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Varia Historia

versión impresa ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.28 no.47 Belo Horizonte enero/jun. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752012000100009 

ARTIGOS

 

Jean Bodin, o Methodus e a Clio tucidideana: as figurações heroicizantes do historiador

 

Jean Bodin, his ' Methodus' and Thucydides' Clio

 

 

Francisco Murari Pires

Professor Titular Departamento de História, FFLCH-USP Av. Prof. Lineu Prestes 338, São Paulo, SP, CEP 05058-900 murari@usp.br

 

 


RESUMO

Apreciando as representações figuradas na ideia de uma Clio Tucidideana por fins do século XVI, propõe-se refletir sobre a associação entre a concepção antiga de herói e a moderna de gênio como parâmetro epistemológico que catalisa a apreciação da excelência da práxis historiográfica. Aborda-se essa reflexão tomando em particular as proposições elaboradas sobre a escrita da História no Metodus de Jean Bodin que juntamente com La Popelinière e Thomas Hobbes configuram historiograficamente a ideia da Clio Tucidideana conceituada por Cesare Ripa.

Palavras-chave: Tucídides, Jean Bodin, historiografia, Cesare Ripa, herói


ABSTRACT

Considering the representations configured in the idea of a Thucydidean Clio in the end of the sixteenth century, the article proposes to think about the association between the ancient concept of the hero and the modern concept of the genius as a epistemological criterium that catalizes the appreciation of the excellence of historiographical praxis. The attention of the article is centered on the thesis proposed to the wrting of history in the Methodus of Jean Bodin, who configures, conjointly with La Popelinière and Thomas Hobbes, the historiographical formulation of the idea of a Thucydidean Clio cconceptualized by Cesare Ripa.

Keywords: Thucydides, Jean Bodin, historiography, Cesare Ripa, hero


 

 

Prólogo: Clio tucidideana

Na terceira edição do tratado Iconologia (Roma, 1603), Cesare Ripa define a figura de Clio pela conjugação de três ícones por que se a represente imageticamente: uma coroa de louros à cabeça, uma trombeta segura pela mão direita e um livro pela esquerda.1

Ao fundamentar os nexos de tal configuração iconográfica, Ripa aponta, primeiro, as significações etimológicas que as denominações originais gregas comportam: ou louvor (por kléa) ou gloria (por kléos), quer a dos homens que os Poetas pelo canto da Musa celebram, quer a deles mesmos, poetas, porque justamente os gloriam. Diz também as razões da semântica figurativa por que se recomenda tal imagética por Clio personificada. Pela láurea se assinala o destino de perpetuidade que a História enseja aos homens e seus feitos passados e presentes, assim valendo como as folhas de louro que preservam vivo por longo tempo o verdor. Pela trompa celebram-se os feitos dos homens ilustres, ressoados nos ares a proclamar universalmente sua glória.2 Mas trompa segura pela mão direita, porque assinale boa fama,3 pois, se pela esquerda, signo antes reverso, de má fama ou de infortúnio.4 Já pelo livro com que se registram os feitos dos homens, passados e presentes, assinala a história, atributo dessa Musa. Mas ícone esse que comporta uma precisão: o livro é de Tucídides, por nome nele inscrito.5 A razão de tal privilégio onomástico com que se honre condignamente a história: porque Tucídides, Historiador famoso.6

Praticamente contemporânea dessa figuração de uma Clio tucidideana por Cesare Ripa, La Popelinière firma, na Histoire des Histoires (Paris, 1599), similarmente a fama maior de Tucídides, então o intitulando Príncipe da História.7 Três décadas antes, Jean Bodin também proclamara no Methodus (Paris, 1566) que não Heródoto, mas sim Tucídides, devesse ser tido por o mais verdadeiro Pai da História.8 Três décadas depois, Thomas Hobbes, em sua tradução dos Eight Books of the Peloponnesian Warre (London 1629), ao dizer porque a escrita da história alcançara o ápice com Tucídides, consagra fórmula de similar fama historiográfica, mas já por teores reflexivos mais precisamente direcionados: "the most politick historian who ever writ".9

Por tais projeções de excelência historiográfica, porque o nome de Tucídides emblematiza a escrita da história do século XVI para o XVII, a persona do historiador é apreciada por enredamentos de intrigas agonísticas com seus pares antigos. Por uma delas, que avança de La Popelinière a Hobbes, subjaz um agón com Tácito, ou mais precisamente com o tacitismo, avatar de maquiavelismo por fins do XVI. Por outra intriga agonística, agora de Tucídides com Heródoto, remonta-se de La Popelinière a Bodin, por meados do século.10 E, por Bodin, com as intrigas dessa agonística pondo em paralelo Tucídides e Políbio,11 o diálogo remonta à Maquiavel. À época de Maquiavel, entretanto, havia já um século, ao longo do Quattrocento, desde Leonardo Bruni, que a face de Clio mostrava a fisionomia de Tito Lívio justo porque incorporava a alma de Cícero.

Por tais diálogos de modernos e antigos, a evolução da identidade da história entre Maquiavel e Hobbes, ao questionar, por meados do XVI, a figuração liviana que a prendia em moldes estilísticos,12 promove uma vertente de exemplaridade tucidideana de sua escrita, assim transitando os horizontes de seu saber dos domínios da arte retórica para os da ciência política.13

 

Jean Bodin e o historiador juiz

A formação primeira de Jean Bodin se deu em ambiente confessional (por volta de 1545 a 1548).14 Deixa, ao que parece sem tomar os votos, as sedes confessionais, para dedicar-se aos estudos de Lei e Direito. Pelo ano de 1550 vai para Toulouse, onde permanece por dez anos, dedicando-se ao estudo da jusrisprudência.15 No ano seguinte, 1561, "é eleito advogado do Parlamento de Paris".16 Dos estudos catalisados por esse contexto de preocupação com o sistema legal e jurídico do Estado francês resulta a publicação, em 1566, do Methodus ad facilem historiarum cognitionem (Método para facilitar o conhecimento da história).17

Integrar o conhecimento jurídico da História Universal, acumulado pela experiência humana desde a Antiguidade por persas, gregos, egípcios, romanos mais hebreus, estendendo-se também pelos modernos por espanhóis, ingleses, italianos e alemães, como ainda turcos, mais pela legislação da corte francesa e também da imperial, movera o desígnio de Jean Bodin ao compor o Methodus,18 terminado por inícios de 1566.19 Por esse descortino de um olhar histórico ampliado de ambição totalizante,20 Bodin pretendia superar as falhas que estigmatizavam a tradição da ciência jurídica alicerçada exclusivamente no Direito romano,21 razão por que então aludia a preceito referenciado em Platão: "os que trataram desta matéria da Lei Civil (...) descreveram tão somente as leis dos romanos, e mesmo assim em ordem equivocada. Deveriam ter lido Platão, que ensinava existir apenas um modo porque se estabelecessem as leis e governassem os Estados: que os sábios coletem e comparem os enquadramentos legais de todos os Estados, ou os dos mais famosos, por eles compilando o que há de melhor".22

O aprimoramento da ciência jurídica moderna buscava no saber histórico o fundamento de sua excelência. A história que a jurisprudência tem em vista configura-se como "memória da humanidade", saber constituído por experiência de alcance universal, aberto no espaço e profundo no tempo, englobando, em princípio, todas as modalidades de conhecimento.23

Pela razão e finalidade precípua intrigada por tal projeto investigativo - a formulação dos sistemas legais do Estado - , o olhar da história discerne foco especialmente político, centrado na vida dos Estados:

Da história então coletamos os estatutos legais no amplo horizonte dos povos antigos, de modo a que pudessemos também incluí-los nesta obra. De fato, na história se oculta a melhor parte da lei universal; e o que mais importa e contribui porque melhor se aprecie a legislação - os costumes dos povos, os inícios, crescimento, condições, mudanças e declínio de todos os Estados - são dela obtidos. A matéria principal deste Método é constituída por tais fatos, pois não há recompensas mais amplas a tirar da história do que as habitualmente colhidas no campo das formas governamentais dos Estados. Escrevi mais sobre este tópico do que outros porque poucos trataram deste problema de tão vital compreensão, e esses poucos, apenas superficialmente".24

Também para Bodin, a história vale como magistra vitae. Ele assim o insinua já na abertura do texto de apresentação dirigido a Jean Tessier: "Neste Método, excelentíssimo presidente, planejei tratar do modo pelo qual se devem selecionar na História as Flores de que se colham os mais doces frutos".25 Por essa figuração metafórica a história é estimada como esplêndido jardim, lugar de natureza cultivada pródiga de virtudes revivificantes.26 E, mais incisivamente, o afirma na reflexão primeira com que formula o Preâmbulo da obra: "Embora a história tenha sido elogiada por muitos que a adornaram de sinceros e acertados louvores, dentre eles, porém, ninguém a recomendou mais verídica e apropriadamente do que quem a denominou por mestra de vida". A fórmula, de conceituação originária ciceroniana por nomeação assim apenas alusivamente desvelada condensa, sob a riqueza dos adornos de todas as virtudes e conhecimentos com que se figura a beleza da história, uma valia maior, configurando como que sua alma, assim estimada como diretriz normativa de todas as ações dos homens, realização verdadeira, no campo do conhecimento humano, do ideal de perfeição preceituado pelo cânon de Policleto.27

Historia magistra vitae conceitua, no entender de Bodin, o reconhecimento maior do que seja a excelência valiosa, benéfica, do saber histórico: figura mestra de vida, fonte de virtudes mais ensinamentos a guiar as condutas e os atos dos homens por uma vida bela, regrada, consoante o cânone disposto por suas leis sagradas. História vale por conjunção de moral com arte, porque a virtude é bela e a beleza virtuosa. História compõe então campo de saber por afinidade e contiguidade com a filosofia, ela também definida por similar fórmula tradicional: vitae dux, diretriz de vida. Mas a filosofia assim o é ao ensejo do que a história provê: ao registrar os ditos, os fatos e os ensinamentos do passado, a história dispõe a memória exemplar dos atos humanos descortinados em seu horizonte de máxima amplitude moral, quer pelos extremos virtuosos de bens a serem buscados quer pelos viciosos de males a serem evitados.

