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Varia Historia

versión impresa ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.28 no.47 Belo Horizonte enero/jun. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752012000100011 

ARTIGOS

 

Fidalgos, capitães e senhores de engenho: o Humanismo, o Barroco e o diálogo cultural entre Castela e a sociedade açucareira (Pernambuco, séculos XVI e XVII)

 

Noblemen, captains and sugar landlords: Humanism, Baroque and the cultural dialogue between Spain and the sugar plantation society (Pernambuco, XVI and XVII centuries)*

 

 

Kalina Vanderlei Silva

Prof.ª Adjunta da Universidade de Pernambuco Prof.ª Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em História - UFRPE Faculdade de Formação de Professores de Nazaré da Mata/UPE Av. Américo Brandão, 43. Centro. Nazaré da Mata. PE. CEP. 55.800-800 kalinavan@uol.com.br

 

 


RESUMO

Este artigo propõe uma análise das relações culturais entre a elite açucareira da Capitania de Pernambuco e a Espanha Habsburga durante a União Ibérica, a partir do sistema de valores inspirado nas práticas cortesãs da fidalguia ibérica e na estrutura filosófica humanista e barroca dos letrados castelhanos. Partindo das linhas gerais do pensamento humanista e barroco, e das práticas cortesãs portuguesas e castelhanas, focalizam-se as trocas culturais entre as vilas do açúcar e a Corte Habsburga através do intercâmbio de homens e ideias.

Palavras-chave: imaginário barroco, nobreza castelhana, elite açucareira


ABSTRACT

 This study examines the cultural relationship between the sugar elites in Pernambuco and the Habsburg Spain. It also emphasizes the value system inspired in the courtship practices and the humanistic-baroque philosophical structure of Spanish intellectuals. The argument is based on the analyses of baroque and humanistic mentalité and courtship practices, aiming to understand the cultural exchanges between the sugar cities of Pernambuco and the Spanish Court through the exchange of men and ideas.

Keywords: baroque imaginary, Spanish nobility, sugar plantation elites


 

 

Humanismo e Barroco em Castela e a nobreza portuguesa nos séculos XVI e XVII

O intenso intercâmbio cultural entre as elites eruditas e cortesãs portuguesas e castelhanas, entre os séculos XV e XVII, resultou na construção de um sistema de valores marcado pela filosofia dirigista absolutista, expresso tanto em práticas cotidianas quanto em manuais e obras literárias, que séculos depois seria definido pela historiografia como barroco. Um sistema de valores fundado sobre exigências de pureza de sangue e princípios culturais do Concílio de Trento, difundido no cotidiano das cortes, nas prédicas religiosas e obras literárias, e que ultrapassou os limites da nobreza, inspirando um imaginário que seria cultivado pela elite da sociedade açucareira da América portuguesa, pelos senhores de Pernambuco e Bahia.1

Durante o século XVI, tais elementos éticos, práticas e discursos, que se constituíam em Castela, tiveram ampla difusão entre a nobreza lisboeta, acompanhando a propagação do castelhano como língua cortesã e a presença de séquitos espanhóis na Corte de Avis. Já desde as últimas décadas dos Quatrocentos, graças à política de casamento entre príncipes portugueses e princesas castelhanas, a nobreza cortesã lusitana passou a conviver cada vez mais com nobres espanhóis pertencentes à Casa da Rainha, instituição onde predominava a língua e os hábitos castelhanos em um espaço cultural que incentivava a reprodução das práticas cortesãs desse reino em Lisboa. Nesse contexto, tais séquitos atuavam como propagadores de hábitos que gradualmente iam constituindo uma sociedade de corte portuguesa cujo auge seria alcançado no XVIII. No entanto, já desde o século XV, Lisboa e Castela intercambiavam nobres, fazendo com que tanto os séquitos das rainhas em Portugal, quanto os fidalgos portugueses influentes em Madrid - como Cristóvão de Moura - , atuassem como difusores dos valores cortesãos castelhanos em Portugal. Valores caracterizados "fundamentalmente pela 'distância' imposta pelo monarca a seus súditos e por uma disciplina rigorosa na observância dos rituais de etiqueta pelos nobres, pelas damas e pelos criados".2

Nesse cenário foi construída uma cultura cortesã de base castelhana no ambiente da nobreza lisboeta entre os séculos XV e XVII, difundida a partir de um bilinguismo mantido pelos constantes casamentos entre nobres dos dois reinos. Uma cultura que extrapolou a nobreza e atingiu também letrados e artistas - que passaram a escrever em castelhano - e instituições estatais, como o exército. Este, especificamente, adotou uma configuração castelhana na reorganização de suas tropas a partir da unidade militar básica espanhola, o tercio. Além disso, logo passaria também a empregar práticos de guerra experimentados nos muitos conflitos do Império Espanhol, travados entre os séculos XVI e XVII: desde comandantes nobres que estiveram a serviço dos Habsburgo e depois foram aproveitados pela restauração, como Vasco de Mascarenhas e Matias de Albuquerque, até práticos que teorizaram sobre a arte da guerra em uma série de tratados bem barrocos, publicados em Portugal sob o governo dos Filipes.3

Por outro lado, a população portuguesa se manteve sempre fortemente anticastelhana, temerosa de uma invasão vinda do leste. Fato que fez com que a aproximação cultural entre os dois reinos permanecesse um fenômeno basicamente nobre. E a despeito dos vários extratos que compunham a extremamente hierarquizada nobreza ibérica estarem longe de uma homogeneidade - de qualquer lado da fronteira entre Castela e Portugal - , os mesmos compartilhavam um imaginário comum: um conjunto de crenças, imagens, representações e valores que se somavam para compor a identidade idealizada da hidalguía. Uma identidade melhor representada pelos hidalgos castelhanos: grupo social que constituía a ampla maioria do estamento nobiliárquico da Espanha nos séculos XVI e XVII, monopolizando importantes ofícios estatais, como os postos de alcaides de fortalezas e presídios, e exercendo papel hegemônico nos tercios da Itália, Flandres e na conquista americana.4

Por sua vez, o grupo dos fidalgos portugueses vivenciou uma rápida ascensão durante a União Ibérica, graças à aliança com a Coroa Habsburga e ao apoio concedido à coroação de Felipe II, que os converteu em seus mediadores no reino. E até o reinado de Felipe IV os Habsburgo conseguiram cultivar a lealdade desses nobres portugueses, dentre os quais se encontravam personagens intensamente vinculados à administração e colonização do Brasil, como os Albuquerque Coelho, donatários de Pernambuco.

Ao mesmo tempo, paralelamente a uma cultura fidalga de índole castelhana, as elites letradas portuguesas também criaram uma cultura erudita em constante diálogo com Castela, principalmente através dos estudos universitários e da circulação de estudantes e livros entre as universidades de Salamanca e Coimbra.5

Desde a Idade Média os intelectuais portugueses se voltavam para a Universidade de Salamanca em busca de formação, e tamanha era a preferência pelo Estudo Salmantino que dom João III chegou a proibir a saída de estudantes portugueses, visto o prejuízo que tal evasão causava à Universidade de Coimbra. Isso, no entanto, não impediu a contínua transferência para Salamanca, principalmente devido ao prestígio que essa universidade conheceu durante o século XV, e que levou muitos estudantes a intercalarem os cursos entre uma e outra universidade.

E foram essas idas e vindas que promoveram a passagem de ideias humanistas e barrocas de Castela para Portugal. Ideias gestadas na Salamanca dos séculos XV e XVI, lar de juristas e teólogos responsáveis pela organização da política de Estado e Igreja dos Reis Católicos, assim como por um pensamento humanista que teria não pouca influência sobre as ordens religiosas atuantes na conquista da América, principalmente jesuítas e dominicanos.

Seriam os discípulos de mestres salmantinos como Martín Azpilcueta Navarro e Francisco de Vitória que ao conseguirem posições na Europa e na América ajudariam a difundir os ideais gerados na Universidade de Salamanca. Inclusive portugueses como o Padre Manuel de Nóbrega, que exerceria papel fundamental na construção da sociedade açucareira.6

Ao mesmo tempo em que a Universidade de Salamanca vivenciava seu apogeu, o pensamento humanista espanhol, cultivador das virtudes clássicas, começava a dar lugar ao pensamento barroco da racionalização, das estratégias de controle e das tentativas de mecanizar o comportamento dos indivíduos. Enquanto o humanismo, que se desenvolveu entre meados do século XV e o século XVI, fazia apologia de noções como a franqueza, o barroco, predominante no século XVII, elaborava lições de dissimulação muito apreciadas pelas práticas cortesãs. Já não interessava então a busca pela harmonia platônica das paixões, e a generosidade senhorial virava apenas uma estratégia nas intrigas cortesãs e nos modelos de bom comportamento caros a cortesãos e teólogos.7

Assim, enquanto a racionalidade fria gerada pela crise das concepções platônicas, no fim do XVI, alimentava um sentimento de desengano e uma busca por condutas rigidamente controladas, o ideal humanista, que não desapareceu de todo do imaginário fidalgo, transformava-se cada vez mais em uma fórmula retórica e discursiva.

