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Varia Historia

Print version ISSN 0104-8775

Varia hist. vol.30 no.53 Belo Horizonte May/Aug. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-87752014000200010 

ARTIGOS

 

"Servindo a Lúcifer e não a Clio": a retórica da suspeição e da deslegitimação profissional na historiografia sobre o  Oeste norte-americano (c. 1990-c.1995)

 

"Serving Lucifer, not Clio": the rhetoric of suspicion and of professional delegitimation in the historiography of the American West (c. 1990-c.1995)"

 

 

Arthur Lima De Avila

Departamento de História Universidade Federal do Rio Grande do Sul Porto Alegre (RS) Brasil Contato: arthurlavila@gmail.com

 

 


RESUMO

Nos anos 1990, o campo historiográfico norte-americano da Western History foi palco de um debate intelectual intenso sobre o significado da história do Oeste para os Estados Unidos entre a chamada "New Western History" e seus adversários. Naquela conjuntura, uma das maneiras que estes usavam para atacar aquela era uma retórica da suspeição e da deslegitimação profissional que vinculava os new western historians aos fantasmas supostamente ameaçadores do "pós-modernismo" e da "desconstrução", por exemplo - mesmo que tais acusações fizessem pouco ou nenhum sentido. Pode-se dizer, assim, que tal retórica era um instrumento de combate pelo domínio dos lugares de produção da história do Oeste norte-americano.

Palavras-chave: historiografia norte-americana, New Western History, retórica da suspeição


ABSTRACT

In the 1990s, the historiographical field of American Western History was the stage of an intense debate about the significance of the history of the American West between the so-called "New Western History" and its adversaries. In that context, one of the ways used by the former to attack the latter was a rhetoric of suspicion and professional delegitimation which connected the new western historians to the allegedly dangerous ghosts of "post-modernism" and "deconstruction", for example - even if such accusations made little or no sense at all. Thus, it can be said that such rhetoric was an instrument in the combat for the domain of the social places or production of the history of the American West.

Keywords: American historiography, New Western History, rhetoric of suspicion


 

 

INTRODUÇÃO

As décadas de 1980 e 1990 foram anos bastante turbulentos para a historiografia norte-americana. Para muitos, as certezas disciplinares estavam ruindo por terra, vítimas de uma crise epistemológica e profissional profunda. De acordo com eles, os problemas eram derivados de uma suposta fragmentação da disciplina e da adoção de inovações teóricas "estranhas" à historiografia, como aquelas que colocavam a linguagem e os "textos" na ordem do dia dos historiadores, por exemplo - chamados, dentre outras coisas, de "pós-modernos" ou "desconstrucionistas". De um lado, estavam aqueles que condenavam tais inovações, vistas como meras modas acadêmicas e ameaças à historiografia "propriamente dita". No outro, estavam os que davam boas-vindas às novidades, ou, pelo menos, não as consideravam tão calamitosas assim.1

Naquela conjuntura, palavras como "pós-modernismo", "desconstrução", "multiculturalismo" e seus derivados se tornaram recorrentes no vocabulário historiográfico, sendo esgrimidos por ambos os lados da contenda, em contextos e situações diversas, sem que necessariamente estivessem se referindo a conceitos ou posicionamentos intelectuais mais amplos de fato. Isto acarretou um esvaziamento do debate em que a preocupação com os desdobramentos teóricos e historiográficos do dito "pósmodernismo" foi substituída por interdições políticas contra os oponentes em questão (fossem eles quem fossem...), que visavam deslegitimá-los profissionalmente ou criar determinados espantalhos intelectuais que pouco ou nada se assemelhavam com as posições daqueles atacados. Em outras palavras, a caricaturização de adversários e conceitos se transformou em algo recorrente e acabou substituindo o debate teórico sério em diversos momentos.

Pelas penas de alguns historiadores, os "pós-modernos", por exemplo, se transformaram em verdadeiros bárbaros nos portões, cabendo a seus adversários manter a disciplina histórica a salvo destas hordas. No entanto, pouco importava se os acusados fossem de fato identificados com este pós-modernismo; a competição pelos lugares de produção passava pela criação de certas caricaturas intelectuais, cuja finalidade maior era adjetivar negativamente os adversários e, em contrapartida, garantir certos espaços disciplinares. Neste contexto, termos como "desconstrução" (ou "desconstrucionismo") e "pós-modernismo" tornaram-se, em boa parte do discurso historiográfico estadunidense das duas últimas décadas do século XX, conceitos esvaziados de qualquer significado mais específico.2 Parafraseando Sande Cohen, elas tornaram-se "palavras de combate" nas guerras textuais daquelas décadas.3

Ao mesmo tempo em que estas "guerras textuais" grassavam no âmbito maior da disciplina, outras ocorriam em campos historiográficos mais específicos, assim como no contexto político mais amplo dos Estados Unidos. No primeiro caso, na chamada Western History, o significado do passado do Oeste norte-americano era objeto de um intenso debate entre a chamada "New Western History" (NWH), que reescrevia a história daquela região em contornos mais marcadamente críticos do que os da historiografia anterior, e seus adversários, que respondiam de forma contundente a este projeto. Durante quase uma década, a História do Oeste se tornou um campo de batalha entre estas posições divergentes, onde embates historiográficos tomaram, muitas vezes, a forma de interdições políticas que visavam, em última análise, a desqualificação profissional da NWH por alguns de seus adversários mais exaltados. Já no segundo, as chamadas culture wars colocavam em lados opostos progressistas e conservadores em questões como a legalização do aborto, imigração, multiculturalismo, porte de armas e religião e dominavam o debate público norte-americano daqueles anos, tornando extremamente virulento e inflamado. Como não podia deixar de ser, o próprio significado da história dos Estados Unidos se tornou algo em disputa nesses anos e isso acabou tendo reflexos nas contendas sobre o passado do Oeste, pois, não raro, ambos os lados do conflito se identificavam com algumas das posições antagônicas destas "guerras culturais".4

O objetivo desse artigo, contudo, não é tratar especificamente desta contenda, o que transcenderia em muito seus limites, mas analisar de forma mais específica esta retórica da deslegitimação profissional a partir dos conflitos historiográficos sobre o passado do Oeste norte-americano dos anos 1980 e 1990, quando, juntamente com as narrativas divergentes em disputa, certos historiadores buscaram desacreditar seus oponentes vinculando-os ao "pós-modernismo" e à "desconstrução", entre outras coisas, mesmo que tais acusações fizessem pouco ou nenhum sentido. Na verdade, e este é o principal argumento do texto, pouco importava se tais admoestações tivessem nexo: seu intuito era o de desqualificar o esforço historiográfico da NWH, associando-a a movimentos considerados "perigosos" e "estrangeiros" à disciplina e, por isso, ilegítimos. O que estava em jogo era a manutenção de certos espaços nos lugares de produção; este era, assim, um embate tanto político quanto historiográfico.

O artigo está dividido em três partes: na primeira, faço um breve apanhando dos debates historiográficos sobre as "palavras de guerra" acima mencionadas ("pós-modernismo" e "desconstrução", entre outras) em terras norte-americanas, com o intuito de esclarecer a conjuntura discursiva que possibilitou certos entendimentos destes conceitos na disciplina histórica. Na segunda, introduzo os conflitos sobre a escrita da história do Oeste estadunidense, para, na terceira e última parte, avaliar como ali funcionou esta retórica da deslegitimação profissional.

 

CAMINHOS ÁSPEROS: UM BREVE PERCURSO SEMÂNTICO

Em 1966, durante o colóquio sobre estruturalismo realizado na Universidade Johns Hopkins, o filósofo francês Jacques Derrida proferiu sua famosa palestra "Structure, Sign and Play in the Discourse of the Human Sciences". Começava, assim, a turbulenta trajetória da palavra "desconstrução" em terras norte-americanas, segundo José Vasconcelos.5 Ainda que já fosse relativamente conhecido nos Estados Unidos, o encontro de Baltimore serviu para dar uma imensa visibilidade ao trabalho de Derrida, principalmente nos Departamentos de Teoria e Crítica Literária e, em menor escala, de Filosofia, daquele país. Nos primeiros, em especial, o trabalho de Derrida passou a atrair o interesse de inúmeros intelectuais de renome, especialmente aqueles que ficariam conhecidos como o "grupo de Yale", que incluía nomes como Paul de Man, J. Hillis Miller e Geoffrey Hartman. Dada a proeminência institucional e intelectual da chamada "Yale School", a sua leitura de Derrida tornou-se dominante no cenário das Humanidades norte-americanas, em especial após a publicação da famosa antologia Deconstruction and Criticism, em 1979.6

Já nas searas da historiografia, a revista History and Theory publicaria, a partir de fins dos anos 1960 e durante a década de 1970, uma série de artigos, de autores como Hayden White, Quentin Skinner, Louis Mink e William Dray, em que a linguagem e a narrativa histórica apareciam como preocupações centrais.7 Para além dos debates anteriores sobre "cientificidade" do "método" histórico ou sobre objetividade, explicação e a causalidade na história, as novas contribuições voltavam-se para o problema do funcionamento das narrativas históricas e sua relação com a ficção. Do mesmo modo, Hayden White publicaria seu seminal Metahistory em 1973, marcando, assim, na opinião de diversos autores, a "virada lingüística" definitiva na história.8 Ainda que estas discussões tenham passado ao largo do mainstream historiográfico de então, elas acabaram abrindo as portas da disciplina para as problemáticas que se tornariam recorrentes nas décadas de 1980 e 1990, quando da popularização da "linguistic turn" na historiografia.