A História constrói, pois, a ponte por onde os homens transitam a temporalidade de suas ações, tirando da memória os fatos passados, verdadeiro tesouro de ensinamentos, a ciência e razão explicativa do presente, a assim vislumbrar a via pela qual se adentra o futuro ciente de suas encruzilhadas decisivas em que se bifurcam o caminho do bem inflamando os homens, para por ele trilharem, louvando suas virtuosidades exemplares, contra o do mal, advertindo-os para dele se afastarem, amaldiçoando suas viciosidades degradantes. A história configura, então, para o homem moderno, o que o mito do patrocínio da sabedoria de Minerva, tal como imaginado pelo antigo, assim consagrado pelo destino heróico de Hércules, porque ele optara entre a virtude e o vício. Tanto mais que a fama imortal a que os homens almejam como justa recompensa que os glorifique, impele-os a tomarem a via da excelência virtuosa. Por essa apreciação, a axiologia histórica que Bodin sustenta para a ética do homem moderno, de consoante consciência cristã, diverge daquela que lhe é antes antagônica por seus vezos de paganismo antigo como figurada no Sonho de Maquiavel. Mesmo aos malfeitores, assevera Bodin, oprimem as aflições que torturam suas almas pela antevisão da reputação infamante que deixarem na história a denegrir suas almas.

E, todavia, se os modelos antigos que a história projeta provêm ideal caro também aos modernos que retomam o topos ciceroniano que a diz magistra vitae, sua mímesis efetiva, enquanto ação atual regulamentada pelo saber histórico,28 entretanto, antes se esvai no tempo presente de que fala Bodin. Pela constatação do espanto que o toma, Bodin tece a crítica que dirige aos coevos, cegos para esta "descoberta": "não se encontra ninguém que compare as histórias célebres de nossos ancestrais entre si, nem as confronte com as gestas dos antigos".29 As "bibliotecas estão cheias de livros de história, pródigos em informações sobre o passado". Todavia, a (ir)reflexão sobre a história permanece imantada pela tradição da ars, prisioneira dos pruridos de aperfeiçoar a retórica de sua escrita por ideais de exórdios, narrativas e congêneres adornos estilísticos. A obsessão com a palavra esteriliza a ação e a história perde a razão útil de mímesis virtuosa porque seu estudo é valioso. Mas "isto poderia ser facilmente realizado se todas as espécies de atividades humanas forem dispostas junto e se a partir delas ordenarem-se variedades de exemplos, apropriadamente e cada qual em seu lugar".30 Eis, pois, a descoberta de Bodin: "Fui levado a escrever este livro pois percebi que, embora seja enorme e abundante a plêiade de historiadores, ninguém jamais explanou a arte e o método de seu objeto. Muitos negligente e incoerentemente confundem os relatos, e nenhum tira deles quaisquer lições".31

Uma hierarquia ordena a história em três categorias, diferenciadas segundo o domínio de realidades distintivamente contemplado: há uma "história humana" respeitante à vida dos homens em sociedade; há uma "história natural" consagrada ao estudo da natureza; e há uma "história divina", de espírito voltado para Deus. Distinção de objetos que referem, pois, três ordens de seres por modos de manifestação terrena mais, ou menos, aparentes, dispondo modos de apreensão, correspondentemente, mais, ou menos, imediatos: observação das sociedades que os próprios atos dos homens retratam; revelação das causas e princípios constitutivos que a natureza antes oculta; e contemplação da "força e poder de Deus Todo-poderoso e almas imortais, de tudo mais afastadas". Consoante com tal hierarquia cósmica resulta correspondente gradiente de excelência cognitiva por distintos graus de (in)certeza, que ascendem do humano, pela natureza, ao divino: o primeiro nível do saber conforma os ensinamentos da prudência, domínio do provável; o segundo constitui a ciência, âmbito do necessário ou inevitável; e o terceiro alcança o sagrado, porque se firma fé imperativa. Correspondentemente define-se a escala por que se ordenam as consciências virtuosas dos homens: pela prudência, discriminam o honroso do vil; pela ciência, o verídico do falso; e pela fé, a piedade do sacrilégio. Assim promovem, respectivamente, os ideais de justiça, verdade e bem, porque respondem a constituição da sabedoria humana, finalidade mesma que dá a razão da existência terrestre dos homens.

Adstrita ao âmbito da história humana, principia então a investigação projetada por Bodin por que ele assinala a originalidade do Methodus:

Dado que autores eminentes e eruditos já formularam concisamente em obras escritas esta tríplice classificação de seu objeto, me propus apenas isto - estabelecer uma ordenação e modo de leitura mais cuidadoso ajuizamento entre elas, especialmente quanto à história dos fatos humanos".32

A história propriamente dita é história humana, assim conscientizada como uma totalidade integrada, por modelo firmado, particularmente no âmbito da história de Roma antiga, pela agonística historiográfica que Políbio inaugura e Dionísio de Halicarnasso desdobra. No horizonte do mundo ampliado do século XVI, o saber acumulado sobre a história configura renovada totalidade, agora de dimensão universal, a reclamar que o modelo polibiano, originariamente concebido no âmbito da escrita e, pois, assim necessariamente particularizada (romana), agora compreenda o geral por todas as histórias, mas consequentemente deslocada para o âmbito de suas leituras.

Um repertório volumoso, afluxo imenso, de textos e obras escritas, uma espécie de biblioteca universal disponibiliza a memória conhecida de toda essa experiência humana ecumênica.33 O saber histórico que ambiciona utilidade efetiva reclama uma visão ordenada da história que "dissipe a mixórdia" de sua mera acumulação assim confusa,34 apreendendo o "método" por que se alcance compreensão e entendimento. Ele se constitui, então, por meio de operações de leitura que organizem o conjunto dos dados memorizados historicamente, predominantemente aceitos e admitidos em sua veracidade, de modo a depreender, descobrir os nexos de sabedoria (ensinamentos e modelos) que neles estão implicitamente disponibilizados. O Methodus, diz Julian Franklin, configura-se como "arte de leitura".35 "Tudo já foi dito e o problema reside na anarquia do discurso histórico. Bodin espera estabelecer uma linguagem e um modelo organizacional",36 que ordene o "caos" das histórias acumuladas pela experiência humana.37

Mas, em meio a tal pletora de livros, quais historiadores ler? Quais preceitos e critérios de excelência historiográfica discernem o cânone seleto? Dentre todos os livros disponibilizados pela experiência humana há que selecionar quais os melhores historiadores por meio dos quais se recomendem os informes e ensinamentos que ditem o compêndio da ciência histórica do presente. No capítulo IV do Methodus Bodin elabora o mapeamento da excelência historiográfica, primeiro estabelecendo os critérios, princípios e preceitos pelos quais se ajuízam a veracidade e a utilidade de cada historiador e sua história e, então, consoante com tais critérios, se defina a axiologia dos historiadores a partir da qual se recomende sua leitura.