Foi nesse contexto que o imaginário barroco da nobreza castelhana criou um homem dissimulador, mecânico, cujas ações e condutas racionalmente pensadas para se encaixar nos perfis da corte seriam elas próprias a fronteira definitiva entre o pensamento humanista e o barroco. Nesse cenário uma miríade de tratados floresceu entre os séculos XVI e XVII, propondo a racionalização das condutas cotidianas que deveriam ter como objetivo máximo o controle externo e interno do indivíduo. Um cenário no qual os jesuítas assumiram um papel central.8

A virtude cara ao humanismo continuava, entretanto, a ser cultivada como um ideal fidalgo que gerou, ao se contrapor às práticas dissimuladas, uma ânsia pelo parecer que se tornou marca da corte em Madrid e um modelo cortesão para a Europa. Tanto a ética quanto a estética da civilidade barroca definiam o ser pelo parecer, a ilusão, a essência pela aparência, o supérfluo antes do decoro, priorizando assim a exibição de uma imagem de respeitabilidade como a via de integração no tecido social. A usurpação das formas de tratamento, deferência e cortesia; a invocação de falsos títulos nobiliárquicos; a tentação por imitar os usos do estamento dominante para conseguir prestígio e êxito social: todas essas eram práticas desenvolvidas na corte, mas que se alastraram para o espaço urbano, copiadas da nobreza cortesã.9

Em tal cenário surgiu a Companhia de Jesus, cuja rigidez de princípios - que incluíam a imposição de uma obediência sistemática e da resignação das vontades dos fiéis - partilhava da intensa busca filosófica pelo controle social total que começou a ser tecida baixo a monarquia católica espanhola no século XVI, e desde cedo. Mas também ao longo do século XVII, a Companhia compartilhou o conjunto de valores, imagens, doutrinas e comportamentos vigente no processo de confessionalização e disciplinarização que proliferou na Europa moderna nos Quinhentos.10

Os laços da Companhia com a mentalidade de Castela eram profundos, a despeito de seus primeiros seguidores terem saído da Universidade de Paris. Loyola, que tal como outros humanistas espanhóis fora intensamente influenciado pela devotio erasmiana, fora educado nos princípios cortesãos castelhanos e em uma religiosidade fidalga cujos elementos filosóficos e discursivos são visíveis em seus escritos. Tão forte seria a inserção da Companhia no pensamento barroco, inclusive mundano e cortesão, que foi o jesuíta Baltasar Gracián, no século XVII, um dos formuladores desse paradigma, com suas dissimulações, segredos, códigos éticos e condutas teatrais.11

Tais valores e imagens constituíam o tecido sociocultural espanhol dos séculos XVI e XVII, marcado pela política da monarquia absoluta e católica que procurava dirigir a sociedade segundo padrões hierárquicos rigorosos, impostos sobre gestos e pensamentos, práticas e instituições. Uma cultura transplantada para a Europa Ocidental e as Américas na esteira da expansão do Império Espanhol, alcançando teólogos, filósofos e artistas que se esmeraram em codificar e decodificar aqueles valores em tratados de comportamento e obras de arte.12

A arte e a teologia foram inseridas, assim, no planejamento estratégico do poder absoluto, inclusive nas diretrizes do Concílio de Trento, devendo seduzir através da glorificação da autoridade política e religiosa. Nesse contexto, a produção de conhecimento deveria ser prática, almejando o controle do indivíduo e da sociedade, razão pela qual proliferaram então os manuais de comportamento e tratados sobre diferentes áreas do saber, no mesmo momento em que se difundia a prática da confissão. Essa busca incessante por ordem, pelo controle das próprias ações e da conduta alheia, onipresente na Companhia de Jesus, refletia os valores hidalgos e o dirigismo barroco, ao mesmo tempo em que era refletida em suas práticas cotidianas.13

Os escritos de Loyola estavam intrinsecamente relacionados com a busca pelo controle total sobre o outro. Enquanto seus Exercícios Espirituais apresentavam diretrizes para o controle mental, de atitude e o pleno domínio de si, antecipando as muitas obras sobre esse tema que surgiriam no século XVII, suas Constituições pregavam a obediência estrita aos superiores, em um discurso típico da estratificação hierárquica hidalga. Nesse sentido, quando Loyola propunha a ordenação da vida, defendia também a manutenção da ordem vigente, da hierarquia e dos costumes tradicionais, inserindo-se assim no contexto da nobreza ibérica, ávida por impor seus valores sobre a ascendente burguesia, desejosa de mudanças sociais.14

No entanto, os elementos éticos, doutrinários e estéticos barrocos, presentes na Companhia de Jesus, iam além das fórmulas dirigistas de controle de si e da busca por ordem da filosofia de Loyola. Por um lado, a Companhia esteve intimamente ligada ao desenvolvimento da teatralidade barroca, através da promoção de cerimônias públicas como procissões e encenações. Por outro, os jesuítas teorizaram sobre o cotidiano das cortes em escritos como os de Baltasar Gracián, obras primas do tratadismo barroco com suas fórmulas para o bom governo de si e dos outros, inspiradas em experientes políticos e cortesãos do Império Espanhol. Para Gracián, o hidalgo - o único Homem que parecia importar para o barroco - deveria ser discreto, prudente, político, mas também incompreensível, reproduzindo assim o gosto pela ilusão e pelo rebuscado.15

Enquanto esse imaginário era gestado em Castela, Portugal era atravessado pelo crescente castelhanismo da nobreza cortesã, de letrados e religiosos, ao mesmo tempo em que o projeto de capitanias hereditárias para a colonização do Brasil começava a ser elaborado. Um projeto que seria gerido por aqueles mesmos grupos sociais, envolvidos com os valores barrocos, que forneceriam modelos de comportamento e moral para as novas capitanias americanas.

 

As redes culturais entre Castela, Lisboa e as vilas do açúcar

Foi nesse cenário que a sociedade urbana açucareira começou a ser constituída entre Pernambuco e Bahia no século XVI, regida por fidalgos como Tomé de Souza e Duarte Coelho. Nela, senhores de terra se esmeravam em reproduzir condutas próprias da hidalguía, ao mesmo tempo em que fundavam canaviais e engenhos, tecendo relações sociais e práticas culturais que iam configurando aos poucos um sistema de valores e imaginário próprios. Uma elite em formação que dependia economicamente do mundo rural, mas que mantinha uma significativa relação com a urbanidade em vilas fundadas antes dos engenhos. Um cenário no qual os jesuítas atuariam como veículo de propagação dos valores nascidos nas universidades, na corte e nas cátedras canônicas dos Habsburgo.

Em tal paisagem urbana se estendeu a rede cultural entre Castela e as vilas do açúcar, intermediada também pela fidalguia lusitana, no momento mesmo em que a elite açucareira, formada por senhores de engenho e lavradores de cana, consolidava-se enquanto grupo social.16 E enquanto os colonos transitavam de simples donos de engenhos a integrantes de uma elite coesa, a pregação jesuíta se tornava mais intensa e organizada, realizada por missionários cuja formação humanístico-barroca era significativamente devedora da cultura castelhana. Assim, a virtu humanista e o dirigismo barroco chegaram à América açucareira na esteira dos padres comandados por Manuel de Nóbrega. Um grupo que, ao mesmo tempo em que se dedicava à catequização indígena também punha em prática um projeto educacional dirigista voltado para as elites coloniais.17

Esses jesuítas, aportados com o primeiro Governador Geral, vinham de uma imersão na ética formulada pelos centros intelectuais da Espanha, sendo dois de seus mais atuantes e prolíficos pregadores súditos de Castela - José de Anchieta e João Azpilcueta Navarro - , enquanto o próprio Manuel de Nóbrega integrava o grupo dos portugueses que dividiam seus estudos entre a Universidade de Salamanca e a Universidade de Coimbra, tendo criado, nesse interstício, uma intensa ligação intelectual com um dos principais pensadores do barroco salmantino, Martín Azpilcueta Navarro.18

Uma vez no Brasil os padres fundaram colégios e dividiram seus esforços entre a catequese indígena e a educação dos colonos, em uma e outra buscando incutir os preceitos da Companhia e as novas regras estabelecidas pelo Concílio de Trento.19 E apesar da atenção dedicada à missão catequética, Nóbrega não descuidou dos colonos; preocupação refletida em suas cartas: além de incentivar a prática da confissão, ele cultivava a rotina de pregar para os colonos em domingos e dias festivos, levando para o púlpito toda a força de sua formação humanista-barroca.20

Nesse contexto, as duas metas educacionais jesuítas estavam em perfeita consonância com o dirigismo barroco: a busca por ordem no mundo e pelo controle sobre o indivíduo e as vontades, pois enquanto o indígena era considerado o Outro por excelência a ser conhecido e convertido, os colonos se encaixavam na descrição que Inácio de Loyola fez dos meninos que deveriam ser educados para melhor administrarem no futuro. O próprio Nóbrega espelhou essas palavras quando escreveu que "Principalmente pretendemos ensinar bem os moços, porque estes bem doutrinados e acostumados em virtude serão firmes e constantes".21

A formação filosófica de Nóbrega devia muito a seu mentor, o padre Martín Azpilcueta Navarro, que exerceu uma considerável influência sobre os jesuítas portugueses e intelectuais em Coimbra. Basco de nascimento, Navarro foi um teólogo humanista de formação castelhana que levou os debates da Universidade de Salamanca para Portugal, influindo consideravelmente na difusão do confessionalismo ao redigir o Manual de Confessores e Penitentes, publicado em Coimbra em 1560, com significativa repercussão em Portugal e no Brasil.22

Sua obra espelhava o dirigismo jesuíta e a rigidez das práticas para o controle de si e do outro, presentes na Companhia.23 Parente de Loyola e tio de João Azpilcueta Navarro - padre do grupo de Nóbrega que se destacou na conversão dos tupi - 24 o Padre Martín foi também correspondente de Nóbrega enquanto esse esteve no Brasil. Seu manual reproduzia os ideais de Trento, fundamentais para a mentalidade barroca, focando o sacramento tridentino por excelência, a confissão, cuja instituição pelo Concílio respondia à ânsia dirigista pelo controle das vontades, próprias e alheias, do catolicismo moderno. Assim, ao submeter os desejos e segredos mais íntimos ao controle da Igreja, a confissão assumia o papel central inclusive nos projetos catequéticos jesuítas.25

Imbuídos dessas influências, Nóbrega, Anchieta e seus pares procederam à educação dos colonos nas vilas do açúcar, dando atenção especial a donatários e suas famílias. Tal foi o caso do Padre João de Mello que chegou a ser conselheiro dos filhos e parentes do donatário de Pernambuco, Duarte Coelho; os mesmos personagens que se uniriam à cruzada de dom Sebastião em Alcácer Quibir; a mesma família que, no século XVII, atuaria cotidianamente junto à Corte Habsburga em Madrid e em Lisboa.26

Enquanto isso, os colégios jesuítas na Bahia e em Pernambuco se tornavam núcleos de formação de intelectuais que, por sua vez, passavam eles também a educar os filhos dos senhores de engenho. Tais instituições funcionavam como centros culturais, crescendo na proporção que as vilas se desenvolviam, e disponibilizando suas bibliotecas para padres, alunos e leigos. Nelas os jesuítas incentivavam o hábito de leitura, distribuindo livros em festas como as da abertura do ano letivo no Colégio de Olinda, em 1573 e 1574, celebradas com sessões literárias e representações teatrais.27

Essas instituições atraíam letrados que se tornavam frequentadores contumazes das bibliotecas. Caso de Bento Teixeira, egresso do Colégio da Bahia que se estabeleceu em Olinda onde, entre 1595 e 1599, escreveu a Prosopopéia em louvor do donatário Jorge de Albuquerque. Da formação jesuíta Teixeira adquirira o gosto pelos clássicos latinos e espanhóis a partir dos quais começara a escrever em castelhano, além de português e latim.28