A fusão de diferentes autores e perspectivas teóricas através da rubrica da "desconstrução" se deu, segundo Ethan Kleinberg, a partir das diversas críticas e avaliações das "inovações teóricas" na disciplina histórica nos anos 1980.9 De início, o julgamento da desconstrução derridadeana foi relativamente favorável, como atestam alguns textos do início daquela década, em especial no campo da História Intelectual.10 No entanto, certos desdobramentos ocorridos "fora" da disciplina, como o surgimento dos Estudos Subalternos11 e do Novo Historicismo,12 que faziam da história seu instrumento de análise e, principalmente, de crítica, causaram um crescente sentimento entre os historiadores de que uma tempestade se avizinhava no horizonte. Não tardaram, assim, a surgir textos que denunciavam fortemente a "desconstrução" como um ataque "estrangeiro" e indevido à História.13

Como resultado, o termo "desconstrução" passou a ser utilizado para definir uma série de práticas metodológicas que pouco ou nada tinham a ver com a concepção original de Jacques Derrida, criador e principal proponente deste tipo de leitura textual. De acordo com Kleinberg, a estratégia desconstrucionista de Derrida abordava um texto, qualquer texto, como um local de contestação e luta, embora escondido, na medida em que o escrito afirma sua ordem interna através do estabelecimento de uma hierarquia de significados. A função da desconstrução, enquanto uma prática de leitura, seria revelar e desmontar esta hierarquia, atentando para os significados ocultos e para as descontinuidades dentro do próprio texto. Do mesmo modo, ela focaria naquilo que está ausente do texto, aquilo sobre o qual ele silencia ao mesmo tempo em que dele depende.14 Ainda assim, de acordo com Kleinberg, quando "desconstrução" passou a ser utilizada no discurso da historiografia profissional, foi para enfatizar os perigos de tal prática para a profissão, mesmo que os críticos não tivessem muita certeza sobre o que estavam falando.

No final dos anos 1980, a "desconstrução" acabou sendo vista como parte de algo maior, a já citada "virada lingüística". Este "linguistic turn" abarcaria, na visão de certos historiadores, todos aqueles desenvolvimentos teóricos que tinham a "linguagem" como objeto de análise ou crítica.15 Neste sentido, movimentos tão díspares como a Nova História Cultural, a Nova História Intelectual, a gender history e o Novo Historicismo, para citar apenas alguns, foram entendidos como parte de uma grande virada disciplinar em torno das questões de linguagem, para o bem ou para o mal. Logo, intelectuais diversos, principalmente aqueles mais críticos da ortodoxia profissional, como, por exemplo, Hayden White, Michel Foucault, Michel de Certeau, Roger Chartier e Dominick La Capra foram acusados de serem desconstrucionistas, ainda que seus trabalhos tivessem pouco ou nada a ver com os de Derrida.16 Isto permitiu, segundo Kleinberg, que a desconstrução fosse

aplicada a todos os tipos de sujeitos sem a necessidade de se recorrer ao trabalho de Derrida. Agora, a desconstrução podia ser afiliada com um grande número de teóricos e metodologias como foi adaptada aos serviços da história cultural, antropologia cultural, estudos feministas e de gênero, estudos subalternos e estudos culturais. Neste processo, o termo "desconstrução" tomou o peso de uma posição política ou ideológica a favor ou contra das novas tendências na prática histórica norte-americana.17

Como se não bastasse, a "desconstrução" e a "virada linguística" encontrariam aquele outro fantasma, o chamado "pós-modernismo" e viriam, assim, a se associar a certos desdobramentos da historiografia norte-americana que ensejavam um sentimento de "crise" epistemológica recorrente nas duas últimas décadas do século XX.18 Este mal-estar era atribuído à fragmentação da disciplina ocorrida, principalmente, com a multiplicação acelerada de novos temas e perspectivas historiográficas. Para muitos, esta proliferação historiográfica paradoxalmente obliterava o passado, transformando-o numa massa "amorfa" de informações. Esta erosão de uma Grande Narrativa nacional capaz de integrar todas as outras, era, segundo eles, resultante do advento da chamada Nova História Social dos anos 1970, que deu vazão às demandas historiográficas de diversos grupos marginalizados, como negros, latinos, imigrantes pobres e mulheres. Estas "novas histórias" criaram um profundo impasse, já que suas afirmações "particularistas" se chocavam com o pretenso universalismo de boa parte da historiografia estadunidense.19 Num contexto em que "cada grupo era seu próprio historiador", para usar os termos de Peter Novick, a história dos Estados Unidos aparecia agora como um retrato fragmentado, sem possibilidade de ser unificado em torno de certos temas em comum.20 Foi nesta conjuntura que ocorreram os debates sobre o "pós-modernismo" em terras norte-americanas.

Na historiografia norte-americana (ou, de forma mais ampla, naquela de língua inglesa), o "pós-modernismo" foi entendido de diversos modos, mas, em geral, sempre vinculado às figuras espectrais da desconstrução e do linguistic turn.21 Para um dos nomes mais identificados com a "historiografia pós-moderna", Keith Jenkins, o termo "pós-modernismo" denotava não uma posição teórico-metodológica, mas a constatação de uma condição, isto é, o reconhecimento do "colapso" das Grandes Narrativas e do caráter fragmentário das histórias do fim do século XX. Segundo Keith Jenkins, isto foi resultado principalmente das falhas do que ele chamou de "sistemas ideológicos/sociais eurocêntricos antagônicos", identificados em suas versões "burguesa" e "marxista", em dar conta das esperanças e anseios da humanidade. Ademais, o grotesco e ainda inigualado espetáculo de atrocidades do século XX, ao lado de suas crenças em um progresso infindável, desnudaram, segundo Jenkins, a face obscura do ideal iluminista de Progresso e Razão.22

O teórico holandês Frank Ankersmit, outro historiador identificado com o "pós-modernismo", descreveu como seria a historiografia nesta nova era. Para ele, o que se estaria testemunhando com o advento da condição pós-moderna era o adeus definitivo a "todas as aspirações essencialistas" que haviam dominado a historiografia profissional desde sua consolidação no século XIX: o princípio de que o passado possuía uma lógica intrínseca, cabendo aos historiadores a sua descoberta.23 Neste caso, para utilizar a metáfora empregada por Ankersmit, o foco da historiografia pós-moderna não era o tronco das árvores, a "essência" do passado, mas suas frágeis folhas, os pequenos fragmentos de história que, com qualquer vento mais forte, são arrancados de seus galhos.24 Aqui, segundo ele, o "significado" seria mais importante do que "reconstrução" e "gênese".25 Nesta conjuntura pós-moderna, as antigas crenças dos historiadores na objetividade histórica e na capacidade da linguagem de representar corretamente a realidade não faziam mais sentido. O mito da "História-Ciência" teria caído por terra, revelando a opacidade da linguagem do historiador e a impossibilidade da história de realizar suas pretensões científicas:

Por causa da relação entre a visão historiográfica e a linguagem utilizada pelo historiador para expressar esta visão - uma relação que em nenhum lugar interssecciona o domínio do passado - a historiografia possui a mesma opacidade e a dimensão intencional da arte.26

Na visão daqueles contrários ao "pós-modernismo", suas origens eram mais obscuras. Para David Hollinger e Russell Jacoby, por exemplo, ele era indissociável da virada lingüística e do "desconstrucionismo", sendo compreendido como uma ofensiva de teóricos e professores de Literatura que pouco ou nada entendiam da pesquisa histórica e das "regras" que governavam a disciplina histórica.27 Perez Zagorin, em famosa resposta a Ankersmit, repetia a acusação de que os "pós-modernos" eram outsiders que, inspirados no "desconstrucionismo" de Foucault (ele não menciona Derrida), rejeitavam o "humanismo" inerente à História, oferecendo, em troca, um sentimento fatalista e de negação da "obrigação cultural" do historiador em representar o passado wie es eigentlich gewesen, como diria Ranke.28 Finalmente, outros, advindos do marxismo, como Elizabeth Fox-Genovese29 e Bryan Palmer,30 identificavam no "pós-modernismo" o abandono de uma compreensão estrutural/totalizante da sociedade contemporânea e sua ênfase no aspecto "textual" da realidade - o que, para eles, era comparável a outros reducionismos "vulgares" e "anti-históricos", como o dos cliométricos, por exemplo.31

Para certos autores, o "pós-modernismo" era ainda mais perigoso do que uma simples moda intelectual. Gertrude Himmelfarb, uma historiadora política e metodologicamente conservadora via a historiografia pós-modernista e a desconstrução como sendo nada mais do que a última manifestação da "degradação" da História iniciada ainda na década de 1960, com o marxismo britânico e a Nova História Social, e completada pelos pós-modernistas do fim do século passado.32 Se os primeiros haviam "ideologizado" a história de forma inaceitável, os últimos iam ainda mais longe e defendiam uma "free-for-all history" sem compromissos com a "verdade" e "factualidade" históricas.33 Para ela, "pós-modernismo" e "marxismo" eram lados opostos da mesma moeda e ambos, cada um a seu modo, representavam uma ameaça conjunta aos pilares da civilização ocidental.34

