentos escritos por homens sobre as mulheres, isto é, textos religiosos e eclesiásticos, legislações régias mais específicas, as obras médicas; ou procurar testemunhos diretos, as vozes femininas, muitas vezes pouco numerosas, mas reveladoras de outras visões e reivindicações do universo feminino.

Ademais, para essas investigações não estavam disponíveis acervos específicos, manuscritos ou impressos, em arquivos públicos ou privados, nem coleções monumentais. O problema não era propriamente a ausência de documentos, mas sim a sua dispersão. As tipologias tradicionais dos documentos não colaboravam nessa busca que culminou no agrupamento e na análise de fontes dos mais variados tipos, sobretudo aquelas produzidas com outros objetivos, nas quais as mulheres não eram o foco. Essa busca documental trouxe novos questionamentos e novas respostas que permitiram puxar os fios da trama das vivências sociais femininas na Europa medieval.

Esse agrupamento de fontes diversas, independente da origem e do propósito a que foram produzidas passou a ser a tônica dessas novas temáticas. E a sensibilidade na formulação de questões para os documentos, a fim de investigar e responder às preocupações do presente acabou por favorecer as possibilidades de exploração das tipologias tradicionais. Citaremos alguns exemplos dessas buscas e achados inesperados. O Fuero real15 é um texto jurídico de compilação de leis destinado às cidades de Castela, no qual o rei Alfonso X (1221-1284) se outorga o poder legislativo e se torna criador de fonte de direito. Na parte referente aos testemunhos nos processos judiciais encontra-se a delimitação dos territórios de atuação feminina, pois as mulheres só podiam testemunhar em casos que envolvessem seus espaços e atividades: o moinho, o forno, o banho no rio ou fonte, ou sobre fiar e tecer ou sobre encantamentos. Numa obra legislativa voltada para o ordenamento urbano, depara-se com um fragmento valioso, que se torna fonte para a história das mulheres. Os costumeiros ou liber ordinis dos mosteiros medievais são compilações dos usos e costumes da comunidade, escritos com o objetivo do ordenamento da liturgia, das horas canônicas e do cotidiano dos monges. Numa leitura mais atenta encontram-se igualmente informações sobre o tratamento dos doentes e as práticas médicas monásticas. Assim, uma documentação monástica produzida com determinados propósitos, torna-se uma fonte a ser explorada pelo pesquisador da história dos usos e das práticas médicas nos mosteiros das diferentes ordens do período. As hagiografias medievais constituem-se tradicionalmente em fontes privilegiadas para o estudo da historicidade do fenômeno da santidade numa perspectiva de gênero e das religiosidades. Eis um exemplo típico das velhas relações entre os medievalistas e suas fontes. A partir desse novo olhar sobre as fontes, tornou-se uma referência importante para o estudo das tipologias de enfermidades medievais, a partir dos milagres (o principal critério de atribuição de santidade) de curas efetuados pelos santos (as).

Outra inovação metodológica surgiu na historiografia feminista norteamericana, que investiga a produção, a circulação a recepção e o uso das obras da medicina medieval voltada para a saúde e a cura das enfermidades femininas. Além do uso da categoria gênero, estabeleceu uma relação com o movimento da "virada linguística" (linguistic turn), cujo eixo de análise é a língua como um sistema de signos. A língua produz em suas relações diversos significados instáveis, fora de toda intenção ou controle, e constrói a realidade. Assim, essas medievalistas, além da tradicional crítica textual, utilizam-se das ferramentas das análises lingüísticas para aperfeiçoar a arqueologia das fontes, explorando os elementos da retórica, os topoi, as fórmulas e distintas tradições discursivas tanto do latim quanto das línguas vernáculas. A historiadora Monica Green dedica-se há anos ao estudo da atuação das parteiras e dedica-se ao estabelecimento dos textos atribuídos à Trótula, a médica de Salerno (Itália) no século XI. Em sua última obra,16 examina o processo de apropriação da ginecologia e da obstetrícia, domínios de atuação feminina, pelos físicos e cirurgiões, nos séculos XIV e XV. Nesse processo eles se tornaram as autoridades no conhecimento das questões da saúde das mulheres em virtude do acesso à leitura e a escrita (literacy) e da padronização dos conhecimentos nas universidades. Por intermédio de uma análise acurada dos usos das formas verbais e das vozes ativas e passivas da obra De curis mulierum, atribuída a Trótula, sugere a autoria feminina do texto e o público alvo outras mulheres, provavelmente parteiras.