A biblioteca da Bahia tornou-se também o refúgio intelectual de dom Francisco Manuel de Melo, nobre português fiel aos Habsburgo e exilado na Bahia. Cortesão que vivia sobre as regras do "discreto" de Gracián e Castiglione, dom Francisco é um perfeito exemplo do intercâmbio de ideias e pessoas que de Castela e Lisboa se estendeu também à periferia do Império e às vilas açucareiras.29

Filho de pai português e mãe castelhana, dom Francisco estudou em colégio jesuíta em Portugal, tendo por mentor o Padre Telles, autor de uma Summa Philosophae lida, segundo ele, também na América portuguesa. Lutou pelo império espanhol e jurou lealdade a Felipe IV, o que lhe garantiu uma boa situação na corte, mas também um exílio de três anos na Bahia, depois da restauração. Cultor das letras barrocas, escreveu variada obra, tanto em português quanto em castelhano, seguindo as modas da corte lisboeta, inclusive um tratado barroco de grande repercussão, a Carta de Guia de Casados (1651).30

Ao ser exilado, fez a viagem para o Brasil sob as ordens de Francisco de Brito Freyre, fidalgo português e erudito general da restauração, aportando na Bahia na esteira dos sucessos da capitulação da WIC em Recife. Durante sua temporada baiana se dedicou às letras, chegando inclusive a compor um Diario del Brasil, mais tarde perdido, além das dedicatórias de seus Apologos Dialogaes (1655), Epanophora (1657) e Hospital das Letras (1657). Para esta última, inclusive, é provável que tenha utilizado livros raros do acervo da biblioteca do Colégio baiano. 31

Essa biblioteca era a maior dos núcleos urbanos açucareiros já no século XVI, sendo ampliada após a reconstrução de Salvador em 1625, chegando a contar com três mil títulos registrados em 1694. Por sua vez, Pernambuco abrigava duas bibliotecas jesuítas no século XVII: a do Real Colégio de Olinda, fundada no XVI e reconstruída depois da restauração, e a biblioteca do Colégio do Recife, fundada em 1677.32

As leituras possíveis nessas salas deveriam auxiliar a pregação dos missionários. Portanto, as obras de autores jesuítas de grande repercussão na Companhia, e especialmente sobre os padres de Nóbrega, já deveriam preencher as bibliotecas entre o fim do XVI e o XVII. Caso do Manual de Confessores e Penitentes, de Martín Azpilcueta Navarro e El Héroe, de Baltasar Gracián, além de textos dos próprios padres de Nóbrega, como Anchieta. Todas essas obras de forte caráter dirigista.33

Assim, a formação de letrados nas terras do açúcar esteve, desde o início, vinculada a um grupo de jesuítas intensamente influenciado pelas universidades castelhanas e sua produção intelectual. Por outro lado, também é certo que houve uma conexão mais direta entre as elites letradas de Pernambuco e Castela, através de personagens que das vilas açucareiras iam eles próprios estudar em Salamanca, passando primeiro por Coimbra.

O bilinguismo dos portugueses em Salamanca e sua alternância de estudos entre Coimbra e a universidade castelhana, antes e durante a União Ibérica, produziu uma permeabilidade cultural entre os estratos letrados dos dois reinos que logo passou a incluir também a gente do açúcar. Situação que permitiu que, entre o século XVI e o XVII, vários naturais do Brasil se matriculassem na Universidade de Salamanca, em sua maioria oriundos de Pernambuco.34

Enquanto a maioria dos portugueses em Salamanca cursava Medicina, dos sete estudantes encontrados no período da união de coroas cujos registros informavam serem eles naturais de Pernambuco, três cursavam Cânones, três Medicina e um Artes. Eram personagens como Bernadino Pessoa de Almeida, filho de senhor de engenho de Tracunhaém, que se bacharelou em Medicina por Salamanca em 1638, onde havia estudado com seus dois irmãos, também alunos de Medicina. Anos depois, de volta a Pernambuco, Bernadino passaria a atuar como médico da Câmara de Olinda pós-restauração.35

Esse trânsito de estudantes entre Pernambuco e Salamanca incluía personagens que sugerem que a presença castelhana nas vilas açucareiras ia além da circulação de ideias: naturais da capitania, registrados na universidade castelhana, filhos ou netos de espanhóis estabelecidos em Pernambuco, como Don Pedro Ramires de Urrea, fidalgo das vilas do açúcar - com a confusa matrícula de "natural de Pernambuco de todos santos en Brasil" - e Simão Álvares de La Penha, neto de Antonio Álvares de La Penha, castelhano ido a Pernambuco a mando da Coroa de Castela. Também o pai de Simão Álvares havia sido funcionário dos Habsburgo, para quem exercera a função de pagar "a los soldados de Pernambuco en campaña contra los holandeses y [que] fue objeto de diversas Mercedes, para él y para sus hijos, por sus servicios en dita campaña".36

A família Álvares de La Penha representava, assim, uma parte da gente de guerra enviada pelos Habsburgo e que se estabeleceu em Pernambuco. Por outro lado, representava também uma parcela bem específica dessa gente: um grupo situado entre as fileiras da elite açucareira. Situação comprovada pela presença massiva da nobreza da terra na graduação de Simão Álvares, em Coimbra:

Foram testemunhas em Lisboa: dom Diogo Descalante e Guevara, castelhano e governador que foi da fortaleza de São João da Fóz, Porto, preso no Castelo, de 70 anos, disse que o avô era filho de un cavaleiro de Astúrias e casou em Granada com uma fidalga de Ponce de Lião e depois falando em Lisboa com o dito avô Pedro Álvares de La Penha, este último lhe disse que era casado em Pernambuco com uma Dona Filipa Correia; Manuel de Madureira de Morais, capitão de cavalos de Pernambuco, na guerra contra os holandeses, e ora estante em Lisboa, disse que o bacharel veio de Pernambuco para a Bahia, servindo de auditor geral do exercito do Conde de Banholo, foi depois provedor-mor na Bahia e provedor dos Defuntos e Ausentes; cônego Feliz de Vasconcelos, de Pernambuco, conhece o bacharel de criação; Afonso de Albuquerque, moço fidalgo e capitão de cavalos na guerra de Pernambuco, morador em Lisboa em casa do conde de alegrete à calçada do Congro[sic], conheceu o habilitado de criação; capitão Diogo Coelho de Albuquerque, de Pernambuco; capitão Felipe Bandeira de Mello, de Pernambuco, ora estante em Lisboa, no Castelo; Fernão de Melo de Albuquerque, alferes que foi em Flandres, natural de Pernambuco; alferes Dom Antonio de Gusmão, castelhano morador no Castelo; dom João de Salinas, castelhano, preso no Castelo; Constantino Cadena, sargento-mor do Castelo; Dona Mécia Benavides, viúva de Pero Sanches Farinha.37

Ou seja, entre os convidados à cerimônia contavam-se quatro capitães - um deles fidalgo - , um cônego e um alferes, todos naturais de Pernambuco que naquele momento viviam no reino. Além de veteranos das guerras no Brasil, três deles eram da família Albuquerque, um deles inclusive residindo em casa do Conde de Alegrete - ninguém menos que Matias de Albuquerque.

E nesse cenário, Simão Alvarez - neto do súdito de Castela Pedro Álvares de La Penha, que casara em Pernambuco com dona Filipa Correa, mulher da nobreza da terra - , ele próprio um veterano das tropas de Bagnuolo, desponta, juntamente com seus convidados, como peça fundamental da trama que envolvia os grandes do mundo açucareiro e a fidalguia reinol durante a União Ibérica. Uma trama que interligava a presença das famílias senhoriais no reino e dos capitães castelhanos em Pernambuco. Indícios, uns e outros, das conexões entre o centro e a periferia do Império, ampliadas com as guerras holandesas na capitania duartina.

 

Capitães de Castela e fidalgos de Pernambuco

Nesse contexto de nobreza da terra em circulação pela Corte Habsburga era forte a presença da família donatarial de Pernambuco, os Albuquerque Coelho, na esteira da qual muitos senhores de engenho engendraram relações próprias com Madrid, ao mesmo tempo se aproveitando de um imaginário fidalgo já instalado nas vilas do açúcar, e ajudando a consolidar tal imaginário.

Se ecos da cultura humanista e barroca castelhana ressoaram nas práticas e imaginário dessa elite já nas últimas décadas do século XVI,38 seriam as primeiras décadas dos seiscentos que multiplicariam os indícios das relações culturais e políticas desse grupo com a Corte Habsburga, na forma de escritos literários, petições e correspondência administrativa: desde os muito conhecidos textos de Gabriel Soares de Souza e Duarte de Albuquerque Coelho, elaborados especificamente para a leitura em Madrid, até pedidos de mercês de senhores de engenho empenhados no serviço Habsburgo. Senhores educados dentro da ética barroca ensinada pela Companhia de Jesus.

As práticas cortesãs que definiam o comportamento da fidalguia ibérica parecem ter assomado à sociedade açucareira através da conduta de personagens como Tomé de Souza, primeiro Governador Geral, e dos filhos de Duarte Coelho, sendo depois cultivadas, durante a União Ibérica, por governadores como Diogo Botelho. Na Bahia, o Padre Nóbrega e Gabriel Soares de Souza descreveriam o primeiro Governador Geral como um perfeito exemplo de fidalguia: Soares de Souza, por exemplo, retratou-o como fidalgo honrado, avisado, prudente e cavaleiro valoroso, atribuindo-lhe as qualidades que constituíam a imagem heróica do hidalgo barroco.39 Enquanto isso, em Pernambuco, os filhos do fundador da capitania conviviam ao mesmo tempo com o nascimento da elite açucareira e com o gradativo processo de castelhanização da corte lisboeta. É possível, inclusive, que o ambiente criado por eles em Olinda tenha contribuído para que, décadas depois, Diogo Botelho, fidalgo da Casa Real e cortesão de Felipe II, ao ser nomeado Governador Geral, escolhesse permanecer por um ano nessa vila, antes de se transferir para a Bahia. Fruto de família nobre, Botelho lutara em Alcácer Quibir por dom Sebastião, sendo mais tarde acolhido por Felipe II na corte madrileña. Em 1603, bem-recebido pelos senhores de engenho instalados na Câmara de Olinda, provavelmente difundiu entre eles os modos cortesãos aprendidos em Lisboa e Madrid.

Essa Olinda pela qual Botelho circulava já era descrita, desde o século XVI, como lar de senhores opulentos e costumes ostentatórios. Um cenário teatral que datava da administração dos herdeiros de Duarte Coelho.40

Duarte Coelho de Albuquerque e seu irmão, Jorge de Albuquerque, respectivamente segundo e terceiro donatários, nasceram em Pernambuco, mas foram educados na corte lisboeta, só voltando à Capitania, já adultos, em 1560. Pouco depois, em 1565, Jorge partiria mais uma vez para Lisboa, unindo-se ao séquito de dom Sebastião. Mais tarde, Duarte se juntaria a ele e os dois acompanhariam o desditoso rei a Alcácer Quibir, onde seriam aprisionados.