Uma primeira aproximação reflexiva que ajuíze a (des)valia das histórias acusa o desvio mais elementar e patente pelo qual elas se perdem: o ufanismo, porque cada povo (ou nação ou cidade) exalta efusivamente seus próprios feitos guerreiros por heróicos e dignos contra, ou com o menosprezo com que desconsideram, ou mesmo com a hostilidade com que escarnecem os de seus inimigos. Por esse discernimento crítico o mais óbvio já os cita, mesmo sendo, entretanto, "bárbaros": acusavam as histórias viciosas dos gregos e latinos, todavia "civilizados", que enchiam suas bibliotecas, de não merecer deles outro fim ou destino que a destruição pelo fogo. História anedótica, porque civilizados contra bárbaros paradoxalmente desfiguram vícios por virtudes. Em contrapartida a tal desvio ufanista, o juízo mais recomendável se configura de modo inverso, quando os louvores que reconhecem a grandiosidade de um povo são firmados sim, mas por seus adversários. Assim primam as histórias que glorificam os espartanos, contra a pura verborragia e tagarelice oratória das dos atenienses. Por princípio primeiro, portanto, de juízo de veracidade histórica, Bodin lembra a advertência de trocar sábia cautela por prudência moderada sentenciada por Aristóteles: "na leitura da história há que nem sempre acreditar excessivamente nem simplesmente descrer".38

Princípio primeiro de ajuizamento que Bodin de imediato desdobra. A máxima firmada por Aristóteles dizia errarem, na apreciação das histórias, tanto os que nelas acreditem excessivamente quanto os que delas desconfiem plenamente: os primeiros porque, assim cordatos, tomam por verdade também o falso e acolhem viciosidades, porque a história promove ruína; os segundos porque, arraigadamente céticos, nulificam a história, a fazem perder virtudes por ser ela valiosa. No primeiro equívoco incidiram todos os povos que, por memória do passado, compuseram fábulas; no segundo, os turcos, povo sem memórias antigas, porque, contra as tradições orais, acusam a inconfiabilidade, e contra as histórias escritas, suspeitam de inverdades devidas aos comprometimentos atuais dos jogos de interesses que intrigam sua escrita.

Reflexão que, então, suscita, ou encadeia, outro preceito, ajustado, a propósito, e que acerte ou corrija os desvios justo apontados. Prefere-se o historiador que não enrede sua história pelas mazelas do tempo em que vive, e que seja assim imune às seduções de ganhos e comoções passionais de suas relações contemporâneas, antes voltando, pelo contrário, a composição de sua obra para a apreciação da posteridade. A consideração do caráter do historiador constitui, portanto, preceito judicante fundamental no discernimento axiológico das histórias. Mas, assim se controla apenas o vício da vaidade historiográfica, havendo também que assegurar-se que a história não descaia pelo viés da estupidez, porque à sua escrita venham a se dedicar antes os desprovidos de talento ou os que ignoram a matéria a qual discorrem. O que reclama conjugação de novo preceito: recomenda-se a qualificação do historiador por saber experiente, com familiaridade na ponderação, administração e governo das coisas humanas. Tanto mais primoroso é, por fim, o historiador que se aperfeiçoa e a todos os seus dotes (de caráter, talento, formação e experiência) pelo conhecimento da literatura aprofundada. Pelo contrário, tanto mais pobre e precário é o historiador que desprovido de experiência mais conhecimentos que os bons livros provem. Saber e competência configuram, portanto, "o critério mais importante para a seleção dos historiadores".

E, todavia, há que atentar ainda para mais outros requisitos e aspectos condicionantes na apreciação da excelência historiográfica, pois sobre todos os historiadores, porque humanos, é gravado o ônus das paixões, de que nenhum está isento. No jogo das predileções por que então se (des)favorecem os partidarismos? Há que se confrontar as avaliações assim prejudicadas contra as de um terceiro que, alheio a tais vieses, ajuíze como árbitro. Vantajosa, então, a posição daqueles historiadores que escrevem "à distância", descomprometidos com os nexos dos objetos historiados, ou porque situados de fora, como Dionísio de Halicarnasso ou Políbio, enquanto gregos, para a história de Roma, ou porque afastados no tempo, como Paulo Emílio ou Tácito, que compuseram suas histórias um século depois, quando se desvaneceram as pressões e demais injunções do presente, de modo a ensejar ao historiador uma percepção mais livre dos acontecimentos que configuram juízo "prudente" de apreciação "moderada".39

Rearticulando a sequência de preceitos mais critérios de ajuizamento de veracidade já examinados,40 Bodin avança a argumentação a conjugar mais outro, justamente decorrente da distância de temporalidade por último recomendada. O fator, então, a ser também contemplado respeita a proveniência e a fonte dos informes, porque os historiadores derivam os teores de suas histórias, de modo que privilegiam documentos e arquivos que os registram diretamente integrados à atualidade do desenrolar dos fatos e acontecimentos historiados contra "notícias de segunda mão". Razão por que

as narrativas são menos confiáveis no caso daqueles que obtiveram todos seus informes de segunda mão - pelos dizeres de terceiros, como coloca Políbio - e não viram os registros oficiais. Assim, os melhores escritores afirmam ter coletado seus materiais direto dos registros oficiais de modo a obterem maior crédito para seus escritos.41

Já quando ocorrer que historiadores acolham por verídicas histórias, entretanto, incríveis, a soma das anuências por autores respeitáveis vale como corroboração. Porque, todavia, assim eventualmente erros se perpetuam pelo encadeamento com que (re)passam de um historiador a outro. Desse modo, há que igualmente acautelar-se, atentando, pelo contrário, também para as divergências e discordâncias com que os historiadores se contradizem. Nesse caso, uma vez ressalvadas as condições fundantes de reconhecimento de veracidade por serem evidentes, irrefutáveis ou de aceitável plausibilidade, concede-se preferência à consciência histórica mais atual, ao autor assim recente, que possa se valer dos desvendamentos de erros que o avanço dos conhecimentos traz à luz.

Porque tais divergências e discordâncias entre historiadores respeitam principalmente as questões de religião; (re)ajustam-se, para esse caso, os preceitos ajuizadores porque se acerta a veracidade histórica. Em princípio, desrecomendam-se historiadores que, por filiação religiosa adversa, comprometam a fidedignidade de seu relato, a qual reclama, portanto, controle aferido em termos de seu zelo de acerto por laboriosidade de investigações a que se dedicou. Controle, todavia, apenas restrito a essa fonte de erro, ineficaz para detetar erros outros, por ignorância do passado histórico e das coisas antigas. Justamente por essa razão, a ignorância com que os povos desconhecem o passado e as antiguidades dos outros povos de que, entretanto, falam e discorrem - sejam gregos para com as realidades dos romanos ou dos celtas, sejam romanos para com as dos caldeus e hebreus - , há que se desconfiar e suspeitar tanto mais de pronunciamentos equivocados que incidem em teores de animosidade e censuras, assim, inaceitáveis, a serem rejeitados; a não ser que a autoridade do historiador em questão não admita dúvidas. Todavia, tal preceito é ainda insuficiente, pois pode também, pelo contrário, ser ele mesmo equivocado, pois, se os escritos envoltos em posições adversas não devem ser todos aprovados, tampouco devem ser inteiramente desaprovados.

Bodin compõe, por tais modos argumentativos, sua reflexão acerca do ajuizamento crítico da veracidade historiográfica enquanto parâmetro fundante do saber histórico sob a forma de uma espécie de narrativa em que, a cada dilema aventado, mais consequente é o preceito sustentado; ponderam-se desdobramentos antitéticos de outros dilemas e condizentes preceitos, que tanto avançam quanto retornam suas setorizadas (in)conclusões.42 Por vezes, os preceitos recomendados se coordenam e sobrepõem cumulativamente com os precedentes. Mas, por vezes, também eles se contrapõem e conflitam, assim enredando antes soluções circunstancialmente tópicas do que propriamente formulando uma ordenação geral de princípios que se firmem como regras decisivas configuradoras de um sistema de normatividade metodológica.43

No parágrafo expressamente dito conclusivo, porque intenta sintetizar uma formulação definitiva, o jogo dialético dos dilemas que retornam e se enredam reaparece. Bodin, primeiro, firma pela competência do historiador experiente no domínio da política qual seja o preceito fundamental o qual deve primar a crítica ajuizadora de veracidade.44 De imediato, entretanto, a esse primado do estrito saber factual, a verdade nua faz uma ressalva que restringe o alcance impositivo do mesmo, justamente relembrando o dilema inicial, porque agora diz da naturalidade, porque os nexos de pertinência de uma nacionalidade atuam na apreciação do historiador. Ou seja, são (re)tomados em consideração justamente aqueles desvios de parcialidade por ufanismo patriótico, a viciosidade primeira e mais elementar que compromete a veracidade historiográfica, de onde partira sua reflexão.45

As ponderações com que ele então aprecia o equacionamento desse dilema historiográfico ganham expressão um pouco ambígua, de tanto aventar objeções contra tal interferência, acusando suspeitas de sua aleivosia ética, quanto também admitir sua inevitabilidade, reconhecendo a força virtuosa daquela injunção patriótica. Assim, aponta para essa configuração virtuosa o exemplo de Políbio, por "todos considerado o mais verídico dentre os melhores historiadores" que, entretanto, "não reprimiu injúrias amargas contra Filarco que obliterara o valor e a bravura dos Megalopolitanos na guerra contra Aristômaco". Já para a configuração inversa, antes viciosa, cita como exemplo as obras de Sabélico, tão patentemente pró-venezianas que suscitaram de todos antes reticências e desconfiança, senão mesmo rejeição - e justo por um veneziano. Na gradação média entre um extremo e outro, Bodin lembra Plutarco por seu tratado em que denunciava a Malignidade de Heródoto, assim por ele cientificada, entretanto, mormente porque fora voltada contra seus conterrâneos "queronenses e beócios".46 Ambiguidade de argumentação antitética que perpassa inclusive sua ponderação final: "Quase todos os historiadores se debatem com esta fraqueza, se é fraqueza defender a dignidade de seu próprio povo por uma mentira honesta". Dilema, pois o imperativo da veracidade historiográfica defronta, porque interpelado por dever ético apreciado, algo tão ambíguo, como (des)recomendável. Desfecho, então, (in)conclusivamente, circunstanciado por que evolui sinuosamente a reflexão de Bodin a voltar a preceito já antes examinado, por que é privilegiada a figura de historiador estrangeiro, mas que conheça a história do povo que ele narra.47