Entre os medievalistas franceses, em particular, essa inquietação sobre questões e métodos continua presente devido à centralidade da documentação para quem investiga tempos distantes da atualidade. A título de exemplo, a coletânea, Le médiéviste devant ses sources. Questions et méthodes, organizada por C. Carozzi e H.Taviani-Carozzi,17 reúne as comunicações apresentadas nos seminários do grupo de pesquisa, Sociétés, Ideologies et Croyances au Moyen Âge, da Université de Provence, em 2001 e 2002. Os autores revisitam velhas fontes, tais como as decretais pontifícias, os sermões, os capítulos gerais das ordens monásticas, as crônicas universais, os polípticos carolíngios, as crônicas urbanas, propondo novos questionamentos específicos por meio da aplicação de uma inquisitio veritatis,18 para averiguação de outras vivências e crenças.

No interior da área dos estudos medievais, além da autoavaliação contínua da prática do ofício acima citada, percebe-se um esforço de organização supranacional dos investigadores de formações variadas. Assim, as redes de pesquisa interdisciplinares internacionais, com o protagonismo dos pesquisadores dos Países Baixos, constituem-se uma das tendências contemporâneas da área. Destaca-se a rede internacional de pesquisa, o CIVICIMA, o Comité International du vocabulaire des institutions et de la communication intellectuelles au Moyen Age, sob a presidência do professor emérito de Filosofia antiga e medieval, L. M. de Rijk, da Universidade de Leiden, e coordenação de Olga Weijers, da Bibliothèque Royale, em Haia, ambas na Holanda. Participam dessa rede pesquisadores renomados das áreas de Letras, História e Filosofia, representantes dos seguintes países e região: Alemanha, Bélgica, Canadá, Espanha, Estados Unidos, Europa do Leste, França, Grã-Bretanha, Itália, Países Baixos, Países escandinavos e Portugal. Os resultados dessas investigações foram publicados em dez volumes na Série Études sur le vocabulaire intellectuel du Moyen Age, da editora belga Brepols,19 entre 1988 e 2003. Todos os títulos fornecem instrumentos fundamentais para apurar a análise do vocabulário e dos conceitos nos textos medievais, sobretudo da escolástica e da produção científica dos árabes. Outra rede de pesquisa mais recente, de 2007, é a Animaliter (Animalia in litteris medii aevi) coordenada pela Professora Sabine Obermaier, da Universidade de Mainz, na Alemanha. O grupo estuda o léxico dos animais na literatura medieval dos bestiários, dos tratados de caça, de falconaria, tratados médicos hagiografias e outros, com a finalidade de compor uma enciclopédia interdisciplinar trilíngue: alemão, francês e inglês, a ser disponibilizada on line. Todos esses esforços coletivos contribuem para a sofisticação dos procedimentos metodológicos de análise das fontes.

Uma influencia externa à área e de grande impacto foi a revolução tecnológica promovida pela informática na relação dos medievalistas, deste lado do Atlântico, com suas fontes. Primeiro, no século passado, o uso do computador permitiu a análise de séries de dados, ou seja, a prática de uma história quantitativa para épocas mais contemporâneas. Segundo, a internet favoreceu, no final do século XX e início do XXI, o segundo movimento de expansão contínua dos antigos e novos fundos documentais da Idade Média. Surgiram e continuam a empreender grandes projetos de digitalização de microfilmes de corpus documentais de arquivos ou bibliotecas por meio de máquinas com moderna tecnologia, e posterior disponibilização on line. Atualmente é impossível medir a extensão total desses acervos na rede, dada a quantidade e variedade da oferta. Algumas iniciativas merecem destaque. Na Bélgica, a editora Brepols, além das publicações constantes da produção históriográfica sobre temáticas medievais, assumiu esse encargo, por meio da Brepolis, e lançou on line várias bases de dados de fontes medievais,20 tais como, a Monumenta Germaniae Historica (MGH), composta no primeiro movimento do século XIX, a Aristóteles Latinus Database (ALD), com o corpus completo de todas as traduções medievais dos textos aristotélicos. A Brepolis oferece também outras bases de obras de referência, como a Database of Latin Dictionaires (DLD) além de repertórios bibliográficos, como a International Medieval Bibliography (IMB). O Glossarium ad Scriptores Mediae et Infimae Latinitatis, de Charles Fresne du Cange (1678), está igualmente na rede.21 Todos esses instrumentos de trabalho são de extrema utilidade para o medievalista no trato com as fontes. Em qualquer lugar do planeta, é possível aos historiadores e seus alunos acessarem de seus computadores pessoais essas bases de dados, às vezes, gratuitamente, outras vezes, por meio de pagamento de taxas. Esse fato revolucionou os estudos medievais fora dos grandes centros europeus e seu impacto deverá ser avaliado, a curto ou médio prazo, pela comunidade internacional. Mas, por outro lado, apareceram problemas com toda essa visibilidade da produção historiográfica na internet, como os plágios e outras apropriações indevidas de trabalhos alheios.