Igualmente, três importantes historiadoras norte-americanas, no volume em que pretendiam "falar a verdade sobre a história", localizavam as origens da ameaça pós-moderna na crise da modernidade do século XX, sendo Frederich Nietzsche e Martin Heidegger os principais antepassados intelectuais do pós-modernismo. Denunciando as posições "antidemocráticas, antiocidentais e antihumanistas" dos filósofos alemães, e apontando suas vinculações com o Nazismo (reais, no caso de Heidegger, e nem tanto no caso de Nietzsche...), elas atacavam o pós-modernismo como sendo um grande ataque aos pilares da racionalidade e da democracia no mundo ocidental. Desta breve análise, segue que toda a historiografia "pósmoderna", nunca definida de forma precisa por elas e sem citar nomes, seria tanto um ataque indevido à disciplina, quanto um oximoro, uma contradição em termos. Como consequência, autores e "movimentos" intelectuais tão diversos quanto Jacques Derrida, Michel Foucault, Hayden White, os Estudos Subalternos e os estudos de gênero eram feitos cúmplices deste monstruoso assalto "pós-moderno" à História.35

O que é interessante nestas caracterizações é que, em geral, elas foram feitas a partir de citações secundárias ou de vagas conceitualizações, sem o necessário escrutínio crítico dos autores e textos citados.36 Isto levava a uma argumentação circular que criava uma espécie de espantalho intelectual, talvez mais importante para a auto-afirmação da disciplina do que qualquer outra coisa. Em sendo assim, as palavras "desconstrução" e "pós-modernismo", além de suas diversas derivações, foram lentamente tornando-se significantes vazios, passando a se referir a quaisquer autores que desafiassem a doxa historiográfica, em geral ou em alguma área específica, independente da "correção" das acusações. Dito de outro modo, elas se tornaram elementos de uma retórica de suspeição, que consistia em:

Reduzir o oponente a meia dúzia de traços, a uma definição sumária, criando uma situação de antagonismo maniqueísta, uma situação de conflito onde só podem existir duas posições possíveis: ou se está dentro ou se está fora, ou se está a favor ou se está contra aquela posição definida como sendo a ortodoxia, a norma, a verdade, a realidade.

Este topos discursivo não visava necessariamente o engajamento com os argumentos do oponente, mas a sua deslegitimação profissional a partir do uso destas "palavras de batalha". Na medida em que não se reconhecia o "pós-modernismo" como algo legítimo pela disciplina, qualquer um suspeito de praticá-lo ou de comungar de alguns de seus preceitos estaria imediatamente fora do escopo de legitimidade profissional determinado pelo mainstream historiográfico. Se compreendemos, como Sande Cohen, que os lugares sociais de produção da História funcionam como "fortalezas", que envolvem tanto as normas que a regem como a própria legitimidade cultural e pública da disciplina, então pode-se compreender esta retórica da suspeição em termos eminentemente políticos: "quando os historiadores significam errado as teorias projetadas de seus oponentes pós-modernos eles servem como controladores de fronteira da disciplina/profissão histórica, vigilantes em efetivar controles narrativos em nosso senso de eventos".

 

ERA UMA VEZ NO OESTE...: A NEW WESTERN HISTORY E A REESCRITA DA HISTÓRIA DA LEGIÃO

Em paralelo aos debates disciplinares mais amplos sobre a virada lingüística e o "pós-modernismo" acima mencionados, houve, entre as Foucault, Derrida. Berkeley: University of California Press, 1985; JAY, Martin. Cultural semantics: keywords of our time critical. Amherst: University of Massachussets Press, 1998. Além disso, ver, igualmente, as críticas marxistas de Bryan Palmer e Alex Callinicos ao pós-modernismo: PALMER, Bryan. Descent into discourse: the reification of language and the writing of social history. Philadelphia: Temple University Press, 1990; CALLINICOS, Alex. Against postmodernism: a marxist critique. Oxford: Polity Press, 1991.

décadas de 1980 e 1990, outro, sobre a história do Oeste norte-americano e seu significado maior para os Estados Unidos. Em linhas gerais, este foi um confronto público, bastante acerbo, entre os historiadores vinculados à chamada "New Western History" (Patricia Nelson Limerick, Richard White, Donald Worster e William Cronon, em especial) e seus adversários no campo da Western History. Os primeiros empreenderam um amplo projeto de reescrita da história do Oeste estadunidense, levando em consideração os aspectos que, segundo eles, haviam sido negligenciados pela historiografia anterior: a violência do processo de expansão, com a aniquilação dos nativos e subjugação de outras nações, como o México; a destruição do meio-ambiente; e, por fim, a constituição de uma sociedade profundamente desigual, social e racialmente, resultante do capitalismo voraz e excludente que se configurou na região após a expansão. Além disto, os new western historians atacavam com determinação a antiga historiografia, em geral inspirada nos trabalhos seminais de Frederick Jackson Turner,37 chamada por eles de "nacionalista", "imperialista" e "ideologicamente contaminada" por um conservadorismo político e um etnocentrismo que não só ocultava os aspectos "obscuros" e "trágicos" do passado westerner, como celebrava a expansão como um épico de formação dos Estados Unidos contemporâneos. Para a NWH, portanto, era preciso "desmitologizar" a história regional, para que pudesse surgir uma historiografia mais "verdadeira" sobre o Oeste.38

Os trabalhos canônicos da NWH, portanto, buscavam não só reescrever a história do Oeste em termos críticos, mas também estavam explicitamente politicamente engajados na criação de um "passado útil" para a região e o país. Cito aqui dois exemplos: os livros The Legacy of Conquest (1987), de Patricia Limerick, e Rivers of Empire (1985), de Donald Worster. No primeiro, a autora esmiuçava o "legado da conquista" do Oeste em diversos modos, mas focando-se, principalmente, em seus âmbitos econômicos e sociais. Para Limerick, a conquista violenta da região engendrou uma sociedade igualmente violenta, desigual e economicamente inviável, já que se baseava numa enorme concentração de capital e nos chamados ciclos de "boom-and-bust", que perpetuavam a pobreza regional. Por outro lado, a conquista fez com as histórias de diversos grupos diferentes (brancos, negros, mexicanos e indígenas) convergissem na região, em encontros marcados por violência e desconfiança.39 A narração deste processo era importante, segundo a autora, para que estes diferentes grupos pudessem se "conhecer melhor", superando o passado violento, e os norte-americanos tomassem contato com o lado "trágico" e/ou "irônico" da conquista e, com isso, tomarem consciência dos problemas de seu presente.40

Já Worster, em seu texto, narrava a formação do Oeste moderno a partir das tentativas dos homens de vencer a aridez da região a partir da criação de um sistema artificial de irrigação e represamento de rios que não só separavam a população do meio-ambiente local, como concentravam os meios de produção nas mãos daqueles com acesso à água ou com a expertise necessária para dominar o deserto. As conseqüências deste processo eram para a Worster, três: a destruição da natureza local, uma desigualdade social intrínseca ao Oeste e um conflito de classes entre aqueles sem acesso às fontes hidráulicas e os que as controlavam. Em resumo, a verdadeira história do Oeste era o reverso do American Dream, já que, ao invés de democracia, liberdade e igualdade, a maioria dos westerners eram escravos de aspirações fracassadas e de um destino, nas palavras do próprio Worster, de pobreza e aridez. O conhecimento deste processo era fundamental para que o futuro fosse diferente.41

Em suas finalidades historiográficas e políticas, portanto, a NWH se inseria firmemente na tradição da Nova História Social e da New Left dos anos 1970 de crítica não só ao mainstream historiográfico das décadas anteriores, que enfatizava um suposto "consenso" sobre valores políticos e econômicos no país,42 mas ao status quo econômico e político dos Estados Unidos. Neste sentido, uma determinada compreensão do passado era essencial para uma ação política efetiva no presente - como, aliás, a própria Limerick deixou claro em seu "anti-manifesto" em prol de uma nova história do Oeste, aonde afirmava que as pessoas "não poderiam viver de forma responsável no Oeste norte-americano até que uma completa reavaliação de seu passado" fosse feita.43

Disciplinarmente, pode-se falar de uma consolidação da NWH, já em fins da década de 1980, graças, em parte, à favorável recepção que seus trabalhos tiveram, dentro e fora da área da Western History. Graças à visibilidade adquirida durantes os debates, à rápida aceitação de seus trabalhos por seus pares e, diriam alguns, à sua enorme capacidade de autopromoção, os new western historians alcançaram uma enorme importância intelectual e institucional no campo.44

Ela, como já foi dito, não ficou sem resposta. Em geral, houve uma boa recepção dos trabalhos da NWH, mesmo que alguns historiadores criticassem ou questionassem a real "novidade" de suas interpretações. Estes, no entanto, aceitavam as premissas básicas dos textos de Limerick e seus colegas, defendendo-os e argumentando em prol de sua universalização dentro da Western History.45 Alguns, mesmo concordando com o projeto mais amplo do movimento, ainda assim, criticaram o que viam como sendo o "negativismo" exagerado de suas narrativas, como, por exemplo, o famoso escritor Larry McMurtry.46 Outros, por fim, não só rejeitavam a reescrita da história do Oeste empreendida pelos new western historians, como os vinculavam explicitamente àquelas "inovações" teóricas consideradas prejudiciais à disciplina como um todo: "pós-modernismo", "desconstrucionismo" e "pós-estruturalismo". Notados historiadores do Oeste, como Gerald Nash, Gene Gressley e Gerald Thompson, atacaram a NWH tentando demonstrar o quanto seus trabalhos estavam irremediavelmente marcados por ideologias "espúrias", "anti-historiográficas" e, em última instância, "ameaçadoras". Dito de outro modo, a sua análise era movida por uma retórica de suspeição e deslegitimação profissional que buscava o impedimento político da NWH e não necessariamente por um engajamento com os argumentos de seus oponentes. Vejamos, portanto, como ela funcionava.