Era motivo de perplexidade para Bodin que Cícero tivesse nomeado Heródoto "o pai da História". Honra indevida porque atentava contra a própria definição da história como narração verídica. Se Heródoto primava por algo era por contar antes fábulas e estórias tanto mais maravilhosas quanto falsas, irreais. Todos, desde a antiguidade, acusaram a inveracidade de suas histórias. A fórmula ciceroniana que glorificava Heródoto era equivocada, pois a proposição do deleite a ser tirado das narrativas de histórias não pode se sobrepor à expressão da verdade, esta sim imperativa. Não, prossegue Bodin, "são antes estúpidos aqueles leitores que nada admiram na história que não a eloquência, os discursos inventados ou as digressões diletantes", razão porque o crítico firma antes sentença contrária: "é praticamente impossível a um autor que propicie deleite fixar também a verdade sobre o que diz".48 Para Bodin, a tais espúrios deleites com que os homens se comprazem diante de histórias fabulosas, de que antes deviam desconfiar, se contrapõe o genuíno prazer derivado do conhecimento mesmo, assim suscitado por histórias verídicas. Deleite, esse sim, elevado, deveras portentoso por maravilhosa terapêutica anímica, porque estadistas curam doenças que nem a medicina conhece os remédios. Assim o evidenciam ou as histórias dos reis - de Espanha, Afonso que recuperou sua saúde pela leitura de Tito Lívio, e da Sicília, Fernando, pela de Quinto Cúrcio - , como também a de Lourenço Médicis, que encontrou refrigério para a sua extasiado pela história de piedosa exemplaridade que se contava acerca do imperador Conrado III.

Pelo contrário, justamente porque não se deixara iludir pelas fábulas míticas consagradas, pelos poetas que celebravam as perfeições idealizadas da "Idade do Ouro", antes retratando realmente que o passado helênico fora dominado, no princípio, por estado de "selvageria e ferocidade", Tucídides sim, diz Bodin, pode ser tido por "o verdadeiro pai da História".49

Para Bodin, então, a fama de Tucídides desloca a de Heródoto na honra de fundador da (genuína) escrita da história.

Por todo um nexo de figurações virtuosas Bodin ajuíza a excelência historiográfica de Tucídides. Lembra sua privilegiada condição social, assim proeminente por riqueza e linhagem régia. Diz de sua experiência e conhecimento da vida pública atuante, como seu legado em missões e ter sido pretor durante a guerra. Aponta seu zelo e diligência por consolidar a veracidade dos acontecimentos narrados por sua história ao promover investigações que os acertassem, nesse empreendimento despendendo grandes somas a pagar a coleta de tais informes. E especialmente porque presenciou os acontecimentos como que de "um ponto elevado",50 assim dissociando seu olhar de observador das perspectivas comprometidas com um ou outro lado que poderiam desvirtuar sua percepção, que não os ajuizou pela distorção imediata dos comprometimentos da nacionalidade e foi (in)diretamente corroborado pelos pronunciamentos dos próprios atenienses, que antes se "queixavam" de ter ele "favorecido" os espartanos. E tampouco assim desencaminhou sua narrativa e foi (in)diretamente corroborado pela impassionalidade com que não destratou, por injúrias de modos irados, seus próprios concidadãos que o haviam exilado, elogiando, pelo contrário, em sua história, quem assim o condenara, como a Péricles, ao afiançar que de sua liderança dependia a salvação de Atenas na guerra. Quem, então, sentencia Bodin, "não depositaria fé em sua história"?51

Os elementos de informes históricos por meio dos quais Bodin argumenta os nexos ajuizantes da excelência historiográfica tucidideana encontram-se também registrados nas compilações que compõem as Vitae de Tucídides, assim incorporadas às cópias manuscritas que transmitiram o texto de sua obra.52 Especialmente figurações de episódios e situações respeitantes à imparcialidade do historiador, que, pela apreciação de Bodin, são (re)acertadas sempre no sentido de firmar a melhor fama do ateniense.

Assim, em Marcelino aventa-se já como Tucídides valera-se de suas riquezas pessoais para financiar a coleta de informes correlatos à investigação dos fatos da guerra, razão por que remunerava combatentes, tanto atenienses quanto lacedemônios, porque lhe dissessem como se passaram os acontecimentos.53 Emprego, pois, exemplarmente virtuoso de seu zelo intelectivo, extremado por conhecer a verdade dos fatos - objetivo absoluto de vida de que não se desvia por sedução de prazeres outros. História anedótica que diz de historiador, que não poupa esforços e empenhos movidos por espírito de rigorosa imparcialidade, bem condizente com a figura de caráter severo, de modos austeros, que sua própria História indicia. Mas, o que essa assim o faz, apenas alusiva e elipticamente, antes silenciando os teores mais substantivos de seus procedimentos específicos e precisos de consecução,54 a tradição biográfica intenta plenificar positivamente por (re)criações conjecturais que transpõem suas próprias ideias da práxis historiográfica, assim (re)figuradas, como também tucidideanas.

Ainda em Marcelino registra-se o juízo que afirmava a imparcialidade do historiador na composição de sua obra, tanto mais corroborada pela impassionalidade com que retratara os acontecimentos. Assim, apesar de seu exílio de Atenas, então vitimado pela acusação da perda de Anfípolis, não contaminou sua narrativa por ódios ou rancores, que eventualmente pudessem ser extravasados contra os responsáveis por sua desgraça: não injuriou nem o ateniense Cleonte (o demagogo que manipulava as decisões da assembleia em Atenas naquela época) nem o espartano Brásidas (o comandante que tomara Anfípolis). A maioria dos historiadores, lembra o biógrafo, dizem os fatos consoante os (des)favores dos nexos pessoais que neles estejam envolvidos, ou por maledicência denegrindo quem lhes fosse adverso (assim Heródoto contra os Coríntios, Xenofonte para com Mênon) ou, pelo contrário, por beneplácito, exaltando quem lhes fosse vantajoso (assim Timeu em relação a Timoleonte, Filisto para com Dionísio o Jovem). Não, Tucídides diferia por espírito tão "moderado e equânime", alheio a tais mazelas viciosas de ordem pessoal, que bem se o diz "amigo da verdade", ou mesmo dela um verdadeiro "escravo".55

Que as memorizações bodinianas (re)acertem tais histórias, conjuminando-as pela melhor fama da imparcialidade do historiador pode ser apreciada pela consideração das configurações episódicas incorporadas às Vidas que antes a acusavam negativamente. Na do autor anônimo, faz-se referência aos rumores que diziam ter Tucídides "favorecido" os Lacedemônios em sua obra, quer acusando a tirania do Estado ateniense, quer ressaltando os discursos inculpatórios que lhe dirigiam os adversários (coríntios, espartanos e mitilênios), quer exaltando as vitórias dos lacedemônios contra o exagero com que narrava os desastres sofridos por Atenas, especialmente o da Sicília. Todavia, o que a Vida assim destaca denuncia justo o destempero passional deturpador com que Tucídides (des)apreciara os fatos, enviesando-os contra Atenas em decorrência de seu exílio.56

Também na Vida de Marcelino encontra-se apontamento divergente do por era mesmo referido momentos antes em sua narrativa. Pois agora o texto, lembrando expressamente ter sido Cleonte quem promovera contra Tucídides as acusações pela perda de Anfípolis que causaram seu exílio, afirma ter o historiador destilado seu ódio contra aquele adversário pessoal, retratando-o sempre como um "demente".57 De modo que, firmada a figura de Cleonte como o promotor da desgraça política de Tucídides, a fama da imparcialidade do historiador oscila consoante a projeção de atitudes historiográficas, ou imparciais porque altaneiras ou, pelo contrário, enviesadas porque rancorosas, com que as tradições biográficas ou corroboram ou, pelo contrário, condenam.