A internet abriu caminho para outras formas de comunicação entre os medievalistas do mundo todo. Nesse sentido, uma iniciativa profícua foi a de Monica Green, professora de História e pesquisadora do Center for Medieval and Renaissance Studies (ACMRS) da Arizona State University (EUA), autora de uma série de obras sobre a obra da sapiens matrona de Salerno, Trótula (séc. XI) e sobre a prática médica das parteiras no período. Ela organizou e gerencia o fórum de comunicação MEDMED-L,22 uma lista de pesquisadores e estudantes da história da medicina medieval e renascentista. Essa lista com mais de 300 participantes de várias partes do mundo fornece informações preciosas sobre o estado da arte, isto é, sobre bases de dados de acervos documentais on line, a biografia acadêmica dos participantes, publicações recentes, textos eletrônicos, além dos congressos e as conferencias nacionais e internacionais. Além disso, promove os contatos e intercâmbios acadêmicos entre os membros da lista com afinidades temáticas.

No Brasil, há outras iniciativas do poder público de apoio às investigações, como o Portal de periódicos da CAPES, com livre acesso pelas universidades públicas, com destaque para a base de dados Jstor, especializada em publicações de periódicos científicos da área de humanidades. Portanto, mais um instrumento de trabalho proveitoso para o levantamento do estado da arte do tema escolhido.

Á guisa de conclusão, percebe-se a permanência da vitalidade dos trabalhos na área dos estudos medievais na Europa e suas repercussões neste lado do Atlântico. A escrita da História acerca da Idade Média continua, desde a ousadia de Marc Bloch, a questionar suas velhas relações com as fontes, a historicizar seus conceitos e a propor novos desafios metodológicos. A centralidade dos documentos, transformados em fontes pelo trabalho do medievalista na construção do seu objeto de pesquisa, cruzou incólume os séculos XIX e XX e chegou ao XXI. As edições críticas de fontes inéditas continuam a ser realizadas nas universidades. A mudança relevante ocorreu com a ampliação da própria noção de documento, com a desmontagem da hegemonia dos materiais escritos e a incorporação de outros testemunhos escritos (literatura), arqueológicos (cultura material) e iconográficos (produções artísticas). Além disso, ocorreu paralelamente a dilatação do campo temático com incursões em áreas novas como a história das mulheres e das relações entre os gêneros, que propiciou outras relações com as velhas fontes.

A tradicional crítica textual externa e interna, tão cara aos medievalistas, persiste, porém com critérios mais sistemáticos de seleção, classificação e de problematização. Na primeira crítica, ainda é necessário o levantamento de todos os elementos externos à composição das fontes, isto é, tipologia, local de origem, língua, datação, atribuição de autoria e do grupo social de pertencimento, manuscritos, acervos, finalidades, o contexto etc. Na interna pressupõe-se uma arqueologia do texto, a análise dos termos e conceitos, o diálogo com outros autores coevos, as personagens, etc. Após esse percurso exploratório ocorrem as problematizações e os questionamentos oriundos, ontem e hoje, das inquietações com o presente vivido.

É impossível ao historiador ignorar as tendências atuais da formação de redes de pesquisa interdisciplinares tanto no objeto de estudo quanto na formação diferenciada de seus componentes, com grandes financiamentos públicos ou privados. Bem como, desconhecer o imperativo do trabalho em equipe, mesmo que, muitas vezes, seja preciso abandonar a prática costumeira do trabalho individual e artesanal. Da mesma maneira, a internet veio para ficar e revolucionar o acesso aos corpora documentais, aos dicionários latinos e glossários, aos textos eletrônicos e aos periódicos científicos. Ademais, os fóruns de discussão alteraram as formas de divulgação dos eventos na área e a própria comunicação entre os medievalistas de várias partes do mundo.

Acima de tudo, rigor e sensibilidade constituem-se nas duas qualidades fundamentais dos velhos e dos novos medievalistas. Há certo fascínio na prática do ofício quando ocorre, na análise dos materiais, a descoberta de outras experiências humanas, estranhas ou próximas, noutros tempos. Essa paixão confere aos medievalistas "o propósito, talvez insensato de praticar a ciência sem excluir a arte, ou de exercitar a ciência como uma arte.23

 

 

* Artigo recebido em: 20/05/2010. Autor convidado.