Os poucos dados biográficos sobre esses dois irmãos sugerem sua proximidade com a vida cortesã - os dois estavam entre os oitenta nobres portugueses resgatados do Marrocos depois da derrota em 1578 - , e sua convivência com a elite açucareira nos períodos passados na administração da capitania. Em Lisboa integravam uma corte na qual os séquitos das rainhas castelhanas ditavam modas: cenário que certamente exerceu papel central na formação de seu imaginário e no diálogo com a elite açucareira, travado durante as temporadas em Pernambuco. Atuaram, assim, como difusores dos valores fidalgos através de suas condutas cotidianas - das quais infelizmente não restam quase indícios - e do patrocínio de instituições culturais, elas próprias propagadoras da ética e da estética barroca: apadrinharam o colégio jesuíta de Olinda, fundado em 1576 e logo transformado em um espaço de produção de poetas e textos no estilo cortesão; e patrocinaram letrados, o mais famoso dos quais, Bento Teixeira, escreveria sua principal obra como um panegírico em homenagem a Jorge de Albuquerque.41

Mas se os laços entre a elite açucareira e a nobreza ibérica se consolidaram com os filhos de Duarte Coelho - Jorge de Albuquerque, por casamento, tornara-se parente do Conde de Redondo - seriam seus netos a aprofundar essas relações, não mais apenas com Lisboa, mas também com Madrid.

Jorge de Albuquerque teve dois filhos homens, Duarte de Albuquerque Coelho e Matias de Albuquerque, educados, após a morte do pai, por um tio também chamado Matias de Albuquerque, antigo vice-rei das Índias. Nascidos em Lisboa, ambos cresceram com poucas ligações com a capitania da qual eram herdeiros, mas fortíssimas relações com a nobreza portuguesa fiel aos Habsburgo: seu tio, dom Luis Coutinho, era cunhado do vice-rei de Portugal, o poderoso Cristóvão de Moura, além de Duarte ser genro do Conde de Bastos, também governador de Portugal.42

Assim, diferentemente de pai e tio, que alternaram sua educação entre Olinda e Lisboa, os netos do primeiro donatário cresceram longe das terras do açúcar. Um afastamento findo, todavia, com os eventos que desencadearam a perda de Pernambuco para a WIC, e que estabeleceram que seu diálogo com a elite mazomba seria travado em um contexto de presença espanhola física na zona açucareira, na forma das tropas e comandantes de Castela.43

Em uma conjuntura na qual Madrid preferiu sempre nomear comandantes espanhóis antes dos portugueses, a década de 1630 viu a chegada massiva dos súditos de Castela à capitania duartina: inicialmente com a primeira força luso-castelhana, em 1631, comandada pelo napolitano Conde de Bagnuolo e trazida pela armada de socorro de dom Antônio de Oquendo, com ordens de se agregar às forças comandadas por Matias de Albuquerque, que então exercia o cargo de superintendente da guerra. Mais tarde, em 1635, com a nova armada de socorro, comandada por dom Lope de Hoces, que trazia dom Luís de Rojas y Borja com ordens de substituir - e prender - Matias de Albuquerque no comando.

Por fim, Castela enviou uma armada de restauração sob o comando do Conde da Torre em 1637, cujo fracasso teve significativo peso na situação política de Pernambuco perante Madrid.44 Mas a despeito dos resultados, o Conde da Torre estabeleceu seus soldados castelhanos, portugueses e napolitanos por meses na zona açucareira.

Nesse cenário, a presença de fidalgos castelhanos e seus subordinados intensificou o diálogo cultural entre a elite açucareira e a cultura hidalga, pois nessas tropas vieram nobres de Espanha como dom Luis Roja y Borja e dom Fernando Mascarenhas, o Conde da Torre, além de letrados e aspirantes à fidalguia, não sendo raros entre esses os que se estabeleceram na terra.45 Por outro lado, a elite açucareira instituiu uma ponte direta com a Corte Habsburga através de sua correspondência, composta basicamente por pedidos de mercês e juramentos de fidelidade dirigidos à Madrid.

E foi nesse contexto que, em 1635, o comandante das forças luso-espanholas em Pernambuco, dom Luís de Rojas y Borja, defendeu a concessão de recompensas para os vassalos leais que, apesar das perdas sofridas, mantinham-se fiéis ao império. Segundo ele, a melhor maneira de recompensá-los era conceder-lhes hábitos da Ordem de Cristo de forma mais generosa que a promovida até então por Matias de Albuquerque. Por isso, em carta ao rei, descreveu os senhores que estiveram na perda da Paraíba, afirmando que aqueles que "se hallaron leales al servicio de VMg[de] y le acompañaron dejando sus ingenios y haciendas son muy dignos de q VMg[de] se lo agradezca con alguna demostración para ejemplo de los que fueron traidores y de los que no los imitaron". E para corroborar essa afirmação, apresentava uma lista dos senhores leais que haviam abandonado suas propriedades na Paraíba invadida para servir a Vossa Majestade: o Capitão Martin Soares Moreno; Jorge Lopes Brandão, Luis Brandão e Francisco Camelo Brandão; o Capitão Manoel Coresma Carneiro; Balthasar da Rocha Pitta; o Capitão Jacinto de Siqueira Sampaio; o Capitão Don Gaspar de Valcacer Sottomayor; o Capitão Matheos Gomes de Lemos; o Capitão Leonardo de Albuquerque; o Sargento-mor Antonio de Madureira e seu ajudante Domingo Ramello Pinto; o Alferes Antonio Álvares Pinheiro; Don Fernando de Alvarado; Marcos Pinto e Miguel Dias de Oliveira.

Sugeria ainda que o rei escrevesse cartas de agradecimento a todos esses personagens que, como a maior parte da gente nobre da capitania, em demonstração de "fidelidad largaron todo y se retiraron" da capitania perdida. Esses senhores leais eram contrapostos àqueles que haviam ficado, como "un hijo del dicho Antonio de Valladares que era labrador del ingenio el cual se decía que pusiera bandera blanca en su casa, y que per eso no le toco en nada".46

Por tudo isso, D. Luís recomendava honrarias para esses vários capitães, todos integrantes de famílias afidalgadas de Pernambuco, Carneiro, Sampaio, Albuquerque, com exceção do fidalgo de sobrenome espanhol, Don Fernando de Alvarado. E entre esses súditos leais estavam os Brandão, senhores paraibanos que naquele mesmo ano escreveriam para Madrid pedindo mercês, em uma carta que oferece mais detalhes sobre a fuga de vassalos descrita por Rojas y Borja.

Foi Duarte Brandão que assinou essa carta, endereçada ao rei, na qual advogava por seus irmãos, Jorge Lopes Brandão, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Luis Brandão, Capitão de Infantaria, e pelo sobrinho, Francisco Carmelo Brandão, fidalgo da Casa de Sua Majestade, todos na lista de Rojas y Borja e então residentes em Pernambuco. A família havia deixado a Paraíba quando a resistência contra os invasores se provara inútil, perdendo nessa ocasião cento e cinquenta mil cruzados de fazenda. Tudo para servir a Vossa Majestade. Por isso, Brandão aproveitava aquele momento em que o rei fazia "demonstrações de sua real grandeza" a vários senhores que haviam se destacado na defesa de Pernambuco para pedir remuneração por sua participação. Segundo ele, seus irmãos e sobrinho eram notoriamente conhecidos por terem defendido a Paraíba com tanto "zelo" que durante cinco anos nem mesmo haviam se preocupado em lavrar cana em benefício próprio. Além disso:

Y teniendo ocasiones de poder embarcar para el Reyno aprovechándose de mucha partte de su hacienda no lo encentaron, porque la dicha ciudad y capitán mayor les pidieron no lo hiciesen porque sería desconsuelo, y desaliento de todo el pueblo = en este ultimo Reguento en que se perdió la plaza, oprimida con la superior fuerza del enemigo, es notorio que pelearon valerosamente per sus personas hasta (...) a la espada; y ofreciendo el enemigo libremente sus haciendas a los moradores ellos dejaron las suyas (siendo sin comparación las mayores q ningún particular poseía en la dicha capitanía) y se fes (...) con las armas retirándose al Reconcavo de Pernambuco, adonde quedan sirviendo Y pretenden acabar la vida en servicio de VMg500 = y que estas Circunstancias, no concurren ninguna persona de aquella Capitanía como pregona la fama, que los singulariza con demostración, los premiar, no solamente con honras, sino con mercedes que puedan ayudarlos a pasar la vida, pues se halla sin remedio de sustentarlas; y no han recibido hasta ahora merced alguna por d los servicios = suplican a VMg q en consideración a de lo que refiere le haga VMg500 merced honrar el dicho su hermano Luis Brandão con el fuero de Fidalgo, como tiene su hermano mayor; y con el hábito de Cristo con una pension efectiva de que pueda sustentarse, (...) = y su hermano Jorge Lopes Brandão, con el fuero de Fidalgo que tiene su hermano mayor = y una encomenda, o pensión con el hábito que tiene = y a su sobrino Francisco Camelo Brandão con el hábito de una de las ordenes militares, y un pensión con que pueda sustentarse.47

Aqui as imagens da fidalguia permeiam todo o discurso que Duarte Brandão usa para descrever seus irmãos: zelo, desprendimento, bravura e honra. Mas também, e talvez a mais importante, a lealdade. Tal imagem, cultivada pelo imaginário barroco castelhano e comum, por exemplo, na obra de Lope de Vega, estava ausente das formulações de Gracián e dos tratados de cortesia escritos pelos nobres Habsburgo: aparentemente, na busca pelo comportamento prudente e heróico, a lealdade representava um papel secundário nas ações do cortesão castelhano.48 No entanto, na América açucareira ela seria basilar para o sistema de valores da elite, levando os senhores de engenho a oferecerem a Madrid lealdade como seu serviço mais importante.