Ora, Bodin identificou Péricles como quem movera a acusação contra Tucídides, equívoco histórico evidente face ao próprio texto do historiador, pois, quando de seu exílio por ocasião da perda de Anfípolis, Péricles estava morto há já alguns anos. Muito provavelmente o erro de Bodin se deve à confusão entre a figura do historiador, filho de Oloro, com a de outro Tucídides, filho de Melésias,58 este sim exilado de Atenas ao ser derrotado por Péricles na disputa de liderança travada em torno à questão do uso dos recursos financeiros da Liga de Delos para o embelezamento urbano de Atenas. Por esse lapso histórico, entretanto, harmoniza-se o (re)acerto da fama tucidideana, por ser historiador que, exaltando em sua história a atuação de Péricles, louvara justo quem fosse seu adversário pessoal. Pelo contrário, aventado Cleonte, o demagogo, como o promotor da ruína política de Temístocles em Atenas, compromete-se correspondentemente a projeção da fama do historiador, por mancha que assim deslustra(ria) sua (im)poluta (im)parcialidade. Por toda a história moderna dessas projeções da fama tucidideana, desde seus inícios pelo Renascimento até fins do século XX, o dilema persiste com os críticos oscilando a fama da virtuosidade contra a da viciosidade historiográfica de Tucídides ao sabor das intrigas de sua dialética narrativa que opõe a figuração, porque Péricles é exaltado contra o porquê de Cleonte ser denegrido.59

Por qual deslize de (re)conhecimento histórico se (des)aprecie a (im)parcialidade historiográfica, porque responde a fama de Tucídides, a formulação dela apresentada por Jean Bodin condiz com a valoração do historiador figurado como "juiz", pois os juristas franceses refletiram sobre a história no contexto das lutas de religião na França de meados do século XVI. Avançando além da representação dominante no horizonte do humanismo renascentista, por que o historiador fosse apreciado mormente por sua arte retórica em modo advocatício, busca-se firmar para o saber histórico a autoridade política do discurso que firma a verdade, porque a apreende por observação em posição elevada, acima dos contenciosos das partes em conflito que a comprometem.60 Também e especialmente Bodin assimila a identidade do historiador pela figura do juiz, situado acima das partes, assim contraposta à do advogado que, pelo contrário, assume a (des)razão da parcialidade.61 Por todas essas celebrações com que Bodin evoca certa seletividade da memória de Tucídides enquanto ideal ou modelo historiográfico, ela assim comparece em figuração de sabedoria ajuizante, justo similar aos modos da heroicidade nestoriana, que, como histor, resolve os conflitos e divergências, porque situada acima dos lados querelantes.62

 

Heródoto, de Henri Estienne a La Popelinière

1566, na esteira dos contrapontos pelos quais os críticos modernos apreciavam as virtudes historiográficas que os nomes de Heródoto e Tucídides assinalam, um pólo de ajuizamentos contrastantes se configura entre o que então dizia Jean Bodin, por inícios desse ano no Methodus ad facilem historiarum cognitionem, e o que Henri Estienne, nesse mesmo ano, como prefácio de sua edição das Histórias herodoteanas, argumentara na Apologia pro Herodoto, em que toma a defesa do historiador antigo, intentando limpar sua reputação da nódoa de mentiroso que perseguia seu nome. No mês de novembro,63 desdobra e desenvolve o ensaio original em obra ampliada integrando à saciedade os informes das áreas recém descobertas pelos navegadores modernos a parir das quais fundamenta sua proposição metodológica de veracidade.64 Introduction au Traité de la conformité des merveilles anciennes avec les modernes ou Traité préparatif á l'Apologie pour Hérodote.65

No desapreço dos que desacreditam as histórias de Heródoto, Estienne acusa um equivocado encadeamento inferencial, modo banal por que os homens (de)limitam a (in)consciência (in)experiente do mundo (ir)real. O que se diz de coisas que distam de seus olhos, ou que se referem a terras longínquas ou a épocas remotas, enseja a quem conta a ousadia contra, a quem ouve, a descrença por meio da qual se denuncia a mentira. Falsa dialética com que (des)entendem a (in)verdade das histórias de Heródoto. A argumentação de Henri Estienne põe em questão, pois, os pontos tênues, porque ambíguos, fundamentos da descrença. Tais modos de (des)crença, por (des)razão assim "leviana", são ímpios, pois, ao vitimarem os textos profanos, atentam contra o que afirmam as Sagradas Escrituras que dizem fatos similares. Ao ignorar-se o maravilhoso relatado pelos historiadores antigos, (in)consequentemente, não só se irreleva a experiência humana como, pior ainda, se nega a onipotência divina, desqualificando a figura do Criador que (des)faz a natureza e (con)forma o humano consoante a justiça de seus atos. Porque, então, descrer de Heródoto quando fala de gigantes e pigmeus, se a Bíblia atesta os primeiros e a existência dos anões indicia os segundos?66 Seria também ridículo e, pois, mera "invenção" de um Heródoto assim "mentiroso" o que ele diz da gestação (não inferior a "dez meses") das mulheres? Não conta ele nesses termos a história do nascimento de Demarato, o rei espartano? Aríston desposara já duas mulheres, sem ter filhos. A terceira, por ele raptada seduzido por sua beleza juvenil, pariu-lhe um filho. Ao saber a notícia em reunião junto aos éforos, o rei, entretanto, negou a paternidade, pois, contando nos dedos quantos meses haviam se passado desde seu casamento, não somavam dez! E, todavia, prossegue a argumentação de Estienne: não só Heródoto, mas inúmeros outros autores antigos dizem esse fato por supor que o período de gestação feminina na época deles fosse divergente do que agora é normal. Se Heródoto mente, então há que tomar também por mentirosos todos estes que dizem o mesmo que ele, não obstante escritores "bem sérios", não só poetas (Teócrito, Plauto, Cecílio, Virgílio, Propércio), como filósofos e estudiosos (Hipócrates, Galeno, Plutarco, Plínio, mais jurisconsultos).67 Recusando essa ponderação radicalmente negativa, porque, entretanto, seguiria o pirronismo histórico, Henri Estienne reafirma, pelo contrário, a veracidade dos relatos antigos. A única inferência lógica a tirar então dessa história aponta que a natureza da mulher antiga diferia, nesse aspecto do período de gravidez, da atual, porque o acontecimento normal, contra extraordinário, têm suas configurações invertidas.68

Por douto e arguto que fosse o arrazoado com que Henri Estienne movera a defesa de Heródoto a limpar a nódoa de mentiroso que o difamava, La Popelinière acusa, na trama advocatícia do comentador, as mazelas de um ludíbrio que apenas ilude a verdade ao dissimular e encobrir a mentira sob a presunção do factível. Analogias episódicas, porque acontecimentos modernos guardam similitudes de tão maravilhosas ocorrências quanto as narradas por histórias antigas, não constituem prova de veracidade factual dessas, razão por que as mesmas permanecem, ainda assim, incógnitas. Não, a justa causa da verdade histórica não se satisfaz com mero deslize de conjectura que parcializa similitudes de plausibilidade convenientes. O estabelecimento da verdade histórica reclama provar a realidade do fato, fundamentada em operação lógica inferencial de "razão efetiva" conjugada com "exemplos e autoridades".69

Ao fechar-se o século XVI, a infâmia de Heródoto persiste com e por La Popelinière. Na trilogia da L'Histoire des Histoires o historiador moderno lembra várias notícias e tradições que acusavam as mentiras, indiscrições, ignorância, leviandades e malignidade do historiador antigo.70 "Pseudo história", diz La Popelinière, antes cheia de fábulas, modo indigno porque se a desonra. Então, aponta em Heródoto os envolvimentos viciosos do historiador. Por um lado, desvirtua a verdade por favorecimento, pois, movido por vaidade e interesses escusos de "ganhos e favores", adula os poderosos ("mesmo tiranos"), de modo que nele se denunciam antes "a vileza e servilismo do bajulador".71 Por outro, também a desvirtua no sentido contrário, por hostilidade, pois persegue caluniosamente seus desafetos. Em suma, é Heródoto, quem "prostituiu a história, pondo a leilão a casta verdade", quem a dignifica. Antes de "Pai da História", ao que proclamara Cícero, o "Príncipe da Mentira", porque o desqualificara Plínio.72

 

Epílogo: o historiador entre heróico e gênio

Desde o princípio com Heródoto, porque o lógos se sobreponha ao mito como fundamento discursivo de civilização, o dilema da historiografia, derivada como desdobramento do épos, se configura por: relatos verídicos contra mentirosos, isentos contra parciais. Como firmar a dignidade distintiva da história porque se memorizem as realidades dos feitos, das obras e dos modos com que nela agem os homens? Porque se são contadas as histórias tendo em vista um público a que elas se dirigem, como deve o historiador conformar modos narrativos que assegurem convicção de veracidade para as coisas que ele relata como fatos reais? Que virtudes excepcionais lhe são exigidas por recomendação de preceitos e deveres que consagrem a autoridade de sua narração?73