 

 

1 BLOCH, Marc. Apologie de l´Histoire ou métier d´historien. 1a.ed.Paris: Armand Colin, 1949.         [ Links ] Em 1993, foi lançada a edição anotada por seu filho, Étienne Bloch, depois traduzida para o português e publicada no Brasil: BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.         [ Links ]
2 FRANCO JR., H. O fogo de Prometeu e o escudo de Perseu. Reflexões sobre mentalidade e imaginário. In: Os três dedos de Adão. Ensaios de mitologia medieval. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2010, p.49-91;         [ Links ] MARTIN, Hervé. Mentalités médiévales (XIe-XVe siècles). Paris: Presses Universitaires de France, 1998, 2v.         [ Links ]
3 MARROU, Henri Irinée. De La connaissance historique. Paris: Seuil, 1954.         [ Links ]
4 PATLAGEAN, E. História do imaginário. In: Le Goff, Jacques. (org.) A História Nova. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p.291-318.         [ Links ]
5 CHARTIER, Roger. A História ou a leitura do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p.24.         [ Links ]
6 GINZBURG, C. Sobre Aristóteles e a história, mais uma vez. In: Relações de força. História, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.47-63.         [ Links ]
7 CHARTIER, Roger. A História ou a leitura do tempo, p.60.         [ Links ]
8 LE GOFF, J. Documento/Monumento. In: Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984, v.1, p.95-106.         [ Links ]
9 LE GOFF, J. Documento/Monumento, p.103.         [ Links ]
10 REBELO, Antonio Manuel Ribeiro. (ed.) Martyrium et gesta Infantis Domini Fernandi. Lisboa: Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2007.         [ Links ]
11 THORNDIKE, L. e KIBRE, P. (orgs.) A catalogue of incipits of mediaeval scientific writings in Latin. Cambridge, Mass.: The Medieval Academy of America, 1937.         [ Links ] Houve mais três edições da obra, 1938, 1939 e a última revisada e aumentada em 1963.
12 THORNDIKE, L. A History of magic and experimental science. New York: Columbia University Press, 1934, 8v.         [ Links ]
13 Muitos títulos dessa coleção foram traduzidos, nos anos 60, pela Editora Livraria Pioneira em São Paulo.
14 LE GOFF, J. e NORA, P. Faire de l´histoire: nouveaux problèmes, nouvelles approches, nouveaux objets. Paris: Gallimard, 1974;         [ Links ] LE GOFF, J. e NORA, P. História: novos problemas, novas abordagens, novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, 3v.         [ Links ]
15 PIMENTA, Alfredo. (ed.) Fuero real de Alfonso X, o sábio. Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1946, Livro II, Tit. 11, p.64.         [ Links ]
16 GREEN, Monica H. Making women´s medicine masculine. The rise of male authority in Pre-Modern Gynaecology. Oxford: Oxford University Press, 2008.         [ Links ]
17 CAROZZI, C. e TAVIANI-CAROZZI, H. (orgs.) Le médiéviste devant ses sources: Questions et Méthodes. Aix-en-Provence: U.P. d´Aix-en-Provence, 2004.         [ Links ]
18 CAROZZI, C. e TAVIANI-CAROZZI, H. (orgs.) Le médiéviste devant ses sources: Questions et Méthodes, p.9.         [ Links ]
19 WEIJERS, O. (ed.) Terminologie de la vie intellectuelle au Moyen Age. Turnhout: Brepols, 1988;         [ Links ] WEIJERS, O. Vocabulaire du livre et de l´écriture au Moyen Ages. Turnhout: Brepols, 1989;         [ Links ] WEIJERS, O. Méthodes et instruments de travail intellectual au Moyen Age. Turnhout: Brepols, 1990;         [ Links ] WEIJERS, O. Dictionnaires et repertoires au Moyen Age. Turnhout: Brepols, 1991;         [ Links ] WEIJERS, O. Vocabulaire des écoles et methodes d´enseignement au Moyen Age. Turnhout: Brepols, 1992;         [ Links ] WEIJERS, O. Vocabulaire des colleges universitaires XIIIe- XVIe siècles. Turnhout: Brepols, 1993;         [ Links ] WEIJERS, O. Vocabulary of teaching and research between Middle Ages and Renaissance. Turnhout: Brepols, 1995;         [ Links ] JACQUART, D. (ed.) La formation du vocabulaire scientifique et intellectual dans le monde arabe. Turnhout: Brepols, 1994;         [ Links ] PACHECO, M. C. Le vocabulaire des écoles mendiants au Moyen Age. Turnhout: Brepols, 1996;         [ Links ] TEEUWEN, M. (ed.) The vocabulary of intellectual life in the Middle Ages. Turnhout: Brepols, 2003.         [ Links ]
20
www.brepolis.net
21 www.uni-manheim.de/mateo/camenaref/ducange.html
22 MEDMED-L – an unmoderated forum for communication among scholars studying medicine in the medieval period. É financiada pelo Arizona Center for Medieval and Renaissance Studies (ACMRS). A coordenadora da lista é Monica Green, Professora de História da Arizona State University, monica.green@asu.edu. Para inscrever-se na lista: http://lists. asu.edu/cgi-bin/wa?AO=MEDMED-L
23 MATTOSO, J. A Escrita da História. Teoria e métodos. Lisboa: Estampa, 1988, p.42.         [ Links ]