Em seu discurso, os Brandão se autorepresentaram como senhores de comportamento fidalgo em contraposição aos vassalos que abandonavam a luta e "embarcavam para o Reino". Além disso, apesar das dificuldades materiais que os impelia a solicitar rendimentos, pleiteavam também honrarias na forma de hábitos de ordens militares, fiéis ao culto barroco às aparências. Para tanto, reproduziam em seu texto a retórica barroca da bravura, da discrição e da prudência, encontradas já na definição proposta por Baltasar Gracián para o herói ideal.49

E se o cultivo dessa imagem de fidalguia foi possibilitado pela própria guerra de resistência contra a WIC, que criou o ambiente propício para que a elite açucareira empregasse fórmulas de vassalagem que lhes poderia render mercês, por outro lado, o mesmo período permitiu a convivência intensa dos mazombos com as tropas castelhanas e seus comandantes. Estes tinham ordens de somar os colonos a suas companhias: sob o comando de Bagnuolo vieram novecentos soldados espanhóis e napolitanos, além de quatrocentos portugueses. Mais tarde dom Luís de Rojas y Borja aportou setecentos portugueses, quinhentos castelhanos e quatrocentos napolitanos.50 E se os soldados, gente mecânica, pouco agregavam ao imaginário fidalgo, seus capitães, muitos deles fidalgos ou aspirantes, entabulavam diálogo frequente com os senhores de Pernambuco.

No entanto, a presença da gente de Castela não era novidade em Pernambuco: os comandantes da resistência encontraram súditos de Madrid já bem estabelecidos, inclusive como proprietários na capitania. Caso de Pedro Álvares de La Penha, avô do bacharel Simão Álvares, e de dom Fernando de Alvarado e Antonio Valladares, senhores de engenho citados por Rojas y Borja. Décadas antes, o visitador Heitor de Mendonça Furtado, ao chegar à capitania em 1593, também se deparara com gente de Castela, além de napolitanos e galegos, transformada em colonos em Pernambuco. Personagens como João Rodrigues de Mendonça, soldado natural de Badajoz, então morador de engenho; João de Paris, bombardeiro castelhano que servia no Forte de Cabedelo, na Paraíba; e Salvador Jorge e Manuel Pinto, ambos de Tenerife, moradores de engenho. Oficiais mecânicos todos eles, assim como a maior parte dos denunciantes e confidentes do visitador.51 Por outro lado, Frei Vicente de Salvador registraria, mais tarde, em sua História do Brasil, o estabelecimento de pelo menos cento e dez soldados castelhanos no forte da Paraíba, em 1584, além de fidalgos de Castela que, como dom Diego Flores de Valdez, circulavam na zona açucareira naquela fase de conquistas territoriais.52

Esses personagens traziam os costumes de Castela no momento mesmo em que a elite açucareira se consolidava enquanto grupo social e formulava um sistema de valores de forte inspiração hidalga e dirigista. E, no entanto, se letrados e comandantes fidalgos tiveram um papel destacado na difusão de imaginário e valores barrocos, sua mais perfeita representação em Pernambuco tomaria forma na figura de Duarte de Albuquerque Coelho, quarto donatário da capitania, cortesão habituado às intrigas e práticas da Corte Habsburga em Lisboa e em Madrid.

Em 1654 foram editadas em Madrid suas Memorias Diarias de la Guerra del Brasil, escritas principalmente como resposta às muitas acusações que pesavam sobre ele e seu irmão como responsáveis pela derrota em Pernambuco. Então Matias de Albuquerque já não mais defendia a causa Habsburga, tendo lutado por dom João IV na restauração de Portugal. Duarte, por sua vez, permanecera ao lado de Madrid, mas ostentando títulos portugueses, como o de Marquês de Bastos. Em suas memórias diárias, escritas a partir de sua experiência e de relatos de outros comandantes da guerra de resistência, sobretudo de Matias, fez um grande esforço para mostrar que a derrota, longe de ter sido culpa dos Albuquerque, deveu-se principalmente à falta de apoio metropolitano.53 Ao mesmo tempo retratava o irmão, referido quase sempre como o General, como um personagem heróico:

Arrojou-se à passagem, e os nossos a impedir-lhes. Precedia-os o general Matias de Albuquerque com a espada na mão. Porém, durando nossa defesa (por ser tão desigual o partido) pouco mais de meia hora, saíram as três barcaças inimigas da boca do rio e vieram batendo toda a margem e praia com a sua artilharia; com o que os nossos, vendo-se cortados delas, foram entrando mais pronto pela mata do que pelo perigo. Mas, por serem tão poucos, e moradores, mais acostumados às delicias do que às armas e a ver o rosto e a sentir as balas de um inimigo tão oposto ao ócio, ainda resistiram mais do que se podia esperar deles. Somente cem homens, entre infantes e cavaleiros, ficaram com o general Matias de Albuquerque.54

Dessa forma, ele contrapunha a figura valorosa de Matias ao descaso da Coroa e ao despreparo da elite açucareira, mais acostumada com ócios do que com a guerra. Por outro lado, a defasagem numérica dos defensores apenas servia para ressaltar, em sua retórica do heroísmo, a coragem e o valor daqueles que teriam persistido na luta a despeito das circunstâncias em contrário:

Para que não faltasse ao General a última calamidade, até suspeita de pouca fidelidade teve de alguns; porque não só desejavam que não tivesse o cuidado e o zelo que tinha na defesa, mas até a procuravam estorvar com toda a dissimulação; querendo antes negociar logo com o inimigo, de quem pensavam (enganados) tirar proveito, do que tratar de fazer-lhes guerra. Supondo que o melhor conseguiriam (estes não eram muitos) desembaraçando-se do General, que temiam, atreveram-se (o que não faz a maldade pelo interesse) a por fogo por duas vezes na casa da Aseca que habitava. Parecendo casual a primeira, foi a segunda com tal desvergonha, que fizeram voar as tábuas da mesma casa, deixando-o ferido no rosto. Isto obrigou o sargento-mor do estado Pedro Corrêa da Gama a meter mão á espada dizendo: traição! Traição! Ao que o general, com semblante sereno respondeu: deve ser algum desastre. Dissimulando prudentemente, mostrou que não conhecia o perigo, por não declarar suspeitos os mesmos de quem esperava alguma ajuda. Sofrer e contemporizar com tal gente por espaço de seis anos, não foi a menor ação nem a de menos mérito que do nosso general se possa escrever.55

Assim, a alegada deslealdade dos naturais da terra era usada por Duarte para enfatizar as qualidades de seu irmão, o General: não apenas a bravura, mas também a prudência. Elementos que transformavam Matias em um herói gracianesco, principalmente porque sua prudência não era isenta de dissimulação. E nesse sentido o herói construído por Duarte de Albuquerque Coelho se apresentava como o herói hidalgo ideal, ou seja, como o homem dissimulador, racional e mecânico do barroco espanhol.

Essas memórias diárias foram escritas em espanhol para serem lidas pelos fidalgos de Madrid. Escritas por um donatário que era mais perfeitamente adaptado à Corte Habsburga do que jamais fora às vilas do açúcar, onde ele e o irmão aparentemente não conseguiram se fazer amar. No entanto, amados ou não, eles conviveram com aqueles senhores que pareciam desprezar em um momento em que a presença de súditos nobres de Castela e fidalgos portugueses leais aos Habsburgo inspirava, na elite açucareira, comportamentos que poderiam resultar em afidalgamento.

E em seu discurso, tão direcionado para a corte, Duarte não deixa de refletir o imaginário que ele deve ter ajudado a consolidar nas vilas açucareiras: seu texto reproduz um ideário barroco permeado por valores como honra, bravura e prudência, além de uma retórica da lealdade, uns e outra presentes também nos discursos de senhores do açúcar leais a Madrid, como Duarte Brandão, e fidalgos castelhanos aportados em Pernambuco, como dom Luís de Rojas y Borja.

E se Duarte, o Marquês de Bastos e seu irmão, o Conde de Alegrete, representavam a imagem da fidalguia perfeita própria de Lisboa e Madrid, e mais próxima da corte do que das vilas açucareiras, por outro lado, nessas não faltaram personagens, como os Brandão da Paraíba, o bacharel Simão Alvarez, o médico Bernadino Pessoa e os capitães castelhanos instalados na terra desde a década de 1580, que atuaram como difusores de uma forma de pensar e se comportar marcadas pelos valores e imaginário da hidalguía, em um cenário cultural construído sobre o dirigismo da Companhia de Jesus. Cenário que vivenciaria a performance de personagens como a família Mendonça, natural de Pernambuco, mas inserida na cultura cortesã Habsburga, repetidas vezes agraciada com hábitos da prestigiada Ordem de Calatrava.56

Foi nesse processo que a elite açucareira se constituiu enquanto grupo social, entre as últimas décadas do século XVI e a primeira metade do XVII, dentro de um barroquismo crescente, oriundo de práticas e discursos castelhanos, que modelaria um imaginário cerimonialista e ostentatório próprio e que persistiria mesmo após a restauração. Um barroquismo que seria particularmente visível na miríade de cerimônias públicas cultivadas pelas câmaras das vilas açucareiras após 1654.57

 

 

Artigo recebido em: 23/02/2011.
Aprovado em: 25/11/2011.

 

 