 

O BOM, O MAU E O FEIO: A RETÓRICA DA SUSPEIÇÃO E DA DESLEGITIMAÇÃO PROFISSIONAL EM AÇÃO

A estratégia de ligar a NWH aos monstros "pós-modernos", em suas diversas formas, começou com Gerald Nash, em seu Creating the West (1991), uma história da historiografia sobre o Oeste desde seu surgimento, em fins do século XIX, até a década de 1980. Antes disso, até onde pude verificar, a conexão entre "pós-modernismo" e a NWH não havia sido feita por nenhum outro autor - inclusive por Nash em suas resenhas sobre The Legacy of Conquest e Rivers of Empire.47 De qualquer modo, este autor escreveu em 1991 que os novos historiadores haviam tornado-se "relativistas extremados", sequiosos em abandonar qualquer grau de "objetividade histórica", usando seus textos para fins meramente políticos. Isso era, segundo Nash, uma influência direta de inovações metodológicas dúbias surgidas do seio da Nova História Social e seus subseqüentes desenvolvimentos - dos quais, supõe-se, o "pós-modernismo" era resultado.48

Nash recuperou esse tema em um artigo publicado no Journal of the West, uma importante publicação sobre a história do Oeste, em 1993. Embora curto (duas páginas), esse texto tornou-se a principal referência para aqueles ávidos em acusar a NWH de "pós-modernista". As acusações de "negativismo extremado", imputadas aos "revisionistas", já aparece no primeiro parágrafo do escrito. Para Nash, os new western historians estavam promovendo interpretações "neo-marxistas" da história norte-americana "obcecadas" com a luta de classes e o imperialismo. De acordo com ele: "Para a NWH, a história do Oeste não era nada menos do que um triste registro da conquista por parte de homens brancos anglo-saxônicos que destruíram a terra e o meio-ambiente e oprimiram minorias raciais e étnicas e, obviamente, os pobres".49

Mais adiante, e de modo contraditório, Nash passa desta suposta obsessão com "classe" para outra, desta feita com "raça". Numa estratégia questionável, mas arguta, Nash compara o trabalho dos revisionistas com os do téorico nazista Alfred Rosenberg. Para Nash, os new western historians, assim como os nazistas, apontavam a "raça" como fator fundamental no desenvolvimento histórico. Esta aparente associação com o totalitarismo é feita de uma maneira completamente arbitrária: a suposta ligação da NWH com Paul de Man, que, como vimos, era um dos principais nomes do Grupo de Yale e um dos mais destacados proponentes da desconstrução em terras americanas.50 O raciocínio de Nash era o seguinte: como Donald Worster, Patricia Limerick e William Cronon obtiveram seus doutorados em Yale, isto seria evidência suficiente de suas ligações com de Man, com o pós-modernismo e, por consequência, com o nazismo, numa lógica dedutiva bastante problemática, para não dizer absurda. Em outras palavras, não se tratava de uma crítica historiográfica responsável, mas de uma caça às bruxas que visava, para parafrasear Cohen, podar o acesso de "falsos" reclamantes ao trono da historiografia "legítima" sobre o Oeste.51

O que é realmente impressionante em relação a este artigo de Nash não é nem tanto seu caráter estridente e denunciatório,52 mas sua completa falta de base documental. Em outras palavras, ele não cita um único texto em que algum dos new western historians tenha citado de Man, ou qualquer outro desconstrucionista, nem ele mostra como eles teriam sido influenciados por ele, afora suas conexões com Yale. Ainda sim, isto não o impediu de avisar seus colegas de que a NWH:

Representa não só uma outra fase do revisionismo histórico, mas está tentando o proselitismo para aquilo que são essencialmente ideologias totalitárias. Em seu negativismo e sua crítica dos valores democráticos, os new western historians são destrutivos em trazer à tona uma visão realista e verdadeira do Oeste, tanto para acadêmicos quanto para o público em geral. Se os historiadores são os guardiões do passado nacional, eles precisam estar alerta para aqueles que, sob a guisa de conhecimento, buscam propagar ideologias que tentam minar a democracia.53

Este parágrafo, o último do artigo, não só acusa a NWH de fornecer visões "falsas" do passado norte-americano, mas também tenta deslegitimá-la em termos políticos, acusando-a de estar tentando destruir a democracia - reproduzindo aquela, assim, o topos discursivo do "pós-modernismo" como sendo nada menos do que a destruição da democracia estadunidense e, por consequência, da civilização ocidental. Neste sentido, os trabalhos da NWH não eram disciplinarmente legítimas: eram ideologias, pura e simplesmente - e antiamericanas, para tornar a situação ainda pior.

As acusações de Nash ganham contornos ainda mais significativos quando consideramos que, em suas já citadas resenhas de The Legacy of Conquest e Rivers of Empire, assim como em seu discurso presidencial na Western Historical Association, principal organização profissional dedicada à história do Oeste, em 1991,54 ele não teve problema algum com a NWH. Muito pelo contrário: ele recomendou os livros aos seus colegas, embora discordasse de alguns de seus pontos de vista. Ao escrever, por exemplo, sobre o livro de Worster, ele afirmou que: "quem pode condenar um autor que nos urge a ter fé na bondade e na racionalidade da humanidade, como numa versão do sonho americano?".55 Essa mudança radical de posição, ao que tudo indica, pode ter sido causada justamente pela força que a NWH alcançou no campo no começo dos anos 1990, pela sua visibilidade acadêmica e pública, e pela disputa posterior pelos lugares sociais de produção.

Nash expandiu seu texto no Journal of the West em um artigo publicado na coletânea, Old West/New West ("Velho Oeste/Novo Oeste"), organizada por Gene Gressley e publicada em 1994.56 Nele, as acusações contra a NWH tomam uma proporção ainda maior, até porque, neste artigo, Nash estava se buscando fazer uma análise "teórica" sobre o movimento e seu "contexto" global. Em primeiro lugar, o que se destaca logo no início do texto é um certo ressentimento de Nash em relação à atenção midiática recebida pelos revisionistas - o que, uma vez mais, me leva a acreditar que a mudança de posição desse historiador pode ter sido causada pela perda de visibilidade da "velha guarda" dentro do campo.57 De qualquer modo, Nash não se deteve muito nesse tema, partindo para aquilo que chamou de "análise ideológica" da NWH. Surpreendentemente, contudo, e talvez movido pelas críticas furiosas ao seu artigo no JW, o historiador afirmou que não acreditava que os new western historians fossem "totalitários" e que nem era sua intenção a criação de controvérsias. Muito pelo contrário. Segundo ele, ele queria apenas fornecer uma "compreensão" sobre a NWH, sem necessariamente julgá-la - repetindo, assim, um discurso objetivista e "apolítico" que ocultava as implicações políticas de seus próprios argumentos.58

Para Nash, o uso da história como "propaganda" tinha suas raízes nos historiadores nacionalistas alemães do século XIX e, mais tarde, foi consolidado pelos nazistas e stalinistas. Na América, a New Left dos anos 1960 teria sido uma consequência direta deste processo, principalmente com sua "ênfase" em raça e classe como "determinantes" do processo histórico. Nos diz Nash, sem contudo provar tal afirmação: "Ao condenar muito da experiência norte-americana no passado, eles também atribuíram virtudes especiais às massas de pessoas oprimidas, fossem elas pobres, minorias étnicas e raciais ou qualquer um fora do mainstream da sociedade dominada por homens brancos".59 Quem atribuiu "virtudes especiais" a estes grupos? Quais historiadores, em quais obras? Será que "criticar" significa a mesma coisa que "condenar"? Tristemente, Nash não responde tais questões, que, me parece, são essenciais e não merecem ficar sem resoluções.

O principal argumento deste texto era a transformação do revisionismo histórico em algo intrinsecamente negativo. Se por um lado, Nash acredita que "reavaliações" sobre o passado são importantes, "revisões" sempre seriam algo pérfido porque os "revisionistas" acreditariam serem incumbidos de uma "missão social" e, por isso, não praticariam investigações nem escreveriam obras de história propriamente dita, preferindo fazerem "críticas sociais". Essas "tendências" seriam verificáveis, de acordo com ele, em historiadores comunistas, nacionalistas, fascistas e, obviamente, na New Left.60 Nash, entretanto, não forneceu nenhuma evidência para suas afirmações. Da mesma maneira, sob o ponto de vista lógico, a separação entre "reavaliação" e "revisão" é, evidentemente problemática, até porque Nash não fez nenhuma consideração teórica mais profunda sobre estes dois termos. O que seria "reavaliar" o passado e o que seria "revisá-lo"? Não seriam a mesma coisa? Ou será que Nash demonizou o termo "revisão" para fazer uma implícita alusão ao negacionismo neonazista e, com isso, ligar, espuriamente, a NWH a este outro, realmente pérfido, revisionismo? Sem muito medo de errar, acredito que a resposta para esta última indagação é positiva.