Mas a apreensão da verdade do fato unívoco, adverte Tucídides, é obra "penosa". Reclama ingente empenho de inteligência para resolver a aporia intrínseca de sua consecução, pois, para tanto, o historiador se defronta com a dialética inconciliável dos relatos conflitantes apresentados pelos que presenciaram os acontecimentos e, consoantemente, os informaram. Supõe sujeito humano dotado de espírito superior, distinguido por excelência de plena maturidade experiente que a razão capacita, de modo a poder discernir toda a verdade que desaparece confundida por essa dialética informativa. Via de trajeto difícil, percurso penoso de ingentes trabalhos, restrito a um único caminho que conduz justo à descoberta da verdade do fato. Via de conhecimento histórico própria a um destino pessoal heróico por areté de intelecto excepcional, privilégio de um indivíduo cujo nome chancela a obra por seu primeiro termo declarativo: Tucídides de Atenas.74

Similarmente o dá a entender Luciano listando o acúmulo de virtudes reclamadas por almejar escrever história excelente:

Portanto, assim deve ser para mim o historiador: sem medo, incorruptível, livre, amigo da franqueza e da verdade; como diz o poeta cômico, alguém que chame os figos de figos e a gamela de gamela; alguém que não admita nem omita nada por ódio ou por amizade; que a ninguém poupe, nem respeite, nem humilhe; que seja juiz equânime, benevolente com todos até o ponto de não dar a um mais que o devido; estrangeiro nos livros, apátrida, autônomo, sem rei, não se preocupando com o que achará este ou aquele, mas dizendo o que se passou".75

Ser historiador requer tanto ser pessoa provida de um complexo de virtudes excepcional, por exigir domínio absoluto de paixões, (res)sentimentos e (des)afetos, quanto ser indivíduo cuja situação no mundo pode mais propriamente ser dita inexistencial, pois intriga pertinência a um lugar, dito a-polis, que antes o desvincula do mundo humano. Ideal que, pois, configura persona de qualificação mais divina, na medida em que se concebe sua ideia por atributos definidos por negação de modos e aspectos inerentemente humanos.76

No horizonte de historicidade do pensamento antigo, a categoria do heróico responde por essa (con)fusão de humano com divino porque ganha inteligibilidade a projeção de tal persona de historiador ideal. Nesse sentido, a distinção de dignidade historiográfica figurada por Tucídides aproxima-o propriamente da excelência de arte discursiva que tem Homero por nome conceitual Nestor. Especialmente na cena da querela entre Agamêmnon e Aquiles, a figura do venerado conselheiro atua particularmente em função judicante, pois discerne a decisão que acerta a dialética das (des)razões de duas partes em conflito. Similarmente ao modo como também o poeta memoriza na cena do escudo de Aquiles, conselheiro vale por histor.77

Na intriga dessas heranças entre epopéia e história, o historiador então figuraria, correspondentemente a Nestor, apreciado como conselheiro cuja narrativa dos fatos acontecidos, assim acertados univocamente a superar a dialética conflitante dos relatos parciais e comprometidos que os relataram, responde pelo discurso sapiencial que reitera os preceitos da ordem política por singulares modos nestorianos de saber historiante, assim heroicizante78.

Em tempos inaugurais da modernidade, pelo que assim diz Maquiavel ou pelo que similarmente imagina Bruegel em Paisagem com a queda de Ícaro,79 refigura-se o heróico herdado do imaginário da Antiguidade Clássica sujeitando-se (e mesmo diluindo-se) a sua concepção antiga (porque se (con)fundia humano com divino) em termos da "imanência da história".80 Por tais jogos retóricos situarem nexos figurativos entre humano e divino, querer e poder,81 retomados dos antigos porque os modernos refletem sobre os dilemas da escrita da história, indecide-se o nexo conceitual que, dizendo da excelência superlativa do historiador, ordena a epistemologia da arte ou a ciência do discurso historiográfico, assim vacilante no trânsito entre sua apreensão pelo evanescente conceito antigo do heróico e o moderno do gênio/engenho então apenas florescente.82

Por Niebuhr mais Ranke, Wihelm Roscher e Eduard Meyer, compondo o quarteto de historiadores do século XIX que Santo Mazarino qualificou de "os Alemães Tucidideanos",83 a fama de Tucídides, então "idealizado como historiador perfeito",84 é consagrada por uma espécie de apoteose historiográfica, estimando-se sua história como obra extraordinária, singularmente excelsa, inigualável. Com o conceito de gênio então bem firmado nesses inícios do XIX,85 a moderna concepção "científica" de história inaugurada por Niebuhr e Ranke atualiza esse diálogo epistemológico porque o deslocamento da figura (antiga) do "herói" dá lugar, nos horizontes de suas respectivas sensibilidades de pietismo religioso,86 à figura (moderna) do gênio,87 entendido como parâmetro conceitual que catalisa a apreciação da excelência da práxis historiográfica. Por tais historicizadas figurações conceituais, articula-se a ideia ajuizadora da vocação do historiador consoante a ambígua afinidade versus distância, por que se representam as limitações da condição humana face ao caráter sublime da projeção divina.

 

 

Artigo recebido em: 24/08/2011.
Aprovado em: 04/12/2011.

 

 