* Pesquisa financiada pela Fundación Carolina/Espanha, desenvolvida com o apoio do Departamento de Historia Medieval, Moderna y Contemporánea/Facultad de Geografía e Historia, Universidad de Salamanca sob orientação do Prof.º Drº José Manuel dos Santos Pérez - USAL.
1 José Antonio Maravall definiu as manifestações filosóficas e políticas do século XVII espanhol, voltadas para o controle absoluto das ações e pensamentos dos indivíduos, como cultura barroca. Considerando essa como a articulação cultural das estruturas sociais, econômicas e políticas da Espanha seiscentista promovida pelo Estado moderno, além de um contexto de crise econômica associada ao desenvolvimento do absolutismo, que se manifestaria também na produção artística e na gesticulação dramática daquele que seria conhecido como homem barroco. MARAVALL, José Antonio. A Cultura do barroco: análise de uma estrutura histórica. São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial, 1997, p.22-25, p.42-45 e p.88.         [ Links ] O sistema de valores é entendido aqui como o conjunto de crenças duradouras em condutas sociais específicas e que orienta as condutas sociais. Consideramos que tal conjunto está intimamente ligado ao imaginário social, entendido como repositório de representações, imagens, mitos e ideias. Assim, a ética barroca, repleta de valores como honra, bravura, decoro, constituía um sistema de valores vinculado à nobreza ibérica e associado às representações de heroísmo, prudência, discrição. Ver ROKEACH, M. The nature of human values. New York: Free Pres, 1973 apud PEREIRA, Cícero;         [ Links ] LIMA, Marcus Eugênio e CAMINO, Leoncio. Sistemas de valores e atitudes democráticas de estudantes universitários de João Pessoa. Psicologia: reflexão e crítica, Porto Alegre, n.14, v.1, p.178, 2001;         [ Links ] LE GOFF, Jacques. O imaginário medieval. Lisboa: Editorial Estampa. 1994, p.12.         [ Links ]
2 Maria P. M. Lourenço considera que esse ritual, chamado borgonhês-habsburgo, foi marcado por um sincretismo durante a União Ibérica, responsável pela instalação de um gosto castelhano nos rituais de corte portugueses, como de resto em toda a Europa. E após Carlos V tal ritual teria se tornando cada vez mais castelhano. LOURENÇO, Maria P. M. Os séquitos das rainhas de Portugal e a influência dos estrangeiros na construção da "Sociedade de Corte" (1640-1754). Penélope, Lisboa, n.29, p.53-54, 2003.         [ Links ] Para a circulação de fidalgos entre as duas cortes ver RAMINELLI, Ronald. Serviços e mercês de vassalos da América portuguesa. Historia y Sociedad, Colombia, Escuela de Historia de la facultad de Ciencias Humanas y Económicas de la Universidad Nacional de Colombia, v.12, p.107-131, 2006.         [ Links ]
3 Para o bilinguismo da nobreza portuguesa ver ROMO, Eduardo Javier Alonzo. Português e castelhano no Brasil quinhentista à volta dos jesuítas. Revista de Índias, v.LXV, n.234, p.491-492, 2005.         [ Links ] Já para os casamentos nobres ver SILVA, Ana Maria Nogueira e HESPANHA, Antonio Manuel. A identidade portuguesa. In: MATTOSO, José (org). História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa: Estampa, 1998, v.IV, p.26.         [ Links ] E para os tratados militares e os comandantes leais aos Habsburgo ver BEBIANO, Rui. Literatura militar da restauração. Penélope, Lisboa, n.9/10, p.83-98, 1993.         [ Links ] Já a relação entre os tercios e a estrutura militar portuguesa está em SILVA, Kalina Vanderlei. O miserável soldo & A Boa Ordem da sociedade colonial: militarização e marginalidade na capitania de Pernambuco nos séc. XVII e XVIII. Recife: FCCR, 2001.         [ Links ] Para Matias de Albuquerque e sua lealdade aos Habsburgo, depois posta a serviço dos Bragança, ver VALLADARES, Rafael. Las dos guerras de Pernambuco. In: PEREZ, José Manuel Santos e SOUZA, George Cabral (orgs.). El desafío holandés al domínio ibérico en Brasil en el siglo XVII. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 2006, p.42.         [ Links ] O mesmo autor aborda também a complexidade da relação entre a família Mascarenhas e os Habsburgo.
4 Esse imaginário fazia parte do que Eduardo D'Oliveira França denomina hidalguía, o complexo de qualidades éticas da nobreza castelhana. FRANÇA, Eduardo D'Oliveira. Portugal na época da restauração. São Paulo: Hucitec, 1997, p.78.         [ Links ] O grupo dos hidalgos representava 90% da nobreza de Castela. BENNASSAR, Bartolomé. La monarquia española de los Austrias: conceptos, poderes y expresiones sociales. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 2006, p.108, p.120-121.         [ Links ]
5 O intercâmbio de estudantes entre as duas universidades, e o predomínio de Salamanca nessa relação, pode ser visto em DIOS, Angel Marcos de. Portugueses en la universidad de Salamanca (1580-1640). 1975. Tesis (Doctoral) - Universidad de Salamanca/Facultad de Filosofía y Letras/Cátedra de Filología Románica, Salamanca;         [ Links ] RODRÍGUEZ, Marciano Sanchez. Coimbra Y Salamanca. Transferência de Pautas Universitarias. In: TORRES, Ana María Carabias (org). Las relaciones entre Portugal y Castilla en la época de los descubrimientos y la expansión colonial. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 1994, p.211.         [ Links ]
6 Para a influência da filosofia de Salamanca sobre o Estado Espanhol do XVI e a colonização americana ver RUIZ, Rafael. Francisco de Vitória e o direito dos índios americanos. Porto Alegre: Edpucrs, 2002. E para o papel de Salamanca no contexto humanista da Península Ibérica ver VENTURA, Ricardo Nuno de Jesus. D. Gaspar de Leão e o 'desengano dos perdidos': estudo histórico-cultural. 2005. Dissertação (Mestrado, Estudos Românticos) - Universidade de Lisboa, Lisboa, p.20-30. Por sua vez, Nóbrega estudou Cânones durante cinco anos em Salamanca, antes de conseguir o título de Bacharel por Coimbra, em 1541. FRANCO, Antonio. Vida do Padre Manuel da Nóbrega. In: NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil: cartas jesuíticas I. Belo Horizonte/ São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1988, p.21-22.
7 Essa comparação entre o humanismo e o barroco espanhol pode ser vista em DE LA FLOR, Fernando R. Pasiones frías: secreto y disimulación en el barroco hispano. Madrid: Marcial Pons, 2005. Já o papel das universidades castelhanas, no reinado dos Reis Católicos, como instituições gestadoras de um modelo filosófico de Estado e de um humanismo castelhano próprio pode ser visto em MORSE, Richard. O espelho de Próspero: cultura e ideias nas Américas. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p.39-41.         [ Links ] Segundo ele, esse humanismo foi caracteristicamente distinto do italiano por ser monárquico, nacionalista e sustentar uma visão hierárquica do universo que propunha o domínio da mente sobre os apetites.
8 Para a relação dos jesuítas com a criação do imaginário barroco ver DE LA FLOR, Fernando R. Pasiones frías, p.26-28, p.124-125 e p.178. Para os tratados barrocos ver, entre outros, BEBIANO. Literatura militar da Restauração, p.83-98; ALMEIDA, Ângela Mendes de. O gosto do pecado: casamento e sexualidade nos manuais de confessores dos séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Rocco, 1993, p.32; e ALVAREZ, Fernando Bouza. Portugal no tempo dos Filipes: política, cultura, representações (1580-1668). Lisboa: Edições Cosmos, 2000, p.26. No caso de tratados escritos por jesuítas, além de Gracián, encontram-se exemplos como o Tratado de la religión y virtudes que deve tener el príncipe christiano, que ensinava o cristão a dissimular. DE LA FLOR, Fernando R. Pasiones frías, p.26 e p.178.
9 Para a ética e a estética barroca ver CANAVESE, Gabriela Fernanda. Ética y estética de la civilidad barroca: Coacción exterior y gobierno de la imagen en la primera modernidad hispánica. Cuadernos de Historia de España, Buenos Aires, v.78, n.1, ene/dic, 2003.
10 Para a busca por controle social baixo a monarquia católica ver MARAVALL. A cultura do barroco, p.68-69. E para o processo de confessionalização ver ALMEIDA. O gosto do pecado, p.32-33; EGIDO, Teófanes; SANCHEZ, Javier e GONZÁLEZ, Manuel. Los jesuitas en España y en el mundo hispánico. Madrid: Marcial Pons, 2004, p.33.
11 As origens da Companhia estão em SCHMITZ, Egídio. Os jesuítas e a educação: filosofia educacional da Companhia de Jesus. São Leopoldo: Editora Unisinos, 1994;         [ Links ] e KARNAL, Leandro. Teatro da fé: representação religiosa no Brasil e no México do século XVI. São Paulo: Hucitec, 1998, p.50.         [ Links ] Ver relação entre valores barrocos, jesuítas e Gracián em DE LA FLOR, Fernando R. Pasiones frías, p.113-122.
12 A influência cultural do Império Espanhol sobre a Europa moderna foi observada por FRANÇA, Eduardo D'Oliveira. Portugal na época da restauração, p.31. Já a relação entre artistas e cultura barroca é objeto de discussão em vasta historiografia especializada, por exemplo: BAZIN, Germain. Barroco: um estado de consciência. In: ÁVILA, Affonso. Barroco: teoria e análise. São Paulo: Perspectiva, 1997, p.17-22;         [ Links ] DE LA FLOR, Fernando. Barroco: representación e ideología en el mundo hispánico (1580-1680). Madrid: Cátedra, 2002;         [ Links ] PRAZ, Mario. Imágenes del barroco: estudios de emblemática. Madrid: Ediciones Siruela, 2005.         [ Links ]
13 O dirigismo é uma das características básicas que constituem, segundo Maravall, a cultura barroca e que agrega formulações de teólogos, juristas, escritores e artistas, muitas vezes traduzidas em manuais, elaboradas para impor padrões de comportamento sobre todos os aspectos da vida, da arte ao governo. MARAVALL. A Cultura do barroco, p.119-150.
14 Para Loyola e seus escritos ver LONDOÑO, Fernando Torres. Escrevendo Cartas. Jesuítas, escrita e missão no século XVI. Revista Brasileira de História, São Paulo, v.22, n.43, p.11-32, 2002.         [ Links ] Já para a relação entre ascensão da burguesia e o imaginário da nobreza ibérica, ver FRANÇA. Portugal na época da restauração.
15 A relação de Gracián com os cortesãos do período está em PÉCORA, Alcir. Prefácio à edição brasileira. In: CASTIGLIONE, Baldassar. O cortesão. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p.VII-XV e p.XIII.         [ Links ] E a teatralidade pode ser vista, no caso da Europa, em WRIGHT, Jonathan. Os jesuítas: missões, mitos e histórias. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006, p.57,         [ Links ] e para a América hispânica em KARNAL. Teatro da fé, p.137.