A demonização da "revisão" continua nas páginas seguintes, quando esta é conectada a outros dois "movimentos": de um lado o "neomarxismo" e de outro o "desconstrucionismo". O primeiro seria uma decorrência da New Left e possuía um outlook negativista quanto à história americana. Já o segundo seria uma ideologia totalitária, porque criada por Paul de Man, obcecada com "raça" como um fator histórico importante e descrente em qualquer possibilidade de se atingir a verdade histórica. Neste caso, tudo que restaria era uma "imposição" de significados que alteraria o conteúdo dos "fatos", com implicações totalitárias.61 Sob esta lógica, as novas interpretações sobre a história do Oeste cairiam nesta categoria, principalmente por sua "inversão" de "verdades estabelecidas", sua criação de "estereótipos", sua "devoção" às vítimas e seu "relativismo moral". Finalmente, ele termina seu artigo afirmando que este tipo de escrita da história não era "nem nova nem incomum e reflete similaridades impressionantes a outras variedades de história, incluindo aquelas dos nacionalistas alemães do século XIX, nacional socialistas, comunistas e interpretações da New Left".62 Pronto, estava fechado o círculo que vinculava diretamente os new western historians aos diversos extremismos e totalitarismos dos séculos XIX e XX.

Esta seria, portanto, a genealogia da NWH, de acordo com Nash. Ela não fazia parte do campo: as suas "tendências" as vincularia não à tradição venerável da Western History, mas a ideologias totalitárias ou a metodologias que não podiam ser consideradas como historiograficamente legítimas, sob o ponto de vista disciplinar e político.63 Ao considerar este como o "contexto global" da NWH, Nash podia se eximir de debater com os new western historians de modo mais explícito, pois partia do pressuposto de que suas idéias já eram inválidas antes mesmo de serem consideradas no plano historiográfico. Do mesmo modo, esta estratégia de deslegimitação podia corroborar o que outros historiadores conservadores pensavam sobre os revisionistas e demonstrar aos leitores leigos que a história norte-americana estava de fato sendo seqüestrada por "extremistas".

Se Nash foi o mais estridente destes críticos, não foi o único. Seus artigos no Journal of the West e em Old West/New West tornaram-se referências para os adversários mais radicais da NWH. No prefácio deste último, por exemplo, Gene Gressley ecoou as críticas de Nash, embora de modo menos acusatório.64 Para este historiador, no cerne da NWH está uma preocupação em escrever uma história "politicamente correta", para compensar supostas injustiças passadas contra minorias diversas. Neste caso, ocorria uma reversão de valores e estas alegadas vítimas passariam a ser os novos heróis e heroínas do país: "Nesta ortodoxia, o nobre selvagem e a mulher pioneira tornam-se os explorados e os humilhados - as vítimas".65 A ênfase na história destas vítimas acarretaria naquilo que, como vimos, era a principal acusação dos conservadores contra as novas histórias: fragmentação do conhecimento histórico, negativização da experiência histórica dos Estados Unidos e fim de um consenso "salutar" entre os historiadores sobre esta mesma experiência histórica.66

No caso específico da NWH, esta posição presentista levava-a, aos olhos de Gressley, a produzir pesquisas superficiais (o quão, contudo, ele não especifica) e a generalizações cujo único fim era de criar uma "história das vítimas do Oeste". A inferência que se retira destas afirmações de Gressley são bastante claras e repetem os mesmos argumentos de Nash: a NWH não seria uma historiografia legítima, seus trabalhos eram única e exclusivamente "ideologia", seus temas e objetos seriam "triviais" e movidos por modismos acadêmicos que, se tudo desse certo, rapidamente deixariam de existir.

Como não podia deixar de ser, Gressley imputa aos revisionistas um "relativismo" extremado, fruto de sua relação com as "teorias desconstrucionistas" do famigerado Paul de Man. Com isso, os new western historians politizaram um debate que deveria ser "meramente" historiográfico, abandonando a pretensão de contarem a "verdade" sobre o Oeste e seu passado e criando "propagandas" para determinadas posições políticas. No momento mais dramático, e histriônico, do artigo, Gressley afirmou que: "Quando você politiza o passado, apresentando a história como propaganda, você não está mais servindo Clio, mas Lúcifer".67 Ou seja, faltar com a objetividade era o equivalente disciplinar a servir ao anjo caído - o mal absoluto. Assim, na retórica de Gressley, os revisionistas estavam completamente fora de todos os cânones do campo e, por isso, não poderiam ser levados a sério. O Oeste da NWH era apenas o fruto de imaginações atormentadas pelo que entendiam serem os fracassos do país e pela devoção a estas práticas ("desconstrucionismo" e "relativismo extremado") que, no julgamento de Gressley, não eram "novas" e muito menos "históricas".68

Gerald Thompson é outro crítico que utiliza a retórica da deslegitimação profissional para atacar os new western historians. Novamente, a NWH, na figura de Limerick, é apresentada como sendo movida meramente por desejos "politicamente corretos" e disposta a demonstrar o quão "terrível" era a história dos Estados Unidos. Seu presentismo refletia seus preconceitos pessoais e, por isso, suas interpretações estavam irremediavelmente maculadas. Limerick, em particular, havia ignorado o credo objetivista e produzido uma narrativa, The Legacy of Conquest, que não só era errônea sob o ponto de vista histórico, mas repleta dos "abusos" típicos da Nova Esquerda. Citando as falhas analíticas de Limerick sobre a mineração no Oeste, Thompson afirmou que os historiadores lidavam com "problemas factuais" que podiam ser "testados" através da evidência disponível. Limerick, aos olhos de Thompson, havia fracassado neste teste.69

Neste ponto, a vinculação da NWH ao "desconstrucionismo" já havia se transformado numa discussão autorreferencial. De acordo com Thompson, The Legacy of Conquest só poderia ser lido à luz de um críptico "logocentrismo", isto é, um "particularismo textual", onde as palavras do texto não se referiam a nenhum referente externo a ele. A fonte usada por Thompson para essa crítica era o artigo de Nash publicado no Journal of the West e nada mais. Este historiador, assim como Nash e Gressley, não cita nenhuma passagem do livro de Limerick em que ela realmente afirmasse algum débito para com Paul de Man ou que provasse que sua crença de que a história fosse somente as palavras na página e nada mais. Novamente, o termo "desconstrução" é utilizado somente como uma palavra derrogatória, uma tentativa de deslegitimar o trabalho de Limerick (entendida como a sinédoque de todos os new western historians), com o argumento de que ele não se enquadrava nas regras da disciplina. Por serem "relativistas", Limerick e seus companheiros haviam quebrado o primeiro artigo da fé objetivista: deixe o passado falar por ele mesmo. Por serem "desconstrucionistas", eles foram culpados de um pecado ainda maior: utilizaram práticas não-históricas e, mais grave ainda, nascidas das mãos e mente de um pesquisador com simpatias nazistas.

No que já estava se tornando um argumento altamente circular, principalmente pela falta de comprovação, outros historiadores basearam-se nas diatribes de Nash para atacar a NWH. William Savage Jr., com um linguajar bastante vulgar, e completamente condenável, considerou os revisionistas como "putas acadêmicas", desesperados em conectar seus trabalhos a algum ponto de vista "modista", que não tinha qualquer semelhança com o que os historiadores "realmente" faziam. O tempo, para Savage ao menos, resgataria a "verdade" histórica e relegaria os revisionistas a um esquecimento "natural". Os "seguidores da moda" desapareceriam e tudo continuaria como antes no campo.70

Michael Allen, num texto publicado no crepúsculo destes debates, considerou a NWH como "intelectualmente natimorta", principalmente por causa de suas "inumeráveis" falhas. Entre elas, estava o já clichê de que os revisionistas utilizavam a História "para fins políticos esquerdistas". Sua agenda política "neo-Marxista" e "pós-moderna" e seus diversos problemas intelectuais haviam, segundo Allen, "matado" o movimento ainda em sua infância.71 Este historiador também atacou a NWH nos mesmos termos acima citados, acusando-a de ser fascinada por teorias desconstrucionistas "obtusas" e "irrelevantes" e de cultivar um notório desdém pela civilização ocidental e seus avanços. Por estarem obcecados com a produção de trabalhos "socialmente úteis", estes revisionistas teriam rompido com (novamente!) o ideal objetivista e criado textos demasiadamente presentistas e que, por isso, não sobreviveriam aos dias vindouros. Logo, a NWH, apesar de seu aparente vigor, havia morrido ainda no útero.72

Esses textos, embora bastante citados, não parecem ter tido um impacto muito grande fora do círculo dos historiadores opostos à NWH. Ainda assim, eles fornecem um ótimo exemplo de uma crítica historiográfica movida menos pelo desejo de contribuir a um debate e mais pela vontade de desqualificar e deslegitimar certos trabalhos. Neste caso, os termos "desconstrução", "desconstrucionismo", "pós-modernismo" e "neo-Marxismo", dentre outros, quando aplicados aos new western historians, não significariam exatamente a descrição de uma prática ou de uma postura teórica. Pelo contrário, era uma tentativa de nomear negativamente o movimento, afirmando sua relação com teorias "perigosas" e, principalmente, nascidas fora do seio da disciplina. Não interessava a estes críticos a lógica destes argumentos, na medida em que eles nem mesmo poderiam ser provados. Os historiadores que atacaram a NWH nestes termos não podiam citar nenhum exemplo concreto de seu alegado "pós-modernismo" simplesmente porque eles não existiam. Limerick, a mais atacada, nunca citou nenhum autor remotamente associado às "teorias desconstrucionistas" e o fato de ter estudado em Yale, onde de Man lecionava, não deve, obviamente, servir como prova de qualquer ligação entre ambos. Na verdade, uma das armas da NWH era afirmar seu caráter mais objetivista e o maior realismo de suas narrativas, sob uma perspectiva epistemologicamente bastante convencional - como, de fato, alguns autores assumidamente pós-modernistas apontaram.73