1 RIPA, Cesare. Iconologia. Roma: appresso Lepido Facii, 1603, p.346.         [ Links ]
2 RIPA, Cesare. Iconologia, p.349 e p.143.
3 RIPA, Cesare. Iconologia, p.103.
4 RIPA, Cesare. Iconologia, p.103, p.351 e p.175.
5 RIPA, Cesare. Iconologia, p.346.
6 RIPA, Cesare. Iconologia, p.346.
7 LA POPELINIÈRE, Henri Lancelot Voisin de. L' histoire des histoires: l'idée de l'histoire accomplie. Paris: Fayard, 1989, p.143, 2v.         [ Links ]
8 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history. Translated by Beatrice Reynolds. New York: W.W. Norton & Company, 1969, p.298.         [ Links ]
9 HOBBES, Thomas. Hobbes's Thucydides. Edited with an introduction by Richard Schlatter. New Brunswick: Rutgers University Press, 1975, p.6-7.         [ Links ]
10 A contraposição historiográfica de Heródoto e Tucídides, já firmada pelos autores antigos (Cícero e Quintiliano especialmente), comparece figurada em destaque nos dicionários de meados do XVI que fazem confrontar seus respectivos retratos. Ver OLIVIERI, Achille. Erodoto nel Rinascimento: l'umano e la storia. Roma: L'Erma di Bretschneider, 2004, p.29 e p.31.         [ Links ]
11 As reflexões pelas quais conduzimos nossos desígnios analíticos na abordagem dessa agonística historiográfica moderna afastam-se da apreciação com que Arnaldo Momigliano teceu esse paralelo polibiano-tucidideano em The Classical Foundations of Modern Historiography. Ver: MOMIGLIANO, Arnaldo. The Herodotean and the thucydidean tradition. In: The classical foundations of modern historiography. Berkeley/ Los Angeles-Oxford: University of California Press, 1990, p.29-53.         [ Links ] A mirada à vol d'oiseau pela qual ele enquadrou a questão, a ponderação redutora de seu ajuizamento por operação de categorias historiográficas teleologicamente retroprojetadas de sua contemporaneidade, para os inícios da modernidade, ou para a antiguidade (história política, historiador profissional, etc), mais o estilo argumentativo conferencista de seus ensaios despreocupados das referenciações fundamentadoras de suas teses, tornam problemáticas uma justa ponderação das mesmas, tanto mais espinhosas face à aura de autoridade que envolve sua palavra no domínio da epistemologia historiográfica. Confiram-se, nesse sentido: o estudo de HÜBSCHER, Bruno. Arnaldo Momigliano: história da historiografia e do mundo antigo. 2010. Dissertação (Mestrado em História) - USP, São Paulo,         [ Links ] mais as análises críticas de Guido Schepens sobre as teses de Momigliano sobre o modelo tucidideano da historiografia antiga; SCHEPENS, Guido. Thucydide législateur de l'histoire appréciations antiques et modernes. In: FROMENTIN, Valérie; GOTTELAND, Sophie e PAYEN, Pascal. (orgs.). Ombres de Thucydide: la réception de l'historien depuis l'antiquité jusqu'au début du XIXe siècle. Paris/Bordeaux: Diffusion De Boccard, 2010, p.121-140.
12 O deslocamento do parâmetro da forma narrativa centrada na questão do estilo, de que Tito Lívio era o modelo por excelência, para o do primado do imperativo da veracidade factual, é situado por MELANI, Igor. Il tribunale della storia: leggere la methodus di Jean Bodin. Firenze: L. S. Olschki, 2006, p.154 e p.163-165.         [ Links ] Em torno dos anos de 1560, pondo em destaque a atuação dos juristas franceses (François Baudouin, Jean Bodin, Henri Estienne e outros) que justamente tinham por foco fundamentar sua ciência no conhecimento da história.
13 Conferir as considerações de McCREA, Adriana. Reason's muse: Andrew Marvell, R. Fletcher, and the politics of poetry in the engagement. Albion: A Quarterly Journal Concerned with British Studies, Boone, v.23, n.4, p.671 e p.676-677, 1991;         [ Links ] ROWAN, Steven. Philosophy and government, 1572-1651. Resenha crítica de Richard Tuck. Renaissance Quarterly, New York, v.47, n.3, p.678, 1994.         [ Links ]
14 Conferir os apontamentos de COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance: une lecture de la methodus ad facilem historiarum cognitionem de Jean Bodin. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1996, p.235-237;         [ Links ] MELANI, Igor. Il Tribunale della storia, p.4-6.
15 BROWN, John. The methodus ad facilem historiarum cognitionem of Jean Bodin: a critical study. Washington: The Catholic University of America Press, 1939, p.2-3;         [ Links ] COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.237-238.
16 COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.238; MELANI, Igor. Il tribunale della storia, p.6.
17 O tratado de François Baudouin (De institutionae historiae universae et ejus cum jurisprudentia conjunctione prolegomenon) data de 1561 e o de François Hotman (Antitribonianus) de 1567. Demais indicações de obras contemporâneas que configuram esse contexto são dadas por BROWN, John. The methodus ad facilem historiarum cognitionem of Jean Bodin, p.29-45.
18 Particularmente enfatizado por BROWN, John. The methodus ad facilem historiarum cognitionem of Jean Bodin, p.29.
19 A Carta dedicatória em que apresenta a obra a Jean Tessier, Presidente da Corte de Inquéritos, registra a data de 1 de fevereiro desse ano.
20 COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.19.
21 A mutação decisiva que as teses do Methodus conformam em relação ao período da estada de Bodin em Toulouse de tradicional definição "romanista" é objeto das análises de CAPRARIIS, Vittorio. Propaganda e pensiero politico in Francia durante le Guerre di Religione (1559-1572). Napoli: Edizione Scientifiche Italiane, 1959, p.340.         [ Links ]
22 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.2.
23 Todos os críticos modernos o assinalam exaustivamente: BROWN, John. The methodus ad facilem historiarum cognitionem of Jean Bodin, p.22; CAPRARIIS, Vittorio. Propaganda e pensiero politico in Francia, p.341 e p.346; FRANKLIN, Julian H. Jean Bodin and the Sixteenth-century Revolution in the methodology of Law and History. New York/ London: Columbia University Press, 1963, p.7-82;         [ Links ] KELLEY, Donald R. Foundations of modern historical scholarship: Language, Law, and History in the french renaissance. New York/ London: Columbia University Press, 1970, p.87-150;         [ Links ] DESAN, Philippe. Naissance de la Méthode (Machiavel, La Ramée, Bodin, Montaigne, Descartes). Paris: Librairie A.-G. Nizet, 1987, p.98-101;         [ Links ] COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.81-138.
24 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.8. Nesse sentido, Marie-Dominique Couzinet aponta particularmente o nexo que articula o Methodus com Six Livres de la République; COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.24. Assim também o argumenta BROWN, John. The methodus ad facilem historiarum cognitionem of Jean Bodin, p.xviii-xix).
25 Methodus, Dedicatória (Bodin, 1969: 1).
26 Já assim apontado por KELLEY, Donald R. Faces of history: historical inquiry from Herodotus to Herder. New Haven/ London: Yale University Press, 1998, p.197-198.         [ Links ]
27 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.9.
28 COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.30.
29 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p 9.
30 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.9.
31 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.14.
32 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.16.
33 COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.25.
34 COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.38.
35 FRANKLIN, Julian H. Jean Bodin and the sixteenth-century revolution in the methodology of law and history, p.4 e p.83-88. Conferir, igualmente, o comentário de COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.25.
36 DESAN, Philippe. Naissance de la méthode, p.108.
37 DESAN, Philippe. Penser l'histoire à la Renaissance, p.149.
38 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.42.
39 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.46.
40 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.46.
41 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.47.
42 Confiram-se similarmente os comentários de George Huppert sobre o Methodus; HUPPERT, George. L'idée d'histoire parfaite. Traduit par Françoise et Paulette Braudel. Paris: Flammarion, 1973, p.100-101.         [ Links ] Para, em sentido inverso, uma apreciação que discerne, no emaranhado expositivo de Bodin, alguma ordenação de estruturada coerência narrativa, vejam, por um lado, as propostas de MELANI, Igor. Il tribunale della storia, p.127-136 e, por outro, as de SÉGUIER-LEBLANC, Cathérine. Le Gibier de l'homme d'état": lecture et exemplarité de l'histoire à la fin du XVIe. siècle en France. 2003. Thèse (Doctorat sous la direction de Jean Balsamo) - Université de Reims, França, p.112-132.
43 Especialmente no capítulo final de FRANKLIN, Julian H. Jean Bodin and the sixteenth-century revolution in the methodology of law and history, p.137-154, avaliar as similitudes que as reflexões do tratado de Bodin comportam com os princípios metodológicos da crítica interna então em vias de constituição. Já John Brown examina os nexos que articulam o Methodus de Bodin com os tratados de ars historica que o antecedem; BROWN, John L. The methodus ad facilem historiarum cognitionem of Jean Bodin, p.46-85. Por outro lado, tanto BROWN, John L. The methodus ad facilem historiarum cognitionem of Jean Bodin, p.193, quanto COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.24-25. advertem contra a assimilação da obra de Bodin em termos das concepções de metodologia da história consagradas mais contemporaneamente.
44 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.50.
45 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.50.
46 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.50.
47 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.51.
48 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.55-56.
49 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.298.
50 COUZINET, Marie-Dominique. Histoire et méthode à la Renaissance, p.285.
51 BODIN, Jean. Method for the easy comprehension of history, p.56.
52 LUSCHNAT, Otto. Thukydides der historiker. In: RE Suppl. XII, 1970, p.1087.
53 Marcelino (THUCYDIDES. Histoire de la Guerre du Péloponnèse. Traduction française par Ambr. Firmin Didot, avec notes et cartes, tome premier, seconde édition. Paris: Typographie de Ambroise Firmin Didot, Thucydides, 1868-72, p.cxlvij-cxlix).