16 Para o papel político e sociocultural dos núcleos urbanos na sociedade açucareira ver SILVA, Kalina Vanderlei. Nas solidões e assustadoras: a conquista do sertão de Pernambuco pelas vilas açucareiras nos séculos XVII e XVIII. Recife: CEPE, 2010.         [ Links ] E para a composição da elite açucareira ver FERLINI, Vera Lúcia Amaral. Pobres do açúcar: Estrutura produtiva e relações de poder no Nordeste colonial. In: SZMRECSÁNYI, Tamás (org.). História econômica do período colonial. São Paulo: Hucitec/Edusp/ Imprensa Oficial, 2002.         [ Links ] Aparentemente foi durante as primeiras décadas do século XVII, ou seja, auge da União Ibérica, que a elite açucareira se consolidou através da estabilização de suas famílias principais. MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda restaurada: guerra e açúcar no nordeste, 1630-1654. Rio de Janeiro, Topbooks, 1998.         [ Links ]
17 Para o projeto educacional jesuíta ver SCHMITZ. Os jesuítas e a educação; PISNITCHENKO, Olga. A arte de persuadir nos autos religiosos de José de Anchieta. 2004. Dissertação (Mestrado em Letras) - Unicamp, Campinas.         [ Links ]
18 Sobre os laços castelhanos dos jesuítas de Nóbrega ver ROMO, Eduardo Javier Alonzo. Português e castelhano no Brasil quinhentista à volta dos jesuítas, p.496-497. Já a imersão dos jesuítas portugueses no humanismo castelhano a partir da Universidade de Salamanca pode ser vista em VENTURA, Ricardo Nuno de Jesus. D. Gaspar de Leão e o 'desengano dos perdidos'.
19 Ver EGIDO, Teófanes; SANCHEZ, Javier e GONZÁLEZ, Manuel. Los jesuitas en España y en el mundo hispánico, p.33. Já para as metas jesuítas na América Portuguesa, ver NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil: Cartas jesuíticas I, p.72. O primeiro colégio, que seria também o maior pelos séculos seguintes, foi fundado na Bahia, em 1556, seguido pelos de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, respectivamente em 1554, 1568 e 1576. FRANZEN, Beatriz Vasconcelos. Jesuítas portugueses e espanhóis no sul do Brasil e Paraguai coloniais. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003, p.7.         [ Links ]
20 NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil: Cartas jesuíticas I, p,121. As vilas açucareiras foram centros de difusão cultural também a partir dos sermões pregados nos púlpitos, muitos dos quais seriam posteriormente escritos. Tanto em Salvador, quanto em Olinda e Recife foram os beneditinos aqueles que mais se destacaram nessa atividade, mas seguidos de perto pelos jesuítas e franciscanos. MASSIMI, Marina. Palavras, almas e corpos no Brasil colonial. São Paulo: Edições Loyola, 2005, p.37-38.         [ Links ]
21 NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil: Cartas jesuíticas I, p.115. Também SCHMITZ, Egídio. Os jesuítas e a educação, p.13.
22 Para o manual de Navarro ver MOTA, Jacqueline Ferreira da. Notas sobre confessionário no século XVI na Europa e no Brasil: Azpilcueta Navarro e Anchieta. Anais do XII Encontro Regional de História ANPUH-RJ, Niterói, p.1-10, 2006. Já para sua repercussão no Brasil ver ROMO, Eduardo Javier Alonzo. Português e castelhano no Brasil quinhentista à volta dos jesuítas, p.502.
23 O Manual definia, por exemplo, qual deveria ser a extensão do conhecimento do confessor e o que ele deveria saber para distinguir os pecados. No capítulo 5, 'como o confessor é obrigado a perguntar ao penitente e a prudência que acerca disso deve guardar', diz: "o sacerdote deve com diligencia esquadrinhar a consciência do pecador em a confissão; assim como o médico a enfermidade; e o juiz a causa porque o que o penitente muitas vezes cala perguntado o revela. Onde diz Angel.interrog.i que o confessor é obrigado sob pena de pecado mortal, fazer aquelas perguntas, as quais conhece, e a consciência lhe dita, serem necessárias para a confissão ser valiosa quando tem provável opinião que o que se confessa, por ignorância ou esquecimento, as não diz". Suas diretrizes compunham, assim, um rigoroso exercício de controle não apenas da conduta, mas também do pensamento dos confidentes. NAVARRO, Martim Azpilcueta. Manual de confessores e penitentes, em ho qual breve e particular, y muy verdadeyramente se decidem, & declarã quase todas as duuidas, y casos, que nas confissões soem ocorrer acerca dos peccados, absoluições, restituyções, & censuras: composto por hum religioso da Ordem de San Francisco da província da piedade. Coimbra: Joam de Barreyra, 1560, p.20-21.
24 NAVARRO, Azpilcueta. Cartas avulsas: 1550-1568. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988, v.2, p.80.
25 Para a relação jesuítas e confissão ver PISNITCHENKO, Olga. A arte de persuadir nos autos religiosos de José de Anchieta; DE LA FLOR, Fernando R. Pasiones frías.
26 Para a relação do jesuíta Padre Mello com os Albuquerque Coelho ver PEIXOTO, Afrânio. Introdução. In: NAVARRO, Azpilcueta. Cartas avulsas: 1550-1568, v.2, p.38.
27 SILVA, Luiz Antonio Gonçalves da. As bibliotecas dos jesuítas: Uma visão a partir da obra de Serafim Leite. Perspectivas em ciências da informação, v.13, n.2, p.226-230, maio/agosto de 2008. Em 1549, enquanto outros jesuítas pediam ferramentas e sementes à Ordem na Europa, Nóbrega e João Azpilcueta Navarro pediam livros. NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil: Cartas jesuíticas I, p.87.
28 RIBEIRO, Marília Azambuja. Livros defensos e bibliotecas privadas no Brasil em finais do século XVI. In: MONTENEGRO et al. História: cultura e sentimento. Outras histórias do Brasil. Recife: Editora UFMT/ Editora Universitária/ UFPE, 2008, p.110.         [ Links ] Também BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994, p.34.         [ Links ]
29 D. Francisco era um exemplo prático das ideias do "cortesão discreto" de Gracián, influenciado tanto por Castiglione, quanto pelo próprio Gracián. Foi também leitor de Rodrigues Lobo que em sua Corte na aldeia, de 1619, adaptava esses preceitos para a corte lisboeta. FRANCO, Luis Farinha. Da fortuna literária de D. Francisco de Melo e do Barroco. In: RAFAEL, G; FRANCO, L. (coords). D. Francisco Manuel de Melo 1608-1666. Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa, 2008, p.09-10.         [ Links ] Sua obra poética, tanto em português quanto em castelhano, é considerada uma das mais variadas do barroco ibérico. TOBELLA, Joan E. Cuarenta sonetos manuscritos de Francisco Manuel de Melo. Criticón, n.61, p.7-8, 1994.         [ Links ]
30 Para a vida, formação e obras de Melo ver PRESTAGE, Edgar. D. Francisco Manuel de Melo: esboço biográphico. Coimbra: Editora da Universidade, 1914, p.10-11, p.20 e p.31-32; e TOBELLA. Cuarenta sonetos manuscritos de Francisco Manuel de Melo, p.7-8. Além disso, sua vasta correspondência com cortesãos, escritores e atores sociais os mais diversos na Corte Habsburga pode ser encontrada em AZEVEDO, Antonio Luis (org.). Cartas familiares de D. Francisco Manuel, escritas a varias pessoas sobre assuntos diversos. Lisboa: Oficina dos Herdeiros de Antonio Pedroso Galram, 1752.         [ Links ]
31 Prestage afirmou que D Francisco era "amicíssimo" dos jesuítas e por isso tinha acesso à biblioteca do Colégio da Bahia, apesar de defender que provavelmente ele já trouxera de Portugal o esboço de seu livro. PRESTAGE, Edgar. D. Francisco Manuel de Melo, p.271-273, p.281-283. Por sua vez, o estudo mais recente de Luiz Antonio Gonçalves da Silva indica que o fidalgo era frequentador assíduo da referida biblioteca. SILVA, Luiz Antonio Gonçalves da. As bibliotecas dos jesuítas, p.226-230.
32 SILVA, Luiz Antonio Gonçalves da. As bibliotecas dos jesuítas, p.226-230.
33 O único estudo sistemático sobre os livros trazidos para Pernambuco, referente ao século XVIII, registra a compra das obras de Navarro e Gracián por indivíduos na capitania. VERRI, Gilda Maria Whitaker. Tinta sobre papel: livros e leituras em Pernambuco no século XVIII 1759-1807. Recife: Ed. Universitária/ UFPE, 2006, v.2, p.78 e 101. Para os séculos anteriores existem indícios esparsos sobre os títulos pertencentes a essas bibliotecas: Luiz Antonio Gonçalves da Silva localiza a vida de Santo Inácio entre as obras lidas no Colégio do Pará, ao lado de Plutarco, Terencio, Horácio, Marcial e Ovídio - que teriam sido expurgados da Bahia de 1583 - , das obras completas de Vieira e Camões e diversos títulos sobre teologia, direito, moral e ascética. SILVA, Luiz Antonio Gonçalves da. As bibliotecas dos jesuítas, p.228 e 231. Podemos presumir que tais obras também compunham as bibliotecas de Bahia e Pernambuco, então mais prestigiadas. Por sua vez, Dom Francisco de Melo afirmou ter lido o tratado do Padre Telles na Bahia do século XVII. PRESTAGE, Edgar. D Francisco Manuel de Melo. Já a relação intelectual de Nóbrega com o Padre Martín Navarro sugere fortemente que o Manual de confessores e penitentes fosse leitura frequente entre seus subordinados. Uma relação que transparece na carta escrita ao próprio Navarro em 1549. NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil: Cartas jesuíticas I, p.88-96. Além disso, tanto Nóbrega quanto Anchieta produziram obra variada, escrita no Brasil e impressa na Metrópole, que presumivelmente era conhecida nos colégios jesuítas.
34 DIOS, Angel Marcos de. Estudiantes de Brasil en La Universidad de Salamanca durante los siglos XVI y XVII. Separata da Revista de História, São Paulo, n.105, p.215-229, 1976.
35 Esses dados foram compilados a partir das descrições de DIOS, Angel Marcos de. Estudiantes de Brasil en la Universidad de Salamanca durante los siglos XVI y XVII, p.224-226.
36 Registros transcritos por DIOS, Angel Marcos de. Estudiantes de Brasil en la Universidad de Salamanca durante los siglos XVI y XVII, p.221 e 228. Tradução: "aos soldados de Pernambuco em campanha contra os holandeses e que foi objeto de diversas mercês, para ele e para seus filhos, por seus serviços na dita campanha."
37 FONSECA, Luiza de. Bacharéis brasileiros: elementos biográficos (1635-1830). Anais IV Congresso de História Nacional, Rio de Janeiro, v.XI, p.140-141, 1951 apud DIOS, Angel Marcos de. Estudiantes de Brasil La Universidad de Salamanca durante los siglos XVI y XVII, p.222.