Mas, se, até aqui, estas críticas já parecem bastante desmedidas, elas tomam um caráter ainda mais surreal se considerarmos a própria relação da NWH com o "pós-modernismo" e a "desconstrução". Em diversos artigos publicados no começo dos anos 1990, Worster atacou diretamente o "excesso de relativismo" derivado das novas "modas acadêmicas", em uma linguagem não muito diferente da de seus colegas conservadores. Em um deles, por exemplo, ele afirmou que "O mais importante desafio filosófico de nossa era é escapar do estado de niilismo, relativismo e confusão que a história modernista, e tudo que é modernista, nos deixou".74

Para Worster, a aceitação deste "niilismo" ameaçava aquilo que ele, como historiador ambiental, considerava como o mais importante: a existência de um mundo natural equilibrado e ordeiro, empiricamente acessível e de fácil descrição. Ao contrário de outros autores, que demonstravam o quão problemática era esta visão, Worster considerava que o "desafio pósmodernista" nada mais era do que uma obsessão com "semântica" e "linguagem", que distraíam os historiadores dos reais problemas do mundo. Por isso mesmo, ele não só não o aceitava, como o atacava impiedosamente, como demonstrou Mark Schiffhauer. Um dos artigos sobre História Ambiental mais citados de Worster, Nature and the Disorder of History ("Natureza e a desordem da História") foi publicado num volume destinado a atacar "desconstrução" como uma ferramenta a mais no ataque à natureza, e nele Worster deixa bem clara sua oposição a este "assalto ao mundo natural no plano discursivo". Finalmente, num terceiro texto, Worster atacava as histórias "relativistas" dos "pós-modernistas", afirmando serem irrelevantes para a compreensão do mundo natural.

Ora, levando em consideração este posicionamento de Worster, sua classificação como "pós-moderno" ou "desconstrucionista" não só é exagerada, como não faz o menor sentido. Aliás, pode-se dizer que, embora teoricamente mais informada do que a de Nash e seus companheiros, a crítica de Worster ao "pós-modernismo" não deixa de reproduzir alguns dos elementos daquela retórica de suspeição mencionada no início do artigo.

Limerick, White e Cronon não são tão antipáticos ao "pós-modernismo" quanto Worster, mas nenhum deles pode ser classificado como tal. Cronon elogiou os historiadores pós-modernos por suas preocupações com a linguagem e a natureza artificial das histórias, sem, contudo, deixar de criticá-los por causa de sua tendência a abandonar a idéia de um referente externo acessível a estas mesmas histórias. Da mesma maneira, Richard White, em um texto sobre a descoberta da natureza americana pelos europeus, quando de sua chegada ao continente, criticou algumas análises "pós-modernas" sobre o tema, afirmando serem negligentes quanto ao "mundo físico" dos corpos humanos e da natureza. Segundo ele, isto acabava trivializando nossa experiência no mundo.75

Por fim, Limerick, também atacou a tendência "pós-modernista", embora não o nomeie diretamente, de desconsiderar o efeito de coisas reais em pessoais reais, ainda que reconhecesse a importância da crítica a uma idéia linear de progresso histórico e do poder da linguagem na construção destas "coisas reais".76 Sua posição, portanto, era muito mais desfavorável ao pós-modernismo do que seus oponentes faziam crer. Não existe nenhuma sombra de Man ou Derrida em seus textos. The Legacy of Conquest não é, de modo algum, uma "história pós-moderna".

 

CONCLUSÃO

Se a alegada ligação da NWH ao "pós-modernismo" e a "teorias desconstrucionistas", para não mencionar "totalitárias", não resiste nem mesmo a uma inquisição bastante superficial, por que, então, Nash e outros insistiram em fazê-lo? Em minha opinião, eles queriam invalidar os trabalhos dos new western historians através do recurso a denominações que haviam adquirido sentidos fortemente negativos no discurso e na imaginação de uma parcela considerável da profissão. Este uso, desprovido de qualquer reflexão teórica mais apurada ou de um embasamento empírico satisfatório, era uma tentativa de construir espantalhos intelectuais contra os quais poderiam ser levantadas objeções relativamente fáceis. Ao chamar a NWH de um "empreendimento pós-moderno" e, ao conectá-la aos fantasmas de totalitarismos diversos, Nash e os outros estavam tentando negar a autoridade dos revisionistas como historiadores legítimos, ao mesmo tempo em que reforçavam a sua própria condição enquanto historiadores "verdadeiros" (porque rejeitavam teorias "ahistóricas" ou "totalitárias"). Em resumo, ao reclamarem para si a autoridade para falar em nome dos cânones disciplinares apropriados, mesmo que esses não tenham sido desafiados de modo mais profundo pela NWH, Nash e os outros queriam assegurar seus próprios lugares dentro do campo da Western History, agora ameaçados pela ampla aceitação, ainda que não acrítica, das propostas dos new western historians. Por isso, a necessidade de uma retórica de suspeição e do uso da crítica historiográfica como "avaliação moral", para parafrasear Durval Muniz de Albuquerque Jr.,77 como um instrumento de uma (fracassada) tentativa de "purificação" do campo.

 

 

Artigo recebido em: 09/07/2013
Aprovado em: 19/02/2014

 

 