54 Confiram-se suas considerações tidas tradicionalmente por "metodológicas" no capítulo 22 do livro I. Nesse sentido, ver as reflexões formuladas em nossos trabalhos anteriores, especialmente A Retórica do método. Ver: MURARI PIRES, Francisco. The rhetoric of method (Thucydides I.22 and II.35). Ancient History Bulletin, Calgary, v.12 n.3, p.106-112, 1998;         [ Links ] MURARI PIRES, Francisco. A retórica do método (Tucídides I.22 e II.35). Revista de História. São Paulo, n.138, p.9-16, 1998;         [ Links ] MURARI PIRES, Francisco. Thucydide et l'assemblée sur Pylos (IV.26-28): rhétorique de la méthode, figure de l'autorité et détours de la mémoire. The Ancient History Bulletin, Calgary, n.17, p.127-148, 2003.         [ Links ]
55 Marcelino (THUCYDIDES. Histoire de la Guerre du Péloponnès, p.clj).
56 Vida Anônima (THUCYDIDES. Histoire de la Guerre du Péloponnèse, p.clxxiij).
57 Marcelino (THUCYDIDES. Histoire de la Guerre du Péloponnèse, p.clxj).
58 Confira-se na Vida anônima um similar procedimento historicamente assim equivocado de (des)memorização do episódio (THUCYDIDES. Histoire de la Guerre du Péloponnèse, p.clxxiij-clxxv).
59 MURARI PIRES, Francisco. Thucydidean modernities: history between science and art. In: RENGAKOS, Antonios and TSAKMAKIS, Antonis (eds.). Brill's companion to Thucydides. Leiden/ Boston: Brill, 2006, p.828-829.         [ Links ]
60 Conferir os comentários de MELANI, Igor. Il tribunale della storia, p.51.
61 Conferir as análises e comentários de SÉGUIER-LEBLANC, Cathérine. Le Gibier de l'homme d'état", p.114-129.
62 Analogamente, MELANI, Igor: Il tribunale della storia, p.171 e p.193-200. entende que a visão positiva, de estilo "apologético", com que Bodin ajuiza a figura historiográfica de Tácito, modelo preferível a Tito Lívio, corresponde à sobreposição bodiniana de seu ideal do "historiador como juiz perfeito". Nesse sentido, a percepção de Bodin sobre os historiadores antigos corresponderia ao horizonte de ideias características dos "politiques" franceses de meados do XVI ("filo-francesas e anti-imperiais, filo-monárquicas e anti-republicanas, galicanas e anti-papais). A associação é também marcada por LESTRINGANT, Frank; RIEU, Josiane e TARRETE, Alexandre. Littérature française du XVIe siècle. Paris: Presses Universitaires de France, 2000, p.295.         [ Links ]
63 Conferir os dados respeitantes a ambas as publicações em BOUDOU, Bénédicte. Mars et les muses dans l'apologie pour Hérodote d'Henri Estienne. Genève: Librairie Droz, 2000, p.8-9.         [ Links ]
64 Frank Lestringant, analisando tal proposição metodológica da "conférence" (por "relatos de histórias que se correspondem e confirmam mutuamente") em Jean de Léry, a identifica primeiramente em Henri Estienne; LESTRINGANT, Frank. Le Huguenot et le sauvage: L'Amérique et la controverse coloniale en France au temps des Guerres de Religion (1555-1589). Paris: Aux Amateurs de Livres, 1990, p.100-102.         [ Links ]
65 A defesa de Heródoto por Henri Estienne desdobra a que já, alguns anos antes (1541), seu amigo e também reformado Joachim Camerarius tecera no prefácio à tradução latina do historiador grego por Lorenzo Valla editada em Bâle: BOUDOU, Bénédicte. Mars et les muses dans l'apologie pour Hérodote d'Henri Estienne, p.31.
66 BOUDOU, Bénédicte. Mars et les muses dans l'apologie pour Hérodote d'Henri Estienne, p.553-555.
67 ESTIENNE, Henri. Introduction au traité de la conformité des merveilles anciennes avec les modernes ou traité préparatif à l'apologie pour Hérodote. Paris, 1566, p.14-15.         [ Links ]
68 BOUDOU, Bénédicte. Mars et les muses dans l'apologie pour Hérodote d'Henri Estienne, p 561.
69 LA POPELINIÈRE, Henri Lancelot Voisin de. L' histoire des histoires, p.139-140.
70 LA POPELINIÈRE, Henri Lancelot Voisin de. L' histoire des histoires, p.135-140.
71 LA POPELINIÈRE, Henri Lancelot Voisin de. L' histoire des histoires, p.39.
72 LA POPELINIÈRE, Henri Lancelot Voisin de. L' histoire des histoires, p.136.
73 MURARI PIRES, Francisco. Mithistoria. São Paulo: Humanitas, 1999, p.147-276;         [ Links ] MURARI PIRES, Francisco. Thucydide et l'assemblée sur Pylos (IV.26-28), p.127-148;         [ Links ] MURARI PIRES, Francisco. Prologue historiographique et proème épique: les principes de la narration en Grèce ancienne. Quaderni di Storia, Bari, n.58, p.73-94, iuglio-dicembre 2003.         [ Links ]
74 MURARI PIRES, Francisco. Mithistoria, p.147-276; MURARI PIRES, Francisco. Thucydide et l'assemblée sur Pylos (IV.26-28), p.127-148; MURARI PIRES, Francisco. Prologue historiographique et proème épique, p.73-94.
75 LUCIANO. Como se deve escrever a história. Tradução e ensaio por Jacyntho Lins Brandão. Belo Horizonte: Tessitura, 2009, p.41. Considerar ainda mais estas duas passagens: "Sobretudo, que seu pensamento se torne semelhante a um espelho impoluto, brilhante, preciso quanto a seu centro - e, qualquer que seja a forma dos fatos que recebe, assim os mostre, sem nenhuma distorção, diferença de cor ou alteração de aspecto"; "(...) de modo que se diga de ti: Aquele era seguramente um homem livre e totalmente franco, nada bajulador, nada de servil, mas verdadeiro em tudo"; LUCIANO. Como escrever história, p.50 e p.61.
76 MURARI PIRES, Francisco. La Popelinière et la Clio thucydidéenne: quelques propositions pour (re)penser un dialogue entre L'idée d'histoire accomplie et le ktéma es aei. In: FROMENTIN, Valérie; GOTTELAND, Sophie e PAYEN, Pascal. (ogrs.) Ombres de Thucydide. La réception de l'historien depuis l'antiquité jusqu'au début du XIXe siècle. Paris-Bordeaux: Diffusion De Boccard, p.665-678, 2010; MURARI PIRES, Francisco. Machiavel et Thucydide: le(s) regard(s) de l'histoire et les figurations de l'historien. Cahiers des Études Anciennes, Quebec, n.47, p.263-281, 2010b; MURARI PIRES, Francisco. Maquiavel e Tucídides; o(s) olhar(es) da história e as figurações do historiador. Revista de História, São Paulo, número especial, p.51-68, 2010.
77 Conferir nossos comentários em que procuramos aproximar as figurações (ditas) "metodológicas" da escrita da história tucidideana, justamente das correspondentes figurações de atuação judicante do histor arcaico: MURARI PIRES, Francisco.Thucydide et l'assemblée sur Pylos (IV.26-28): rhétorique de la méthode, figure de l'autorité et détours de la mémoire, p.130-132
78 Para esta caracterização da figura de heroicidade com que o historiador recomenda sua obra, vejam-se: MURARI PIRES, Francisco. The rhetoric of method (Thucydides I.22 and II.35). Ancient History Bulletin, v.12, n.3, p.106 e 112, 1998;         [ Links ] MURARI PIRES, Francisco. Mithistoria, p.205-234; MURARI PIRES, Francisco. Thucydide et l'assemblée sur Pylos (IV.26-28): rhétorique de la méthode, figure de l'autorité et détours de la mémoire, p.127-148; MURARI PIRES, Francisco. Prologue historiographique et proème épique: les principes de la narration en Grèce ancienne. Bari, Quaderni di Storia, n.58, p.73-94, iuglio-dicembre 2003.         [ Links ]
79 MURARI PIRES, Francisco. A Morte do heróico. Rio de Janeiro, Filosofia e Política, v.III, n.1, p.102-114, 2001.         [ Links ]
80 Conferir as proposições de Miguel E. Vatter respeitantes a Maquiavel; VATTER, Miguel E. Between form and event: Machiavelli's theory of political freedom. Dordrecht/Boston/London: Kluwer Academic Publishers, 2000, p.9.         [ Links ] E concernentes a Bruegel ver ARGAN, Giulio Claudio. Clássico anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução de Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p.462 e p.470-471.         [ Links ] Para as intrigas hermenêuticas porque transita a figuração do heróico antigo nas reformulações da retórica discursiva dos modernos, especialmente ao longo do XVI a inícios do XVII (de Guillaume Budé a Cervantes), conferir especialmente as proposições interpretativas de HAMPTON, Timothy. Unreadable signs: Montaigne, virtue, and the interpretation of history. In: DESAN, Philippe. (ed.) Humanism in crisis: the decline of the french renaissance. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1991, p.85-106;         [ Links ] HAMPTON, Timothy. Writing from history: the rhetoric of exemplarity in renaissance literature. Ithaca/ London: Cornell University Press, 1990.         [ Links ]
81 MURARI PIRES, Francisco. La Popelinière et la Clio thucydidéenne, p.665-678; MURARI PIRES, Francisco. Machiavel et Thucydide, p.263-281; MURARI PIRES, Francisco. Maquiavel e Tucídides; o(s) olhar(es) da história e as figurações do historiador, p.51-68.
82 BRANN, Noel L. The debate over the origin of genius during the italian renaissance. Leiden/ Boston: Koln, 2002;         [ Links ] WITTKOWER, Rudolf. Genius. Individualism in arts and artists. In: WIENER, Philip P. (ed.) Dictionnary of the history of ideas. New York: Charles Scribner' Sons, 1968, v.2, p.297-312;         [ Links ] WITTKOWER, Rudolf and WITTKOWER, Margot. Born under saturn. New York: W.W. Norton & Company, 1969.         [ Links ]
83 MAZZARINO, Santo. Il pensiero storico clássico. 2. ed. Roma/ Bari: Editori Laterza, 1990, v.3, p.359-370;         [ Links ] MONTEPAONE, C; IMBRUGLIA, G; CATARZI, M. e SILVESTRE, M. L. (a cura di). Tucidide nella storiografia moderna. Napoli: Morano Editore, 1994.         [ Links ]
84 MOMIGLIANO, Arnaldo. La place d'Hérodote dans l'histoire de l'historiographie, p.27.
85 WITTKOWER, Rudolf. Genius. Individualism in arts and artists, p.297-312; WITTKOWER, Rudolf and WITTKOWER, Margot. Born under Saturn, 1969.
86 Vejam-se, nesse sentido, os comentários de IGGERS, Georg C. The german conception of history: the national tradition of historical thought from Herder to the present. Hanover/London: Wesleyan University Press, 1998, p.76-80.         [ Links ]
87 Nos termos com que o "jovem Ranke" concebe a figura do "gênio" histórico em suas reflexões dos anos 1816-1817 ("o verdadeiramente grande", "fiel à tendência da época em consonância com o gênio", manifestação e atuação da "idéia divina" porque se define seu destino "grandioso", desde que "purificado do egoísmo" que antes o "cegasse" de modo a "ignorar ou desprezar" tal finalidade sublime, causa de sua "ruína"), tem-se conglomerado de nexos conceituais que guarda correspondência com condizente discurso porque os Antigos conceitualizaram a figura do herói especialmente apreciada em sua dimensão "hibrística" de desfecho trágico. RANKE, Leopold. Lutero e l'idea di storia universale, a cura di Francesco Donadio e Fulvio Tessitore. Napoli: Guida editori, 1986, p.172-173.         [ Links ]