38 Exemplo dessas práticas foram as cerimônias de recepção do visitador Heitor de Mendonça Furtado, ele também um representante da política Habsburga para a América açucareira. MENEZES, Raul Goiana. Olinda visitada: uma análise do cerimonial barroco na chegada e instalação da visitação do Santo Ofício em 1593. Anais Eletrônicos do I Encontro Nordestino de História Colonial - Territorialidades, Poder e Identidades na América Portuguesa - Séculos XVI a XVIII, João Pessoa, PPGH-UFPB, 2006.
39 SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Recife: Ed. Massangana. 2000, p.90.         [ Links ] Por sua vez, Nóbrega sempre atribuiu a Tomé de Souza as melhores qualidades, inclusive um alto grau de compreensão do espírito da Companhia. NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil: cartas jesuíticas I, p.131.
40 Para a vida de Diogo Botelho, sua administração e sua estadia em Olinda, ver SERRÃO, Joaquim Veríssimo. Do Brasil Filipino ao Brasil de 1640. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968, p.89-93; Para os costumes dos senhores em Olinda antes da invasão da WIC, ver CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978, p.201: "A gente da terra é honrada: há homens muito grossos de 40, 50, e 80 mil cruzados de seu: alguns devem muito pelas grandes parcelas que têm com a escravaria de Guiné; que lhe morrem muito, e pelas demasias e gastos grandes que têm em seu tratamento. Vestem-se, e as mulheres e filhos de toda a sorte de veludos, damascos e outras sedas, e nisto têm grandes exceções. As mulheres são muito senhoras, e não muito devotas, nem freqüentam as missas, pregações, confissões, etc..."; e para a atuação dos Albuquerque Coelho junto a D. Sebastião ver DUTRA, Francis. Notas sobre a vida e morte de Jorge de Albuquerque Coelho e a tutela de seus filhos. Separata da Stvdia - Revista Semestral, Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, n.37, p.265-267, dez. 1973.
41 Sobre os colégios jesuítas como produtores de panegíricos ver SILVA, Luiz Antonio Gonçalves da. As bibliotecas dos jesuítas, p.227.
42 Matias, na verdade, foi batizado Paulo, tendo seu nome trocado em homenagem ao tio. DUTRA, Francis. Notas sobre a vida e morte de Jorge de Albuquerque Coelho e a tutela de seus filhos, p.273, 274, 278. Para o parentesco dos Albuquerque com a nobreza portuguesa ver DUTRA, Francis. Notas sobre a vida e morte de Jorge de Albuquerque Coelho e a tutela de seus filhos, p.285, e MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada, p.32.
43 Matias de Albuquerque chegou a Pernambuco pela primeira vez em 1620, nomeado governador e capitão-mor, e como procurador do irmão. DUTRA, Francis. Matias de Albuquerque and the defense of northeastern Brazil, 1620-1626. Separata Stvdia - Revista Semestral. Lisboa, n.36, p.118-119, jul. 1973.
44 MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda restaurada, p.50, 04,33.
45 Ver sobre isso Requerimento do moço fidalgo da casa real, Lourenço de Azevedo Vasconcelos, ao rei [d Filipe III], pedindo provisão para levantar uma companhia no minho, beira e trás os montes para ir servir na guerra da capitania de Pernambuco. Lisboa. Arquivo Histórico Ultramarino, AHU/ACL/CU/015, cx2, p.131. Também pedido de confirmação de título de fidalguia concedido a português que servira na guerra em Pernambuco. Lisboa. Arquivo Histórico Ultramarino, cx.2, p.108, e KRAUSE, Thiago. Em busca da honra: os pedidos de hábitos da Ordem de Cristo na Bahia e em Pernambuco, 1644-76. Anais do XIII Encontro de História da ANPUH-RJ, Niterói, 2008. Disponível em: <http://encontro2008.rj.anpuh.org/#>. E Sobre las pesquisas que se devem hacer de los procedimientos de Matias d'Albuquerque y Diego Luis d'Oliveira; y letrado que Señora Princesa havia nombrado P[a] ir al Brasil a estas diligencias. Espanha. Archivo General de Simancas, Secretarías Provinciales, Libro 1478, hojas 137-138v. Também CAMENIETZKI, Carlos Ziller e PASTORE, Gianriccardo Grassia. 1625, o fogo e a tinta: a batalha de Salvador nos relatos de guerra. Topoi, Revista de História, v.6, n.11, p.265, jul/dez 2005.         [ Links ]
46 Sobre lo que escribe Don Luis de Rojas cerca de las mercedes que se devem hacer a las personas que asisten en la guerra de Phernambuco dineros que se deven he dar, y perdon que se devem dar. Espanha. Archivo General de Simancas, Secretarías Provinciales, libro 1478, hoja 37. A tradução dos trechos aqui citados: "se acharam leais ao serviço de Vossa Majestade e o acompanharam deixando seus engenhos e fazendas são muito dignos de que Vossa Majestade os agradeça com alguma demonstração para exemplo dos que foram traidores e dos que não os imitaram"; "fidelidade largaram tudo e se retiraram" ficando "um filho do dito Antonio de Valladares que era lavrador de engenho o qual se dizia que pusera bandeira branca em sua casa, e que por isso não se lhe tocou em nada."
47 Sobre lo que pide Duarte Brandão en nombre de sus hermanos Jorge Lopes Brandão; y de su sobrino Francisco Camelo Brandão: que se hallaron en la evasión de la Parahyba Y dejaron todos sus haciendas perseguir el servicio de VMg[de]. Espanha. Archivo General de Simancas, Secretarías Provinciales, libro 1478, hj.51-51v. Aqui, ao contrário do que dizia a lista de Rojas y Borja, Jorge Lopes Brandão aparece como já possuindo hábito da Ordem de Cristo. Tradução: "E tendo ocasião de poder embarcar para o Reino, aproveitando-se da muita parte de sua fazenda, não o fizeram, porque a dita cidade y capitão-mor lhes pediram não o fizessem porque seria desconsolo e desalento de toda a vila. Nesse último reguento em que se perdeu a praça, oprimida com a superior força do inimigo, é notório que lutaram valorosamente por suas pessoas até (...) à espada; e oferecendo o inimigo livremente suas fazendas aos moradores, eles deixaram as suas (sendo sem comparação as maiores que nenhum particular possuía na dita capitania) e se fez (...) com as armas, retirando-se ao Recôncavo de Pernambuco, aonde estão servindo e pretendem acabar a vida a serviço de Vossa Majestade. E que essas circunstancias não concorrem nenhuma pessoa daquela Capitania como alardeia a fama que os singulariza com demonstração, os premiar, não somente com honras, mas também com mercês que possam ajudar-los a passar a vida, pois se acham sem remédio para sustentá-las; e não têm recebido até agora nenhuma mercê pelos serviços. Suplicam a Vossa Majestade que em consideração do que se refere lhe faça Vossa Majestade mercê honrar o dito seu irmão Luis Brandao com o foro de fidalgo, como tem seu irmão mais velho, e com o hábito de Cristo com uma pensão efetiva de que possa se sustentar, (...). e seu irmão Jorge Lopes Brandão com o foro de fidalgo que tem seu irmão mais velho. E uma comenda, ou pensão com o hábito que tem. E a seu sobrinho Francisco Camelo Brandão com o hábito de uma das ordens militares,e uma pensão com que possa se sustentar."
48 A lealdade como elemento barroco pode ser vista em VEGA, Lope de. Valor, fortuna y lealtad. Alicante: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2003; VEGA, Lope de. El assalto de Mastrique por el Principe de Parma. Alicante: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2009. E enquanto os principais conceitos em Gracián foram detalhados em CANTARINO, Elena; BLANCO, Emilio (coord). Diccionario de conceptos de Baltasar Gracián. Madrid: Catedra, 2005, um exemplo de tratado de cortesia escrito por nobre de Castela é a INSTRUÇIÓN de Don Juan de Silva, Conde de Portalegre, partiendo de la Corte para este Reyno por mandado del Rey Don Felipe II, dejo a su hijo don Diego de Silva que em ella estava. Son algunos destos documentos de Juan de Vega que dio a un su hijo y van por el mismo conde de Portalegre aqui comentados y por ele acreçentados. In: CONSULTAS a Felipe IV. Salamanca: Biblioteca Universitaria de Salamanca. [Manuscrito] MS 2496, 12.
49 O herói de Gracián era o hidalgo por excelência, o 'varão máximo' que deveria ser destro em artifícios e ostentar conhecimento, mas sem se fazer muito compreensível; que não se rendesse aos mandos da vontade; que fosse grande orador, filósofo e grande de coração; e tivesse bom gosto e fosse eminente. O herói, discreto e prudente, era aquele que tinha o entendimento do mundo e subordinava suas vontades. GRACIAN, Baltasar. El Héroe (1669). Alicante: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2005, p.09-10, 15, 19 e 28.
50 MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda restaurada, p.184-185 e p.226-229.
51 PRIMEIRA Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil; Denunciações e Confissões de Pernambuco 1593-1595. Recife: FUNDARPE, 1984, p.132, 165, 166, 187, 196, 353; p.133.
52 SALVADOR, Frei Vicente de. História do Brasil 1500-1627. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1982, p.216-223.
53 "Sabendo-se na Espanha do apresto desta armada, e achando-se Matias de Albuquerque em Madrid, então, chegado do Brasil (aonde tinha servido de governador e capitão geral), pareceu que, tanto pela sua qualidade, valor e experiência que tinha daquele Estado, como por ser Pernambuco de seu irmão mais velho, Duarte de Albuquerque Coelho, convinha enviá-lo a sua defesa. (...) Julgou ele que, quando chegasse a Lisboa, acharia o necessário para opor-se ao poder do inimigo, que avisaram que ia ao Brasil. E o que achou foi uma caravela com 27 soldados e algumas munições." COELHO, Duarte de Albuquerque. Memórias diárias da guerra do Brasil. São Paulo: Beca, 2003, p.17.
54 COELHO, Duarte de. Memórias diárias da guerra do Brasil, p.33.
55 COELHO. Duarte de. Memórias diárias da guerra do Brasil, p.41.
56 Para os Mendonça de Pernambuco, agraciados com hábitos de Calatrava, ver os processos de Bartolomé de Mendoza e Jerônimo de Mendoza. Archivo Histórico Nacional/Espanha. Consejo de Órdenes, OM-Expedientellos, n.10316; OM-Caballeros Calatrava, exp.1620 e OM-Caballeros Calatrava, exp.1618. A família ascendeu durante a União Ibérica, chegando a ocupar importantes cargos eclesiásticos em Pernambuco, inclusive na Inquisição, e a atuar na Santa Casa de Misericórdia.
57 Depois da restauração os senhores de Pernambuco se esmeraram na pompa barroca de festas públicas que se tornaram os espaços por excelência da demarcação de prestígio e status de 'fiéis vassalos' açucareiros. SILVA, Kalina Vanderlei. Festa e memória da elite açucareira no século XVII: a Ação de Graças pela restauração da capitania de Pernambuco contra os holandeses. In: OLIVEIRA, Carla Mary S.; MENEZES, Mozart Vergetti de e GONÇALVES, Regina (orgs.). Ensaios sobre a América portuguesa. João Pessoa: Editora Universitária UFPB, 2009, p.67-80.