1 Para um bom apanhado deste debate no contexto anglo-saxônico, ver JENKINS, Keith (org.). The postmodern history reader. London: Routledge, 1997;         [ Links ] VASCONCELOS, José Antonio. Quem tem medo de teoria? A ameaça do pós-modernismo na historiografia norte-americana. São Paulo: Fapesp/Annablume, 2005.         [ Links ]
2 Como colocou Richard Rorty, "the word 'postmodernism' has been rendered almost meaningless by being used to mean so many different things" ("a palavra 'pós-modernismo' tornou-se quase sem significado, por ter sido usada para significar tantas coisas diferentes"). Em outras palavras, o conceito foi usado de tantas formas diversas que acabou perdendo qualquer poder de significação, sendo esgrimido mais como um instrumento retórico do que como uma designação adequada de determinadas posições intelectuais. RORTY, Richard. Afterword: pragmatism, pluralism and postmodernism. In: RORTY, Richard. Philosophy and social hope. New York: Penguin Books, 1999, p.262.         [ Links ]
3 COHEN, Sande. Passive Nihilism: cultural historiography and the rhetorics of scholarhip. New York: St. Martin's Press, 1999, p.1.         [ Links ]
4 Sobre os diversos âmbitos destes debates, incluindo a relação dos conflitos acerca da história do Oeste com as culture wars, ver a seguinte tese de doutorado: AVILA, Arthur Lima de. Território contestado: a reescrita da história do Oeste norte-americano (c. 1985-c. 1995). Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sulg, 2010 (História, Tese de doutorado).         [ Links ]
5 VASCONCELOS, José Antonio. Quem tem medo de teoria?, p.166-167.         [ Links ]
6 BLOOM, Harold et alli. Deconstruction and criticism. New York: Continuum, 1979.         [ Links ]
7 Um apanhado destes textos pode ser encontrado em ROBERTS, Geoffrey (org.). The history and narrative reader. London: Routledge, 2000.         [ Links ]
8 WHITE, Hayden. Metahistory: the historical imagination in 19th century Europe. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1973.         [ Links ] Sobre o impacto da "virada linguistica" de White na historiografia, ver PAUL, Hermann. Hayden White. Malden: Polity Press, 2011;         [ Links ] ANKERSMIT, Frank; DOMANSKA, Ewa; KELLNER, Hans (org.). Refiguring Hayden White. Stanford: Stanford University Press, 2009.         [ Links ]
9 KLEINBERG, Ethan. Haunting history: deconstruction and the spirit of revision. History and Theory, Middletown, v.46, p.117-125, 2007.         [ Links ]
10 A coletânea Modern Intellectual History, organizada por Dominick LaCapra e Steven L. Kaplan, publicada em 1982, marcou o início das discussões sobre a desconstrução derridadeana na historiografia norte-americana, principalmente através das contribuições do próprio LaCapra, de E. M Henning e Martin Jay presentes neste volume. Ver LaCAPRA, Dominick; KAPLAN, Steven L. (eds.). Modern european history: reappraisals and new perspectives. Ithaca: Cornell University Press, 1982.         [ Links ]
11 O coletivo dos Estudos Subalternos asiáticos é um grupo de historiadores surgido na década de 1980, que busca reescrever a história do Sul asiático em contornos anti-essencialistas, anti-imperialistas e pós-coloniais, questionando os pressupostos eurocêntricos da historiografia nacionalista indiana e focando nas massas subalternas daquele país. Tais intelectuais encontraram uma grande receptividade nas universidades inglesas e norteamericanas, ainda que diversos de seus integrantes atuassem a partir da Índia. Uma de suas maiores expoentes, Gayatri Spivak, publicou o clássico Can the Subaltern Speak? em 1985, obra em que dialoga com Michel Foucault, Jacques Derrida (de quem, aliás, foi tradutora) e Antonio Gramsci. Esse texto foi recentemente traduzido para ao português. Ver SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.         [ Links ] Sobre o impacto dos Estudos Subalternos na historiografia contemporânea, ver LUDDEN, David. Reading subaltern studies: critical history, contested meaning and the globalisation of South Asia. London: Permanent Black, 2001.         [ Links ]
12 O Novo Historicismo é uma tendência teórica da Critica Literária, de inspiração foucaultiana, que aborda, segundo Vasconcelos, a relação de dependência recíproca entre a textualidade da história e a historicidade dos textos literários, de modo a perceber como os textos são moldados por seus contextos, mas como esses também só nos são acessíveis de forma textualizada. Ver VASCONCELOS, José Antonio. Quem tem medo de teoria?, p.130-133.         [ Links ]
13 KLEINBERG, Ethan. Haunting history, p.133-134.         [ Links ]
14 É evidente que este brevíssimo resumo não pode dar conta da complexidade e das dificuldades do trabalho de Derrida. De qualquer modo, a minha intenção não é analisá-lo mais profundamente, mas apenas demonstrar a transformação da palavra "desconstrução" em algo próximo a "mal encarnado" para alguns historiadores. KLEINBERG, Ethan. Haunting history, p.115.         [ Links ]
15 Ver, por exemplo, o artigo de John Toews publicado na American Historical Review de outubro de 1987, no qual autores tão díspares quanto Hayden White e Roger Chartier são considerados integrantes da "virada lingüística" inspirada pela "desconstrução". TOEWS, John. Intellectual history after the linguistic turn: the autonomy of meaning and the irreducibility of experience. American Historical Review, Bloomington, v.92, n.4, p.879-907, 1987.         [ Links ]
16 Destes, só La Capra foi realmente um entusiasta das teorias de Derrida. KLEINBERG, Ethan. Haunting history, p.127-132.         [ Links ] Aliás, Hayden White, por exemplo, foi um crítico inicial da "descontrução" como prática de leitura. Ver WHITE, Hayden. O momento absurdista na teoria literária contemporânea. In: WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios de crítica cultural. São Paulo: Edusp, 1994, p.285-306.         [ Links ]
17 "Applied to all sorts of subjects without need for recourse to Derrida's work. Now deconstruction can be affiliated with a large number of theorists and methodologies as it is adapted in the services of cultural history, cultural anthropology, women's and gender studies, subaltern studies and cultural studies. In this process, the term "deconstruction" took on the weight of a political or ideological position for or against the new trends in American historical practice"; KLEINBERG, Ethan. Haunting history, p.129.         [ Links ]
18 O termo "pós-modernismo" foi popularizado nas Ciências Humanas por Jean François Lyotard, em contornos positivos, e por Frederic Jameson, numa posição mais crítica. O primeiro o utilizou em sua seminal análise sobre o fracasso das metanarrativas iluministas, lançada em 1979. Jameson, por sua vez, utilizou-o para designar a condição cultural do capitalismo tardio em um artigo publicado na New Left Review em 1984 e mais tarde transformado em livro. Ver LYOTARD, Jean François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006;         [ Links ] JAMESON, Frederic. Postmodernism or the cultural logic of late capitalism. Durham: Duke University Press, 1991.         [ Links ]
19 Sobre o discurso da fragmentação da disciplina e a erosão da Grande Narrativa nacional nos Estados Unidos, ver MEGILL, Allan. Historical knowledge, historical error: a contemporary guide to practice. Chicago: The University of Chicago Press, 2007, p.159-187.         [ Links ]
20 NOVICK, Peter. That noble dream: the "Objectivity Question" and the American historical profession. Cambridge: University of Cambridge Press, 1988, p.469-521.         [ Links ]
21 A origem do termo "pós-modernismo" é, evidentemente, algo extremamente complexo e impossível, por questões de tempo e de espaço, de ser replicada aqui. Para isso, ver a introdução da seguinte compilação: JENKINS, Keith. Introduction: on being open about our closures. In: JENKINS, Keith (org.). The postmodern history reader, p.1-30.         [ Links ] Para além desse volume, ver o excelente trabalho de Perry Anderson: ANDERSON, Perry. As origens do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.         [ Links ]
22 JENKINS, Keith. Introduction: on being open about our closures, p.4.         [ Links ]
23 ANKERSMIT, Frank. Historiography and postmodernism. In: JENKINS, Keith. The Postmodernist history reader, p.288-289.         [ Links ]
24 ANKERSMIT, Frank. Historiography and postmodernism, p.291.         [ Links ]
25 ANKERSMIT, Frank. Historiography and postmodernism, p.294-295.         [ Links ]
26 "Because of the relation between the historiographical view and the language used by the historian in order to express this view - a relation which nowhere intersects the domain of the past - historiography possesses the same opacity and intentional dimension as art"; ANKERSMIT, Frank. Historiography and postmodernism, p.296.         [ Links ]
27 HOLLINGER, David. The return of the prodigal: the persistence of historical knowing. American Historical Review, Bloomington, v.94, n.3, p.610-621, 1989;         [ Links ] JACOBY, Russell. A new intellectual history? American Historical Review, Bloomington, v.94, n.3, p.405-424, 1992.         [ Links ]
28 ZAGORIN, Perez. Historiography and postmodernism: reconsiderations. History and Theory, Middletown, v.29, n.3, p.263-274, 1990.         [ Links ]
29 FOX-GENOVESE, Elizabeth. Literary Criticism and the politics of the New Historicism. In: JENKINS, Keith (org.). The postmodern history reader, p.84-88.         [ Links ]
30 PALMER, Bryan. Critical theory, historical materialism, and the ostensible end of Marxism: the poverty of theory revisited. In: JENKINS, Keith (org.). The postmodern history reader, p.103-114.         [ Links ]
31 Os cliométricos defendiam a aplicação de métodos rigidamente matemáticos à análise histórica, produzindo séries quantitativas que negligenciavam outros aspectos, como questões políticas, por exemplo.
32 Além de ser uma notória republicana, Gertrude Himmelfarb era uma defensora do "legado rankeano" como sendo o único adequado ao estudo da história e rejeitava, assim, boa parte dos desdobramentos teóricos do século XX, especialmente aqueles que, segundo ela, faziam "pouco caso" da política e da atuação dos "grandes indivíduos". Ver HIMMELFARB, Gertrude. The new history and the old. Cambridge: Harvard University Press, 1987.         [ Links ]
33 HIMMELFARB, Gertrude. Telling as you like it: postmodernism and the flight from fact. In: JENKINS, Keith (org.). The postmodern history reader, p.158-174.         [ Links ]
34 O historiador australiano Keith Windschuttle ecoou preocupações similares ao afirmar que o "assassinato" da história cometido pelos "pós-modernos" era, em última instância, a destruição de "tudo" que era caro à civilização ocidental. Ver WINDSCHUTTLE, Keith. The killing of history: how literary critics and social theorists are murdering our past. New York: Free Press, 1995, p.279-314.         [ Links ]
35 APPLEBY, Joyce; HUNT, Lynn; JACOB, Margaret. Telling the truth about history. New York: W. W. Norton, 1994, p.198237.         [ Links ] Dado o peso das três autores no mainstream historiográfico estadunidense Ethan Kleinberg pondera que este livro talvez tenha tido um papel essencial na disseminação deste tipo de demonização do pós-modernismo e da desconstrução dentre os historiadores norte-americanos. Ver KLEINBERG, Ethan. Haunting history, p.132-134.         [ Links ]
36 É evidente, contudo, que existiram alguns engajamentos sérios e bastante contundentes com as questões colocadas pelos ditos "pós-modernistas", como demonstram os trabalhos de Allan Megill, Martin Jay, Perry Anderson e Gabrielle Spiegel, para citarmos apenas quatro. Anderson, em especial, forneceu uma das melhores críticas ao fenômeno pós-modernista com seu The Origins of Postmodernity, enquanto que Spiegel fez, mais recentemente, um excelente balanço da influência da "virada linguística" em terras norte-americanas. Ver ANDERSON, Perry. The origins of postmodernity. London: Verso, 1998;         [ Links ] SPIEGEL, Gabrielle. The task of the historian. American Historical Review, Bloomington, v.114, n.1, p.1-17, 2009;         [ Links ] MEGILL, Allan. Prophets of extremity: Nietzsche, Heidegger,
37 Turner foi o criador da famosa frontier thesis que estipulava, dentre outras coisas, a centralidade do processo de expansão ocidental para a história norte-americana. Segundo essa tese, primeiramente exposta em 1893, a fronteira móvel dos Estados Unidos havia sido o motor do processo histórico da nação, com os pioneiros que conquistaram a frontier sendo seus grandes heróis anônimos. Apesar de seus limites, é importante que se diga que a tese de Turner foi uma precursora da história econômica e social nos Estados Unidos, além de ter encontrado enorme ressonância fora do âmbito acadêmico. Sobre isso, ver AVILA, Arthur Lima de. E da fronteira veio um pioneiro...: a frontier thesis de Frederick Jackson Turner (1861-1932). Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006 (História, Dissertação de mestrado).         [ Links ]
38 As mais acabadas manifestações dos princípios historiográficos e políticos da NWH podem ser encontradas na coletânea Trails (1991), especialmente nas contribuições de Patricia N. Limerick e Donald Worster. Ver LIMERICK, Patricia Nelson; MILNER II, Clyde A.; RANKIN, Charles (org.). Trails: toward a new western history. Lawrence: University of Kansas Press, 1991.         [ Links ] A expressão "desmitologizar a história do Oeste" encontra-se em WORSTER, Donald. Beyond the agrarian myth. In: LIMERICK, Patricia Nelson; MILNER II, Clyde A.; RANKIN, Charles (org.). Trails, p.17.         [ Links ]
39 Esse é o argumento principal de The Legacy of Conquest, apresentado com clareza na introdução da obra. LIMERICK, Patricia Nelson. The legacy of conquest: the unbroken past of the American West. New York: W. W. Norton, 1987, p.17-32.         [ Links ]
40 LIMERICK, Patricia Nelson. The legacy of conquest, p.349.         [ Links ]
41 WORSTER, Donald. Rivers of empire: water, aridity and the growth of the American West. New York: Oxford University Press, 1985.         [ Links ]
42 O "consensualismo historiográfico" foi menos um movimento do que uma coincidência de interpretações sobre o passado estadunidense durante a década de 1950 e início da seguinte. Segundo autores como Daniel Boorstin, Louis Hartz e Richard Hofstadter, para o bem ou para o mal, haveria um grande consenso na sociedade norteamericana acerca dos valores fundamentais que deveriam guiar o país (livre-iniciativa, cristianismo e liberalismo político), o que fazia com que os violentos confrontos típicos do Velho Mundo estivessem relativamente ausentes do passado nacional. Os profundos conflitos sociais e culturais das décadas de 1960 e 1970 acabariam por tornar obsoletas e problemáticas estas visões históricas. Sobre o consensualismo, ver NOVICK, Peter. That noble dream, p.320-360.         [ Links ]
43 LIMERICK, Patricia Nelson. What on Earth is the New Western history? In: LIMERICK, Patricia Nelson; MILNER II, Clyde A.; RANKIN, Charles (org.). Trails, p.81-88.         [ Links ]
44 Ver AVILA, Arthur Lima de. Território contestado, p.76-203.         [ Links ]
45 Ver, por exemplo, os seguintes artigos: MALONE, Michael P. Beyond the last frontier: toward a new approach to Western American history. The Western Historical Quarterly, Logan, v.20, n.4, p.409-427, 1989;         [ Links ] ROBBINS, William G. Laying siege to Western history: the emergence of new paradigms. Reviews in American History, Baltimore, v.19, n.3, p.313-331, 1991;         [ Links ] FARAGHER, John Mack. The frontier trail: rethinking Turner and the reimagining the American West. American Historical Review, Bloomington, v.98, n.2, p.106-117, 1993.         [ Links ] Para uma análise mais ampla da aceitação da NWH, ou de críticas mais embasadas e menos baseadas em argumentações ad hominem, ver AVILA, Arthur Lima de. Território contestado, p.187-203.
46 McMURTRY, Larry. How the west was won or lost: the revisionists failure of imagination. The New Republic, Washington, p.32-38, 1990.         [ Links ]
47 NASH, Gerald D. Review of The Legacy of Conquest. The Journal of Economic History, Cambridge, v.48, n.2, p.508, 1988.         [ Links ] Da mesma maneira, Nash recomendou avidamente Rivers of Empire aos seus colegas, sob o argumento de que era "extensivamente documentado" e "bem argumentado", embora não concordasse com algumas das conclusões de Worster. NASH, Gerald. Review of Rivers of Empire. American Historical Review, Bloomington, v.92, n.1. p.214-215, 1987.         [ Links ]
48 NASH, Gerald. Creating the west: historical interpretations, 1890-1990. Albuquerque: University of New Mexico Press, 1991, p.275-276.         [ Links ]
49 "to the NWH, the history of the West was nothing less than a sad record of conquest by Anglo white males who despoiled the land, ravaged the environment and oppressed ethnic and racial minorities and, of course, the poor"; NASH, Gerald. Point of View: 100 years of Western History. Journal of the West, Kettering, v.32, n.1, p.3, 1993.         [ Links ]
50 A escolha de Nash não foi gratuita, já que, após sua morte, tornou-se pública a colaboração de Paul de Man com os nazistas quando da ocupação de sua Bélgica natal. Ainda assim, no contexto dos debates aqui estudados, o termo "Paul de Man" se tornou menos um nome próprio do que uma expressão destinada a desvelar as raízes "totalitárias" do "projeto desconstrucionista", reduzindo um problema teórico (a relação da desconstrução com a história, por exemplo) a um ataque ad hominem , tomando uma parte (Paul de Man) pelo todo ("desconstrução", "pós-estruturalismo", "pós-modernismo", como queiram...). Sobre isto, ver ALBUQUERQUE, Durval Muniz de. O caçador de bruxas, p.54-55.         [ Links ]
51 COHEN, Sande. Passive nihilism, p.128.         [ Links ]
52 Espectros de um macartismo redivivo aparecem no texto de Nash quando ele acusa a NWH de práticas comunistas e de preconceito contra os mais velhos. Novamente, não existe nenhuma prova para as suas afirmações. NASH, Gerald. Point of view, p.3.
53 "Represent not merely another phase of historical revisionism, but are attempting proselytization for what in essence are totalitarian ideologies. In their negativism and their critique of democratic values, the new Western historians are destructive in conveying a realistic and truthful vision of the West, both to academicians and the general public. If historians are the guardians of a nation's past, they need to be alert to those who, under the guise of scholarship, seek to propagate ideologies that seek to undermine democracy"; NASH, Gerald. Point of view, p.4.
54 NASH, Gerald D. The great adventure: western history, 1890-1990. The Western Historical Quarterly, Logan, v.22, n.1, p.4-18, 1991.         [ Links ]
55 "who can fault an author who urges to put faith in the goodness and rationality of humanity, as in a new version of the American Dream?"; NASH, Gerald. Review of "Rivers of Empire", p.215.         [ Links ]
56 NASH, Gerald. The global context of the New Western historian. In: GRESSLEY, Gene M. (org.). Old West/New West. Norman: University of Oklahoma Press, 1994, p.149-162.         [ Links ]
57 NASH, Gerald. The global context of the New Western historian, p.149.         [ Links ]
58 NASH, Gerald. The global context of the New Western historian, p.150.         [ Links ]
59 "In condemning much of the American experience in the past, they also ascribed special virtues to the masses of oppressed people, whether poor, ethnic and racial minorities or anyone outside the mainstream of white-male dominated society"; NASH, Gerald. The global context of the New Western historian, p.152-153.         [ Links ]
60 NASH, Gerald. The global context of the New Western historian, p.153-154.         [ Links ]
61 NASH, Gerald. The global context of the New Western historian, p.157-158.         [ Links ]
62 "neither new nor unusual and reflects striking similarities to other varieties of history, including those of 19th century German nationalists, National Socialists, communists and New Left interpretations"; NASH, Gerald. The global context of the New Western historian, p.162.         [ Links ]
63 Como diz Sande Cohen, a palavra "fascista" é um dos mais duros ataques numa profissão aonde a reputação é tudo. COHEN, Sande. Passive nihilism, p.129.         [ Links ]
64 GRESSLEY, Gene M. Prologue. In: Old West/New West, p.1-25.         [ Links ]
65 "in this orthodoxy, the noble savage and the pioneer woman become the exploited and downtrodden - the victims"; GRESSLEY, Gene M. Prologue, p.9.
66 GRESSLEY, Gene M. Prologue, p.10. 69 GRESSLEY, Gene M. Prologue, p.11.
67 "when you politicize the past, serving up history as propaganda you no longer serve Clio but Lucifer"; GRESSLEY, Gene M. Prologue, p.14.
68 GRESSLEY, Gene M. Prologue, p.20.
69 THOMPSON, Gerald. The New Western history: a critical analysis. In: GRESSLEY, Gene M. (org.). Old West/New West, p.10-11.         [ Links ]
70 SAVAGE Jr., William. The New Western history: the youngest whore on the block. AB Bookman's Weekly, New York, p.2-3, 1990.         [ Links ]
71 ALLEN, Michael. The New Western history stillborn. The Historian, Hoboken, v.57, n.3, p.201-208, 1994.         [ Links ]
72 ALLEN, Michael. The New Western history stillborn, p.207-208.         [ Links ]
73 Ver, por exemplo, CASTAÑEDA, Antonia. Women of color and the rewriting of western history: the discourse, politics and decolonization of history. The Pacific Historical Review, Berkeley, v.61, n.4, p.501-533, 1992;         [ Links ] GUTIERREZ-JONES, Carl. Haunting presences and the New Western history: reading repetition and negotiating trauma. In: ROBINSON, Forrest (org.). The New Western history, p.135-153.         [ Links ]
74 "the foremost philosophical challenge of our age is to escape the state of nihilism, relativism and confusion that modernistic history, and modernistic everything else, have left us in"; WORSTER, Donald. Seeing beyond culture.
75 WHITE, Richard. Discovering nature in North America. The Journal of American History, Bloomington, v.79, n.3, p.874-891.         [ Links ]
76 LIMERICK, Patricia Nelson. Turnerians all: the dreams of a helpful history in an intelligible world. American Historical Review, Bloomington, v.100, n.3, p.697-716, 1995.         [ Links ]
77 ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. O caçador de bruxas, p.63.         [ Links ]

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